agosto 29, 2007

Folclore do homem da língua presa

(A linguagem que a realidade e a verdade não falam)

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Xenoglossia

De tanto esperar que o Lula dissesse alguma coisa além desse discurso pronto de lugares-comuns politicamente corretos, tais como a ladainha de falsa austeridade como este “Se tem uma coisa que aprendi a valorizar, é a democracia”, cheguei à conclusão que se trata de uma destas disfunções da fala da classe das dislalias (a dislexia da fala), que vão muito além da folclórica língua presa.

Uma pergunta que poder-se-ia fazer é se a língua presa pode causar dislexia e, por uma confusão infeliz, levar à condição de método ou estilo os truncamentos, os solecismos e paralogismos. O expediente de que é possível compreender o que se quer dizer apesar da torpeza lógica e sintática do discurso não vale, pois isto é em geral um grande limitante da complexidade e sutieza que está nas possibilidades da língua – além de relativizar (e por isto querer justificar de uma só vez) a consciência moral. Um discurso codificado não é menos que isto, e implica no fechamento de certos sentidos de um código fixo, taxidermizando por efeito a própria experiência ituitiva de novos termos e as amplitudes da experiência literária, sem as quais ler os clássicos não serve de nada.

Justifica-se por isto – então sim – o recalcitrante desprezo de Lula pelos livros (e correligionários), pela leitura e pelo estudo de modo geral, bem como o apoucado esforço dos intelectuais de esquerda pela consciência moral e pelo exame dessa consciência.

Aliás, é curioso – bem a propósito – que a folclórica língua presa tenha sido a responsável por declarações como as que suspeitaram que o mensalão fossem folclore. Na cadeira presidencial, Lula declara, tocando o peito com as duas mãos:

Eu estou convencido, estou convencido. Esse negócio de mensalão me cheira um pouco a folclore dentro do congresso nacional. Pode ter outro tipo de coisa que os deputados podem saber...” [também notícia do dia 08.11.2005].

Horrível dislexia política, a “lulalia” é um tipo de xenoglossia: é a linguagem de um outro mundo aplicada a este e imposta à realidade. Vou mais longe, acho mesmo que isso explica o fenômeno psiquiátrico de quem passa a ver a realidade como esquizofrênica quando ela contraria a própria visão das coisas que lhe chegam de fora.

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Evidências reacionárias

No pronunciamento por ocasião do desastre com o avião da TAM, Lula voltou a incorrer naquele tipo de discurso liso (e aquaplanado) e de tom dramático monótono, em que a “normalidade” se impõe desde o início – geralmente, no início, consternado – e que dá mesmo unidade de ritmo e conteúdo aos pronunciamentos, sem que, por nenhum momento, se encontre aí qualquer coisas que dê a impressão de que se ouve mais que um marionete.

Para o ingênuo incauto do grotão (!), tudo começou com a esperança de que o cara fosse dizer coisas com coisa, logo após as denúncias do mensalão, em uma declaração ocorrida na Granja do Torto, tendo como fundo uma parede de pedras à vista, mas o que se ouviu e viu, de novo, foi a retórica do placebo: Engulam isto e vão ver que vão se sentir melhor.

Estas coisas são evidentes por si mesmas. Basta transcrever os pronuciamentos num papel e revê-los, e notar-se-á que não têm consistência em si, nem conferem com as coisas que acontecem ou aconteceram, às quais se referem (como a opinião do Zuanazzi, sempre desencontrada do governo). Mas alguma dúvida ainda pode haver sob a “Teoria da Conspiração”, tão cara quando as coisas parecem tão evidentes. Se tudo parece provar exatamente o que é, de fato, é porque é de suspeitar, mesmo que se acabe, assim, chegando ao Renan Calheiros e à sua declaração acusadora de que a realidade está esquizofrênica, que é coisa imanente mesmo à realidade: que é da natureza da realidade ser como é.

A verdade absolverá”, é o mantra cantado, mesmo que a realidade insista em manter evidente a si mesma. Isso é o que dá para chamar, segundo a lógica da dislexia política de esquerda, “natureza reacionária”.

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Sem grooving na língua

O cara que fala o que bem entende se diz que não tem papas na língua; língua bífida tem viés maledicente. A língua presa já é caso para fonoaudiólogo, pois pode dar em simples problema com alguns fonemas, porém nos casos mais graves a língua pode nem chegar a tocar os dentes. O que, é bem verdade, é até desejável para casos de língua bífida conjugada ao problema – que evitaria morder a língua.

Todos estes problemas tem uma coisa em comum, ao quererem dizer uma coisa, acabam dizendo outra. Acabam sempre escorregando nos sentidos e às vezes nas intenções mesmo.

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Escorregando na pista

Lamentável que se ignore a ladainha depois do pronunciamento feito na Granja do Torto sobre o mensalão, onde Lula se disse traído, e que o discurso permaneça nesse tom e sob os mesmos termos no caso recente da TAM – aqui, no You Tube.

Disse ele na ocasião:

(...) Nada poderá fazer que voltem aqueles que amamos e perdemos. Mas quero que todos saibam que o governo está fazendo e fará o possível e o impossível para apurar as causas do acidente. A Aeronáutica já iniciou as investigações; por determinação minha, a Polícia Federal também está trabalhando no caso. Todas as hipóteses serão examinadas. Não se pode condenar ou absolver quem quer que seja com base em opiniões apressadas”.

E por acaso o mensalão e o Maluf não provam essa infinita paciência?

Não se deve abandonar nenhuma linha de investigação por antecipação”.

Ora, veja-se o caso Celso Daniel, onde as provas se juntaram convergindo na direção de assassinato por queima de arquivo, mas foi abandonada rapidamente e negada até hoje. O PT – o partido, as pessoas – jamais se posicionaram com manifesta intenção de esclarecer este caso. Pelo contrário, adotam uma defesa pura e simples do partido.

Estou seguro, de que em breve [o Brasil] terá as informações que precisa e merece”.

Para quem disse que não sabia de nada sobre o que se passava na sala ao lado da sua, no caso do mensalão, e em escalões contíguos ao seu, que negligenciou o caso Celso Daniel e que, a propósito, disse que não sabia de nada também sobre o estado do sistema de aviação civil, dizer que “está seguro” é não dizer nada. E ainda diz que não entende as vaias.

O caso recente do documento utilizado pela ANAC para convencer uma juíza federal a liberar a pista de Congonhas, reforça a idéia de instituições de fachada, que não têm independência, mas devem parecer que têm. Se ele está seguro, ninguém pode dizer que está.

Como presidente, quero assegurar às famílias...”.

De novo, mas quem não sabe de nada não pode assegurar nada. Diz que “além da apuração rigorosa dos fatos, estamos tomando todas as medidas ao nosso alcance... para reduzir riscos. Este “estamos tomando todas as medidas ao nosso alcance para...” bem como quando se disse que se iria fazer o possível e o impossível para um crescimento de 3,2% e o crescimento foi de 2,8%, são empulhação (o de sempre): “Estamos tomando todas as medidas..., disse ele na ocasião, “...para que o Brasil tenha um crescimento mais vigoroso, um crescimento que possa atender mais rapidamente à necessidade da geração dos empregos e das riquezas que nós precisamos”.

Como alguém disse outrora, é um “governo de reboque aos fatos” – quem sabe, aquaplanando na pista? Aí se põe a falar sobre as coisas que aconteciam como se fossem coisas que não podiam estar acontecendo. Diz que o fortalecimento da ANAC vai fazer com que esta “atue mais efetivamente pelos [interesses dos] usuários do sistema nacional de aviação”. Mas semanas depois, quando o Jobim falou em aumentar o espaço entre as poltronas, o Zuanazzi disse que estava tudo muito bom.

Quer dizer, o discurso do presidente é só palavreado lubrificante – como se isto pudesse ser menos evidente –, que ninguém se comunicou para dar andamento efetivo a estas coisas.

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Consciência ou possessão?

Outra coisa; que declarar “A minha consciência...” ou, então, “Estou consciente...” possa já dar prova de que ela existe é uma precipitação, porque ao se declarar isto não se tem, por efeito desta declaração, a reflexão mesma que intui a consciência. Não há um processo reflexivo aí, mas apenas a elocução. Igualmente, a frase “Por determinação minha...” já subentende que o eu determina o desencadeamento de um estado de coisas que, no entanto, sem consciência é coisa lá igual à resposta operante behaviorista.

Quando Lula declara que o mensalão lhe parece “folclore” do congresso, declara coisa semelhante ao que o Renan K. disse a respeito das denúncias no caso das vacas. Não é à toa que são tão próximos, o que parece que depõe contra o Lula. “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”.

A aliança Renan-Lula começou no mensalão, e é mesmo um caso de íntima e profunda afinidade. No semblante de ambos, uma tranqüilidade de quem parece que está sempre a ouvir música de elevador. É quase uma possessão demoníaca, a normalidade; e já nem dá para duvidar que todo processo cognitivo neles funcione do mesmo modo, o mesmo dos médiuns, que tem do além-mundo o privilégio da boa-nova que os absolve, desde sempre, de todos os pecados.

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Um conselho indecente

Mas nem sempre a língua é tão presa, é o que se vê no vídeo abaixo. Em comício acontece mais seguido, mas nestes casos o raciocínio fica mais patente que a intenção. E é justamente a intenção que fica evidenciada nesta entrevista com o apresentador Bóris Casoy.

A frase central monstra que quando o Lula é o Lula de verdade e não a imagem forjada de um estadista marionete, ele é capaz de falar com clareza e sem lugares-comuns. É um primor de objetividade, e está na Rede.

É o que dá para chamar de um “laçasso” da língua presa, de uma repentina e constrangedora clareza:


Logo depois ele volta ao normal, volta ao discurso codificado, com esta disfunção endêmica de todas as esquerdas.

Transcrição:

- Uma outra dúvida que toda ora aparece especialmente o noticiário internacional. Fala-se – e eu não acredito nisso – mas eu quero colocar isso naaaaaaaaa... entrevista... duma aliança, dum eixo [Lula parece pouco inclinado, ao que parece, a acreditar no que ouve] Chaves, Fidel e Lula [Lula meneia a cabeça, constrangido e]...

- Ô Bóris, tu sabe que isso é no mínimo uma piada de mal gosto...

- Claro [muito tímido]...

- E eu te aconselho até a não repetir isso... no vídeo...

[Boris solta uma gargalhada histérica de incredulidade e constrangimento]

...Houve um tempo que houve uma aliança do mal aqui, que era Collor, Fugimori e Salinas,quatro que foram quase que presos como ladrões... Veja, eu sou um homem, e o partido tem uma história muito democrática. O partido tem relações com todos os países do mundo. Nós vamos poder provar depois que ganharmos as eleições, que o Brasil vai manter uma relação muito eficaz, desde os Estados unidos, desde a Argentina, desde a Europa, com todo os países... [fim].

Muito diferente de coisas tais como “fazer o possível e o impossível”, a advertência de Lula é um primor de objetividade.

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O outro vídeo, aqui em cima, tem as duas primeiras declarações que já não me deixam duvidar de que falta ao Lula qualquer cacoete ou nesga mesmo de consciência (que não aquela da hora oportuna). Ele recria mitomaniacamente aquele mesmo estado que afetou o Renan K. quando declarou que a realidade estava esquizofrênica.

É difícil achar explicação para estas coisas, qualquer uma que não a de recalcitrante paralogismo cacofônico, puro e simplesmente, feito mesmo método e aparato cognitivo de um viés quase messiânico, quase uma possessão, que tem no seu principal fenômeno a promessa em outro mundo e mediunidade mesmo para ser veículo de uma voz do além que é como se falasse por si mesma, anunciando a boa-nova da vinda de um médium que a anunciará...


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