novembro 30, 2007

Retórica da confusão estratégica

Retórica pragmática e unidade nacional

Por que raios o presidente Lula pode dizer o que bem entende e jamais se o cobra pelo que diz? Julga-se-o inepto ou nós próprio é que somos? Uma nação aparvalhada pela própria confusão. Não entendemos nada, e quando o presidente vem e diz qualquer bobagem com cara de coisa óbvia ou como se lhe dissessem de um viés impertinente, a segurança oca e as palavras vadias vem nos doutrinar pela confusão.

Essa eloquência sem entendimento chegou a um dos seus pontos mais altos quando Lula defendeu o cacique Chávez, da Venezuela, contra a intolerância do Rei Juan Carlos, de Espanha, que o mandou calar a boca quando o índio velho chamava o ex-primeiro ministro Aznar gratuitamente de fascista. Depois teve a desfaçatez de, com muita coragem pela desfaçatez, dizer que não ouviu o rei mandar-lhe calar a boca, que se tivesse ouvido não sabe o que teria feito; talvez uma flechada, que o homem é meio índio, meio negro, meio branco e... meio todo bobo. Bem, o certo é que ser tantas coisas no quase deve ser mesmo uma virtude num mundo fragmentário em que a parte vale mais que o todo, ainda que não consiga ver aí nenhum elogia a cada uma destas etnias.

Arnaldo Jabor descreveu as palavras de Lula com a perversidade da idiotia, que expõe o imbecil ao mesmo tempo que desconcerta sabê-lo assim: apesar de todas as denegações, disse Jabor, a defesa de Lula a Chávez prepara o terceiro mandato. Que o negue, porém, sabemos que nada mais é que o avesso da afirmação de um desejo.

Lula nega para afirmar um desejo; porém, voltar atrás e admití-lo, caso se dê conseqüência ás suas palavras, seria negar a própria democracia que ele se enobrece todo quando a defende como algo que aprendeu a respeitar. Esta é a mesma democracia que deu a Chávez o governo venezuelano, a mesma enxurrada de votos, é a democracia que Lula aprendeu a admirar, e que, por essa admiração disse que o terceiro mandato já não tinha razão de ser. Mas agora, se voltar atrás, terá dado mais uma prova da personalidade severina[1], bem como ele próprio já o havia declarado do próprio irmão, quando o notou um ingênuo incapaz de crime. A torpeza não costuma ser aceita como atenuante, exceto, talvez, o seja para o próprio Lula, que já deu provas dela. Ou, pelo menos, ele confia nisso, do mesmo modo que se lhe permitem asneiras perigosas como esta falsa confusão entre parlamentarismo e chavismo.

*

Reflexões dialéticas de um ex-comunista (!)

Ninguém deixa a irmandade, como aquele ex-agente da KGB envenenado com material radioativo, Jabor e a imprensa de modo geral parecem intoxicados de materialismo dialético. E vão morrer disso.

As análises psicológicas de Jabor não funcionam para se preparar para as conseqüências do que ocorre; evita ele saber o que é que motiva à ação futura, de modo que só agora pareça, posteriormente, o que já estava óbvio, se falarmos na análise psicológica do perfil de Lula, que o filósofo Olavo de Carvalho já havia terminado em dois artigos, “A salvação pelo caos” eOficialmente”.

As análises de Jabor são caducas, são profecias retrospectivas degeneradas [2]. Um profeta assim não acredita em nada até que lhe aconteça algo, então ele testemunha-o e o anuncia, como se lhe tivesse sido dado alguma mediunidade (o que ele fez estes dias, literalmente, lembrando de parentes libaneses seus que teriam sido adivinhos). Mas são só crônicas de uma morte anunciada. Nesse sentido o próprio Jabor é ele mesmo um meio anestésico catártico (de sua aparição recente no Jornal da Globo), que esboça a participação mística numa consciência do imediato, pois a consciência só é possível sobre a realidade instantânea. Passado e futuro são coisas ocultas, muito abstratas, são borboletas incríveis como a TV a cores; o mundo é, como todos os ex-revolucionários (!) sabem, a metamorfose de uma larva em uma larva. “Ex-revolucionário” deve dar, no sentido hegeliano-marxista, a antítese de um revolucionário que se torna, mutatis mutandi, no cadáver fresco de um não revolucionário em pleno frenesi neo-comunista (um Celso Daniel).

A consciência dialética vê o negativo da negativa de terceiro mandato como a afirmação de um desejo, porém perde a identidade perene de Lula por trás da tagarelice: a grande térmita socialista.

Jabor diz que “Lula sabe usar muito bem nossa ignorância política, fingindo até participar dela...”, e em seguida o chama de “Maquiavel do ABC”. A expressão é exata, porque se de Maquiavel pode-se cobrar, por suposições, ter sido ele honesto ou não quando exorta ao ardil, isto já não pode ser pedido para o Lula. Se Maquiavel é um fingidor das reais intenções por trás das palavras, Lula é o marionete de uma consciência que sempre parece que não está nele, mas no fim dos cordões que o movem de trás. O que parece, portanto, ser uma confusão nas declarações do presidente Lula, são os cacoetes de um boneco cara de pau que repete os movimentos que seduzem um público mais preocupado em descrever as suas próprias reações frente à pantomima do boneco do que saber qual a origem de seus movimentos.

Mas nada como ser atacado por um ex-companheiro, que, sabiamente, usa a arma do inimigo para ferir-lhe [3], faz isso Jabor quando chama Chávez – acertadamente, só por acaso – de fascista.

Lula não tem como se atualizar, Lula é Lula. Lula não tem psicologia, ele é uma psicologia. As teses do ratomorfismo behaviorista [4] abrangem a psicologia lulo-severina e do cidadão ípsilon-laico pelos quais se pretende a engenharia social da “paz”, da “justiça social”, da “igualdade”, etc., novomundista.

Lula não tem condições de enganar ninguém, o que Olavo de Carvalho provou, mas que a imprensa, ainda que o note todo o tempo, não é capaz de concluir com o Olavo. Quando o Jabor diz que o Lula usa a nossa ignorância política para comparar a ditadura chavista com o parlamentarismo, é como se Lula preferisse dizer algo confuso e se valer do seu benefício. Mas Lula não é esse articulador político, como se tem que concluir pelo seu perfil pesicológico, que antes mesmo que qualquer fato já indicava o que poderia sair dele. Quem fala por Lula, então?

*

É que o rei não é um de nós...

O lingüista licencioso (em “Quase ético”), entende que Lula fala uma língua preferível de uma “estratégia comunicativa” quando aquela conjuntura difícil de explicar, de que fala Jabor, é esclarecida pelo entendimento compulsório.

Com aquela cara de quem mente com autoridade única de poder fazê-lo, esse molusco tagarela meneia a cabeça para trás, balança ela para os lados – impaciente com a impertinência das crianças – com um meio sorriso babujoso, e diz, “Nós, entre nós, se entende...”. O que quer dizer “nós”? Devia estar falando do Chávez, das FARC, do padre pedófilo, do Renan, das “estratégias retóricas”, do Palothi, que tá lá e, como lembrou bem a Lúcia Hipólito, é um criminoso, mas tá lá, como “um de nós” – ei-lo:

Eu não acho que houve exagero [do Chávez ao criticar o governo de Aznar, chamando-o de fascista], mas essas coisas acontecem. Obviamente que... a diferença, qual é? É que o rei estava na reunião. Quem falou cala-te foi um rei. Ou seja, não foi um de nós. Por que entre nós, nós divergimos muito... [mas] fazemos uma reunião como em qualquer país civilizado.”

Podem criticar o Chávez por qualquer outra coisa, gente; inventa outra coisa para criticar o Chávez; agora, por falta de democracia na Venezuela, NÃO. Ou seja, esse homem... eu estou a cinco anos no poder, vou chegar a oito anos, eu participei de duas eleições, duas para presidente e duas para prefeito [sic.]. Que eu sei, na Venezuela, já teve três referendo, já teve três eleições não sei pra onde [sic.], já teve quatro plebiscitos... Ou seja, o que não falta é discussão.”

As pessoas se queixam, 'Ah, O Chávez quer um terceiro mandato!', ora, por que é que ninguém se queixou quando Margaret Thatcher ficou tantos anos no poder?... [Ah, mas é distinto] Ah, distinto por quê? É continuidade... Não tem nada de distinta. Muda apenas o sistema, muda apenas o regime, de regime presidencialista para regime parlamentarista, mas o que importa não é o regime, é o exercício do poder. Ninguém se queixa do Felipe Gonzales, que ficou tantos anos; Ninguém se queixa do Miterran, que ficou tantos anos; ninguém se queixa do Helmut Kohl, que ficou quase dezesseis anos. O que nós precisamos é apenas respeitar...”[5].

Três parágrafos para três parágrafos (respectivamente):

1. Por que haveria exagero em um governante chamar o antecessor líder de uma nação de fascista, se a esquerda usa o termo como um xingamento para aqueles que não concordar incondicionalmente com suas idéias? No entanto, para não dizer que o Lula está sempre sem razão, o esclarecimento sobre o desentendido é exato: “É que tinha o rei!” Não fosse o rei, estava tudo bem: “É que o rei não é um de nós”. Nós discutimos como em qualquer lugar civilizado: discordamos muito, diz o Lula. E se entendem? Não dá para entender exatamente o que o Lula quis dizer aí, mas pelo menos se sabe, que é coisa evidente, que o Rei não é um deles. O que já não tem a mesma evidência, de nenhum modo, é que se entendem...

Revista Língua Portuguesa, Ano 2, Nº 25/2007; p. 7.

2. Plebiscitos, referendos e quiproquós foram usados já por populistas que tornaram-se ditadores, pois uma vez no poder, rearranjam as regras do jogo calando adversários de um modo ou de outro. Para Lula, no entanto, a democracia é tudo que se possa fazer desde que o povo assim lhe permita. Mas aí acontece o fato curioso que, ao legitimar um presidente que cerceia adversário, alicia o congresso, fecha canais que não lhe são simpáticos, mantém uma TV estatal, quando este legítimo representante do povo se confronta com um líder de governo, num regime de monarquia parlamentarista, e tem que ouvir o que não ouve em casa, que deve se calar enquanto outro fala, gera-se o desconforto, que não atinge nem tanto a Chávez quanto ao povo venezuelano, feito de índios ou brancos, pouco importa, que ele deve se calar e ouvir, antes de falar.

O que o presidencialismo socialista do século XXI venezuelano permite internamente não é a norma dos regimes democráticos fora da Venezuela. Se o revolucionário travestido de “povo” quer, ainda assim, reclamar a sua dignidade indígena pelo fato de não saber destas coisas, será admitido internamente, para que o povo o viva como bem lhe aprouverem.

3. Demos conseqüência às palavras do nosso homem silvícola. Para ele, os regimes políticos pouco importam; são, no fim, o mesmo, pois permitem, para um governante, um tempo mais ou menos longo no poder. O parlamentarismo assume-o com o maior descaramento, enquanto o presidencialismo não o assume, mas o permite – vejam só, que hipocrisia! O Chávez, por exemplo, vai ficar para um terceiro mandato, o Evo bobóca também. Ora. E os regimes são o presidencialismo! Quer dizer, ambos permitem que se fique mais ou menos tempo exercendo o poder. No primeiro, fica-se o quanto os outros permitam; no segundo, o quanto o povo permita sem discordar.

*

Bravata piegas

Depois de se expor ao ridículo, Chávez, como não possa evitar, sem ter que recolher-se a uma caverna, saiu-se com esta de dizer que não ouviu o Rei mandá-lo calar a boca: “O certo é que não ouvi”, disse ele. Juan Carlos “teve sorte” em ter sido privado da fúria eloqüente de Chávez, segundo o próprio Chávez. Que pena, não será dessa vez que veremos o índio velho mostrando do que é capaz, já que mais uma vez ele mostrou ser completamente incapaz.

A bravura de Chávez viu-se na própria cara, após o Rei ter-lhe mandado calar a boca: congelou de tão embasbacado que ficou.

Patético, pois ele olhava diretamente nos olhos do Rei quando este mandou-lhe calar a boca.

Daí, invocando a doutrinação de esquerda, emendou a dizer que “quando Juan Carlos de Borbón explora as expressões de um índio, está explorando 500 anos de prepotência imperial”[6]. Expressões de um índio que fala com a voz de uma possessão demoníaca chamada Socialismo Latino-Americano. Que índio é esse? Só pode estar usando a palavra no sentido pejorativo, querendo dizer ingênuo e amoral, cuja identidade se desfacela tão logo entra em contato com o um povo estrangeiro.

Sem saber do que precisa para entrar numa discussão civilizada reclama o que nunca aprendeu mas preferiu encontrar a dignidade de seu povo na miséria espiritual, e por esta miséria, justamente, ao apontá-la, diz-se escravizado pelo colonizador, quando a única forma de salvar-se é imitar o civilizador em tudo, exceto na barbárie; no entanto, vale a barbárie também para o índio.

Mostrando bem a índole do índio, de seus fundamentos “ingenuidade” e “pureza”, tem-se o discernimento de que o que distingue o povo civilizado colonozador deles próprio é a marca mesma do civilizador e o que deve ser combatido, enquanto, que é o que sobra por fim, deve ser buscada a barbárie civilizatória como modelo de sociedade justa. Vai entender.

Mas o pior anda de mãos dadas com Chávez. Como não pudesse se conter, chega ao ápice da bobice, quando destaca de suas qualidades a impetuosidade adolescente e auto-evoca a sua destreza aborígene para acautelar o Rei de tentativas iguais. No jornal Zero Hora deste Sábado, dia 17/11, Chávez dispara uma flecha flácida: “O rei teve sorte, porque, se eu tivesse ouvido o que ele falou, teria lançado uma flecha, porque sou um índio, um pouco negro e branco”.

Chávez acusa o Rei de saber do golpe contra ele em 2002, e ninguém o lembra que ele próprio tentara dois golpes de estado antes de se tornar presidente da Venezuela, 1984 e 1992. É o que o filósofo Olavo de Carvalho chama de “inversão revolucionária”, apontar os próprios hábitos ilícitos no oponente para causar desconcerto cognitivo (já que para isos não tem resposta), e perturbar até a paralisia.

O militante marxista não é denunciado nos jornais brasileiros por impostura intelectual, o que pode, por baixo, explicar-se pelo bloqueio estupidificante que a imprensa manifesta, quando se trata de apontar as intenções políticas (!) por trás das palavras, que para a imprensa, podem sempre ser “interpretados”, mesmo quando os atos vão em desacordo com as palavras, mostrando justamente o que dever-se-ia desconfiar pelo encadeamento dos fatos e pela irresistível coerência que estes mostram ao longo do tempo.

Novamente, fica difícil tentar entender porque devemos a todo momento explicar a nós próprio o que o presidente Lula estava querendo dizer quando o que ele diz claramente nos parece confuso ou inadequado, ou mesmo inadmissível. É que não há nada para ser interpretado, Lula é claro quando apóia Chávez e a aliança que pretende fazer da América Latina um grande domínio Socialista [7].

Num artigo de 14/01/07, Paulo Moreira Leite, no blog do Estado de São Paulo, escreve que a ótima biografia Chávez sem Uniforme mostra que ele nunca deixou de conspirar. Quando considerou que sua hora havia chegado, tentou um golpe de Estado. Depois, a via eleitoral.

Por que se admite que ele não seja um ditador é simples explicar, antes que qualquer doutrinação estupidificante, concluir que Chávez é um tiranete levaria perigosamente a concluir que o governo PT e Lula são também, por nenhuma diferença maior, um sistema tirano dissimulado por um passo mais lento de mudança política e cultural.

Mas por aqui o que vale é a aparência imediata de civilidade, exceto, é claro, quando a civilidade aparece ela mesma, elegantemente, que se reconhece, por hábito de nunca reconhecer a verdade, que o que se vê é, por óbvio e porque não pode não ser, só a aparência da civilidade.

Um termo bem caído é tudo, é quase um argumento, é já mesmo uma verdadeira etiqueta socialista, esse polimento peculiar que Chávez mostrou ao se ofender com o Rei mal-educado. Dá até vontade de repetir as palavras do personagem de Nicolas Cage no filme o Senhor das armas, quando ele, no ponto alto do filme, diz: “Não atiro em ninguém; não peço que matem. Quero que atirem, mas sinceramente, prefiro que errem. Desde que continuem atirando”. Deve ter sido os sapatos que intimidaram o federal.


*

Nós, entre nós, nos entendemos

Não há confusão nas palavras de Lula, ele sabe exatamente o que está falando, sabe porque fala, sabe dos acordos, das simpatias, dos ideais, sabe o suficiente para ser cobrado pelo que diz e pelo que faz. Não é inimputável como a imprensa brasileira pensa que é.

Quando Lula diz que “Entre nós, nós nos entendemos”, deve estar se referindo, por fim e ao cabo, às reuniões do Foro de São Paulo. Levando em conta que Chávez não entende Lula, tem-se que concluir que entendimento significa as atas do Foro.


Ω


Los revolucionarios entramos al sistema, para cambiar el sistema, y no para que el sistema nos cambie a nosotros”.

Schafik Handal [8] (autor da frase), cuja história de guerrilha e trégua, isto é, revolução cultural (fase atual do socialismo), se assemelha com a própria história da esquerda latino-americana, ao lado de Chávez, Castro e Morales, adictos do Foro de São Paulo.

*

A discussão que se estabeleceu desde a confusão que Lula fez entre regimes políticos e o tempo que eles permitem no poder, não tem nenhuma razão de ser, se não fosse esse aleijão nacional que é ouvir e ver e não poder acreditar no que se ouve e vê.

Não é nenhuma confusão, nem um modo de fazer-se entender, como quer fazer parecer o lingüística que viu no papo do PT objeto de estudo antropológico e por algum pudor naturalista, não é capaz de dizer que a recursividade da confusão não é uma traço cultural, mas um sintoma de psicose sociopática. Nem, tampouco, a confusão nas declarações recentes sobre o cala-te boca do Rei a Chávez o são, ou o que este faz para manter-se no poder. A coerência toda aparece no laço existente entre Chávez tomar o poder pelas eleições, e daí, desde então, passar a mudar o próprio sistema eleitoral, legal e político, e a própria estratégia por ações adotada no Foro de São Paulo de modo a assumir os meios necessários para a manutenção do poder, por alianças convenientes e eventuais, pelo uso da propaganda adequada, e segundo o que se denomina uma especialidade no “uso” do processo eletivo, porém, com o escrúpulo de sugerir que os governos de esquerda, uma vez no poder, sejam eficientes, para manter o eleitorado (Fonte: FMLN).

A quase lógica ababelada é a própria estratégia de que se vale a esquerda para dizer as coisas como se fosse um entendimento peculiar, subjetivo, porque visto desde um ponto de vista particular, como o demonstra o próprio entendimento de Chávez sobre o que ele pode e não pode dizer num debate público.

Assim, o que parecia que era uma confusão de Lula, de que todos riem-se (ainda que, meio amarelados) ou, se tanto, sentem-se indignados, por fim se mostra não uma confusão quase lógica, mas um discurso perfeitamente coerente saído da boca coletiva do Foro que as esquerdas sul-americanas e caribenha organizam para determinar suas ações como marcha unificada sobre o continente. Nada mais claro, porém, quem aprendeu a duvidar dos próprios olhos e ouvidos já não pode senão imitar a cara de desconcerto que Chávez fez quando o Rei mandou-lhe calar.

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Não é confusão, é possessão

A confusão quaselógica de Lula é essa voz comum que o Lula ouve, como se fosse o do seu doppelgänger, o daimon balbuciante que, como um Sócrates sociopata, ameaça começar uma nova civilização e ser daquele grego o Ersatz horroroso. O daimon ou sobrenatural que possui Lula e que fala pela boca do presidente – é o fenômeno da xenoglossia – é a voz que fala pela boca de toda a esquerda latino-americana organizada sob termos escatológicos, e que por esta língua [4] pretende ter vislumbrado uma realidade nova em centúrias de nonsense político e ideológico para ver-se realizada num futuro próximo, iluminados pela luz espectral de um crepúsculo que traz a promessa de um mundo futuro de onde falam os seus profetas [10].



Notas

1. Referência ao Severino Cavalcanti de infeliz memória.

2. Não havia considerado ainda a expressão como coisa além da alusão ao ensaio On the method of Zadig de Thomas H. Huxley, na origem desse blog (“Mundos hiperbóreos – A alma do negócio”). A referência me levou a tentar uma definição de profecias retrospectivas como aquela relíquia que traz hoje (“no futuro”) à evidência a natureza de um mundo passado (“hoje”) com a qual fundamos o saber que nos dá algum conhecimento, como um osso descarnado, para montar os pedaços e tentar prever, pela natureza do nosso amanhã, o passado em que vivemos. Essa definição, me parece, poderia estender-se ao absurdo, mas que fique assim.

3. Ver o título O nem tão distante reino de mais-aquém do post O Rei vive, Viva o Rei!

4. Ver “Ciência traz avanço ético para ratos”.

5. Os parágrafos dizem respeito à edição da Rede Globo, dividindo as declarações do Presidnete Lula seguindo o assunto que ele tratava. Do programa Jornal da Globo do dia 14/11/2007.

6. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u344951.shtml

7. “Salvando o comunismo”.

8. Wikipedia Portugal: “Schafik Handal”.

9. Referências em “Invasão bárbara”.

10. Para ler sobre a Escatologia Socialista, ver Olavo de Carvalho: 1, 2, 3, 4.



novembro 18, 2007

O Rei vive, Viva o Rei!

Era uma vez, numa terra distante, um Rei. Mas isto é hoje coisa incrível, pois ter-se-ia ainda que poder imaginar as Antípodas dos medievais, longínquas terras, distantes além-mar, das quais diríam os próprios espanhóis: Una vez, en una tierra muy lejana, había un Ogro... Bem, O Rei está, sim, numa terra distante, não seria por menos que não vislumbre nada menor, o que se prova pelo lema do brasão espanhol: Plus Ultra (“Mais além”). Mas se o Rei anuncia, desde o coração do seu reino, um mais além, o Ogro, como se não pudesse se calar nunca, e querendo ser mais ágil que a agilidade, rebate prontamente: Adonde?! [1]

Já duvidando, ao não ver nada além, sente-se cheio de razão tê-lo demonstrado a todos, que, constrangidos, sorriem acabrunhados. Tendo sido apontado com o espírito, o homem que se considera um ótimo observador, diz que nada vê e que, portanto, miram o vácuo.

O Rei, sem precisar conter-se ao plano político, onde todos são iguais – os bons e os ineptos, para fins diplomáticos –, do estupor geral disse-lhe com autoridade: “?Mas porque no te calla?”. Como se lhe faltasse todo entendimento de onde vinham as palavras, que não podia ver, imaginou ter vindo de um homem qualquer, senão concluiu por isto, ser o “Rei” aludido pelos que lhe contaram o que se havia passado, o ser fabuloso que narram-nos as lendas de cavalaria.

Le roi est vif; vive le roi!

*

Tiranos das Antípodas[2]

Já de volta ao reino muito, muito, muito pouco distante, o Ogro garatuja a situação e sai-se, ultrajado, com esta:

Esse incômodo do rei, essa fúria de sua majestade surpreende a estas alturas. Surpreende em um homem tão maduro quanto ele, e um homem que se supõe sábio, não enviado de Deus, como antes se dizia”.

Como se não bastasse, quis ver o rei como um personagem de fábula, que brinca com futilidades de uma terra muito, muito, muito distante que, sem a qual o olho veja, poder-se-ia saber que não existe...

Ontem... eu via as imagens do rei alterado. Bom, os reis também se alteram, então. Conclusão: são seres humanos, de carne e osso. Porque antes se dizia aos índios daqui que o rei era enviado de Deus”.

Nenhuma referência ao burro do Shrek, mas se sabe logo por que alguns não se calam nunca, como aquele outro destituído de transcendência, que tomou uma ilha para provar todos os dias, com os próprios olhos, que não havia nada distante que não fosse dar antes no mar. Mesmo se se invertesse a história, a Ilha não poderia conhecer outros povos, simplesmente porque seu comandante não poderia ter nunca acreditado em sair para ver qualquer coisa que não fosse dar na praia e no mar, onde, pouco ali, dá-o por óbvio, escorrega o mundo pela sua borda.

Não adianta nem tentar explicar, que o falastrão não para nem para ver o que as palavras que ele mesmo pronuncia já não contenham da certeza irrefletida que dele emana, quanto mais vindas de outro. O Rei, por outro lado, provou que ele está só abaixo de Deus, não abaixo da meiofauna palustre sul-americana. Por isso mandou o idiota calar a boca, mas o idiota, como era previsível, não entendeu nada. Ele escutou apenas a voz embravecida e indignada do Rei, e ficou magoado. E, magoado, dá para ouvir ele pensando no escuro: “Eu também quero ser Rei”. Se da potestade o rei é a hipóstase terrena, o tirano megalomaníaco para o mesmo infinito se direciona, quer estabelecer, ele também, numa caricatura grotesca, pela via mais bizarra, o poder terreno que, por não poder encontrar nada acima dele, se dirige para a inflação do totalitarismo.

Mas como convencer a estupidez de que lhe falte quaisquer fundamentos para discernimento? Zapatero defendeu a legitimidade de Aznar dizendo – num ato ainda mais ofensivo que o “cala-te” de Juan Carlos, que Chávez mal percebeu – que não se começa desqualificando o adversário, mas vá explicar isso para o lombrosiano do século XXI. Para mostrar que, novamente, não entendeu nada, já em casa não demorou-se a desqualificar também o Rei, colocando-o em “iguais condições” (!) ao tomá-lo colmo qualquer um outro “de carne e osso”.

O Chávez lembra aquele artistas rupestres das paredes dos banheiros públicos, adictos da grafitagem escatológica que ali encontramos, que entendem que os dejetos os ligam de algum modo a qualquer pessoa decente: “Bom, os reis também se alteram, então. Conclusão: são seres humanos, de carne e osso. Nada mais diferente que um Rei e um Ogro, porém isto só aos olhos do Rei; aos olhos do Ogro, por não poder ver nada além de si mesmo, intui que sejam iguais.

Explicam-se por isto as declarações de Lula, e nela isto que se entende que teria sido uma confusão ridícula, quando compara a monarquia parlamentarista inglesa ao socialismo do século XXI de Hugo Chávez. Ora, pois não tendo nenhuma noção de grandeza ou de fundamento, qualquer coisa saída da boca parece ao presidente Lula um argumento. Mas não há nenhuma confusão aí, Lula não se enganou, defendeu o ponto de vista do daimon político, que é, por fim, na verdade, o seu oráculo de sabedoria infusa.

Sem lastro nenhum, a democracia se torna, naturalmente, em tirania. Os espanhóis mostraram que estes lastros estão fortemente visíveis na figura do Rei, que não está lá pelo sistema eletivo, mas por ascendência superior – eixo mesmo que dá unidade a qualquer sistema político de um povo e, que, se não o tem, não pode sequer existir como nação [3] –, é curioso que esta ascendência superior seja justamente aquilo que defende a democracia contra um tiranete que não conhece, das práticas democráticas, justamente um dos fundamentos do seu exercício, que é a conduta correta na discussão pública.

Se não conhece não pode praticar a democracia, e irá fazer confundir o regime com o modo apenas de chegar, pelas eleições, ao Poder. Mas é justamente isto que se vê no que costuma dizer Lula, que apesar de declarar “Se tem uma coisa que eu aprendi a respeitar, é a democracia”, fá-lo simplesmente pelo fato de que o sistema eletivo em governos democráticos permite que um fantoche oco, como ele e Chávez, possam chegar, sem nunca ter lido um só livro na vida, ao Poder (que é como esses ogros chamam as nossas vidas), e por acreditarem que uma vez no Poder, legitimados pela maioria, possam dar-se poderes adicionais emanados dessa mesma maioria contra a manutenção essencial – porém, para eles, invisível – dos direitos individuais. Acham, por isto, que podem cercear qualquer um pela força da maioria impessoal, que o entanto, já não é a massa de votos que lhes dá, mas o próprio Poder.

Isto ficou evidente com as declarações de Chávez que referiam Lula como um “magnata do petróleo”, que mostra bem a visão do tiranete sobre o papel personalista de quem está no Poder e do que, por este, lhe dá posse da sorte do povo.

Longe de não acreditar na ascendência divina do Rei, ele próprio reclama-a para si.


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Plus ultra

O lema no brasão espanhol constrange um brasileiro. Ariano Suassuna gosta de repetir aquela frase do Machado de Assis, que diz “O povo brasileiro mostra os melhores instintos, mas o Estado formal é caricato e burlesco”. O lema nos lembra a “ordem” burocrática da nossa “Ordem e Progresso” positivista, ou o Estado “caricato e burlesco”, da expressão machadiana; lembra os nossos “melhores instintos” como virtude espelhada de nossa identidade tirada de nossas florestas, de nossas riquezas naturais exploráveis, de nosso clima, de nossas mulheres... E então, o “Progresso” deve-se, por acaso, àquela frase do Lula quando ele diz: “Eu já não estou mais pensando em 2006. Eu agora estou pensando em 2007, 2008, 2009 e 2010. Eu agora tenho que pensar para frente”? [4]

Bem que eu sempre achei a máxima do Buzz Lightyear muito boa para colocar na bandeira brasileira: “Para o infinito... e além”, no lugar desse lema utilitário que está no nosso céu e que troca os nossos melhores instintos para começar por onde queremos chegar.

E teria sido de grande semelhança com esse Más allá dos espanhóis, que talvez tivesse nos inspirado a superar o que nunca conquistamos que celebramos quase como virtudes superiores. Os símbolos amorais do Brasil refletem ainda o orgulho índio que integra a nação pela ingenuidade tupiniquim. A mesma ingenuidade que exaspera o cafuzo Chávez de seus poderes aborígenes contra o império espanhol de 500 anos. Que assim, faz de um acontecimento histórico, um encontro de civilizações do século XV, motivo de um julgamento segundo a ordem jurídica atual, prova que ainda é aquele índio primitivo que não pode nunca permanecer o que é quando encontra outros povos, e aquele índio aborígene torna-se nesse índio velho que veste calção, minera em terras públicas – ou, como o Chávez, extrai petróleo por Pode – e vai à cidade gastar o dinheiro com o que acusa o império estrangeiro de ter feito com ele.

Chávez é esse índio ridículo, que quer o poder do império para se tornar alguma coisa, não como um Grenouille, protagonista do filme Perfume, mas como o protagonista Lourenço, de O cheiro do ralo. Tudo que ele ainda quer, são as miçangas e quem ele possa comprar com elas, como ele próprio foi comprado uma vez.

Então é verdade que há uma relação direta entre homens que abusam de crianças e futuros abusadores. Pelo petróleo, pelo desrespeito às fronteiras, pelos poder da força do golpe que o colocou lá, pela censura que impõe, pela força bélica na qual investe, pelo poder de intimidação atômica, Chávez teria sido o tipo pior de abusador estrangeiro. Quer ser um imperialista índio, quer ser aquele espanhol ultrajante que existe no imaginário do homem miserável latino-americano, que a ingenuidade demoniza com fins políticos.

Pela ingenuidade mantida do povo, pelo mal inerente ao homem, que alguns deles repitam sobre o próprio povo o que atribuem ao estrangeiro histórico e assim tentem contra os valores da civilização estrangeira, contra a democracia, leva a que sejam colonizados, uma vez mais, pelo ressentimento e pela estupidez. Sentem a sua identidade aviltada pelo estrangeiro reconquistada agora com os métodos do próprio colonizador histórico, do qual tem consciência pelo Poder cobiçado do estrangeiro séculos antes, o que eram e queriam ser ainda mais, e, alguns como Chávez, piores, serem os próprios conquistadores, armados agora, então, do ressentimento contra o que lhes mostra, novamente, o que são.

Novamente, tem-se que admitir, o reino de Espanha serviu de espelho à civilização primitiva d'além-mar. Se historicamente a identidade das nações sul-americanas está marcada pela crueza de um choque entre civilizações, que só por acaso, o conquistador odioso é outro, que não nós próprios, sendo isto reconhecido, é-o por entender-se que deve haver soberania dos povos, que é uma noção de civilidade estrangeira. Reclamada, então, historicamente, vê-se oprimida novamente pelos conquistadores, que mais uma vez lhe servem de espelho, quando pela figura do Rei ouve o sr. excelentíssimo índio bobão a admoestação de que deve aprender a falar civilizadamente antes de reclamar dos outros o que tem a aprender com eles.

Mas quem disse que Chávez quer a democracia? O que o tiranete quer é aquele poder despótico que os espanhóis exerceram sobre o “seu” povo, que é o que lhe seduz verdadeiramente.

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O nem tão distante reino de mais-aquém

O mundo de Lula e Chávez é o mundo do mais aquém, o mundo do “idnada fabuloso – El Id, o grande cavaleiro que luta ferozmente contra o vazio interior e é sempre derrotado por usar a arma mesma do adversário que enfrenta, que o vence sempre, reiteradas vezes. Lembra um certo conto de Gerald W. Page, “O herói que voltou”, que narra a história de um quase herói, Dunsan, que venceu um espectro assassino porque fracassou matá-lo. O golpe que não deu, mas sofreu, matou o espectro que os outros, antes deles, haviam tentado e por este morrido.



Notas

1. Com aquela cara de tonto que só os tontos tem quando acreditam estar parecendo sábios.

2. Trechos selecionados das declarações de Chávez do Yahoo Notícias e Folha On-Line.

3. Recentemente, o Supremo decidiu que os partidos tinham primazia sobre os canditatos, por serem “entes reais”, anteriores a própria lei. Anterior à Constituição de um país, há os valores do povo e o respeito pela ordem que dispõe a prórpia lei. A democracia, pro si mesma, é, nesse sentido, oca sem algo perene na alma do povo que a fundamenta.

4. Post “Lulalia, o cacoete da repetição do presente no futuro” do dia 05/12/06.

novembro 11, 2007

Lógica da leitura

Reprodução parcial de Lógica e Dialética, Artigo 2: “Regras para o bom emprego da Lógica”, pp. 59-60. Logos: São Paulo, [1953] 1955 (2ª edição), de Mário Ferreira dos Santos; para confrontar com “Preconceito e Julgamento” em Corcordar ou Não Concordar d'A arte de ler de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, no artigo “Método de precipitar almas”.
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Todas as teorias partem de um princípio aceito como axiomático. Assim, quando se examina um raciocínio, é preciso examinar os termos que o compõem, para neles poder observar os erros que os viciam.
Para um domínio completo do pensamento, vamos propor outro método de efeitos extraordinários quando empregado muitas vezes, pois é um exercício de grande valor para a própria leitura.
Escolha o leitor um trecho da obra de um filósofo. Sem deixar arrastar-se pela pressa, ponha-se a ler calmamente o primeiro período. Disponha depois os juízos, e analise os termos que o compõem. Após, observe a ligação dos juízos e, finalmente, a ligação dos períodos de um trecho. Em cada termo, sua acepção, como o autor o empregou. Não há dúvida que, com o auxílio de um vocabulário filosófico muito poderá o leitor aproveitar, porque nele encontrará as diversas acepções que o têrmo costuma ter nas obras dos filósofos.
Esse exercício continuado intensifica a atenção e a concentração da inteligência e a exercita ao domínio cada vez mais rápido das acepções. Conquistada esta fase, está o leitor apto a ler o que quiser e a não deixar-se mais arrastar pêlos equívocos e anfibologias que geram tantos sofismas e tantos erros.
Um aspecto que deve sempre o leitor procurar, quando fizer esses exercícios, é o lado psicológico. Procurar descobrir por entre as palavras a influência das afeições e das emoções, e nunca esquecer a época, a situação, as influências de ordem histórica que em muito condicionam a obra dos filósofos.
Estamos muito acostumados à leitura apressada dos periódicos, dos livros de ficção. Essa pressa, é um dos maiores males da actualidade. A maioria dos livros são livros feitos de livros. Há umas poucas centenas de obras realmente grandes na literatura mundial. É inútil ler de tudo ou querer ler de tudo, porque não lemos, sobretudo porque lemos depressa. Lembremo-nos que ler é reler. Um livro que não merece ser relido não é valioso. E somente poucas são as grandes obras que lemos, e sempre podemos reler. Esses devem ser os livros escolhidos” [grifo meu].

novembro 01, 2007

Atualidades orwelleanas

Rev. Língua Portuguesa, Ano II, nº 24/2007; p. 33 [quadro].
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Ver o post "O grande ainda maior e incontido que se agiganta" sobre coisa afim.