abril 21, 2009

A cúpula medonha

Um lugar, outro mundo [...] deve agora existir, próspera estância de novos entes nomeados “Homens”, semelhantes a nós... A ele sustentemos os tentames todos, Saibamos que habitantes o possuem, Seus dotes, seu poder, substância, fórmula, Qual é o seu fraco, se melhor contra eles Guerra aberta utilize ou trama oculta.

John MILTON, 1667. O Paraíso Perdido. Canto II

(Belzebu, incitando os revoltosos, no Inferno, contra os homens)

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Entre iguais

O Cúmulo das Américas (exceção feita à Uribe) lembra-me aquela declaração de Lula: "É que o rei não é um de nós", disse Lula: "Nós, entre nós, nos entendemos". Faltou, na foto, o próprio --- se bem que na de cima ele deve estar.

Metade superior da obra Cristo carregando a cruz (1490), de Hieronymus Bosch, e a 5ª Cúpula das Américas (foto do jornal Zero Hora, 20|Abr|2009, p.4). O quadro de Bosch está acima, a 5ª Cúpula está abaixo --- para não confundir.

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Releitura

Dizer que Chávez é um duro "crítico" da América é atribuir destreza com a espada a alguém que brandiu a vida inteira o bordão; mas como já não se assinam artigos de jornal, sabe-se lá quem é que teve a naturalidade de dizê-lo. Chávez é também chamado no artigo de "sarcástico", o que pode explicar ter dado à Obama um livro em Espanhol, logo depois de tê-lo chamado de "pobre ignorante".

A artigo do Zero Hora destaca essa frase: "Só funciona quando é autêntico", sobre a simpatia de Obama, de autoria de Juliano Corbellini, cientista político, da área do marketing. (Redundância?) No Big Brother Brasil, a propósito, sempre dá para ver esse tipo de autenticidade, que após uma grande canalhice, ouve-se um momento de autocondescendência sob a justificativa de espontaneidade e que "veio do coração".

E mais: o artigo chama Evo Morales e Cia. de "ícones" da esquerda latino-americana, talvez melhor seria dizer, carantonhas --- caricaturas bem mais ao estilo de Bosch que ao da foto do Zero Hora. Enquanto Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, diz que "sentia vergonha" pela ausência de Cuba, Chávez declara que "De todas as cúpulas às quais assisti [grifei] nesta década, esta, sem dúvida, é a mais bem-sucedida, a que abriu as portas a uma nova era de relações entre os países". (É um estadista...)

Em seguida, noutra página, o ZH traz que "até o último minuto houve mostras do caos que caracterizou a reunião desde o início". Houve absoluto desrespeito ao protocolo, boicote do documento final, a foto do fecho do encontro foi frustrada e acabou-se por ficar a falar de Cuba.

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Essa "nossa" ideologia

Também não dá para saber o que levou o guapo (o jornalista autor das matérias, p. 5 da ZH) a dizer que "As veias abertas... [da América-Latina] contribuiu para reforçar a confiança na ideologia latino-americana." Se foi Alcy Cheuiche, que é citado abaixo, faltaria ao moço explicar o que é essa tal de "ideologia latino-americana". Obviamente, a dá por óbvia e, desde já, sentimo-nos comovidos a ela antes mesmo de questionar-nos sobre o seu aspecto meio bizarro e sorrateiro.

Essa é uma das características mais notáveis do jornalismo moderno, não importa o quanto seja desconexo e sem sentido o que está ocorrendo, por algum respeito reverencial a essa inexpugnável "ética" esotérica da profissão, a qual só inciados têm acesso, eles permanecem descrevendo os fatos exatamente como eles ocorrem e quando e como podem sair em uma foto no dia seguinte. Além disso, tudo não passa de opinião e interpretação subjetivas.

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Ciência política posicional

Agora, mais estranho é a reportagem do "cientista político" Juliano Corbellini [*], segundo o qual

"O presidente Obama é muito mais um fenômeno de posicionamento do que marketing. Ele sinaliza mudanças profundas sem a necessidade de fazer rupturas. Faz um discurso que é, ao mesmo tempo, de mudança e de valorização da nação americana. No plano exterior, Obama é um não à mesmice da direita e um não à mesmice da esquerda".

Bem; "Mesmice" é um termo técnico? E isso é o comentário de um cientista político? O que quer dizer quando um cientista político especializado na área de marketing diz que Obama não é um fenômeno de maketing, mas de "posicionamento"? O que é posicionamento? Resposta: comunicação não-verbal --- pelo menos é o que diz Corbellini. E esse negócio de nem esquerda, nem direita é já uma mesmice das maiores em si mesmo --- a propósito, repetida à exaustão pela mesma esquerda ultrarradical de Obama.

O que Obama pretende é "distender" o sentimento antiamericano, quer atrair a simpatia e a colaboração dos... dos quem mesmo? Diz Corbellini, "Quando se esvazia o sectarismo, isso desarma o inimigo". Inimigo? Que inimigo? China e Rússia estão longe desse assunto, até para evitar comparações com Guantánamo, a pior prisão do Ocidente moderno; e o Irã quer ser desarmado com palavras, quer que lhe calem a boca colocando entre seus dentes uma ogiva nuclear.

Um discurso que prega "mudanças profundas" sem ruptura, ao mesmo tempo a "valorização da nação" deve querer dizer outra coisa, a tal da "síntese": a nova nação americana, aquela que a América deverá ser segundo ele e o Partido Comunista Americano.

Um cientista político, cuja área de trabalho principal é o marketing (!), só poderia achar Obama "O cara", bem como, por sua vez, Obama achar Lula "O cara" (Similia similibus). Obama é o supremo títere do marketing depois dos grandes "líderes" populares do século XX.

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*Juliano Corbelini, nascido em 1968, é filho de militantes da Ação Popular e do PT, nascido em Porto Alegre, esteve engajado na militância estudantil desde 1985, no movimento secundarista. Ingressa no curso de Ciências Sociais da UFRGS em 1986, e torna-se secretário geral da União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Sul e secretário de imprensa da UNE e depois, em 1988, presidente dessa organização. É mestre em Ciências Políticas pela UFRGS, professor e consultor de "marketing eleitoral". (Fonte: Memória do Movimento Estudantil)

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