novembro 25, 2012

Alien: a Ira de Deus e o Diabo

  --- Uma sinopse de Prometheus (2012), a origem de Alien ---
As trevas ocultam-se no centro da luz, e aquele que quiser com arrogância ir além de Deus... fica mergulhado nas trevas” --- Jacob Böehme, Theosophische Wercke (1682).
Where the mild gods are absent, the Other Gods are not unrepresented” --- Lovecraft, A procura de Kadath (1927).
Wer mit Ungeheuern kämpft, mag zusehn, dass er nicht dabei zum Ungeheuer wird. Und wenn du lange in einen Abgrund blickst, blickt der Abgrund auch in dich hinein.” --- W. F. Nietzsche, Para além do bem e do mal (1886: IV, §146).
Um nem tão sutil ceticismo no início do filme pode ser uma pista do que está por trás das associações que se desencadeiam na imaginação de Spaihts & Lindelof e do Sr Ridley Scott: “Você escolhe no que quer acreditar”, que foi para o autor da frase, o pai da mocinha, “Elizabeth Shaw”, a resposta confusa e simplória diante do horror do ebola. Quase sem querer, acaba fazendo um paralelo fundamental para o filme sobre o niilismo que especula sobre as origens e que acaba encontrando, porque mais nada poderia encontrar, o impulso amoral da vida. Numa variação de um tema bem moderno, a morte se torna um tipo de festim onde o poder da vida se alastra em um movimento abslutamente livre e incontido. A força da vida que há no câncer, incontida, parece que está também no ebola, incontida; na peste medieval, incontida; e no alien... Por trás da força criativa da vida há uma força de transformação que cria e destrói incontidamente.
A empresa WEYLAND CORP tem como slogan “Construindo Mundos Melhores”, o que permite uma referência cruzada com o espírito criativo do nosso deus astronauta, os pálidos “engenheiros”, nos fazendo à sua imagem e semelhança... Supostamente, se é que o queria. Mas por que o faria? O fim do filme pergunta isso retoricamente para ir buscar a resposta provavelmente na seqüência. A criação de novos mundos melhores parece que sempre sofre de alguma senilidade precoce, já que mesmo no longínquo futuro, como no passado original, o que se pretende é ainda uma “terraformação”, a velha casa, a velha ordem. “Shaw” a propósito é o nome famoso do escritor Bernad Shaw, um entusiasta de boa fé e proponente de mundos melhores, não obstante os mesmos meios precários nas mãos de deuses imperfeitos. A ideologia de Bernard Shaw nunca prescindiu verdadeiramente de uma boa dose de destruição revolucionária para a plena realização do seu “melhor” possível. Bernard, no entanto, está mais bem representado no papel de Peter Weyland e de David, pois tem do primeiro o sonho do poder de Deus e o cinismo do último no que se refere a sua amoralidade quantos aos meios.

Nave-mãe nos primórdios Arqueanos da terra deixa o “deus astronauta” branquela para se sacrificar pelo surgimento da vida.
Nosso deus astronauta num momento de liberdade poética do filme, MORRE num ritual científico de autodestruição molecular para se tornar uma névoa de DNA toticompatível com qualquer forma de vida, e, ao que parece, fonte mesmo da própria vida. Não ficou claro se essa origem resultaria no homem desde as espécies simples, portanto havendo uma codificação de evolução positiva e progressiva até chegar ao homem --- o mais provável ---; ou se somos uma coisa imprevista, que, tão semelhante ao deus astronauta, vendo o que fez, resolveu desfazer o que um dia havia começado. A formação astronômica remota registrada na arte rupestre em várias partes do mundo aparece como um sinal do deus astronauta, pelo qual o encontraríamos. De qualquer sorte, a tentativa de representar “Deus” como um astronauta parece que se encontrou com os inevitáveis paradoxos ao baixá-lo ao nível das intenções, propósitos, objetivos humanos, isto é, à nossa imagem e semelhança. Como qualquer representação, a imperfeição acabou concebendo um deus que cria a vida inteligente para que esta o contemple; ou, numa versão sugerida em Prometheus, para que a vida, de alguma forma, sirva a deus como um campo cultivado no seu tempo de colheita. Parece que deuses inferiores acabam sempre se irando quando encarnam como representações confinadas no espaço-tempo ficando ao nosso alcance. Prometeu, assim como Adão, quis crer que o Céu era um pouco mais baixo do que é, e acabou encontrando uma samsara circular que se tornou em sua penitência perene. Mas, se erguer-se à altura de Deus é perigoso, tentar derrubá-lo não parece nem diferente, nem menos perigoso. O que parece é que, no caso, deus derrubado do Céu como astronauta perdeu o controle sobre a criação e resolveu encerrá-la... --- em vez de expulsar o homem de onde parece nem ele poderia sair ---; antes, e para isso, “deus” resolveu criar uma forma de arma biológica, um parasita infestante, um alien, para terminar com a aventura humana na terra, e assim (lembrar dos meios precários) plagiando Homer Simpson naquele episódio onde ele compra uma serpente para combater uma infestação de ratos, um lagarto para combater a infestação de serpentes, e então, numa série do mesmo, mangustos para pegar os lagartos, etc., ou qualquer coisa assim. Quando David pergunta cético à senhorita Shaw no momento em que ela havia pedido de volta o seu crucifixo, se depois de tudo ela ainda acreditava em Deus, compreender as patetadas do deus astronauta evitaria ter feito a pergunta, já que explica muita coisa.

O deus astronauta de Prometheus nem tentou uma espécie humana obediente, reslveu logo a engenharia genética, conforme a imagem de sua “natureza”.
Em Alien, “o 8º passageiro”, o protagonista tem a natureza biológica, atributo da criação do próprio deus, de ser mutante funcional com o que quer que parasite. “À imagem e semelhança” ganha aí um sentido bastante peculiar, já que parece que deus tem essa propriedade, bem como, também por ela, um inimigo mortal! É, sem dúvida, uma construção de um deus gnóstico, que possui o bem e o mal em igual proporção. Caberia, de novo, a nós optar pelo bem, mas sem que o próprio deus pareça que o possa de um modo claro. Quando Shaw recoloca o crucifixo, Deus volta a ser transcendente, e o deus astronauta nada mais que um deus caído devorado por um titã.
Seja lá algum tipo de deus criador de mundos o Sr Weyland, ou um semeador ao modo do deus astronauta, o criador parece que só nos teria feito para que o servíssemos. Essa sentença já atribuída a um deus transcendente tem valor somente a um analfabeto funcional ou a um ateu, cujo lema é “pouco importa”. Eu, de mim, acho os ateus interessantíssimos, e a estupidez digna de coisa a ser investigada. Outra referência cruzada eloqüente é que tanto deus, como foi encontrado pela primeira vez, quanto o androide David perderam a cabeça pela mesma razão, buscando exercer algum controle sobre a força primitiva da vida. David, ao buscar para o Sr Weyland o poder da vida; o deus astronauta, ao manipular o poder da vida para destruir. Um, ao buscar o seu criador; o outro, ao fugir de sua criação. David ao ir ao encontro de quem criou quem o criou; deus, ao manipular o poder da criação, que o “criou”. Seja de que modo for, o paradoxo da Queda do paraíso está aqui também, sempre; ascender à condição de Deus, ou ir buscá-lo, derrubando-o dentro do mundo, tem o mesmo efeito. Deus não nos fez para que o servíssemos; apenas não podemos nos servir dele.
Talvez nenhuma imagem seja como esta, ao representar o andróide (não o homem) frente a uma árvore à imagem da árvore do conhecimento de “deus”, da vida e da morte. Árvore de ramos em rede complexa, fazendo sistema, última metáfora seguindo as pegadas da tradição mística Ocidental, para representar uma experiência viva de Deus.
Aqui deus é um pouco Satan, um anjo mau que se voltou contra o homem como um monstro de cinismo, indiferença, aberração e paradoxo, um deus caído. Na busca pelo poder da vida, diante de “deus”, David poderia ter pedido uma alma ao Mágico de Oz, afinal de contas o cinismo sempre acaba num certo patético piegas quando pretender alcançar um valor forte e verdadeiro; pouco depois, ainda sem alma, perdeu também a cabeça. Ora, parece que deus já não gostava mesmo muito do homem, porque gostaria da cópia da cópia? Na rusga criada, parece que deus resolveu, definitivamente, dar cabo da nossa singela espécie. Mas também aqui o julgamento moral de deus permanecerá um mistério.
David, o Pinóquio cético, símbolo da ironia cínica que reflete a condição humana sem Deus e sob o princípio do experimentalismo prometéico: uma cabeça pensante ao nível do chão.
As experiências de deus correm em paralelo com as que pretende o vetusto Weyland, levadas a cabo por David, com menos escrúpulos. Weyland busca pelo poder da vida, como uma forma de salvar-se da morte, o que pareceu do ponto de vista do deus alienígena, algo completamente desimportante. Ele demonstrou isso depois, sequer parando nem por um momento para matá-lo; bateu-lhe com David, como quem espana uma mosca. Em seguida se dirige pressuroso para fazer o mesmo, com outro tipo de David, sobre toda a espécie humana. David, o andróide, tem com seu criador, em paralelo ao que Alien tem com o seu, nosso deus astronauta, a marca de à imagem e semelhança. Enquanto deus criou a forma de vida que era para ser a morte da humanidade, o andróide David quis saber até onde iria o “elixir da vida” quando se entra em contato diretamente com ele. Migrando do ceticismo ao cinismo mais radical, David fez “Charlie Holloway”, namorado de Shaw, dizer se para conhecer os meios de Deus iria até onde fosse necessário, o qual concordou, dando assim a David a justificativa para fazer o mesmo, com ele. Imitando como um sátiro demoníaco o ato da criação, David, num momento de sarcasmo homicida, dá a “poção da vida” a Holloway, que passa a sofrer com delírios, confusão sensorial e, por fim, borbulha feito um purulento cadáver que entende rápido que não vão lhe deixar entrar na Prometheus de volta. Acaba como tantos hereges, que beberam nas águas da experiência mística de Deus mais do que deviam e acabaram indo para a fogueira. No caso, uma experiência científica que continha no cadinho da poção da vida uma igual dose da destruição da morte. Uma das frases fortes do filme é justamente essa: “Às vezes para criar é preciso destruir”. Lema revolucionário por excelência, de que são adictos os piores oportunistas das horas ruins.
A crise cria! É o que realmente não pode ser, mas sempre há a pedra que sobra, que terminada a igreja acaba na parede do motel. O DNA na natureza se degrada, ele precisa estar protegido de alguma forma, nem que seja dentro de um cristal protéico como no vírus. Sem essa proteção, a qual o DNA determina dentro de uma continuidade de sua própria existência como organismo vivo, ele perece; nela, permanece e se diversifica. Porém, em si mesmo, ele não tem o princípio da vida como o filme o mostra. O DNA não é causa de si mesmo.
Fragmento de DNA que se desfaz e refaz num processo de destruição e criação, para começar a formar as primeiras células.
A partir de 1:04:00 o filme mostra todas aquelas cenas que qualquer diretor com senso do ridículo deixa para serem vistas no menu dos Extras: Cenas Excluídas. O que o diretor tem contra geólogos afinal de contas? Pelo menos o papel de bobo ficou com o biólogo. O aparecimento de um zumbi indestrutível em posição aracnídea como endemoniado de outro filme deve servir apenas para nos fazer perguntar por que existe o mau editor no mundo de Hollywood. Bem, mas nada que supere a cirurgia abdominal grampeada que tira o bebê alien da barriga de Shaw para ver ela em seguida correr, pular e lutar contra o deus astronauta fazendo uma cara de dor lancinante. Lembrando bem, Sigourney Weaver teve um filho no Alien: Ressurection (1997) que tinha a capacidade ardilosa que o andróide David mostra em Prometheus, depois de começar como um almofadinha de corredor de nave espacial New Age (cena do aposento de “Vickers”, a Boa Charlize Theron). Nada que espante, o caminho do caráter malicioso é esse mesmo para qualquer um. No final de Ressurection, o alien filho de Weaver estende a mão para ela sorrateiramente, com olhos de gato de botas, para pegá-la. Por um instante mamãe Weaver se comove, depois o aspira pelo buraco na escotilha do módulo de carga isolado.
Talvez nenhuma imagem seja como esta, ao representar o andróide (não o homem) frente ao jardim das delícias do conhecimento de “deus” (não o Deus), que é, ainda assim, o único deus que o homem pode conhecer sem perder a cabeça. Que o “Jardim” se pareça com a INTERNET parece que nos lembra de que somos maiores que o deus inventado, em comparação a nós mesmos, que não fomos criador por nós, mas David.
O Sr Weyland frente a deus parecia muito interessado em falar de seus problemas, mas o velho se viu no meio de uma saraivada de perguntas mais rápidas e jovens, como a de Shaw: “Pergunte de onde eles vieram!” Não, diz alguém, “Pergunte o que são aquelas coisas”, complemento, em forma de paiol de armamentos. Prometheus altera os casulos para cápsulas de projéteis com aliens dentro, sem a intenção de lançá-los ar-terra, mas em distribuí-los simplesmente, que o efeito será o inevitável. Claro que o pensamento ficcional pára aí para evitar cair na lógica do maior come o menor como a concebe uma solução aceitável Homer Simpson. Pára, mas não explica, por que, afinal de contas, o homem foi criado? Deitado, já quase sem respirar, Weyland conclui: “Não há nada...”. David, sarcástico, diz “Eu sei... Faça boa viagem”.
Paiol de Alines encontrado por David.
Mas certamente David não percebeu que estava sendo sarcástico; talvez tenha interpretado a situação, como costumava fazer, por uma das suas frases de cinema. Parece mais correto, no entanto, concluir que Weyland, interessado mais em si mesmo, tenha visto na sua própria morte a falta de sentido mais ampla. David, como lembraram a ele durante o filme, parece que não poderia concluir noutro sentido: “Sim, eu sei”, disse ele. O homem é o “humanóide” de deus, como David o humanóide do homem. Alien, a ira de deus! Nessa lógica, o cinismo indiferente, que até o deus astronauta padece, é o diabo. Por trás da força criativa da vida há uma força de transformação que cria e destrói incontidamente. Mesmo deus está submetido a ela, ainda que a possa controlar até certo ponto, e desajeitadamente, como aprendiz de mágico que acaba enfeitiçado por imperícia.
O deus de Alien é um deus hegeliano, como é hegeliana a estratégia de limpeza racial de Homer Simpson; em ambos as transformações genéticas são supervenientes e se transcendem, assimilando a fase anterior numa mediação contínua do ciclo anterior em algo novo. “Alien” é o símbolo encarnado da força de transformação que progride num processo contínuo de autonegação, e a própria negação é negada, mas sua “soma” em síntese permanece um todo num outro nível, superior. A vida não exclui a morte, não se mantém livre da destruição; ela suporte a morte e na morte mantém o que ela é, seu ser. Só chega à sua verdade quando se encontra em completa destruição! O deus gnóstico de Alien é a “força da vida”, força superior ao próprio deus. Essa força só é o que é em face desse negativo que habita nesse poder. E este habitar junto é o poder mágico que converte o negativo no ser.
O cinema tem uma capacidade realmente poderosa de mostrar, muito por uma simples associação de idéias (quase ao acaso) as coisas como elas estão circulando no mundo real. Em Prometheus o tema da vida na terra e da origem do homem se mistura muito apropriadamente a uma época permeada por “desconstrucionismos” que quer nos fazer crer, este Zeitgeits, que podemos criar a nossa própria realidade ao mesmo tempo em que se difunde a noção de que a crise, a destruição, a revolução precisa encontrar um turning point para colocar antes a alavanca de Arquimedes, para girar o mundo de ponta-cabeça. A solução apocalíptica do mundo é uma renovação; a morte, uma libertação. O ser é um deixar de ser, é ser outra coisa, é fluxo que tem algum princípio de mudança (x = >>i) paradoxalmente superior ao princípio de identidade (x = i). Superior ou anterior, a mudança não pode ser pensada, tem aquele atributo divino que é mistério... ou finge que o tem. Sua natureza é a dos titãs e a do atrito entre os seres; é a corrupção que vira entropia sem poder explicar o que é o sentido positivo da vida que, negando-a, nela habita. Em outras palavras, é o deixar de ser sem deixar de ser, é o sorriso sardônico de um embusteiro e, também e portanto, um princípio cínico, e é o diabo.
Uma cultura que escolhe o seu Deus porque imagina que cada um pode acreditar no que quiser, não deixará de viver sob esse deus, e ao contemplá-lo e buscá-lo, tornar-se, de algum modo, à sua imagem e semelhança. 
 
Nota crítica
Nenhum review influenciou este que voz fala, portanto, seguem apenas algumas notas críticas da crítica do filme. As sinopses e reviews, de cá do equador e de acolá, tem um tom muito trivial, e só para não dizer que não comparei esta sinopse com a crítica, o que se segue é meramente uma vistoria do que se acha mais fácil por aí.
Elizabeth Shaw, de fé católica e crucifixa em volta do pescoço, é uma protagonista mais alienígena em Hollywood que o próprio alien, segundo Christopher Orr, do The Atlantic. Ao contrário do que pensa Orr, no entanto, não há qualquer “confusão categórica” entre sua fé e a busca pela origem extraterrestre da vida humana, já que sua teoria é, ainda assim, apenas uma teoria; assim também, buscar a verdade não lhe é uma coisa interdita. Nem devemos esquecer que filmes dessa natureza não são sistemas fechados, e que as alusões as quais ele faz referência, sejam meramente “referencia culturais”, como parece ser uma tendência, ao que parece, das escolas de cinema ao falar sobre elementos históricos e científicos passados e atuais como coisas soltas que ilustram apenas os filmes. Nessas referências estão as premissas das fontes e a experiência humana que as deu origem. A aventura trata de um deus existente que semeia a vida na terra, mas sua fonte é o imanentismo que pretende que, assim tendo sido, ou ocorrido espontaneamente (abiogênese), reflete toda a história humana guiada ora por uma busca vaidosa, ora por pelo desespero, ora pela esperança e pela fé, etc., o que muda significativamente a natureza da aventura humana e suas justificativas. Ausente, portanto Deus, alma, providência, destino, eternidade, sem que se tenha respondido a vida e o homem.
Há quem tenha dito tratar-se de um “libelo feminista”, ainda que menos que os filmes anteriores, com Sigourney Weaver. Li mesmo uma referência sobre como se livrar de uma gravidez indesejável de forma limpa e prática. Ora, crítica com a mentalidade do Sr “Holloway”, que só por acaso é o “caminho para o vazio” em paralelo ao fundamento do filme. No homem, a revolta de Prometeu está em paralelo com a destruição da espécie humana pelos deuses. Bem, parece mesmo que os símbolos, os mais arquetípicos, tem a capacidade de desencadear conseqüências, nem que de início apenas simbólicas, profeticamente simbólicas, mesmo quando os autores não compartilham intencionalmente com isso.
Na eventualidade de uma continuação imaginar poder criar um engenheiro supremo, vamos acabar em algum tipo de ridículo, já começando a se afastar demais do sucesso estético e filosófico dos dois primeiros filmes. Teríamos a parábola do mais simplório, quando perguntado se acreditava em Deus responde que não, que acredita “em algo muito maior”. Ou, sem mudar muito o tom, voltar à tática do mangusto de Homes Simpson.
O Paraíso perdido de John Milton (1608-1674) parece ser mesmo uma das fontes mais importantes de Prometheus, assim como William Blake (1757-1827) e H. P. Lovecraft (1890-1937) --- ver a crítica do The Atlantic, de Govindini Murty, “Decoding the Cultural Influences in 'Prometheus,' From Lovecraft to 'Halo'”. Em Blake e Milton os temas das heresias gnósticas como aparecem em Jacob Böehme (1575-1624), os temas das heresias valentinianas, nas quais há deuses que são entidades cósmicas, metafísicas,
Quadro do artigo do The Atlantic, da Srta Murty, com 23 fontes “culturais” (algumas forçadas) do filme Prometheus.
hierarquias de deuses estranhos e ignotos. Talvez esse seja a raiz primitiva e longínqua como Os Antigos de H. P. Lovecraft, do centro criativo de Prometheus. A fonte mais insuspeita, estranha e ignota. É sobretudo, por estas fontes, que se entende o tema da Queda do homem como a Queda de Lúcifer e do Homem, como a perda de uma condição original que deverá ou poderá ser recuperada sem a intervenção de Deus. Mas aqui o homem espiritual (pneumático) dá lugar ao homem materialista (hylico), pois a imanência de “Deus” não traz qualquer fundamento para a esperança. É esse elemento “alien” de Hollywood, o cristianismo, que como um quadro de Escher de volta bem aberta permitirá que o filme se projete para fora, e que seja esta sua transcendência, quando “Deus” já não está mais no céu, mas caído num lugar qualquer aterrador do cosmos. A queda de “Deus”, ou a “ascensão” do homem até “Deus”, confunde-se, como na heresia gnóstica, a corrupção da natureza superior numa força negativa, que cria a vida e a destrói com completa e total indiferença.
Em Prometheus – Review (03 Junho 2012), Philip French, do The Observer, escreve que as versões anteriores (1979), mais cerebrais, tem em comparação com Prometheus uma guinada mística. A força dramática dos trillers anteriores, com uma queda no Ressurection, não existe em Prometheus, que tem mais de cômico e místico o que nos outros filmes é suspense e horror. Mas é mais correto trocar “místico” por “espiritual” (para lembrar os movimentos espiritualistas, não espíritas, do século XIX), pois o que move o filme não é a busca pelos “engenheiros”, mas a força primeva da vida (élan vital), está no poder metafísico do poder original de vida, que o próprio “Deus” estaria ele mesmo, na sua versão de Engenheiro da espécie humana, a ela submetido.
A aventura destemida da espécie humana no universo vazio coube melhor no filme ao Sr “Holloway”, enquanto se compara, queira ou não ter tido essa intenção, com o frio e malicioso (v.g., puramente lógico) David: “Não há nada no deserto, e nenhum homem precisa de nada” (frase de Laurence da Arábia, visto 62 mil vezes por David e um dos filmes preferidos de Ridley Scott). Coube a Elizabeth Shaw ser o contraponto menos crédulo dessa fé pelo nada em Prometheus.
A trilogia de Alien tem, talvez como todo horror naturalista moderno, inspiração primeira na obra de H. P. Lovecraft. O monstrengo infame “Cthulhu”, que criou uma mitologia moderna, é uma figura satânica que imita a queda do homem que invoca o nada infinito vivo no lugar de Deus.
Como muitas imagens do diabo, Cthulhu, de Lovecraft, é uma síntese bizarra de animais, bípede, uma força cósmica perdido (ou “adormecido”) no espaço, nos sonhos, na metafísica, nos símbolos, em todos estes, como um predador mimetizado na inefabilidade do infinito.
Como muitas imagens do diabo, Cthulhu, de Lovecraft, é uma síntese bizarra de animais, bípede, uma força cósmica perdida (ou “adormecida”) no espaço, nos sonhos, na metafísica, nos símbolos, em todos estes, como um predador mimetizado na inefabilidade do infinito.


Apêndices
Depois de instruir a imaginação a respeitar a lógica que ela deve seguir com uma dialética exploratória, sem poder evitar algum esoterismo ao escrever, uma imagem é capaz de resumir como nada consegue melhor, e nada melhor que a arte bizarra que se produziu da experiência niilista de uma época e seu sonho de uma redenção maldita. (As fontes das imagens me são desconhecidas, mas estão na internet.)

A-1. Fundamento filosófico de Prometheus (e isso não é exatamente um chiste cômico), da filosofia de Hegel, aprendiz de ocultista, em estado puro, mostrando o élan vital (que, quando puro, tem tentáculos), o “princípio primevo de vida” como uma força que cria e destrói incontidamente, confundindo-se com qualquer coisa negativa na síntese entre o ser e o não-ser --- sempre igual a si mesma.

A-2. A “massa negra” (proté hyle), como só por acaso (de providência simbólica) aparece no ritual de sacrifício do deus astronauta, na qual “habita” a força incontida da vida, mas também como força incontida o virulento ebola, o cego câncer, o horror da Peste Negra, o metamórfico alien, que um demiurgo libertou como aprendiz alquímico e caído novo (para ser devorado). [Arte de Matt Dickson]

A-3. Um medonho câncer com pernas. A força da vida é amoral, e leva tanto à vida quanto à morte; como no mimetismo, quando às vezes a força vital se disfarça de vida, para destruir.

A-4. O primeiro alien como abominação, saído da obra de H. P. Lovecraft, à imagem do Deus desconhecido, é isomorfo do passado mais primitivo e do universo infinito que horrorizou Pascal, do infinito cósmico e infinito estranhamento que se confunde com o Nada vivo, como ele só pode ser representado, como aberração e experiência infernal.

A-5. Fundamento semelhante se encontra em Altered States (1980), no qual o protagonista tenta reproduzir uma experiência “mística” extrema de regressão. Sob o uso de drogas ou em câmaras de isolamento sensorial, a experiência o leva a se metamorfosear pela memória filogenética da espécie humana, chegando no fim à vida mais primitiva, à massa amorfa, a prima mater alquímica, o poder de Deus, o caos criativo, cobiçado por aqueles que, como Lúcifer, só encontraram uma irremediável queda no recôndito escuro e lúgubre Nada.

A-6. O ocultismo de invocadores de símbolos está no fundamento de alguns “elementos culturais” no cinema, como aqui em Prometheus --- elementos culturais que se manifestaram antes no mundo real e só por isso são “elementos culturais”. O lugar de Deus, como lembra Lovecraft, nunca fica desocupado. Quando se destrói o culto do deus amoroso, é a presença de outros deuses e não a ausências destes que tomará lugar. Talvez poucas vezes um aforisma se aplicou tão perfeitamente como aqui:
Quando você olha muito tempo para dentro do abismo, o abismo olha de volta para dentro de você
--- Nietzsche.


outubro 31, 2012

O universo plano de Ar-Naldo Jabor

Alas! A few years ago, I should have said “my universe”; but now my mind has been opened to higher views of things.” --- Edwin Abbott, Flatland – A romance of many dimensions, I, §1.

Em “Arnaldo Jabor fala sobre a campanha americana” o astro da fantasia em duas dimensões e um só sentido possível, analisa o confronto entre “O Cara” esguio e ágil, Mr. Barack “Smart” Obama knight, o garboso Robin Hood contra o xerife Mitt “Manguito e Abotoadura” Romney, o almofadinha inadmissivelmente rico, o melhor inimigo que Obama poderia querer para vencer dizendo aqueles velhos clichês que ninguém ousaria negar na sua plana obviedade.
Arnaldo Jabor frui de uma notável clarividência, de uma luz que lhe escapa pelo alto da cabeça, de grande área reflectante, e ilumina o ambiente com uma luz crepuscular, tirando os fatos mais óbvios de nossa obscuridade e colocando-os planamente (em duas dimensões e um só sentido) claros e distintos. Diz lá o para-analista político Jabor:
Os republicanos chamam Obama de muçulmano, covarde, comunista e filho bastardo de uma mãe promíscua com um amante...”,
e faz um elucidativo gesto de mãos para mostrar no ponto mais forte de seu argumento a exposição clara de uma verdade sem profundidades perspectivas. Mas, de fato, os republicanos chamam Obama não de tudo isso que o infamaria, mas simplesmente de mentiroso. Obama revelou em Dreams of my father uma história bucólica de uma típica família americana que jamais existiu, assim como seu certificado de alistamento e o número da previdência social. Ao se averiguar a história que ele contou, nada batia. No lugar da maquiagem que George Bush colocava na cara, no seu tempo de Casa Branca --- enquanto uma mulher com um pincel de blush dizia sem muita paciência o que ele deveria fazer um pouco antes de entrar no ar, com ele constrangedoramente dócil ---, Obama contou uma história completamente maquiada da própria vida, que quando investigada mostrou justamente o que Jabor toma por acusações infamantes. Os republicanos não ousam “chamar Obama de” qualquer coisa ofensiva, mas foram atrás da história dele e viram que não conferia.
Era de esperar que a banda podre da América agisse assim”, diz Jabor, “pois jamais engolirão um presidente negro...” --- assim como Lula por aqui não era aceito por ser torneio mecânico inábil ---, “...que pensa nos pobres e que quer taxas os mais ricos.” A literatura em Flatland, pátria natal de Jabor, tem um sentido de tempo muito ruim, e por isso os eventos, como nos filmes, que o enredo sabe perfeitamente em qualquer momento o que vai acontecer no fim, não têm conseqüências; e, assim, ignorando a história medonha dos que fazem o bem, vê o plano do mundo, como é na realidade, tão complexo quanto um mapa, ignorando a advertência que prega em sentido contrário: "O mapa não é o território!" Mas nas vastas áreas da terraplana seus latifúndios podem ser modificados para o bem de muitos (no mapa), da propaganda socialista que se ouve da boca de Jabor (v.g., afetado de xenoglossia).  
Providente, as articulações da trama se embaralham num mesmo plano, para chegar a um final feliz que é, sem profundidade, o horizonte da certeza inalcançável que permitirá que se persista sempre de novo e ainda uma última vez, mesmo depois de tudo o mais ter falhado. "Pensadores" como Jabor lutaram contra um Hitler, enquanto faziam a apologia de Stalin. A consciência de Jabor é uma propaganda política que roda em falso. Inadvertido ou inconsciente ou embuçado em ideologia, Jabor reproduz os temas do racismo, da luta de classes, do líder iluminado, da outra realidade, da engenharia plana e piegas de, assim simplesmente, fazer o bem aos pobres, contra (obviamente contra alguém) os criadores de teorias da conspiração que não acreditam que o republicano Romney faz parte da linhagem ocultista da ordem mística “Skull & Bones” que assassinou os Kennedy (Até John-John, caído de avião em 1999).
Para quem adora acusar os conservadores de criadores de conspirações, Jabor não percebe a sua própria torpeza simplória --- como aquele que disse recentemente que a religião era produto da mente humana, que o que pode haver de fantástico certamente era, no lugar de Deus, as “forças ondulatórias da mente humana”. O nome que se dá para esse fenômeno humano é o bárbaro “simple-minded”, o homem ordinário de “plana-mente” que assume um comportamento cético e crítico bastante razoável para a média do consenso, sem grande discrepância com o politicamente correto, para em seguida e planamente dizer um absurdo ainda maior.
Com Oliver Stone --- diferente desse e de Desmond Tutu no que se refere a achar Hugo Chávez um paladino da democracia no mundo ---, a América, para Jabor, está dividida entre Progresso e Regresso! E como todo mundo sabe, “para frente” é bom, porque para frente “avança”, ou “evoluiu”, e quem não quereria evoluir, não é mesmo? (Parece que os tubarões, os priapulídeos e... bem, teria que explicar aqui que a evolução tem um único objetivo final: não evoluir! Digressões à parte...) Obama é o “progresso”, então; é a “inteligência moderna” --- ((creeedo!)) --- contra (o maniqueísmo vive!) a “estupidez fundamentalista” de Romney. Este, fazendo-se de moderado --- lembremo-nos, é daqueles que mataram os Kennedy ---, e, como Lula, fala manso enquanto a SS do partido apunhala Obama pelas costas! Deve estar se referindo à declaração de um republicano que dizia que o estupro faz parte dos planos de Deus, prova imarcescível do trogloditismo conservador (que exemplos em contrário há tantos).
Emocionalmente, Jabor arremata com essa verdade que ninguém ousaria negar: “Eles mentem sem pudor, porque querem mudar o voto de pobres, intimidar latinos, indecisos e velhos sem preparo...” Querem continuar a obra catastrófica de Bush, as guerras. Numa lógica que não varia um milímetro, continua inferindo sagazmente: “O Paquistão e Israel já tem a bomba, e se tivermos uma guerra sofreremos nós aqui...”, por quê, diz aí, Jabor: “Por que sofreremos com os danos ao comércio internacional, sem contar os efeitos da poluição nuclear no planeta... Podemos rezar...” é o que podemos fazer. Mas... para quem, Ô, Jabor! É claro, para o Obama?
O mundo mais plano de Jabor tem de sua arte, o cinema, antes dos recursos em 3D ou das tecnologias de alta definição, a projeção chapada de um filme de terror trash dos anos 60. Mas vamos dizer como um verdadeiro criador, Edwin Abbott, “Be patient, for the world is broad and wide”. Precisamos de muita calma e atenção para não cair na esparrela dessa lei cega contra a qual um Nelson Rodrigues tanto advertiu, o progresso do idiota aos lugares mais leveados da sociedade, recebendo grandes doses de congratulações, e tanto mais notável no seu caráter quando tem algum talento, para com maior dificuldade perceber a estupidez. Assim, pelo que pensa saber, mais lhe parece que tem a missão de explicar para o mundo inteiro que o mundo é um lugar estreito e plano numa projeção da sua própria mente arrasada.

outubro 28, 2012

Voltas estranhas e inversões

Com pretexto em “Desconstruindo Huxley” (You Tube) sobre as voltas estranhas do pensamento rebelde.
Em “Admirável mundo novo” (AMN), Bernard Marx é especialista em hipnopedia; não o protagonista, que é o Selvagem. Dia destes, alguém tentando interpretar num jornal local “1984”, de Orwell, dizia que enquanto houver diferenças de classes e opressão dos trabalhadores, estaríamos expostos aos riscos de “1984”. Assim, exatamente no momento em que o autor do artigo descrevia os riscos daquela sociedade controlada, mostrava que estava completamente dentro dela e do AMN, repetindo lemas hipnopédicos --- aqueles que repetidos 62 mil vezes fazem uma verdade. De novo, é Marx o especialista em hipnopedia. Expressões como "crise do capitalismo", "consumismo", "elitista" "desconstruir", são expressões hipnopédicas, elementos doutrinários na propaganda que sai de redutos esquerdistas, redutos do que querem construir "o Sistema" como ele nunca existiu sem imperfeições. E estes "diferentões", Malcom X, Martin Luther King, Che Guevara (!), Jesus Cristo (que comparação!), Betinho (!), Panteras Negras... estavam completamente envolvidos com a revolução que só pode começar produzindo o clima emocional que dizendo ser crítica convoca à adesão de uma maioria. É um fato monótono que as rebeliões produzem sistemas ainda mais tirânicos do que aqueles que elas denunciavam.
Outro exemplo (vou chocar a muitos) é a música “Another brick in the wall”, Pink Floyd, de videoclipe famoso; o sistema que torna os alunos em homens-massa não é a educação, mas o sistema libertário que começou a ser aplicado com técnicas dignas da mais improvável engenharia social a partir dos anos 30 em várias partes o mundo. A cena da rebelião das crianças quebrando as classes é que as transforma em escravos. Se alguém quiser inutilizar a muitos, basta promover estas idéias de revolução e elas deixarão de alcançar o nível de poder resistir à propaganda. No começo do videoclipe, o professor ridiculariza os poemas, que só com uma boa educação se é capaz de ler e perceber a dramaticidade condenada e excluído no AMN.
O símbolo melhor de uma juventude que cresceu repetindo slogans marxistas é essa exclamação de Bernard Marx (o heterônimo do Karl famoso) em AMN: ""Ford! Como eu os odeio!" (III). Até para dizer que os odeia ele repete a interjeição do fundador daquele mundo, "O, Ford"! Muitos farão isso. A obra de Huxley (coisa não rara na arte) tem marcante o efeito dos quadros de Escher: os personagens refletem eles mesmos, historicamente, criticando o sistema/máquina (establishment) que eles ajudaram a criar. Como nos quadros de Escher, as "voltas estranhas" (Hoftadter) mais abertas deveriam pôr advertido o leitor de que ele talvez possa fazer parte do quadro todo.
As revoluções sempre resultaram em uns controlando maximamente a outros; o símbolo do rebelde está no começo da Revolução Francesa e Russa, está nos Demônios de Dostoyevky. As crises, ao contrário do que o marxismo prega (mesmo quando ele aparece sob o símbolo Paz-e-Amor), não são a oportunidade para a mudança, mas antes abrem espaço para os piores oportunistas.
O "consumismo" existe e torna o homem um sujeito oco e fútil; mas de modo nenhum ele está confundido com o capitalismo, que permite que algo como a internet exista. É a cultura materialista e hedonista, que Huxley denuncia, que está hoje completamente albergada na pena de autores de esquerda, que gera o consumismo e que possibilta o controle maciço, como ele pode existir fora das teorias conspiratórias --- obra desta arte mais do que velha ---, convidando, seduzindo a uma maioria a aderir. Aí as coisas começam a ficar confusas de novo, mas nem tanto: quando o consumismo de uns poucos não é o suficiente, aqueles que não podem consumir são assistidos pelo estado para entrarem no sistema e começar a consumir. Voltas estranhas... É um fato monótono que as rebeliões produzem sistemas ainda mais tirânicos do que aqueles que elas denunciavam. Nesse assunto, o neófito é pego pela boca, quando brande lemas de resistência que saem da propaganda dos próprios criadores de sistemas.

abril 28, 2012

Questão 1 à-toa: Da restituição da virgindade metafísica

A Verdade é mais estranha que a Ficção; é que a Ficção está obrigada a se ater às possibilidades --- a Verdade não”.
--- Mark Twain

Por que Deus não cura aos amputados?
Se você fez um curso acadêmico, seja lá onde foi, salvo se tenha dado muita sorte (ou se acostumado mais do que rápido), deve ter visto uma certa quantidade de irracionalidade que só pode ser ignorada pelo temor do mestre que invocou, naquele instante em que você iria fazer uma observação constrangedora, o princípio racionalíssimo da simples autoridade. Obviamente, omitiremos os departamentos das humanas para continuar aceitando o que o narrador do vídeo nos diz.
Na minha experiência de quase uma década na universidade brasileira (talvez não o melhor exemplo), as lacunas no princípio de formalidade da teoria eram geralmente preenchidas por sua vez com a “autoridade” do prático --- geralmente ele um bolsista de uma área que nada tinha a ver com a arte racionalíssima da engenharia do negócio. Se a fé é irracional, uma falaciosa premissa oculta do narrador, explica por que um prático resolva a quarta casa decimal depois da vírgula segundo certo tino que se lhe atribui dotado para uma decisão mais exata --- ou, no caso, de fato, indiferente ---, ao que parecia mera arbitrariedade.
Há outro princípio racionalíssimo na universidade, que tem na austera formalidade da formatação de relatórios científicos por honoráveis editores de texto o respeito de todos. Mas é inegável que alguns procedimentos, pelo seu rigor técnico, guiam pela impessoalidade qualquer mente supersticiosa a resultados perfeitamente sóbrios. E pela sobriedade da retidão da linearidade, a tomar a credulidade por razão exata. Como, no entanto, a austeridade científica do procedimento técnico possa se tornar no reconhecimento de julgamento crítico de uma pessoa que até então serviu como um macaco apto a descascar uma banana, é já mais difícil de explicar. Mas certamente não será necessário recorrer à fé --- nem que se tenha que negar isso se início!
Se você tem algum trabalho de responsabilidade, e ignorando para fins de formalidade científica o que se disse acima, você pode perfeitamente tirar de sua experiência a razão de um procedimento eficiente para algum fim previsto conforme a natureza das coisas dá sem ocultar muito de si mesma. Que isso gere alguma confiança --- nunca fé! --- que o mundo mais real é sempre de algum modo planamente racional, pressupõe que racional quer dizer coisa capaz de ser posta dentro de um procedimento tão complexo quanto possa caber no horizonte da onisciência que um bolsista alcança observando um rato num laboratório --- mas cujas pretensões, diga-se sem mais, não são poucas. É este o fundamento de nossa ilimitada confiança --- nunca fé --- no princípio superior da perfeita razoabilidade.
Seja lá como for, os deístas resolveram esse impasse professando crer num Deus artifex --- o prático que sabe, por fim, como tudo deve funcionar no caso de alguma coisa parecer irracional ---, ao qual podemos invocar junto ao princípio de formalidade dos formulários padrão que dão algum sentido para além do que possa ter falhado por aqui. Ainda mais, prometendo-nos algo perfeitamente aceitável ou invocando humilíssimos as nossas limitações, sem que nessas limitações se encontrem, para efeito de autocrítica, com algo que justamente nos indique certo limite à razão, de modo então porquanto tenhamos que decidir de qualquer modo --- como pedindo a ajuda do prático num ensaio de engenharia a um bolsista do direito. 
Existem técnicas perfeitamente racionais que, no entanto, darão perfeitamente errado, mas você só saberá disso (mas nem sempre) quando vir o resultado. A ciência tem inúmeras histórias de arcabouços especulativos que foram admitidos a certa época o fim do erro e da precariedade, ainda assim, depois de muito desmentido --- e das "crises" paradigmáticas, como as chamam ---, resta inexplicável a crença automática num sentido do progresso científico catapultado pelo erro dos anúncios anteriores. Ninguém admitiria aceitar que procedimentos racionais perfeitamente coerentes pudessem dar sempre em resultados, digamos assim, verdadeiros, justificando-os por serem assim lá ao seu modo todo particular; e que para fins práticos apenas é que devêssemos considerá-los falhos. Certamente o fim certo de um procedimento é a verdade desse procedimento, cego como a natureza o dotou. Exatidão e Verdade mantêm de qualquer forma sempre uma respeitável independência. É o que dá para dizer do que às vezes é “errar na mosca”.
Se a razão é assim um procedimento de formalidade que pessoas normais e inteligentes podem seguir, deveriam fazê-lo apenas quando e para os fins tão restritos quanto se os estabeleceu, sobre casos inquiridos e de modo nenhum invocá-los para justificar qualquer outra coisa, omitindo-se tomar por eles uma refutação da fé ou do próprio homem. Ou, essa arte arrogante que monta o espantalho da credulidade para refutar uma faculdade cognitiva.
Você consegue usar a razão que o conduz na sua vida profissional para pensar a sua fé?” pergunta o vídeo no início. Nossas decisões diárias são tão sujeitas a irracionalismos que antes seria prova do contrário. Ora, por uma mera sensação de ordem prática que nem Kant conseguiu resolver para lá da mera arbitrariedade, o ateu tira o sentido do que é “racional”. Ou, não exatamente o “sentido”, mas o sentimento --- pois a razão do ateu é uma sensação emocional estetizada que tem o implícito desapercebido dos símbolos de harmonia, equilíbrio, equivalência, etc., que moldam seu mundo mais racional. Rebaixando o céu a um procedimento cirúrgico, o ateu militante usa a sensação ignorante de que tudo é racional, quando se pode dispor de uma boa explicação para tudo, o que não deveria fugir de sua própria censura sobre as “racionalizações”. O racionalismo do ateísmo, e já não é de hoje, não passa de um tipo de superstição; e superstição, não incomum, associada à conjuração, à magia, ao cabalismo, etc.: uma gnose, mas que se recusa a conhecer. Afinal de contas, “a certeza de que não há nenhuma salvação é um tipo de salvação; de fato, é já salvação” --- Emil Cioran.
Se há mesmo um número respeitável de médicos que acreditam que Deus cura doentes diariamente, por que Ele não cura aqueles que rezam por suas pernas amputadas? Faltou dizer, supondo que alguém o peça. Desconheço quem tenha pedido isso algum dia, mas já dá para imaginar possível pelo milagre de que alguém, querendo-se honesto, desafie a que se o faça, previsivelmente para não ser atendido, comprovando por efeito acachapante o que se quer dizer e de lambuja, siga-se que Deus --- que não responde à essa excentricidade --- não exista.
Tomás de Aquino dirá que nem mesmo Deus pode restabelecer a virgindade perdida de uma donzela. Mas, de novo, se você não pode vencer alguém, tente convencê-lo de que ele está derrotado, é um truque que se não funciona muito bem com Deus, causa uma certa confusão que tem lá os seus resultados não de todo negligenciáveis. Mas São Tomás parece que não lembra que Jesus Cristo curou a “mão seca” de um homem, num milagre parecido ao apelo do ateu, ou ao paralítico, que deve ter sofrido de alguma restituição física verdadeira. De qualquer forma, se a donzela, que já não é, voltou a sê-lo, a não ser que Deus apague também o seu desvirtuamento do próprio tempo, de ter alguma vez ocorrido, o que é a razão da intervenção milagrosa --- e é provável que não possa ser apenas isto, mas ir um pouco além ---, e porque deveria fazê-lo também da memória de todos e de sua prória, parece que, de fato, nesse ponto São Tomás tem razão, e razão mais forte, para afirmá-lo. Mas estes procedimentos parecem repulsivos a nós que se os atribua ou peça a Deus.
A questão quer dizer que Deus, ao permitir algo, no curso do tempo, deveria, por um simples pedido, desfazer algo já ocorrido, é só um modo de dizer no pequeno o que num quadro grande equivale à pergunta mais fundamental que esta --- tentar enfiar na cabeça de Deus que ele está derrotado ---, que tenta Deus pedindo-lhe que deixe ser Deus para provar que é Deus. Deveria eu rezar para que Deus me trouxesse à vida assim que eu morresse, sendo este o sentido de ser redimido dos pecados e, por razão mais forte, não outro? Ou, deveria Deus não apenas redimir nossos pecados, mas fazer com que eles jamais tivessem acontecido? Deus, para um ateu, se existe, não pode passar de um manipulador previsível.
Me passa pela cabeça que Deus seja infinito na sua bondade, mas um tanto racional para com o mal no mundo, tanto que geralmente repete que há --- vejam que injustiça! --- consequências para os atos maus (Êxodo 34:7). Extensão desta diabrura em forma de curiosidade é aquela que se pergunta por que Deus permite que o mal ocorra a pessoas boas. Mas, ora, e sobre quem mais poderia ocorrer o mal? Se ocorresse apenas ao ímpio, chamar-se-ia não mal e sim justiça. Mas o efeito, dificilmente previsível, de tudo que alteraria na ordem do mundo, gera uma destas absurdidades paradoxais que levariam à extinção da possibilidade do mal e, com ele, do livrer-arbítrio. Não haveria como não transformar o homem num bizarro animal dotado de razão e a razão já sem se poder distinguir muito do mero instinto ou do comportamento dos insetos sociais. Homens completamente iguais uns aos outros, porque não haveria o mal, nem a liberdade, nem nenhuma escolha verdadeira e toda a aventura humana já narrada teria podido existir algum dia; a qual, então, ter-se-ia resumido a um paraíso medonho de uma raça pálida e piegas. A própria questão de uma sociedade mais perfeita só faz sentido num fundo de imperfeição, que é, de algum modo e em algum grau, sentida como sofrimento. O mundo mais perfeito é, portanto, de aspiração frustrada, qualquer que seja a perfeição dessa sociedade. A busca pelo prazer é uma fuga do último prazer que então já começa a parecer desconfortável aos que se acostumaram com ele. Não é à-toa que em Admirável mundo novo o Administrador esclarece, para controlar aquela distopia artificial, que a idéia de felicidade está relacionada à satisfação prontamente de todos os instintos, associado ao estímulo permanente destes mesmos instintos (--- alguma semelhança com as campanhas pelo uso de anticoncepcionais e preservativos, e em seguida do aborto, ao mesmo tempo em que se estimula o sexo livre?). Uma população dedicada à “harmonia” em um mundo maximamente controlado tem de, necessariamente, ser reduzida a um cálculo ponderado de reação e estímulo. Só uma população inferior poderia suportar um mundo sempre mais perfeito. Os ancestrais dessa população, são hoje justamente os que sonham mais ardorosamente com um mundo mais e mais perfeito, e aqueles que já o vivem, maximamente, como indivíduos que se satisfazem.
O pior de tudo é, além do mais, que esse mal pode, sim, atingir pessoas inconscientes dele. Suprema injustiça para algumas pessoas muito boas --- segundo seu próprio julgamento ---; ou, para aqueles que julgam que não há culpa, porque não há livre-arbítrio, de modo que qualquer deslise de comportamento deveria receber o devido tratamento pelo sistema de saúde público; ou o infortúnio mortal, compensado por méritos havidos ou parcelamento ascético doravante. O perdão divino feito bônus num tipo de procedimento financeiro onde o valor moral da ação humana pode ser convertido a moedas de troca. Mas Deus parece que não pensou em nada disso. Difícil, além do mais, seria explicar como pessoas assim inconscientes do mal alheio fossem muito diferentes, ou de outro modo diferentes, para o mal que elas próprias seriam agentes. Outras compensações assombram; quando o ateu malicioso parece ter desistido de voltar contra Deus qualquer diferença deste mundo para com um muito mais perfeito, vemos uma troca de tática, e o mesmo reaparece como um esforço pela máxima difusão de igualdade por ações afirmativas que individualmente parecem o próprio bom senso permeado de compaixão. Ocorreu-me que uma campanha do grupo gaúcho RBS recentemente tinha a chamada que dizia: “O que você acha que um deficiente intelectual gostaria de ouvir? 'Sim, você pode trabalhar na nossa empresa!'” e qualquer coisa como “exija de sua empresa seus direitos de ser incluído”. As cotas para negros chegaram a 30% em algumas universidades, ao mesmo tempo que se estimula o sentimento de rancor racial e, por efeito, sua contraparte; a defesa de gays e lésbicas como pessoas especiais, que precisam ter privilégios legais, vem acompanha de campanhas feitas por estes grupos para emporcalhar a igreja e subverter o padrão da maioria exigindo desta deferência pelo que os distinguem dos demais; ou o expurgo de terras a ocupação de índios romanceados por poesia piegas. As compensações artificiais que impõem no pequeno à luz de uma sociedade (algum dia) maximamente justa, perdem facilmente a noção do absurdo que produzem no conjunto, mesmo quando individualmente nos parecem o extrato mesmo do bom senso.
Vamos dizer assim, voltando ao assunto, que Jesus curou a uns quantos, como Lázaro e a mão seca de um homem, e pior, no sábado! E fez horrorizarem-se aqueles como aos ateu militante, e não antes pelo milagre, senão pela ousadia inacreditável de ir contra as mais antigas e conhecidas tradições sociais do seu povo. Porque é do que se trata a razão atéia: mero hábito; o padrão uniformitário do consenso. Não é, afinal de contas, apenas a fé que cega, parece que a sóbria razão prática e habitual também o faz. E parece que o faz mais que mais profundamente que o inefável do numinoso que nos assombra de vez em quando. Que lembre, a despeito de a Verdade ter, no Cristo, realizado o incrível de modo insuspeito mesmo na ficção, o mesmo Jesus explicou didaticamente que os milagres não tinham a função de curar as pessoas quando elas quisessem ou servir de sistema de resgate em caso de inundações. Ter o Cristo pedido pela fé aos que o seguiam, e não ao desejo de serem curados, à benevolência ou à tolerância, igualmente, é que não o torna um curandeiro carismático. A coisa fica, para o cristão, toda mais --- nas palavras do ateu militante --- “irracional” então.
Por este “irracionalismo” --- cuja petição de princípio faz a razão medir a realidade, invertendo aquele adágio de Marc Twain --- , um C. S. Lewis reconhece à inaturalidade tão diferente do panteísmo ou da física newtoniana; pois é justamente o que há de imprevisível e idiossincrática da revelação cristã, “a experiência forte de viril da realidade que não foi criada por nós, nem, de fato, para nós, mas que nos golpeia o rosto”. Ou Chesterton, ao ouvir que o cristianismo não passava de uma fábula, respondeu dizendo que se tratava exatamente disso: nas estórias do que um homem sensato faria num mundo de loucura, aí encontramos essa sinuosidade obstinada e dramática da fé cristã, uma mensagem que é mais real que a realidade --- e por isso mesmo, muito pouco racional.
As causas que levam a que alguém possa perder uma perna é a mesma que leva a que alguém possa pensar como um ateu e ainda querer que seja razão superior. Vantagem ao perneta, que não tem a mesma facilidade para acreditar que com uma perna a menos isto o habilite a caminhar com mais leveza, por tocar, quem sabe, menos vezes no chão. Infortunadamente, não dá para dizer o mesmo do ateu militante. Assim, a reivindicação --- de investida recente --- de grupos ateus por “igualdade” e “não discriminação” parece que estão em perfeita sintonia com as campanhas também recentes pela inclusão dos deficientes intelectuais. A máxima comunista “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”, que prevê um mundo igualitário, desceu confiante à amorfose anárquica da sociedade sob outra máxima: “de todos a cada um, indistintamente, de cada um como qualquer outro”. Se a frase resultou esdrúxula, o que ela realiza pretendendo a igualdade, não será menos.
Como a “mente” de Deus é uma coisa um tanto insondável para os últimos procedimentos racionais da ciência moderna, às vezes as respostas de Deus podem não parecer exatamente... lineares. Digamos assim, que equações diferenciais metafísicas existam... O que é para Deus linear é, para nós, nem tanto. Saberíeis por aquela máxima “Deus escreve certo por linhas tortas”. Pedisse eu para que jamais houvesse perdido a perna, teria sido eu antes um bom cristão, ou tornei-me apenas um indignado cliente de Deus após o evento sinistro? De onde vem que se deva pedir a Deus algo assim, pedido que é, de fato, acusação! Ou, está aí o ponto: quando, afinal de contas, deveria eu parar de pedir pelos meus membros, antes de começar, digamos ao sétimo desejo de restituição, decidir que, enfim, Deus não é infinitamente bom e isso seja já contradição suficiente para negar infinitamente o que eu perdi apenas em parte?
Meu plano de saúde, em outra ocasião, cuidou de questões menores, de muita ajuda, quando de uma pequena cirurgia reconstitutiva do joelho, mesmo que tenha feito o contrato justamente pelo incidente. Eu sou um cliente por necessidade de meu plano de saúde. Quantas vezes, depois disso, percebi que erros nossos potencialmente perigosos estiveram cobertos por bem mais que a minha capacidade de controle pudesse dar conta. Digo-o não para provar que Deus nos cuide, mas que querer que ele nos cuide nos traz a consciência de toda a gravidade de que alguns momentos de desatenção podem ameaçar-nos de um modo que nenhum cálculo permite antecipar.
Se eu rezasse para que Deus me protegesse e, por algum lampejo de lucidez eu atentasse na estrada evitando um acidente que (imprevistamente) teria me dilacerado uma das pernas, eu não o atribuiria a Deus para muito mais longe que a reflexão de que pedir para que me cuide desse-me a lucidez de refletir sobre meus riscos atuais diminuindo-os, assim, no futuro. Mas, temerosamente --- arriscando importunar ao Senhor ---, indo mais além, supor se Deus pode nos lembrar contra o próprio sentido do tempo, já é coisa que não poderíamos descartar se quisermos continuar acreditando nos milagres do Cristo citados aqui pouco antes --- e, pelo menos, no que tange à cura física ---, para em seguida ter que levar seriamente em conta a lição de São Tomás. Assim, se Deus o fizesse, impedindo-nos de perder a perna, fá-lo-ia antes não ao modo de um esquecimento retroativo de algo de fato ocorrido, junto da restituição do mal havido, mas de uma ordem das coisas que antecipando o mal, o evita ou desvia? Por que Deus atenderia a um pedido que exigisse que ele permitisse ao demônio contingente do mal para arrancar-nos uma perna e em seguida, (e só em seguida) restaurá-la, pareceria mais o exibicionismo de um poder, atendendo prontamente ao Diabo, antes que coisa lá ao modo de Deus. Atender ao diabo certamente não deve ter outro fim, além do mais, que esculhambar não apenas com a obra divina, mas com o próprio Deus, desde baixo, desde a inversão de tudo por desvio malicioso. Servir a esse propósito desviante é o que faz o séquito conduzido que adota o mal como princípio de reforma do mundo.
Se Deus nos protege pessoalmente, isso só faz sentido --- racionalmente, para efeito do princípio de formalidade de um cristão --- se supormos que haja algo que não tenhamos confiado a Deus ainda (e que, então, havia-Lhe escapado), de modo que precisássemos invocá-Lo para que se realizasse. Doutro modo, Deus já sabe o quanto nos deve proteção ou os limites de nossa vida, senão de todo, que nos deu certa liberdade a isso por meio de e conforme certas tendências naturais --- é o que devemos aceitar --- antes mesmo que quaisquer previsões que pudéssemos fazer chegassem a alcançar um grau de previsibilidade útil. Ora, que no fim desse esforço de amor próprio acabemos por pedir pela nossa vida, já seria uma pequena traição para com Jesus Cristo --- segundo o princípio de formalidade que se apresenta a um cristão.
De qualquer forma, a questão agora não é saber por que Deus não nos permite escapar de todo o mal, no qual o ateu militante encontra onde quer que pareça haver qualquer contradição à infinita bondade de Deus um argumento que lhe sugere então algo que não deveria ter faltado a nós se Deus, é claro, realmente existisse. A crítica que visa denunciar o mundo atual comparado a um mundo futuro sempre melhor é a perseguição que pretende evitar o pôr do sol numa jornada sem fim para oeste.
Apontar o dedo contra tudo que se diga, buscando compreender, que não tome o mundo com a "simplicidade" de um raciocínio linear, claro e distinto, de racionalizações muito esquisitas é um modo de limitar toda a realidade e Deus para caber dentro de um procedimento científico perfeitamente impessoal, talvez tão impessoal quanto as “caixas de Skinner”, e, obviamente, negá-los a por razão mais forte. E por não admitir, com o ateu ladino, você está tentando fugir --- ...da armadilha --- com uma racionalização qualquer? A auto-referência do ateu militante não é uma malícia, é uma condição estruturante da alma do ateu militante --- isto é, claro, se é que ele tem uma. (A recusa dela, afinal de contas, pode perdê-la.) Para evitar acusações de irracionalismo, digamos que a detecção da alma não seja feita por plasmógrafos metafísicos, mas pela unidade que haja quando Deus não cumpre a restituição em nós do que quer que seja ao modo de como consideramos poder ser o caso para restituir não apenas a virgindade de uma donzela, mas também a sua reputação perante toda a comunidade ao custo de esquecimento e alienação[1]: isto é, pela unidade de nossa alma, pelo conhecimento de nossos atos conscientes, pelo conhecimento confrontados com o real e (talvez antes), na solidão de nosso quarto, sós, perante Deus.
A solução mais razoável para que Deus nos proteja do pior dano físico seria ele deter o mal antes de acontecer, ou cair no círculo infernal que restitui um malefício a custa da unidade de consciência e de nossa alma. Só o demônio pensaria em algo assim; pensaria em algo assim para que alguns pensassem-no para destruir a fé, essa capacidade cognitiva que tem por suas superstições mais persistentes a Verdade e a Realidade, mesmo quando esta, à luz de Marc Twain, acontece de modo irracional, imprevista e singular. Sabiam os gregos antigos, os quais começaram o que viria a se tornar essa fé cega da Deusa Razão da ciência moderna, que a verdadeira ciência jamais começaria questionando a natureza da realidade negando-a de início aquilo que a nós se revela como a evidência real, do modo mesmo como ela se apresenta, e isto claramente contra a espectativa simplória do ateísmo de que a razão seja, invertendo tudo, a medida da própria realidade [2]. 
Objeções a se negar ao ateu uma alma podem ser dirimidas questionando o seu fundamento sem fundamento, a razão. Se a alma é um procedimento racional da máquina humana, passível de mera descrição de fragmentos de consciência que giram em torno de um centro vazio, talvez assim seja por uma opção e recusa de que seja de outro modo. Já que à consciência se nega de pronto a vontade livre, que parece que não faz parte dela ou, que não há vontade livre, mas o cálculo difícil de um acidentado mecanismo de tendências que levam à arbitrariedade. É curioso como a vontade, da qual bom funcionamento pode ser a própria fé austera, pode criar, por uma função específica sua, a condição humana para a danação da alma ou para sua formação; porque a existência da alma deve refletir a consciência humana na sua melhor condição, ou a sua perda e a sua sujeição. O homem, quando descrê de Deus, pode fragmentar a sua alma e danar-se; e pode ocorrer que a condição da formação da alma, por processo natural --- daquela natureza humana de que tratava há pouco ---, seja uma função da fé. Talvez não seja nada muito longe disso. A realização de parte do aparato cognitivo tipicamente humano pode ser justamente a faculdade integrada da vontade livre que reconhece a Deus. Mas isso está para um ateu, que não admite a consciência para lá da libido mascarada de racionalizações, ou isto à vontade livre, desde o início excluído por razão mais forte --- Ateus militantes: pelo direito de não perguntar! 
Exclua-se o que há de distintivo no homem, e voilà, sobra necessidade e circunstância. Mas se fizer parte do homem que ele assuma pela vontade um Deus transcendente, quiçá um pouco mais, o próprio Bem, então passará às cegas o ateu, conduzindo a uma maioria para as sombras.
Pedir para que uma perna se regenere não é nem um pouco equivalente a pedir algo que ainda pode acontecer e está dentro do universo do possível natural --- ou, sem, pelo menos, ou por analogia, algo que esteja ainda coerente com a vontade de Deus ---, mesmo ainda que inacreditável, como o disse melhor Marc Twain. Mais inacreditável, ainda que perfeitamente racional, é o embuste de pedir para que se creia num poder mágico para, vendo-o falhar, negar a Deus que não atende a caprichos e a acusadores dissimulados. O ateu militante mostra ter uma visão preconceituosa do que é a realidade e supersticiosa em relação à razão.
A despeito disto tudo, o vídeo ateu acha legítimo que a oração, que não deva poder nada, seja capaz de pedir algo impossível (que talvez possa significar apenas o simplesmente inconveniente aos olhos de Deus); ou, que se possa crer que ao não ressuscitarem todos, esse argumento possa parecer mais válido para uma maioria que não voltará. Reforçado assim o público do ateu militante, é do mesmo modo que a cura do câncer não é impossível, nem mesmo, em alguns casos desacreditados pelos médicos; mesmo assim, o que ocorre não é algo mágico, mas, ainda assim, cuja explicação racional do ocorrido não pode ser dada melhor do que o faz o fato de que isso tenha se passado exatamente assim. E que, de novo, assim sendo, o tal fato dotado de nenhuma razão (explanável) pareça a um ateu que possa ter alguma explicação perfeitamente... “razoável” é já uma liberdade que o próprio ateu militante diria ser uma mera evasiva e uma “racionalização”. É a falsidade para fins de sombra, para onde se evade com um sorriso confiante e citando Wittgenstein, de que o silêncio é o refúgio da verdade, quando se é pego no embuste.
Por que pede o ateu ao cristão que creia no impossível, contrário à vontade de Deus, está numa razão maliciosa direta com a de tentar a Deus a Se mostrar tão fraco quanto sua recusa a isto o quer tornar tornar impotente. Pergunta que os ateus compulsaram do demônio para tirar a fé de uma maioria. Não vê nisso intenção consciente ao pacto com o demônio o ateu militante, obviamente; mas por seus efeitos, o lado que assume o ateu nesse jogo entre o bem e o mal não lhe dá muita escolha. As máquinas de momentuum de revolução estável são conhecidas por serem bastante sensíveis a forças externas, como os objetos no espaço a preservar a força aplicada deslocando-se sem perdas. Pois a tautologia ou o looping da razão cria efeito semelhante: quando se apoia num giro que acaba sendo a consciência por procuração de um sentimento anônimo de desamparo nesse mundo, ao qual nos vem acudir com um contrato de alívio neste mundo. Justamente, isto, o que se atribui à religião quando se a toma por artifício supersticioso perante o medo da morte ou do dano físico.
A idéia esposada por Antoine-François Momoro (1756-1794) de rezar missas em Notre Dame à “Deusa Razão” segue dessa racionalidade que se põe superior a tudo, que chegará em lugar menos instruído à coisa mais grotesca, e exatamente quando se pretende mais racional, dá no contrário --- na mais ridícula idolatria. Quando aquele outro, contrário a Deus, é desmascarado, sendo sua natureza, ainda assim, de Deus, ruboriza-se, para ser seu rubor imediatamente ocultado por uma camada de pó de arroz que torna toda essa pantomima ainda mais grosseira; e, por algum outro milagre digno de crer cegamente, que pareça assim mais verissímil por esse verniz de pálido disfarce que chamam razão, é já o que se pode fazer num palco montado para que Deus justamente não apareça.
O que realmente não faz sentido é acusar que se negar a usar a razão conduza à racionalização de uma justificativa. Certo pela culatra! O apelo à razão em si é apenas uma racionalização em looping auto-referente --- isto é: arbitrariedade crédula, cuja crendice, com outro nome, chama-se ideologia e superstição. E, ora, a epistemologia de uma ideologia é uma estética. Onde está sua premissa, nem o ateu sabe, que a estética é uma premissa subliminar, o lapso de consciência e de linguagem: é o discurso que fala pela tua boca, sendo que tu, de ti mesmo, não dizes nada. Concordar com o vídeo seria mais racional que qualquer racionalização que mostrasse o truque malicioso por trás da pergunta!
O apelo de racionalidade do vídeo ateu é um apelo para a vanglória do homem, que se emancipe de Deus. Chama-se a essa emancipação, dando o seu nome verdadeiro, Queda. Mas imagino que ao ateu a Queda só possa se referir à queda do perneta, ao chamar por Deus, que não o atende. E pelo efeito dessa baixa graça escapar entre risos, de ser pego na impostura. Deus também parece que é insensível aos clamores piegas do ateu militante, quando ele pede ad absurdum por um mundo sem sofrimento, ou quando tenta a Deus para a todo momento colocar o tempo de pernas para o ar, para mostrar ao seu bel-prazer, não sem ironia, que é, de fato, Deus. Um deus-sabujo, um deus de coleira, preso pela guia de demandas diabólicas. Um deus que atende prontamente, e, portanto, que caso atendesse, ao atender, deixaria de ser Deus.
É uma marca-diagnóstico das coisas demoníacas pedir para não ser atendido e concluir por isto que não há Quem atenda; e caso fosse atendido, instantaneamente, deixaria de ser Aquilo que o ateu acusa Deus não ser.
Nota
1. Nesse assunto estou completamente em desacordo com o ponto de vista que tem Umbero Eco, que diz em Os limites da interpretação, 2.1.1. O Modus, que Deus estaria impedido de alterar a ordem temporal do havido --- querendo estar compulsando essa noção dos gregos ---, e que, portanto, não poderia justamente violar o princípio lógico do modus ponens, pensando colocar em cheque o princípio de identidade (PI, A=A, i) ao fazer disso uma contradição que arriscaria a existência do próprio Deus. Eco consegue dizer que o PI é uma invenção da civilização grega ao mesmo tempo que é o modo como ele coloca em cheque os poderes de Deus de um modo que Deus estaria à mercê do tempo, ou do que o tempo exige, logicamente (lógica desligada da ontologia), porquanto de uma cultura que elegeu a lógica a partir de sua necessidade de ordem sequencial da racionalidade linear. Eco usa justamente dessa linearidade lógica e ingênua, que atribui aos gregos, para acusá-los (!) de racionalidade, ao mesmo tempo que que faz notar neles os cultos ao deslisamento mágico-mítico de sentido do hermetismo. Acusação que Sócrates, na base da fundação da civilização, é testemunho do contrário, mas que Eco não se demora em ignorar.
2. Curioso que essa inversão tenha no Idealismo Alemão sido reconhecido em parte como a própria definição de "idealismo".