junho 30, 2011

Sociedade de Mulheres: Primícias

VALENTINA: Ninguém mais fará nada por necessidade, pois tudo pertencerá a todos: comida, bebida, roupas, etc.. [Tudo virá de um fundo comum, trazido de cada um para todos].
BLÊPIRO (esposo): Mas não é verdade que são os larápios que possuem as maiores riquezas? ... E se alguém, ao ver uma dona formosa, quiser agradá-la com presentes, este fundo comum o pagará por ele?
VALENTINA: Para quê? Se terá o direito de ir com ela de graça! As mulheres serão comuns a todos os homens; cada um poderá ir com qualquer uma e ter filhos de quem quiser.
--- Aristófanes, Ecclesiazusae.
Que influência exercerá a ordem social comunista sobre a família?”
Resposta: Ela fará da relação de ambos os sexos uma pura relação privada... Ela pode fazê-lo, uma vez que aboliu a propriedade privada e educa as crianças comunitariamente e, por este facto, anula as duas bases fundamentais do atual matrimônio: a dependência, por intermédio da propriedade privada, da mulher relativamente ao homem e dos filhos relativamente aos pais. Aqui se encontra também a resposta à gritaria tão moralista dos filisteus contra a comunidade comunista das mulheres. A comunidade das mulheres é uma relação que pertence totalmente à sociedade burguesa e hoje em dia reside inteiramente na prostituição. A [condição da] prostituição repousa sobre a propriedade privada... Portanto, a organização comunista, em vez de introduzir a comunidade das mulheres, muito pelo contrário, suprime-a.”
--- Princípio do Comunismo, Friedrich Engels, §21.
O ‘capitalismo’ e o socialismo tem os mesmos anos, são intimamente afins, surgiram da mesma maneira de ver as coisas e se acham presos pelas mesmas tendências. O socialismo não é nada mais que o capitalismo das classes inferiores”.
--- Oswald Spengler, Anos de decisão.

----- Sociedade de Mulheres - I -----
Jim Mahoney
*
O pecado original
Por cerca de quinze séculos de civilização Ocidental, a mãe de Cristo foi o modelo do ideal feminino. Durante este tempo, a dignidade da Virgem Maria foi um marco superior e um norte para todas as mulheres. Ela inspirou as artes e a literatura e, mais importante ainda, ela inspirou mães que de volta inspiraram suas crianças a honrar e respeitar a feminilidade. A idade da cavalaria foi o produto da veneração da mulher, que se modelava pelo exemplo da mãe de Deus.
Tal mulher se comportava com e vestia modéstia; e não apenas fez sua modéstia esconder seu charme físico, mas também mascarava o que a natureza pudesse fazer sobressair com exagero e como baixo apelo. Sem as distrações físicas sempre expostas, os homens podiam aguçar o espírito para apreciar melhor as qualidades mais duradouras das suas mulheres. 
Antes de seguirmos, vamos um pouco mais longe com isso... Que sentido tem algo assim nos dias de hoje? Mas no que, afinal de contas, se torna um homem, para o qual o equivalente feminino da masculinidade é o apelo sexual? O equivalente para esse homem, que é o espelho da masculinidade, é então a atenção no desejo e no instinto. Poderíamos parafrasear Boécio, para dizer que o instinto e a natureza que nas criaturas é virtude, no homem é vício. E, ainda mais --- mas também mais difícil de se tornar consciente ---, que não há nenhum homem de verdade sob estas condições. Quando outrora os homens tinham de cortejar a mulher com reverência, não era pela reverência dedicada a uma mera distinção de gênero (ou aos seus apetites), mas àquele padrão que lhe conferiria, de volta, o valor justamente da masculinidade que se equivalia ao mais alto padrão da feminilidade. Isto, no entanto, se perdeu, e tanto que já nem se sabe que se perdeu algo.
Quando os homens compreendiam a verdadeira beleza, que esta tinha precedência sobre as qualidades físicas e a fome dos instintos, traziam guiados por aquela mulher os valores que se reconheceria por séculos como valores masculinos. Desaparecido esse valor nas mulheres por uma revolução que vendeu a liberdade e a dignidade como uma função dos instintos, ou pior, do prazer, não pôde mais o homem se tornar senão aquele cão farejador que se distingue muito pouco de seus instintos. Os valores masculinos, por isto, foram perdidos; e no seu lugar fez-se deles outra coisa, que os substituiu num simulacro que abrange, por estreitar-se com a natureza, ao maior número de homens.
Uma conclusão inevitável, para a qual se presta pouca atenção: ai de quem disser que os fracos se beneficiam desse novo homem, porque somente os fracos se beneficiam por aderir aos instintos e à sociedade de mulheres cujo valor predominante é a própria relação defeituosa que o fraco mantém com os valores femininos tornando-os os mais baixos.
A masculinidade está inexoravelmente amarrada ao feminino, e ao seu padrão, e assim que ao mudar aquele, muda também a masculinidade.
Contrariamente ao mito moderno, que associa a liberalidade ao instinto e à sedução[1] dos apelos, outrora havia um grande número de mulheres fortes; e elas eram, no entanto, invariavelmente mulheres femininas, as quais com o modelo espiritual em vigor, derivavam seu poder de sua identidade feminina integral. A influência de Maria começou a enfraquecer no século XVI. Eventualmente, na maioria do ocidente, ela começou a ser referida apenas como apenas mais uma mulher. Todas as mulheres foram rebaixadas na proporção que sua influência empalidecia.
Hoje, 500 anos depois, o verdadeiro feminino está quase completamente extinto por um furor insano que prega às mulheres que elas são iguais aos homens...  
Mas iguais exatamente em quê? Os slogans escondem na forma os meios de sedução: as mulheres são “iguais” aos homens naquilo que os diferencia no mais baixo: no comportamento sexual instintivo. Porém, se a “fêmea” é o oposto complementar do “macho” no sexo, portanto (nisso) “iguais”, a masculinidade e a feminilidade são iguais na convergência dos valores que os relacionam socialmente --- e perante Deus. É nesse ponto que se perdeu algo essencial. Daí a se concluir que a “igualdade” de gêneros deve se dar pela “liberdade” de comportamento sexual, inicialmente (e só inicialmente) conforme os gêneros naturais. Nessa "igualdade" tornam-se tão estranhos um ao outro que estes já não se encontram, mas confundem. Esse apelo de “igualdade” é o achatamento dos valores de masculinidade e de feminilidade ao nível do sexo. O seu efeito? Um só comportamento se produz: macho e fêmea desejam e o desejo deve ser saciado; o valor masculino, bem como o feminino, tornam-se (num primeiro momento) meramente “sexuais”. Se os valores de masculinidade e feminilidade são “sexuais”, e se são sexuais são desejo e instinto, porque não haveria no desejo outros gêneros, definidos conforme apraz ao desejo?
Então, enquanto homens e mulheres estão dedicados, não à reprodução, mas ao instinto seduzido, o que se tem com isto é o rebaixamento dos valores masculinos e de seu equivalente feminino àquela igualdade sexual, a mais baixa. Estão por aí infundidos novos padrões de comportamento social. Mas, por estes dias, ao que poderia se reconhecer que não a essa liberdade cuja medida é o prazer ou, talvez antes, a não-dor? Uma sociedade “de mulheres” --- dessa mulher "nova" que modifica toda a sociedade ao ultrapassar os padrões sociais que fluiam dela e refluiam na austeridade da masculinidade tradicional ---, é uma sociedade de fracos que cedem, desejam, permitem, esquecem, e daí um passo a mais, cobiçam, aproveitam, submetem, oprimem e são oprimidos. Mas a tal ponto que a opressão já começa a se parecer a um estilo de vida.
Não estranha esse apequenamento geral quando a propaganda de tantos programas sociais oferecidos vêm junto com a idéia dos “direitos” a nós conferidos, confundidos então com as liberdades da sedução pelos desejos (que já são atributos da pessoalidade no direito) e estas com a própria liberdade. “Liberdade é escravidão” --- é a máxima de Orwell saindo da ficção para a realidade; e isto não pela opressão explícita, mas pela adesão voluntária de uma maioria.
Tais valores foram destruídos por uma geração de parasitas. De todos os zelotes revolucionários determinados a expurgar a feminilidade --- levando-a ao mais baixo da mera identidade de gênero e do ato sexual ---, e com ela a verdadeira masculinidade junto, não parecem ter ainda descoberto o que uma mulher é, porquanto esperando que ela seja tão pouca coisa quanto a mera distinção morfológica na relação com os homens.
Se houvesse um inimigo inclinado a destruir toda a humanidade, ele não encontraria um lugar melhor para começar do que destruindo o feminino. 
Por que Caindo as mulheres, Caem também os homens, que tem por dever o sacrifício que espelha o valor da preservação e da defesa da sociedade, da qual a mulher é peça chave: não a causa, mas o símbolo mais visível da sociedade e a vasilha pela qual se recebe e transfere nas gerações a ordem social. Porque a ordem social é antes a forma do homem. É na mulher (e, portanto, no conceito de feminino nela) que se tem o padrão de ordem social vigente. Ela é a disciplina exigida; é o resguardo quando os homens adoecem. E é só por isso que uma modificação da sociedade não pode ser mais que uma reação proporcional ao número de mulheres que esposam (e este “esposar” tem valor civilizacional) um estilo de vida como o de hoje. 
A modificação maciça do comportamento feminino leva a uma massificação da sociedade do modo mais eficiente. Se isso é assim, é inaceitável que já se tenha abandonado esse campo para algo fundado no mero prazer fútil ou do ridículo da satisfação. Quando caem as mulheres, caem juntos os homens, e não há salvaguarda para essa queda.
*
Começar pelas mulheres
A despeito de forças sociais contrárias, as mulheres vão ainda provavelmente formar a gerações futuras. “Liberando” as jovens garotas do modelo de pureza e docilidade a Deus, e suplantando esse modelo superior com as “liberalidades” do apelo feminista, sobrevirá, já querendo que fosse por mero acaso, o peso da culpa inevitável, da vergonha e então a raiva revoltada, porquanto as gerações seguintes produzirão mães que irão inevitavelmente infundir uma vez mais suas crianças com o ressentimento e a hostilidade pelo qual reproduzem essa praga que se propaga como a peste. É outra coisa, para dizer não mais “feminino”, mas, no seu lugar, o sexo como “identidade prática” da fêmea fértil, porém cujos atributos físicos da fertilidades se tornam o mero apelo fetichista por eles. E que isto se chame a liberdade de uma opressão, é a apoteose da mentira de uma liberdade fingida para outro fim, é o que já não pode deixar de ser.
Se o ataque ao feminino como repositório dos valores da sociedade naquele antigo modelo coincide então com o declínio da religião, temos que a liberdade irresponsável impedirá a perspectiva do perdão divino, pelo quê o potencial humano de devastação é aumentado. É uma coincidência que o alardeado “progresso” da mulher feito nas décadas recentes tenha trazido com isso o jugo de um sentimento de culpa sem precedentes? E que esse sentimento de culpa passe então a ser atacado como a outra face de uma mesma “opressão”, parece que já não pode não ser o efeito esperado e o reforço desta falsificação que chama de “liberdade” ao pecado. Negar essa vergonha é querer que a culpa não exista antes como o estigma da alma pela vergonha ferida.
Da juventude promíscua, autorizada pela pílula anticoncepcional, pela camisinha, etc., ao quase universal abandono das crianças ao seu próprio cuidado, mães de ninhada e suas filhas, com o mesmo destino, carregarão o fardo da mesma infâmia. Some-se o número de mulheres que já fizeram um aborto pelo menos uma vez, e não é exagero dizer que jamais houve tantas mulheres nessa situação e, com isto, uma carga de culpa e vergonha iguais.
E se há uma pessoa a que se possa responsabilizar por esta situação, essa é a fundadora da Planned Parenthood, Margaret Sanger. Mas, a despeito de seu desconcertante currículo, ela permanece uma semideusa no panteão da esquerda.
Poucas pessoas na história foram mais cegas a respeito de suas metas que Ms Sanger. Menos ainda viveram para ver suas obras se cumprirem tão completamente quanto ela. Sanger morreu em 1966 --- décadas depois que ela clamou pela “rebelião das mulheres”:
O direito ao folguedo
O direito de ser uma mãe solteira
O direito de destruir
O direito de criar
O direito de amar [(!) livremente]
O direito de viver.” [2]
Em outro lugar, ela declarou: “A coisa mais piedosa que uma grande família pode fazer a um de seus pequenos, é matá-lo”. [3]
Quando Margaret Sanger morreu, a pílula de controle de natalidade já estava no mercado há seis anos. Poucos anos depois, o aborto foi legalizado na América. Em 2004, 35,8% dos nascimentos na América ocorriam fora do casamento. Embora ainda chocante, as feministas hoje livremente igualam o infanticídio à clemência [4].
De qualquer forma, Sanger teve extraordinário sucesso. Ela entrou em cena no momento perfeito. As mulheres no fim do século XIX e início do XX estavam inquietas com seu lugar no mundo. Quando Sanger pregou o evangelho da liberação sexual, ela encontrou uma pronta audiência.
Margaret Sanger foi uma revolucionária. Ela confortavelmente referia seus amigos como “Camaradas”, tanto quanto estava próxima dos nazistas. Sua revista de vida curta, The Woman Rebel, era uma base ainda mais sucinta de suas propostas. Mais do que qualquer outra, Margaret Sanger trouxe a revolução sexual a cada homem, mulher e criança. Revolução que ocorreu nas bases não de um governo despótico, mas na forma de uma revolução que simula e disfarça os ideais sociais dos apelos de propaganda daquelas mesmas tiranias, e com a mesma compaixão que levou Bernard Shaw a clamar por um meio que trouxesse a morte indolor aos indesejáveis que resistissem a essa engenharia social.
Se olharmos para trás, a grande contribuição de Obama foi popularizar Saul Alinsky e seu infame livro Rules for radicals. Mas, ao dedicar seu livro à Lúcifer, Alinsky entregou o jogo[5]. O espírito humano de rebelião é o eco perfeito do grito de batalha de Lúcifer: “Não servirei!”.
Diferente dos pensamento pequeno de nazistas e comunistas, que meramente buscaram a transformação das nações, Sanger mirava na criação revolucionária de uma nova raça --- bem a propósito dos revolucionários russos do século XIX, os quais pregaram viver o padrão cultural da revolução desde a sua vida privada e antes mesmo que ela tivesse sido feita na sociedade inteira. Assim, enquanto a revolução é anarquia, ela subverte de baixo; quando ela vai ao poder, seus modos tornam-se preceitos estatais que são impostos ao povo de cima para baixo.
Não obstante isto, todos os três reconheciam que suas revoluções demandavam a eliminação dos “indesejáveis” e dos “inadequados”. Hoje, a grande diferença entre eles, décadas depois dos gulags e das câmaras de gás terem sido fechados, as instituições que Sanger desovou pelo mundo estão mais prósperas do que nunca. Há cerca de 46 milhões de abortos ao ano mundo afora, com 1,2 milhão ao ano nos Estados Unidos (2005). Os abortos entre os americanos são desproporcionalmente mais altos nas mulheres entre as minorias, com as mulheres negras contando 30%, hispânicos 25% e brancos 36%. Mesmo se nós permitirmos a possibilidade dúbia de que a eugenia de Sanger não era intencionalmente racista, os resultados falam por si mesmos.
Junto ao aborto, seguem lado a lado as campanhas de estímulo ao sexo livre, “livre” dos riscos de se praticá-lo como se emanados da própria dignidade da pessoa humana (!) --- isto é, a anarquia feita em princípio jurídico superior mesmo aos códigos democraticamente constituídos.
Tão terrível quanto pode ser a destruição, é pela corrupção das mulheres que isto vem se tornando [e mantendo] possível. As jovens comprometidas pela fantasia utópica de Sanger ao amor livre tornaram-se mulheres seduzidas a deixarem-se cair na teia da culpa. E contra esta, contra a vergonha que a produz, venderam às mulheres o cinismo, traço de caráter dos homens mais fracos, para abolir a culpa como uma relíquia de preconceitos do passado. A promoção das instituições de Sanger influencia quem possa para esposar seus erros, contribuindo para o instrumento de morte que supera a cada ano seus camaradas nazistas e soviéticos, combinados.
Pior de tudo, não apenas fazem as mulheres buscar por isto, eles o demandam como seus direitos. Se prestar bem atenção, dá mesmo até para ouvir o mal rindo dessa ironia.
Notas
1. A etimologia de “sedução” diz mais: de seducere, “desviar do caminho”, “corromper”, “guiar pelo mais baixo”.
2. The Woman Rebel, Março de 1914, p. 3. Não surpreendentemente, é muito difícil encontrá-lo hoje na internet; o autor postou-o aqui. Isto precisa ser lido por todos que estão enfastiados com o feminismo.
3. Woman and the New Race, 1920 de Brentano, pp. 32s.
4. O uso da palavra “clemência” para referir à vida que não vem à vida, subentendida também aí a “liberdade” da mulher para “realização plena” de suas aspirações materiais, bem como de seus mais prontos desejos, produz também frases como as de Maria do Rosário, Secretária de Direitos Humanos do governo federal: “Não podemos obrigar uma mulher a ter um filho”. Típica linguagem invertida, que volta a infâmia da opressão, da impiedade, do racismo, etc., contra aqueles que denunciam as causas atuais desses males. (V. o artigo “A falsificação da razão”, original de Larry Anderson.)
5. Quem primeiro parece ter dito que Alinsky dedicou seu livro a Lúcifer foi o apresentador e comentarista político conservador Glenn Beck, para em seguida ser acusado de abuso ao intencionalmente atribuí-lo por uma citação inicial a Lúcifer que ocorre entre outras duas, de Thomas Paine (1737-1809) e do Rabbi Hillel (110aC-10dC). De fato, Rules for Radicals está dedicado nominalmente a “Irene”, que não aparece mais ao longo do livro; não dá para dizer o mesmo de Lúcifer.

*
The Descent of Woman”
Jim Mahoney
(Tradução adaptada)
American Thinker, 23 de janeiro de 2011.

junho 13, 2011

A praga do Desconstrucionismo

They are driving up a mountain road. The Rolling Stones’ I Can’t Get No Satisfaction comes on the radio. Billy sings along with the record with wild abandon and squirm in his seat like a toad. … The car is parked on a rocky view overlooking the ocean. He gets put of the car and dance around it, acting crazy, and howling like an Indian. … [Billy and the girl] get out of the car and move side by side into a rough terrain behind some rocks. Camera holds on the rocks. A primeval rock information. At a rhythm that is peculiarly excruciating we hear three gunshots. [...]
A montage of extant photographs representing death. The body of Che Guevara, a northern Renaissance Dutch crucifixion, bullfight, slaughterhouse, mandalas and into abstraction. A nature film of the mongoose killing a cobra, a black dog runs free on the beach. (Fade into Blackness.) […]
Seen now from behind, as he moves away from lens, he enters a desert outskirt region where he finds an automobile graveyard. He is wandering in Eternity.
--- Jim Morrison, “The Hitchhiker – An American Pastoral”
"Quer de uma ou de outra maneira, Jim [Morrison] tinha morrido de abuso de si mesmo, e descobrir como, é apenas uma questão de determinar o calibre da pistola metafórica que ele apontou para a sua própria cabeça".
--- Hopkins & Sugerman, Daqui Ninguém Sai Vivo, 12.
O discurso do demônio é um fogo que devora ambos, quem fala e a quem a fala é dirigida. Como a chama que queima tudo que encontra, ou a praga sobre a cidade, a linguagem demoníaca espalha o caos e a aniquilação.”
--- Armando Maggi, sobre o De strigimagis (1521), de Sylvestre Prierio.
Larrey Anderson [1]
Os bem-falantes continuam tagarelando sobre a fonte da selvageria produzida por Jared Lee Loughner no atentado de Tucson. Muitos na esquerda tem tentado e falhado infamar os Tea Parties pelo massacre de Tucson; ou então, mais apelativo, atribuí-lo a Sarah Palin. Enquanto isso, o gorila de 400 quilos permanece ignorado e incontestável no quarto de interrogatório. O nome disto é “desconstrucionismo”.
O desconstrucionismo é o relativismo histórico em papelotes de crack. A “teoria” está sendo livremente e abertamente distribuída a quase todos os estudantes das universidades na América [mas menos que por aqui][1]. Cursos na maioria das humanidades incluem os trabalhos de Jacques Derrida e Michel Foucault. De fato, é quase impossível encontrar um livro-texto recente sobre literatura ou cultura ou crítica de arte que não contenha frases tais qual “Como Derrida tem demonstrado...” ou, “Como Foucault tem mostrado...”, (i). Que Derrida e/ou Foucault tem “demonstrado” suas teorias simplórias é a coisa mais certa no ambiente acadêmico contemporâneo.
O que exatamente é desconstrucionismo? Vou tentar explicar estes disparate da forma mais simples e compreensível quanto possível. Os dois mais influentes proponentes do desconstrucionismo foram os filósofos franceses Derrida (1930-2004) e Foucault (1926-1984). Derrida enfocou a filosofia da linguagem e da gramática e Foucault enfatizou temas culturais (ii). O presente artigo está centrado particularmente sobre o trabalho de Jacques Derrida (iii).
Derrida desafia seus leitores a
inventar em sua própria linguagem, se [é que] você pode, ou ouça a minha; invente se você pode, ou [se expresse pela] minha linguagem para ser compreendido” [uma ironia para dizer que ele manda em você]
Postula ele,
... esta distância, divergência, delay, este diferimento deve ser capaz de uma certa absolutidade de ausência se a estrutura da escrita, assumindo que a escrita existe, constitui a si mesma” (iv).
Tais avenidas de “pensamento” (se é que essa bobajada pode ser chamada pensamento --- imagine a afetação para dizer: “assumindo que a escrita existe”) tem um lado negro. De acordo com Derrida, a escrita é um signo que significa “diferença” ou “traço”. (Ele ficou famoso por esta suposta sutileza ao usar o termo “diferença” e “traço”). Isto levou Derrida a concluir que “a escrita é parricídio” (v) porque a escrita “abre uma série de oposições denominadas ‘dentro/fora’ ” (vi):
...que, em todos os seus domínios, por todos os caminhos e apesar de todas as diferenças, a reflexão universal receba hoje um impulso espantoso de uma inquietação sobre a linguagem — que só pode ser uma inquietação da linguagem e na própria linguagem —, eis um estranho concerto cuja natureza consiste em não poder ser apresentada em toda a sua superfície como um espetáculo para o historiador, se por acaso este tentar reconhecer nela a marca de uma época, a moda de uma estação ou o sintonia de uma crise. Qualquer que seja a pobreza do nosso saber a esse respeito, é certo que a pergunta sobre o sinal é ela própria algo mais ou algo menos --- em todo caso, diferente --- de um sinal dos tempos. Sonhar reduzi-la a isso é sonhar com a violência”. (vii)
A filosofia de Derrida, vista como um sinal dos tempos, é um sonho de violência [3]. Como ele defende em seu mais influente trabalho, De la grammatologie (Gramatologia, 1967): “a escrita não é o signo de um signo, a não ser que se diga isso em relação a todos os signos, o que seria mais profundamente verdadeiro”. Um signo de todos os signos é certamente um sinal dos tempos. Assim, Derrida invoca, pelo menos implicitamente, para seus leitores completar o “sonho de violência. Em outro lugar, ele urge seus leitores para
ir aonde vocês não foram, ao impossível, que é de fato a única e verdadeira via para ir e vir”.
Desde que a escrita, de acordo com Derrida, é ou sem sentido ou já não pode deixar de ser uma mudança de interpretação imposta pelo leitor, o “impossível” está inextrincavelmente ligado, para Derrida, à violência. Um dos capítulos de Derrida em A escritura e a diferença é “Violência e metafísica”. A Metafísica --- que significa literalmente “além da física” --- parece ser, ipso facto, para além da violência. Não pode haver violência sem que algo físico ocorra. De acordo com Derrida:
A dimensão dativa ou vocativa que abre a dimensão original da linguagem, não se presta a si mesma à inclusão e modificação pela dimensão acusativa ou atributiva do objeto sem [um ato de] violência [i.e., ato arbitrário de fundação de referência]. A linguagem, portanto, não pode perfazer sua própria possibilidade numa totalidade [ter sentido em si mesma para com um referente] e incluir em si mesma sua própria origem ou seu próprio fim” (grifado).
Aqueles leitores que estão treinados em gramática reconhecerão que estas sentenças não fazem sentido desde que [expressem-se] escritas --- mas isto é um aparte (viii). Derrida está explicitamente induzindo seus leitores a acreditarem que a linguagem é impotente a menos que seja completada [ou efetivada] pela violência. [4]
Derrida nos dá sua solução para o seu falso dilema da linguagem poucas páginas depois:
Como a fala e o olhar, a face não estão no mundo [i.e., a negação da presença do ser], desde que isto abre e excede a totalidade [v.g., a “unidade/identidade” das totalidades parciais]. E por isto marca os limites de todo o poder, de toda a violência e da origem da ética. De certo modo, o assassinato está sempre direcionado à face, mas pelo qual sempre a perde.” Assassinar é o exercício de um poder sobre aquele que o poder escapa”. (ix)
A escrita é fugaz. O falar é impotente. Quer poder real? Atire em alguém... preferivelmente no rosto. Isso não é filosofia. Isso não tem nada a ver com metafísica. É apenas gíria de gangster abstrusamente mascarada de filosofia. E para muitos estudantes universitários influenciáveis, estas coisas são leitura obrigatória [e as linhas inteiras de desenvolvimento da maioria das universidades brasileiras nas cadeiras de humanas].
Agora, vamos a uma breve exposição das motivações e inspirações de alguns assassinos em massa recentes e alguns outros, frustrados.
Em 1972, quando Derrida começou a ficar famoso na América, Arthur Bremer tentou assassinar George Wallace. Bremer não foi motivado pela política --- ele queria fama. Ele manteve um diário de seus planos (o qual inclui o possível assassinato de Richard Nixon --- Bremer não era particularmente político ou incorrigível). Seu diário foi publicado em 1973.
O livro de Bremer formou a linha central básica do caráter no filme de Martin Scorsese, “Taxi Driver”. Este é o filme que inspirou a tentativa de assassinato de 1981 de John Hinkley contra Ronald Reagan. (Por aquele tempo, Derrida estava no auge de sua fama. Ele era lido abundantemente nos Estados Unidos.) Hinckley se julgava um poeta e um escritor. Em 1978 ele mudou sua área na Texas Tech de Administração de Negócios para o curso de Inglês. Ele atualmente escreve poesia e canções em uma instituição mental.
O assassino em massa Seung-Hui Cho estava também no curso de Inglês --- um aluno Senior na Virginia Tech onde ele massacrou 32 pessoas antes de cometer suicídio e terminar a sua carreira literária. Não surpreendentemente, sua estória curta, “Richard McBeef”, é baseada em um fracassado parricídio onde o filho ataca a face do pai:
John [o filho] parte sua barra de cereal de banana pela metade e tenta enfiá-la na boca de seu padastro e nele empurrá-la goela abaixo”.
Como Cho, Jared Lee Loughner também estudava Inglês e poesia no colégio. A obsessão de Loughner com a gramática e com Nietzsche deveria dizer-nos algo dele. ...Algo óbvio. [5]
Como está na busca de Sócrates por tentar responder a respeito da verdadeira natureza filosófica contra suas deformações, diz na República,
Devemos agora considerar as degradações [da melhor natureza filosófica]: como ela se perde entre o maior número, como não escapa à corrupção, exceto em alguns poucos, aqueles a quem se cognomina, não perversos, porém inúteis [os de natureza débil]; consideraremos, em seguida, aquele que finge imitá-la e se atribui seu papel: quais as índoles que, usurpando uma profissão de que são indignas e que as ultrapassa, resultam em mil desvios e prestam à filosofia esta irritante reputação que assinalas” (490c-491b). (x) [6]
É tempo de desconstruir o “desconstrucionismo”. Sabemos muito bem que devemos começar a levar a sério esta praga e seus possíveis efeitos sobre os jovens em nossas instituições de educação “superiores”.

Notas do autor
(i) Aqui alguns poucos scholars que li que escrevem nessa mesma linha: Stanley Fish, Mas'd Zavarzadeh, J. Hillis Miller, Michael Riffaterre, Rosalind Krauss, Nicholas Fox, Paul Fry, Michael Fried, Cornel West, Christopher Norris, Svetlana Alpers, E. Ann Kaplan, Geoffrey H. Hartman, and Griselda Pollack... para iniciantes.
(ii) Foucault, por exemplo, teve a audácia de afirmar que a sexualidade “é o nome que pode ser dado a um construto histórico” (A história da sexualidade, Vol. I, cap. 3). Isso poderia ser surpresa, não apenas para pessoas sãs, mas para todos os animais que procriam via gênero (assumindo que eles jamais leram Foucault). Foucault atribui a culpa de todas as nossas doenças mentais à burguesia --- incluindo moléstias mentais. E.g., seu trabalho influenciou grandemente o psiquiatra R.D. Laing. Escrevi sobre o assunto aqui.
(iii) Derrida foi influenciado por Nietzsche, Ferdinand de Saussure, Heidegger e Paul de Man. O trabalho de todos estes escritores foram promovidos na academia. (Veja o programa). Os dois últimos homens na lista foram membros do Partido Nazista e/ou abertamente antissemitas. Derrida, cujos parentes eram judeus, vociferou e publicamente denunciou seus familiares e sua herança judaica. Ele defendeu os escritos de Man --- alguns dos quais conclamando por uma “solução final” ao “problema” Judeu.
(iv) Ênfase minha. Tomado do artigo “O contexto do evento da assinatura”. Parte do subtítulo desse artigo é “Do escrever: Que Talvez Não Exista”. Experimente, então, pensar, por um momento --- já que Derrida parece ter se negado a isso ---, sobre ter escrito esse subtítulo nonsense.
(v) Derrida, "La Pharmacie de Platon," 1972, p. 189. Ênfase minha.
(vi) Citado em Hermeneutics as Politics, de Stanley Rosen, Oxford University Press, 1987, p. 82. “Interior/Exterior” é também do livro Pharmacie, p. 118, de Derrida. Hermeneutics as Politics é provavelmente o melhor livro sobre a relação do desconstrucionismo à cultura e política contemporâneas.
(vii) Ênfase. Jacques Derrida, A escritura e a diferença, cap. 1, “Força e significação”. Tradução ao Inglês de Alan Bass, p. 3; [ao Português, de Maria Beatriz Marques Nizza da Silva (Ed. Presença), p. 12.] Observem o título. O capítulo inteiro é digno de ser lido para se compreender a ligação entre o uso da força e a noção de Derrida de que o leitor é escritor, ou différence. Algumas páginas abaixo, imagine um estudante tentando entender a seguinte passagem:
Este assombramento que a impede aqui de voltar a ser natureza é talvez em geral o modo de presença ou de ausência da própria coisa na linguagem pura. Linguagem pura que gostaria de abrigar a literatura pura, objeto da crítica literária pura. Nada há portanto de paradoxal no fato de a consciência estruturalista ser consciência catastrófica, simultaneamente destruída e destruidora... [p. 16]. Para apreender mais de perto a operação da imaginação criadora, é preciso portanto virarmo-nos para o invisível interior da liberdade poética. É preciso separarmo-nos para atingir na sua noite, a origem cega da obra [p. 19].”
(viii) Como pode a violência modificar a relação entre denotação de substantivos, pronomes ou adjetivos? Estas relações são estabelecidas pelas leis da gramática, pelo exame que se faz do uso tradicional das palavras.
N. do T. – A razão disso é que quando o desconstrucionismo fala em “relação” ele está se referindo ao ato de violência que estabelece esta relação. Como disse uma professora universitário alhures:
O problema foi quando se estabeleceu essa relação [perversa] de uma estrutura onde há um sujeito que age [sobre algo ou alguém paciente]...”.
Para essa linguística do desvio, o uso tradicional das palavras é o substrato sedimentado de um “ato de violência” esquecido e feito no hábito “normal”ou “consagrado” no seu “momento de estabelecimento” por um grupo predominante. Uma de suas fontes é o preceito baseado em Ludwig Wittgenstein, de que o ato de estabelecimento das regras do jogo já faz parte do jogo em si. Daí por que voltar até o ato obscuro de instauração, um ato de criação poética, então já comparado a um puro ato violência, porque arbitrário.
(ix) Grifado. A citação final é de Emmanuel Levinas. Um dos últimos trabalhos de Derrida tem o título A bênção da morte. Uma retrospectiva positiva de seu livro diz:
Derrida pretende libertar-nos da suposição comum de que a responsabilidade está associada a um comportamento que se ajusta a princípios gerais que podem ser justificados publicamente (i.e., liberalismo). Contrária a esse julgamento, ele enfatiza a… “singularidade radical” ...” [sic.] [grifei].
(x) 490c-491b.
Notas do tradutor
[1] Larrey Anderson é escritor, filósofo e Editor Senior do American Thinker. Ele é autor de um premiado romance, The Order of the Beloved, e das memórias Underground. Trabalha hoje num novo livro: The Death of Culture.
[2] O desconstrucionismo parece ter somente um fim, o de levar ao chão toda capacidade da inteligência onde ele é ministrado criando linhas de desenvolvimento supérfluas e que danificam a mente dos estudantes até o fim.
[3] E ao dizer isto, fazemos com que o que descrevemos já fazemos uso, que significa que, pelo menos, se estivermos errados, tenhamos criado o que descrevemos.
[4] A linguagem como um “construto” que se impõe num determinado ato onde as relações de referência (e relação) se originam. Que para romper com estas relações a criatividade poética se confunda com um ato de violência, já não estranha. Que ela possa justificar todo tipo de mito pessoal e possa ser mesmo um Zeitgeist, a medida que se acredite que exista o Zeitgeist, parce já uma conseqüência inevitável.
[5] O existencialismo de Jean-Paul Sartre não pode ser desprezado no contexto desse passo adiante que foi o desconstrucionismo de Derrida. Admitir que a existência precede a essência, coloca sobre o ato moral a ênfase mais no “ato” que na moralidade desse ato. O homem é completamente responsável pelos seus atos, mas a medida de julgamento dessa “responsabilidade” simplesmente já não existe. O existencialismo de Sartre é o solipsismo imoral que Dostoievsky denuncia quando diz “Se Deus não existe, tudo é permitido”. No mesmo sentido está a referência à “autenticidade”, merecida e não aprendida. O termo é largamente usado pela esquerda para dizer qualquer coisa como a substituição da consciência, que em Sartre entra em um círculo auto-referente, para dizer, por fim, a adesão sem maiores explicações a uma causa.
[6] A alma débil ou medíocre, instruída como uma alma vigorosa, pode não ser capaz daquele mal que perverte, mas pode ser a força de ignição do mal (ou de adesão) na sua expressão mais torpe. Id., v. entre 491b-e e 492e.
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Death by Desconstrucionism”
Larrey Anderson
American Thinker, 24 de janeiro de 2011.

junho 06, 2011

Epilepsia petista e convulsão social

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Prestidigitadores e feiticeiros
Uma discreta nota dos jornais de há alguns dias é uma daquelas pedras de toque para entender a diferença, hoje borrada, entre Direita e Esquerda. José Eduardo Dutra, do PT, foi afastado da presidência do partido ao ser diagnosticado como “epiléptico”, Ao que parece, por ter paradoxalmente reconhecido em si mesmo o traço mental que é premissa para a admissão ao Partido dos Trabalhadores.
Há muito que a Direita é associada às oligarquias, às elites, aos poderes legais e ao empresariado a estes associado. Renan Calheiros disse à época das vacas-nenúfares em notas frias que o processo que moviam contra ele no Senado era esquizofrênico. Pois, ora!, se a realidade não podia aceitar vacas que não há, isso não lhe diz respeito, que tudo continua, como ele pode demonstrar ouvindo uma música de elevador apascentadora, na mais perfeita normalidade.
As antigas “direitas” são oligarquias endêmicas em cada região brasileira, como não se desconhece e é o que se pode dizer que “todo mundo sabe que...” sem a nuance de ironia (ou estupidez) que a expressão traz sempre consigo. Como outros “cabras-águias” da sintaxe popular de há uns cem anos atrás, de notável fama e invejados, os quais Monteiro Lobato reconheceu com aguçado tino sociológico serem os empreendedores civilizadores desta terra. O grileiro tem o sentido realista de que os papéis públicos são peças de ficção e muito antes de Hollywood ter inventado os efeitos especiais, e de Obama tê-los levado para uma peça de teatro rocambolesca inferior, o rábula-alquimista já fazia as suas prestidigitações ante as quais a realidade duvida de si mesma.
A Direita tem por faculdade marcante a prestidigitação, para fazer os “transcendentais” da burocracia e da ordem civil se confundirem, e enquanto todos prestam atenção nas mãos, perdem a coisa mesma. É vantagem sempre da Direita: ela acredita na realidade. Ninguém duvida, no entanto, que o que ocorreu na frente de seus olhos seja um mero truque da complexidade que escapa à ingenuidade e à boa fé. A Esquerda, por sua vez, tem pela realidade uma forte desconfiança, e se a prestidigitação é a arte magna da Direita, a feitiçaria e os sortilégios são os recursos destas almas sinistras.
Num, a ênfase parece estar num realismo cínico, na manipulação da atenção do espectador, para alguma vantagem; no outro, nalguma correspondência com a realidade, por alguma sombra de alma, o que parece revelar ao homem de esquerda o lugar de um segredo que pode ser conjurado para abrir o mundo a outra realidade (de um “em si sempre mais aquém). A Direita é o artifício, a Esquerda uma sintaxe mística e arte evocatória. Se as duas coisas se juntam, temos o pior tipo de malfeitor, capaz de iludir a todos enquanto mãos ágeis modificam a ordem das coisas esperando que da desordem que os beneficia antes --- quer dizer, agora --- surja uma sociedade melhor no futuro para todos.
Da própria definição de “extrema-direita” que faz a esquerda, o uso da “força”, o “ódio” e o “racismo” habituais não estão presentes no caso de Renan, mas a força econômica, a plutocracia e a retórica do clichê performático, é tal o teatro que desmente as provas da falsificação como se ungido pela mais pura ingenuidade --- ou, pela simples dificuldade de se articular uma resposta retoricamente forte perante a complexidade da artimanha. É onde a direita e a esquerda se confundem, pois esse traço de caráter (a falta dele, no caso) que se encontra com luz de reflexo asinino na face de Lula quando ele desconversa sobre o mensalão, ou na singeleza ingênua de Renan Calheiros, quando ele se surpreende com as inconsistências entre as suas notas fiscais e a realidade, é isto a forja de um homem imaculado e sem pecados enquanto a atenção possa passar pelo processo de sublimação e decantação alquímica do caráter. Substituto moderno da confissão cristã e do reconhecimento do pecado. Não é à toa que ambos acabam juntos numa base de governo amigada e toda justa.
O meio de corrupção, para ambos, ser a máquina estatal e a iniciativa privada que já é tão grande que não pode não estar muito próxima do estado brasileiro, é de um tipo híbrido outro de ser que se conjuga para confusão nossa nos opostos habituais. É nesse sentido que a esquerda se mostra anfíbia --- ou quando a terra e a água se misturam e sublimam para decantar no fundo da retorta o segredo de outra realidade.
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Perda do senso de realidade e convulsão social
A direita acusa a realidade de esquizofrenia quando lhe pegam declarando vacas-nenúfares para que, enquanto as olham, leves e passageiras, perdem-se na floresta burocrática e fisiológica. A esquerda, esta por seu turno, tem esse curioso efeito da linguagem politicamente correta que ameniza a afetação patológica com o nome cabrito de foco irritativo cerebral idiopático” para parecer análise o que é mero delírio. Bem que gostaria de ter encontrado algum esclarecimento sobre o assunto, mas na falta disso, que o nome parece ter sido inventado para analiticamente não dizer do que se trata, nem criar qualquer analogia que pudesse fazer ver que o comportamento da esquerda não tem lá da prestidigitação da direita, passando logo, para enquanto a denuncia já a superar à mais pura alucinação.
A Esquerda abusa da manipulação do politicamente correto, que é pouco menos que uma alucinação, enquanto a direita leva o clichê a um ato performático de (fingida) ingenuidade que só pode terminar dizendo que a realidade não é, afinal de contas, tão ingênua como se faz passar.
Pois, bem; por “cerebral” não vejo como identificar outra coisa que um eufemismo, já que nenhum termo técnico psiquiátrico usaria o termo sinônimo de mente para designar que se trata de afecção psiquiátrica no dedão do pé. Que me lembre (muito por alto), “irritativo” quer dizer disfuncional, vá lá: “foco” disfuncional, então, que dá em algo como um “evento disfuncional”, de causa desconhecida no cérebro (onde mais seria?), já que “idiopatia” quer indicar espontâneo, isto é, que tem causas obscuras (!) ou desconhecidas.
Engraçado; os homens de esquerda sofrem disso ao longo de toda a vida e historicamente é quando os sintomas da moléstia se mostram mais plenamente realizados, também onde, por efeito, se observa aquilo que está ausente em Dutra, a “convulsão”: tentar um mundo que jamais deu certo, concluindo que, por certo, não fora outrora o mundo agora tentado, pois que era perfeito, para voltar a trabalhar por ele como ele deveria ter sido. É uma lógica fechada na sua alucinação mais recalcitrante que pretende que o que nunca fora nem em pequena escala, deva ser tentado ainda para o mundo todo; e só se dão conta de que esse tipo de pensamento é patológico quando a mente que o aplica --- o que se quer dizer com o termo “cerebral” no palavrório psicológico --- desliza usar a mesma mentalidade para realizar as mais simples tarefas cotidianas.
De fato, a falta da convulsão não é ausência, mas o sinal de outra natureza: a alucinação pessoal precede a convulsão social.
Outro termo que sugere familiaridade para causas desconhecidas, logo, nada familiares, é “epilepsia”. É um tipo de termo coringa, que é do hábito das medicinas se valer com grande flexibilidade eufemística para designar a perda de funcionalidade mental ao ponto de se babar no carpete. O nosso garotão aqui, o foco irritativo cerebral idiopático”, quer dizer então, “perda sem causa nem explicação da capacidade de discernimento da realidade”. Função de realidade é o aquele termo que Freud jamais teira cunhado caso tivesse nas mãos apenas pacientes de esquerda. Ninguém irá negar que o problema dos homem de direita seja o deslocamento da realidade, mas, pelo contrário, um excessivo apego à realidade eficiente, junto a uma atitude cínica para com o que a realidade não lhes impôs como obstáculo.
Se os homens de esquerda falsificam a realidade, acertando o rigor no discurso ideológico, a direita acerta a realidade manipulando a simbologia algébrica da burocracia estatal.
Se Renan Calheiros falsificando papéis altera a realidade (o “rábula-alquimista” de Monteiro Lobato), senão isto a pô-la acamada, a fé na disciplina econômica e na lógica da esquerda geralmente é muito rigorosa para sempre produzir resultados que mostram que os princípios de engenharia social de que se valem são menos científicos que as mágicas prestidigitações da direita. Não é por outro motivo que Monteiro Lobato reconheceu no desonesto grileiro um papel “civilizador” --- isto é, que realiza um mundo, pondo-o em progresso, a despeito de sua intenção principal ser o progresso próprio.
Os “pensamentos elevados” da esquerda, nas palavras de David Coimbra, são sempre muito mais elevados do que se está disposto a reconhece, que deambulam longe no futuro quando já se está propenso a aceitar que a democracia é meramente um nível de civilidade do qual já ninguém ousaria divergir. É por este motivos que a desfaçatez absoluta, a mentira compulsiva e a defesa inacreditável do indefensável ganham espaço num cenário político cada vez mais ensandecido, pois uma vez que se adote a defesa do inacreditável e do intolerável, a reação a altura só pode sair de fora do padrão de polidez sendo por isto imediatamente merecedora da denúncia de intolerância e truculência, ao que todos aderem mais do que rápido.
A realidade nas meras palavras! O rigor dos princípios sociológicos da esquerda projeta no futuro um mundo perfeito que dá, curiosamente, num aumento dos aprendizes de alquimista conduzidos pelos gurus ocultistas da esquerda. Por que antes do exercício da Grande Arte é preciso acreditar que o segredo está sempre mais fundo, que ele é sempre mais íntimo, senão para os inciados. É quando começa a experimentação na prática do imponderável que leva à vertigem. Então já não dá para atribuir ao reino de faz de conta da direita esse efeito.
O estado socialista conjurado por ritos mágicos produz o reino da prestidigitação social. A burocracia e as chicanas são a sua linguagem. A Grande Obra nesse mundo mágico é que nele a palavra pronunciada, que é sortilégio, funciona como profecia; um cético moderno chamaria de “engenharia social”. Mas esse mundo não passa de uma Matrix sonhada, uma matriz hipnopédica, toda feita em laboratório --- mas aí, já aí, ai de quem não ver a roupa do Rei Nu.
Palavras mágicas tornam-se o recurso mais realista, porque a própria racionalidade é já um tipo de mistificação: “Em pleno século XXI...” alude um progresso sonhado por futuristas do século XIX; mas já não é possível se admitir que não seja de todo evidente esse consenso altamente improvável do que se supõe simploriamente. O caso recente da campanha pelo desarmamento, de José Eduardo Cardoso, que surdamente leva adiante esse iluminado programa que ignora que desde que se vem recolhendo armas o número de assassinatos passou de 48 mil ao ano para além do simbólico 50 mil de fato. Não é outra a epilepsia que sofre Maria do Rosário, que pretende que o aborto seja um direito da mulher, excluir um parasita que a suga e produz estrias e celulite. Ou Lula e sua fórmula triádica: ultraja-se e manda apurar, duvida e relativiza e, por fim, nega veementemente. Ou ainda quando Tarso Genro, Ministro da Justiça, desmente todos os tribunais, por aqui e d'além-mar com conjecturas ultrajadas. O mesmo de novo, quando estatuído o código de ética do PT, e de plena posse de seu direito polêmico à opinião, são expulsos sumariamente os petistas que abertamente condenaram o aborto, enquanto Delúbio, pouco depois de expulso pelo mensalão, é readmitido. Ato justificado pela mais nobre piedade a alguém que se equiparou a um condenado perpétuo, mas que nobremente jamais negou “a causa”.
Pouco ainda se disse sobre a segunda realidade habitual a essa “epilepsia”. Terem homologado a reserva indígena de Raposa Serra do Sol de forma contínua, expulsando os moradores brancos pela delirante natureza do "bom selvagem" em harmonia com a floresta, para em seguida ouvirmos dos investimentos de uma barragem e uma pequena hidroelétrica local. Afinal de contas, as vastas áreas necessárias a alma natural do índio não dispensa o televisor e o freezer. Estas coisas parecem provar que a realidade, como se referira a ela Renan Calheiros, tem de fato tabiques de racionalidade diferencial: isto é, está esquizofrênica. Ou ainda e de novo a defesa da “tolerância” universal com medidas racistas de fato, o combate ao turismo sexual e a discriminação (i.e., que a nota) de gênero em menores de idade por critério de opção que elas não podem fazer por definição legal.
A disfunção esta pode assim ser chamada “epiléptica” quando ocorre no nosso quarto; quando ocorre dentro de um partido político ou no governo, ou numa sociedade inteira, ganha o nome genérico de Socialismo.
Diferente do ministro da justiça, Dutra mostra que tem lapsos de sanidade, a ponto mesmo de poder perceber que se tratava de uma disfunção por ele mesmo. O mesmo jamais aconteceu com Lula e nem por isso (ou justamente por isso) ele sentiu, em qualquer tempo, a necessidade de entregar o cargo. O pessoal por aqui parece que não se dá conta de que o foco irritativo idiopático já há muito tornou-se epidêmico e que é já quase padrão de normalidade.
Claro, talvez as funções que os nossos governantes sinistros representam, sob a nossa Constituição cidadã laica e futurista (i.e., "teleológica"), talvez realmente mais necessitassem destas disfunções do que delas se ressentissem. O que tirou Dutra do comando petista não foi a “epilepsia”, mas tê-la inadvertidamente notado em si mesmo.