agosto 31, 2010

Terrorismo reverso: lavagem cerebral


E não há discrepância entre suas propostas e o que está em discussão, hoje, no resto do mundo civilizado.
- L.F. Veríssimo, na Zero Hora, dizendo que o PNDH-3 não tinha nada demais, pelo que leu, por alto.
Olha, se ler bem [o PNDH-3], vai ver que não tem nada demais.
- André Machado, Rádio Gaúcha, programa “Atualidade”, sobre o PNDH-3, esclarecendo os ouvintes no sentido oposto da grave advertência que faziam Ives Gandra Martins e Paulo Brossard.
Como no caso da fazenda do Lulinha ou a história do dossiê [contra Serra], requentada, como se tentara antes, [se está fazendo] uma campanha pautada por boatos, por acusações... A RBS, nesse ponto, está decidida a uma agenda 'propositiva'...
- Rosane [não textual], Rádio Gaúcha, programa “Atualidade”, igualando as acusações de Índio da Costa da ligação PT-FARC com os, segundo ela, boatos do enriquecimento de Lulinha e da fábrica de dossiês do PT.
(Ensaio de um estudo de caso sobre a lavagem cerebral e a posse do indivíduo pelo Poder.)
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Terrorismo: o fato pela figura de linguagem
O primeiro confronto entre Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio, hoje à noite na TV Bandeirantes, será a oportunidade para virar a agenda da campanha, que até aqui vem patinando em questões secundárias. No primeiro mês de campanha oficial, predominou a intriga, o ataque, o contra-ataque e as alfinetadas por parte dos candidatos, enquanto os militantes de um lado e de outro se encarregavam do terrorismo, semeando medo entre os eleitores". (Rosane de Oliveira, O debate que interessa”. Zero Hora, 05.08.10)
Por “intriga”, suponho, deve ter o sentido daquele ardil que o assaltante imputa à testemunha do flagrante quando ela grita “Pega ladrão!”.
Mas algo assim é hoje coisa inaceitável para a polidez radical dos nossos apresentadores de auditório, uma vez chamados “jornalistas”. Mas também um fenômeno bem comum da moderna mídia, onde o layout é o conteúdo.
Somente o hábito reiterado de tomar o conteúdo pela forma pode explicar que a denúncia de um crime, mesmo de ato flagrante, deva ser precedida de “ampla defesa”. Que na voz de prisão se especule com polida atenção e seriamente que possa ser inconstitucional negar a mais ampla defesa a quem se acusa no ato mesmo do crime.
Casos iguais ao do assaltante magoado com o flagrante, onde se invoca a dupla torpeza para processar a testemunha, foram objeto de atenção do advogado Alexandre Magno Fernandes Moreira, professor de Direito Penal e Processual Penal, no artigo “Medo de Justiça”.
Ainda por isto, talvez esteja aí a razão pela qual se chega a entender que incida reversamente a imputação de crime, simulando a tipificação, projetada como figura de linguagem sobre quem acusa.
Assim, as ligações do PT com a organização terrorista FARC, apontadas por Índio da Costa, passaram a ser tratadas como atos de “terrorismo” verbal indecoroso, sem que em nenhum momento se tivesse chegado ao mérito, levando todos os pontos à discussão pública, como se deveria, e daí a que tipo de ligação e às suas consequências.
Ficou claro, mesmo se assumindo não haver clara e manifesta má-fé, que se evitou tentar apontar as falhas das evidências das ligações PT-FARC porque até então já se havia omitido demais para recuperar o que dá fundamento a essa acusação. E, ou, semelhante ao que ocorreu recentemente no caso do grupo “JournoList” [1], nos Estados Unidos, o sinal claro é o de que parece ter havido um acordo acanalhado (talvez sem palavras) para não se tocar no assunto.
Levando em conta que é letra morta invocar a própria torpeza para abrandar o caso, tudo recai sem dúvida em omissão criminosa de falsidade ideológica, fraude contra o consumidor e de perfídia lesa-pátria, pela omissão de fatos, pela negação aos ossos do ofício e pela afronta à mínima conduta que garante nas verdadeiras democracias a livre circulação de informações.
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Xenoglossia puritana
Os “militantes”, no plural, quer dizer, “de ambos os lados”, que vem de uma daquelas figuras de linguagem que são um pensamento pronto e, em si, coisa para lá de patente: “radicais existem nos dois lados”.
Alguém ouviu certa vez a frase com a expressão “caminho do meio” e viu nisso a coisa mais supinamente equilibrada, polida e moralmente superior, e desde então essa estrovenga se tornou uma das premissas (ocultas) obrigatórias de qualquer discurso contemporâneo, que esclarece à realidade quando ela sai da sua natural harmonia (v.g., olhar inquisidor para a realidade).
Eu, de mim, penso que isto seja um tipo de deísmo quietista, por isso tenho esse fenômeno da polidez e dos regulamentos de publicação dos jornais por algo bastante próximo do que seja um “jornalismo puritano” --- o tipo liberal americano. Ao contrário do que se pense, o nosso liberal e o liberal americano são na maior parte o mesmo. Diferem apenas que os liberais de lá são menos ligados ao liberalismo econômico, que me conste, enquanto aqui o são, majoritariamente.
Deísmo, porque o liberal adora um sentido de ordem abstrato e distante, que paira sobre tudo com ponderada justiça, sendo a ponderação radical e a polidez já um tipo de fundamentalismo amoral. E, por ser amoral, reproduz-se essa divina Superioridade moderada: que “todas as verdades são relativas”. E quietista, porque a entrega pacífica pela narcose da relativização amoral leva ao autossacrifício ritual.
Certa vez, os homens conduziam-se pela sua fé; hoje comportam-se com a mesma observância moral, mas sem confessar qualquer fé. Se antes os homens aspiravam a Deus, e isto se via refletido no seu comportamento, hoje o seu comportamento apenas sugere algum deus. Quando esse homem, de pureza laica ergue a cabeça, vê Godot, um símile projetado desde as câmaras obscuras de suas cabeças ocas.
Homens possuídos por um deus ausente juntam-se em hordas de cadáveres que falam sem mover os lábios, que o que dizem é como meio para um outro.
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O ritual perverso da tolerância
Numa civilização democrática, onde o barbarismo não é mais aceitável, por indelicado que seja, atentados a bomba, apoio a grupos terroristas, envenenamento de adversários, assassinatos e sequestros podem existir dentro do universo daquele tipo de radicalismo de linguajar que, para Rosane de Oliveira, é feito de baixo nível e falta completa de etiqueta.
Lembra-me Brazil, de Terry Gilliam, quando um atentado a bomba espedaça vários comensais num restaurante enquanto senhoras apavonadas e cheias de botox permanecem cuidadosas de mesuras fúteis e melindradas por insignificâncias, alheias ao “demais”.
Aquele cenário já nos é tão familiar que a própria familiaridade, de tanta, já parece bizarra demais para despertar para ela.
Por trás das máscaras daquelas socialites mumificadas pela plástica temos o que podemos ver todos os dias no debate público brasileiro: tudo que dizem por aquelas bocas de cera, todo aquele amoralismo soberbo e a isenção superior que advogam, parece tão falso quanto as próprias bocas repuxadas.
Enquanto bombas explodem, Rosane ultraja-se com as alfinetadas políticas que denunciam o terror anônimo (portanto, talvez “suposto”) dos grupos terroristas; ato contínuo, acusa anônimos --- só para reunir mais fácil --- de disseminar o “terror”, mas evita tocar, como se fossem agulhas infectas, nos pontos mais evidentes do conteúdo das acusações “desairosas” daquele selvagem, o Índio.
Sequestrados, mutilados e mortos são sintomas tratados com declarações oficiais tópicas de apelo à normalidade. No filme Brazil, não fica claro quem são os terroristas. Atentados violentos ocorrem enquanto o governo persegue profissionais “autônomos”, clandestinos (anônimos!) como o sr. Tuttle (Robert de Niro). As grandes empresas, indústrias e corporações são praticamente “convidadas” a compor o estado, como fizeram soviéticos e nazistas, mas tudo funciona apenas pelos escaninhos da corrupção.
A vida terrivelmente controlada, impessoal e burocrática é o resultado de uma sociedade que busca a felicidade acima de tudo, o bem-estar material e baixos desfrutes; que produz pessoas frígidas, fúteis, catatônicas e moralmente estúpidas.
A propaganda grassa com hipnóticos visuais de utopias. Dá para desconfiar, lá pelas tantas, que talvez o próprio governo seja o autor dos atentados, para renovar seu apelo contra os “terroristas”, enquanto vende normalidade à mancheia. Não haveria uma luta ideológica, mas uma complexa unidade de ação por traz de Brazil. Por aqui, enquanto há grupos radicais isolados, os moderados parecem se justificar.
Rosane substitui atentados a bomba por “agulhadas” retóricas de terrorismo político.
"Como todo ato terrorista, o que quer é perturbar, semear o medo na população, provocar ceticismo entre as pessoas, entre as autoridades; isso não vão conseguir" [Santos, presidente da Colômbia. 12 de agosto de 2010. Reuters-Yahoo].
A covardia leva à indigência mental, inexoravelmente; seu efeito mais visível é a inversão completa da cabeça pela bunda (à la Jim Carry). Quando Rosane diz que militantes de um lado e de outro se encarregavam do terrorismo, semeando medo entre os eleitores, equipara, indo pelo “caminho do meio”, a perturbação, o medo e o ceticismo na população que o terror real causa à mera acusação de terrorismo carregando a esta com toda a indignação contra o inaceitável.
O mais perverso de tudo, é usar o termo “terrorismo” para indicar como figura de linguagem aquele que aponta as ligações dos que justificam e apóiam (mesmo quando indiretamente) o terrorismo real, transigindo perante a justificativa ideológica --- a mesma justificativa que quis que assassinos políticos estivessem moralmente acima da vida de alguns poucos.
A tolerância patológica do jornalista é já um efeito do medo do radicalismo de alguns somado aos abstrusos “direitos” inversos que defendem os que agridem, que incluem os segundos colocados entre os primeiros, que combatem o racismo fazendo leis discriminatórias (com critério na cor da pele), que condenam o cigarro e o álcool e lutam pela liberalização da maconha, o aborto como questão de saúde, etc., que, no meio disto, já nem podem perceber quando chamam de “terroristas” quem testemunha contra o terrorismo, do que, recentemente, é Ingrid Bettencourt o melhor exemplo; que quando libertada pelo governo Colombiano das FARC, defende esta e processa aquele.
Mas isto só pode funcionar contra a tibiez pudica, que são sempre aqueles mais influenciáveis. É a tranquilidade dos ruminantes atacados pelos grandes predadores, que calmamente entram em estado catatônico soltando-se à morte no último instante e é como que se não sofressem.
Na mesma ladainha ritual, Rosane “pondera” que a acusação de ligações com grupos de narcotraficantes é equivalente a ameaça de pôr fim ao Bolsa-Família ou a atentados a dossiês que ela supõe falsos de bate-pronto.
O relativismo do equilíbrio polido permite que o jornalista paire impoluto acima dos fatos e acima do senso das proporções, que o obrigaria a discriminar o certo do errado. E, eventualmente, a apontar a conduta inaceitável, quando menos.
A perturbação, o medo e o ceticismo entre as pessoas produzidos pela terror real, bem como pelo terror psicológico, já se manifesta na tibieza dos profissionais dos principais meios de comunicação (quando honestos), quando estes se mostram ultrajados com palavras, sem poder sequer sentir verdadeiro medo pelas ações reais que deveriam estar sendo devassadas pela profissão. Porque o medo leva à cautela, e com um pouco de coragem, leva à precaução ativa que pode impedir que se mantenha esperando por provas definitivas num ponto onde saber da verdade já não dá nenhuma margem de defesa.
O medo encontra seu substituto em poderosos hábitos mentais, capazes de modificar as funções cognitivas mais básicas, “normalizando-as”. A verdade se torna uma função não do aparato cognitivo da evidência, mas da adequação a códigos de éticas e de comportamento.
A bomba implantada em um carro que explodiu na Colômbia recentemente é, para a polidez fundamentalista do jornalismo que formou Rosane de Oliveira, um tipo muito pouco educado de alfinetada política.
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A prova definitiva para o idiota
O liberal puritano [2] ultraja-se soberbamente com os que não transigem e perdoam desde o hábito mental que lhes é peculiar [3], aos piores crimes que seu semelhante pratica. É tão poderoso o perdão possível pelo hábito mental do liberal que já nada poderia restar em pecado. Todo o problema está em quando o puritanismo pede, para seus julgamentos superjustos a prova cabal do crime, sem a qual vale aquele ceticismo que se quer de uma imparcialidade superior. Num meio assim não estranha se chegar a pensar em algo como a inconstitucionalidade da prisão em flagrante.
A prova cabal é uma armadilha, já que ela só pode existir de duas formas, temerárias; mesmo assim, não serão provas definitivas.
A primeira forma de prova definitiva não pode ser compartilhada, nem comunicada. É a prova testemunhal direta, ou como participante ou como observador despercebido. Quando ajoelham-te na beira de uma cova com incontáveis cadáveres dentro, encostam um cano de arma cheirando a pólvora na tua cabeça, isso deve ser considerado, para todos os efeitos, a prova definitiva de que alguém está praticando assassinatos em massa. Saber disso não servirá de muita coisa.
Como observador despercebido se estará na mesma situação vivida pelos que denunciaram Katyn à época, em meio a desmentidos e fraudes, ou dos que saídos da europa relatavam dos campos de concentração nazistas. Nenhum deles tinha uma prova cabal e definitiva --- a qual, de fato, só veio, p. ex., para a condenação dos nazistas em Nuremberg, com os vídeos que os próprios nazistas fizeram.
Outra forma de obter uma prova definitiva é, após passados 20 anos, encontrar as covas coletivas com centenas de corpos exumados. Você pode dizer, neste caso, que houve assassinatos em massa por esta evidência. A desvantagem desse tipo de prova cabal é a mesma do caso anterior. Apesar de você poder comunicar ela aos outros, diferente do exemplo anterior, o que você pode fazer para evitá-lo é, nada.
Ao que parece, acreditar que tudo é relativo cria o clamor de que, uma vez sendo tudo relativo, só com provas cabais poder-se-ia romper com os freios mentais da polidez sintomática que o relativismo acaba por causar. O inverso parece verdadeiro; o fetiche da prova cabal gera a sensação de que tudo, na sua ausência, é relativo. Isto reforça a sensação de que só as condições de decisão “aqui e agora” existem para uma tomada de decisão.
Assim, a realidade não pode ser conhecida, senão de forma existencial, diretamente, como experiência limite ou como impotência ex post facto. Sobra ser testemunha ocular discreta (algo realmente bem raro), que acaba tendo que contar com a boa fé dos demais; sem o quê, de nada vale. Uma prova cabal aqui passa realmente bem longe.
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Uma breve nota sobre a metafísica antropológica da cidadania
Suprimida a capacidade do homem para conhecer, este passa a ser de empréstimo a conhecimentos codificados. É o que sobra. Sobram os convencionalismos, os papéis timbrados, os quadros de reconhecimento, a propaganda, o consenso de uma entidade oficial. Se o homem não pode saber nada, vai agir conforme os códigos prestabelecidos, dos quais não se questiona as premissas fundamentais --- e nem é capaz de vê-las.
Se a máxima que diz que ser é conhecer, e vice-versa, tem algum valor, o relativismo cria uma condição “antiexistencial” incapaz de saber e incapaz de ser. O que parece que fica bastante evidente é o que ocorre quando o conhecimento se limita àquele momento derradeiro quando temos a perfeita certeza de que o tempo de nossa vida foi expirado por um incidente que jamais poderemos confirmar.
É claro que esse homem --- quando (e se) ainda vivo ---, acaba como um autômato repetidor de erros circulares. O homem se torna aquele homem massa amorfo com um número no braço, que é já a sua identidade, senão mesmo a sua vida mesma, o seu ser.
Assim como os cientistas usam algum jaleco, o açougueiro um avental, médicos uma longa bata branca, o jornalista veste terno e gravata. Mas diferente do cientista, que amarrota o jaleco, ou o açougueiro e o médico, que sujam o avental e a bata, o jornalista permanece imaculado pelos hábitos mentais, no passo certo como as marias-fumaças sobre os trilhos de ferro.
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Uniformes mentais, hábitos de “cidadania”
Lavagem cerebral é um termo que no seu uso geral indica a plena liberdade de optar pelas escolhas alheias, de forma sistemática e cada vez mais, aceitando-as como sua própria vontade. Formas mais discretas disto se tem no apelo reivindicatório como o que L.F. Veríssimo comemorou certa vez, quando tomou por mérito de Lula ter este ameaçado com o socialismo pleno para depois auferir o lucro político de não ter feito o que ameaçava; ou, de sua própria lavra, ter proposto tornar as FARC, pelos serviços prestados ao estado colombiano, em representação política formal.
A desatenção na repetição diária destes estratagemas trava-cabeça acaba tomando a boca do sujeito de empréstimo, para reproduzir teratolepses dos mais variados talhes. Este é um dos fundamentos do manicômio público nacional. Se você explicar isto a um jornalista de auditório ele tem uma reação instintiva, revira os olhos, tranca a respiração e quando volta a si está austeramente falando de outra coisa.
As figuras de linguagem da demanda verborrágica pela “cidadania” geralmente vem à mente no debate público brasileiro antes e acima da leitura atenta e da reflexão, seja lá sobre qual assunto se esteja tratando. Assim, dá para dizer, p. ex., que o problema das mortes no trânsito precisa de mais rigor nos testes da carteira de motorista sem se perguntar se os próprios testes estatais são, de fato, pertinentes ou se não são mero fingimento oficial de rigor.
O culto pela oficialidade dos procedimentos é um tipo de cerimonial cívico que tende a substituir as consagrações religiosas, tais como o batismo; ou aos poucos a se trocar o Natal pelas Eleições, e o contristamento e a alegria da Páscoa pela janela da Declaração Anual do imposto de Renda à qual se segue nova vida no corpo impessoal --- e só duvidosamente glorioso --- do estado fiscal, empreendedor e assistencial.
Assim, questionar, por hipótese que seja, quando as coisas estão dando errado, o óbvio da real eficiência do que se vem fazendo em vez de dar por certo alguma carência quantitativa sobre o mesmo, é quase já um ato de indisciplina cívica. Vale a admoestação de M. Auguste Dupin, de Edgar Poe, no caso sobre seus autores: “ampliam ou exageram seus velhos métodos de ação, sem mexer-lhes nos princípios”.
Os hábitos mentais vão aos poucos se estabelecendo por meio de códigos de ética puritanos como credenciais de “cidadania”.
Qualquer problema que se tente tratar dentro de uma sociedade assim é como vestir o uniforme dos comunistas soviéticos para investigar desde o seu posto oficial a nomenklatura. Dentro da cultura moderna e dentro dos hábitos mentais sociais contemporâneos a necessidade de agir imediatamente para atacar os principais problemas redunda no círculo vicioso do exagero das soluções que vem dando sistematicamente errado.
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Os meios da linguagem estupefaciente
Certa vez disse o bom professor de português Cláudio Moreno, num debate, dizer que a invocação de adjetivos extremos, tais como “nazista”, “fascista”, etc., justificariam o fim abrupto de uma discussão. O motivo é que estas palavras são ou meros xingamentos no fim do aceitável, do admissível, ou são, de fato, uma acusação séria. A segunda coisa para o jornalista está completamente fora do dogma ético em vigor.
Seria verdadeira heresia esotérica reivindicar atenção ao que, de fato, se está tentando preservar sob um código ou lei, seu espírito e objeto real. Mas isto tem hoje o valor de um inefável. Que um período de esforços diplomáticos no entre-guerras possa terminar na guerra, parece ao jornalista uma complacência sádica premeditada.
O uso destas palavras, como era de George Orwell também advertir, deveria ser feito de modo parcimonioso. O mesmo, não é difícil de perceber, vale para a palavra “terrorismo”.
Mas Rosane de Oliveira não acredita em superstição, é por isso que as ligações do PT com as FARC lhe parecem meras agulhadas, impudicas figuras de linguagem. Rosane deixa as agulhas dentro dessa criança de colo que é a democracia brasileira por não acreditar em superstições.
Não podendo ver nada mais nas palavras que as próprias palavras, Rosane dá por boato o terrorismo, que atribui à militância como figura de linguagem.
O mais curioso é que a militância é um aspecto das políticas da esquerda, que à direita não há nada nem parecido. Mas o jornalista, mais do que rápido, para ser imparcial, relativizou as coisas. Imparcial se é em relação a algo, com justa ponderação, e não atribuindo a dois adversários em igual medida um assumido equivalente “desairoso”.
Mas a isenção pudica do tipo liberal é radical; ele não é imparcial perante o verdadeiro e o falso, mas sua imparcialidade é uma imparcialidade ativa, que compensa os desequilíbrios e achata os extremos. O nível justo sob o senso das proporções é, assim, abolido; a verdade não é algo concreto, uma vez que o caminho do meio do homem ponderado é uma polidez radical que já é, por algum mecanismo neurótico, máxima razão.
Proporção é, assim, equanimidade; é o que cabe a dois no mesmo tom polido, das mesuras de tratamento, da indignação com problemas abstratamente tomados que se julga fora do real concreto. E assumindo o abstrato ingênuo como proporção mais real do real concreto: “paz”, “direitos”, “justiça”, “igualdade”, “liberdade”, etc..
A palavra “terrorismo”, no entanto, já foi categoricamente relativizada quando o respeitável scholar e panfleteiro Noam Chomsky passou a usar o termo “terrorismo de estado” para designar os “abusos” de forças militares regulares imensamente maiores que as de terroristas, guerrilhas e, na democracia, dos que apelam meios não democráticos para lutar pela democracia.
É o que sempre se repete aos ouvidos moucos do jornalista: o ordenamento jurídico, as instituições e o sistema financeiro são aparato “burguês” (i.e., um tipo de nobreza fútil, egoísta e “corrupta”) que não pode ser corrigido desde os seus próprios mecanismos e margem de manobra.
O hábito impudico dos jornalistas de auditório para com estas palavras, como Rosane usa com “terrorismo”, atribuindo-o a supostos “militantes” sem se dar ao trabalho de apontá-los concretamente, sem dar a saber quem são nem por amostragem, como agem, se dizem a verdade ou não, e sem jamais entrar na discussão por um segundo sequer, é só a forma moderna da violência da censura “democrática” de uma sociedade com opções sem meios reais de escolha individual.
Os códigos de ética do relativismo puritano do jornalismo atual, senão na letra rigorosa deles, no seu apelo, são uma das mais poderosas ferramentas dos governos modernos para produzir aquele terror de baixa frequência, que em vez de paralisar inibe, confunde, domestica, hipnotiza e termina por nos enlouquecer. A ponto de as coisas começarem a ser ditas de cabeça para baixo:
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA
O uso dos termos “alfinetada” e “terrorismo” por Rosane são pronúncia de feitiçaria, cuja ligação com as coisas as quais o falar se refere se dá não mais na realidade concreta, mas na coisa em si do formalismo puritano, no caminho do meio da arbitragem fenomenística.
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Puritanismo como mentalidade simplória
Sem relações de proporção como as havia do velho senso comum --- com sentido mais próximo ao direito natural que do consensualismo e do hábito, estes com lastro naquele ---, a inteligência e a sanidade humanas não têm como permanecer intactas.
Fica desse ato soberaníssimo --- como o dos loucos que se emancipam da opressão da realidade --- um chamado à utopia prática. Os liberais, no sentido que tem nos Estados Unidos, mas cujo tipo psicológico é o mesmo do liberal brasileiro, ao mesmo tempo em que geral riqueza ao país, entorpece-o profanando. Junto do nosso paganismo macumbeiro, nossa cultura miscigenada que dá em cultura nenhuma, ligados ao laicismo do estado, que tenta transformar os rituais cívicos em festivais populares, temos a fórmula ingrata que fracassa sempre pelo mesmo motivo que os dias de festas religiosos do povo caem para algum tipo de festividade vulgar; ou, quando menos, em mero feriado.
O gnóstico cidadão, mergulhado no inconsciente profundo da consciência cidadã --- este quadro metafórico é realmente notavelmente exato ---, conduzido pelo paracleto que é o estado laico, ritualiza o comportamento dos indivíduos na celebração no fingimento de códigos sociais e na comemoração de obviedades que ninguém ousaria negar.
Mas então, já como se às Portas da Lei, a gozar da justiça plena e impossível pelo hábito compulsivo da polidez radical sob o apelo absoluto da “democracia”, ou ao culto forçado a atender a demanda do cerimonial cívico que o preda e consome.
Talvez por aí possa se ver o que seja um fundamentalismo da polidez puritana do jornalismo científico, sob o tipo geral de homem “liberal” (Am.), do qual o ceticismo é um tipo (ou no qual redunda) de polidez puritana.
[O] cético estava muito certo em pautar-se pelos fatos, só que ele não havia analisado os fatos. O cético é crédulo demais; acredita em jornais ou até mesmo em enciclopédias” --- G.K. Chesterton, Ortodoxia, IX.
A mentalidade simplória transforma a cautela crítica em ceticismo relativista, que sem poder saber nada, acaba resumida no fingimento de objetividade e imparcialidade dos códigos éticos e da polidez de tratamento que faz as vezes da austeridade profissional.
A sociedade se torna, assim, o meio maquinal onde os hábitos mentais se tornam os mais poderosos que pode haver. Como disse L.F. Veríssimo sobre as reivindicações do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, um calhamaço de platitudes contra o mal no mundo, com algumas pérolas antidemocráticas, “E não há discrepância entre suas propostas e o que está em discussão, hoje, no resto do mundo civilizado”.
A autoridade de um texto esdrúxulo com pérolas antidemocráticas, escondidas como agulhas no palheiro, é autoevidente, desde que em “todo o mundo” se esteja tentando fazer o mesmo --- pelo menos alguns, que representam a opinião mais comovida, estão.
Outra versão da frase de Chesterton diz: “Quem não acredita em Deus, não é que já não acredita em nada, mas passou a acreditar em qualquer coisa --- até nos jornais”. Pelo arado do ceticismo fere-se a verdade ao relativismo, que leva à inversão moral. Ora, não é possível uma cultura admitir o relativismo por muito tempo sem que o senso das proporções que existe no senso comum tradicional seja minado.
Lançada a semente demoníaca da inversão, desligado o homem de Deus e substituído Ele pelo ritual cívico, o fulcro de ordem na vida é fechado dentro da sistemática simbólica dos códigos de ética e das normas de comportamento. Soberanos, reinam os óbvios ululantes, que ninguém ousaria negar, do consenso como “paz social”, justiça, igualdade, os valores abstratos ideais compreendidos então como meios de si.
A atividade social crítica vira mera função da decência, isto é, o mais estrito cumprimento dos rituais oficiais.
Coisas assim começam em povos doentes, sem valor e não sem desconhecer o que seja aquele mínimo de coragem que o consenso sobre o bem-estar social suprimiu da sociedade, levando as pessoas à ansiedade pelo desejo de se sentir maximamente bem.
Talvez os três problemas humanos modernos mais debatidos são denominados por palavras simples: paz, igualdade, justiça. A simplicidade com que estes temas são referidos nominalmente é inversamente proporcional à complexidade que eles reúnem concretamente. Paz reúne tudo e pode querer dizer qualquer coisa, até a guerra para o bem e para o mal; a justiça tampouco vale de si mesma, sem a mediação ponderada de um caso concreto que pode discriminar o certo do errado; a igualdade, sem a justiça, pode ser a pior opressão.
Estes problemas, definidos habitualmente pela situação ideal a qual aspira o homem e as sociedades, viram quimeras postiças quando passam a ser os fundamentos ou os meios para os quais se inclinam os espíritos mais arrebatados pelo máximo bem. É um clássico efeito do espírito puritano, que na sua simplicidade atroz, frequentemente vê naquilo que é mais fácil tornar um motivo de discurso o apelo ao qual ninguém se negaria. E defendê-lo, como um iluminado de visões.
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Rosane prefere esconder os alfinetes na criança
A visão poderosa da realidade equilibrada, o caminho do meio sempre mais correto, a visão rara que tem o jornalista puritano, é a camada mais superficial dos fatos, que são já como que o obscuro recôndito de um segredo que se oculta ao mostrar-se no óbvio indisfarçável, para quem pode ver.
Esse ritual da desconversação das agulhadas dá de barato a alma da criança a um ritual satânico que entrega de todo a consciência humana ao culto de figuras de linguagem que pensam quem por elas se deixa possuir.
As acusações de Índio são alfinetadas do tipo das que ficam na criança. Difícil será Rosane explicar como é que os alfinetes foram parar lá. “Se os jornalistas perguntam a Dilma o que acha de uma declaração de Indio da Costa sobre relações do PT com as Farc...”, é bem simples a sua solução: é só não perguntar.
A agenda “propositiva” não pergunta sobre superstições que geram boatos, mas sobre as intenções concretas (sic.) que os candidatos nunca declaram abertamente, mas com aquela linguagem imponderável que os jornalistas já haviam notado eles mesmos tratar-se de atores dentro de papéis para parecerem palatáveis aos eleitores.
Com a preponderância do marketing sobre a política, falam o que o eleitor quer ouvir. [...] Cada gesto é calculado. Nas entrevistas, quando são questionados sobre temas polêmicos, tergiversam. [...] As frases feitas, que podem ser repetidas à exaustão para diferentes plateias pelo Brasil a fora, caem no ridículo em um debate.
Rosane entende que “no confronto direto, pressionados pelo tempo da resposta”, aumentam as chances de revelar o que realmente pensam. Mas o que se vê é o oposto, o tempo exíguo preencher-se facilmente das respostas prontas. O menor tempo é inversamente proporcional à qualidade da resposta. Exceção quando o candidato é artificialmente pressionado a dizer se vai “fazer” ou não, por exemplo, uma ponte.
Rosane orienta a que se preste atenção justamente nas promessas, e não nos atos recentes e no perfil dos candidatos.
A objetividade “propositiva” do jornalista vem sendo, assim, as promessas sobre casos concretos, as migalhas que o positivista come como um pombo num cenário político feito de superstição ideológica da pior espécie, quando não de apenas figuras de linguagem que são percebidas de modo tão forte que já assumem o papel de evidência inatacável.
As tais propostas positivas, que no caso de Dilma estão na terceira edição, tangem o sonho sutilíssimo das platitudes utópicas mais delirantes que a política brasileira já produziu. A isto os jornalistas tomam por “projetos” de país.
Rosane prefere manter as alfinetadas escondidas na criança. Por que razão alguns articulistas como Merval Pereira e Boris Casoy, entre outros, além de Reinaldo Azevedo, dizem que as ligações do PT com as FARC são óbvias? Mesmo Lúcia Hipólito, que evita in limine ir ao mérito, não chega a um desmentido que nem o PT fez. Rosane ignora qualquer coisa que fuja da mediação puritana, de quem julga tudo, como Tarso ao caso Battisti, de alturas áulicas, soberanamente, ignorando pessoas da estatura de Paulo Brossard e Ives Gandra Martins, diferente dos especialistas, professores acadêmicos ou autoridades menores às quais costumam praticar culto habitualmente. Nesse caso, não!
O que é verdadeiramente estranho, talvez o explique alguma heresia dos mestres para com as regras puritanas de publicação jornalística.
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O Super-Homem-Laico sacrificado no altar moderno do deus Ausente
Agora na atual eleição, novamente toda a atenção está voltada para um tipo de personagem de candidato que, uma vez aceito, assume-se qualquer particularidade das propostas como mera firula de campanha. É o candidato progressista social-liberal-democrata.
O tipo é um óbvio que ninguém ousaria questionar. As mais altas aspirações humanitárias ligadas ao progresso econômico e ao bem-estar social dentro da democracia radical, e afirmativa por representativa.
O tipo híbrido esconde inúmeras premissas muito pouco claras. A começar pelo “progressismo”, que para os “liberais” quer dizer progresso material --- e muito poucos liberais entendem pouco mais que isso para além dos slogans ---; o que para os “sociais” quer dizer a realização plena, com reflexo no ordenamento jurídico, dos “direitos humanos” no sentido do humanismo iluminista:
de igualitarismo, inclusive de papéis sexuais, dos talentos e, de fato, para o funcionalismo público e para o profissional autônomo à semelhança daquele, para o qual a burocracia estatal já o torna, sem que ele o queira;
de coletivismo, pelos “direitos” afirmativos sob a lei estatal laica; e
de laicismo, o igualitarismo da verdade; i.e., os valores e a cultura são signos arbitrários, portanto, valem por fim o impulso de desejas individual, ou sob consentimento de quem mais (sobretudo quem mais).
Se o “progressismo” quer dizer para os liberais progresso material, a via desse progresso é (originalmente) a liberdade individual, de indivíduos e das organizações. Mas para os sociais --- ou, de fato, socialistas ---, a fórmula se inverte. O progresso não pode ser uma função da liberdade, mas a liberdade do progresso. A fórmula disso não existe, nunca existiu a não ser como aspiração; e sempre, quando tentada, saiu-se fracassada e com tudo de cabeça para baixo.
Os valores “humanísticos” do apelo dos socialistas referem-se ao bem-estar material que liberta o homem para sua potência de aspirações, sonhos, impulsos, na busca da felicidade que é a abertura a essa potência do desejo nunca satisfeito. É uma inversão dos fundamentos pelos fins desejados, para realizar estes já.
O socialista não busca os fundamentos do bem-estar social e do desenvolvimento material, ele busca o próprio bem-estar e o próprio desenvolvimento material por “via direta”. O que quer dizer isto na realidade, não dá para saber, mas as consequências são sempre a concentração de poder, a diminuição da liberdade, a opressão psicológica e física, e por fim o atravancamento da sociedade. Não parece muito difícil perceber que talvez se deva buscar esse efeito de revés quando os fundamentos de um mundo perfeito passam a ser os seus fins no seu momento mais pleno de realização desejado.
A discussão política para os jornalistas políticos está sempre falseada pela mentalidade positivista de um tipo perfeito de político que já não se poderia aceitar outro. Desde que “socialistas” e “capitalistas” são, para eles, uma tipologia anacrônica --- e isso deve querer dizer que não descrevem mais a realidade ---, obviedades tais como desenvolvimento material, bem-estar social e democracia se fundem num único tipo de político e o demais é arcaísmo.
Democracia que, de fato, nessa discussão perde o sentido e já não pode ser notada como algo mais que uma figura de linguagem insípida.
O tipo social-liberal-democrata é, no entanto, um oximoro. Não é o caso que eles possam existir num regime político, mas um tipo que os funde o faz, ao mesmo tempo, em termos de fundamentos contraditórios. Nas palavras, no entanto, tem um efeito de consenso estupefaciente e que imita um equilíbrio superior. É o tipo de super-homem cidadão, que se passou a aceitar como a forma final do homem desse mundinho de Deus --- um que nem de Deus precisa.
*
O eclipse
Os pontos críticos da discussão política estão qualquer coisa antes desse tipo ideal de social-liberal-democrata, porque o que está sempre em jogo são os fundamentos e os meios que criam as condições do bem-estar social e do desenvolvimento. É só por isto que existem alternativas nas eleições. É comum ver pessoas leigas e o jornalista dizer que é a economia que move a política, e não o contrário. A economia move sim a politicagem e a demagogia. É de novo uma questão de fundamentos, aos quais nunca se chega.
Assim como está, a opção do jornalismo pelo tipo de político empreendedor, que representa as maiores aspirações de uma sociedade, encobre o problema dos meios de realizar na realidade estas aspirações.
Ao mesmo tempo em que o jornalismo pauta de questões positivas ao debate eleitoral e denuncia as tergiversações, é justamente sobre estas últimas que o jornalismo acaba guiando a atenção do eleitor, para o mais volúvel de tudo, as promessas de campanha sob o pretexto de manter o nível do debate.
O nível do debate pode ser inversamente proporcional à polidez da campanha eleitoral, tanto quanto o politicamente correto é inversamente proporcional à verdade.
Quando os fundamentos tornam-se os fins que estes fundamentos deveriam dar sustentação, não estranha a atenção dar um looping e voltar-se para as suas maiores esperanças como caminho de sua própria realização.
A perda da acuidade dos fundamentos da ação política, sob um tipo ideal, coloca uma burca sobre as verdadeiras questões políticas, não apenas aquelas que dizem respeito aos meios de solução de alguns problemas de longa data e de base, mas que dizem respeito à própria manutenção da democracia.
As críticas frequentes dos socialistas ao ordenamento jurídico “burguês” podem passar a alterações discretas dos poderes do TCU, “para que se possa mais”, ou pela mais franca defesa do estado-empreendedor, a mudanças nos poderes do MP ou na legislação tributária, que esgueira-se a poderes confiscatórios, sem que aqueles se sintam minimamente melindrados de propô-lo e sem que, nem assim, o jornalista venha a sentir que deva se livrar desse bizarro xifópago bifronte de social-liberal-democrata.
O jornalismo se tornou, na época da informação massiva, um grande vulto estupefaciente, como um eclipse estático à luz do senso comum (este substituído pelo “consenso”).
*
A língua do Leviatã: possessão pelas palavras
A tal da campanha “propositiva” ocultou os candidatos misturados, além do mais, com as denúncias sempiternas de corrupção, omitidos algum sequestro e alguma morte que talvez pudessem causar constrangimento aos candidatos. O jornalismo político da RBS, o caso do exemplo aqui (não o único), anunciou com a “cobertura propositiva” da eleição que vai ignorar qualquer coisa que possa vexar os candidatos, mesmo que algumas coisas omitidas expliquem quem estamos elegendo de fato, e não estes programas de governo fingidos.
Por fim, não bastasse o trabalho árduo para manter com educada brutalidade o clima de normalidade, os desmentidos chegaram ao ponto de alardear serem “terroristas” aqueles que querem falar sobre quem são e o que pensam de há muito os candidatos.
Rosane de Oliveira não acredita em superstição, é por isto que as ligações do PT com as FARC lhe parecem meras agulhadas, impudicas figuras de linguagem. Rosane deixa as agulhas dentro dessa criança de colo que é a democracia brasileira por não acreditar em superstições.
Os boatos, Rosane atribui à militância. O mais curioso é que a militância é um aspecto das políticas da esquerda, que à direita não há nada nem parecido. Mas o jornalista, mais do que rápido, para ser imparcial, relativizou as coisas. Imparcial se é em relação a algo, com justa ponderação, e não atribuindo ao adversário todo e qualquer barbarismo em um assumido equivalente. Mas a isenção do jornalista é radical; ele não é imparcial perante o falso e o verdadeiro, mas sua imparcialidade é uma imparcialidade ativa, que compensa os desequilíbrios e achata os extremos ao nível mesmo do senso das proporções. Proporção é, assim, equanimidade, é o que cabe a dois no mesmo tom polido, das mesuras de tratamento, da indignação com problemas abstratos e distantes que se julga de ambos os lados como coisa dada e reconhecida.
Terrorismo”, “fascista”, “direita”, “conservadores”, são termos de má etiqueta, condenados pelos códigos de éticas de qualquer jornal que se preze. Tornaram-se meras figuras de linguagem pelo uso, hoje de todo obsoletos.
Um povo bem domesticado com o tempo e com o hábito encontra nos rigores dessa domesticação, que os oprime, a forma de ritual social que confere distinção entre seus membros. Não os estranha, portanto, quando, para impedir a tirania, o imperador asteca propõe o sacrifício no altar do deus dos sacrifícios astecas. A normatização consensual de polidez levou a obscurecer o poder que as palavras têm de possuir um homem e fazer dele um servo dócil. Repetidas como o valor de mera magia, os termos do debate público são feitiços de horda unida.
George Orwell mostrou para a sua época que os hábitos mentais eram uma degeneração da boa linguagem. Não só pela confusão, pela irreflexão, pelo nonsense que carregava, mas também pela simplicidade, que desde que aceitas as fórmulas simples, nada há mais adequado para controlar as pessoas uma vez que este controle fosse interiorizado ao mesmo de vida delas. Essa idéia nasceu, antes ainda das revoluções do século 20, quando a utopia foi pensada como prática e como hábito desde o aqui e agora. E evoluiu até as ações afirmativas então desde dentro do ritual cívico do estado leigo.
Com o tempo, ficou claro que não mais se esperaria pela revolução para construir a utopia; a utopia era o meio mesmo da revolução, desde as falsidades da linguagem que ela criava e que o hábito sedimentava tanto melhor quanto mais novo fosse o povo. O comportamento utópico levaria à revolução forjando a linguagem e o limite da consciência, para quem a consciência é ainda um tipo de feitiçaria, desde as palavras.
Hoje, como resultado, repetimos com a mesma presteza numa síntese nova entre a revolução dos hábitos, que vai da anarquia ao código civil, até a sua normalização em ações afirmativas de estado, numa nuança discreta e ligeira:


CIDADANIA É IDENTIDADE
SOCIEDADE É AMIZADE
PERSONALIDADE É IDENTIDADE
VIDA É HÁBITO
TERROR É INTRANQUILIDADE
VERDADE É ÉTICA
LIBERDADE É CONSENSO
...

Notas
1. O JournoList foi um grupo fechado na internet de jornalistas “liberais(Am.) que, parte deles pelo menos, combinavam omitir no noticiário assuntos delicados aos Democratas, tal como a frequência de Obama nos sermões de ódio racial do pastor Jeremiah Write.
2. A expressão “liberal puritano” é quase redundante.
3. O “perdão liberal” é o mesmo dos socialistas, pois o bem e o mal são medidos desde a máxima relativização do certo e do errado concreto, dependendo do caso e das circunstâncias. O fulcro metafísico dessa sociedade, que parece não haver, está no Poder, como Michael Foucault o concebeu. Só [estando] desde o centro do Poder absoluto é possível um perdão onipotente. Só numa posição assim, é possível representar o Bem como absoluto abstrato, que já não pode querer dizer outra coisa que, Poder.

agosto 23, 2010

À sombra do Dragão Vermelho


Lev Navrozov
Original do Newsmax.com
10 de junho de 2010
Os ocidentais que acreditam que a República Popular da China surgiu de uma “grande vila” deveriam olhar melhor as fontes históricas autênticas. Inversamente, aqueles que acreditam que um tipo de Renascença floresceu na República Popular da China deveriam antes rever como a propaganda Soviética e sua contraparte Ocidental distorceram a realidade ao pretender ter testemunhado na Rússia Soviética o florescimento de uma grande cultura jamais criada pelo ser humano.
Muitos ocidentais assumem que a China é ou foi uma grande vila. Daí a surpresa por a China ter sido capaz de produzir alguns tipos de armamentos de ponta mais cedo que os Estados Unidos.
Mas de acordo com a minha Britânica (1970, “China”, p. 580): “Estudando o céu os astrônomos de Tsin fizeram uma lista de 28 halos solares entre os anos de 249 a 420; algo assim não surgiu na Europa antes do século 17”. Quer dizer que a “grande vila” superou a Europa em mais de 13 séculos.
Na Breve História da China, de Tim Lambert (18 pp.), lemos: “por volta de 2000 b.C. … os chineses aprenderam a produzir o bronze. A escrita foi inventada na China em 1500 a.C.. por cerca de 400 a.C., agricultores chineses usavam o ferro puxado por animais. A bússola foi inventada na China no 3º século a.C. … A cerca de 500 a.C. surgiu o primeiro manual militar … em 132 d.C. … Cheng Hang inventou o sismógrafo (que media a intensidade dos terremotos) … em 577 os chineses inventaram o estopim … de 618 a 907 … a China foi provavelmente a mais avançado civilização do mundo … depois de 979 … foi provavelmente a a mais rica do mundo … as artes floresceram. A poesia chinesa … desabrochou, com talvez o maior poeta, Li-Bo (701-762)”.
Deixem-me considerar agora a importância de duas poderosas motivações fora dos Estados Unidos e de outros países democráticos: o desejo de possuir seres humanos e o desejo dos seres humanos serem livres.
Um dos últimos exemplos desse esforço entre estas duas tendências é o levante de 1989 conhecido pelo mundo pelo lugar geográfico onde o levante ocorreu: Tiananmen, a Praça da Paz Celestial. Os rebeldes demandavam liberdade para as pessoas da China possuídas pelos donos da China.
Mas a liberdade do povo chinês poderia significar a morte aos donos da China se um número suficiente de pessoas se rebelasse. Isto não é realmente novo na história da China.
Qual é então a saída? Chama-se Democracia.
O fundador da República Popular da China atual foi Mao (1949), e de acordo com ele e com seus preceptores, para alcançar a democracia basta tomar todas as propriedades produtivas de seus donos (os capitalistas). De outro modo, a apropriação do país por Mao e seus seguidores não reduzirá a liberdade daqueles que ele possui.
E, se os presentes donos da China --- o maior país (em termos de população) --- também possuírem o resto do mundo, eles serão já fortes demais para qualquer força local tomar o poder deles.
Qual é a conclusão? É imprescindível encarar que a República Popular da China irá logo ser o mais poderoso país do mundo dada sua tecnologia, deixando para trás a tecnologia européia e dados os seus 1,3 bilhões de pessoas contra apenas os 300 milhões dos Estados Unidos.
Então, o que fazer? Acredito que todos os países prontos a resistir à República Popular da China devem formar uma aliança de defesa para salvar o mundo do desastre iminente desse temível espectro que assoma no horizonte. Antes disso, a discussão pública internacional dessa idéia pode ser útil.
Fui encorajado pela resposta à minha coluna sobre Yulia Latynina, publicado em 20 de Maio.
Yulia Latynina seria inconcebível na Rússia quando minha família e eu deixamos o país 40 anos atrás. Ela é uma escritora, uma jornalista, e tem seu próprio programa de televisão, um talk show aos sábados.
Ela fala francamente e de modo crítico. Ela mostra como a Rússia atual é diferente da Rússia “Soviética” do tempo em que vivi lá. Certamente a República Popular da China é uma ameaça mortal a esta nova Rússia.
Sim, por sua própria causa, a Rússia deveria colocar-se ao lado dos países livres em sua defesa contra essa China.
Mencionarei três respostas à minha coluna, chamando pela cooperação dos países livres na defesa contra a República Popular da China.
A resposta de S. Bainton (Mr. Marketing, Inc.) ocupou cerca de três-quartos de uma página e começa com duas palavras: “Excelente artigo”. Depois de sua análise detalhada da minha coluna, Mr. Bainton disse: “Por favor, diga-me o que me escapou, ou se perdi algo?” Não, disse-lhe; não há razões para isto: “De novo, obrigado”.
A resposta de J. Roberts pode ser citada toda: “Obrigado muito por ter vindo a esse “país sitiado”. Se, de algum modo, a maioria dos americanos pudesse pensar como você e articular seus pensamentos em ações, a maioria dos problemas do país desapareceria. Agrada-me tudo que você escreve e aprecio o seu rigor de caráter. Que Deus o abençoe.”
A primeira sentença da resposta de M. Tompkins é a seguinte: “Por anos tenho lido seus artigos regularmente no Newsmax, desde 2002”. E aqui, a última: “Obrigado por tudo e Deus abençoe Lev Navrozov.”
Estou impressionado que a República Popular da China tenha preocupado a estes meus leitores desde o ano 2000.
Alas, não tenho nenhuma receita de que modo chamar atenção para alertar as pessoas do perigo iminente vindo da ditadura da República Popular da China.
A mídia, os governantes e oficiais, que respondem pelos preparativos militares, são todos responsáveis pela vida e pela morte dos países democráticos, ameaçados hoje pela República popular da China [e por seus aliados].