abril 27, 2007

Mal-estar mental de geólogo causa crise climática no Cretáceo

Esse podia ser o título de uma reportagem que anunciava um novo dino em Minas Gerais. Gostaria de ter podido pegar as referência desta notícia, mas infelizmente não consegui recuperá-la na Internet. O geólogo disse que o que se pode “tirar” do conhecimento da existência do bicho é que “quando mudanças climáticas ocorrem, espécies se extinguem” (!). O que levou o geólogo a dizer algo assim não tem certamente explicação no raciocínio geológico, mas em qualquer cacoete que por ventura tenha ele adquirido no instante em que a repórter deu sinal para que se ligasse a câmera para começar a gravar a entrevista para a TV.
Há outros motivos que levam espécies a extinção, como o uso inadequado de capacidades que a espécie desenvolveu, sem que se aperceba que justamente foi no concursso desta capacidade que ela pôde existir. Aplique-se isto à cultura e à civilização e se verá que um especialista que olha o passado sem se preocupar se o está pensando da maneira correta ou não estará recriando uma vez mais o melhor exemplar do mais moderno pensamento supersticioso. Esse gerador de grande aflição! Que, no final das contas, não é outra coisa que tentar usar a razão e a ciência fora dos seus limites naturais. E isto é já algo que está no Fedro de Platão, quando Sócrates se nega a interpretar racionalmente os mitos por entender uma tarefa enfadonha e coisa lá de gente muito douta.
Um vez que se sabe de espécies extintas, que uma crise climática seja uma das coisas que as poderiam ter desprivilegiado no processo da sobrevivência neste planeta, não se está por isto autorizado sequer a se referir a esta crise como conclusão válida – tomando-a numa inversão lógica – da condição real da extinção de um caso particular. De uma possibilidade geral não pode ser deduzida a causa de um caso particular pela simples possibilidade que é. É claro que se está dizendo bobagem e que esta conclusão é a confusão medonha que a fantasia desregrada pode chegar a partir de coisas que nos são tão estranhas (e daí, como produto, o pensamento supersticioso) quando o hábito do pensamento rigoroso e autoconsciente é a mera referência à herança de uma tradição racionalista no ocidente, há muito esquecida no que ela tem de mais fundamental: seu uso.
Descobrir um dinossauro não tem nada a ver com a paleontologia, stricto sensu, pois o fóssil, objeto da paleontologia sistemática, é atual, enquanto a paleontologia lato sensu é um estado de coisas pretérito, é de outra natureza, é preternatural.
A sujeição do raciocínio à moda atual das crises climáticas está criando um – talvez mais – tipo de lugar-comum geológico, daquele bestiário que pretende explicar a realidade exterior ao nosso ego por coisas que o orbitam em distâncias lunares.
Valha-me Sócrates!

abril 23, 2007

O malvado Mr. Feynman

Quem diria que a nova física poderia produzir um espelho quântico de horrendo reflexo à educação nacional. Pior; que a face distorcida fosse nenhum efeito, senão – imperturbada – o caráter mesmo do povo, a sua cultura da escaramuça perversa.

Desatento à banalidade de um carro caído dentro de um buraco sem sinalização, o físico Richard Feynman mal percebe que descia a uma grande depressão, até o centro cultural do Brasil de 1957. O acidente geográfico em questão (ênfase em “acidente”) é, na verdade, o resultado do que até hoje se entende uma grande extensão de terra geologicamente imperturbável. Trata-se, doutro modo, de parte ativa da crosta terrestre, que subside lentamente e traga, aos poucos, como o Mäelstrom relatado por Edgar Poe, um povo inteiro ao Nada.

Cinqüenta anos depois da visita de Feynman, basta ouvir o que o físico genial disse para encontrar a escuridão vazia em excertos da resenha do livro O senhor está brincando, Sr. Feynman! da Editora Campus, na Scientifica American nº 59/Abril 2007:

Ao fazer a escolha do horário de suas aulas, foi encorajado a ministrá-las no horário mais conveniente para ele, mesmo que este não fosse bom para os alunos. Ele diz que no Brasil aprendeu 'a ver a vida de maneira diferente', e resume nossa mentalidade assim:

'Se é melhor para você, vá em frente!'.

Sua crítica mais dura recaiu sobre nosso sistema educacional. Pouquíssimos alunos faziam perguntas ou entregavam seus trabalhos. Sempre se justificavam, dizendo que não era necessário resolver problemas. Quando algum aluno fazia perguntas, era estigmatizado pelos outros.

'Era como se fosse um processo de tirar vantagem de alguém, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e humilham os outros como se eles realmente soubessem',

afirmou.

Os alunos decoravam tudo como papa­gaios (o lívro-rexto preferido no Brasil tinha trechos em negrito para facilitar a memorização) e mesmo após terem acabado de definir um conceito, não conseguiam enxer­gar como ele se aplicava ao mundo real. Os professores fingiam ensinar e os alunos fingiam aprender, num processo perverso [pp. 94-95]”.

A miséria por aqui parece que é infinita.

Lembrando – de outro post daqui – aquela frase do machado de Assis que o Ariano Suassuna gosta muito de repetir:

O país real, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o país oficial, esse é caricato e burlesco.

O caso é que o país oficial, desde 1957 – pelo menos, como vemos –, está matando o país “real” - leia-se aí, me parece, país “natural”.

Muito malvado, Sr. Feynman, muito malvado!


abril 18, 2007

A superfluidade melíflua de Amélia


(Por ocasião de oferta da governadora a aliados dissidentes)

Já se chamou isto de “tucanar” o vocabulário, de uso corrente na boca de libertinos liberais e da estratégia maliciosa de leguleios da corte política escorreita, cuja superfluidade alvissareira vislumbra um mundo novo que tem o seu fundamento na própria visão profética, e que, ao anunciá-lo para breve, o realiza desde então. A este fenômeno denominou-se “profecia que se auto-realiza”, porque carrega já na sua elocução a ocasião do início do que deve ser realizado.

Não é descuido, é construção de um mundo com tijolos que não são lá bem tijolos, que compõem uma casa que não é lá bem uma casa, que se sustentam sabe-se lá como, pela tinta da aparência de que a arquitetura é já algum tipo de cimento. A translação semântica de “aliciar” por “cooptar”, que a Sra. Ana Amélia Lemos sugeriu no Jornal do Almoço da RBS TV, do dia 15 de abril, é uma pérola excretada pelo doentio espírito de galhofa nacional.

Trocou-se o suborno malicioso e sedutor de “aliciar” pelo sentido jovial de uma dispensa das formalidade de praxe de “cooptar”, que agrega a dissidência no seio da Grande Vaca política:

“Palavra forte”, disse Ana, “melhor ficaria 'cooptar' [por aliciar]”.

Muito boa essa!

Como esperar mudanças éticas por aqui se na cabeça da gente da grande mídia esse “ajuste” de intenções se dá já e abertamente (!), mediando o que está dito de forma inequívoca pela gente aliciada: “Estão nos aliciando!...”. Mas não, Amélia preferiu corrigir quem estava sendo aliciado, segundo ele próprio, para “cooptá-lo” ao governo do Estado.

Como se favorecesse um estado de normalidade que se maquia na frente do espelho e só se aquieta quando a cara feia deformada, que ele via, está já coberta por uma face jurídica incólume, em cima do palco, a atuar, e receber de todos aplausos macaqueados e satisfação pelos esforços que o engodo exige. Há esse acordo com o auditório, que vê a aberração, mas concorda que, para que as coisas não sejam as piores, melhor acreditar na mentira. Mentira meticulosamente preparada para criar o efeito de verossimilhança que nos aquieta e permite que a discussão pública se mantenha esterilmente a mesma, por mais alguns anos.

Mas não é estranho que se tenha dito há pouco duas coisas que deveriam fazer pensar, que talvez isto não seja bom? Primeiro, a FEPAM, que sabia de trabalhos de 40 anos atrás, que o Rio dos Sinos estava morrendo: e morreu; e segundo, que o governo do Estado criava orçamentos ficcionais há anos, há inúmeros governos já, que empurraram o problema até que não deu mais. E'ste ano aprovou-se um orçamento que no mais supera o bilhão de reais e que não existe de fato... Não é, por acaso, acreditar na mentira, para ver algo melhor?

Mas ver Amélia traduzir a inconformidade por uma tentativa de acordo civilizado não pode deixar de levar a concluir que é questão de tempo para a defesa de outras coisas ignóbeis pelo mesmo modus tomarem forma:

“Fui estuprada pelo meu padrasto, Sra. Ana Amélia”, diz a menina.

“Não, não, minha filhinha; diga apenas, fui “seviciada por incontinência espermática”.

Coisa de família.


abril 11, 2007

Metafísica percussiva

Existe duas formas de pensar em geologia, que, de modo geral, são formas de pensar universais:

1 – pensamento instrumental (mecânico, sistemático); e

2 – o pensamento inteligente (de lógica interna, inventivo, exploratório, complexo) – do Latim inteligere, “leitura interior”.

O instrumento geológico clássico, o martelo, tem servido de paradigma, no século XX, ao moderno pensamento geológico, predominantemente instrumental, ligado a cada área de especialidade das Ciências da Terra. Se chama assim a Geologia, porque assim fica menos desonesto, uma vez que não se busca mais nenhuma unidade para o pensamento geológico além do orgulho acadêmico.

Ao modo mais tacanha, faz-se do “martelar” o raciocínio próprio da geologia. Tematizado por um sem número de filósofos e geólogos híbridos, mal lidos, resume-se o racicínio próprio da geologia a movimentos rítmicos de vaivém, oferecidos ativamente à uma substância endurecida a fim de se fragmentá-la em uma unidade cômoda para a manipuilação de idéias que previamente selecionaram a amostra. Todo tipo de elucubração porvir é dedutível das idéias prévias que coabitam na cabeça deste geólogo.

Não se vá tentar “pensar” um fóssil com um martelo que se concluirá, ao fim e ao cabo de longa reflexão, que não passa de areia e fragmentos de rocha, o que, bem provavelmente, daria a prova definitiva de que o passado da Terra é um amontoado de antulho sem nenhuma realidade. Pensar o passado a marteladas é reduzí-lo, numa curiosa dialética da barbárie percussiva, ao próprio presente como ele é hoje, desde a superfície até os subterrâneos do esquecimento. E por efeito de estudos semelhantes, concluir que toda idéia a respeito de um passado natural não passam de metafísica barata.

Deve pareceer óbvio que a dialética do martelo não é tão simples, e ela, de fato, tem desdobramentos importantes, desde que seja realizada com alguma competência exporatória, como centro de atenção de uma consciência verdadeira. Advirta-se que uma consciência “das pancadas”, uma consciência percussiva, é, ainda assim, um tipo de consciência, porém com aquela socnsequências detestáveis as quais vim discorrendo.

A oposição ao martelo deve ser feita por um substrato apropriado, não por formas delicadas como as de uma concreção calcária. A oposição inadequada ao martelo o faz dirigir-se, com sua rudeza típica, para a mão, ao antebraço, ao braço, e, enfim, entra pelos olhos e dá à cabeça a possibilidade de perceber contradições, e a começar, num movimento percussivo, acompanhado de variações rítmicas outras, a constituir a música do pensamento.

Um martelo ocioso faz pensar.

Detém-se ele de ir ao encontro de opostos, e ele faz pensar.

A resistência ao vaivém do martelo agita o pensamento.

Nessa dialética, a concretude é substituita por uma metafísica do martelo:

Quando para o martelar, se transcende o martelo.

O martelo torna-se a via epistêmica de toda realidade preternatural.

A resistência a que se submete o martelo abre distâncias.

A transcendência reside na rocha, aqui e a gora; é imediata e evidente.


abril 06, 2007

Inaptidão para o futuro

Onde se demonstra que o Brasil não é o país do futuro – O incidente que ocorreu no rio dos Sinos e que, de modo geral, é a realidade de todo fluxo de consciência limpa, mostra a profunda miséria do povo brasileiro, isto é, do homem médio brasileiro, que na esperança de tempos melhores, colhe a infortuna do tempo em que ele ocorre. Senão vejamos: ou se levou aos governantes o vaticínio do desastre e interesses não convergiram a favor, ou se negligenciou a possibilidade e isso é um fracasso igual; porém, é bem verdade, menor, já que não se instaurou oficialmente fé no problema. Tê-lo feito e, ainda assim, negligenciá-lo, seria ainda pior, ou... o pior em qualquer caso. O que faz aparecer outro problema, o de que não houve “fé pública” no problema, o que é o mesmo que dizer que não se pôde ver o problema, mesmo sendo ele apresentado (do modo como foi apresentado), nada se viu.

A gigantesca inaptidão do brasileiro para o futuro, evidente por fatos como este, se mostra já na hipertrofia de sua esperança. Que não vê o futuro, no entanto, é bem evidente. A ironia esclarecedora é que “evidente” é signo do que é plenamente visível, então é plenamente visível que o brasileiro não vê o futuro. Esperança, esse sisal viçoso que se dilui com qualquer coisa sólida, é o substituto esquizofrênico da mínima aptidão para o futuro. A inaptidão do brasileiro para o futuro é paradoxal, já que quando surge um verdadeiro profeta, ele vê o que o futuro é e será: igual ao presente. Ele anuncia então que vê o futuro! Todos o cercam e ele lhes diz que se eles prestarem bem atenção, veriam o futuro. Nada mais difícil. Como o futuro é o presente indisfarçado, há-de se ter grande acuidade de visão para ver o óbvio ululante do que se mostra com toda força bem ali, ao alcance da mão: “Como vedes o mundo, eis como será no futuro”. É'vidente! O futuro é o presente evidente, já aqui e a gora. E óbvio que um profeta assim passa por charlatão. Pois não é exatamente esse o papel do profeta? O que é mais estranho para os olhos que o dom de ver o que parece incrível? – o incrível futuro, como ele nunca se mostra. E continua, daí, sem ser visto. Há que ser profeta para viver o futuro. Por definição, o futuro deveria ser um lugar só de profetas, uma terra onde todos fossem profetas, e em vez de o futuro ser um porvir, seria um estado de consciência, um estado de diferenciação da consciência.

Ora, estes estado de consciência que é o dos profetas, é o futuro; que não existe nem pode existir num mundo ou tempo onde existem os profetas no sentido vulgar da palavra, pois o profeta é justamente aquele esquisito efeito que o futuro produz sobre algumas consciências que o antecipam. O profeta fala do nascimento de um homem novo. No futuro, os profetas são homens como qualquer um de nós. No presente, o profeta é um visionário, é um estado de consciência indiferenciado, porque é ainda na maioria inconsciente. Mas tem aquela redundância essencial de viver segundo alguma coisa que ele vê constelado no horizonte que o cerca. Como pode viver no futuro quem não seja profeta (já sem sê-lo)? Como pode ver e atuar no futuro um homem comum, que vive emerso no tempo, embuçado no hábito, que não passa de um filho bastardo do passado? A progênie de um cadáver com uma donzela sempre virgem, a Necessidade. Mas o futuro já não está aqui, agora, já não se vive ele de pleno? Há-de se ter que esperar o futuro como se fosse algo que viesse naturalmente, apenas com o passar do tempo? Não há como ver o futuro sendo filho desse casal medonho.

Corolário:

Chama-se futuro a abertura das abrangentes possibilidades reveladas a uma consciência desperta e que ela vê projetadas sobre o agora... O profeta vê distâncias na brevidade. Tem o sentido da transcendência que orienta a ação presente. Preparar o futuro é preparar homens com consciência suficiente para ver o futuro, senão ele não se materializa e ninguém vive lá... O futuro é a própria transcendência, e, por força lógica, é um distanciamento do agora. Se porventura o profeta vive cá, no agora, ele é como um cego para o que há de mais óbvio, que é a evidência de que a transcendência está ausente. Então ele não passa de um contemplador de horizontes interiores, um esquizofrênico, como toda a população, a imaginar terras utópicas no além temporal; vivendo o agora sem vê-lo, como ele é, um horizonte tão próximo que pode bem ser apenas um vulgar papel de parede.