fevereiro 22, 2009

Terras desoladas e seus habitantes

"As crianças de Orwell"

Bruce Walker

www.americanthinker.com

[Tradução e notas minhas]

Já se passaram sessenta anos desde que Geoge Orwell escreveu o livro Neiteen-Eighty-Four[1], uma distopia mórbida sobre o futuro sombrio em uma sociedade totalitária. Há trinta anos, numa experiência semelhante, civis americanos escolheram viver em um destes mundos tétricos, na experiência socialista do líder carismático Jim Jones. Em 18 de Novembro de 1978, em "Jonestown", Guiana, 918 pessoas beberam uma mistura com cianureto. Em Jonestown, filmes da propaganda soviética[2] e dos comunistas chineses, assim como a sistemática condenação ao capitalismo e ao imperialismo americanos, foram repetidos maciçamente aos que adotaram como vida aquela ilha de esquerdism0[3] infernal. Jim Jones tornou-se um "Big Brother"[4].

O horror de Jonestown acabou, no clímax, em suicídio em massa. Eram pessoas comuns, Americanos como eu e vocês, separados da realidade e da moralidade, a ponto de deixarem-se levar a desistir de tudo, e mesmo de suas vidas, intoxicados apenas do veneno do esquerdismo moderno. Eles tornaram-se as crianças de Orwell[5].

Nós estamos sendo levados a este tipo de mundo, ao horrendo futuro descrito por Orwell. Muitos de nós, por conforto ou consolo, temos nos tornado muito parecidos com os habitantes de Jonestown --- crianças de Orwell: uma nova geração de criaturas enfurecidas em constante militância contra inimigos eternos, extraviados do sentido da vida e sem poder resgatar a noção do sagrado, indiferenciados dentro da consciência de massa do montão faccioso; divoraciados da história, hipnotizados por imagens, inoculados contra a razão, avessos ao valor da família e existindo somente para servir a uma causa.

Orwell não escreveu este livro do nada. Neiteen-Eighty-Four --- 1984 --- descreve a União Soviética (o livro descreve a Rússia stalinista assim como aquele império do mal estava quando Orwell viveu lá, embora tenha-o narrado quando já não estava mais lá). 1984 também descreve o nazismo, bem como traços comuns a qualquer totalitarismo[6], sua polícia secreta, sua máquina de propaganda e indivíduos extraviados. Mas Orwell fez mais, escrevendo também sobre o destino das nações democráticas ocidentais. Oceania, o único superestado totalitário realmente descrito em 1984, falava em grande medida dos Estados Unidos e do Império Britânico.

Havia elementos específicos necessários para que nações com uma herança de liberdade escorregassem para dentro da mais absoluta e abjeta escravidão. Estes elementos existiram na Alemanha nazista, como também existiram na Russia soviética, e assim existem em nossas democracias livres hoje. Quais então são as características do estado orwelliano?

Bem; começa por Deus. Os grandes novelistas russos conheciam isto: "Sem Deus, tudo é permitido".

Em Oceania, Deus simplesmente não existe. Os nazistas jactavam-se de terem feito surgir uma geração que jamais havia ouvido O sermão da Montanha ou as Regras de Ouro, e nada sobre Os Dez Mandamentos. Os soviéticos perseguiam qualquer um que seguia o Deus dos judeus e dos cristãos. É o mesmo que ocorre no mundo atual, onde Deus é tão aberta e amplamente ridicularizado. A geração das crianças de Orwell estão amadurecendo sem pensar sobre Deus; tomam Deus como uma idéia simplória da estima de pessoas tolas e de carolas antiquados.

Depois, a Verdade. Os nazistas abraçaram a "Grande Mentira"; os soviéticos negaram à honestidade per se algum valor. Na Oceania de Orwell os membros do Núcleo do Partido aprendiam a mentir para si mesmos e a manter crenças completamente contraditórias ao mesmo tempo. Verdade e honestidade tem pouca importância para as crianças de Orwell em nosso mundo. Toda a verdade é relativa, toda honestidade um pretexto, embuste [algo que sempre se justifica de algum outro modo].

Então, a Linguagem. Os nazistas fizeram isso inventando termos sem sentido tais como "ciência ariana". Os marxistas falsificaram palavras, como ocorre com "capitalismo"[7], que não significam nada de exato, mas que infestaram nossas mentes de tal modo que já nem percebemos o equívoco ou o puro nonsense nelas; que por ato reflexo faz-nos usar aquela no lugar de Liberdade[8]. A linguagem politicamente correta é uma violência. Nós vemos palavras tais corno "discriminação" como inerentemente más, enquanto outras, como "massa fetal viável", dão outro sentido ao homicídio de bebês.

Imagens e símbolos substituem as palavras. Hitler, cujos discípulos raramente lembravam o que dizia, ostentavam mudos estandartes, estátuas, figuras, símbolos, e repetiam a ladainha de seu líder[9]. Os retratos de Stalin eram inescapáveis na União Soviética, iguais ao do Big Brother em Oceania. Nós vivemos num mundo de imagens e símbolos[10]. Um conservador dedica-se aos livros para se comunicar, e fala no rádio, usa mídias que usam a palavra. As crianças de Orwell vivem no império de símbolos e imagens.

Os livros dos nazistas e dos soviéticos eram volumes ilegíveis, como Mein Kampf, de Hitler, e The Myth ofthe Twentieth Century, de Rosenberg (as duas obras-metras do nazismo), ou os vastos e vazios volumes do Marxismo-Leninismo. Não é por acaso que o gigante que mais resistiu ao mal, Solzhenitsyn, tenha sido um cristão devoto e também o mestre da palavra escrita melhor que qualquer arremedo feito por gente a serviço de Hitler ou da Politburo[11].

Os "opressores imutáveis" são o sórdido elemento final na distopia. Hitler imputou culpa de tudo aos judeus. Stalin culpou os kulaks (prósperos fazendeiros russos do século XIX) e aos inimigos no partido por tudo. A Oceania de Orwell tem em Emmanuel Goldstein um protagonista invisível de 1984, o imutável inimigo do partido[12]. Hoje há uma lista igual de nomeáveis opressores. Cristãos, homens, pessoas brancas, o "rico" (o que quer que supostamente isso signifique), os Estados Unidos e Israel, são todos opressores[13], e nada pode mudar isto.

O próprio Orwell deu-nos o nome dos profissionais que nos conduziriam ao pesadelo de 1984: "sociólogos", "professores", "burocratas", "jornalistas", "políticos profissionais", "cientistas", "organizações internacionais", "experts em propaganda" e "tecnocratas". (O termo "organização comunitária" [e "marqueteiro"] era desconhecido para ele.) Os que escravizavam eram justamente aqueles que ensinavam, que faziam os jornais, que sentavam nos corredores do poder governamental, e os que definiam a "Verdade" oficial (senão, pelo menos, a verdade do dia).

As crianças de Orwell vivem agora entre nós, não em pequeno número, em mórbidos cultos como o do Tempo do Povo de Jim Jones, mas como líderes do Congresso, como o (próprio) stablishment intelectual da Academia, como donos de jornais e do entreternimento, como administradores da escola pública, como "experts" em uma miríade de diferentes campos de atribuída "alta" perícia. Eles levaram nossas crianças a enfastiarem-se com a única realidade e com o único divertimento que muitos encontram e poucos só não se satifazem. Eles esperam pelo resto de nós, que cresça, envelheça e morra.

Irão estas crianças herdar a Terra? A História, não a Teologia, mostrou uma defesa simples contra a proliferação contagiosa das crianças de Orwell. Solzhenitsyn encontrou Deus onde ele deveria estar ausente, o Gulag. Michael Power escreveu em 1939: "Na Cristandade do povo alemão, o Nacional-Socialismo encontrou um inimigo que não podia ser subjugado" --- e os cristãos na alemanha, sozinhos, escolheram a morte antes a vender suas almas aos nazistas.

Os judeus provaram serem indigestos à brutal polícia estatal soviética. E quando tudo mais falhou para os judeus, sob o jugo do nazismo, judeus devotos como a mãe de minha esposa mantiveram-se fiéis a Deus e sobreviveram ao Holocausto. Deus pode tocar-nos a todos. Deus pode proteger-nos do mal (não do dano --- todos nós sofremos, e todos iremos morrer ---, mas proteger do maior tipo de mal que Orwell nos descreveu.)

Educação, ciência, recursos tecnológicos, cuidados médicos --- nada disso poderá evitar que escorreguemos para dentro de uma Jonestown, a Oceania tornada realidade, um lugar marcado pela advertência de Dante: "Abandone a esperaça, todo o que aqui entrar". Estamos todos ancorados na fé, mas é no que cremos que está a questão. Nós podemos crer nas mentiras do Big Brother, que mudam a cada dia, segundo as necessidads do poder; ou podemos crer na verdade de um Deus vivo. Podemos ser as crianças de Orwell, ou criaturas especiais de Deus. Tudo em nossa nação, em nosso mundo, em nossas famílias, em nossa comunidade conduzem para esta escolha.

Notas

1. O livro, no Brasil, saiu 1984, é uma inversão do ano em que foi escrito, 1948.

2. "Soviet" [1917] quer dizer "Conselho GovemamentaI", do grego symboulion, isto é, "Council of advisors" [Conselho consultivo].

3. O que o autor quer dizer com "Esquerdismo" aqui, é a crença (ideológica) de que o estado deve ser tanto maior quanto possa, para dar às pessoas o que elas precisam, ditando já o que elas precisam, e para garantir unidade social (i. e., Socialismo), antes garantido pela religião às comunidades, ou, como em Jonestown, na forma de uma experiência comunista em pequena escala, onde um líder carismático conduz o "povo" persuadindo os individuos a aderir à "comunidade", segundo princípios socialistas contra algum (suposto) risco exterior opressor e permanente (i.e, Messianismo).

4. "Big Brother" é o nome do líder onipresente de 1984, que é o Poder invisível que simboliza a opressão verdadeira, porém querendo-se, na maior parte, discreta daquela estado, a ficcional Oceania, daí o sentido de uma tirania polida, onde a desinformação e a engenharia social do duplipensar (i.e., lavagem cerebral) assumem papel fundamental.

5. Termo que tem equivalente nos “señoritos satisfechos” (aqueles “que desfrutam do legado da civilização sem ter a menor idéia de como foi conquistado e, por ignorância das condições que o geraram, acabam por destruí-lo” - de Olavo de Carvalho, aqui: http://www.olavodecarvalho.org/textos/homem_mim.html), e no fútil e leviano “homem-massa” (distribuído amplamente por todas as classes, gêneros e etnias, mas cuja espécie clímax é o “especialista”, que deduz das ciências e da tecnologia modernas os princípios que explicam como a sociedade que produziu a ciência era bárbara antes da própria surgir), ambos de de Ortega y Gasset.

6. Nos comentários (no site do artigo), um leitor adverte que o autor negligencia que Orwell escreveu não especialmente para apontar a corrupção do sistema de governos socialistas (s. l., comunistas), mas também as democracias modernas; porém o autor dá essa nota, e seja em pequena ou grande escala, estas experiências são sempre de "esquerda", já que significam o estado "ditando" regra, supondo-se como opção necessária e melhor. Mas a melhor referência para o que chama atenção o leitor, é que o livro 1984 é inspirado --- e é razoável que o tenha sido de fato --- no livro de James Burnham, The Managerial Revolution, onde a "revolução administrativa” vem suplantar tanto um socialismo tirânico (mesmo quando, supostamente, viável economicamente) quanto um capitalismo negligente e dissoluto (cf., p. ex., o artigo recente "A eleite que virou massa", de Olavo de Carvalho; o cap. III, "Permanence of capitalism", no livro de Burnham, op. cit.; e cf. também "As raízes marxistas da paranóia do aquecimento global", de Wes Vernon). Outra referência é o filme de Terry Gilliam, Brazil - O filme, cujo tema central trata de uma distopia totalitária sombria com uma mistura de características dos dois sistemas ao mesmo tempo (nazismo/comunismo e capitalismo/consumismo-hedonismo).

7. A palavra "capital" [c.1225] vem do latim capitalis "da cabeça", de caipiut (gen. capitis) "cabeça". Com sentido finaceiro surge em 1630, do latim capitàle "stock", "propriedade". "Capitalism" surge, portanto originalmente como "a condição de ter capital" em 1854. Como sistema político é de 1877; e "capitalista", de 1791, do Francês capitaliste, cunhado na revolução, para designar pejorativamente.

8. Fazer conotar "capitalismo" por "liberdade"é em parte um abuso, pois não há uma relação de necessidade entre uma coisa e outra. Por outro lado, o autor parece que se refere a marcante distinção de a maior liberdade para a maioria ter sido alcançada no regime capitalista, bem como ser esse regime aquele que comporta melhor as liberdades individuais, como nenhum outro.

9. Um exemplo disto é o grito de exultação que se seguia a um discurso ou simplesmente dirigido à massa, na Alemanha nazista, para fazer aderir, "Sieg Heil", que é uma saudação à vitória, um chamamento cujo sentido se perde na repetição altissonante.

10. O professor de história britânica, Simon Schama, escreveu artigo recente no The Guardian, com o titulo "In its severity and fury, this was Obama at his most powerful and moving. This was a stunning gamble: he dared to show his belief in the enduring power of words to refom American life", de 08 de agosto e 2008. Ali, Schama compara Obama a uma ousada jogada que aposta no poder das palavras, contra o "laconismo", "simplicidade" e "moderação" dos últimos candidatos republicanos. Obama parece ali como um orador voluptuoso, com grande poder de persuasão, associando iamgem e discurso --- um lance arriscado, mas poderoso, diz Schama ---, mas onde pouco importa a exposição do programa político, mostrando de modo claro e honesto suas propostas. Para Schama, os republicanos teriam subestimado o poder das palavras, a ''grande oratória" como meio de ação política --- antes da política.

11. A "Politburo" é a contração de Polítical Bureau ["Escritório Político"], ou Russian Políticheskoye Buro, a organização executiva para um número de partidos políticos, especialmente para os de orientação comunista. Fonte: Wikipedia/UK.

12. Goldstein tem paralelo com personagens do filme Brazil, de Terry Gilliam, tais como o "autônomo subversido" (Robert De Niro), que conserta as istalações precárias que são concessão perene de uma ineficiente "Central de Serviços" em Brazil.

13. Há ainda outros, como os "realistas", os "reacionários", os "fascistas", os"individualistas'" os "intolerantes", os "homofóbicos", os "machistas", etc., etc..


Fonte:

American Thinker

"Orwell's children"

por

Bruce Walker

http://www.americanthinker.com/2008/11/orwells_children.html

fevereiro 18, 2009

Politicamente correto: como dissolver as comparações


Mistura astutamente o verdadeiro com o falso, e ostensivamente nega o verdadeiro, de modo que ninguém duvida mais do falso”.
(Umberto Eco, O pêndulo de Foucault; §96)
Na página do jornal Zero Hora, em enquete no "MURAL" de 16.02.09:
"Com a vitória do "Sim" no referendo na Venezuela, Chávez ganha direito à reeleição ilimitada. Se você estivesse na Venezuela, qual seria o seu voto?"
Com a esmagadora maioria dizendo Sim no mural do ZH --- e os demais achando que Sei lá ---, escrevi:
"Chávez é golpista como foi Hitler antes de eleger-se "democraticamente" (pela maioria). Como Hitler, governa por plebicito, usando a máquina do estado. Tinha ideais de reforma, ambos são governos revolucionários com intenções expansionistas (como os comunistas). Como Hitler, tinha ampla maioria da população ao seu lado. Só se sustenta pelo apoio político e estratégico de Fidel e de Lula, no Foro de São Paulo. Democracia para todos estes é "muito tempo no poder" legitimado pelo plebicitarismo. Só se sustenta pela natureza do subsolo, rica em petróleo. Comete crime contra o povo da Venezuela, contra todos os princípios democráticos básicos: democracia não é muito tempo no poder, mesmo que com o apoio popular. Como Hitler, Chávez sustenta o neoantisemitismo e anti-imperialismo de Ahmadinejad ("krämer nation"). A democracia exige meios justos, que os bons reclamem, e que alguém os escute. Pobre torpe América Latina. Povo que não tem virtude (e tradição), acaba por ser escravo."
Não foi publicado.
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Etapismo
No ZH desta terça, 17.02.2009 (p. 14), o editorial condena Chávez do modo mais agudo que pode, “politicamente correto”: chama o regime de Chávez de (horror!) “autocrático”.
Cháves sobrevive a “críticas sistemáticas da imprensa menos submissa”, mas sobrevive. Talvez coisa igual explique também a extraordinária aprovação de Lula, e ajude a reforçar nele a tentação irresistível de tomar as instituições democráticas partindo de persuasão carismática, um movimento que se alastra pelo mundo, nos EU, com Obama, na Venezuela, Paraguai, Bolívia, Equador, e Brasil, o messianismo de um Hitler e de um Stalin, de Mao... Antônios Conselheiros de Canudos em outra escala, de Jonestown sacrificial, tudo pelo irrecusável “mundo melhor”.
O artigo do editorial da ZH mostra bem o que é “fazer bons governos”, exortação do Foro de São Paulo, onde a esquerda da América Latina trabalha pelo socialismo no ritmo que cada país pode ter, e que cada povo está preparado para aceitar --- democraticamente.
*
Polêmica unívoca
Algumas coisas se esclarecem de outro modo.
No programa Polêmica da rádio Gaúcha, de 17.02.09, a pergunta foi: “Agora é ditadura na Venzuela, Chávez poderá continuar presidente até morrer ou ainda é democracia, porque de seis em seis anos Chávez terá que se submeter a novas eleições?”
Os convidados foram escolhidos com acidentada assimetria. Um dos debatedores mais contundentes, o advogado João Gilberto Lucas Coelho, é de esquerda moderada (ex.: pró-socialdemocracia chilena e uruguaia), e afirmou ser Chávez uma “experiência autoritária dentro de um regime democrático”. Destacou os claros elementos de autoritarismo, incompatíveis com a experiência democrática no resto do mundo, acompanhado timidamente pelo Professor de Direito Constitucional, Eduardo Carrion, da UFRGS. Ambos fizeram a defesa da democracia enquanto “meios justos”, legalista, mas, no que se refere a Carrion, apenas inevitavelmente contra as reformas de Chávez, tendo em conta seu ofício, que não o poderia orientar de outro modo.
Em vários momentos, ambos foram contundentes, sem serem nunca enfáticos, sobre a condenação dos meios de Chávez, ainda que tenham titubeado ao dizer que a Venezuela não seja hoje uma democracia, ou, na melhor das hipóteses (!), uma democracia tão legítima quanto a de Hitler. O plebicitarismo foi citado, e os meios semelhantes, a popularidade, a economia forte, no caso de Chávez, mais as mudanças sociais, que na Alemanha o aspecto social também havia tido ganhos. Mas, enfim, concluiu-se por ser a Venezuela hoje uma democracia. O próprio “mediador” resolveu tirar de Lucas Coelho hesitante, mas que então trata-se, Sim, de uma democracia.
Apesar da condenação a Chávez, o advogado Lucas Coelho foi ambíguo em algumas declarações, como quando diz que é difícil saber em que pé está a Venezuela de Chávez, quando cada um dá, hoje, algo mais à democracia, o que por certo a torna impossível definir. Não ocorre a Lucas Coelho tentar dizer o que a democracia não é, apesar de ele ter se posicionado contra a “democracia” de Chávez. Diz mais adiante que Chávez “era golpista antes de ser socialista...”, aí completa, “depois virou esquerdista”.
Agora eu entendo: quando Chávez ameaçou colocar tanques na rua, caso perdesse, como comentou um dos debatedores, ele estava sendo “direitista” e “golpista”? Mas depois de ir ao socialismo, é um homem que só pensa no bem do povo venezuelano, por certo. Que polêmica mais assimétrica esta!
O ouvinte, Henrique Schuster, repetiu esse argumento com mais clareza: “E se depois [com as mudanças na Constituição] entra um direitista louco? Com os direitistas sempre veio junto a barbárie...” [não textual]. Não passa pela cabeça da esquerda e de seus enamorados que a esquerda seja tão bárbara quanto a direita com que eles sonham (e muito poucos tem pesadelos), ou que seus líderes sejam exatamente isso, loucos --- aliás, contra os quais as provas não faltam.
Por fim, diz Lucas Coelho, a respeito das democracias com candidatos a tiranetes, “o coletivo também erra”. O coletivismo não é só falha, mas é fonte do maior mal que jamais houve, e fez um pouco irrisório em contrário (cf. R.J. Rummel: Democídio).
E aí acabou a resistência polêmica de Lucas Coelho e Carrion, ainda que com mais razão, ao caráter puramente polêmico dos contendores Cláudia Wasserman, Profss. de História da América Latina (!) na UFRGS, e o economista Ubiratan de Souza, representante do PT. Estes dois, valendo-se da indefectível dialética sintética --- que assimila à visão ideológica os fatos opostos e faz de limão limonada. O de loge reconhecível discurso repetitivo e monótono da esquerda, que mesmo quando refutado, se repete em seguida como se não tivessem ouvido nada, foi pródigo em justificar a hipótese de que o bolivarianismo venezuelano é “um tipo de democracia”.
Wasserman cita as 15 eleições pelas quais Chávez passou, dando a ênfase para esse fato que sobrepõe todas as circunstâncias que as cercam, bem como o fato de que o voto livre não pode ser um fundamento sozinho da democracia. Quando observadores internacionais foram expulsos, lembraram que estavam sendo parciais, quando justamente, parciais ou não, um dos papéis dos observadores é poderem dizer o que veem, como o uso da máquina pública para assistir a população eleitora do “Si”. Citam, para reforçar esse argumento, que o Brasil criticou os críticos do regime chavista, encontrando no consenso de companheiros do Foro de São Paulo justificativa para o injustificável.
Para Wasserman e Ubiratan, o ex-presidente Peres, da época do golpe de Chávez, que era acusado de corrupção e que sofreu, por isto, impeachment, tem o caso semelhante ao de Collor, mas nem de longe lhes passa pela cabeça que seja o mesmo o caso do Mensalão para Lula. Ignorar isso não é simplesmente engano, é desonestidade evidentíssima --- é, por fim, de novo, a dialética sitética do maxismo, que trata como se fosse feito de borracha, esticando o que interessa, e comprimindo o que desagrada.
A Venezuela, como disseram os debatedores de esquerda, passou de um período a outro de corrupção, contínuos, até... Chávez (!). Mas no Brasil, não lhes ocorre que o mesmo ocorreu até --- incluindo --- Lula.
Voltaram a repetir que no poder permaneceram Margaret Thatcher, 11, F. D. Roosevelt, 14, e --- pasmem --- FHC, 8, este por ter abrido a possibilidade à re-eleição, como se estes casos fosse possível compará-los com o de Chávez. Tomam como proporcional a Chávez, Thatcher no sistema parlamentarista, que poderia a qualquer momento sacar do poder o Primeiro Ministro, FHC que abriu à re-eleição, e a Roosevelt, que --- espantam-se os esquerdistas, que tenha “...nos EU!!” --- permanecido no poder por tanto tempo, desconsiderando (sem serem admoestado sobre isso) as condições de exceção da crise de 1929 e na sequencia, da guerra. E Roosevelt só saiu do poder porque morreu em 1945, causando comoção nas tropas americanas no fim da guerra. Como estes exemplo podem ser equiparados ao de Chávez?!
Além das posições que vieram das ruas, mais contundentes que esse “Eu reconheço que haja práticas autoritárias...” do Professor de Direito Constitucional, alguma resistência houve no contraponto aos custos do assistencialismo, à nota sobre a inflação de 30%, à epidêmica e virulenta corrupção, pior que a brasileira (!!), mas nada de suporte às FARC e ao tráfico de drogas, como já denunciado (v. aqui).
*
Sempre dizemos outra coisa
O economista Ubiratan de Souza, do PT, foi mais claro. Denunciou a manipulação de informações sobre o governo Chávez, ignorando a censura praticada pelo mesmo e os seus mecanismos de pressão no país; valeu-se também, como seus argumentos mais fortes, as estatísticas sociais, dialeticamente estranguladas como é orientação do Foro de São Paulo para “fazer bons governos” para permanecer no poder. Referiu-se ao chavismo como “democracia participativa”, ignorando que as piores tiranias começaram assim; e, querendo reforçar o que defende, citando o que o desmente no ato, quando ao falar de Thatcher, Roosevelt, FHC como exemplos de permanência no poder, completa, “e inclusive numa época de crise” --- justamente o que explica a exceção.
Mas então --- o pus do furúnculo --- pergunta-lhe Lauro Quadros: “Quem está certo [!], cada um no seu contexto: Lula ou Chavez?
Responde Ubiratan:
“Eu acho que cada processo político tem um processo histórico e político que se estabelece de acordo com a correlação de forças políticas, a cultura desses países, então cada país pode ter o regime [que decidir]... é a autodeterminação dos povos”.
Em outras palavras, repete o que disse Lula reproduzido no post anterior:
“Este é o maior período de democracia que o Brasil já passou (20 anos). Estamos num processo de construção da democracia, mas nada impede que daqui a algum tempo, apareça um partido político, um conjunto de deputados, que proponha mudar a lei […] e que permita ter três, quatro eleições... Isso pode acontecer. Na hora que você tiver instituições consolidadas, e tiver liberdade política, e o povo quiser, isso vai acontecer. Eu sou criticado no Brasil por defender o processo aqui na Venezuela, pois [é porque] eu sei quantas eleições você [Chávez] já [se] submeteu, quantos referendos, quantas votações, e eu acho que isso é o exercício da democracia”.
A gravidade dessa declaração parece que não está sendo notada direito. E é exatamente o que Ubiratan diz também. E, para contrastar, Lauro Quadros diz [não textual], “Olha, como são diferentes! Chávez de Lula... O qual poderia estar querendo, pelo exemplo, pelas suas circunstâncias [alta popularidade] reivindicando um terceiro mandato, mas ele não quer”. Que coisa! Apesar de vários movimentos terem sido feitos nesse sentido, a atual postura de Lula parece que vale mais que qualquer evidência.
Lula não quer, até que, não querer se torne, dialeticamente, aceitar querer, e o povo aceitar, compulsoriamente.
Como se a definição socialista não fosse justamente “transição para o socialismo”, e não é exatamente o que dizem as declarações de Ubiratan e Lula? E o mesmo que já havia declarado pior Marco Aurélio Garcia, que a imprensa brasileira e a análise política ignoraram no essencial:
“A impressão de que o PT foi para o centro surge do fato de que tivemos de assumir compromissos que estão nesse terreno. Isso implica que teremos de aceitar inicialmente algumas práticas. Mas isso não é para sempre” (Fonte).
Ou Schafik Handal, cuja história de guerrilha e trégua se assemelha com a própria história da esquerda latino-americana, ao lado de Chávez, Castro e Morales, adictos do Foro de São Paulo:
Los revolucionarios entramos al sistema, para cambiar el sistema, y no para que el sistema nos cambie a nosotros”.
*
“Maldito povo reacionário!”
Outra coisa, que o programa sempre repete de modo boboca, é que a enquete não é científica, porém uma pesquisa cientifica mostrou que a amostragem do polêmica é representativa da sociedade:
"Pesquisa Datafolha revela que 47% do eleitorado brasileiro se define com sendo de "direita". Outros 23% de "centro" e apenas 30% de "esquerda". Apesar de menos da metade se definir como de "direita", é esmagadora a maioria que adota posições geralmente associadas ao conservadorismo, como a condenação ao aborto, às drogas e a defesa de medidas mais duras de combate ao crime. A pesquisa mostra que são contra a descriminalização da maconha 79%. Do aborto, 63%. Outros 84% defendem a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos e 51% querem a instituição da pena de morte" (Fonte: Fernando Canzian na Folha de S. Paulo 05.01.2009, aqui).
Final da enquete do Polêmica sobre as mudanças de Chávez:
- É ditadura - 71%
- Ainda é democracia - 29%
Total de ligações: 356
O brasileiro é majoritariamente conservador, mesmo quando não se declara --- nos atos, mostra que é. E a elite de formadores de opinião, acadêmicos, intelectuais e artistas: de esquerda.
*
Autodeterminação alheia
A autodeterminação dos povos é, portanto, para a esquerda, a possibilidade de o povo, nas circusntâncias adeqaudas entregar o poder, porque “quer”, às mais radicais mudanças que podem lhe tirar a maioria das decisões e da autodeterminação, como se vê no conservadorismo brasileiro, tão combatido pela esquerda.
Para isso, “instituições consolidadas” significa instituições “ocupadas” (v. “Coerência despercebida”).
Tudo com muita coerência.
*
Ética é a burocracia do politicamente correto
Segundo as condições para publicação da Zero Hora.com, que podem ser lidas no mesmo local, identifiquei os motivos de meu comentário não ter sido publicado nos itens 1º, 3º, 7º, 9º e 10º:
É vetada a publicação de comentários que (1º) “sejam falsos ou infundados”, mas como tudo é opinião, não dá para saber nenhum fato, além do mais, o Foro de São Paulo, que está citado no comentário, jamais saiu na ZH, então, logo, é falso. Entendo.
Fica óbvio que (3º) “qualquer forma de fanatismo político” abrange comparar Chávez a Hitler, que é coisa de maluco! Porque Hitler era maluco de fato, e Chávez ainda nem matou etnias em escala industrial, sequer começou uma guerra; logo, essa comparação é “fanática”, e o fato de Hitler não ter feito isso até 1945, quando os moradores das cercanias de Auschwitz foram convidados para visitar os fornos. Mas o mais importante é que Chávez não tem bigodinho, e é óbvio que não tem nada a ver com Hitler, sequer na mesma época vivem.
Bem, é inequívoco que discriminei Chávez (7º), pelo menos “de algum modo”, e se está vedada “disciminação de qualquer natureza”, mais uma vez plenamente justificado o cerceamento da minha comparação.
Nenhum dos itens condicionais à publicação é mais acertado que o 9º, que diz que ao conteúdo do comentário não é permitido que “explore medo ou superstição”. Ora, todo mundo sabe que o Foro de São Paulo é a mula-sem-cabeça, logo: “superstição”. A comparação com Hitler é um modo de botar medo, é evidentíssimo, e principalmente porque é, de fato, os meios de um e outro. Melhor esquecer. Quanto a Ahmadinejad, o mesmo “terrorismo” politicamente incorreto. E medo gera superstição, logo, melhor ver Chávez como um democrata justo e o bolivarianismo como “um tipo de democracia alternativa”.
Exemplo eloquente é quando Lauro, para não dizer que não tem razão quando cerceia os ultrarradicais, lê o e-mail violento de um ouvinte que pede, como se fez com Saddam, “cabeça de um lado e corpo do outro...”. Eu me pergunto se conforme as regras de publicação da ZH, se isso não é explorar medo ou superstição?!
E, não há como negar (10º), a menssagem se “aproveita da deficiência de julgamento das crianças”, crianças de Orwell (v. tradução do próximo post). Como eu pude não notar isto?!
*
Idiotas úteis
As regras de publicação dos comentários da ZH têm essa virtude incorruptível de pairar acima, impessoais, julgando aos pobres mortais, nos seus delírios contra o politicamente correto, que a todos nós traz essa paz polida e charmosa do dândi idiota.