fevereiro 22, 2009

Terras desoladas e seus habitantes

"As crianças de Orwell"

Bruce Walker

www.americanthinker.com

[Tradução e notas minhas]

Já se passaram sessenta anos desde que Geoge Orwell escreveu o livro Neiteen-Eighty-Four[1], uma distopia mórbida sobre o futuro sombrio em uma sociedade totalitária. Há trinta anos, numa experiência semelhante, civis americanos escolheram viver em um destes mundos tétricos, na experiência socialista do líder carismático Jim Jones. Em 18 de Novembro de 1978, em "Jonestown", Guiana, 918 pessoas beberam uma mistura com cianureto. Em Jonestown, filmes da propaganda soviética[2] e dos comunistas chineses, assim como a sistemática condenação ao capitalismo e ao imperialismo americanos, foram repetidos maciçamente aos que adotaram como vida aquela ilha de esquerdism0[3] infernal. Jim Jones tornou-se um "Big Brother"[4].

O horror de Jonestown acabou, no clímax, em suicídio em massa. Eram pessoas comuns, Americanos como eu e vocês, separados da realidade e da moralidade, a ponto de deixarem-se levar a desistir de tudo, e mesmo de suas vidas, intoxicados apenas do veneno do esquerdismo moderno. Eles tornaram-se as crianças de Orwell[5].

Nós estamos sendo levados a este tipo de mundo, ao horrendo futuro descrito por Orwell. Muitos de nós, por conforto ou consolo, temos nos tornado muito parecidos com os habitantes de Jonestown --- crianças de Orwell: uma nova geração de criaturas enfurecidas em constante militância contra inimigos eternos, extraviados do sentido da vida e sem poder resgatar a noção do sagrado, indiferenciados dentro da consciência de massa do montão faccioso; divoraciados da história, hipnotizados por imagens, inoculados contra a razão, avessos ao valor da família e existindo somente para servir a uma causa.

Orwell não escreveu este livro do nada. Neiteen-Eighty-Four --- 1984 --- descreve a União Soviética (o livro descreve a Rússia stalinista assim como aquele império do mal estava quando Orwell viveu lá, embora tenha-o narrado quando já não estava mais lá). 1984 também descreve o nazismo, bem como traços comuns a qualquer totalitarismo[6], sua polícia secreta, sua máquina de propaganda e indivíduos extraviados. Mas Orwell fez mais, escrevendo também sobre o destino das nações democráticas ocidentais. Oceania, o único superestado totalitário realmente descrito em 1984, falava em grande medida dos Estados Unidos e do Império Britânico.

Havia elementos específicos necessários para que nações com uma herança de liberdade escorregassem para dentro da mais absoluta e abjeta escravidão. Estes elementos existiram na Alemanha nazista, como também existiram na Russia soviética, e assim existem em nossas democracias livres hoje. Quais então são as características do estado orwelliano?

Bem; começa por Deus. Os grandes novelistas russos conheciam isto: "Sem Deus, tudo é permitido".

Em Oceania, Deus simplesmente não existe. Os nazistas jactavam-se de terem feito surgir uma geração que jamais havia ouvido O sermão da Montanha ou as Regras de Ouro, e nada sobre Os Dez Mandamentos. Os soviéticos perseguiam qualquer um que seguia o Deus dos judeus e dos cristãos. É o mesmo que ocorre no mundo atual, onde Deus é tão aberta e amplamente ridicularizado. A geração das crianças de Orwell estão amadurecendo sem pensar sobre Deus; tomam Deus como uma idéia simplória da estima de pessoas tolas e de carolas antiquados.

Depois, a Verdade. Os nazistas abraçaram a "Grande Mentira"; os soviéticos negaram à honestidade per se algum valor. Na Oceania de Orwell os membros do Núcleo do Partido aprendiam a mentir para si mesmos e a manter crenças completamente contraditórias ao mesmo tempo. Verdade e honestidade tem pouca importância para as crianças de Orwell em nosso mundo. Toda a verdade é relativa, toda honestidade um pretexto, embuste [algo que sempre se justifica de algum outro modo].

Então, a Linguagem. Os nazistas fizeram isso inventando termos sem sentido tais como "ciência ariana". Os marxistas falsificaram palavras, como ocorre com "capitalismo"[7], que não significam nada de exato, mas que infestaram nossas mentes de tal modo que já nem percebemos o equívoco ou o puro nonsense nelas; que por ato reflexo faz-nos usar aquela no lugar de Liberdade[8]. A linguagem politicamente correta é uma violência. Nós vemos palavras tais corno "discriminação" como inerentemente más, enquanto outras, como "massa fetal viável", dão outro sentido ao homicídio de bebês.

Imagens e símbolos substituem as palavras. Hitler, cujos discípulos raramente lembravam o que dizia, ostentavam mudos estandartes, estátuas, figuras, símbolos, e repetiam a ladainha de seu líder[9]. Os retratos de Stalin eram inescapáveis na União Soviética, iguais ao do Big Brother em Oceania. Nós vivemos num mundo de imagens e símbolos[10]. Um conservador dedica-se aos livros para se comunicar, e fala no rádio, usa mídias que usam a palavra. As crianças de Orwell vivem no império de símbolos e imagens.

Os livros dos nazistas e dos soviéticos eram volumes ilegíveis, como Mein Kampf, de Hitler, e The Myth ofthe Twentieth Century, de Rosenberg (as duas obras-metras do nazismo), ou os vastos e vazios volumes do Marxismo-Leninismo. Não é por acaso que o gigante que mais resistiu ao mal, Solzhenitsyn, tenha sido um cristão devoto e também o mestre da palavra escrita melhor que qualquer arremedo feito por gente a serviço de Hitler ou da Politburo[11].

Os "opressores imutáveis" são o sórdido elemento final na distopia. Hitler imputou culpa de tudo aos judeus. Stalin culpou os kulaks (prósperos fazendeiros russos do século XIX) e aos inimigos no partido por tudo. A Oceania de Orwell tem em Emmanuel Goldstein um protagonista invisível de 1984, o imutável inimigo do partido[12]. Hoje há uma lista igual de nomeáveis opressores. Cristãos, homens, pessoas brancas, o "rico" (o que quer que supostamente isso signifique), os Estados Unidos e Israel, são todos opressores[13], e nada pode mudar isto.

O próprio Orwell deu-nos o nome dos profissionais que nos conduziriam ao pesadelo de 1984: "sociólogos", "professores", "burocratas", "jornalistas", "políticos profissionais", "cientistas", "organizações internacionais", "experts em propaganda" e "tecnocratas". (O termo "organização comunitária" [e "marqueteiro"] era desconhecido para ele.) Os que escravizavam eram justamente aqueles que ensinavam, que faziam os jornais, que sentavam nos corredores do poder governamental, e os que definiam a "Verdade" oficial (senão, pelo menos, a verdade do dia).

As crianças de Orwell vivem agora entre nós, não em pequeno número, em mórbidos cultos como o do Tempo do Povo de Jim Jones, mas como líderes do Congresso, como o (próprio) stablishment intelectual da Academia, como donos de jornais e do entreternimento, como administradores da escola pública, como "experts" em uma miríade de diferentes campos de atribuída "alta" perícia. Eles levaram nossas crianças a enfastiarem-se com a única realidade e com o único divertimento que muitos encontram e poucos só não se satifazem. Eles esperam pelo resto de nós, que cresça, envelheça e morra.

Irão estas crianças herdar a Terra? A História, não a Teologia, mostrou uma defesa simples contra a proliferação contagiosa das crianças de Orwell. Solzhenitsyn encontrou Deus onde ele deveria estar ausente, o Gulag. Michael Power escreveu em 1939: "Na Cristandade do povo alemão, o Nacional-Socialismo encontrou um inimigo que não podia ser subjugado" --- e os cristãos na alemanha, sozinhos, escolheram a morte antes a vender suas almas aos nazistas.

Os judeus provaram serem indigestos à brutal polícia estatal soviética. E quando tudo mais falhou para os judeus, sob o jugo do nazismo, judeus devotos como a mãe de minha esposa mantiveram-se fiéis a Deus e sobreviveram ao Holocausto. Deus pode tocar-nos a todos. Deus pode proteger-nos do mal (não do dano --- todos nós sofremos, e todos iremos morrer ---, mas proteger do maior tipo de mal que Orwell nos descreveu.)

Educação, ciência, recursos tecnológicos, cuidados médicos --- nada disso poderá evitar que escorreguemos para dentro de uma Jonestown, a Oceania tornada realidade, um lugar marcado pela advertência de Dante: "Abandone a esperaça, todo o que aqui entrar". Estamos todos ancorados na fé, mas é no que cremos que está a questão. Nós podemos crer nas mentiras do Big Brother, que mudam a cada dia, segundo as necessidads do poder; ou podemos crer na verdade de um Deus vivo. Podemos ser as crianças de Orwell, ou criaturas especiais de Deus. Tudo em nossa nação, em nosso mundo, em nossas famílias, em nossa comunidade conduzem para esta escolha.

Notas

1. O livro, no Brasil, saiu 1984, é uma inversão do ano em que foi escrito, 1948.

2. "Soviet" [1917] quer dizer "Conselho GovemamentaI", do grego symboulion, isto é, "Council of advisors" [Conselho consultivo].

3. O que o autor quer dizer com "Esquerdismo" aqui, é a crença (ideológica) de que o estado deve ser tanto maior quanto possa, para dar às pessoas o que elas precisam, ditando já o que elas precisam, e para garantir unidade social (i. e., Socialismo), antes garantido pela religião às comunidades, ou, como em Jonestown, na forma de uma experiência comunista em pequena escala, onde um líder carismático conduz o "povo" persuadindo os individuos a aderir à "comunidade", segundo princípios socialistas contra algum (suposto) risco exterior opressor e permanente (i.e, Messianismo).

4. "Big Brother" é o nome do líder onipresente de 1984, que é o Poder invisível que simboliza a opressão verdadeira, porém querendo-se, na maior parte, discreta daquela estado, a ficcional Oceania, daí o sentido de uma tirania polida, onde a desinformação e a engenharia social do duplipensar (i.e., lavagem cerebral) assumem papel fundamental.

5. Termo que tem equivalente nos “señoritos satisfechos” (aqueles “que desfrutam do legado da civilização sem ter a menor idéia de como foi conquistado e, por ignorância das condições que o geraram, acabam por destruí-lo” - de Olavo de Carvalho, aqui: http://www.olavodecarvalho.org/textos/homem_mim.html), e no fútil e leviano “homem-massa” (distribuído amplamente por todas as classes, gêneros e etnias, mas cuja espécie clímax é o “especialista”, que deduz das ciências e da tecnologia modernas os princípios que explicam como a sociedade que produziu a ciência era bárbara antes da própria surgir), ambos de de Ortega y Gasset.

6. Nos comentários (no site do artigo), um leitor adverte que o autor negligencia que Orwell escreveu não especialmente para apontar a corrupção do sistema de governos socialistas (s. l., comunistas), mas também as democracias modernas; porém o autor dá essa nota, e seja em pequena ou grande escala, estas experiências são sempre de "esquerda", já que significam o estado "ditando" regra, supondo-se como opção necessária e melhor. Mas a melhor referência para o que chama atenção o leitor, é que o livro 1984 é inspirado --- e é razoável que o tenha sido de fato --- no livro de James Burnham, The Managerial Revolution, onde a "revolução administrativa” vem suplantar tanto um socialismo tirânico (mesmo quando, supostamente, viável economicamente) quanto um capitalismo negligente e dissoluto (cf., p. ex., o artigo recente "A eleite que virou massa", de Olavo de Carvalho; o cap. III, "Permanence of capitalism", no livro de Burnham, op. cit.; e cf. também "As raízes marxistas da paranóia do aquecimento global", de Wes Vernon). Outra referência é o filme de Terry Gilliam, Brazil - O filme, cujo tema central trata de uma distopia totalitária sombria com uma mistura de características dos dois sistemas ao mesmo tempo (nazismo/comunismo e capitalismo/consumismo-hedonismo).

7. A palavra "capital" [c.1225] vem do latim capitalis "da cabeça", de caipiut (gen. capitis) "cabeça". Com sentido finaceiro surge em 1630, do latim capitàle "stock", "propriedade". "Capitalism" surge, portanto originalmente como "a condição de ter capital" em 1854. Como sistema político é de 1877; e "capitalista", de 1791, do Francês capitaliste, cunhado na revolução, para designar pejorativamente.

8. Fazer conotar "capitalismo" por "liberdade"é em parte um abuso, pois não há uma relação de necessidade entre uma coisa e outra. Por outro lado, o autor parece que se refere a marcante distinção de a maior liberdade para a maioria ter sido alcançada no regime capitalista, bem como ser esse regime aquele que comporta melhor as liberdades individuais, como nenhum outro.

9. Um exemplo disto é o grito de exultação que se seguia a um discurso ou simplesmente dirigido à massa, na Alemanha nazista, para fazer aderir, "Sieg Heil", que é uma saudação à vitória, um chamamento cujo sentido se perde na repetição altissonante.

10. O professor de história britânica, Simon Schama, escreveu artigo recente no The Guardian, com o titulo "In its severity and fury, this was Obama at his most powerful and moving. This was a stunning gamble: he dared to show his belief in the enduring power of words to refom American life", de 08 de agosto e 2008. Ali, Schama compara Obama a uma ousada jogada que aposta no poder das palavras, contra o "laconismo", "simplicidade" e "moderação" dos últimos candidatos republicanos. Obama parece ali como um orador voluptuoso, com grande poder de persuasão, associando iamgem e discurso --- um lance arriscado, mas poderoso, diz Schama ---, mas onde pouco importa a exposição do programa político, mostrando de modo claro e honesto suas propostas. Para Schama, os republicanos teriam subestimado o poder das palavras, a ''grande oratória" como meio de ação política --- antes da política.

11. A "Politburo" é a contração de Polítical Bureau ["Escritório Político"], ou Russian Políticheskoye Buro, a organização executiva para um número de partidos políticos, especialmente para os de orientação comunista. Fonte: Wikipedia/UK.

12. Goldstein tem paralelo com personagens do filme Brazil, de Terry Gilliam, tais como o "autônomo subversido" (Robert De Niro), que conserta as istalações precárias que são concessão perene de uma ineficiente "Central de Serviços" em Brazil.

13. Há ainda outros, como os "realistas", os "reacionários", os "fascistas", os"individualistas'" os "intolerantes", os "homofóbicos", os "machistas", etc., etc..


Fonte:

American Thinker

"Orwell's children"

por

Bruce Walker

http://www.americanthinker.com/2008/11/orwells_children.html

Nenhum comentário: