maio 29, 2013

O canibal bulímico e a lei psicológica da projeção leninista da própria torpeza

Ou também, como ler a história reduzindo-a a encadeamentos lógicos a partir de resumos jornalisticos para ver no que se omite pela concisão o salto fantástico de uma conspiração que sabota a nossa utopia e nos ameaça com o risco de trazer de volta a lembrança velada pelo silêncio dos traidores.
 --- Como ler jornais – 4 ---
O mais velho e histórico assentamento americano de colonos europeus nos Estados Unidos se chamou Jamestown, às margens do rio James, sob reinado homônimo e sob as vistas dos índios Powhatans. Em artigo de Duda Teixeira, na Veja, uma cadeia lógica abusiva atribui atos de canibalismo ao comunismo, uma mácula certamente à memória do comunismo e um non sequitur do encadeamento lógico reacionário, segundo a crítica de Juremir Machado em “O canibalismo comunista da Veja” (24.05.13) , no Correio do Povo.
A acusação de Juremir, que encontrou no caso uma bela oportunidade de desmascarar a Veja confirmando os adjetivos que de tão prolíficos já não podem ser senão o eco de um julgamento prévio: charlatanismo, pseudociência, estupidez, rigidez lógica, ridículo, besteirol, galhofa, sensacionalismo, e, por fim (cuspindo para cima), orientação ideológica. Muito adjetivos para um artigo tão curto. Ao que parece, os adjetivos querem encontrar uma confirmação no artigo, aquilo que na história são hipóteses explicativas que se jogam sobre os fatos para se confirmar com o testemunho constrangido destes.
Quando uma cadeia lógica é muito longa, quando essa cadeia é uma dedução de eventos históricos, as circunstâncias devem poder convencer qualquer um sério a atenuar os extremos do silogismo como causa e efeito mesmo para um caso bem localizado como havido em Jamestown. Mas, se é assim, do inverso se deve estar igualmente advertido: de uma narrativa histórica não se pode tirar encadeamentos lógicos rigorosos. Agora, ainda menos de um artigo de jornal ou revista, que resume da narrativa histórica a nuances de alguma relevância para a vida humana atual --- um tipo de uniformitarismo que tende a ver no passado o que nos parece importante hoje.
Juremir trocará o jornalismo da Veja pelo jornalismo do “Vejamos”, para em seguida não trazer nada que não seja seu próprio espectro de cores, agora mais justificado desde que vê no artigo da Veja o traço grosseiro da ideologia que ele descreverá melhor. E sem economizar luzes, carrega na intensidades das cores, vai do ultraje à infâmia, e enfim ao histrionismo que, já confiante, deixa solta a própria torpeza para atribuir a textos históricos (e menos que isso, jornalísticos) o encadeamento lógico extraído de um resumo. De um compacto artigo de revista, Juremir analisa reducionistamente o artigo em uma cadeia lógica ofensiva de tão rígida, para acusar Teixeira de tê-lo feito antes. O nexo causal de Juremir é rígido por que ele não chegou à semântica, limitando-se à "lógica". Duda Teixeira coloca em destaque a odiosa ideologia que Juremir denuncia no título “Os ossos do comunismo” e na chamada que afirma que o sistema de produção coletivo ineficiente produziu a penúria que acabou em canibalismo. Os termos dessa conclusão em Teixeira são “deu no que deu e “se não fosse”, para se referir ao sistema imposto pela Cia da Virgínia, que preferiu o sistema coletivo de produção, como o de uma cooperativa arrendada, por temor a uma súbita autonomia e independência dos colonos do outro lado do Atlântico. Explica-se com mais força o ultraje de Juremir, pois sua lógica tem a Veja como premissa maior de tudo que os comunistas atribuíam à maçonaria e aos judeus por sua catástrofe, seus horrores e olheiras.
Simplesmente, a conclusão de que o suposto proto-comunismo da primeira colônia americana, que levou a sua população de cerca de 200 assentados a morrer em cerca de 80% no inverno de 1609-10, e antes disso ao canibalismo, como descobriram pela evidência forense inscrita na testa de uma jovem de 14 anos, não é de Teixeira, nem da Veja, é dos historiadores citados pelo artigo. Aparentemente, Juremir não deu conta disso.
A crítica de Juremir está quase completamente “fundamentada” sobre a forma tosca dos resumos de jornais e artigos de revistas. Só o título “Os ossos do socialismo”, na verdade um elogio que Teixeira presta a essa ideologia, ao compará-lo a Jamestown, é que sugere qualquer coisa digna da crítica hiperbólica de Juremir ao artigo. A visão “desmistificadora” de Juremir, intoxicado da rigorosa lógica alheia, desvelou a conspiração da “estupidez” do ponto de vista da própria torpeza. Juremir, no final, sai com o sarcasmo de que o comunismo comedor de criancinhas está finalmente provado, mais cabalmente pois que “agora é científico” --- segundo a ciência de Teixeira que Juremir chamou de charlatanismo. Ou terá ele se referido aos historiadores? Não ficou claro. Na verdade não fica claro nem mesmo se Juremir percebeu que as teses do artigo são dos historiadores.
Mas um pouco mais incompreensível é sugerir alguma dúvida sobre a prova científica de que o regime coletivo de produção é um fracasso e leva à penúria, que é coisa já há muito uma verdade histórica que ninguém discute serialmente. (Talvez o pessoal do PT, com o tipo de seriedade de que fala Juremir.) Ninguém que sabe que não pode defender o comunismo, ainda que usando termos tolos como “reacionário”, defenderia algo assim, que seria como que se desdizer no mesmo parágrafo o que recém se acabara de dizer --- ou, ao introduzir duas conclusões antagônicas na mesma cadeia causal necessária. Mas, de fato, para um marxista isso não seria lá algo que se pudesse dizer que é uma contradição.
A reportagem faz uma relação direta entre comunismo e penúria, relação que pode estar errada para o caso de Jamestown, é, no entanto, verdadeira para os casos de Sistemas coletivos de produção (i.e., onde a iniciativa individual é mais e mais suprimida). Exceto, é claro, ao sistema escravagistas, como observou sem perceber a ironia o socialista utópico Richard Owen.
O uso do termo “reacionário” é grandemente pouco auspicioso da capacidade cognitiva de um jornalista. E a miséria se confirma, mas de revés. Não é que Juremir quase que tem razão na sua conclusão maior? Que saiba, e só sei de ouvir dizer, ele já teria acertado uma outra --- não sei se essa seria uma hipotética segunda vez. Se ele acerta, infelizmente seria pelas razões erradas. (Ô gente complicada.)
Tentando, sem muito esforço, encontrar por que Teixeira tira conclusões que não estão em outros periódicos, vê-se, como dá a fonte, ser a hipótese de alguns historiadores. Tem que ler melhor que Jurandir para perceber que essa hipótese pode ter mais fundamento do que parece pelo que pode ser afirmado num artigo de jornal. O jornalista da Veja resume assim: “Se não fosse o sistema de produção fracassado, a situação dificilmente teria chegado a esse ponto”. É uma tese. Juremir acerta e erra; a “inflexão” do texto supervaloriza (?) um aspecto, dado pelo historiador George Percy. O “charlatanismo”, se há algum, não é de Teixeira, menos ainda da Veja, como o considera Juremir, talvez por conveniência ou inversão histérica. Outra coisa, muito verossímil: “O coletivismo fora implantado pela Companhia da Virgínia, empresa responsável pela empreitada em Jamestown, por temor de que, se os colonos tivessem sua própria terra do outro lado do Atlântico, deixariam de enviar o que produziam para Londres”. É tão verossímil esse medo que ele antecipa profeticamente a “revolução” americana; e que, além disso, com mais razão poder-se-ia afirmar que o controle dos meios de produção causou a tragédia. Mas estas coisas escapam a Juremires. É pedir demais que Juremir acredite que a disposição de espírito dos homens mude quando se lhes impõem os meios de produção? Mas Marx acreditava nisso! Tanto acreditava que queria libertar o homem do trabalho “alienado” opressor. A utopia erra também, por outro lado, porque o trabalho meramente por dever exterior aliena igualmente. O tipo humano soviético está bem documentado pelos soviéticos exilados no primeiro caso; os do segundo caso estão exemplificados pelas comunidades utópicas ao longo da história, muitas tentadas na América.
O texto da Veja, assinado por Duda Teixeira, pode, no máximo, dar ênfase a um aspecto da crise do primeiro assentamento americano como causa maior da penúria, ainda assim não da antropofagia, como diz Juremir. Mas não foi isso que está dito. A lógica de Juremir usa muito de relações causais metonímicas, toma um sentido de um aspecto ou parte pelo todo e conclui triunfalmente --- aquilo que ele chamou de “segurança dos tolos encantados”.
A decisão”, conclui Teixeira pelas palavras de alguns historiadores, “despertou os traços hoje bem conhecidos do capitalismo americano: o empreendedorismo e a aptidão para a competição”. --- A imprecisão está no “despertou”, que é um figuração para aquilo que o historiador concluirá ser a observação das circunstâncias que historicamente mostraram que seriam, sobre o homem americano, os seus traços positivos. Como causa, é meramente figurativo, não tem valor científico. Mas eu não sei se o historiador seguiria esse raciocínio linear que Juremir atribui a Teixeira. Diz Juremir:A cadeia estabelecida é imperativa: o coletivismo levou à preguiça, que levou à improdutividade, que levou à fome, que levou ao canibalismo”. Essa simplificação da “conclusão reducionista” do artigo é um ponto de vista de Juremir, fruto de seu particular modo cognitivo de ser (em palavras exatas). Isso sempre acontece quando o cara em vez de querer saber a verdade, corre para a refutação da “inflexão” ideológica do outro, acabando apenas por deformação igual e de sentido contrário --- quando não, Freud explica, simplesmente projetando no adversário as suas graves limitações de leitura.
O coletivismo leva à massificação e à mediação da ação humana por símbolos exteriores (p. ex.,o sentido abstrato de grupo, ou como a confiança na ajuda exterior --- coisa que pode ser reconhecida também na fé ou sujeição a um sistema de produção coletivo); a improdutividade levar à fome e ao canibalismo é verdadeiro para casos extremos, o comunismo é, sim, o melhor exemplo disso. Juremir já fizera uma boa descrição da penúria de Cuba, quando lá esteve, e rejeita a experiência comunista soviética, só que não sabe por quê. “A saída viria com a propriedade privada”, faz graça da simplificação que é, de novo, de sua lavra --- mas não. A saída veio com a propriedade privada, não “viria”. É o que Juremir chamou de “estúpido” --- os fatos, no caso. De novo, diz Juremir: “Todos os demais aspectos de adaptação e de conjuntura são desconsiderados”. Não tenho essa certeza.
Vamos ajudar Juremir. As circunstâncias --- a “conjuntura” de Juremir ---, ao contrário do que leu o guapo, estão lá, pois diz o artigo: “Findo o comércio, começaram as hostilidades. 'Os índios sitiaram o forte. Ninguém podia sair para conseguir alimentos'”, segundo o historiador William Kelso. O inverno de 1609-10, como está observado, levou a uma condição extrema, cerca de 80%, segundo a reportagens reproduzida no Los Angeles Times, “Os tempos de penúria trouxeram uma convergência tripla de desastres: pouca provisão, sítio dos Powhatans, isolamento de ajuda externa”. Nessas circunstâncias, não foi o regime coletivo de produção que gerou o possível ato de canibalismo, mas os historiadores não negam que o sistema de produção deles não permitia reservas nem anuais, sem ajuda externa.
Para a pragmática [!] revista Veja, no coletivismo, entre trabalhar e comer seus semelhantes, as pessoas escolhem a segunda opção”. Não, Juremir; com um sistema onde eles eram tão somente peças, que não trabalhavam para si mesmos, nenhum fruto colhiam do próprio trabalho. O modo de trabalho durou alguns anos, até parecer a uns quantos algo que se poderiam negligenciar indolentemente o que jamais se tornava um fruto mais maduro na divisão dos lucros da Cia da Virgínia.
Cada um pode enfocar o que entende ser o ponto central de aspectos concorrentes: a real penúria produzida pelo comunismo científico --- do qual o caso de Jamestown pode ser um mal exemplo ---; ou a conclusão mágica de que esse fracasso levou ao capitalismo. Fracassos não geram sociedade melhores --- isso é um conceito místico do marxismo, o da “crise”. (Essa noção é já um traço da mentalidade brasileira, qualquer um a reconhece como correta.) O exemplo de Jamestown poderia estar mais para as comunidades protestantes como tantas que se tentaram por lá, pequenas e conservadoras. Muitas das quais deram certo, até onde podem em certo isolamento, como os anabatistas Amish, americanos, e os Vyg, na Rússia, que existiram por longevos 150 anos. Não parece ser nem esse o caso de Jamestown, mesmo quando colocado ao lado dos mais notáveis fracassos de comunidades socialistas utópicas.
Juremir afasta qualquer chance de poder estar defendendo o comunismo. Difícil é de entender por que alguém diria algo assim; difícil igualmente é entender por que alguém faria uma advertência a um artigo que faz essa relação, como acabou me chamando a atenção ter sido feito, supostamente coisa que o artigo de Juremir teria desmascarado. O comunismo acabou com toda a “conjuntura”, Ucrânia e China viveram verdadeira catástrofe de penúria pelo Sistema de produção coletivista --- isto é, alguém organizando o sistema de produção, administrando-o de modo que a iniciativa individual é quase anulada. Assim resumirá a dialética historiográfica de Juremir no caso de Jamestown:
“Um colono comeu a esposa grávida. Veja, enfim, descobriu a origem da expressão “comunista comedor de criancinha”. Na verdade, encontrou algo mais grave, o comunista comedor de feto. Sem contar que Duda Teixeira chegou ao elo perdido, a origem sempre procurada do capitalismo, o estalo: “Foi essa mudança, nascida do trauma de um inverno em que colonos caíram na selvageria que permitiu aos Estados Unidos se tornar o maior gerador de riqueza do planeta e o berço do capitalismo moderno”. O capitalismo nada mais é que uma reação ao canibalismo comunista. Agora é científico.”
Na verdade, esse foi apenas um sinal profético, já que o canibalismo produzido pelo comunismo só mais tarde ganhou a lúgubre fama que a propaganda contraditou, desacreditou, como faria também para a ciência comunista: na China entre 1958 e 1962, e na Ucrânia, no inverno de 1932-33, quando o governo soviético instalou pôsters com os dizeres: “Comer as suas crianças é um ato de barbárie”. Juremir não apenas não sabe porque disse “Longe de mim defender o comunismo”, como desconhece também os meios do charlatanismo soviético que nele já são mentalidade.
Também se relata a indolência para o trabalho dos colonos, mas a preguiça pode ter sido, com mais chance de ser verdadeiro, fruto da confiança na ajuda externa, que naquele ano faltou. Mas, olha que curioso, a diferença entre um verdadeiro sistema de produção coletiva para aquele de Jamestown é que no primeiro o sistema de produção é imposto de fora, pode dar certo ou errado (sempre deu errado, de novo, exceto em regimes escravagistas); enquanto no caso dos colonos à margem do Rio James, foi a confiança na ajuda externa que os pôs à mercê daquele inverno e dos índios. As conclusões de Duda Teixeira, que para Juremir não passam de charlatanismo ideológico, são o resultado de uma cabeça que pensa por metonímias --- é claro que, para a economia psicológica de quem apostou demais na mentalidade de esquerda, e já não pode perder. Resta o “surplus” da projeção no outro da própria torpeza. Assim Juremir disfarça, afirmando que não há relação direta do “coletivismo” algo tão específico quanto o canibalismo. Nem se dá ao trabalho de distinguir entre “coletivismo”, os meios coletivos de produção, isto é, nas mãos de alguém, do comunismo como ideologia. As refutações de Juremir são grosseiros desvio semântico trocando palavras não para não perceber a tensão polêmica da narrativa histórica, mas porque não vê nenhuma tensão pode até mesmo usar sinônimos por homófonos.
Não fosse grosseiro, eu diria: é a coisa mais idiota que li” --- arremata Juremir.
Tudo aqui se explica por um encadeamento causal psicológico bem rígido. Há uma máxima leninista que é uma lei cega do pensamento de esquerda: “Xingue-os [adversários] do que você é; acuse-os do que você faz”. Nunca falha.
*
A conclusão dos historiadores pode até ser falsa para o caso de Jamestown, mas realmente não é o que se pode concluir para a penúria extrema que o comunismo sempre se mostrou altamente capaz de produzir. Juremir parece que quer rejeitar o comunismo e limpá-lo de uma referência que nem de longe é uma mera especulação, nem mesmo para Jamestown, quanto mais para o coletivismo universal que prega, ainda hoje, o comunismo. Se há aí uma cultura coletivista, é porque também há uma mentalidade coletivista, a qual, simbolicamente, habituou-se a canibalizar ex-comunistas para sobreviver. “Longe de mim defender o comunismo”, diz Juremir. Canibalismo bulímico, bem a propósito da inversão revolucionária e da psicologia histérica que joga sobre o outro os seus horrores. Vomita o passado, como um tipo de Cronos, para dizer que não comeu, e volta a comer. É monstro pior.
O símbolo da penúria de Jamestown deveria ser vista hoje na miséria brasileira, que tem vários pontos de coincidência funesta com o espírito e as circunstâncias que levaram à Rússia para o comunismo, a pseudociência, a fé no futuro como destino, a falta de cultura verdadeira, a idéia de revolução, o marxismo, a filosofia “crítica” (i.e., marxismo difamatório, sorrateiro e sabotador), o caráter do homem, fraco, dissimulado, oportunista, massificado, relativista, solene, e, é claro, com essa mentalidade que permeia as caraminholas de Juremir e de quem o lê.
Alguns links:

Jamestown settlers ate 14-year-old girl, researchers say”, Los Angeles Times.

History rant: Cannibalism at Jamestown — Why?”, The Blaze; sobre a tese “de” Duda Teixeira que Juremir chamou de charlatanismo.

First permanent British settlers in America  were CANNIBALS who even ate a 14 year old girl to survive deadly 1609 winter”, Mail Online.

Cannibal Colonists Devoured 14-Year-Old Girl At Jamestown”, Buzz Feed.

abril 09, 2013

Metas do Milênio Divino

 O QUE a PROPAGANDA da ONU sobre AS METAS DO MILÊNIO QUER DIZER REALMENTE --- o que VÊM FAZENDO e NÃO o que ESTÁ TÃO ADORAVELMENTE DECLARADO no original, da propaganda oficial.


março 03, 2013

O Diabo contra a hipocrisia

Hipocrisia é o tributo que o vício presta à virtude
Depois das palavras corajosas de Bento XVI na sua despedida, é de se esperar que suas alegações e sua opção pela transparência propiciem ao Vaticano uma oportunidade para passar a limpo hipocrisias históricas”. --- Destaque do editorial de ZH de 28 de Fevereiro de 2013.
Com essa chamada no editorial, no reconhecível estilo do comentário político do programa “Atualidade” (Rádio Gaúcha), a Zero Hora faz recorrer à Igreja Católica seus pecados inconfessos, querendo com isso que, como a transparência, eles venham à tona para --- num tipo de psicanálise progressista --- por algum expediente, reformar a Igreja e a fé em algo, digamos assim, muito mais “humano”. (A ideologia humanista tem sua explanação num artigo ao lado do editorial nesse mesmo dia, sob o título “Simplesmente, humanos”)
Diz o editorial:
Provavelmente, o sucessor de Bento XVI tenha que administrar polêmicas recorrentes, como o fim do celibato obrigatório, o acesso de mulheres ao sacerdócio, o uso de preservativo, a união entre homossexuais e as experiências médicas com células-tronco [embrionárias --- hoje já quase o completamente desnecessário, em vista do sucesso no uso de células-tronco adultas ---], entre outros que contam com a oposição radical do Vaticano.”
E conclui:
[O conservador Bento XVI] deixa como legado final uma tênue abertura para a modernização da Igreja.”
(Eis o seu mérito, ao que parece.)
Uma coisa seguida da outra faz recorrer novamente à “hipocrisia” da igreja, que o editorial enuncia como coisa arqui-sabida. Então, se a hipocrisia pode ser psicanalisada, se pode ser trazida à tona como confissão, cabe agora, segundo os iluminados formadores de opinião de editorial, e até para remover a odiosa hipocrisia, aceitar os pecados como “condições humanas” (a revolução de um mundo de ponta-cabeça, afinal, só poderia dar no mesmo); não de sua falibilidade, mas de sua natureza ordinária, algo tão próximo das heresias medievais que só não dá para reconhecer melhor porque a cabeça mediana vê mais do que rápido algo não tolerado pelo período como coisa obviamente cheia de virtudes, ainda que não soubesse dizê-lo, o quê ou de que modo. Isto é, tornar o hábito vicioso em novo hábito, num processo civilizatório todo novo. Assim, a frase final postula uma acusação cheia de esperanças de renovação. (Gostaria de saber de que alto degrau fala o senhor editorialista). Então aquele lugar da mais alta reverência é, na verdade, outro lugar apenas do baixo mundo onde a ganância, o ardil financeiro, a ânsia por poder e a sacanagem estão tão presentes quanto se deveria esperar que estivessem em qualquer outro lugar. A hipocrisia, como se vê, é um pecado pior que o vício, para o nosso ilustrado editorialista.
Libertada dessa sombra recalcada e reacionária, para algo muito mais humano, até demasiado humano, agora a igreja pode tratar de considerar, desde o ponto de vista de seus pecados inconfessos, o pecado mundano como coisa cuja compaixão e perdão devem se transformar em obsequiosa tolerância, que deverá se manifestar na reforma da igreja e da moral natural para contemplar a substância do pecado mesma como sacerdócio muito mais realista, porque uma verdade empírica. Isto é, o perdão cristão se transforma em liberalidade ao pecado. Ora, quem poderia pecar ao entregar-se ao desejo que o Deus Todo-Poderoso e onipresente não poderia estar negligente? Assim, e desde então, o perdão caridoso cristalizar-se-á legal e moralmente nos códigos da dogmática como comportamento legítimo e de foro íntimo; e sendo o respeito ao foro íntimo moral em si mesmo.
Assim... Negar-se à hipocrisia significa agora promover abertamente os mesmos vícios que vexavam a conduta da igreja, mas agora já com o salvo-conduto para aqueles que trabalharam, conspirando e deformando desde dentro a igreja para dessa crise artificial tirar uma igreja muito mais viciada e pecaminosa, porém, então já com a salvaguarda do consenso, incluindo aqueles dos nossos editorialistas. Afinal de contas, espantam-se eles, a igreja não evoluiu com o mundo, mas ficou parada no tempo, no tempo de Deus.
Sanar as hipocrisias, assim, é abraçar o vício que agora, num mundo muito mais ilustrado pela sabedoria da Razão, faz abranger a todos um perdão igualitário prévio. O afluxo laico --- chamaram-no “lobby” --- ilustra o Cristo, a moral da igreja então passa a ser a moral do humanismo ateu, e isto pedido pelos formadores de opinião de editoriais, para uma igreja mais “moderna”.
Aqueles que acreditam que religião é apenas formas vazias da necessidade humana que um John Gray não consegue negar ao homem, mas se resigna, já não poderiam tratar ela de outra forma, e quando pedem que se reforme, já não podem deixar de ajudar os piores diabos a deixá-la do jeito mesmo que seus inimigos sempre quiseram vê-la, à sua imagem e semelhança.

fevereiro 15, 2013

A hora dos Lobos

Ódio vindo de fora, escárnio e inimigos internos à Igreja, isto somado a um comentário de Bento XVI pode indicar que a renúncia seja por razões estratégicas a eventos alarmantes. 

Texto de Steve Jalsevac no LifeSiteNews.
Uma tradução rápida e comentada.
 
Ilustração de Joe Fenton.
Para Steve Jalsevac, "Benedict’s renunciation and the wolves within the church" (14.02.13) Bento XVI teria concluído que a igreja precisa de um papa com força física para lutar contra inimigos externos e internos, alguns completamente avessos à razão e inteiramente anticristãos. 
George Neumayr, no seu artigo "O Papa relutante" lista as realizações de Bento XVI: "trivialidade e sem crédito". "Sua luta contra a ditadura do relativismo", sua defesa do uso da missa tradicional latina, sua reinstituição do banimento a ordenação de padres homossexuais, sua histórica aproximação com os desafetos Anglicanos, a abundância de discursos e textos, a reparação ante o colapso catequético dentro da igreja, sua insistência no caráter "não negociável" da lei moral natural na política e na cultura, são alguns pontos notáveis. Numa sociedade que se acostumou a repetir como papagaios que reformas (progressistas) são adaptações sábias aos tempos --- que o matuto adere mais do que rápido ---, e que Conservador é a salmoura do pickles, Bento XVI levantou contra si toda uma matilha de inimigos e muitos fiéis autoenganados que abandonaram as igrejas na Europa e EUA. ... Há muita resistência, alguma dela terrivelmente viciada e rebelde, especialmente do clero e leigos nos países ricos. Bento XVI tem sido traído mesmo por aqueles mais próximos dele, no Vaticano.
Em seu blog, "Bento XVI: Razão revolucionária", Samuel Gregg, do The Acton Institute, explica algumas das razões para a animosidade que o Papa experimentou:
"Intelectualmente, Ratzinger de longe supera os suspeitos habituais que querem tornar o catolicismo em algo entre o desastre outrora conhecido como Igreja da Inglaterra e o mais triste ativismo de esquerda como o das freiras idosas presas em 1968. Mas contra os cada vez mais comuns discursos agressivos de um Hans Kung ou Leonardo Boff, Ratzinger simplesmente continuou defendendo e explicando a racionalidade essencial do cristianismo com uma modéstia que falta aos opositores.
Bento XVI fez insistentes apelos à razão, à razão da Igreja e da cristandade (... O engraçado é que muitos, muito mais racionais, se chocam quando não encontram a defesa da fé irracional de um lado contra as "razões" mais racionais do que não passa de uma ideologia do outro lado). Mas é a razão da igreja que está em jogo, ou, suas premissas. A razão defende uma ideologia hoje, que tem a tradição da Igreja por inimiga. Essa razão é que está sendo rejeitada. Qualquer um que instrua uma pessoa ao que é melhor a respeito de sua sexualidade, de seu corpo, sua teologia ou seu ego, é cada vez mais visto como uma pessoa agressiva mais do que um pai amoroso ou um professor.
Queira o Espírito Santo guiar os cardeais e afastar os poderes tenebrosos que se infiltraram na Igreja, deixando-os à margem nesse momento histórico.
Há um rumor de que algo mal está para acontecer, e que somente os grandes baluartes contrários ao mal podem derrotar, uma Igreja unificada e amparada na fé combativa junto a todos os demais que crêem num Deus bom, é quem pode fazer esse trabalho.