janeiro 28, 2008

Época crepuscular

“PRÓLOGO. Não se pode deixar de reconhecer que Nietzsche foi o grande profeta do Séc. XIX. A sua antevisão do Séc. XX está confirmada, pois a ascensão do nihilismo, em sentido filosófico, conhece um novo avatar. E dizemos avatar porque nas épocas de decadência dos ciclos culturais, não é outro o espectáculo a que se assiste. Julgamos conveniente expressar aqui num bem rápido esboço, embora veemente, a fisionomia de nossa época de fariseísmo e filisteísmo intelectual, em que a moeda falsa substitui a verdadeira, em que as mais abstrusas e falsas doutrinas, já refutadas com séculos de antecedência, surgem como “novidades”, que atraem para o seu âmbito as inteligências deficitárias de nossa época, que cooperam, conscientemente ou não, na tentativa de destruir o que havia de mais positivo no pensamento humano.
Há necessidade de denunciar esse aviltamento da cultura e dos valores, e também demonstrar a improcedência das tentativas de dissolver o que havia de mais elevado no pensamento humano.
Neste prólogo, faremos o diagnóstico. A terapêutica vem depois, nos diálogos, onde examinamos a falta de base das afirmativas nihilistas, da filosofia da negatividade que se antepõe à filosofia da positividade, a filosofia afirmativa, a filosofia do Sim. A acção destructiva das doutrinas negativistas já provocou muitas lágrimas e derramou muito sangue. Estamos vivendo em pleno nihilismo, e este está alcançando as suas fronteiras. E é um dever dos que se colocam do lado da afirmação e da positividade, trabalharem, afanarem-se, esforçarem-se para combater a sanha da decadência, cujos vícios estimularam inúmeros males à humanidade e ainda prometem outros maiores”.
- Mário Ferreira dos Santos, em Filosofia da Afirmação e da Negação, primeiros parágrafos do “Prólogo”, p. 13 (2ª edição: 1962).

janeiro 20, 2008

O grande vão sinistro de Pont

Como, eu fico me perguntando, uma “consciência de gratidão” chega à realidade que buscam o juíz e o historiador? Devo agora acrescentar, “e o Contador”. Se David Coimbra, como todo homem de esquerda[1], não parece que tem uma consciência, mas algo que fala por ele, desse fenômeno curioso da xenoglossia marxista, os exemplos mais agudos são os dos mais velhos. É o caso de Raul Pont; um homem “da esquerda”!
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A injustiça da igualdade
O deputado estadual Raul Pont (PT/RS), foi confrontado recentemente, no programa Gaúcha Repórter, do apresentador Lasier Martins, com os dados do Economista-Contador Darcy Francisco Carvalho dos Santos, que, realmente constrangido, refutou as declarações do professor de “Teoria Política” do Partido dos Trabalhadores.
Tudo começou quando Pont falou ao Le Monde Diplomatique/Brasil sobre os problemas do Estado, indicando onde os governos haviam sistematicamente falhado e elegendo, pelo seu ponto de vista particular, aquelas características de natureza técnico-contábil mais importantes, que, apesar de desconhecê-las, explicou-as.
Pois confrontado, Ponte não tergiversou, (pior) foi prontamente defendendo seu “ponto de vista” de teórico político contra os dados do Contador.
O Contador refuta as declarações de Ponte com claro constrangimento; discreto, mas claro. O momento alto é quando o Contador diz, hesitante (pelo constrangimento), que “É preciso ler as coisas antes de fazer declarações...”. Ponte não se agüenta e tenta, na falta do que dizer, criar um clima ideológico antagônico, quando pergunta ao Contador sobre seu partido, sua posição, ao que o Contador responde dizendo que não tem partido, mas que, certamente, tem posição: a dos números que ele analisou e traz com ele, submetendo suas opiniões aos números e não o contrário.
Mas depois de mostrar os números (máxima ênfase nesse “mostrar”), mas sem maior habilidade em lidar com gente palavrosa, vê Raul Pont pedir que torne os números “um argumento seu”. Disse ele: Faça isso um argumento seu...”[3]. Ora, pedir algo assim só pode ter o sentido de fazer do que é auto-evidente opinião e, portanto, colocar no mesmo nível de validade uma análise que desmentia as declarações licenciosas de Ponte ao Le Monde.
Admitir que as “opiniões” de ambos tem o mesmo peso, o mesmo valor, é ajudar a esse ambiente de subjetivismos que permite que as coisas sejam ditas e que não se tire as devias conseqüências delas. É admitir coisa igual ao Renan Calheiros declarando que a realidade estava esquizofrênica.
Quando se admite por muito tempo discursos num sentido e ações no outro, ou contradições internas no discurso[2], mesmo que apenas teóricas, não há como deter a injustiça. O que não pode acontecer é que, querendo dar direitos iguais a todos, falhemos em dar mérito a quem o tem, igualando assim ambos, a verdade e a verossimilhança. Igualar as duas coisas é criar essa “igualdade” que é só outro nome da injustiça.
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Teoria política da pecha
Depois que o Contador diz, impaciente e constrangido, que é preciso ler sobre as coisas que se vai declarar à imprensa, Pont rebate: “Não me venha com o argumento da autoridade” (!). É quando pede que o Contador transforme seus dados em “um argumento seu”.
Na ordem, Raul pede que ele torne seus dados, aos quais ele se submete, à sua opinião (!), portanto, tornando o Contador um defensor de uma ideologia (que impõe aos dados), e não a dos números que ele diz defender. Em seguida, acusa-o, em alta voz e como que sorrindo para o óbvio, diz: “Diga logo que o senhor tem um partido, uma posição...”.
Quer dizer, primeiro acusa o Contador de usar o “argumento da autoridade”, depois pede – como se só pudesse crer em homens inverídicos, experiência que deve ser, por certo, íntima – que ele deve assumir seu “partido” ou “posição”; que, não poderia se de outro modo, tem nos números oficiais do Estado do Rio Grande do Sul, apenas um pretexto para a ação ideológica.
Como Pont não pode acreditar em nenhuma honestidade, o que certamente toma pela medida de sua própria consciência, tem que “desconfiar” que há alguma trapaça na posição do Contador.
A falsidade destes homens sinistros, é já um traço da personalidade coletiva que o esquerdismo adotou certa vez e que, de tanto fugir à verdade, entrou em simbiose com o hospedeiro, e fez deles médiuns possessos de um mundo futuro verdadeiro, sendo todo o resto, hic et nunc, assombrado pela maldição de não poder ser senão o títere animado pelo espírito da desconfiança. Não há um homem ali, mas um escravo dos cultos seculares ao Nada. E como se todos sofressem da mesma doença, a todos estende a pecha.
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A conclusão é que a RBS e o sr. Lasier Martins são obviamente “direitistas”, usando a lógica da esquerda. Que, com tamanha desvantagem para Pont, somente alguém com outras intenções que as do debate, colocaria o Contador e o Pont frente a frente. Em outras palavras: se Lasier fosse de esquerda, mentiria ignorando qualquer desacordo entre as declarações de Pont e os dados oficiais atuais e históricos do Estado.
P.S.:
O nome de Raul Pont foi, algumas vezes, trocado por “Ponte”, mas isso foi acidental, ao contrário do que possa parecer; nem por isso, me parece, deve ser atribuído à mera coincidência.

Notas
1. De “Homens sinistros”.
2. Justificativa de, supostamente, alguma “estratégia comunicativa” pela qual os lingüistas adoram explicar o nonsense político.
3. Sobre o uso sistemático e estratégico destes "números" que fundam uma outra realidade, ler "Monstros", de Olavo de Carvalho.

janeiro 12, 2008

No reino do “Mais aquém”

No verbete “Idiota” do Dicionário do Diabo, o escritor norte-americano Ambrose Bierce (des)qualifica, in abstractu, a potestade inferior que o termo significa, pairando, pela inépcia, acima de todos.

Se num primeiro momento parece que tem lá algo de verdade, logo se é levado a acreditar que não passa mesmo de um chiste.

Quando a coisa toda, no entanto, reaparece com o valor da experiência, é, então, já testemunha de alguma coisa que pode ser real, mas, como as instituições, não ter uma personalidade bem distinta. Como que paira, pela leveza, e está em todo lugar.

Na frase de Rui Barbosa, que diz a mesma coisa, isso ganha evidência; e já não é nem só espirituosa, mas descritiva:


"Há tantos burros mandando em homens de inteligência que às vezes fico pensando que a burrice é uma ciência”.

Rui Barbosa.

IDIOTA, s. Membro de uma vasta e poderosa tribo cuja influência nos assuntos humanos tem sido sempre dominante e controladora. A atividade do idiota não se limita a nenhum campo especial de pensamento ou ação, mas impregna e controla o todo. Sempre tem a última palavra; sua decisão é inapelável. Estabelece modas de opinião e gosto, dita as regras da linguagem e circunscreve os imites da conduta”.

Ambrose Bierce.


No mesmo sentido disse Nelson Rodrigues, "A estupidez é [como] a Pedra da Gávea... Eterna, enorme e imutável”, e dá para acrescentar, no espírito dos demais citados: onipresente.