agosto 31, 2007

Longanimidade transcendente

PARA O ILUSTRÍSSIMO
SENHOR MICHEL DE CASTELNAU

Senhor de Mauvissière, Concressault e Joinville, Cavaleiro da Ordem do Rei Cristianíssimo, Conselheiro do seu Conselho privado. Capitão de cinquenta homens de armas, e Embaixador junto da Sereníssima Rainha de Inglaterra.

"Se eu, ilustríssimo Cavaleiro, manejasse o arado, apascentasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse um fato, ninguém faria caso de mim, raros me observariam, poucos me censurariam, e facilmente poderia agradar a todos. Mas, por eu ser delineador do campo da natureza, atento ao alimento da alma, ansioso da cultura do espírito e estudioso da actividade do intelecto, eis que me ameaça quem se sente visado, me assalta quem se vê observado, me morde quem é atingido, me devora quem se sente descoberto. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos. Se quiserdes saber porque isto acontece, digo-vos que a razão é que tudo me desagrada, que detesto o vulgo, a multidão não me contenta, e só uma coisa me fascina: aquela, em virtude da qual me sinto livre em sujeição, contente em pena, rico na indigência e vivo na morte; em virtude da qual não invejo aqueles que são servos na liberdade, que sentem pena no prazer, são pobres na riqueza e mortos em vida, pois que têm no próprio corpo a cadeia que os acorrenta, no espírito o inferno que os oprime, na alma o error que os adoenta, na mente o letargo que os mata, não havendo magnanimidade que os redima, nem longanimidade que os eleve, nem esplendor que os abrilhante, nem ciência que os avive. Daí, sucede que não arredo o pé do árduo caminho, por cansado; nem retiro as mãos da obra que se me apresenta, por indolente; nem qual desesperado, viro as costas ao inimigo que se me opõe, nem como deslumbrado, desvio os olhos do divino objecto: no entanto, sinto-me geralmente reputado um sofista, que mais procura parecer subtil do que ser verídico; um ambicioso, que mais se esforça por suscitar nova e falsa seita do que por consolidar a antiga e verdadeira; um trapaceiro que procura o resplendor da glória impingindo as trevas dos erros; um espírito inquieto que subverte os edifícios da boa disciplina, tornando-se maquinador de perversidade. Oxalá, Senhor, que os santos numes afastem de mim todos aqueles que injustamente me odeiam; oxalá que me seja sempre propício o meu Deus; oxalá que me sejam favoráveis todos os governantes do nosso mundo; oxalá que os astros me tratem tal como à semente em relação ao campo, e ao campo em relação à semente, de maneira que apareça no mundo algum fruto útil e glorioso do meu labor, acordando o espírito e abrindo o sentimento àqueles que não têm luz de intelecto; pois, em verdade, eu não me entrego a fantasias, e se erro, julgo não errar intencionalmente; falando e escrevendo, não disputo por amor da vitória em si mesma (pois que todas as reputações e vitórias considero inimigas de Deus, abjectas e sem sombra de honra, se não assentarem na verdade), mas por amor da verdadeira sapiência e fervor da verdadeira especulação me afadigo, me apoquento, me atormento. É isto que irão comprovar os argumentos da demonstração, baseados em raciocínios válidos que procedem de um juízo recto, informado por imagens não falsas, que, como verdadeiras embaixadoras, se desprendem das coisas da natureza e se tornam presentes àqueles que as procuram, patentes àqueles que as miram, claras para todo aquele que as aprende, certas para todo aquele que as compreende. Apresento-vos agora a minha especulação acerca do infinito, do universo e dos mundos inumeráveis".


Giordano Bruno. Acerca do infinito, do Universo e dos Mundos (1584).
Fundação Calouste Gulbenkian.

agosto 29, 2007

Folclore do homem da língua presa

(A linguagem que a realidade e a verdade não falam)

*

Xenoglossia

De tanto esperar que o Lula dissesse alguma coisa além desse discurso pronto de lugares-comuns politicamente corretos, tais como a ladainha de falsa austeridade como este “Se tem uma coisa que aprendi a valorizar, é a democracia”, cheguei à conclusão que se trata de uma destas disfunções da fala da classe das dislalias (a dislexia da fala), que vão muito além da folclórica língua presa.

Uma pergunta que poder-se-ia fazer é se a língua presa pode causar dislexia e, por uma confusão infeliz, levar à condição de método ou estilo os truncamentos, os solecismos e paralogismos. O expediente de que é possível compreender o que se quer dizer apesar da torpeza lógica e sintática do discurso não vale, pois isto é em geral um grande limitante da complexidade e sutieza que está nas possibilidades da língua – além de relativizar (e por isto querer justificar de uma só vez) a consciência moral. Um discurso codificado não é menos que isto, e implica no fechamento de certos sentidos de um código fixo, taxidermizando por efeito a própria experiência ituitiva de novos termos e as amplitudes da experiência literária, sem as quais ler os clássicos não serve de nada.

Justifica-se por isto – então sim – o recalcitrante desprezo de Lula pelos livros (e correligionários), pela leitura e pelo estudo de modo geral, bem como o apoucado esforço dos intelectuais de esquerda pela consciência moral e pelo exame dessa consciência.

Aliás, é curioso – bem a propósito – que a folclórica língua presa tenha sido a responsável por declarações como as que suspeitaram que o mensalão fossem folclore. Na cadeira presidencial, Lula declara, tocando o peito com as duas mãos:

Eu estou convencido, estou convencido. Esse negócio de mensalão me cheira um pouco a folclore dentro do congresso nacional. Pode ter outro tipo de coisa que os deputados podem saber...” [também notícia do dia 08.11.2005].

Horrível dislexia política, a “lulalia” é um tipo de xenoglossia: é a linguagem de um outro mundo aplicada a este e imposta à realidade. Vou mais longe, acho mesmo que isso explica o fenômeno psiquiátrico de quem passa a ver a realidade como esquizofrênica quando ela contraria a própria visão das coisas que lhe chegam de fora.

*

Evidências reacionárias

No pronunciamento por ocasião do desastre com o avião da TAM, Lula voltou a incorrer naquele tipo de discurso liso (e aquaplanado) e de tom dramático monótono, em que a “normalidade” se impõe desde o início – geralmente, no início, consternado – e que dá mesmo unidade de ritmo e conteúdo aos pronunciamentos, sem que, por nenhum momento, se encontre aí qualquer coisas que dê a impressão de que se ouve mais que um marionete.

Para o ingênuo incauto do grotão (!), tudo começou com a esperança de que o cara fosse dizer coisas com coisa, logo após as denúncias do mensalão, em uma declaração ocorrida na Granja do Torto, tendo como fundo uma parede de pedras à vista, mas o que se ouviu e viu, de novo, foi a retórica do placebo: Engulam isto e vão ver que vão se sentir melhor.

Estas coisas são evidentes por si mesmas. Basta transcrever os pronuciamentos num papel e revê-los, e notar-se-á que não têm consistência em si, nem conferem com as coisas que acontecem ou aconteceram, às quais se referem (como a opinião do Zuanazzi, sempre desencontrada do governo). Mas alguma dúvida ainda pode haver sob a “Teoria da Conspiração”, tão cara quando as coisas parecem tão evidentes. Se tudo parece provar exatamente o que é, de fato, é porque é de suspeitar, mesmo que se acabe, assim, chegando ao Renan Calheiros e à sua declaração acusadora de que a realidade está esquizofrênica, que é coisa imanente mesmo à realidade: que é da natureza da realidade ser como é.

A verdade absolverá”, é o mantra cantado, mesmo que a realidade insista em manter evidente a si mesma. Isso é o que dá para chamar, segundo a lógica da dislexia política de esquerda, “natureza reacionária”.

*


Sem grooving na língua

O cara que fala o que bem entende se diz que não tem papas na língua; língua bífida tem viés maledicente. A língua presa já é caso para fonoaudiólogo, pois pode dar em simples problema com alguns fonemas, porém nos casos mais graves a língua pode nem chegar a tocar os dentes. O que, é bem verdade, é até desejável para casos de língua bífida conjugada ao problema – que evitaria morder a língua.

Todos estes problemas tem uma coisa em comum, ao quererem dizer uma coisa, acabam dizendo outra. Acabam sempre escorregando nos sentidos e às vezes nas intenções mesmo.

*

Escorregando na pista

Lamentável que se ignore a ladainha depois do pronunciamento feito na Granja do Torto sobre o mensalão, onde Lula se disse traído, e que o discurso permaneça nesse tom e sob os mesmos termos no caso recente da TAM – aqui, no You Tube.

Disse ele na ocasião:

(...) Nada poderá fazer que voltem aqueles que amamos e perdemos. Mas quero que todos saibam que o governo está fazendo e fará o possível e o impossível para apurar as causas do acidente. A Aeronáutica já iniciou as investigações; por determinação minha, a Polícia Federal também está trabalhando no caso. Todas as hipóteses serão examinadas. Não se pode condenar ou absolver quem quer que seja com base em opiniões apressadas”.

E por acaso o mensalão e o Maluf não provam essa infinita paciência?

Não se deve abandonar nenhuma linha de investigação por antecipação”.

Ora, veja-se o caso Celso Daniel, onde as provas se juntaram convergindo na direção de assassinato por queima de arquivo, mas foi abandonada rapidamente e negada até hoje. O PT – o partido, as pessoas – jamais se posicionaram com manifesta intenção de esclarecer este caso. Pelo contrário, adotam uma defesa pura e simples do partido.

Estou seguro, de que em breve [o Brasil] terá as informações que precisa e merece”.

Para quem disse que não sabia de nada sobre o que se passava na sala ao lado da sua, no caso do mensalão, e em escalões contíguos ao seu, que negligenciou o caso Celso Daniel e que, a propósito, disse que não sabia de nada também sobre o estado do sistema de aviação civil, dizer que “está seguro” é não dizer nada. E ainda diz que não entende as vaias.

O caso recente do documento utilizado pela ANAC para convencer uma juíza federal a liberar a pista de Congonhas, reforça a idéia de instituições de fachada, que não têm independência, mas devem parecer que têm. Se ele está seguro, ninguém pode dizer que está.

Como presidente, quero assegurar às famílias...”.

De novo, mas quem não sabe de nada não pode assegurar nada. Diz que “além da apuração rigorosa dos fatos, estamos tomando todas as medidas ao nosso alcance... para reduzir riscos. Este “estamos tomando todas as medidas ao nosso alcance para...” bem como quando se disse que se iria fazer o possível e o impossível para um crescimento de 3,2% e o crescimento foi de 2,8%, são empulhação (o de sempre): “Estamos tomando todas as medidas..., disse ele na ocasião, “...para que o Brasil tenha um crescimento mais vigoroso, um crescimento que possa atender mais rapidamente à necessidade da geração dos empregos e das riquezas que nós precisamos”.

Como alguém disse outrora, é um “governo de reboque aos fatos” – quem sabe, aquaplanando na pista? Aí se põe a falar sobre as coisas que aconteciam como se fossem coisas que não podiam estar acontecendo. Diz que o fortalecimento da ANAC vai fazer com que esta “atue mais efetivamente pelos [interesses dos] usuários do sistema nacional de aviação”. Mas semanas depois, quando o Jobim falou em aumentar o espaço entre as poltronas, o Zuanazzi disse que estava tudo muito bom.

Quer dizer, o discurso do presidente é só palavreado lubrificante – como se isto pudesse ser menos evidente –, que ninguém se comunicou para dar andamento efetivo a estas coisas.

*

Consciência ou possessão?

Outra coisa; que declarar “A minha consciência...” ou, então, “Estou consciente...” possa já dar prova de que ela existe é uma precipitação, porque ao se declarar isto não se tem, por efeito desta declaração, a reflexão mesma que intui a consciência. Não há um processo reflexivo aí, mas apenas a elocução. Igualmente, a frase “Por determinação minha...” já subentende que o eu determina o desencadeamento de um estado de coisas que, no entanto, sem consciência é coisa lá igual à resposta operante behaviorista.

Quando Lula declara que o mensalão lhe parece “folclore” do congresso, declara coisa semelhante ao que o Renan K. disse a respeito das denúncias no caso das vacas. Não é à toa que são tão próximos, o que parece que depõe contra o Lula. “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”.

A aliança Renan-Lula começou no mensalão, e é mesmo um caso de íntima e profunda afinidade. No semblante de ambos, uma tranqüilidade de quem parece que está sempre a ouvir música de elevador. É quase uma possessão demoníaca, a normalidade; e já nem dá para duvidar que todo processo cognitivo neles funcione do mesmo modo, o mesmo dos médiuns, que tem do além-mundo o privilégio da boa-nova que os absolve, desde sempre, de todos os pecados.

*

Um conselho indecente

Mas nem sempre a língua é tão presa, é o que se vê no vídeo abaixo. Em comício acontece mais seguido, mas nestes casos o raciocínio fica mais patente que a intenção. E é justamente a intenção que fica evidenciada nesta entrevista com o apresentador Bóris Casoy.

A frase central monstra que quando o Lula é o Lula de verdade e não a imagem forjada de um estadista marionete, ele é capaz de falar com clareza e sem lugares-comuns. É um primor de objetividade, e está na Rede.

É o que dá para chamar de um “laçasso” da língua presa, de uma repentina e constrangedora clareza:


Logo depois ele volta ao normal, volta ao discurso codificado, com esta disfunção endêmica de todas as esquerdas.

Transcrição:

- Uma outra dúvida que toda ora aparece especialmente o noticiário internacional. Fala-se – e eu não acredito nisso – mas eu quero colocar isso naaaaaaaaa... entrevista... duma aliança, dum eixo [Lula parece pouco inclinado, ao que parece, a acreditar no que ouve] Chaves, Fidel e Lula [Lula meneia a cabeça, constrangido e]...

- Ô Bóris, tu sabe que isso é no mínimo uma piada de mal gosto...

- Claro [muito tímido]...

- E eu te aconselho até a não repetir isso... no vídeo...

[Boris solta uma gargalhada histérica de incredulidade e constrangimento]

...Houve um tempo que houve uma aliança do mal aqui, que era Collor, Fugimori e Salinas,quatro que foram quase que presos como ladrões... Veja, eu sou um homem, e o partido tem uma história muito democrática. O partido tem relações com todos os países do mundo. Nós vamos poder provar depois que ganharmos as eleições, que o Brasil vai manter uma relação muito eficaz, desde os Estados unidos, desde a Argentina, desde a Europa, com todo os países... [fim].

Muito diferente de coisas tais como “fazer o possível e o impossível”, a advertência de Lula é um primor de objetividade.

*

O outro vídeo, aqui em cima, tem as duas primeiras declarações que já não me deixam duvidar de que falta ao Lula qualquer cacoete ou nesga mesmo de consciência (que não aquela da hora oportuna). Ele recria mitomaniacamente aquele mesmo estado que afetou o Renan K. quando declarou que a realidade estava esquizofrênica.

É difícil achar explicação para estas coisas, qualquer uma que não a de recalcitrante paralogismo cacofônico, puro e simplesmente, feito mesmo método e aparato cognitivo de um viés quase messiânico, quase uma possessão, que tem no seu principal fenômeno a promessa em outro mundo e mediunidade mesmo para ser veículo de uma voz do além que é como se falasse por si mesma, anunciando a boa-nova da vinda de um médium que a anunciará...


agosto 27, 2007

A mão que balança o berço

Segundo Lena Lavinas, doutora em economia e professora associada do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio [1],

[q]uem julga o recurso ao aborto como uma escolha irresponsável de contracepção insiste em ignorar que toda contracepção – à exceção da esterilização – é falível. Uma escolha que também nós, brasileiras, queremos ter”.

Insisto, que o aborto não tem nenhuma capacidade de evitar a concepção, portanto, não pode ser um método contraceptivo.

Deixa-me ver se entendi: o aborto é “responsável” (tem o efeito) de evitar nascimentos indesejáveis? Logo; o aborto não pode ser uma escolha “irresponsável” porque ele é “responsável” por evitar a gravidez indesejada.

Vamos tentar de novo que parece que está faltando algo. Diz-se que o aborto é uma “escolha irresponsável” por quê?

O aborto seria “irresponsável” porque se nega a responsabilidade de uma escolha ética, isto é, segundos alguns valores; por exemplo, direito à vida (assim, geral mesmo). Mas logo se vê que este viés do assunto não está presente. A justificação está toda na conseqüência (o valor ético considerado), cujo efeito é evitar que nasça.

Doutrina: Utilitarismo.

A Dra. Lena apresenta dados estatísticos que apoiam uma avaliação positiva do aborto como política de Estado, sem permitir-se qualquer consideração ao argumento dos opositores da escolha.

Sendo assim, trata-se apenas de opinião da Dra. Lena. Mas se é opinião, o utilitarismo que a orienta – depois defendido pela apresentação de uma estatística pró-aborto como política de saúde e planejamento familiar – quer parecer mais que opinião. Se assim fosse, no entanto, deveria algumas considerações à polêmica, já que está intimando aqueles que insistem em ignorar os valores práticos para se evitar nascimentos indesejáveis.

Aqueles que “ignoram” o argumento prático estão, justamente, não ignorando os efeitos práticos, mas dizendo que eles não valem para o mérito da questão. Julgam que a vida não pode ser considerada à mercê do que queremos apenas.

*

Por fim, o (que se diz no) início:

Toda contracepção é falível. É o que justifica assegurar o direito ao aborto a todas as mulheres que optarem por se valer desse último recurso. Paradoxos existem cuja compreensão nem sempre leva à sua superação...” [sic.]

Quer dizer, deve-se assegurar o direito ao aborto à mulher, porque – lembrando a Gisele B. – de vez em quando “escapa”... do controle.

Já na confusão entre aborto e contracepção é possível ver a evidência de com que acuidade a Dra. Lena tem noção da vida humana, cuja sensibilidade vai do prazer à dor do parto, que antes disso ou é tudo muito pequinininho (como diz a Gisele), que, como outras loucuras por aí, cuja sintomatologia alegada manifesta que nada vê, nada ouve e nada é capaz de dizer, concluem, por efeito, que também não há nada ali.

Independente do mérito da questão, portanto, dá para concluir, sem medo de errar, pelo menos uma coisa... Nunca se vai evitar totalmente o risco, temível, de que uma mulher que pensa assim acabe, fatalmente, por educar o seu próprio filho – que, se resultado de “procriação não planejada” ou não, já não será isto que decidirá a sorte da criança.

Notas:

1. “Aborto: último recurso”. Lena Lavinas é doutora em economia e professora associada do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Artigo publicado na “Folha de SP” (24/08/07) e reproduzido pelo Jornal da Ciência (24/08/07).

agosto 20, 2007

Os termos em metástase

(Ou, mil maneiras de se matar um cidadão)

Quem diria que ao entrar em um avião se pudesse morrer de metáfora! Verve da delinqüência nacional, a metáfora verborrágica é como o câncer em metástase. Alastra-se em profusão a ponto mesmo de causar um fenômeno curiosíssimo, no qual o afetado é levado a declarar esquizofrênica a realidade dos sianais que apontam o seu estado malsão.

O tal câncer, por certo, deve ter alguma coisa que o desencadeie. Suspeitaria de vírus, e não duvido que venha de um hospedeiro marinho, um molusco do pacífico de saliva infecta. Assim, o adoentado de metáfora mortifica a realidade com uma música de elevador, que parece que vem de todo lugar e por ela entende que está tudo bem. A normalidade é de uma obviedade a toda prova. Como se adorassem um novo deus, cujos poderes facultam a realidade e prometem uma terra maravilhosa para onde vão os justos, isto é, aqueles que estão “ao lado da verdade”. Uma terra sem pepinos, ou outras metáforas leguminosas semelhantes. Quem diria que a crise na agroindústria iria atingir a aviação civil! Por outro lado, a mesma causa já levou a pecuária de Alagoas a grandes lucros. Esse vírus é uma doença da vaca louca ao contrário.

Dá para buscar uma explicação no fato de a mãe do presidente Lula ter nascido analfabeta (!). Ora, se sabe, quando faltam as palavras ou se carece de habilidade para “acolherar” as letrinhas, ocorrer naturalmente o uso de tropos, como os da vasta classe das metáforas e quejandos, para representar nossas impressões da realidade. Mas o problema é quando o processo de metaforização se torna em hábito, abstraindo pela ingenuidade toda figuração. E vira só em algoritmo. Aí dá nisso, toda vez que alguma coisa escapa da compreensão, tira-se uma metáfora da cartola e se a traz à carga, que lhe achata a algum patamar aceitável (e conveniente).

Outras metáforas são proféticas, como a metáfora das velhinhas dos precatórios, que teciam um o cachecol preto de 200 metros, parece, pelo que declarou um dos filhos, queriam figurar a paciência infinita delas pelos seus diereitos, como a Rapunzel ao esperar os cabelos crescerem, e infinito é a melhor palavra para esta paciência “além da vida”.

A inocência dos analfabetos leva-os a confeccionar metáforas – se bem que não só a isto –, e não me surpreenderia se elas estivessem mesmo, nesse estágio, no processo de geração das superstições. Sem ter me detido muito nisso, me parece que os processos vitais tem a curiosa natureza de não poderem ser menos do que são. Assim, quem não pensa em metafísica acaba pensado por ela; quem não domina a sua língua-mãe, é dominado por ela. Muito freudiano? Facilmente leva a um tipo de afetação histriônica que viceja em gente já adulta. Os gnósticos, por exemplo, tendem a ver na má sorte, azar; já os agnósticos não podem recorrer ao azar para escapar às responsabilidades – ou, bem, às conseqüências. Superstição é quando o sentido figurado do azar ganha autonomia para além da sorte, como funesto agouro. Mas um agouro das coisas pequenininhas, das explicações de coisas comezinhas. Quando chegam às coisas grandes da vida, bem, daí tratar-se-ão já de monstrinhos.

O que se quer é pegar a realidade, mas o que se tem é uma razão frágil, é uma razão ingênua, e uma proto-racionalidade. Não é assim, por acaso? Por exemplo, as aranhas tecem teias com uma proteína viscosa que serviria perfeitamente de modo figurado do poder intrínseco das metáforas. Pega-se, por elas, pelo padrão de alguns nós, um punhado de energia vital, uns pacotinhos de energia; alguma coisa da realidade viva, e a deixa como as moscas, para serem devoradas mais tarde, mumificadas, mas já sem conteúdo concreto, só vísceras líquidas sobram. E líquidos se digerem melhor. Esturricada, a realidade fica virada só em casca, daí vai para o mausoléu como uma lembrança medonha de si mesma.

As cotas discriminatórias também são “metafóricas”, se bem que aqui se trate mais de uma alegoria social das raças. As cotas “empacotam” o maldisfarçado conceito de “raça” pelo de “classe” social. A história das raças já esteve muito ligada à superstição de povos míticos, a de classe, ao que parece, já de muito everedou pelo mesmo caminho. Palavreado que se impõe à realidade e, se por acaso lhe falta algo equivalente nesta, trata-se logo de impô-lo. Na falta de raça, servem as classes, e pela política das classes, vêm as cotas. Quem disse que raça não existe! Não existe? Inventa-se.

Não se trata a bem da verdade de fenômenos da linguagem, mas de xenoglossia. É produzida por infecção viral e não pela cultutura. (Isto é, “viral” é qualquer coisa viva-morta que induz a uma condição vital semelhante a do agente infeccioso.) É uma doença do espírito, me parece, não da cultura; a cultura é onde se dá a sintomatologia apenas. As metáforas são perigosas, quando proliferam feito câncer em metástase dissolvem a realidade como um mantra, que de tanto repetir-se já nem se pode mais perceber os termos, e faz parecer a ladainha já a própria verdade nas formas trocadas da rigidez mental por rigor e da inanição por temperança.

O câncer das metáforas em metástase produz o fenômeno da xenoglossia, os termos ababelados em processo cascata de empacotamento da realidade para esvaziar esta de sentido e dar sentido mesmo à falta de sentido. A propósito, outro sintoma desta afecção do espírito é o processo mesmo como quiproquó metafórico de poderes mágicos para além da compreensão. E já não é mais nem preciso querer mudar a realidade, que é coisa muito difícil mesmo, e já se ouve no ar a música de elevador, apaziguadora...


agosto 11, 2007

Ídolos morais

Chame-se a Ana Paula, a bandeirinha, de potranca, e vai parecer machismo, mas se algo equivalente se disser de um homem, ninguém dirá que garanhão é aquele que dá coice. Donjuanismo não é exatamente a melhor caráter para um jogador de futebol, nem por isso se desqualifica o sujeito para jogar futebol. E às vezes até atrapalha. Mas se, pelo contrário, ele pega fama de “frouxo”, a coisa desagrada. É claro que estas coisas estão carregadas moralmente, e não descrevem nenhum traço da personalidade intrínseco ao sujeito. Ligam valores que são signos universais de força, e o que mais signifique o comportamento adequado para enfrentar uma disputa.

Um general sem moral com as tropas perde a guerra já no dia anterior à batalha principal por descrédito. Times de futebol mostram o mesmo fenômeno. Acusar um general romano, na época dos césares, de ter se deitado com um garoto antes de uma batalha, para obter alguma vantagem nisso, não teria o efeito desejado pelo inimigo. Chamá-lo de covarde e reportar-se a um fato de sua vida que o vexe, e ter-se-á alcançado o objetivo.

Há mesmo uma certa confusão entre a moralidade da hombridade cobrada para jogos masculinos como futebol, as figuras de linguagem que significam força ou a falta dela e o comportamento dos quais estas figuras de linguagem representam e carregam moralmente.

A decisão do juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, de São Paulo, Comarca da Capital, para a Queixa-Crime do jogador de futebol Richarlyson, reconhecido por um dirigente do Palmeiras como gay, motivou grande confusão. Mas a questão era se houve ou não “injúria”, onde se mede o dano sofrido por alguém por difamação, difamação injuriosa, isto é, do que é contra o direito.

Aline Pinheiro no site Consultor Jurídico descreveu assim o começo da coisa toda:

A polêmica “Richarlyson é gay ou não” começou quando o jornal Agora São Paulo noticiou que um jogador de futebol estava negociando com o Fantástico, programa da TV Globo, para revelar no ar a sua homossexualidade. Em junho, durante o programa Debate Bola, da TV Record, José Cyrillo Júnior foi questionado se o tal jogador homossexual era do Palmeiras. Cyrillo se saiu com essa: “O Richarlyson quase foi do Palmeiras”.

O caso era de averiguação de injúria, o que passava pela declaração feita a público pelo diretor do Palmeiras, portanto, se ele agiu de forma injuriosa ou não. Pelo que se sabe, deve haver cuidado em se declarar sobre a condição privada, de foro íntimo, individual, que pode trazer conseqüências ligadas a um contexto social discriminatório possível. Pode haver dano nestes casos à imagem pública ou pessoal.

Mas, depois do despacho do juiz, segundo Pinheiro, “[o] advogado de Richarlyson, Renato Salge, informa que ingressou com Reclamação no CNJ pedindo a punição do juiz por homofobia e intolerância”. Não só parece como é, de fato, um pouco demais. Imputa-se com muita facilidade crime a partir de expressões consagradas pelo “politicamente correto” sem que elas tenham base real ou legal. Ora, não houve intolerância, mas “tolerância”, que é um jeito de dizer “eles existem” e que fiquem entre os seus. É preconceito por estupidez, não que o preconceito caracterize estupidez, mas que a estupidez leva ao preconceito cego, que é por falta do hábito de pensar antes de falar ou, ao sentir assim, antes de pensar ou de agir. Já por homofobia dava para contra-atacar com “imputação de falso crime”, já que homofobia é o que aconteceu estes dias, se não me engano, em São Paulo, quando sob o pretexto de que um travesti tivesse cantado um rapagão, este, bem como toda a sua turminha, espancaram-no e atearam fogo com gasolina. Isso é que é homofobia.

A questão não era se o jogador era ou não homossexual ou se os adictos desse tipo de acarinhamento podem ou não jogar futebol, pela condição moral que o esporte exige, e isto independe se para homens ou para mulheres. Não vale por acaso o mesmo princípio da “hombridade” para o futebol feminino?

Esta força moral não é de um gênero ao que parece. No Gênesis 2:23 trata-se a mulher, carne da carne de Adão, como “Varoa”, o que, é óbvio, não se trata de dizer que ela é do mesmo gênero, mas de igual natureza – ou, per absurdum, que ela seja afeita a flertes com outras moças, o que, neste caso, penso eu, caracterizaria incesto, ora bolas. A etimologia vem do germânico baro, “homem livre”, refere, como substantivo, ao sexo masculino, ao indivíduo adulto, e a seus atributos: esforçado, valoroso, enérgico, forte, de uma força que é forte também a Varoa.

Nesse sentido, por acaso encontra-se mais hombridade em Renan Calheiros que em Richarlyson por ter aquele ido à cama com Mônica Veloso?

Já se se pensar por fidelidade à equipe, talvez Renan deva ser colocado entre aqueles indivíduos mais dignos de confiança, não parece que é assim? Mas no caso do Renan, será que o sentido de equipe é fruto nele de valores intrínsecos ao seu caráter ou está em função de outros valores? De interesses seus, comuns com o poder. Há hombridade neste senhor, há caráter, valor, força moral, há estas coisas que qualificam alguém como homem adulto?

Há categorias nas Pára-Olimpíadas para paralisia cerebral, mas nenhuma categoria existe para aqueles que manifestam “paralisia moral”, que é mesmo, em qualquer esporte, critério de seleção dos únicos que são aptos aos jogos.

Mas o juiz Maximiano, ao que parece, entenderia que Renan é dotado de tudo para jogar futebol, por não levar em conta estas distinções essenciais.

O senador manteria fidelidade mesmo quando algo ilícito tivesse ocorrido, mesmo que o time não o tivesse pedido por isto. Há quem pense que esta pequenas traições à verdade podem não dar muito certo para a unidade do grupo, outras vezes, no entanto, um erro do mediador consentido (calado) por todos traz vantagem. Mas o ato escamoteado, a pequena traição, a desonra, etc., estas coisas acabam por sabotar por dentro uma equipe.

Seria, então, o homossexualismo um caráter incompatível com o futebol? Duas coisas: 1 – (a) o comportamento homossexual característico, desenvolvido na intimidade, não tem implicação no jogo, mas (b) a exceção pode ser o ambiente de vestiário, por constrangimento de indivíduos que pensem ou sintam como o juiz; 2 – ou admite-se que há qualquer traço de personalidade nos adictos do homossexualismo ou visível no seu comportamento que o incompatibilize com a prática do futebol, que reflete certa incompatibilidade moral necessária.

Sobre 1a nada há a dizer; 1b é, indubitavelmente, verdadeiro, até por declaração quase unânime de dirigentes e jogadores, que a coisa gera, no mínimo, constrangimento. Nada demonstra, no entanto, que este desconforto de vestiário seja inevitável.

Até onde saiba, não há nenhum princípio moral que implique a incompatibilidade com a hombridade ou com a honradez que se apregoa nos campos que possa confirmar 2, senão sendo este verdadeiro, implicaria necessariamente em 1b.

Se sabe que a vida dos grandes imperadores romanos, muitos deles líderes natos em batalhas, não tinha uma orientação sexual unívoca, era mesmo de um profundo desregramento. Atos de coragem e capacidade liderando homens em batalhas prova que não há ligação direta de uma coisa com outra. Não quer dizer, por outro lado, que o convívio privado de uma grupo de homens numa tarefa ou em sociedade não se torne deletério com o tempo. Quando Constantino, antes de tornar-se imperador, viu a bravura com que os cristãos negavam-se a abandonar sua crença, mesmo diante de penas físicas e sociais, isso o impressionou. Não é desconhecido, além disso, que os princípios do estoicismo, de uma moralidade rígida, tenham exercido influência sobre o comportamento da cristandade e comovido mesmo alguns romanos desde muito.

Ora, é possível tirar do que se disse que nenhum comportamento íntimo seja influência suficiente para garantir que o adicto do homossexualismo na intimidade seja necessariamente incompatível com a prática do futebol. E mais, que os valores morais que o futebol exige, hombridade, coragem, lealdade, inteligência (temperança), que são valores práticos para a vida, algumas vezes considerados como valores transcendentes à própria vida, lhes sejam incompatíveis.

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Quando, por tudo isto, se vê a bandeirinha Ana Paula sendo punida a apitar jogos na 3ª divisão por ter supostamente errado, menos que outros homens piores, e lembrando das declarações horrorosas do ex-presidente do Botafogo, Carlos Augusto Montenegro, vê-se que as qualidades do varão não são atributo certo de qualquer homem. Pelo contrário, foi Ana Paula quem exerceu na 3ª divisão seu ofício com a mesma dignidade com que fazia na 1ª. Faltava só agora, invertendo todo sentido moral, acusá-la de ser de uma horrorosa masculinidade, já de muito perdida por gente como o senhor Montenegro. A “virilidade” de Ana Paula é aquela que liga dignidade, lealdade, honradez, coragem, inteligência (temperança), todos substantivos femininos, todas donselas a serem conquistadas, aos valores desejáveis.

As suspeitas sobre a feminilidade de Ana Paula estão desfeitas, da de Mônica Veloso nunca se duvidou, já do caráter de uma e outra, a mesma certeza não existe. Por uma estreita analogia, a comparação cabe a mesma entre Richarlyson e Renan Calheiros.

Aí, me parece, está o maior erro do juiz Maximiano, de Montenegro e tantos outros, quando atribuem estes valores à testosterona, ao cheiro das axilas, a pêlos, à intimidação, à rispidez, e, no entanto, é a jogada técnica, plasticamente perfeita, que deita ao campo a rispidez do carrinho, e sai incólume, que é de grande exultação do público.

Insultar de “veado” a alguém tem mais força que descrever o suposto fato que o caracteriza. Se fosse insultado literalmente, “Você tem relações na tua intimidade com outro homem!”, ou coisa mais grosseira, bradado publicamente, para tornar vergonhosa a indignidade, não teria a mesma força. Mas por que se escolhe uma expressão figurada para isto? Ora, é porque o insulto é moral, e não uma descrição de um fato, mesmo que fosse verdadeiro. Daí não estranha se se chegar a odiar o veado campeiro, a espécie brasileira, porque já não se consegue distinguir entre o insulto figurado, moralmente carregado, e a descrição de um fato. Mas se for entendido dessa maneira, não há como entender que um homossexual, pelo que o caracteriza, seja impedido de jogar bom futebol. Mas por fim é o que acontece.

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Da decisão, dá para dizer o seguinte:

Aceitando o que diz o site Consultor Jurídico, houve sim identificação do “querelante” como homossexual (§2º). Mas isso não significa que o despacho do §1º seja um equívoco. No §3º ele omite uma terceira alternativa: “3.C” – sendo homossexual, ele tem o direito [legal] de, por riscos possíveis, em função de represálias sociais, bem como por dano à imagem pública ou pessoal, de optar quando e se o interessado se declarar nesta condição... O juiz teria que atender à queixa-crime. Claro que, para isto, parece-me necessário averiguar o que foi pedido exatamente na queixa-crime, e o que poderia se saber mais nesse sentido.

Por fim, a coisa toda desanda na última frase de 3.B, onde o juíz diz “Nesta hipótese, porém...”. Esse “porém” mata! Como pode admitir-se que essa “hipótese” impeça alguém de exercer o seu ofício? Mas o caso não é bem esse, mas a opinião que o juiz expressa com a força de uma decisão ex catedra. Opinião, quando deveria ser decisão nos termos da autoridade que lhe cabe. Ora, a resposta do atleta deveria ter sido dada, sim, no mesmo programa, à altura, o que até parece que seria mais digno que ir à justiça.

Mas algumas outras coisas são inglórias: dizer que Carlos Alberto Torres, do tipo machão montenegrino, que já achincalhou aos berros de “negro sujo” o juiz de futebol Paulo César de Oliveira, dando-o como exemplo contra impensáveis ídolos homossexuais, e não saber que hombridade eles tem pouca, se tomados como testemunhos os seus atos recentes (§5º), é abusar daquela truculência que leva alguém a pensar que hombridade no esporte é só ter um comportamento sexual “hétero” (sic.).

O §4º tem alguma razão, mas vá ser ruim assim longe para não saber responder a tal bobagem. Do modo como ele se defende, fica claro que era de conhecimento público que ele era homossexual e, portanto, que a queixa-crime não procede (o §1º do despacho). Não fosse isso, por que as citações em defesa dos homossexuais? Cacoete politicamente correto do advogado?

A partir do §8º, o juiz é simplório até quando faz graça.

No §11º, aí sim, o juiz está coberto de razão, pois que não vai demorar para se impor cota contra a “discriminação” gay nos clubes, que é coisa com que a retórica politicamente correta adora se lambuzar e espalhar esta incontinência para todo lado.

Por fim (§15º), será mesmo que os jogadores de futebol podem ser ídolos de alguma criança?

O juíz Maximiano tropeçou na própria boçalidade, que é coisa que não se deveria admitir nem de jogador de futebol, mas parece que em todo lugar os tais agradam sempre bem mais que a própria bandeirinha Ana Paula.