maio 26, 2010

O demônio da paz


Alguns anos antes de estourar a primeira guerra mundial, quase todos os líderes da opinião oficial em todo o mundo professavam ideias humanitárias e pacifistas. As guerras entre as nações seriam evitadas recorrendo-se aos tratados e à arbitragem; a guerra de classes seria evitada mediante reformas e por meio da política interna de “paz social”; a violência era uma relíquia da barbárie que logo desapareceria. Não deixa de ser irónico que, apesar das duas guerras mundiais, essas nações seguem mantendo seu prestígio em muitos setores e ocupando lugar sempre preeminente nos sonhos referentes a como será o mundo depois de ter fim a atual guerra.
- James Burnham, The Machiavellians (1943), IV, 2.
O problema do Brasil, no fundo, não é o esquerdismo, não é a corrupção, não é a violência, não é nem mesmo o “poder secreto”. É o desprezo atávico pelo conhecimento, ao lado de um amor idolátrico aos seus símbolos exteriores: diplomas, medalhas, honrarias acadêmicas, títulos honoríficos.
- Olavo de Carvalho, “Remexidos pelo vira-bosta”, Diário do Comércio (18.06.07)
A Deferência [...] é a atribuição de valor desconectada da superioridade moral, mas com os direitos do cargo, bem-estar, salário, estilo, educação, poder, associações e símbolos. As estruturas de deferência não levam em conta a distinção de classe […], mas elas certamente reforçam o sentido de classe, particularmente em dar e receber sinais de deferência: salutes, felicitações, formas de tratamento, reverência, tom de voz, gestos e conduta.
- Richard Stites, Revolutionary dreams, sobre a “Deferência” da etiqueta que teve por traz a violência Soviética; p. 131.
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O estadista do cerimonial
De fato, três importantes encontros diplomáticos com os grandes revelam o que o mundo pensa de Lula de fato e não sobre o verniz da diplomacia. Salvo, deixo em aberta uma exceção, para os que optam por dizer que os governantes do mundo, de fato, nada pensam sobre Lula.
O que se viu nos encontros --- e por “encontro” não quero dizer apenas a foto oficial e as mesuras --- com Merkel, Hilary e Obama, e mais tarde, no Knesset israelense, e com Gordon Brown, foi a diplomacia seguida de mútua deferência, audiência solene, discreta esquiva e, em seguida, tudo que se viu foi a total desatenção e, no mais, ignorar as posições defendidas por Lula.
Sempre recoberto pelo verniz da diplomacia, Lula entra no debate internacional nas etapas iniciais já há muito superadas pelos atores principais. Lula é um figurante sorridente e agradável que aparece como papagaio de pirata em segundo plano, fingindo as falas de um protagonista e em seguida saindo de quadro.
O mais curioso de tudo, é perceber que o atual Itamaraty e Lula --- e o brasileiro de modo geral é bem afeito à encenação --- acreditam piamente que alcançaram nos recintos palacianos da etiqueta mundial a respeitabilidade que a diplomacia simula para proteger os mais diferentes governantes por trás do cerimonial, das suas gafes ou, de fato, defeitos e vícios --- ou, simplesmente, de sua irrelevância.
As frases feitas de Lula são o que parece que, no nosso caso, custa ao mundo acreditar que são, de fato, não os pensamento de Lula, mas seus instintos mais sinceros, ainda assim, aquilo que mais se poderia reconhecer por seus pensamentos.
Com Hillary veio o primeiro aviso um pouco já áspero por sobre a polidez do cerimonial diplomático; seguiu-se a isto a encenação moralista desarmamentista frente a Merkel e seu constrangimento; o encontro com Obama e a completa negligências para com as palavras de Lula; e então, recuperando por fatos recentes o contexto verossímil dos bastidores da declaração que inculpou os “olhos azuis” pela crise, quando, sem a diplomacia, as opiniões sobre Lula podem ter sido, e é provável que tenham sido, menos publicáveis.
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Como fazer de Ephialtes um Leónidas
O reconhecimento de Lula ultrapassa a tabula rasa do julgamento do brasileiro médio, que por aqui beira os 80%, para alçar-se aos exteriores internacionais.
Seis títulos honoríficos e laudatórios pululam feitos arf! arf! do sabujo... Ei-los como gostariam que fossem:
  • Revista Time, que elegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “um dos 25 líderes mais influentes do mundo em 2010”.
  • No ano passado, foi homenageado como "Estadista Global", pelo Fórum Econômico Mundial;
  • O jornal francês Le Monde o escolheu como "Homem do Ano" de 2009;
  • Recebeu do diário espanhol El País o título de "Personagem Ibero-Americano de 2009" (cujo original não se acha, melhor, então, acreditar);
  • Foi escolhido pelo britânico Financial Times como uma das 50 personalidades que moldaram a década.
  • O presidente foi agraciado em novembro com o prêmio "Estadista do Ano", concedido pela Chatham House Real Instituto de Assuntos Internacionais do Reino Unido (o equivalente britânico do Council on Foreign Relations americano, que trabalham para o estabelecimento de um Governo Global).
  • Lula recebeu, em Paris, o "Prêmio Incentivo da Paz Félix Houphouët-Boigny” da ONU para Educação, Ciência e Cultura, Unesco.
O número de título de Lula está na razão inversa da relevância destes títulos ou da importância que se tentou dar a essas “eleições” tão rápidas quanto irrelevantes.
Os prêmio de “líder mais influente”, da Time, e do britânico Financial Times, usaram qual critério? De toda a tagarelice na mídia sobre mentiras e desmentidos jamais se chega aos méritos. A tentativa de dizê-los é sempre algo vago, titubeante e cheio de evasivas. Talvez por isto; questão de elegância contra quem não tem méritos --- ou mais grave, só o expurgo da verdade.
Além disso, o temor crescente de um Estado-Partido cada vez mais intrujão e ingerente.
Mas qualquer título a Lula que o aponte como “líder influente”, da década, do ano, do mundo, etc., é legítimo.
Do mesmo modo, o Financial Times ter eleito Lula uma das 50 personalidades que moldaram a década não é falso. Quem fundou o Foro de São Paulo com Fidel Castro, o grupo mais influente na política da América Latina e Caribenha, foi justamente ele, “o cara”. Que apoiou Chávez e colocou a maior aberração política desde muito por aqui, foi “o cara”. Quem tem hoje, ao seu lado, 4/5º dos líderes latinoamericanos rufiões, não é outro, ele, “o cara”. É inegável a sua influência. O problema é saber se o conteúdo, o sentido e as consequências foram boas ou más.
O FT leva em conta a estabilidade do país, mas ignora a política; atribui os méritos de Lula a seus “political skills”, graças aos quais Lula teria se mantido muito popular, junto com a capacidade de manter a inflação baixa, o que lhe rende, segundo o FT, os mais de 80% de aprovação. Em outro artigo, do mesmo FT, de Janeiro de 2010, Jonathan Wheatley escreve que Lula tem sido tão astuto, “alguns diriam cínico”, comenta ele, quanto alguns de seus mais malandros adversários, ao reivindicar para si as políticas de FHC e saindo-se incólume do escândalo de 2005:
[O filme da “vida” de Lula] não esclarece sobre a sua misteriosa habilidade de mitigar o que para a maioria seria um golpe bem mais sério. Este é o fenômeno que resta inexplicado, que ele encarna: que os críticos dizem dele ter feito muito menos como presidente, mas que os fãs atribuem finalmente ter permitido que realizasse seu potencial.
Quem surgiu como Lula foi Lech Walesa, mas Walesa parece um tanto esquecido desde que advertiu que o caminho que os Estados Unidos vem tomando é o de um sorrateiro socialismo. É curioso que um, com um discurso conservador, tenha desaparecido, e o outro, no rumo oposto, seja objeto de discursos laudatórios.
Lula é uma inegável personalidade, de “persona”, “máscara cênica” --- os “great looks” de que falou Obama para explicar a sua popularidade.
O próprio Financial Times ridicularizou Lula há pouco, dizendo --- com polidez --- que Lula cometeu uma “gafe” ao declarar no parlamento de Israel que “estava contaminado com o vírus da paz”. O povo judeu, tremendamente calejado, ter que ouvir o “profeta gentileza” que jamais assume decisões difíceis --- pelo contrário, só surfa “na boa” --- e acha que alguém respeita quem nunca toma decisões difíceis?
Só com muito título fajuto para se acreditar existir nele e no que ele representa algum mérito.
Por "Estadista Global", dado pelo Fórum Econômico Mundial --- pela primeira vez --- tem-se apenas que os banqueiros lhe agradecem e que ele foi premiado por ter desistido de aplicar a economia socialista plena, adotando a ortodoxia do mercado liberal (estabilidade necessárias para as reformas políticas bolivarianas como as do PNDH-3), e por isso ganhou amplo reconhecimento? (!).
Esse reconhecimento tem o mesmo valor do nobel de Obama, o reconhecimento a distância e de por agora por suposto mérito futuro.
Ligações com as FARC, os talentos de Lulinha para ficar rico (pós-eleição do papai), mensalão, apoio incondicional a Chávez, Celso Daniel sem solução e silêncio, e o Le Monde elegeu ele o “homem do ano”? E como o prêmio do Fórum Econômico, pela primeira vez conferido a alguém.
Prêmio fáceis, como elmos de brinquedo, com coragem de faz-de-conta e nenhum Deus a favor, nem honra.
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Perfeita e completa inversão
Omita-se tudo sobre Lula e ele até parece, no ano novo, um cara legal. Zapatero, fazendo coro ao “título” conferido (dizem) a Lula pelo El País, não confere muito com as críticas que o próprio El País vem publicando sobre Lula, em algumas questões as piores. “Não me estranha que este homem impressione o mundo", conclui Zapatero, como a maioria da imprensa no Brasil, tomando por seus méritos os próprios discursos laudatórios que apontam estes méritos.
O galardão da Chatham House é dado a quem mais contribuiu no ano às relações internacionais. E quando toca no mérito, vamos lá, diz que Lula é reconhecido como peça chave que levou à solução da crise regional, na América Latina. Uma verdadeira fábula. Por ter “reduzido” a pobreza, porque comprometido com metas sociais; o que quer dizer, no Brasil, a redistribuição de renda de forma direta através de programas assistenciais, o que dá uma ajuda rápida a muitos, porém frágil --- quando muito isto tem a virtude do esterco espalhado, que é uma verdadeira virtude ---, ao mesmo tempo em que serve de poderosa propaganda.
Mas tanto este “é” impessoal, quando a “redução” da pobreza dão indício do grau de precisão dos méritos a que os títulos se referem. Quase nenhum além do efeito que vários títulos causam na percepção coletiva pelos próprios títulos.
Outros méritos, de novo, são supostos, como quando se toma por mérito de Lula sua trajetória pessoal, arrematando com uma peça de pieguice fabulosa:
[sua] tragetória pessoa é evidência de sua excepcionais qualidades como líder que o ajudaram a reforçar relações cordiais entre Brasil e o resto das Américas, e com outros países do mundo.”
As relações cordiais nunca foram tão acertadas na ideologia, ao mesmo tempo que conflitantes e inamistosas de fato.
O prêmio da Chatham House vai no sentido oposto do que o El País leva em conta no artigo “Lula: lo bueno, lo malo y lo feo”, onde o periódico espanhol aponta o que chamou de “lista triste e ampla das contradições, inconsistências e exemplos de dupla moral de Lula”:
Lula da Silva tem sido muito bom para os brasileiros e muito mal para milhões de seus vizinhos. Os déspotas que tem a sorte de ser amigos do presidente brasileiro e que estão arruinando seus países, enquanto o Brasil progride, sabem que contam com o forte apoio bem como com o silêncio cúmplice de Lula.
Tão grande discrepância, a laudatória disfarçando as fontes dos critérios dos méritos e a análise objetiva do El País do que vem acontecendo de fato na América Latina, deveria fala menos dos interesses da Chatham House do que da alienação do jornalismo brasileiro para com a ladainha laudatória a Lula. 
No entanto, a Casa britânica para assuntos internacionais está no centro do movimento globalista que no passado conspirou uma "conspiração aberta" daquilo que é a futura (de ontem e hoje) onda do fascismo que se vê polarizado entre as Obras de H.G. Wells, de um lado, e George Orwell e Aldous Huxley de outro. 
Quanto a este “[enquanto] tem sido muito bom para os brasileiros”, está a se referir a distribuição de renda, a uma economia que já se disse que cresce enquanto os políticos dormem e ao fato escandaloso --- quando por isto se lhe confere mérito --- de ter ameaçado com o socialismo pleno e só depois do sucesso do plano Real ter aderido, ainda assim por motivos estratégicos, à ortodoxia econômica. Agora, colhe o lucro pelo que passou a vida inteira lutando contra.
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De Chamberlain a Luiz Mott
E o que faz Lula? Fala pela paz? Gaetano Mosca pouco mais de um século atrás disse que ainda se mataria em nome da paz; Neville Chamberlain, na II Guerra Mundial, baixou a cabeça para Hitler e ganhou de presente a pior guerra.
No dia 30 de Abril comemoramos o 65º aniversário do suicídeo de Hitler, para não esquecer dos afagos de Chamberlain, e de que o fascismo nacionalista e ou socialista não voltará de bigodinho, mas, como profetizado na literatura do século XX, pela polidez radical de uma imprensa omissa e pelo autoengano de quem busca a todo custo a paz e a felicidade hedonista.
Como numa ópera burlesca, o ápice do anticlímax ao patético é esse “Prêmio Félix Houphouët-Boigny” de Incentivo à Paz, da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, para o país 88º entre 128 nações em Educação, onde a propaganda política grassa nos livros didádicos e onde as aulas de educação sexual pregam a liberdade transsexual e de trangêneros, supondo-se por isto uma tolerância radical sacro-santa; e, mais, o orgulho de (ter que) assumir a histeria libertária (um tipo de hipnose) como a igualdade no mais baixo, nas situações fáceis e na condição de um mútuo reconhecimento acanalhado --- alguns valores de nossa nação. 
Ao contrário daqueles valores que se deu publicidade há pouco na imprensa, o conservadorismo maquiavélico do brasileiro é reacionário, verdadeiramente, no sentido de que adere a qualquer proposta e a segue e dá suporte, pelo bem da situação política, pela paz da sua alminha delicada.
Não estranha, portanto, que os títulos de Lula tenham o valor de uso que ele próprio faz deles, uso doméstico, que não faz diferença entre o mérito verdadeiro e o mero fingimento boboca.
De dois exemplos recentes, para horror de Paulo Brossard, um foi galardoar as mulheres de Amorim, de Lula e de Alencar com a ordem de Rio Branco; mas o pior foi esse mesmo título ter sido dado tempos atrás a Luiz Mott, apologista nas universidades públicas da pedofilia, conferido a ele pelo governo Lula. Eis o valor destes títulos, mas principalmente, o que, de fato, se entende por mérito.
O prêmio da Unesco, é pelo quê mesmo? Segundo a Unesco, o prêmio é concedido "a pessoas, organizações e instituições que contribuíram de modo significativo para a promoção, preservação ou manutenção da paz”. Lula foi eleito em 2008
"por suas ações em busca da paz, do diálogo, da democracia, da justiça social e da igualdade de direitos, assim como por sua valiosa contribuição para a erradicação da pobreza e a proteção dos direitos das minorias".
Ah! Lula estimulou e deu suporte a Chávez, que na Venezuela revive uma militarização que se prepara contra o “inimigo estrangeiro”, dá suporte às FARC, alinha-se a toda sorte de tiranetes desequilibrados e ameaça os vizinhos e solapa a própria democracia, em muito com apoio popular --- como dantes ---, segundo as mais descaradas e outras impensáveis orientações par'à la de Maquiavel.
Alinha-se à China, não apenas por pragmatismo econômico, mas também para auferir knowhow na área de (!) Direitos Humanos; Lula parece que mira a paz absoluta, nos termos que ela existe em Cuba, pois cadáveres não falam e não podem ser torturados.
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Cheiro de Chávez
Lula apoia líderes belicistas, Chávez é só o mais óbvio deles, apoia os nós geopolíticos do terrorismo, como Irã e Síria, alinha-se com nações como a China e Cuba, que não respeitam direitos humanos, e que aqui, por meios oblíquos, os mesmos direitos humanos ameaçam como pretexto solapar a democracia.
Enquanto isso, cheirando a Chávez, forma-se um grupo armado revolucionário no Paraguai que lutam pela "felicidade do povo" e contra a "oligarquia que comanda o país". Começa uma nova onda de terror e quem duvida que tem dedo do Chávez nessa nova FARC?
Pela defesa da democracia popular de Cuba, da autonomia soberana de Ahmadinejad, apoio a Chávez, Evo, flertes de apoio político com as FARC, dá-se ao homem o que quer fazer, tomando-o pelas palavras.
Brizuela anunciou que “o EPP busca a libertação do povo, que sofreu muito por causa da oligarquia e da classe dominante. O EPP atuará com violência até derrotar completamente a oligarquia, para que se instaure a felicidade do povo. O EPP tomará esse tipo de medidas quantas vezes forem necessárias” (Estadão.com).
Ao mesmo tempo, levanta-se um círculo de silêncio sobre as contradições entre os atos de Lula e seus prêmios, entre estes e esse "incentivo à paz" das palavras, sua aprovação fabulosa de 80% parece que não poderia ser outra.
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A moral superior do homem inferior
O “Itamamorin” --- tadinho do Itamaraty --- disse que não acredita que o Irã pudesse enriquecer a 20% o urânio; é que por aqui a gente não sabe que quando alguém declara que vai matar judeus, tem que repreender e não desacreditar.
Lula, na frente de Merkel, disse que tinha de conversar, mas Merkel disse que já tinha experiência de conversar com Ahmadinejad e ele nada de fazer, mas só de falar. Merkel ficou sem jeito com Lula dizendo: "Pá tê moral, de pedir p'ôtro não tem arma, tem que tê tu também não tê arma". Merkel não sabia onde meter a cara.
Relativismo boboca só funciona aqui. Difícil acreditar que Lula seja realmente respeitado no exterior, nos bastidores; tem que ser muito ingênuo para acreditar que as declarações bobocas dele possam fazer a polidez e os seus "good looks" passar por razão. Essa opinião vai aparecendo aos poucos, apesar de que é incrível o nosso líderes ser o que é, como recentemente notou Jorge Castañeda, ex-ministro de Relações Exteriores do México e professor de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Nova York:
Lula deveria ter-se dado por satisfeito com as capas das revistas, sem procurar preenchê-las com conteúdo efetivo. Isso costuma ser mais difícil
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O ungido
O Zero Hora de 30 de abril de 2010 saiu-se --- créditos de Rosane Oliveira --- com este título, sob a categoria “ESTRELAS MUNDIAIS”, com Lula sendo ungido pela ladainha “Lula entre os mais influentes”. 
Revista Time coloca o presidente em uma lista de 25 líderes do planeta, e oposição critica publicação norte-americana”.

1 – A Time colocou Lula no mesmo posto ocupado antes por, ex., Bin Laden e Kim Jong-Il (Veja), mas só a imprensa “reacionária” percebeu;
2 – “Oposição critica...” quer dizer, o óbvio; que na notícia reforça o caráter de que contra o fato do reconhecimento internacional de Lula, só a oposição se mostra hidrofóbica, para desdizer tão somente.
Rosane toma os prêmios conferidos a Lula pelos méritos aos quais estes prêmios devem estar se referindo. Nessa volta, o jornalista não consegui encontrar os méritos e já dá por uma “maioria” de veículos de informação selecionados segundo tenham dado destaque positivo a Lula --- omitidas as críticas, os deboches e todo o provável nos bastidores de cada gafe. E na relutância da oposição em admitir o óbvio obscuro, reforça a prova do mérito.
"O homem que fascina o mundo", é o título da laudatio escrita por Michael Moore sobre Lula para a Time. Uma olhadinha mais no que escreveu Michael Moore para Lula, revela o modo bem peculiar com que ele realiza os seus documentários; diz ele: “Filho genuíno da classe trabalhadora latino-americana”, diz a reportagem, repetindo o resumo feito à Time; bravo e destemido, “temor dos barões do roubo e perseguidor do sonho americano”! --- Ouh! --- É a fábula do ogro Ephialtes sem valor tornado o guapo Leónidas d'Os 300 de Esparta, feita por um fabulista profissional. (Destaques em verde geralmente querem indicar náusea, ok?)
O cineasta contou que Lula foi engraxate, chegou a ser preso por liderar greve e perdeu a primeira mulher, grávida de oito meses, por não poder pagar um atendimento médico decente. “Lula quer para o Brasil o que costumávamos chamar de sonho americano”, escreveu Moore, em relação à noção de um país onde as pessoas tenham possibilidade de prosperar.
Michael Moore parece que entende pouco do próprio país, pensa como um liberal --- socialista, o oposto do sonho americano, que funcionou até agora tão bem, dizem os imigrantes sem dizer ---, de forma simplista e pronunciando o óbvio --- e hoje Rosane o acompanhou ---, e, como não é difícil de perceber, retirou sua pequena ode a Lula do filme feito pelo PT.
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O idiota-bomba útil
Auguste Nunes, da Veja --- a face da “imprensa golpista” que parece que vê as coisas como elas são, aí o pecado ---, fez notar em “A vaidade do idiota útil” que o El Pais revogara o tratamento laudatório dispensado a Lula, enquanto na Inglaterra e França seguiu-se o mesmo ceticismo --- ainda um polido ceticismo.
Em março, segundo Nunes, um editorial do Miami Herald criticou com aspereza o flerte do Brasil com o Irã, já nem tão polidamente: “A postura de Lula soa perigosamente obtusa”. 
Por estes dias, Jackson Diehl, do Washington Post, escreveu o nada elogioso artigo “Has Brazil's Lula become Iran's useful idiot?” (06.05.10), para apontar a vaidade da política externa brasileira, que não tem em jogo, realmente, nenhum interesse, mas também nenhuma preocupação com o que possa ocorrer de fato. A ação nestes casos está sempre numa relação de probabilidade quando a via diplomática, em vista das consequências do pior, não é mais aceitável.
Mas para Lula, a utopia da conversação sempiterna é o caminho óbvio da paz; e os que não aderem a esta bem para além daquele limite aceitável, quando talvez a conversação tenha já se exaurido, é, a despeito de tudo, a via ainda a ser tentada. No mais, chamar Lula de “idiota útil” vai, isto sim, ferir os sentimentos da mídia puritana, do politicamente correto, da polidez cordata e da auto-mútua-deferência.
Com uma diplomacia vazia, Lula está dando tempo ao Irã e, aos poucos, no conjunto da obra, passando um tremendo ridículo, o que começa a ficar patente para todo o mundo (exceto para o jornalista brasileiro). Incapaz de qualquer sensibilidade para as filigranas do gênero dramático, Lula encena um pasticho, e, ingênuo,
se arrisca cada vez mais no que o grande Stanislaw Ponte Preta chamava de perigoso terreno da galhofa. Há semanas, Lula julgou-se pronto para pacificar o Oriente Médio. Agora, é candidato a arquiteto do desarmamento nuclear. O homem que gosta de contá-las vai acabar virando personagem de piadas contadas em incontáveis idiomas. (A. Nunes) [Atualizando: além de aspirar ao Nobel e a um cargo de chefia na ONU...]
É claro, estas coisas, no duro, só fora do Brasil; por aqui continuaremos a aplaudir os tapinhas nas costas, os abraços apertados, os ternos --- que tanto dão uma aparência de civilidade e mútua deferência ---, alguns até um tanto indecentes, as mesuras e os gestos messiânicos.
No dia 07 de maio a revista Der Spiegel levantou a possibilidade, por alguns indícios, sobre se o Brasil pretenderia construir uma bomba nuclear. A revista alemã diz que com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva "voltou a flertar" com a ideia de produzir uma bomba atômica.
Para a Der Spiegel, há indícios circunstanciais desse interesse. O Brasil é membro do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), porém o desenvolvimento de um submarino nuclear e alguns tapumes sugerem ambições:
"O que há para esconder no desenvolvimento de pequenos reatores para mover submarinos, sistemas que vários países já possuem há décadas? A resposta é tão simples quanto perturbadora: o Brasil está provavelmente tentando desenvolver algo mais nas instalações que declarou como instalações de produção para submarinos nucleares: armas atômicas" (D. S.).
O vice-presidente José Alencar deixou em aberto a questão ao defender abertamente a aquisição de armas nucleares pelo Brasil (em 2009), a pretexto de dissuasivo.
Essa possibilidade já havia sido especulada no livro Shadow World (p. 145), por Robert Chandler, ao dizer que a possibilidade de os programas brasileiros de enriquecimento de urânio e balístico poderiam ser o ponto de partida para a construção de uma bomba nuclear compartilhada, em vista de suas afinidades revolucionárias com líderes locais como Chávez.
Além do mais, quem pleiteia uma cadeira permanente no conselho de segurança da ONU precisa da bomba como trunfo.
Como diz Chandler e como concluiu a Der Spiegel, os interesses brasileiros e de outros líderes sulamericanos de esquerda na bomba não é apenas uma especulação vaga, é mesmo muito provável.
O pessoal daqui não acredita que deveria levar a sério quando alguém diz que vai matar judeus, que deveria acreditar e precaver-se. Ahmadinejad o fez, Chávez acompanhou, apoiadores de Zelaya disseram-no em Honduras. Lula e a política externa do Itamaraty alinha-se a todos estes e a outro tanto de bizarrices mundiais de esquerda.
Como se referiu Gaetano Mosca, o que reiterou James Burnham em The Machiavelians, há um perigo desconhecido e assustador nesse clamor politicamente correto que fala em nome da paz.

A astúcia, oculta pelo disfarce das doutrinas da “paz social”, da “cooperação” e da “arbitragem” [internacional] está [de novo] em voga.
-- James Burnham, The Machiavellians (1943), IV, 2.