março 29, 2007

Fenômeno oximórico avistado no Sul

Eis uma nova categoria de fenômeno astrofísico, ainda mal compreendido. É da classe das aberrações cosmológicas ou, “astrofísica oximórica” – das expressões que empregam termos contraditórios para definir perplexidades cosmológicas que quase não se tem como dar nome a elas. Tão estranho que sequer dá para situá-lo com certeza. Poderíamos chamá-lo de “estrela”, mas como simples referência a algo que está no horizonte do visível, sem que saibamos sequer como é que o vemos. Obviamente não se trata de “ver” com os olhos, mas de forma figurada. O fenômeno ocorreu nesta quinta, dia 15/30/2007, entre as 9:30 e 11:30 e foi televisionado pela SPORT TV. Ao pensar-se que é uma estrela poder-se-ia imaginar algum fenômeno luminoso no horioznte, porém seria o mesmo que atribuir alguma luz a um buraco negro, que de certa forma o tem, mas de outro modo. Como um buraco negro é também uma estrela, chega-se a que nem toda estrela é no céu um fenômeno luminoso. Pois Q.E.F., a “luz negra” dos buracos negros é não deixar luz escapar, é o que a torna visível no vazio cósmico, a ausência abrupta de luz concentrada num único ponto do que é visível. Mesmo aí o não-ser é. Um fenômeno de não poder negar a observação. O que se vê no espectro visível é não ver luz, que é, admita-se, um modo de se mostrar. Delongas à parte...

Se fosse um fenômeno meramente luminoso, teria sido coisa vulgar no céu da nossa modesta expectativa. Mas tenho para mim que seja uma estrela horrorosa, uma estrela sardônica, de algum confim inexplorado por Deus, que se vê, por conjecturas exploratórias, para dentro do breu original de que surgiu o universo. Pois somente aí, onde tudo parece tão diferente, que poderíamos assumir coisa igual a poder-se avistar uma “estrela azul no céu vermelha”. Ora, convenhamos. O mundo teria que ser esquizofrênico para comportar coisas assim ou nós admitirmos, como filósofos fizeram antes, num exercício esdrúxulo, declarando que não somente Deus não existe, como, pior que isso, ou, melhor, além disso, que ELE EXISTE E É DIABÓLICO.

O noticioso d'aldeia, estampou: “Grêmio sem alma”. No creo en brujas, pero que las hay, las hay. Até a fé exige alguma razão de ser. Melhor não radicalizar, melhor deixar tudo como quase-certo e contar uma história. A fábula do vazio esvaziado, não é já, por si mesmo, um novo fenômeno cosmológico? Surge, brilhante em negro, um fenômeno que pudemos observar não vê-lo, e já agora, por absurdo, não temos como dizê-lo inexistente. Uma coisa são as coisas de fato, outra são as constradições lógicas que, com a relação que mantém com a esfera ontológica, não podem ser nunca verdadeiras. Dizer o ser é nada é dizer coisa nenhuma; dizer que A é não-A é não dizer nada; além disso, é usar a definição de A, ao escrevê-lo, para negar-lhe a própria definição no ato em que se o faz ver pela definição. Daí querer dizer com isto que o Ser é vazio ou inexiste é como que dizer que o vazio está esvaziado, e isso não tem outro efeito que o de alguma cósegas no cérebro que se ri. Mas é bem verdade, que esse negócio pode embasbacar os suscetíveis alérgicos até o colapso total das faculdades mentais. Na forma e no conteúdo uma coisa igual é absurda. E por isto deixam-nos, refeltindo em estado de absorto, máxima superfluidade da razão que se perde no caos inominado.

Absurdo, a propósito, vem de “ab-” + “surdo”, que é “desde sempre surdos”, que deixa o afetado sem reação, paralisados. O que ocorreu com o Imortal Tricolor foi um incidente cosmológico, que deve ser observado com a reverência de um fenômeno desconhecido como os buracos negros ou hiperjanelas para outro mundo, de muito má aparência por sinal – como cometas medievais já denunciavam na espectativa das castas ecumênicas e no povo –, mundos paralelos a este, que sugere coisa igual ou incomensuvarelmente mais diversa, e que foge mesmo da capacidade expressiva da língua, que cumpre-nos contemplar como vislumbre curioso e insondavelmente misterioso deste admirável mundinho.


março 26, 2007

The mist of antiquity novel

Boneco fóssil emerso em uma matriz grossa, arenito é provável, cimentada a óxido de ferro, ao que parece, que está exposta na mostra Future Fossils do Museu Grant de Zoologia, Londres, e segundo o portal Terra “Ciência”, os organizadores querem levar os visitantes a uma reflexão sobre a “cultura de consumismo da atualidade”.


O que mais estranha é as peças da exposição estarem soterradas por sedimentos finos e puros, ao que parece, arenitos e siltitos, que lembram mais a matriz que consagrou alguns fósseis famosos pelo perfeito estado de preservação. Mas é assim que o contraste fica mais forte. A imaginação rigorosa teria ainda que instar ainda a que se colocasse as peças sob novos processos de fossilização. Alguns milhares de anos são o bastante para deixar em escombros uma cidade de pedra e o que ela possa conter feitos uma massa indiferenciada de madeira, cinzas, poeira, rocha decomposta, óxidos diversos, um infindável número de outras substâncias e compostos, etc., feitos aterros insuspeitos. O calor e a pressão de compactação atuando durante algum tempo pode sepultar uma infinidade de peças da nossa cultura de quinquilharias dos mais diversos modos. Já a imagem decadentes das nossas cidades modernas feitas de de aço, alumínio e vidro pode, por certo, assumir o mais lúgubre aspecto no futuro, enquanto durem, eretas e abandonadas.

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O que por fim causa estranhamento nesta exposição parece ser o fato de que a rocha onde fósseis consagrados foram descobertos contenham peças do nosso cotidiano. É o passado que contém o presente? É o passado, no presente, que contém o futuro? A forma lógica mais correta parece ser esta última, desde que o passado não pode conter o presente, pois o presente não é o contraste polêmico do passado, mas sim o futuro. Às vezes de escólio: Ao conter o presente, o passado contém o futuro; é dispensável e confuso querer ver o presente aprisionado. Mas o presente pode se ver aprisionado por reflexo de um futuro já passado. Curiosa armadilha encontramos aqui. Ao ver-se refletido como um “futuro passado”, o presente pode ver-se, daí sim, naquelas imagens. O estranhamento parece que não poderia surgir de outra forma, deve ser necessariamente uma mediação, nunca uma experiência direta.

Que o presente se torne passado tem o efeito normal do fluxo do tempo; não é isto que se vê nas relíquias da exposição. A forma lógica não é o distanciamento do presente tornando-se passado, mas o resgate do presente no passado, e este resgate não é e não pode ser outra coisa que o futuro, por contraste, surgindo de dentro do passado. É o contraditório que dá o contraste paradoxal dessa relação, que a torna digna de reflexão atenta.

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A vida ou o que se reconhece por ela, presa como um inseto no âmbar, no esquecimento de pedra. Tem de equivalente à simplicidade serena das pedras de Stonehange mergulhadas in the mist of antiquity – que é o estranhamento d'o outro preternatural. E lembrar, bem... só com método.

Talvez se explique a sensação de estranhamento mais pela disfunção que se experimenta: por aqueles objetos, estendemos as mãos, mas o movimento está congelado. A'bstração do ato, do desejo, da vontade, taxidermizados pelo tempo, mergulhados no esquecimento pela distância, mas sob o sol da existência, ainda existimos, esta é a contradição pressentida. Desafia-nos um amor fóssil, um desejo fóssil, um arrebatamento embalsamado na argila, uma alegria de mármore, o riso preso num silêncio translúcido de gelo.

Coisas familiares emergem de um passado que aqui aparece como estranhamento do cotidiano. Estranha sensação de finitude, que o presente acabou, que já não havemos mais. Silencia a balbúrdia, somente coisas fundamentais restam; o sagrado amoral, a presença primitiva que há, sem interpretações e sem opiniões. Testemunhas evidentes do próprio desparecimento.


março 20, 2007

Aqueles-cujo-nome-não-mencionamos

Baita cotidiano narcótico! “Medidas Sócio-Educativas” no Gaúcha Repórter, 15:20 de 05/03/07 e mal se percebe a praga do “social”. Mazela para dizer que menores de idade são levados à prisão e que lá se acabam. E a gente tem que ouvir isto e ficar quieto para não descobrirem coisas como a morte do Rio dos Sinos. Chocar-se é um mecanismo que é direito do cidadão previsto pela quebra de leis não escritas, a constituicional Hipocrisia. Galhofa horrorosa que delcara os direitos fundamentais sem criar meios de realizá-los. O cotidiano deveria ser proibido. Enquandrado como substância entorpecente das mais graves, mais imoral que pedras de Crack.

É mentira pra todo lado, e mentira já assimilada ao repertório retórico e à capacidade perceptiva do cotidiano. O mundo vêmo-lo pelos lugares-comuns do atual estado de embotamento jornalístico. Se limitamos a realidade, é por conforto conveniente. Eis o verdadeiro “sexto sentido” de que tanto se fala sem atribuí-lo à coisa certa, que é uma faculdade coletiva denominada de “Jornalismo”. Quem não gostou do filme “A vila” de Mr. M. Night Shyamalan vai achar tudo ainda mais graves, se bem que o horror d'aqueles-que-não-mencionamos pareça por um instante familiar. Convimos a perceber o mundo mediados pela enfinge midiática. Então, na vila, tudo para lá da margem picotada do jornal é o que-não-se-diz.

O morfético leitor dos jornais quer ter da realidade qualquer coisa menos horrorosa, lançando mão da displicência cotidiana até ela se tornar em um mergulho duradouro no pântano da inconsciência. Esta adquirida e exercitada por uma consciência coletiva, de que se partilha em comum. Não posso deixar de lembra do caos rastejante de H. P. Lovecraft quando penso que a consciência nossa é um sonho palustre. Aqueles-que-não-mencionamos são todos os sonolentos habitantes desta Vila nonsense – daí talvez se explique o sucesso do seriado Lost e de sua trama circular. Afinal de contas, é uma ilha. A única ilha movediça que afunda em si mesma. E ilhas e vilas são coisas muito parecidas. Mas daí eu fico pensando se os gregos fundaram as bases da civilização num arquipélado, com o sentido bem claro da diferença e da unidade, o que uma ilha sozinha pode fazer além de superfluir sempre, percorrendo sempre de novo as mesmas pegadas na areia.


março 19, 2007

Esquizitices metafísicas


A esquizitice do bicho achado num mercado de peixes na Indonésia, veja aqui, cuja espécie nunca havia sido descrita, é de família. O grande grupo dos tubarões tem algumas raridades célebres como o tubarão-enguia (um fóssil vivo filmado há pouco no japão) e o gigante tubarão cego de mares profundos e gelados, um gigante cinza escuro que mais parece uma rocha errante, de um tanto incerto de formas igualmente bizarras.
O interessante aparece mesmo o destaque dos dois elementos arquiteturais básicos das arraias. É uma síntese de necessidade e de melhor, que é a busca da forma ideal, que existe contra a resistência das leis da física. As propriedades plásticas destas cadeias de carbono complexas de que se vale a vida parece que são eficientes em absorver a resistência física e distribuí-la de modo a dissipá-la em uma esteira turbulenta, que fica para trás. No mais, os animais não passam de sacos de vísceras com olhos.
Senão, vejamos: 1 – olhos baços, lembra a vida inconsciente, a vida como força primitiva; 2 – o “núcelo por trás dos olhos”, é a parte das vísceras e do sistema nervoso, que tem uma cauda que afina abruptamente ligada a ele; 3 – por fim, a membrana natatória circunjacente, marginal ao corpo visceral, que assume uma forma precisamente geométrica, um pouco parecida como as cúpulas russas aceboladas ou, mais correto ao simbolismo, com a forma da chama de uma vela, perfeitamente simétricas (bilateralmente), com assimetria longitudinal. Quando se separa as partes, vê-se bem isto as duas coisas.
Mais curioso que tudo, parece ser a linha da ponta mais adiantada da arraia, onde a simetria bilateral se junta com a ponta da cauda, que é a “linha” de convergência da simetria bilateral. É a linha narrativa do bicho, o qual “se explica” ao longo dela, ou onde ele encontra sentido estrutural, arquitetural, ocorrendo o sentido funcional como delonga excêntrica a este eixo. Abusando um pouco dessa metáfora da narrativa, do “bicho-narrativa”, é como constituir o sentido do bicho pela resistência que a capacidade expressiva da língua ofereceria à narrativa. Não é o caso de, no entanto, de construir um bicho-narrativa para entender o verdadeiro, mas distinguir o que é elemento essencial da natureza da vida, sem descrevê-la como coisa orgânica e material. Isto é coisa que deveria tratar uma paleontologia metafísica. Enunciemos, então o esboço da Primeira Lei da nova ciência: “O ser [animais] se constitui a partir de um centro ou eixo que é a medida da unidade do ser em relação com uma identidade constituida pela amplitude da excentricidade alcançada do ser em relação a essa linha”. Essa esquizitice que se enunciou coloca em relação a necessidade de um centro ou eixo de unidade, que é, a propósito, a forma universal da unidade que se arroja mundo afora, ou, em outras palavras, que se exprime como res extensa, com a necessidade ou premer do mundo físico, que lhe inflige o seu caráter (que é identidade).
A unidade do ser está em relação polêmica com a sua identidade – o que lhe constitui o seu caráter –, que resiste ao mundo. Algo como uma força coerciva da existência parece que une o que naturalmente permaneceria disperso – moléculas, átomos, etc. Faltaria pensar qualquer coisa como um sopro de ordem dinâmica para constituir a vida, além do que ela tem que degenera com o tempo. Um impulso inicial. Mas depois mesmo este se detém por alguma força que lhe resiste. Pequenas luzes que se apagam como apagam-se fagulhas de fogos de artifício cuja existência dura o breve curso de uma parábola feita no céu.

março 15, 2007

Oportunidade é vocação

"Boas notícias, Maia!! Está contratado de novo!!
...Abriu uma vaga de lavador de vidraça!"
*
LAERTE. Do
feed da Folha de São Paulo On-Line.


março 13, 2007

Método de precipitar almas

Sumário do título “Preconceito e Julgamento” do Corcordar ou Não Concordar d'A arte de ler de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, Agir Editora, Rio de Janeiro, 1974 (pp. 152-154).

*

Seguem termos gerais do debate razoável, que visa o entendimento e não convencer um bobo, isto é, a si próprio:

I. Assume-se que existem “requisitos indispensáveis do diálogo inteligente e proveitoso” – existem regras de debate que, por fidelidade à verdade, que é o traço de honradez no debate por parte dos seus contendores, submetem-se a estas regras, que não podem ser quebradas. Quem o faz assume-se um bobo impertinente, um bufão sem razões maiores que lhes dão gestos exagerados e trejeitos maníacos (irracionais).

II. Ao divergir você assume que as coisas podem ser postas em melhores condições que como estão sendo expostas por seu contendor.

Segundo Mortimer Adler, “há três condições que devem ser satisfeitas para que a controvérsia seja bem conduzida”:

Primeira – Reconhecer as emoções que você leva para a disputa, que na ausência de rigor expositivo, sustentar-se-á na “exteriorização de sentimentos irreprimíveis” como guia do caminho (mau guia).

Segunda – Tem que se deixar explícitos os próprios pressupostos que se leva à disputa, o que pede que se reconheça os preconceitos ou prejulgamentos nossos.

Excertos:

1. “Se um autor, por exemplo, lhe pede expressamente que admita determinada hipótese, o fato de que também se possa admitir a hipótese contrária não deve impedir que você atenda à solicitação”.

2. “Se os seus preconceitos se situam do lado oposto, e se você não reconhece que são preconceitos, não pode ouvir imparcialmente os argumentos do autor”.

Terceira – “O propósito de imparcialidade [desejável] é bom antídoto para a cegueira que é quase inevitável no partidarismo” natural da controvérsia. É desejável mais luz e menos calor: “Se você não foi capaz de ler um livro com simpatia, sua discordância com ele é provavelmente mais briguenta que civilizada”.

Resumindo as três condições sob o modo pessoal:


1ª – Em que condição estou ao entrar neste debate;

2ª – De onde parto para as minhas críticas – a crítica ocorre por comparação com o confronto com uma hipótese oposta, e ela deve poder ser compreendida nos termos do seu contendor (pressupostos ou preconceitos, no segundo caso, regride-se à Primeira);

3ª – A imparcialidade desejável é fruto de um desapego esforçado pelo contraditório (não há desapego que não seja esforçado, pensar o contrário é uam forma de ardil inconsciente para não se expor ao argumento do contendor.


III. É preciso crer que o diálogo crítico possa ser bem disciplinado no caminho do entendimento e ou do acordo arrazoado, que essa possibilidade é real e desejável.

IV. Sistemática do “Entendo mas discordodoutrina o que se assume como orientação do debate proveitoso pelos modos de divergir:

  1. Você está desinformado;

  2. Você está mal informado;

  3. Seu raciocínio não é convincente (Você está sendo ilógico);

  4. Sua análise é incompleta.

Excertos:

  1. Confiamos em que o leitor, atendo-se observância desses pontos, terá menor probabilidade de entregar-se a manifestações de emoção e preconceito”.

  2. É fácil condenar quando não temos meios de contestar”, pelo quê sobrevém, como efeito, sentimentos irreprimíveis.

março 12, 2007

Herdeiros desnaturados

Há algum tempo as universidades perceberam que perdiam alunos devido ao ciclo básico, que afogava o entusiasmo inicial em arremedos exegéticos de segundo grau, senão de um pré-vestibular caraoquê do tipo Bob Esponja. Agora, no artigo de Roberto Macedo no JC/SBPC de 22/02/07, lê-se que o Ministério da Educação assinala com verbas extras para as universidades federais que “reforçarem” os calouros nas efemérides dos “ciclos básicos”. Tudo porque se descobriu que o que faz diferença na educação ainda são fatores tradicionais, isto medido pelos resultados das escolas brasileiras dentre as quais as escolas militares tiveram destaque. O método “mais rígido” se resume a alguma disciplina, de resto melhor que se negligencie a idéia de educação “premiada”, que faz de alunos aspirantes a uma hierarquia afetada de patentes equivalentes às divisas militares.

O primeiro colocado em diversos vestibulares, oriundo da escola militar, declarou que nas suas leituras há um leque aberto de interesses, fazendo o complemento para a educação rigorosa. Identificada a “tendência de instilar na cabeça dos alunos um conhecimento precocemente especializado já no ensino médio”, se passa a reconhecer os ciclos básicos como medida a ser comemorada, entre outras no mesmo sentido, também para evitar a escolha precoce da carreira. Isto, se não tivesse passado despercebido que esta escolha está já na inscrição do vestibular, o que torna o ciclo básico inútil para esse fim. O ciclo básico só se justifica por uma preparação dos calouros se eles pudessem escolher seus cursos após esta fase e não antes. Não estranharia que para as ciências se ministrasse roteiros de leitura de coisas basilares, Platão, Aristóteles, Descartes, pelo menos, e leituras gerais, que são a origem ocidental da ciência que cientista nenhum lê. Aí sim; por isto (por esta negligência) pode-se identificar que há uma especialização dos cursos para a técnica (quando muito, senão a mera administração de carreiras) em vez de o fruto de um pensamento que irá se declarar, mesmo sem devê-lo, no futuro, descendente da tradição científica iluminista, helenista e latina.

Tópicos:

1. O Especialismo se caracteriza pelo contrário, por um corte em relação à tradição, o método de pensamento científico do século XX se confunde com a prática científica. Ora, isto não pode ser um conhecimento do que se faz, é um “fazer” apenas. A descoberta científica vem no curso de um esforço comum como fruto “do seu tempo” – idéia autocontraditória, pois o fluxo normal das coisas não poderia mudar sem questionar as bases mesmo de um fazer atual pela análise apenas deste próprio fazer.

2. Sócrates, no Fedro, declara a respeito da tradição mitológica, coisa desinteressante que só espertinhos se meteriam a tentar “interpretar”. Esta é a prática do “desmistificador” científico. Mas primeiro as coisas que vêm primeiro, que é, o que Sócrates tinha por maior valor, o “Conhece-te a ti mesmo”. O melhor que se fez, para atender a este aforisma fundante, foi um esquematismo enfadonho rotulado de Epistemologia.

3. A polarização entre Ciência e Deus vale-se de #2 em defesa da Ciência, sem atentar para o que diz Sócrates. Como pode negar-se a ciência a uma reflexão de Deus se no curso desta é que foi construída toda a tradição rigorosa do pensamento ocidental que redunda na ciência moderna? E, portanto, toda a base do aforisma socrático “Conhece-te a ti mesmo”. Negligenciar Deus é negligenciar a exegese do pensamento rigoroso e da verdade, que fundam o espírito científico atemporal; é negar-se ao conhecimento do conhecimento, do conhecimento do que sabemos fazer e do que sabemos ver. É negar a ciência na base e erigí-la, de novo, sobre seus próprios escombros.


março 08, 2007

Se nada se tem, afirme-se a miséria

(Miséria:)

Para que haja compreensão mútua e debate responsável entre os cidadãos se uma comunidade democrática, e para que as diferenças de opinião possam ser ventiladas e resolvidas, os cidadãos devem ser capazes de comunicar-se entre si numa linguagem comum. A “linguagem”, nesse sentido, envolve um vocabulário comum de idéias. Esse recurso intelectual comum somente pode ser usado por aqueles que leram, discutiram e vieram a compreender um certo número de livros que tratam das idéias operativas para a vida do seu país e da sua época”.

(.)

Mortimer J. Adler, A proposta Paidéia. Editora Universidade de Brasília, p. 39.

março 07, 2007

A mulher do dia


Prostituta mexicana de 2.000 anos, segundo o site Terra, de exposição que conta no México a história da prostituição.

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Prostituta por quê? Será que é porque ela não tem utensílios nas mãos? Ao invés disto, apóia as mãos no quadril. A pensar que sacerdotisas virgens estavam, nessa altura, sentadas sobre algum falo gigantesco, enquanto as mamas moíam alguma raiz, carregando os filhos ou utensílios, ou dedicavam-se ao artesanato ou à agricultura, a moça aí ou estava muito bem de vida ou, bem, por isto mesmo, era concubina, não a própria rainha, porque lhe faltam jóias e adereços outros como o próprio monarca. De resto, há uma tensão na figura, das pernas firmemente postadas no chão, bem como dos braços, arqueados e bem seguros, corpo ereto e rosto digno. Precisariam os srs. Arqueólogos dizer alguma coisa a respeito.

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Gostei da marquinha do microbiquíni.
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Apesar da perna de pau, não é de se jogar fora.


março 06, 2007

Imprensa bege

Estudos e avaliações que demonstram a indigência da imprensa brasileira não são raros, nem por aqui [1], nem por Portugal:

A imprensa brasileira desenvolve um jornalismo que separa o informativo do opinativo, na tentativa de delimitar para os leitores seus espaços de notícia – com apuração que se coloca em seus discursos como credível e isenta – do de opinião e análise, nos quais os autores manifestam claramente sua opinião, nem sempre embasada em apuração” [2].

Na diferenciação entre “informativo” e “opinativo” a clareza sugerida pelo escrúpulo da distinção é posta em xeque a todo momento. “Informar” é aquele trabalho impessoal que levou a se noticiar por aqui com naturalidade a contenda entre governo federal e governo estadual, que parece ter sido motivada por algum tipo de disfunção cognitiva comum. Ambos saíram da mesma sala que há pouco estiveram reunidos, declarando o contrário um do outro. Que tenha se tratado isto senão com naturalidade, com nenhum estranhamento, é deixar-nos órfãos na dúvida mais elementar. Se alguém achou estranho, não disse nada. Se se levasse mais a sério as “declarações oficiais” se teria que ter parado tudo; pedir atenção, olhar nos olhos do avoado e voltar e questioná-lo confrontando-o com seu antípoda.

Esperar coisa igual é, no entanto, tão inatural que passa como se fosse nada. Isto deve indicar a importância que se dá a declarações oficiais, que pelo ar de ficção que geralmente as envolve ou o fog da prolixidade ababelada, deixa-se para lá e se começa tudo de novo, a fazer as pergunta desde o começo. É como desligar o computador para eliminar algum bug que se sabe natural de sistemas tão complexos que já se lhes pode atribuir essa mazela humana que é o esquecimento. É o que se precisa fazer para continuar tagarelando sob o manto da subjetividade e do “quaselogismo” e do “achismo” contumazes que têm uma de suas maiores características não dar conseqüências ao que dizem, mesmo quando dizem com gravidade.

Já foi dito alhures que isto dá azo a conspícuos sociopatas.

Cuidando das coisas de cá, ouvi Lasier Martins (Gaúcha Repórter de 05/02/07 às 14:57) dizer que a RBS é eminentemente “jornalismo”, porém há, como em toda imprensa, sempre uma certa omissão seletiva e crítica da notícia. E nem é o caso de um certo “Foro de São Paulo” em que vários líderes sul-americanos se reúnem, inclusive com grupos de reputação pra lá de má, que traçam juntos linhas de ação com acordo ideológico e estratégico, lavrados em atas, que são, para dizer o mínimo, coisa outra que passa como fonte de influência de decisões totalmente alheias ao parlamento nacional. De tanto ignorarem o assunto, ele acaba chamando bastante atenção. Mas não se precisa ir tão longe, desde que se tenha alguma atenção para notar o disparate da babel existente entre o discurso oficial, tergiversante, truncado, confuso, acrítico, falacioso, etc. Noto estas coisas habitualmente no tema imprensa.

É claro que isso dá indício do que se disse nos estudos que se encontra sobre o assunto, que a mídia brasileira geralmente não fala do governo ou o faz de modo muito escrupuloso, convergindo em torno de um princípio centrífugo de apuração das coisas em jogo.

O hábito até comum da imprensa, de molestar com picuinhas não se aplica ao governo de modo geral e à publicidade devida a temas críticos. Há uma cumplicidade bege da imprensa brasileira com os governantes, o que deve ser relacionar a opressões indiretas que os meios sofrem, quando não diretamente, pelo poder econômico ou, como mecanismo mais delicado, por retaliações veladas. Se não for isto, é isto de forma inconsciente, e portanto, já uma cultura da névoa, da cortina de fumaça e da desfaçatez.


Notas:

1. Por aqui duas fontes, de orientações opostas, são a Mídia Sem Máscara e o Observatório da Imprensa onde se encontra a crítica de alguma forma.

2. Lene, Hérica, & Almeida, Castro de, Alcyene, 2006. A influência norte-americana no padrão de jornalismo brasileiro: análise comparativa dos jornais A Gazeta e The Boston Globe; pp.11-12 [URL].


março 03, 2007

A liberdade que eu te ofereço, é perdê-la: Pega!

Chama atenção o comercial em que, na Rede Globo, uma criança tem os olhos cobertos por uma série de mãos de adultos, que retiram-se uma a uma, para ilustrar a mensagem “Os limites é você quem dá”. O anúncio, que está sob a “etiqueta” do engajamento “Cidadania, a gente vê por aqui”, veiculado estrategicamente, segundo a jornalista Leila Reis (de artigo original do caderno “TV&Lazer” d'O Estado de São Paulo), antecipando a publicação da portaria do Ministério da Justiça com o texto do Manual da Nova Classificação Indicativa para a Programação da TV. A relação que a autora faz é o de que o segmento “Cidadão” da Rede Globo não é gratuito, mas vêm de encontro a interesses que pretendem manter a frouxidão da programação da TV.
Segundo o artigo, que pode ser lido aqui, saiu um documento pela Associação dos Roteiristas, cujo presidente é Marcílio Moraes, autor da novela “Vidas Opostas”, da Record, que declara seu “repúdio ao ressurgimento da censura e, em nome dos autores e roteiristas de TV, clama por liberdade de expressão”. Ambas as coisas são constrangedoras, tanto o “oportunismo” dos profissionais remunerados por produzirem proteína de fácil digestão e nenhum valor nutritivo, oferecidas ao telespectador estupefato, quanto este abjeto “controle social da televisão”, que deve dar de viés vez a outros interesses. O livro-texto e o currículo na escola, lugares-comuns (vulgares) do “politicamente correto”, padrões de saúde doentios, licenças de todo tipo para as coisas mais banais, sob o critério único da burocracia com fim arrecadatório, impostos sobre impostos, já chegam para constituir o estelionato de Estado, de modo que não é preciso se aceitar mais um mecanismo de controle “social”. Concessão sempre foi coisa de interesse do Estado, mas não por motivos de interesse social, mas por regalos a amigos da melhor oportunidade.
O que deveria ser regulamentação crítica passa a controle ideológico ou a afinidades outras facilmente. Senão, vejamos: o “horário nobre” da TV é o das 6:00 às 9:00, quando termina o período comercial e a maioria da gente volta para casa, e justamente neste horário ocupam a programação séries de telenovelas alcunhadas de “teledramaturgia” as quais variam pouco os padrões dramáticos, ainda assim, não variam em diversidade, isto já há anos, mas ciclicamente se repetem e se imiscuem apresentando um novo reciclado. Desconheço que se tenha feito uma análise crítica sistemática desse tipo de entretenimento empulhador, de acordo apenas com aquela regra grosseira dos supermercados que reza que os produtos essenciais devem ficar no fundo para que se tenha que passar pelos dispensáveis antes de chegar àqueles, o que os torna “visíveis” quando, na maioria das vezes, se passaria por eles ignorando sequer onde se encontram.
Sendo concessão é óbvio que algum interesse do estado deve existir. Dizer que a telenovela forma uma “unidade nacional”, que acontece desde os seus assuntos, é a imagem do supermercado circular, cujo essencial é percorrer um oco central, como o buraco de uma rosquinha, pela força que ele tem de sugerir uma unidade. Que há uma identificação nacional pelas telenovelas é evidente, desde que se possa discutir temas abordados por este produto desde o norte até o extremo sul, é uma unidade de consciência comum, uma medida de consciência coletiva. No entanto, esta identificação está longe de ser unidade de consciência, porque, por baixo, dá uma unidade pérfida, vazia de conteúdo e cheia de bizarrices.
A classificação deveria “notar” que novela não é programação para passar às 6:00, 7:00 e 8:00, que são o horário nobre ou o início do fim do horário comercial, quando as pessoas podem voltar para casa e sentarem-se na frente da TV, já empurradas pelo cansaço, e facilmente ficar um pouco mais e outro tanto, por inércia. O que aconteceria se neste horário a TV estivesse passando apenas notícias, que parece que é a melhor opção para o fim da tarde de quem fica na frente da TV? Senão, porquanto seja o conteúdo do noticiário pesadíssimo, dê-se então informação culta e artes em lugar. Nenhuma classificação de conteúdo seria necessário mudar, desde que se reorganizassem os horários dos conteúdos. Sugira-se isto e veja-se se aceitam.
São os pais responsáveis pelo que as crianças assistem na TV? E quem é responsável pelo que os pais assistem na TV? Quem educa quem educa? E assim, alardeia-se a liberdade de escolha, declarando em alto e bom som a liberdade universalmente um direito de quem a reivindique para si. “Toma-a, é tua” diz o ser impessoal. É estranho que não se veja por aí que o direito à liberdade é um conceito contraditório, que não faz o menor sentido declarar algo como a “liberdade universal” sem atentar para os meios de exercê-la. É mera liberdade de “ir e vir” do modo que está. A propaganda pela liberdade de escolha é falsa, como de resto é falsa a declaração constitucional da liberdade inviolável (Art. 5º) ao modo da “liberdade de consciência” (VI). Na liberdade de consciência diz-se: “És livre para ser inconsciente” em vez de “Nada de embotamento”. É preciso declarar a liberdade de consciência? Ela é algo que pode ser-nos tolhido? Está a dizer-nos da liberdade de sentirmos a nossa própria dor e de termos os nossos próprios pensamentos confusos? É possível a liberdade inviolável sem consciência? Liberdade de consciência é liberdade de estado de consciência, daí também liberdade para ser inconsciente? Pode um país formar-se com cidadãos inconscientes? Não se chega aí, de volta, aos meios que facultam a consciência individual? Pode, destarte, existir a liberdade inviolável sem que se promova a consciência individual, sendo a liberdade universal inviolável totalmente dependente desta?
Mas quem vai dizer que atentar maliciosamente contra a consciência ou o quadro das coisas que a tornam possível seja privar-nos dela? E não está já evidente isto? Não é verdade que a liberdade de consciência e a liberdade de escolha são complementares? Que nada adianta-nos escolha sem alternativa, ou alternativa sem o poder de escolha? Assim é que a liberdade pode existir em um mundo de quase nenhuma alternativa e em meio à consciência frágil. Talvez seja esta a idéia de unidade nacional pela TV, ver o que todo mundo vê, e chamar a isto consciência, uma consciência coletiva – a massa obesa que secreta o muco da unidade orgânica que carregam os sinais químicos vitais da nova sociedade, como se fossem mesmo os mais fortes laços de família.

Nota técnica:
Oportunismo disfarçado”, artigo de Leila Reis (sobre mensagem da Rede Globo). Quarta-Feira, 07 de fevereiro de 2007. JC e-mail 3198, de 05 de Fevereiro de 2007. Leila Reis (leilareis@terra.com.br) é jornalista e crítica de TV, e publicou este texto no caderno “TV&Lazer” de “O Estado de SP”.

março 01, 2007

Novo

NOVO, adj. Aquilo que não pode ser conhecido por nenhuma outra palavra, que senão seria de antemão já conhecido de alguma forma. Usado muito para designar o que nem mesmo aquele que o declara sabe o que é, sem ter que confessar que o ignora. Sub. m. Imaturo. Imberbe. Modo. Tipo de patifaria dos políticos. Ardileza. Velhacaria. Metaf. Princípio virulento do futuro na crença da Esperança.


- Definição de “Novo” do Dicionário Negro do Absurdo e da Perplexidade.