outubro 28, 2010

A falsificação da razão


por
Larry Anderson
Vivemos em um maravilhoso mundo de linguagem. A maioria de nós está advertido de que as palavras têm [algum] sentido [pelo menos]. Mas muitos de nós têm perdido a pista do fato de que não a estamos usando as palavras da maneira mais apropriada, ou pelo menos (como na famosa cena do Monty Python), se não as colocamos “na sua ordem correta”, nossas considerações tendem a ficar sem sentido.
Este é um tremendo problema filosófico, causado --- diga-se sem mais --- pelos próprios filósofos. Cuidadosos estudantes de filosofia sabem que a ruminação dos filósofos de envergadura mundial prepara o cenário de como as palavras serão usadas [estabelecendo um padrão] bem como do eventual abuso por intelectuais, educadores, políticos e, finalmente, pelo resto de nós.
Vamos examinar três conceitos simples: o mau uso do pronome da primeira pessoa do singular (o “eu”), a exploração de “palavras-sucesso” (tais como “conhecimento” --- “palavras-sucesso” serão explicadas abaixo) e o mau uso dos pronomes pessoais no plural (e.g., “nós”). Esta investigação irá nos ajudar a compreender como as classes política e intelectual empregam ostensivamente errado a linguagem para seu benefício --- e em nossa desvantagem.
Para os nossos educadores “pós-modernos”, políticos e intelectuais, o culpado inicial no abuso do pronome pessoal no singular foi René Descartes. Para dizê-lo suavemente, Descartes tinha a si mesmo em alta conta. Em dois parágrafos breves, seguindo pela abertura introdutória do seu Discurso do Método, Descartes maneja o pronome da primeira pessoa do singular cerca de trinta vezes. E ele estava apenas começando a falar de si mesmo [i].
O filósofo australiano David Stove foi capaz de descrever o real método de Descartes:
Descartes pretendeu, por certo, que o seu “eu”, “mim” filosóficos e que tais, fossem a mais genuína peça autobiográfica. … Mas René Descrates, sabendo que Mersenne está à sua porta, preparou-se para lançar uma campanha de propaganda, sabendo que o que ele estava escrevendo seria lido … por cada pessoa estudada na Europa --- este homem escreve como se apenas ele existisse, e finge que o é! Este espetáculo é tão desprezível quanto ridículo. … [ii] [ênfase no original].
O serviço em benefício próprio de Descartes prosperou desde então. A obra inteira do atual presidente dos Estados Unidos consiste em duas autobiografias. Ambos os livros chafurdam na dúvida e na obsessiva autoanálise [1].
Immanuel Kant, que admirava Descartes, levaria essa contribuição ao nível mais alto do narcisismo político e filosófico. Mas Kant acrescentaria uma nova guinada. Ele não apenas abusava dos pronomes, mas ele adulteraria as palavras-sucesso.
David Stove dá estes exemplos de “palavras-sucesso”:
… “prova” é uma palavra-sucesso, enquanto “acreditar” não é... [assim] você pode provar apenas o que é verdadeiro, mas você pode acreditar no que não é verdadeiro. “Refutar” é uma palavra-sucesso, desde que significa “provar a falsidade de”; “negar” não, desde que significa apenas “assegurar a falsidade de”. … Mas uma palavra-sucesso pode ser usada de tal modo … que sua implicação de sucesso seja cancelada ou “neutralizada” [iii].
Kant postulou temerariamente (por escrito), “Eu devo, portanto, abolir o conhecimento que deixa espaço para a fé [iv]” [ênfase do autor]. Notar o mal em ambos, o pronome pessoal “eu” e nas duas palavras-sucesso “abolir” e “conhecimento” [v].
Immanuel Kant (ou qualquer outro ser humano) não pode abolir o conhecimento mais do que poderia fazer o sol nascer no oeste. Ainda mais, o idealismo transcendental de Kant tem que dar espaço para o noumena (o que não podemos ver) e, ao mesmo tempo, tentar explicar os fenômenos (o que podemos ver). A solução de Kant foi uma dupla anulação de suas duas palavras-sucesso. Ele queria “abolir o conhecimento...”. O que Kant verdadeiramente fez, conduzindo-se por um tal apelo ridículo, foi demolir o senso comum e continuar a lenta derrocada da razão [2].
Indo, num corte rápido à frente, até o presidente G. W. Bush, as grosserias políticas de seu pai (que se vê melhor em “Leia meus lábios: não a mais impostos”) são pálidas em comparação a vindicação de Bush filho, “Eu abandonei os princípios do livre-mercado para salvar o sistema de livre-mercado” [ênfase acrescentada].
Bush ter assinalado o abandono dos fundamentos do livre-mercado para salvar o livre-mercado, recai exatamente sobre a mesma dissimulação linguística tal como a vemos na afirmação de Immanuel Kant sobre a “abolição do conhecimento”. Bush usou o pronome “eu” contraído --- no inglês, “I've”, [I have, “eu tenho”]. Significa que Bush acredita que ele tinha o poder de salvar os princípios do livre mercado ao abandoná-los. Esta ultrajante declaração foi esvaziada pela neutralização de Bush das palavras-sucesso “abandonar” e “salvar” [vi].
O livre mercado que é “abandonado” não é “salvo” --- eles são exterminados. Nem mesmo o presidente dos Estado Unidos tem o poder de abandonar o livre mercado, a menos que ele se torne um ditador.
A afirmação de Bush simplesmente não pode querer dizer o que as palavras querem dizer (e o que Bush pareceu pensar que as palavras significavam onde ele as disse). Assim, utilizando a “fala ambígua”, um recurso tipicamente intelectualista, Bush tentou cancelar, ou neutralizar, o sentido das palavras-sucesso “abandonar” e “salvar”. Suas palavras obviamente falham ao dizer qualquer coisa sobre o mundo real --- onde o o mercado livre não tem sido nem abandonado, nem salvo. Ao invés, o livre mercado está adoentado com mais ingerência, distorções e regulamentações governamentais.
O problema com a linguagem está por todo lado. Somos tão usados por intelectuais, políticos e pela grande mídia, que adotam o uso de palavras-sucesso, que nós raramente percebemos a “fala dupla” que elas contém. Charlie Rangel --- ou, senão, é como diremos --- “refutou” as alegações de impropriedade no uso da linguagem. “Refutar”, como visto acima, é uma palavra-sucesso. Mas alguém como Christine O'Donnell --- seus críticos irão sem dúvida censurar --- “negou” as acusações que contra ela se lançavam. “Negarnão é um palavra-sucesso. Charlie é clara; Christine está dando desculpas... senão, a narrativa liberal [3] seria revelada.
Mantenha um olho aberto contra estes abusos. A linguagem das elites intectuais está repleta de desvios desse tipo --- e a maioria dos conservadores está desavisada desse fato.
Um outro exemplo é o uso dos pronomes pessoais no plural, como o “nós”. Embora ele não seja o primeiro a abusar destes pronomes, o filósofo Bertrand Russell deixou-nos algumas verdadeiras pérolas:
Porque se nós não podemos estar seguros da existência externa dos objetos reais, [igualmente] não podemos estar certos da existência independente dos corpos das outras pessoas e, assim, muito menos das mentes das outras pessoas, desde que nós não temos fundamentos para crer nas mentes dos outros exceto por derivação, pela observação de seus corpos. Assim, se não podemos estar seguros da existência dos objetos, devemos ser deixados sozinhos em um deserto … isto, talvez … se nós sozinhos existimos realmente [vii]. [Itálicos no original, negritos do autor].
A molestação lógica do “nós” na citação é óbvia. Russell parece defender o impossível: solipsismo compartilhado. Não para insistir no óbvio, mas se apenas duas pessoas existem (é dizer, dois solipsistas --- “o resto de nós” é ilusão), mesmo dois auto-proferidos solipsistas não existem e não podem existir sozinhos. “Nós existimos sozinhos” é coisa patentemente falsa. “Dois é companhia” deixou de ser uma verdade filosófica, coisa lá para além do alcance de Bertrand Russell.
Russell, para ser consistente consigo mesmo, poderia ter escrito “eu” no lugar de “nós” ao longo daquela citação. Mas então Russell teria sido reconhecido tanto como um solipsista fracassado quanto como narcisista. Ele evitou estes rótulos burlando com o pronome da primeira pessoa do plura.
Obama manipula a palavra “nós” quase do mesmo modo que Russell. Três dos principais slogans de campanha de Obama foram 1) “Yes we can” [Sim, nós podemos], 2)Change we can believe in” [Mudar, nós podemos!...], e 3) We are the ones we have been waiting for” [Nós somos aqueles pelos quais por tanto tempo esperávamos] [ênfase do autor --- adaptei].
O 1º slogan é uma frase sem sentido. Quem são “nós”? E o que podem fazer aquelas pessoas? Votar em Obama? Acho que [esse] “nós” poderíamos. Quase todos os cartazes de campanha de Obama que incluiram as palavras “Yes, we can” fizeram-no apenas com o rosto de Obama ao lado. “Sim, eu [Obama] posso” deve ter sido a intenção real. Mas usando “nós” antes ao “eu”, Obama se coloca longe do isolamento no deserto da desilusão de Russell --- o qual é atulhado de solipsistas que “existem sozinhos”.
O 2º slogan, "Change we can believe in," --- “Mudar, nós podemos!...” --- é culpado de múltiplos crimes linguísticos. Notar que nem “mudança”, nem “crer” [believe] são palavras-sucesso. Mudanças podem ser boas ou más, e crenças podem ou não ser verdadeiras. Somente o crédulo [estulto] confiaria na lógica por trás de “Mudar, nós podemos!...”. Lançando o pronome “nós” identifica a audiência intencionada do slogan, pelo menos, como crédulos [bobocas].
Mas meu slogan favorito é o : “Nós somos aqueles pelos quais esperávamos”. Este slogan sofre de todas as falhas do 1º slogan... e então, uma a mais. Se a frase é literalmente verdadeira, então Obama deveria, provavelmente, ter que entregar seu cargo (digamos, nos fins de semana ou nas quartas-feiras) aleatoriamente a alguns outros “nós” ou a “um” [qualquer] que [nesse coletivo] tivéssemos esperado por.
Por certo, a frase não tem nada a ver com “nós”. Ela quer dizer “eu [Obama] sou o cara pelo qual vocês tem esperado”. [Mas, claro, dizendo desse modo tudo fica muito loucamente messiânico.]
Nós voltamos agora, fechando o círculo, ao narcisismo de René Descartes. E, então, ao fastio progressista pelo qual os críticos de Obama tem-no chamado de “o Messias”.
Notas do autor [i, ii...] e minhas [1, 2...]:
[i] O primeiro capítulo do Discurso do Método tem aproximadamente 2.600 palavras (quase o dobro deste artigo). Descartes se refere a si mesmo 150 vezes no primeiro capítulo. No capítulo seguinte ele se refere a si mesmo uma vez a cada 24 palavras. Assim, nos dois primeiros capítulos há cerca de 300 autorreferências em pouco mais de 6.000 palavras. (I.e., em uma de cada vinte palavras, Descartes menciona especificamente a si próprio.) Tenha em mente que o livro de Descartes não é uma autobiografia; isto é, como o título nos remete, a um discurso sobre o método.
[ii] Do ensaio de Stove, “Epistemology and the Ishmael Effect”. Eu usei alguns poucos exemplos filosóficos de Stove neste artigo --- mas dando a eles um viés político. O melhor livro sobre o declínio da razão na filosofia pós-moderna e sobre o desconstrucionismo em educação e em questões políticas está no Hermeneutics as Politics (Oxford University Press, 1987) de Stanley Rosen.
[iii] De “The Jazz Age in the Philosophy of Science”, de Stove.
[iv] Esta citação é do segundo Prefácio [Vorrede] (atualizado e corrigido) do trabalho mais influente de Kant, Kritik der reinen Vernunft. G.W.F. Hegel (o avô do narcismo) foi ainda mais longe que Kant. Hegel reivindicou no seu Einleitung à sua Logik, que o conteúdo de sua logik “é a exposição de Deus como Ele é em sua essência eterna antes da criação da natureza e da mente finita”. Assim, Hegel sabe o que Deus sabia antes de Deus criar Hegel. Esta é a condição realmente de um filósofo muito inteligente (tão inteligente quanto Deus, de fato), ou alguém que chegou a transcender mesmo o narcisismo, e/ou alguém mentalmente perturbado.
[v] “Abolir” é uma palavra-sucesso. Ela entende “Pôr formalmente fim ao sistema”. “Conhecimento” é uma palavra-sucesso: “fatos, informação e habilidades adquiridos por uma pessoa através da experiência ou da educação”. “Conhecimento” não pode ser “abolido” sem uma alteração radical de ambas as palavras --- mas é o que pode fazer e fez um filósofo arguto e famoso (como Kant) obscurecendo o sentido destas duas palavras.
[vi] “Abandonar” é uma palavra-sucesso porque ela significa “desistir completamente (de um curso de ação, de uma prática, ou de um modo de pensamento)”. “Salvo” é também uma palavra-sucesso: “mantenha a salvo ou 'de volta' (alguém ou alguma coisa) de [exposição a] dano ou perigo”.
[vii] Bertrand Russel, O Problema da Filosofia. Oxford University Press, 1951.
[1] Não é à-toa que Obama é filho do mesmo meio de Saul Alinsky, que escreve em Rules for Radicals (1971): “Para começar, [o militante, piqueteiro, organizador de movimentos de massa] não tem uma verdade fixa [para seguir] --- a verdade para ele é relativa e mutante; tudo para ele é relativo. Ele é um relativista político. Ele aceita a sentença de Justice Learned Hand, que “a marca de um homem livre é uma sempre ativa incerteza interna [que se pergunta] se ele está certo ou não” (“The Purpose”).
[2] Acostumar-se ouvir expressões ambíguas ou contraditórias é um modo de entorpecer a audiência justamente quando se esperaria que uma solução racional estivesse sendo apresentada. Sub-repticiamente não é isso que acontece, mas o enxerto, desde a linguagem, de aspectos benignos em propostas de ação que vão no sentido oposto ao que o bom senso reconhece mais que rápido como o certo. Isto é, distorce-se a linguagem para fazer a vontade predominar sobre as razões as quais um governante deve ao seu povo antes da ação.
[3] “Liberal”, indica nos Estados Unidos a esquerda reformista, enquanto não pode ser simplesmente socialista.
Larrey Anderson é escritor, filósofo e editor da American Thinker. Ele é autor de The Order of the Beloved, e das memórias Underground. Seu próximo livro, The Idea of the Family, examinará o papel da procriação para a autoconsciência humana.
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Original do American Thinker: Larry Anderson, “The Quietus of Reason” (Set 26, 2010)

outubro 21, 2010

Surdos para o silêncio

Nenhum lugar é seguro para escapar ao império do Niilismo; em todo lugar perdem-se os homens perseguindo febrilmente o “progresso” --- por que razão, eles não sabem exatamente, ou apenas por algum sentimento confuso. No mundo livre é um horror vacui que impele aos homens à atividade febril que promete o esquecimento do vazio espiritual que há em tudo que é mundano; no mundo Comunista muito é apenas ódio puro e simples contra inimigos reais e imaginários, mas sobretudo é contra Deus que sua Revolução ousou se voltar, ódio que é a fonte da inspiração de refazer o mundo em oposição a Deus. De qualquer modo, o mundo que resulta daí é um mundo frio e desumano que homens afastados de Deus modelaram [à sua própria imagem e semelhança], um mundo onde havia por tudo organização e eficiência, mas nenhum amor ou reverência.” --- Seraphin Rose. Nihilism – The Root Of The Revolution Of The Modern Age, IV: “The Nihilist program”.

(Horror vacui, 1)
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O que o silêncio tem a ver com o materialismo? Sartre disse essa frase curiosa, “O silêncio é reacionário”. Talvez ao referir-se à presença do ser que nos cerca de coisas, lá não muito preocupadas com o que pensamos delas. Então o silêncio pode ser visto como um acto lacônico de simples e inegável presença. Algumas pessoas sentem isso como se fosse uma terrível humilhação. Que algo exista indiferente a elas deu na nuança do existencialismo pós-moderno, que por vingança atomizou a vida a instantes vividos numa busca pela máxima intensidade com um mínimo de sentido. Mal puderam se conter ver nisso a grande corrida sem sentido pelo sentido da vida: nega-se o que há para criar a demanda pela sua busca a nada encontrar. Busca que não passa de fuga angustiada.
O mundo moderno tira sentido da ausência de sentido e dá isto por um supremíssimo nirvana. Para aumentar a sábia iluminação da fuga é necessário levar a ausência de sentido para tudo e onde quer que se possa. É o fundamento das liberalidades modernas e da moral impessoal do laicismo. E é desde aí que se chega, pelos expediente dos “direitos humanos”, a se invocar o direito individual sobre a vida de terceiro.
A vida do nascituro --- é o natural --- é da posse dos pais; a das crianças, por natureza e direito. Mas, se atribuir a guarda das crianças é natural, desde que estas possam ser afastadas dos pais naturais, isto diz respeito à tutela da criança e não à posse pelos pais de sua vida. Curiosamente, a noção mais liberal do aborto vê o útero em analogia a uma bolsa, dentro da qual pode-se encontrar tanto o CPF da mãe quanto um bebê. Na escala de valores de cidadania, todos sabem que estas coisas são invioláveis, assim como os nossos históricos bancários. Ninguém pode, violando direito de terceiro, interromper a vida intrauterina, do mesmo modo que não se pode surrupiar e malversar de posse do CPF alheio. O caso é que o nascituro não tem CPF, assim não pode ter, portanto, nada legitimamente seu, nem o direito perante a mãe que não seja o seu desejo de tê-lo.
Sem o CPF o nascituro não pode ter nem mesmo a sua vida como legitimamente sua; inverte-se, assim --- ouso dizê-lo --- a ordem natural das coisas: que é da natureza dos atos legais referir-se à vida e não criá-la (mesmo apenas formal e legalmente). O CPF passa assim a dar ao ser humano a sua “humanidade” inviolável.
Dentro do útero o direito à vida do nascituro é “garantido” desde que haja segurança jurídica para que assim seja. Assim, o direitos da vida do nascituro nas mãos dos pais é garantido pelo estado. O estado de direitos “invioláveis”, criado pela demanda dos “direitos humanos” (!), cria o poder administrativo conferido ao estado sobre a vida humana.
Como o nascituro não grita, é assumido para ele um tipo de sincretismo laico quanto à sua fé pessoal e indizível em si mesmo. “Existo eu?” Não, o nascituro ainda não faz essa pergunta. Como Jesus, o nascituro não deixou nada escrito de próprio punho que o provasse.
Penso, logo existo é a autojustificação que funda o laicismo na origem com René Descartes, posto o cogito como antecedente ao próprio ser. O nascituro não pensa, logo... nem pode ser polido e elegante! Assim, respeita tolerante (i.e., calado) o que quer que decidamos sobre a sua vida. Mas o silêncio é reacionário, como disse Jean-Paul Sartre. Para calar o silêncio do nascituro, esse silêncio reacionário de quem iria nascer fora das prescrições legais, o estado decide não decidir pela vida, aceitando a existência pela “existência” da personalidade jurídica. É o mundo em si de Immanuel Kant, ele cujo contorno do desconhecido é postulado por decretos legais que dá face à vida do nascituro. Não decidindo pela vida, kantianamente, admite-se que não poder saber --- o que não poderia não saber --- dá em não-ser: o nascituro torna-se uma função da personalidade jurídica, isto é, a esfera jurídica abrange a realidade da vida como um mero fenômeno de superfície na agitação da matéria inanimada.
Para esvaziar o silêncio da presença institui-se a tagarelice dos leguleios puritanos de cidadania. O número da carteira de identidade é a nossa “personalidade”, e em pouco tempo num número único, conferindo-nos uma unidade simbólica indissolúvel com o corpo social. Sociedades com unidade ideal e conduta disciplinada precisam controlar os indivíduos de algum modo. Se o nazismo quis controlar pela segregação industrial, o comunismo fez o mesmo pela massificação de uma maioria. São semelhantes, mas moveram-se para lados opostos: o nazismo segregou para criar a unidade da raça; o comunismo massificou por princípio, expurgando os dissidentes.
Há uma grande diferença entre um número tatuado no braço dos campos de concentração e o número único de um documento de identidade universal --- mas não são assim tão diferentes.

outubro 11, 2010

Chã assacação


"Os insultos de Madureira" Zero Hora, 8 de Outubro de 201; p. 2.
Boa parte da desconversa tática nesse período eleitoral foge do mérito denunciando o “nível” do debate político[1]. Formas mais discretas do mesmo apelam para a “polêmica” com bem distribuídas razão e verdade que cabem igualmente --- por uma questão radical de “justiça” --- aos dois lados em cizânia. Aceita a equivalência, as coisas podem passar tangenciando superficialmente sem nunca ir muito além das meras palavras, ao desmentido que começa com fases de um tom crítico, passando a igualar coisas desiguais e arrematar apontando algum “preconceito”.
Da linhagem dos colunistas diabólicos, um ramo dos Illuminati, David Coimbra é frequente de desmistificações obscurantistas (por eufemismo) não dessemelhante do mestre dos mestres na área, L.F. Veríssimo. No mesmo tom laudatório discreto de Veríssimo, ignorando sempre qualquer discussão de mérito, diferente apenas no fingimento de crítica que Veríssimo não se permite, David escreve “Os insultos do Madureira”.
Reagindo ao Casseta & Planeta Marcelo Madureira ter dito sem a polidez civilizada e ignorando os códigos de ética mais brandos da mídia, que Lula fora atraído para a política como um vagabundo e picareta, que é --- na verdade, pouco mais baixo que isso ---, David evade-se e leva consigo o assunto para qualquer coisa mais plana: o mero palavreado.
Ora, Lula ter prejudicado gerações para o debate político não poderia vir da corrupção apenas. Não se estraga uma geração apenas com a corrupção, que cessa tão rápido quando as oportunidades têm, por natureza, de seu exíguo tempo próprio. Exceção aos escaninhos burocráticos, que historicamente na medida direta que crescem produzem ineficiência e com ela os interstícios por onde os grilos infestam.
Nada comparado à sua política da desconversação hipnótica, com a qual Lula “soube” fazer chegar sua popularidade a próximo de 80%. Sem dúvida, reforçado seu poder com a exposição da presidência, chegamos ao apatetante abuso do fingimento de respeitabilidade, da oratória diversificatória e da pieguice histriônica do homem sem valor. A oratória hipnótica --- loucura, porém não sem método --- de Lula é que responde por esta devastação apontada por Madureira, pela qual o debate político brasileiro chegou ao delírio virulento.
A desconversa, e jamais os méritos, precisa vir então para arrumar as coisas a termos mais “polidos”. Este texto, de David Coimbra, não é um dos piores, mas é um dos mais bobos. Dizer “Lula desperta paixões” é só para desconversar para longe os méritos. Foi sistemático por parte da imprensa --- e eu só acredito em inépcia, não em má fé (apesar de incrível) --- jamais tocar nos méritos de qualquer assunto.
O “Lula não é um radical...” de nenhum lado, acompanha a frase tíbia dita na entrevista na RBS com os candidatos no primeiro turno: “Olha, gente; independentemente de quem ganhar, estamos diante de duas grandes pessoas [cheias de boas intenções], ambos extremamente capazes...” --- David diz isso com uma radical benevolência com cara de música de elevador. Mas o caso é que o Foro de São Paulo o desmente, se David não desconhecesse tudo isto. Desconhece? O blog de David está cheio de leitores horrorizados com ele sobre o que ele omite e sobre o viés amnésico de suas análises. David, como “Fred” Krugman e L.F. Veríssimo, comporta-se, no mesmo diapasão, ignorando as críticas. Mas a grande exposição que vem com os blogs das maiores empresas de comunicação é inversamente proporcional à atenção dedicada a esta grande audiência. É o efeito do estulto vaidoso (quando é só isto) com o autofalante na mão num lugar inacessível.
David segue o mesmo modo de produção de consenso de L.F. Veríssimo, ignorando tudo que não seja as meras palavras laudatórias a Lula e à sua origem, a despeito da política real, além de alguns truques bobos. O recurso à crítica é apenas o recuo diversificatório de fingimento de análise, também muito usado por Krugman e Veríssimo.
Depois desse “Lula desperta paixões” compara o decápodo a Itamar e a FHC, “isentando-se”[2] de notar as ligações com o mensalão, inigualáveis mesmo a Collor, ou que seus assessores diretos foram pegos nos computadores das FARC, procedendo para isso conforme a sessão de desmentidos radicais de tudo segundo a fórmula manda apurar, diz que não é bem assim e, por fim, nega veementemente que possa ter havido qualquer coisa semelhante da forma mais abjeta. Um dos traços mais fortes em Lula de que o que diz Madureira é exato. O que faz com que qualquer comparação com Itamar ou FHC seja apenas para manter uma proximidade equivalente e fazer de seus méritos difusos, mencionados alhures, e emanados de sua mãe analfabeta e da própria demanda criada por essa comparação.
David diz que Lula perdeu a oportunidade das reformas, na educação, no serviço público, a reforma política, a reforma do sistema tributária, etc. --- ora, não perdeu nada disso. Perderia tivesse a meta de fazê-las. Simplesmente as reformas que o PT pensa para o país são o oposto completo do que essa necessidade quer dizer para a maioria de especialistas que as reivindicam. E isto é evidente desde os planos e programas pelos quais o PT propôs a fina flor de suas metas. Assumir que o PT esposará o que quer que seja no sentido consagrado das palavras é a melhor proteção para um partido revolucionário que jamais abandonou a linha de ação para lá de maquiavélica de Lênin atualizado por Antônio Gramsci.
O rudimento de fingimento crítico é uma moldura para “o cara”. Levando em conta que “bolsas” tantas não são exatamente um mérito pessoal do homem, nem exatamente uma benesse do partido, talvez se tenha que aumentar o poder da lupa, bem como o seu efeito ótico para encontrar os méritos do presidente 80% de aprovação no país de 75% de analfabetos funcionais (por baixo). Nada fez, mas se o iguala por méritos (?), que convém aceitá-los para não ser arrolado entre aqueles que, possuídos por paixões, ousam não ver valor onde valor não há. Ou, maliciosos, ignoram seus great looks, por certo --- pelo que mais ver méritos?
Lula “poderia” é o mantra crítico (fingido) que David inflige impiedoso a Lula, para não deixar por menos as suas falhas, pois que não há quem não as cometa, e sendo Lula como todos --- vejam só ---, imperfeito, é de bom tom apontá-las, e seus motivos; para não “se arriscar” (?), diz David, e, quem sabe, a perder aquilo que não perdeu quando qualquer risco já se havia dissolvido numa violenta maresia de escândalos, sem, no entanto, que o homem fosse jamais exigido pelas responsabilidades do cargo. David deixou de fora todo o assédio à constituição do PNDH-3, bem como uma orientação política que mostrou a máxima proximidade com os piores fantasmas do século XX antes da guerra e dos fornos.
Só que o fato de ele ter perdido essa oportunidade não é o suficiente para despertar as paixões violentas que desperta” --- correto, David! Omita-se o pior e todo o demais não justifica o que já sejam apenas meias verdades.
Lula tem aquela “autenticidade que bordeja a vulgaridade” (!). De novo, outra vez, estas coisas que há quem não se canse de reproduzir: “Se eu errei, infelizmente eu sou assim, eu sou espontâneo”, disse certa vez um participante do Big Brother ao ser confrontado com uma pequena canalhice que fez passar por franqueza. Qual o limite formal entre uma coisa e outra, entre a vulgaridade e a autenticidade? Talvez a falta de caráter seja a resposta. Explicaria muita coisa sobre Lula.
David deve tirar essa comparação esperando encontrar entre a autenticidade e a vulgaridade alguma margem comum, talvez a estupidez que adere a coisas sem valor e tira daí per absurdum algum valor. Os loucos e os idiotas são como as crianças, os canalhas e os libertinos têm aquela indolência fascinante e sedutora, enquanto os criminosos e os tarados são forças livres indomáveis de purgação da sociedade, que é o que se tem da cultura vaidosa que o século 20 produziu, consagrado por palvras-sucesso para ser adotado pelos mais frágeis, por suicidas, medíocres, depressivos, angustiados, as vidas dos quais ganharam sentido numa cultura que celebra, quando não a inversão do bem e do mal, pelo menos os rituais de nonsense.
Como para brasileiro o fundo do poço é qualquer coisa --- lower than the grave --- um pouco aquém do fundo, David volta a cair na patacoada reicidente. O poder precisa de “parâmetros”, então inventou-se a “nobreza”, aquilo que alguns tem como elemento cultural arbitrário para demandar o poder. Explica a “nobreza” desde o sentido vulgar da burguesia ociosa e fútil. O povo, por alguma convenção boboca, passa a acreditar, por necessidade de acreditar, num símbolo esquecido de hierarquia social oficialesco.
Segundo a visão de David, a hierarquia social é um resíduo cultural do exercício arbitrário do poder. O mesmo já foi esposado pelo socialismo sempre que este alcançou alguma oportunidade de sair da planta bem baixa para a realidade, quando então sempre se transformou em outra coisa. Não por acaso, seus maiores méritos existirem tão somente nos “pensamentos elevados” dos espíritos mais simplórios. Com Veríssimo, David vê com visão clara e distinta que a esquerda tem os valores superiores aos da “direita” (i.e., qualquer oposição), por coisas como uma “ideia [mais] generosa de mundo” ou por aquela “nobre ideia de comunidade” que Veríssimo vê a coisa mais supinamente superior (!), nas intenções. Mesmo que nunca dê certo, esclarece David: Podem não funcionar, podem ser inexequíveis, mas são pensamentos elevados...”. E está justificado tentá-la ad aliis nauseam.
O mapa de Duloc é a forma mentis também de David Coimbra, de onde a hierarquia social emana desde a planta baixa do socialismo para um mundo melhor inexequível, uma idea cuja “nobreza” mais real (que o rei) substitui a representação antiga por um melhor elevado às nuvens e projetada no futuro, sempre um passo além de qualquer tempo.
Para alguns”, é o que diz David, irrita ver um homem sem valor no poder, mas a quem não irritaria? Um homem alto branco loiro não despertaria a mesma indignação pela picaretagem? Mas o que a história mostra é que o homem branco jovem alto foi punido por escambo de bijuterias no jogo político, enquanto Lula é protegido do mais grave pela sua origem necessitada (...que persiste). Em Lula a necessidade tornou-se mérito, deu valor ao homem sem valor, e esse valor foi reconhecido e se tornou um salvo-conduto para todos os testes, da falta de caráter à torpeza, da puerilidade simplória à autopiedade, da corrupção às mais medonhas relações que a oportunidade pôde lhe oferecer.
Por que David Coimbra imagina que a presença de Zeca Tatú substituindo Ruy Barbosa não deveria produzir repulsa, só o explica uma repulsa ainda maior nascida do ultraje fingido pela “discriminação” [3] abjeta para com o pobre retirante e sua pureza ingênua e “espontânea”, daquela classe de qualidades invertidas que se torna, pela torpeza --- e depois de passada por uma bizarra alquimia ---, em algum valor. Não, para qualquer um é insuportável ver o poder nas mãos de um inepto, que justamente o poder sem parâmetros criou para justificar líderes como Lula.


Notas
1. “Chã assacação” é uma forma mais rebuscada de dizer “baixarias”, “factóides”, “expedientes sem provas”, com os quais se quer fazer desmentir as evidências de todas as ilegalidades do PT desde a negação tática ao modo da loucura com método de Lula: ordena a apuração de tudo, passa a dizer que não é bem assim, mas que todos devem pagar pelo que fazem, e termina negando de todo que tenha havido qualquer coisa como se denuncia. A última fase é acusar os opositores de campanhas de difamação. Um extra se tem pela tentativa de Frankling Martins, Ministro da Verdade do governo Lula-Dilma, desde o PNDH-3, para complicar a liberdade de imprensa a níveis “aceitáveis” de liberdade.
2. A “isenção” é um dos valores mais caros ao jornalismo atual, que julga pela palavra ter que relativizar o bem e o mal por este expediente, para manter-se num ponto privilegiado à crítica: o seu próprio, qualquer que seja.
3. “Discriminação” se refere ao “preconceito”, que nesse jargão de “ideias nobres” pretende desfazer qualquer distinção entre a realidade e as imagens que vemos nas nuvens.


outubro 07, 2010

Lord Paul Farquaad


A mentalidade revolucionária não é só inversão do tempo: é inversão das relações lógicas de sujeito e objeto, dos nexos de causa e efeito, da relação entre criminoso e vítima, etc. [...] Elas [as inversões] são a essência do movimento revolucionário, mas essa essência pode se manifestar sob uma impressionante variedade de formas. É por isso que o movimento revolucionário não pode ser definido nem pelo conteúdo concreto dos seus objetivos declarados a cada momento, nem pelo discurso ideológico com que os legitima.
"Ser conservador é não ser jamais o portador de um futuro radiante" (2008). Bruno Garschagen entrevista Olavo de Carvalho. In: www.olavodecarvalho.org
A melhor maneira de destruir o sistema capitalista é depravar a moeda”.
Agouros do modus operandi de Vladimir Lênin.
A liberdade de grupo é o 'automatismo' ou racionalidade que é oposição ao arbítrio individualista”.
S. A. de Avellar Coutinho, explicando o conceito de liberdade para Gramsci. In: A revolução gramscista no Ocidente, I.




Um looongo comentário sobre o pedido de prova de existência de um fundamento da ortodoxia econômica e o ardil de esclarecer a denúncia de obscuridade tendo obscurum per obscurius o obscurantismo como método, para ocultar o mundo perfeito que jamais existirá e desde ele fazer a crítica do que há. A economia planificada como apelo à racionalidade que a racionalidade não dá razão. Um estudo de caso, entre tantos possíveis, que serve para casos semelhantes.
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Fred Krugman: O interpretador de pesadelos
Desmistificadores são quase sempre eles próprios místicos disfarçados. Sócrates deu pouca atenção ao problema, mas foi claro sobre isto no Fedro. O “místico” é geralmente alguém que busca ou que “encontrou” a linguagem mais verdadeira, o código dos códigos, e por essa iluminação --- geralmente pessoal --- trata de, nem sempre da forma mais clara, esclarecer o (que então é o) misticismo alheio.
O título do artigo de Paul Krugman traduzido pela Zero Hora de 4 de julho é uma destas desmistificações obscurantistas: “Mitos de austeridade”. Quero apenas fazer notar alguns pontos que não tem quase nada a ver com economia. O título já começa aludindo que no geral a austeridade é uma coisa imaginária, enquanto estímulos artificiais de tiro curto ligam-se por efeitos patentes (e imediatos) à economia real.
Quando era jovem e ingênuo achava que pessoas importantes tomavam posições baseadas na avaliação cuidadosa das opções. Agora, sei melhor. Muito do que as pessoas sérias acreditam repousa em preconceitos, não em análises. E esses preconceitos são sujeitos a manias e modismos.
[...] Nos últimos meses, eu e outras pessoas temos assistido, com deslumbramento e horror, ao emergir de um consenso nos círculos políticos a favor da imediata austeridade fiscal. De alguma maneira, tornou-se sabedoria convencional que agora é a hora de cortar os gastos, apesar de as maiores economias do mundo permanecerem profundamente em depressão.
É óbvio que o incentivo ao desenvolvimento e à recuperação não pode ser feito pelo corte de gastos, pelas tais medidas de austeridade, mas por outras medidas, e que os cortes de gastos são uma medida necessária de austeridade. Mas parece que Krugmam toma estas medidas mais próximas de algoritmos matemáticos que de princípios éticos (não por acaso) ligados de um modo “inesperado” à realidade.
Medidas de ação imediatas, para aquecer ou estimular uma economia, não são medidas de austeridade, por definição. Krugman parece que sabe disso quando diz que a austeridade não resolverá o problema, pelo contrário, do que há exemplos atuais, pode até piorar a situação imediata. As medidas para resolver os problemas atuais tais como desemprego e crédito devem ser de outra natureza, para agir não na qualidade da economia, mas na dinâmica desta. Muito menos na sua estrutura de base.
Tomar a política imediatista de estímulos por medidas de base acaba por projetar no futuro um acerto de contas sempre preterido. Para resolvê-lo, então, entram em cena os ajustes que o estado agora tem por demanda justificada. Esse caminho é o de um estado atravancado que só pode ser movido desde o capitalismo de estado, que hoje se infama pelo fracasso contemporâneo dos regimes comunistas existentes, isto é, de crescimento sem liberdade.
E a fórmula aqui é inversamente proporcional: para o capitalismo de estado dar certo, tanto menor a liberdade, maior a chance de sucesso econômico. O sonho de progresso igualitário (i.e., socialista) dá, no paroxismo do desenvolvimentismo, no pesadelo da aniquilação do indivíduo.
O prêmio Nobel é um prêmio técnico; se você sabe repartir átomos de um modo diferente, você poder ganhá-lo; mesmo que você babe sobre os sapatos enquanto os amarra pela manhã.
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Você não é tão racional quanto a economia planificada!
A sabedoria convencional não é baseada em evidências ou em análise cautelosa. Repousa no que podemos chamar, caridosamente, de absoluta especulação, e, menos caridosamente, de fábulas da imaginação da elite política – especificamente, na crença em coisas que chamo de o vigilante invisível dos títulos [the invisible bond vigilant] e a fada da confiança.
As fábulas da imaginação, a fada da confiança e a absoluta especulação parecem se referir ao que Krugman chama de “sabedoria convencional”. Ora, o termo não pode estar querendo encontrar alguma correlação com o common sense tradicional. Por que usar o termo “sabedoria” [wisdom] e uni-lo a termo “convencional” se quer dizer justamente o oposto? O que há coberto pelo termo “especulação”? --- Superstição? Irritação e mau-humor? Um dia de sol ou de chuva? Feeling? Princípios? Valores? “Preconceitos”?
O que deveria ser uma economia feita sob a “análise cautelosa”? Digamos, cálculos matemáticos, decisões racionais de prudência? A “sabedoria convencional” está oposta à análise cautelosa porque esta tomaria as decisões corretas segundo cálculos e evidências, enquanto aquela age por impulso irracional. O irracional, hoje, sendo o receio de que talvez os gastos tenham ido longe demais. Então é possível equacionar as variáveis acidentais? Ou, quem sabe, controlar pelo menos os arroubos de irracionalismo dos investidores. Quem cria o critério do risco admissível? Quem diz o que é racionalidade “correta” para o mercado? Onde está fundado esse critério de racionalidade da evidência sobre o imponderável evidente que a sabedoria convencional não pega?
Termos como “vigilante invisível dos títulos”, “fada da confiança” e “absoluta especulação” não são exatamente termos técnicos adequados para descrever a ação das pessoas na economia. Tudo lá um tanto esotérico, para um economista vencedor do Nobel. Mas o caso é que os termos que Krugman utiliza para descrever o comportamento de economistas conservadores e investidores parecem ter apenas a função de definir jocosamente os objetos de sua crítica e desde o que ficou aparente levar à conclusão que o efeito cômico sugere.
Será, realmente, que uma economia ligada apenas a algoritmos e decisões mecânicas de outro tipo de austeridade, a “austeridade” analítica e da percepção clara e distinta das evidências (matemáticas do algoritmo), são coisas mais reais que os valores de quem investe?
Economia real” é outro termo bastante austero, para dizer, no contexto que Krugman o utiliza, causar efeito imediato com medidas fogo de palha. Mas Krugman não esclarece esse ponto. E de que tipo é a austeridade imposta à Grécia e como ela se relaciona com os estímulos feitos, por exemplo, nos Estados Unidos e em outros lugares? Quando Nicolas Véron, economista do Centro Bruegel, de Bruxelas, advertiu para o risco de naufrágio das negociações do G-20, no Canadá, recentemente, disse: “É cedo para chamar de fracasso a agenda financeira do G-20... Mas há um inescapável senso de que uma harmonização financeira global é incompatível com a realidade”.
Incompatível com a realidade de estados soberanos, é claro. O termo “harmonização financeira global” tem o que a ver com a continuidade dos estímulos? Sob que condições essa harmonização seria possível? Quem sabe, sobre uma economia planificada?
Dependendo a que tipo de regulamentação que se quer chegar, uma coisa assim pode ser --- segundo a demanda aparente por estímulo --- a solução mais fácil para responder aos problemas de modo imediato e criar as condições de economia planificada para que o mercado, enfim, possa funcionar maquinalmente apenas por meios racionais de cálculo e análise.
Não raramente, para se tomar decisões nas finanças, é preciso saber previamente o que quase nunca é possível de todo. Na economia planificada, no entanto, eis o sonho de que se possa fazer com máxima racionalidade, conforme a clareza matemática invariável. Só mesmo a anulação da ação política real pode controlar a economia sem erros. As explicações mais óbvias, aqui, podem acabar servindo para outros fins, ainda não de todo claros e distintos, aos quais Krugman não se dedica.
Para respeitar algoritmos de racionalidade perfeita e evitar os vícios sem razão impostos sobre a economia real, e para expulsar os seres de contos de fadas de em meio à austeridade administrativa, nada é mais racional que uma economia planificada. Não há nenhuma dúvida, Lord Farquaad... digo, Mr. Krugman.
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O mundo malicioso dos silogismos de contos de fadas
Invocando a racionalidade e, corretamente, alguma evidência, para a tomada de decisões, pergunta ele: “Que razão temos para acreditar que é verdade...” a demanda atual por austeridade? Krugman insiste que não há demanda pela austeridade, e diz que medidas de austeridade de curto prazo não são a resposta. O ponto de vista de Krugman é oblíquo, porque toma medidas de recuperação de longo prazo como se fossem solução a curo prazo.
[Cortes de gastos...] Por quê? “Políticas que inspirem confiança irão promover e não travar a recuperação econômica”. Qual é a evidência para a crença de que a contração fiscal é na verdade expansionária, por melhorar a confiança? (Essa é a doutrina defendida por Herbert Hoover em 1932.)
Ao contrário, a evidência e a análise cautelosa, de que fala Krugman, começam pelo exemplo concreto de medidas de austeridade --- e aqui real se confunde com liberalismo econômico, já que o liberalismo só pode existir em contato com a realidade, que de outro modo vira uma síntese (em algum grau) do capitalismo de estado tão amado por managers, burocratas, grandes empresas e corporações que não querem perder nunca, etc., atores de um mundo cênico de movimentos rigidamente predeterminados.
O capitalismo de estado é um dos grandes alvos que a esquerda denuncia, mas que só existe como revisão das tentativas de coletivização feitas no século 20 no leste europeu, sempre fracassadas sob regimes tirânicos. Agora o capitalismo de estado “que deu certo” segundo L.F. Veríssimo, na China, se é condenável o é por ter se tornado capitalista e não por manter a estrutura repressiva violenta do comunismo. É indubitável que muitos seres de contos de fadas habitam a cabeça destes críticos inverossímeis.
As medidas de austeridade não são tão apenas medidas financeiras, são econômicas. A libertinagem da “austeridade” dos mais nobres fins quis que estes fossem fundamento servido por meios de cálculo. A questão não está entre estímulo e austeridade, mas entre fundamentos e medias de incentivo econômico artificiais, das quais o Brasil é a prova do oposto do que defende Krugman.
A urgência das medidas de austeridade são a reação psicológica de uma política atual racionalmente enbanjadora. Mesmo sendo “psicológica”, essa reação é reflexo de uma impressão concreta de que a alquimia na economia, para além do que os termos técnicos podem dar evidência, está ameaçando “harmonizações” postiças.
Os investidores, justamente porque são “irracionais”, não seguem às cegas o que os economistas da mais pura racionalidade dizem? Para Krugman, trata-se apenas de alarmismo contra as medidas pouco ortodoxas atuais.
No que apostam os investidores? Ou, com que dados jogam? Apostar é arriscar sobre o imprevisto, mas a especulação é geralmente ligada não ao jogo arriscado, mas a informação privilegiada. O que faz Krugman pensar que a especulação e os preconceitos sejam a mesma coisa? Os investidores parecem preferir os Estados Unidos pela estrutura real da economia, mesmo debaixo de crise, que subjaz às variações dos formulismos.
Krugman desencaminha o leitor a respeito do problema para contestá-lo: “Qual é a evidência para a crença de que a contração fiscal é na verdade expansionária”, pergunta ele. A afirmação é capciosa. Ele transforma a questão num silogismo simplório (uma falácia): se há crise, a solução é a não-crise; a não-crise é a economia aquecida; logo, aquece-se a economia. Quem disse que a contração fiscal é expancionária? Você disse! Fica assim mais fácil então dizer que não há evidência, concluindo irracionalidade.
Outra frase desmistificada por Krugman é: “Não se preocupe: cortar gastos pode machucar, mas a fada da confiança afastará toda a dor”. A confiança não virá, do contrário, com o estímulo; além do mais, passa despercebido (...) também a Krugman que os especuladores possam ser beneficiados justamente com medidas-tampão quando deveriam perder. A “confiança” que Krugman se refere perde o sentido de “boa fé” para se tornar “garantia” barata.
Resumir a austeridade por efeitos imediatos é um abuso; não para Krugman. Mas isso talvez nada tenha a ver com economia, mas antes com a agenda política liberal.
Economicamente, agendas políticas de esquerda costumam ser antitéticas a uma boa economia --- o que, de fato, jamais aconteceu ---, mas, como ocorre com L.F. Veríssimo e a “nobre ideia de comunidade”, a fraseologia liberal-esquerdista não foge muito do que sempre se tratou: utopias, princípios simplórios de bem-estar social e um impulso impetuoso por controlar tudo que possam.
E quando os meios de controle estiverem plenamente a disposição --- é do que se trata a tal racionalidade ---, a isto Krugman chama “realidade”.
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Exemplum in contrarium ao contrário: criptomundos possíveis
Diz Krugman:
Houve casos de cortes nos gastos e aumentos nos impostos seguidos de crescimento econômico. Mas, cada um desses exemplos mostra, em análise mais próxima [on closer examination], ser o caso em que os efeitos negativos da austeridade foram ofuscados por outros fatores, que provavelmente não seriam relevantes hoje. Por exemplo, a era irlandesa de austeridade com expansão nos anos 1980 dependeu de um movimento drástico de déficit para superávit comercial, uma estratégia que não pode ser seguida por todos ao mesmo tempo.
E exemplos atuais de austeridade não são encorajadores. A Irlanda foi um bom soldado nessa crise, adotando selvagens cortes nos gastos. Sua recompensa foi um mergulho do nível da Grande Depressão – e os mercados financeiros continuam a tratá-la como potencial caloteira. Outros bons soldados, como Letônia e Estônia, fizeram ainda pior. E todas as três nações tiveram, acredite ou não, piores quedas em rendimento e emprego do que a Islândia, que foi forçada pela escala de sua crise financeira a adotar políticas menos ortodoxas.
Como diz Darcy Carvalho do Santos, tudo em economia é sistêmico, nada acontece isoladamente. Muitas vezes o que parece ser de hoje é a colheita de frutos de políticas econômicas certas cultivadas desde bem antes “e que foram mantidas, com mérito”, no presente! Darcy deve estar se referindo ao Lula; mas é, no rigor, como dizer que há algum mérito moral nos muhahidin suicidas que acertaram em cheio as torres gêmeas por terem conseguido habilmente pilotar os boings até os alvos (!).
Implícito no que Krugman diz está que diferentes medidas contra a crise são boas ou ruins dependendo de circuntâncias iniciais --- isto é, da época e do lugar. As medidas de austeridade não têm, é o que se deveria concluir, efeitos benéficos necessários imediatos, mas até podem servir em alguns casos para combater a crise (o contraexemplo da Islândia). Mas a austeridade é, antes de tudo, ações de fundo, que não podem ser abandonadas de todo, nunca.
Se um movimento de déficit para superavit não pode ser feito por todos ao mesmo tempo, acha Krugman que políticas gerais de estímulo o possam? A “era irlandesa de austeridade com expansão nos anos 1980” dependeu de um movimento drástico de déficit para superávit comercial ou foi efeito possível pela austeridade? Estaria Krugman invertendo causa e efeito para seus fins?
Em seguida Krugman usa uma lupa opaca para dizer que os efeitos negativos da austeridade --- em outro casos, que ele dá como contraexemplos do que quer defender ---, foram “ofuscados” por “outros fatores”. Quem sabe fatores obscuros? Mas isto, ainda assim, também “provavelmente”, não seria o caso hoje. Os tais fatores desconhecidos poderiam explicar muito bem a irracionalidade apontada por Krugman no sistema financeiro, forças obscuras agindo por trás do cenário ainda não planificado. Assim, os supostos fatores deconhecidos teriam mascarado os danos da austeridade, que então tiveram a aparência de crescimento econômico.
Seriam estes fatores obscuros criados pelas inversões, simplificações e pelas falácias que Krugman utiliza para argumentar?
São infinitos os mundos possíveis da análise racional --- como são infinitos os demônios na cabeça de alfinites keynesianos --- quando se olha para eles por através da nuvem opacas de confusão simtomática da própria doença que cega.

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Uma acuidade de visão bem peculiar
Para apontar a presença de decisões irracionais no sistema financeiro, Krugman deve assumir que não há áreas obscuras no sistema. Se as decisões devem ter uma base de evidência e, só daí, uma racionalidade intrínseca, a clareza do que Krugman defende aparece porque ele toma o efeito direto do estímulo sobre a economia como evidência para as políticas de estímulo.
A racionalidade de Krugman é autóctone como uma função da mera vontade. Não há nada tão racional, de fato, quanto uma economia planificada, que cria, desde ela própria a racionalidade que se aplicará sobre a realidade econômica e dando por prova de sua eficiência os efeitos de um silogismo linear. Assim, paradoxalmente, o que é obscuro na economia é, ao mesmo tempo, o ponto de clareza e de certeza mais certa e mais clara de onde Krugman tira a racionalidade incontraditória da solução que defende.
Estes fatores obscuros, provavelmente, vistos “bem” de perto, onde o olho do senso comum vê imprevisibilidade ou (irracionais) valores (de ação), o liberal Krugman vê movido por aquela “luz especial...” puritana, “a qual...”, nas palavras de Richard Hooker, “permite discernir nas palavras aquilo que os outros, embora as leiam, não enxergam” [1].
E tendo visto, pode pregar ao leitor a desconfiança sobre todos os que pretendem usar uma linguagem não “racional” sobre as finanças. As medidas inortodoxas, as quais o mercado precisou adotar durante a crise, deram por efeitos de superfície na mística da Reforma do sistema financeiro com a qual alguns iluminados pretendem anular os erros no sistema.
Mas, de fato, os únicos fatos obscuros, como se vê pelos exemplos e pelas evidências de Krugman, parecem ser os sintomas liberais que danificam a capacidade cognitiva mesmo de galardoados com o Nobel.
Concluir pelo que se entende serem fatores obscuros em preconceitos, é dizer que vê a racionalidade trabalhando por trás do sistema, e mais real que a ortodoxia econômica, é arrogar-se uma acuidade de visão remota bem peculiar. É arrogar-se uma acuidade que de fato é herdeira de visionários heréticos --- não confundir com os verdadeiros místicos --- que fundaram, para além dos limites de vilas isoladas, o que pretendem que sejam os fundamentos de uma nova sociedade.
Sociedades assim, quando não limitadas por pequenos vilarejos, sonharam com mundos possíveis jamais existentes, e sempre que realizados assim feitos para fracassar redondamente todas as vezes, com não pouco sangue derramado. A evidência dessa acuidade é um ponto obscuro distante no futuro; é um futuro mais que evidente para esses dotados de uma acuidade de visão bem peculiar.
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Depravação racional da economia
Um sistema financeiro eivada de preconceitos, mas também de uma sempre desconversada ingerência estatal sobre a economia adota o estímulo como política, do qual o fundamento mais realista é o efeito imediato sobre a economia de hoje. Não surpreende ser uma linha de argumentação muito parecida com a de L.F. Veríssimo, supondo desmistificar mitologias, fala de ultra-abstrações, de irracionalidades, de contos de fadas como de anjos que bailam em cabeças de alfinetes. Sempre os mesmo loucos iluminados, sempre a mesma máxima: acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é.
Krugman defende o que Paulo Guedes chama “a Grande Pedalada”, a idéia de que medidas de incentivo de longo prazo podem ser administradas sem problemas, mas não diz onde está a base de segurança para que isso dê certo no tempo que caberia tentá-la.
Medidas de austeridade são medidas de longo prazo, são medidas de fundo; medidas ortodoxas, são, por natureza, medidas de longo prazo. Só porque um país adota medidas de austeridade, isso não resulta na melhora da situação econômica, mas em uma mais provável piora imediata, além de em nada recuperar a fé de investidores e afastar o medo do calote, pois justamente porque as medidas de austeridade assumem condições difíceis numa época de vacas magras.
Lênin, com a lógica de ação que lhe é peculiar, entendeu que uma forma de sabotar o sistema capitalista era estimular as falhas do sistema para em seguida acusá-lo disso. Isto, se não fosse possível, simplesmente, tomá-lo.
A confiança que resulta do que Krugman defende, que é gerada e imediata é, no caso, a dos especuladores, que sabem que não irão perder no curto prazo. As medidas de austeridade são, de fato, o reconhecimento de perdas, o reconhecimento da realidade sem os recursos mágicos da sua versão Beta.
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Onde está a evidência do oceano?
Ao se adotar a austeridade sem que haja sinais de sua necessidade, segundo Krugman, “assume-se que os mercados são irracionais”. O que temos daí, então, é um chamado a que se mostre as evidências de um fundamento. Não poderia dar em outra coisa. Ao inverter o senso do real pelo senso do “racional”, o fundamento que naquele é a evidência, neste outro deve ser forjado às cinzeladas. O fundamento do racional é uma premissa oculta, é um obscuro no experimentalismo que dá num sistema financeiro sem falhas e sem apostas. E sem política.
E a premissa é oculta porque está (já) no futuro --- um futuro cuja evidência é ser mais racional que o atual; um futuro, por assim dizer, avant la lettre.
Concluir, como ele faz, de exemplos atuais que em outras circunstâncias e noutro tempo fatores obscuros agiram sobre a economia do dia, para causar efeitos positivos distintos dos de agora, é tomar a inortodoxia do estímulo por fundamento e desde o seu efeito imediato sobre a economia concluir que a austeridade é uma aberração que só dá certo em condições muito especiais.
Os efeitos, para Krugman, que o estímulo causa na economia real, do dia, são assumidos por ele como prova de que o equilíbrio da austeridade de outros momentos --- equilíbrio que é o fundamento doméstico de economia por excelência --- foi obscurecido por fatores desconhecidos.
Kugman entende que querem fazer passar por medidas necessárias a austeridade quando ela é irrelevante tecnicamente. E assim será, se tudo ocorrer como calculado desde o começo. Exceto, talvez, pelo irracionalismo que um sistema financeiro que exista unicamente sobre o cálculo deveria dispensar. Será, quem sabe, irracional quando pessoas conscientes e intencionalmente agem de modo a causar determinados efeitos a longo prazo? Ou, de outra forma, quais as premissas da racionalidade de Krugman: as de Maynard Keynes ou de Friedrich Hayek?
O nexo do argumento fala muito pouco de economia, mas parece bem certo do que quer defender com termos vagos, jogos de palavras, alusões a mitos para desmascar mitos. Começa acusando os defensores da austeridade como reacionários apaziguadores de monstros com o sangue dos pobres aldeões. Daí o sacrifício de dor imposto para acalmar o mercado não passa de um ritual perante um deus pagão, aquele mesmo cultuado pela Santa Inquisição, quem sabe.
Simplifica ou seleciona as palavras do adversário e mal-define os termos que irá refutar para facilitar o seu trabalho, é coisa que faz quem quer outra coisa que esclarecer.
Nessa história de contos de fadas, é especialmente intrigante vê-lo pedir sinais da necessidade de ortodoxia. Esperar que a economia dê sinais de necessidade de medidas ortodoxas no futuro não podem aparecer porque elas são a própria economia. Admitir efeitos locais e de momento e como dependentes de condições iniciais para mostrar que regras gerais, que são regras de fundamento econômico, não são boas --- sem distinguir o uso imediato delas para agir na crise do papel delas como fundamento econômico ---, dando como exemplo particular uma prova em contrário, é uma volta de torcer o pescoço.
Talvez ele justifique sua racionalidade pelo Nobel --- não coisa muito diferente, talvez mesmo em essência igual, à autoridade de antigos moralistas puritanos, dos quais os liberais são herdeiros.
Sob esse fog de misticismo “analítico”, para Krugman, “falamos de punir a economia real para satisfazer demandas que o mercado não tem, de fato, demandado”. Mas é que a economia não demanda austeridade do mesmo modo que o oceano não demanda ser molhado.
A desmistificação sempre tem o problema de ser usada como um tipo de racionalismo gêmeo xifópago das mistificações. Por isto, o racionalismo dos planificadores de sociedades vê os valores dessa mesma sociedade sempre como meros preconceitos.
Termina Krugman dizendo “E isto, senhoras e senhores, é o que passa por respeitável análise técnica”. Alguém disse, algum dia, para essa gente que acusar no outro o que você está fazendo é um disfarce a toda prova. Quando esse disfarce é discreto, é quando ele é, de fato, imbatível. Pode até fazer pensar que a realidade deva a nós alguma satisfação. Não posso deixar de lembrar ter dito Sartre certa vez, “O silêncio é reacionário”.
Mas, ora! O oceano é o oceano! É todo o resto que deve dar evidência e justificar-se.
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Quando racional quer dizer um tipo de obscurantismo
Algumas premissas “desmistificatórias” se prestam mais a fundamentar um tipo de ocultismo comumente encontrado na Modernidade. Tais premissas são reproduzidas com nuançada variação local e circunstancial:
  • Os preconceitos da civilização degenerada, que maculam a racionalidade administrativa;
  • A racionalidade contra os valores vazios e a (arbitrária) cultura, o pretexto de que a cultura é arbitrária, esposada pelos assassinos em massa;
  • As abstrações, querendo dizer fantasias, dos escolásticos e do sistema financeiro, o apelo ao a priori do materialismo na pele do naturalismo e do humanismo como premissas na base do racionalismo;
  • A sangria dos pobres para placar a ganâncias dos senhores escravagistas, repetido por revolucionários utopistas da propaganda da Revolução Francesa e habitual dos piores agitadores russos pré-revolucionários.
Velhos vícios de linguagem reproduzidos em outro contexto, ainda assim, mutatis mutandis, os mesmos.
As premissas da desmistificação geralmente ficam ocultas, esotericamente, sob a magia de prestidigitações retóricas. O uso destro das prestidigitações ocultistas pode mostrar não (apenas) o mais hábil ardiloso, mas (antes) o mais profundamente hipnotizado. Nenhum processo precisa ter tomado curso desde o planejamento científico de especialistas para realizá-lo em qualquer um: a repetição do estilo com que escrevem L.F. Veríssimo e Krugman é em si mesma neurotizante e hipnótica. Quer dizer, adeus consciência.
Como ocorre no contexto do movimento iluminista, de onde essa mentalidade saiu, o obscurantismo das premissas de quem invoca a racionalidade para desmistificar o comportamento humano está geralmente apelando ao óbvio --- a razão, que qualquer um reconhece de imediato como uma medida de bom senso --- para criar ad argumentum a evidência de um fundamento na forma de uma premissa mandrake.
Assume-se a razão como que se existisse como princípio absoluto, um fundamento como o chão sobre o qual se caminha. Como o fundamento nas premissas não pode ser trazido à evidência por meios racionais, de onde parte a razão, invocá-la manifesta apenas um apelo a um fundamento: a “razão”, ser “racional” --- e daí às formas negativas “críticas”: “não é racional”, “é superstição”, “fantasias”, “preconceitos”, etc.. O que, por fim, quer dizer, “Você não concordou comigo (imediatamente), como pode?”
Quem seria contra algo como a própria razão de um fundamento, antes de qualquer fundamento?! Quem seria capaz de questionar aquilo que é, nas palavras, a possibilidade mesma última de qualquer fundamento, só mesmo se acreditasse que as palavras pudessem tocar aquele mundo numinoso em si que nos ignoraria se pudesse, mas sem os quais o mundo não pode gozar de nenhum saber ser --- cogito ergo orbium est.
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A inquisição econômica sobre os mais pobres e a solução asteca
Em “The bad logic of fiscal austerity” --- avaliação esta, curiosamente, apenas retórica: quase-lógica ---, de 14 de junho de 2010, a linguagem segue o mesmo padrão Veríssimo de flashbacks psico-sociodélicos e aqueles mesmos velhos sonhos de sociedades perfeitas das comunidades heréticas, mas agora abusando da ayahuasca e querendo drogar a todos no mundo inteiro com o sonho da adminsitração global.
As premissas fantasmas aparecem assombrando do passado: a abstração do sistema financeiro como uma herança maldita dos escolásticos --- aqui, de novo, abstração quer dizer apenas “irrealidades”, outro termo ele próprio que tem sua serventia ligada àquele tipo de pronúncia mais típico da magia negra (ou, a varinha mágica das metalepses). E para variar, reproduz desapercebido --- ao que o pensamento tomará subliminarmente --- a alusão de que a Escolástica se liga à Inquisição, o que aparece nessa frase chistosa de Krugman: “Mas nós não podemos permití-lo, dizem os defensores da austeridade [ao estímulo]. Por que? Porque precisamos impor dor para apaziguar o mercado.
Mas esse flagelo moralista e inquisitorial, ao qual faz alusão Krugman, esconde a heresia que está sendo punida.
Contra a penitência da austeridade Krugman propõe um mundo melhor imediato, sacrificando, no seu lugar, um carneiro-estímulo. O único problema é que o sangue que corre nas veias desse carneiro é, disfarçadamente, sangue aldeão.
Em vez do flagelo penitente, Krugman sugere um ritual de sacrifício que é menos um ato de espiação de pecados confessados que o culto pagão que se passa no topo de alguma pirâmide com muito sangue popular rolando escada abaixo. É o culto de um deus que promete bonança assim que lhe for ofertado. Mas Krugam inverte as coisas. Assim, promete ele, o sol ressurgirá de em meio a uma eclipse, o obscurantismo será desanuviado com o supersticioso sacrifício [2] num ritual histérico, para acalmar os populares. Com o monstro da crise de um sistema falido, de uma civilização depravada, para que o monstro não devore o sol para sempre, o sacrifício de algum sangue (no lugar da penitência dos conservadores) e se trará de volta o sol tão rápido quanto em qualquer eclise, com boa colheita a todos e para a economia real.
Para o terrível monstro da eclipse, o imperador asteca oferece sacrifícios rituais --- i.e., “abstratos” --- de muito sangue acumulado em jarros, muitos jarros, modernamente sugados mensalmente aos aldeões [3].
Mas tem também os preconceitos “do” sistema financeiro: Muito do que as pessoas sérias acreditam repousa em preconceitos, não em análise. E esses preconceitos são sujeitos a manias e modismos”, que é o que já se disse da alta cultura, da civilização, da liberdade e dos valores que, já agora como tantas vezes antes, são estes fantasmas que não são apenas o planejamento racional da economia, da sociedade e de todo e cada aspecto da vida mesma.
Além do mais, a frase “preconceitos sujeitos a manias e modismos” deixa implicado o contrário: que podem haver preconceitos que são simplesmente critérios de decisão. Krugman capitaliza juros sobre juros, manias sobre preconceitos. Também decorre daí, por acaso, que uma economia “racional” é uma economia planificada? Antes, é outra a conclusão: sim, a racionalidade também pode ser irracional.
Krugman poderia ter evitado simplismos assim, bem típico do liberal-esquerdismo, lendo Max Weber. É claro, o “espírito” do capitalismo pode ter-lhe parecido só mais uma fantasmagoria preconceituosa. Já o mesmo não poderia dizer da nota sobre Brentano e o conceito de “racionalismo” discutido por Weber (cf. I, cap. 2).
A “irracionalidade” dos valores e da moral estava na origem em Adam Smith, na Teoria do sentimento moral (1759), e em Thomas Davidson, o filósofo escocês-americano, fundador da “Irmandade da Nova Vida” --- numa época em que os heréticos eram bem mais parecidos com Chesterton ---, que deu, depois de Davidson ter-se afastado, na lenta revolução reformista (in progress) da Fabian Society. É, assim, justamente essa “irracionalidade” que deu forja ao sistema fincanceiro que Krugman e liberais-esquerdistas abominan, mas já fazendo uso dele para aumentá-lo (talvez bobos desapercebidos (!)) até que não reste senão controlá-lo sem preconceitos.
A fórmula de Krugman, assim, deveria ser invertida: o estímulo é um ritual pagão que promete ao povo pobre a bonança se o sacrifício for aceito, se ele for grande o suficiente, o Imperador Asteca promete-o, aproveitando-se de dias ruins, de dias de eclipse solar --- como se teve de outras crises apelativas.
Os pobres pagãos são os súditos do sacerdote do Império Asteca que aparece sempre na literatura especializada descrito mais como um algum grau de comunismo do que como um mundo de bem-estar e farta colheira para a economia real.
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Aceitando as sugestões de Paul Krugman
Termos como “fada da confiança” são usados não para descrever ou representar um problema real ao qual se quer dar uma resposta, mas para estigmatizar e rotular e cujo conteúdo não pode ser contestado, já que ele se dá no nível do estereótipo. O exemplo é o mesmo usado durante a Reforma para blasfemar contra os escolásticos, como fez L.F. Veríssimo recentemente, já sem poder desculpar-se por não saber do chiste, que então, no caso dele, virou em trucagem com fins não dessemelhantes.
Num artigo recente, L.F. Veríssimo se mostrava surpreso com as opiniões de Krugman serem publicadas nos principais jornais “conservadores” (!). É a festa do pluralismo, onde até o nonsense psiquiátrico é aceito como prova radical de tolerância daqueles que defendem os melhores fins.
É notável que quem tem, de fato, uma autoridade indiscutível possa simplesmente dizer qualquer coisa que, ainda que seja mera panfletagem, passe por análise rigorosa --- isto ao mesmo tempo que adverte das falsas análises dos que pregam a ortodoxia.
Valem para Krugman as próprias advertências: “Então, gente: cuidem-se quando ouvirem...” que alguém desmistifica sob o pretexto de estar sendo super-racional.
Então, a próxima vez em que ouvir pessoas aparentemente sérias explicando a necessidade de austeridade fiscal, tente analisar os argumentos. Quase certamente, descobrirá que o que soa como realismo cabeça-dura, na verdade repousa em fundações fantasiosas, na crença de que vigilantes invisíveis nos punirão se formos maus e de que a fada da confiança nos recompensará se formos bons. E as políticas do mundo real – que destruirão a vida de milhões de famílias trabalhadoras – estão sendo construídas nessas bases.
O ar final, de estar desmistificando aquele que falam “pessoas aparentemente sérias” poderia ser mostrado a ele como num espelho depois que uma lista de jornalistas liberais nos Estados Unidos, que ficou conhecida como “JournoList”, foi descoberta. Os membros do grupo, Krugman incluído, que atuava desde antes das eleições de 2008, se revelou um conchavo que orientava os jornalistas a manipular as notícias dizendo quais deveriam ser omitidas e quais os alvos, como Sarah Palin, tornando-se em ativismo de esquerda e sabotando a profissão.
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Paul Krugman's profile
O contraste, no entanto, do que diz quando exposto ele próprio às suas próprias palavras, traz à tona tergiversações, rodeios, evasivas e indignação fingida. O jornalista Fred Douglas, em “Paul Krugman Gives Up”, descreveu recentemente o recuo de Krugman enquanto era contestado em comentários às suas postagens no highest mast blog do New York Time:
Krugman é um acadêmico. Ele jamais comandou uma empresa. Ele jamais criou um emprego. O contato mais próximo que ele evidentemente teve com os “negócios” foi como consultor da Enron, onde (em suas próprias palavras) recebeu 50.000,00 dólares para ajudar a construir a “imagem” da Enron.
--- O que realmente deve dar bem mais dinheiro.
Agora o método desde as palavras:
Isto, talvez, explique os doze ou tantos pontos sempre de novo repetidos por Krugman. Aqui, alguns deles: os estímulos de Obama são muito pequenos; a dívida é boa; a austeridade é má; a deflação é iminente. (Outros economistas de Harvard, não entendem de economia tão bem quanto ele.) Aqueles que não concordam com ele são “delirantes”. E, talvez a preferida por Krugman: “Eu estava certo, claro”.
Outros exemplos da retórica de Krugman:
Por exemplo, Robert Barro, um distinto economista de Harvard, observou que Krugman “diz apenas o que quer que seja conveniente para seu argumento político. “Ele não se comporta como um economista” ['regozijo-me tê-lo já observado', parafraseando Napoleão]. O ombudsman do New York Times, Daniel Okrent, observou que Paul Krugman tem “o hábito desregrado de moldar, cortar e selecionar números numa moda que agrada a seus leitores, porém deixa-o aberto a substanciais assaltos críticos”. James Taranto, do Wall Street Journal, depois de listar as falsidades na última peça de Krugman sobre o clima, recentemente, advertiu que talvez “Krugman se faça ridículo meramente para tornar seu trabalho mais fácil”.
--- Mentiras com padrão requerem certo esforço; caso não, são paralogismos estruturais de uma mente em disfunção.
Paul Krugman tem despendido sua carreira como um janota que advoga que os burocratas do governo e o processo político podem substituir o mercado. Ele sabe que existe uma vasta literatura que diz que isso é uma má idéia. Que esta literatura é claramente relevante para a proposta política de Krugman. E ainda assim Krugman não a leu ... e admite que não a leu, sem embaraço.
--- O mesmo vale para L.F. Veríssimo, e seu tipo de “intelectual”. Algo que os conservadores observam ser uma característica dos liberais nos Estados Unidos, que não precisa saber nada, nada ler a respeito, ou quem sabe como alguns professores de história que citam livros pinçados dentre os piores, para defender com pura propaganda as idéias progressistas mais radicais.
Em 23 de julho último, Krugman mostrou que claramente não estava mais “amando” os comentários de seus leitores. Agora ele os chamava “fanfarrões” e “trolls” [v.g., nanicos engraçadinhos]. No dia 28 mudou o controle de seus comentários. Reclamando que “os fanfarrões… só repetem sempre as mesmas coisas”, anunciou que iria descartar comentários que contivessem mais do que “sete centímetros”. Deve ter pensado algo como: sete centímetros são suficientes para escrever “Krugman, você é brilhante”, mas não suficiente para apresentar a refutação documentada e persuasiva do que quer que Krugman estivesse, através de seu método padrão, querendo fazer passar naquele dia.
Ou, estas nulidades laudatórias que sempre há:
[De um leitor:] “Paul, você um enviado de Deus a todos que apreciam um intelecto superior com senso comum! Obrigado por exercer seu brilhantismo” [...menos de duas linhas].
Parar a discussão in limine antes dos méritos é o supremo esforço da tagarelice da mídia atual, toda:
E depois de sua viagem de retorno a Princeton, Krugman puxou o plugue. Ele, por duas vezes ralhou com os “chorões”, reclamando que este blog, sob a visibilidade do New York Times, foi “um risco sem preço”. Ele reclamou ser sobrecarregado pela necessidade de ver se o comentário tinha “obscenidades”. E disse que não tinha “nenhuma obrigação de fornecer” espaço a “fanfarrões” e “chorões” que poderiam contestar a ideologia que ele habitualmente vende.
E assim seis meses depois o episódio do debate sobre o esclarecimento econômico chegou a um fim. Irá Krugman responder a comentários em outros blogs? Não sabemos, mas habitualmente no passado, ele simplesmente evitou fazê-lo. Ele é claramente incapaz de fazê-lo, e cercado agora de sicofantas e de acólitos que lhe dizem quão brilhante ele é, por que ele se incomodaria em fazer?
Agora você sabe!...”, então, depois de mim, as coisas estão mais claras sobre coisas tão pouco óbvias. É como se faz um chamado para aderir irrefletidamente, para concluir com o autor o que não está, de modo nenhum, no pé que ele quis que estivesse.
Quando alguém o pedir para analisar os argumentos mais no detalhe, supondo desmistificar o preconceito, a fantasia, ou termos vagos e desconexos do conteúdo do argumento central, veja primeiro se o que está sendo desmistificando não parte de termos mal-definidos para melhor combater, com armas adulteradas ou, substituindo um hábil adversário por ineptos e pusilânimes. E terminando por concluir o que promete desmistificar, confiando no efeito de que a mente dispersa seguirá a conclusão pela simples distância existente entre a primeira e a última linha de um artigo.
É preciso pouca atenção para perceber que o perfil de Krugman coincide com aquele tipo de homem descrito por Richard Hooker, referindo-se ao movimento puritano, para os quais o ultraje contra onde quer que o mal no mundo pudesse ser apontado e a benevolência histriônicas arrogavam-lhe uma posição superior entre os demais mortais. Superioridade herdada pelos socialistas desde então, os liberais americanos e iluminados superficiais de alma obscura como L.F. Veríssimo.
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O paralelo Veríssimo-Krugman-Farquaad
Há nas palavras de Fred Douglas, o signo do sonho do prussiano Farquaad: a “utópica ditadura da burocracia”. Um mundo perfeito, enfim. Depois, só, é que ele dá errado.
As interpretações psicanalíticas desmistificatórias de “Freud” Krugman --- aquilo que Sócrates diz no Fedro ser coisa de gente muito “douta” e que é o mesmo para os doutores da lei dos Evangelhos --- acabam sonhando um sonho de sociedade roteirizado dirigido por Freddy Krueger.
O mundo de Krugman começa com uma atmosfera nevoenta, olhando para o futuro incerto. Nada tão simples quanto ao ver com imprecisão, sonhar o sonho de linhas improváveis de um mundo na planta baixa. O fog desanuvia-se quando é projetado do papel ao horizonte que não dá para saber através do mais remoto breu. Lá, no futuro, onde tudo estará sob uma medida certa de cálculo, não haverá erro, nem neblina que agora possa nublá-lo. Como sempre, o mundo mais racional de Krugman apresenta para a crise da ortodoxia, “a solução”.
Os interpretadores de mundos perfeitos futuros são como a peste, virulentos e mortais. Mas diferentemente da peste, o vetor não morre; pelo contrário, ele se dá muito bem, fica gordo e rico, e vive às custas do delírio social antes do rigor mortis de toda a sociedade. Como o cancro em simbiose com o fungo, o controle burocrático assume etapas sobre toda a vida social, estabelece processos para cada movimento, engessa, rigifica, seca e mata. A rigidez cadavérica da sociedade planificada permite por pouco tempo o máximo bem, coisa tão banal quanto uma história de conto de fadas ensina: matar a galinha dos ovos de ouro para pegar todos os ovos de uma vez só.
Os vetores dessa peste ficam loucos de delírio, mas não deixam de ser capazes das tarefas rotineiras do dia-a-dia. Assim, L.F. Veríssimo, Paul Krugman e tantos outros, podem continuar dando suas opiniões com ar visionário enquanto a sociedade queima da febre da solução final.
É possível ver continuidade na forma mentis de Veríssimo e Krugman, por conseguinte, nos apelos de um e outro, nas figuras de linguagem --- estes seres de contos de fadas que ajudam a levantar os tijolos de um novo mundo possível ---, não por coincidência, ambos liberals.
Há um paralelo entre liberais de todo o mundo, materialistas mundanos, relativistas céticos, hedonistas, em busca de paz, não-dor, de ansiolíticos e hipnóticos, e, por fim, na morte durante o sono.
As abjetas “abstrações” em Veíssimo aparecem em Krugman como “absolutas especulações”, e as “irrealidades”como fantasias irracionalistas. Ambos, no entanto, deixam implícito irracionalismos seus, como a “idéia de comunidade”, de Veríssimo, e a política dos “estímulos”, que por seus efeitos diretos e breves querem ser fundamento; ambas reivindicam para si tocarem a realidade mais real, a realidade da “comunidade” e a realidade da economia planificada de Duloc.
Paul Krugman lembra a Lord Farquaad (até na aparência); a nobre ideia da comunidade de Veríssimo à asseada Duloc, com a pureza de sua economia planificada. São os dois como a mulher barbada --- inverossímeis em tudo, um materialista ungido pela “nobre ideia de comunidade”.
[São estes] seres de contos de fadas que estragam o meu mundo perfeito”, ultraja-se Lord Farquaad (Shrek I).
Odeiam, os mais limpos que todos, as superstições que levam os homens a agir, “irracionalmente” --- quando nenhuma razão de cálculo existe. O que quer dizer, não seguem as prescrições de uma economia planificada. A lei de Duloc! No liberalismo conservador esse campo da ação humana é trocado pela “mão invisível do mercado”. Um outro tipo de abstração, na linguagem, que desgraçadamente se quer materializar no real com a regulação por meios racionais de cálculo rigoroso, fazendo da própria ação humana do mercado uma abstração formal. Advém o ultraje e o sonho da prussiana Duloc.
O reino de Duloc é uma nobre ideia de comunidade, uma vez também sonhada pelos russos, onde na organização da burocracia total estarão ausentes as aberrações dos contos de fadas, os “irracionalismos” desmistificados por Paul Krugman desde a planta baixa de cálculo de uma matemática inexistente. Também onde estarão ausentes a Liberdade, a Justiça e a Felicidade verdadeiras. E quando sobrarão portas da lei, e doutores das leis nas salas que elas guardam, e guardas como colunas romanas landeando-as.
Notas
1. Richar Hooker, apud Voegelin: A nova ciência da política, V, 2.
2. “O núcleo da economia keynesiana é este: atribuir uma produtividade econômica autônoma à agência [do Governo] em posse da arma”. Gary North, “Quatro imagens contra o keynesianismo” (04 de agosto de 2010).
3. “G [o Governo] não cria nada. G confisca. G não pode gastar nada que não tenha antes extraído à força dos consumidores ou investidores”. Gary North, op. cit..