novembro 11, 2007

Lógica da leitura

Reprodução parcial de Lógica e Dialética, Artigo 2: “Regras para o bom emprego da Lógica”, pp. 59-60. Logos: São Paulo, [1953] 1955 (2ª edição), de Mário Ferreira dos Santos; para confrontar com “Preconceito e Julgamento” em Corcordar ou Não Concordar d'A arte de ler de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, no artigo “Método de precipitar almas”.
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Todas as teorias partem de um princípio aceito como axiomático. Assim, quando se examina um raciocínio, é preciso examinar os termos que o compõem, para neles poder observar os erros que os viciam.
Para um domínio completo do pensamento, vamos propor outro método de efeitos extraordinários quando empregado muitas vezes, pois é um exercício de grande valor para a própria leitura.
Escolha o leitor um trecho da obra de um filósofo. Sem deixar arrastar-se pela pressa, ponha-se a ler calmamente o primeiro período. Disponha depois os juízos, e analise os termos que o compõem. Após, observe a ligação dos juízos e, finalmente, a ligação dos períodos de um trecho. Em cada termo, sua acepção, como o autor o empregou. Não há dúvida que, com o auxílio de um vocabulário filosófico muito poderá o leitor aproveitar, porque nele encontrará as diversas acepções que o têrmo costuma ter nas obras dos filósofos.
Esse exercício continuado intensifica a atenção e a concentração da inteligência e a exercita ao domínio cada vez mais rápido das acepções. Conquistada esta fase, está o leitor apto a ler o que quiser e a não deixar-se mais arrastar pêlos equívocos e anfibologias que geram tantos sofismas e tantos erros.
Um aspecto que deve sempre o leitor procurar, quando fizer esses exercícios, é o lado psicológico. Procurar descobrir por entre as palavras a influência das afeições e das emoções, e nunca esquecer a época, a situação, as influências de ordem histórica que em muito condicionam a obra dos filósofos.
Estamos muito acostumados à leitura apressada dos periódicos, dos livros de ficção. Essa pressa, é um dos maiores males da actualidade. A maioria dos livros são livros feitos de livros. Há umas poucas centenas de obras realmente grandes na literatura mundial. É inútil ler de tudo ou querer ler de tudo, porque não lemos, sobretudo porque lemos depressa. Lembremo-nos que ler é reler. Um livro que não merece ser relido não é valioso. E somente poucas são as grandes obras que lemos, e sempre podemos reler. Esses devem ser os livros escolhidos” [grifo meu].

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