setembro 26, 2014

Possessão Progressista

Em nota, Adriana Franciosi (Zero Hora, FAMECOS/PUCRS (...)), admiradora de Juremir Machado, critica David Coimbra por ter admoestado contra a escolha do CTG Fronteira Oeste, Santana do Livramento, como local do casamento “homoafetivo”, injuriando-o de “conservador”! (...)
Adriana Franciosi, ultrajada com a opinião insípida de David Coimbra, acha que Conservador é a salmoura do picles, ao acusar David disso. Mas não um conservador “grosseiro”, como todos, segundo ela; não desses que um Bolsonaro é o tipo Alfa [1]. Bem, mas o ponto dela é que David quer manter os “homoafetivos” nos seus lugares, como judeus acuados em guetos, ao mesmo tempo assumindo que eles existem nos CTGs, mas discretamente. Então a intolerância parece que assumiu para a Sra. Franciosi outra forma, uma que não admite a mera presença tolerada, mas a ação impositiva da “tolerância”, como fez a juíza Carine Labres ao colocar o casamento no CTG, posteriormente aprovado pelo patrão. Essa “tolerância” como ação positiva na sociedade está para além da mera tolerância, que ela admite que existe, mas de um tipo que transforme o Tradicionalismo num movimento... progressista!
Todas as danças tradicionalistas são de casais com vestimenta típica, funcionalmente apetrechada, o que pode querer dizer então uma “evolução” num ambiente assim? As danças terão que admitir, digamos assim, para fim de absurdo, dois trajes iguais dançando, com as posturas apenas do homem ou da prenda? Fico pensando quando um peão tiver que rodar o vestido, ele fará o movimento como se vestido tivesse, ou irá estar de vestido? Vamos admitir um caso borderline: o peão invertido, de saia rodada, usa uma maquiagem pesada para passar por uma dona e fazer o papel que lhe cabe na dança. Não poderiam reclamar, já que a tradição estaria preservada. Em qualquer outro caso, é como querer reescrever os originais de Shakespeare em linguagem contemporânea, de modo que em pouco tempo não nos lembraríamos mais dos originais, bem mais difíceis de ler, e nem achar que se perdeu algo com isso. É como queimar uma obra de arte original porque ela é, digamos assim, “retrógrada”! Mas, certamente, não deve chegar a tanto o que Franciosi está propondo; digamos então que o gênero, como num teatro, é o traje e o comportamento equivalente. Não acredito que se pedirá realmente mais do que isso.
Agora, que raios quer dizer que o patrão, por aceitar o casamento, é um “homem evoluído”? … “Evolução progressista” em vez progressiva! ...Bem, as duas coisas são fantasias, da razão científica e, no caso dela, do esoterismo de esquerda, para quem o progresso ao futuro se faz mudando a sociedade em tudo que ela é. Progressista é o epítome de “evoluído”: já que representamos o futuro, os que defendem as políticas progressistas são os notáveis homens do futuro! Esse paradoxo irônico que descreve o desarranjo mental típico do homem de esquerda é o que levou Aldous Huxley a colocar o nome de sua obra mais famosa sobre o mundo futuro realizado por perfeccionistas com a mesma mentalidade, tirada deste trecho de Shakespeare, n'A Tempestade:
O wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous manking is! O brave new world that has such people in it!”
--- Act V, Scene I, line 181-184).
Que admirável mundo novo é este, de tão bela gente dele habitantes!
Segundo a dona, o casamento foi permitido no CTG pelo patrão, só esqueceu que a juíza disse que acertou o casamento lá para forçar a situação, que só então foi aceito pelo patrão. Trata-se de uma juíza ativista, representante de um mundo futuro que serve a ela como fonte de direito. É o sentido da representação que um “progressista” poderá ter, não como representante de qualquer base popular real, mas de uma massa abstrata e universal, de um povo futuro escolhido pelo "representante". Em conformidade com a tradição da esquerda revolucionária --- que Franciosi encarna como uma assombração monótona ---, os "mais aptos" atuais na evolução social são justamente aqueles dotados dos atributos selecionados pelos “avanços” hoje propostos. A malícia desse tipo de pensamento é já um tipo de loucura raciocinante, o que, por efeito, torna inimputável dona Franciosi enquanto não se trata de um pensamento verdadeiro e autoral. O que a juíza Carine Labres está fazendo, portanto, a favor desse progresso que um Roger Raupp Rios é exemplo melhor no judiciário gaúcho, é ser um agente ativo das modificações como as coisas deveriam ser, a começar por negar as coisas como elas são, o que sub-repticiamente nos falsifica o presente em nome de um futuro plenamente desenvolvido, para além das nossas contradições. O progressista é um profeta moderno, e sendo o judiciário o último bastião de resistência, ocupá-lo (infiltrando a ideologia) é o meio de torna esse futuro legalmente compulsório.
As mulheres conquistaram “conquistas”, no jargão das “minorias” com as quais a esquerda produz as demandas “progressistas”, é dizer que as mulheres andaram para “o lado certo” por livre e espontânea vontade. A esquerda sempre se valeu das demandas legítimas da sociedade para guiá-las discretamente para bem além destas demandas, quando então, já parecendo um tanto esquisitas, ainda despertam a sensação de serem reivindicações legítimas de uma coletividade mais sensata. Um exemplo desse abuso. As conquistas que a Sra Adriana Franciosi faz propaganda, por mais espaço na sociedade, chegam a coisa sem pé nem cabeça, como outra dona me desafiou a aceitar certa vez, exigindo naturalidade diante de uma mulher que, por calor, tirasse sua camisa em público, assim em termos gerais e sem circunstância --- o que parece mesmo fazer parte da forma da demanda. Ela clamava pela equivalência ao comportamento comum aos homens, mas exigia mais: que este comportamento produzisse uma aceitação natural dos homens, que nada nisso veriam mais que uma pessoa qualquer sem camisa, ou mesmo devesse poder despertar qualquer instinto. Assim, como no caso do CTG Fronteira Oeste, a tolerância aqui é sub-repticiamente uma medida ativa. E, definitivamente, ninguém é tão tolerante assim com o despropósito de alguns indivíduos excêntricos, menos ainda o é o oligofrênico que não controla seus impulsos, quando isso não implica, como coisa óbvia, na sua exclusão prévia do convívio social.
A igualdade nesse caso exporia as mulheres ao comportamento equivalente daqueles celerados que, atendendo a uma gritaria histérica contra os “racistas”, sentiram-se justificados a medidas proporcionais. Não surpreende desde então o aparecimento de revoltados odiando os “racistas”, incendiários e ameaças. Estas medidas apareceram no caso do racismo da Arena Grêmio, respondendo ao alardeado caráter “odioso” dos racistas, e apareceu também na provocação da juíza Carine Labres. O radicalismo não aparece como resultado de preconceitos disseminados na população, as fontes latentes do ódio patológico, mas como reação naquela parcela pequena da população onde se incluem sociopatas e psicopatas, aqueles cujo comportamento não atende à intimidação pretendida pelo politicamente correto. Uma mulher que pensasse em tirar a camisa no trem pode perfeitamente estar no seu direito de não ser tocada, mas a chance de que ela não tenha problemas é realmente muito pequena. Segundo a crítica que acompanha estas medidas ativas de tolerância, eu estaria já aceitando a violência ao admitir que ela deverá ocorrer, mesmo quando isso tem o valor de advertência e proteção. Se de tal apologia estúpida se seguisse um estupro, teríamos, ato contínuo, o alarido ultrajado das mesmas pessoas que estimularam a transgressão, tomando a violência como exemplo melhor do preconceito da sociedade tradicional. Esse é um meio bastante eficiente para produzir as condições pelas quais a sua tese será provada para justificar as transformações sociais progressistas. Não acredito que dona Franciosi saiba de nada disso.
De novo, se o ambiente é hostil, mas frequentado por gays discretos, não seria o nome disso tolerância? Para Franciosi, David está tomado da “sanha” de deixar tudo como está, tornou-se um inimigo do progresso na ocupação de espaços na sociedade. Franciosi quer a “boa evolução dos costumes”, continuamente, em todos os ambientes. Precisamos ter então tolerância a todas as transformações sociais, até que não haja qualquer distinção social. A indução da transformação da sociedade feita pela mediação de contradições internas dessa sociedade, seus “conflitos latentes” como eles podem ser instrumentalizados, o que se dá sobre qualquer aspecto nas relações sociais que possam ser estimuladas nesse sentido, são movimentos táticos de guerrilha política, ações de engenharia maquiavélica. As demandas positivas de esquerda infiltram o debate público com as palavras que se tonarão a referência de uma meta comum, com isso tendo deixado traçadas as linhas para onde tudo deve se dirigir, e também já, uma vez aceitas, sem podermos com isso perceber que seja assim. Tolerância é apenas a palavra-chave para desencadear a intimidação das opiniões contrárias, as quais, caso ocorram, etiquetam o seu autor de crimes de intolerância. É a alquimia de uma dialética maliciosa. O caminho fica livre assim para as ações afirmativas, que já não encontram resistência. O que se pretende é ainda a mesma sociedade sem classes, a sociedade de igualdade da propaganda socialista, mas realizada pelos meios "eficientes" do ativismo marxista.
Para quem fala pejorativamente em “conservadorismo”, toda essa conversinha não poderia ser mais “antiquada”. Franciosi repete no particular a forma do discurso utópico de transformação da sociedade numa sociedade socialista onde o estado e as divisões de classes (ou qualquer outra) teriam desaparecido. Eis para onde vai esse progresso, desembarcando, no entanto, sempre em algum lugar abandonado pelo bom senso. No lugar do amor ao próximo teríamos a sociedade sob o signo do amor “homoafetivo”, o amor ao igual. Numa sociedade assim, a diversidade seria homogeneizada, a sociedade sem distinções seria a realização material e institucional do amor universal. Não é à toa que a isso se deu o nome de utopia (“não-lugar”).
É um “não-lugar”, por exemplo, o direito de uma mulher exercer o papel efetivo de homem para outra mulher. Vá lá que o SUS cubra implantes penianos hidráulicos e que a fecundação possa ser feita em laboratório, deveriam as mulheres ser estimuladas pelo estado a assumir esse papel, efetivamente? Ocupar esse “espaço social”? E isso ser um programa de estado? Talvez ela diga que sim, que, como o pensamento socialista utópico já foi capaz de conceber, se o homem desejasse a lua, ela teria que lhe ser dada. Mas tanto uma coisa quanto outra vão dar em outro “lugar”. A utopia sempre foi o reino perigoso da pieguice universal.
Franciosi também compara o direito a voto das mulheres ou a trabalhar fora de casa com a adulteração de uma forma de expressão que deixa de ser o que é se se admite a “tolerância” ativista dela. A comparação com outras conquistas, como o voto ou negros no CTG, foram transgressões de hábitos antigos e preconceito real, não a exclusão de elementos internos, ou a inclusão de elementos contraditórios externos --- isto é, não se modificava em essência o tradicionalismo; os preconceitos reais eram elementos externos, já que ser negro nada diz sobre o tradicionalismo, até o contrário, pois os negros estavam presentes na Revolução Farroupilha. A malícia que quer igualar coisas tão desiguais é ativismo político daquele tipo de linha irracional de que a sociedade deve ser reformada tomando como princípio de transformação a inversão de todos os elementos sociais. Algo que, de novo, nasce da cabeça do mais tíbio pensamento utópico, herdeiro das maquinações técnicas de propaganda e do maquiavelismo dialético, quando estes então se tornam ciência eficiente. Não há, hoje --- isso desapercebido --- coisa mais “evoluída” na cabeça tanto da OAB quanto do MP e mesmo de juízes.
É esse pensamento débil que levou a Sra. Franciosi a fustigar David Coimbra com a terrível alcunha de “conservador”. Franciosi confunde “Conservador” com “conservante”, não distingue tradição de alegorias carnavalescas recicladas ou tolerância real com corrupção cultural, fazendo o papel passivo de agente do politicamente correto --- o freio moralista imposto à sociedade para libertar o Kraken do progressismo. Há muitos modos de se usar uma mulher, mas esse em especial pode convencê-la mesmo de que ser usada é um direito seu, de assim escolher livremente; a mesma mentalidade chega ao ponto de oficializar uma carteira profissional e dizer que nisso há “dignidade”. A partir daí já não se distingue o gueto do seu próprio lar; mas nem por isso ela se encontrará numa situação melhor. Franciosi não fez mais que repetir as noções que o próprio David é tão pródigo em tomar por obviedades superiores, a propaganda tática da esquerda mimetizada com os mais altos ideais da humanidade. Assombrações desse tipo sempre aparecem em lugares abandonados, repetindo sempre os mesmos roteiros ao longo dos séculos.
Notas:
1. Nada mais eloqüente para ilustrar a grosseria dos conservadores que lembrar que quando Bolsonaro foi acusado pela progressista Maria do Rosário de ser o seu tipo “grosseiro” a grande causa dos estupros de mulheres, para em seguida já acusá-lo ele próprio da violência, este volta-se para a dona e diz: “Ora, Sua vadia!” Segue-se o chilique da moça: “Qu'é-isso! Qu'é-isso! Qu'é-isso!” Afinal, ela não fizera nada, não é?

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Carta aberta ao meu colega David Coimbra de ZH”, de Adriana Franciosi, repassada pelo Facebook:
Há muitos anos somos amigos, trabalhamos na mesma empresa. Já o elogiei publicamente por diversos bons textos, mas para minha infelicidade David Coimbra vc tem representado um novo tipo de conservador. Não o velho e surrado conservador que usa palavras grosseiras. David usa do que de melhor ele tem para conservar o status quo. Para com palavras bonitas sugerir que se deixe tudo como está. Por que é disso que se trata quando li seu texto sobre o incêndio do CTG que iria realizar um casamento gay. A linha do David sugere que o local era privado e um centro de tradicionalismo. Ora, pelo que sabemos foi o patrão do CTG, homem evoluido que permitiu a realização, junto com o poder judiciário.
Mas David vai mais adiante na sua sanha de deixar tudo como está ele nos pergunta pq pessoas do mesmo sexo querem casar num ambiente hostil a sua existência? A seguir sua lógica cada grupo deve ficar na sua, de preferência em ghetos, né David? Assim ele desconhece a história, como das mulheres, por exemplo, que ousaram a bem pouco tempo entrar em domínios masculinos e foram a luta.
Se seguissemos a lógica de David, nós mulheres estaríamos até hoje condenadas a cozinha, e a boa evolução dos costumes, e que só serve a peonada mais xucra que irá usar o teu texto para justificar sua eterna homofobia e racismo.
Pois pra que mesmo ir trabalhar e ser independente? Segundo David, pra que causar problemas? Então, só fazendo um paralelo a pouco tempo atrás, lá em Júlio de Castilhos era impensável um negro entrar no CTG da cidade. Eis que apareceu um negro, gerente de banco que enfrentou tudo e todos e passou a entrar, mesmo num ambiente hostil onde supostamente pessoas vão para se divertir. Pois assim é com essas gurias que tiveram a coragem de ir lá num CTG casar em meio a 28 casais héteros, só para reafirmarem que são iguais a todo mundo... Sendo de Livramento, provavelmente elas gostem dos cantos nativistas e tudo o mais ligada a cultura gaúcha. Dentro dos CTGs como vc mesmo diz está cheio de gays que não ousam dizer o que são, pq pessoas como vc David acham que tem que permanecer tudo como está. Não mais. Teu neo conservadorismo é uma grande pena, um desserviço a tolerância. e a boa evolução dos costumes, e que só serve a peonada mais xucra que irá usar o teu texto para justificar sua eterna homofobia e racismo.

setembro 05, 2014

O conflito como método

Para ilustrar o caso recente de caça às bruxas racistas que vitimou uma menina por ter pronunciado a palavra "macaco", e que recebeu de parte da mídia uma reação histérica de "horror" e "nojo", gerando um clima de ódio e ameaças como poucas vezes se viu.

"Esfregando sal na ferida", de Tammy Bruce, em 'The New Thought Police: inside the lefts's assault on free speech and free minds' (p. 98):

"Durante os meus dias de ativista feminista, a coisa mais perturbadora que eu ouvi sobre as feministas era que nós "deveríamos esfregar sal na ferida" se quiséssemos fazer progressos. "Esfregar sal na ferida" significa manter viva a dor da nossa base popular. Isso pode assumir muitas formas, mas antes de tudo essa estratégia envolve distorcer todas e quaisquer relações humanas colocando-as sob a marca da violência contra as mulheres, contra negros, gays, ou quaisquer outros grupos que sejam nosso 'filão'. Se o acontecimento do dia nos dá um exemplo real do que queremos, ele deve ser explorado --- e se ele não dá, então um caso parecido deve ser inventado para lembrar nossas bases populares de sua vitimização.
E ninguém esfrega sal na ferida como [o célebre ativista americano dos direitos civis dos negros] Jesse Jackson. Em 19 de Setembro de 1999, durante um jogo de futebol escolar em Decatur, Illinois, começou uma briga entre os torcedores nas arquibancadas. Os funcionários da escola expulsaram do local vários estudantes que participaram da briga. Jesse Jackson imediatamente correu até Decatur, uma cidade de trabalhadores que se gabava de sua agricultura, suas 500 companhias na lista da revista Fortune, e pelo fato de Abraham Lincoln ter exercido a advocacia por lá. Reconhecendo que seria difícil mesmo para ele associar as ações da escola a racismo --- mesmo que os estudantes expulsos fossem todos negros ---, Jackson admitiu que não se tratava de fato de uma questão racial, mas, em suas palavras, de uma questão de "justiça" ['fairness']. Não obstante isso, seus protestos acabaram em marchas com milhares de pessoas cantando "We Shall Overcome" [Venceremos!], reminiscentes da luta pelos direitos civis na década de 60. Durante a estadia de Jackson em Decatur, as tensões raciais cresceram a tal ponto que, temendo violência, três escolas foram fechadas por vários dias.
Este caso foi a demonstração final de cinismo de um líder dos "direitos civis" que de tão desesperado para esfregar sal na ferida, chegou a apoiar um grupo de jovens mentido em simples pancadaria em um jogo de futebol para alcançar seus objetivos. Jackson não negou que a briga ocorreu ou que os jovens que ele apoiou participaram da briga. Por que, afinal de contas, então, ele levou o fato à condição de uma marcha pelos direitos civis? "Foi uma briga feia em um jogo de futebol, sem sangue, sem armas, sem tiros, nem facadas", explicou Jackson. "Nada tão brutal quanto uma briga de 'hockey' ou uma briga na NBA". Este é, aparentemente, o novo patamar para o projeto na luta pelos direitos civis. [Lembrar aqui que os "Civil-Rights", os direitos civis, assumem, para atualizar demandas (táticas), na nossa época, o gênero maior dos "Human Rights"].
Mas é realmente assim que os negros americanos percebem sua luta --- defendendo jovens que representam aquilo que não chegou a ocorrer? Certamente não penso que seja. Mas num mundo onde o espectro do racismo atual está empalidecendo, essa tática consegue duas coias. Primeiro, com notícias de cobertura nacional, reforça nos negros a idéia de que eles estão sob ataque; segundo, diz aos brancos que seu racismo está vivo. Isso esfrega sal em duas feridas, feridas que se deixadas pra lá, seriam capazes de se curar sozinhas.
Um episódio como esse joga luz sobre por que é tão importante à nova Polícia do Pensamento que as pessoas não se sintam confortáveis discutindo estas questões. Que é, afinal, a coisa politicamente correta a se dizer se alguém o questiona sobre o incidente? Bem, você certamente sabe o que não deveria dizer --- que os garotos mereceram ser expulsos.  O que, no entanto, teria indicado que você é um "insensível" à situação "complicada" dos jovens negros. Talvez você pensasse isso a respeito de si mesmo. O código verbal polido é tão arraigado em nossa pisque, que nós tendemos a acusar a nós mesmos caso passe por nossas cabeças algo que parecesse "errado". Mas se falássemos honestamente sobre o que ocorreu, cada um de nós poderia descobrir que não estamos sozinhos em nossas opiniões e poderíamos concluir, depois de tudo, que não somos de fato racistas."

maio 09, 2014

O caminho errado (de novo)

Como as pessoas chegaram a essas conclusões? Você entenderá que o grande mal do mundo não é a miséria, nem a guerra: é a interpretação de texto.” --- D. Coimbra, Uma história do mundo (p. 220).
"Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?" --- 1 Coríntios 1:20.
Zero Hora,18 de Abril de 2014, p. 2, David Coimbra, "O sal da terra" [1] --- ou, um breve tratado para hipertensos.
'Sejais o sal da terra' é o que ouve, mas 'Sal demais faz mal a saúde' é o que entende no lugar o comentarista leigo sobre Mateus 5:13-14. Esse "leigo" (de "laico") não acredita nas escrituras, mas já não pode deixar de buscar uma forma de moral que substituía a religião. Uma forma, no entanto, mais moderada, livre dos excessos dogmáticos de outrora. Mesmo o historiador como Arnold Toynbee sabia que o homem não podia viver sem religião, por isso seria inevitável que o que quer que se opusesse a ela deveria a substituir e não a destruir. Explorar o lado filosófico das religiões e extrair daí uma moral convencional, uma moral de regras universais, naturalmente aceita por todos, pareceu sempre muito mais razoável para o leigo, que faz do seu "não julgamento" profissão de fé. Já há tempos tenho a impressão de que esse termo é um equivalente, num outro mundo possível, ao princípio da própria torpeza, a qual passa, com essa nova moral, a ser tolerada como padrão mesmo de normalidade. Esse é o "leigo", que interpreta as passagens bíblicas reduzindo-as a alguma ciência, sem ter conseguido ainda dominar a capacidade da boa leitura.
O sal de má qualidade na região do Mar Morto, misturado a sulfato de cálcio se chama gipsita (Ca(SO4)), era usado na época de Jesus para marcar caminhos, em contraste ao "sal" da terra, contraste entre a fé que se conduz no caminho da Verdade e o caminho consensual ou utilitário. Afinal de contas, parece que o inferno pode ser atenuado, isto é, pavimentado com ternura, e cheio de boas intenções e benevolência, como o sal pode ser substituído por uma variação de enxofre que passa como se sal fosse --- até, pelo menos, ele começar a comer as sandálias dos transeuntes. A ambigüidade do 'equívoco' cometido por David carrega o sinal de desvio que extravia da verdade quando justamente pretende instruir; talvez sob o efeito daquela loucura divina que Paulo referiu como superior à sabedoria. Essa loucura parece que deu uma volta na sabedoria que David alardeia como coisa mais sensata, e enquanto se defendia do medo, não se viu perseguido, como fazem aqueles “sombras” com as pessoas desavisadas nas ruas, e acabou imitado sem que o tivesse notado. Fazer do testemunho da verdade, para além dos discursos, referido na metáfora do "sal da terra", um caminho consensual, bem, este é o objetivo da moral leiga --- ironicamente, um sal de enxofre.
O que o "leigo" quer é atenuar a lei moral numa moral civil, uma moral consensual, essa mão leve ao salgar que busca uma "medida" das coisas que poderia, com a sabedoria racional da boa proporção, um substituto das grandes religiões. Mas o "caminho do meio" da Nova Era é, afinal de contas, apenas um modo de errar da verdade. Agora, muitos de nós não dirão abertamente, mas pensarão como Pilatos: "Mas o que é a verdade?" A verdade é uma função da evidência, dizia um cientista político no século passado (os milagres), e é aquilo que você sabe perfeitamente bem, mas talvez mais importante, e para efeito moral, aquilo que quando você encontra, não nega ou dissimula por conveniências. A verdade é lenta --- "Veritas filia temporis", dizia Tomás de Aquino ---, nela somos o que somos, inclinados a ela hesitamos, cuidadosos, reflexivos, dá para se tornar um bom leitor lendo com alguma reverência a Bíblia. A verdade de Pilatos é a do estado romano, aquilo que ao poder convinha como medida para atender a uns quantos --- à exceção descarada da própria verdade.
Em "O sal da terra", David Coimbra adverte a quem o lê, antes de tudo, do risco das religiões como o seu dogmatismo moral, com o que ele quer dizer essa mania que a religião organizada tem de estabelecer interdições sobre certos assuntos e ser taxativa sobre outros. Ora, um sábio não é taxativo, ele é vago e pacífico... (ou, pelo menos, a imagem cinematográfica dele o é). David tem medo das religiões, ainda que não consiga dar uma única demonstração de que seja capaz de compreendê-las, nem naquele esforço inicial. Mas não quero fazer parecer que alguém que jamais quis saber, nem buscou em nenhum sentido, em verdade, devesse a qualquer um de seus leitores esse "início" de algo que lhe é alienígena. Não há nenhuma busca em David. Ele teme também as ideologias, ao lado das religiões, porque estas têm pela fé cega o cutelo do julgamento do bem e do mal, fundamento do seu "dogmatismo". Que é o mesmo que dizer que há valores positivos pelos quais uma tradição deva proteger e até lutar para defendê-los. Além do mais, têm também sempre algum mistério para justificar obscuramente esse fundamento. Não; David está esclarecido pelo espírito do seu tempo, e por este espírito nos dá a saber que há uma sabedoria em todas as religiões, uma que, bem ao modo das simplificações dos clássicos do MEC, atalha o que cada religião em particular obscurece ao seu modo. Assim se pode distinguir entre uma raiz pura e seus corruptores e entre a sabedoria dos caminhos bem marcados e a escuridão da fé. A sabedoria de Deus é loucura para os homens, mas para David a loucura de Deus foi psicanalisada por Freud, que no fundo do inconsciente reprimido encontrou um povo favorável a acreditar em peças de propaganda de místicos do cajado oco. O medo, como se sabe popularmente, no entanto, não é bom conselheiro; e o medo da superstição pode acabar por conduzir, antecipando o mal, a outro tipo de superstição, a superstição de que a verdade é tão plana quanto o cotidiano e o tempo presente, de uma claridade, a despeito de artificial, ou justamente por isso, mais cheia de luz do que qualquer treva passada, que já mal se distingue o semblante de qualquer homem, quando então sobram só caricaturas. Todos já parecendo muito taciturnos e embuçados em hábitos certamente "medievais".
A chave do horror civil, de uma época muito mais polida que qualquer outra tenha sido, vem de uma dogmática moral maniqueísta no alinhamento entre as palavras "fé", "dogma" e "religião". "Horror! Horror!" Fecha-se rápido o silogismo de que pelas religiões, crepusculares e morais, matam e morrem --- imaginem só, os santos! Eles morrem "em nome de...". São radicais, mesmo quando não matam! Porque eles reforçam a força que justifica o sacrifício. E aqui a sabedoria de J.C. tem necessariamente que encontrar a sua loucura, que há certo tempo o filho do homem não poderia negar mais que desconhecesse que acabaria morrendo pela boca. Foi um mestre moral doidivanas. Mas algumas coisas ficam mais claras no fim do texto de David, ou o que ele e essa época frívola entende por religião, a tal de "espiritualidade". Essa coisa sentida, e meramente sentida, quer encontrar num estado emocional atenuado o guiamento moral. Julgar é o único pecado! Chesterton disse, certa vez, que a "tolerância" é o que sobra quando se perde de vista todos os valores. Uma superficialidade que aparece quando o bem e o mal são apagados (bem como seu fundamento misterioso). Sem a perspectiva (sim, é uma perspectiva) do bem e do mal, sobra um sistema de valores postiços que se faz sobrepor àqueles, ou equivalentes emocionais. O sentimentalismo reconhece a fraqueza e a carência como valores em si. Por isso o tom de voz é o primeiro a ser controlado, é o nó na garganta que combina com o terno moral com que o hábito social reconhece como aceitável. Pelas palavras de Marta Medeiros, um vestuário de hábitos civis está cortado por uma estética moral que racionaliza a dureza do julgamento para certa "elegância moral". O sentimentalismo faz da moralidade coisa de consumidores capazes de comprá-la, é um fetiche de espíritos pobres.
"Não oponhais resistência ao mal, e se alguém te bate na face, oferece-lhe também a outra..." --- porque que mérito há em amar o justo, ou amar a quem o ama? O bem e o mal objetivos são a condição do Sermão da Montanha, a paixão do Cristo é a condição do Sermão. A verdade, para a qual Pilatos lava as mãos, para o perspectivismo conveniente ao estado romano, aquela verdade é deixada morrer. Não se faz ali um julgamento do bem e do mal, mas um ajuste de interesses, paga-se à civilidade, à moralidade civil, à legalidade, embusteiras e hipócritas: são umas e outras equilíbrios só um pouco distantes da Verdade. Para David, o amor cristão é um tipo de "não vale a pena" ao estilo budista da Nova Era, gira em torno do próprio umbigo de modo que ignorância e iluminação ficam atenuadas e indistintas num tipo moderno de quietismo. Mas o caminho do meio é só um jeito de errar com alguma elegância.
A lisonja da "profundidade" ao Sermão da Montanha, de David, não passa do reflexo de céu de um espelho d'água: o sentimento de comoção ante um pai que chora por um filho reflete o amor instintivo, justamente o que a passagem que chama o homem de "sal da terra" valoriza no sentido oposto e contra o sentimentalismo que ali se encontra. O publicano, tão baixo entre os judeus da época, também ama o filho ferido. 'Então no que tu te distingues deste?' O ímpio também ama os que o amam. David quer ver na passagem em que Jesus diz aos presentes "Sois o sal da terra... e a luz do mundo" apenas aquilo que o homem é conforme aquele sentimento compassivo que é humano, sem ser cristão. Em Uma história do mundo, David Coimbra fez uma interpretação da história em base psicológica e materialista, o que levou a uma leitura dos textos sagrados como efeito direto, raso e rasteiro, dessa dupla base. Aqui, novamente, David não fez outra coisa ao falar de Jesus Cristo, nas suas palavras, como "um dos mais revolucionários filósofos morais" da história (um "homem de esquerda"?). Mas fosse só isso, perder-se-ia quando muito na tradição rabínica, ao ponto mais longe que um erudito judeu mais liberal poderia ir, em concordância com a tradição que os Evangelhos revalidam e não diferente desta. David não quer perder de todo a beleza de reconhecer J.C., e depois de passar uma rasteira nele, coloca-o, de si mesmo, num posto que lhe parece bem alto, o de sábio. Sabedoria e não santidade, como ele mesmo trata de explicar querendo fazer com isso parecer mais sensato o Sermão da Montanha. O homem é capaz do bem e do mal, como poderia ser este a luz do mundo? É nesse ponto que o Sermão faz sentido, pois são os apóstolos na Fé e na Verdade que são a luz do mundo, não o homem, não o julgamento que media, no meio do caminho, entre perspectivas distintas. A tolerância, quando ao lado da Verdade, absolve Barrabás.
Mas David já havia esclarecido que não estava tratando do "Jesus cristão", ...como se houvesse outro! --- outro pelo qual se pudesse, colocando-o no centro dos Evangelhos, reinterpretá-los. Mas essa dogmática revolucionária não é nova, ela reconhece em Jesus, quando muito, esse filósofo moral cuja mensagem fica mais sensata modificando-a no que parece misteriosa. Melhor reconhecer só uma profundidade poética e fingir que ela passou desapercebida. Essa declaração patética é um fetiche intelectual, e tende já aqui a rebaixar Jesus de sábio a "filósofo inovador", que, sem inventar nada, deve quer dizer outra coisa. Mais um homem espirituoso, capaz de frases de profundidades ociosas, tão ociosas quanto segredos ainda não desvendados por outros evangelhos de um modernismos pseudo-epígrafo. 
O "sábio" que se produz hoje em dia não passa de um frasista (aprovado pelo MEC). Daí porque toda a "mensagem" de Jesus é mais palatável quando mais insossa: os exageros da culinária cristã, qualquer coisa além nas frases em João, são a insensatez de uma época obscura. David tem o instinto armado contra as ideologias que o ativismo revolucionário advertiu outrora e o desconhecimento técnico de que essa ideologia está sempre disfarçada para que possa ser adotada --- como, por exemplo, quando esta faz Jesus parecer um sábio no lugar de Deus. O bom leitor lê a “ideologia” do livro quando o lê, e não a sua própria, seja lá qual for. O Jesus não-cristão é um dogma original anticristão e uma liberdade de entendimento que parece bem mais aceitável à ciência mais obscura de todas, a ciência da interpretação de textos. Em vez de ler em busca de entendimento, os Evangelhos são explicados à luz dessa ciência sem fronteiras claras que quer poder compreender Shakespeare antes de lê-lo. David tem razão ao sentir medo destas coisas --- se os fantasmas não existirem, quem os vê não deixa de estar assombrado.
E, por fim, o rogar piedoso de David ao bem do menino é em vão, roga ao nada, a Ninguém. Não tem a quem rogar, pede o bem do menino como um ato interno, que reflete o mal que ele rejeita, como qualquer um de nós. O ato de David de "rogar" é meramente estético --- é o chiste da "elegância moral" que só tem o fim de embelezamento pessoal. David pede o bem como um autista se balança para suportar o mundo de sofrimento exterior, que sua "sensibilidade" sentida exige. ...Vós sois o sal da terra, a luz do mundo, mas se o sal ficar insosso, com que o temperarão? Não há mais temperos, o próprio gosto já parece um barbarismo. O sal de gipsita é sal atenuado, não é bem sal, e nem serve como sal; não é um tempero de verdade, nem um conservante de verdade, como qualquer coisa que não é bem de verdade, é outra coisa. Esse caminho é o caminho mesquinho do sentimentalismo leigo, da moral "sentida", predominante em nossos dias, é um substituto da religião verdadeira. É, portanto, um descaminho da verdade, mas um descaminho só pode ser o que é porque tem a aparência de caminho: caminho alargado, pavimentado e levemente inclinado... para baixo. Já ouvi essa história antes.
*
David Coimbra reproduz no texto “O sal da terra”, como já havia feito no seu livro Uma história do mundo, o argumento do “Livro verde” criticado por C.S. Lewis em A abolição do homem, mas num movimento adiante, quando já deixa aparecer um sistema de valores substitutos àquele tradicional. A base dessa substituição, e que fundamenta a sua interpretação das passagens bíblicas citadas, é a mesma do “Livro verde”: relativismo, utilitarismo, hedonismo, e para certo verniz moral a partir de uma base amoral, surgem, como em Marta Medeiros (v. “O verniz 'espiritual' daestultice supersticiosa”), sentimentos benignos que se faz passar por “valores” objetivos e capazes de constituir uma moral civil, substitutos da religião. Como advertiu C. S. Lewis, a sociedade que aceitar estes valores está fadada a desaparecer, pálida e vazia, indo da burrice à loucura.

Notas
1. “O sal da terra

janeiro 07, 2014

O verniz "espiritual" da estultice supersticiosa

Em artigo recente, Martha Medeiros elegeu seus valores superiores, gentileza, tolerância, respeito, “elegância moral”, honestidade, paciência, troca, afetividade e desapego de mágoas e rancores, com os quais ela fundamenta uma verdadeira espiritualidade, pondo de lado as tradições das grandes religiões e todos os grandes sábios e alguns milagres, de lambuja.
1. O super-realismo de Martha Medeiros em “O sobrenatural e o real”1 é um tosco lençol que cobre algo que não toca o chão. A expressão do cotidiano vinda do homem da mídia é uma média ordinária, da boca dos quais se ouve a repetição da moda. O que restringe as reflexões sobre o cotidiano a um mingau de verossímil consenso com a consistência de uma substância social pegajosa: o politicamente correto. Palavras que referem nenúfares e efemérides de polidez como se fossem valor objetivo, que, mesmo que sem conexão com o real, pois soando benigno, pareçam aceitáveis à sensibilidade. E já então quando os sábios se tornaram eles mesmos supérfluos diante da revolução na cobertura de prédios de classe média-alta, quando já parece natural que estes andares sejam os verdadeiros fundamentos do edifício todo. Sobrenatural é crer que as palavras possam se referir a alguma coisa mais que para a persuasão de nós mesmos, então a antiga manipulação dos “pecados” e “penitências” já não engana mais a ninguém --- não engana mais a Martha. Mas não podendo acreditar em valores objetivos, não lhe resta já muita coisa senão substituir a função da disciplina religiosa por um simulacro de virtude social constituído no seu todo por maneirismos e mesuras, e por uma mortificação histérica na forma da polidez e da tolerância.
Com um corte assombroso na herança de todas as tradições religiosas, de todas as grandes religiões, Martha Medeiros permitiu se convencer, com aquele poder de persuasão que é o fundamento do “real” em seu artigo, que a função das religiões é completamente supérflua. Mandamentos, templos, rituais, ou mesmo Deus, do ponto de vista do homem privilegiado da sociedade contemporânea, morando na cobertura à beira-mar, não lhe parecem, dessas alturas, dotados de qualquer existência ou neles qualquer “utilidade”. E olha que se deve ter uma boa vista de lá. Tudo é opcional, porque tudo isso serve apenas para nos persuadir de uma ética que é universal, qualquer um pode reconhecê-la através da máxima: “Não faz o mal ao próximo que não queiras para ti”. Desapercebido está, no entanto, a premissa de que uma vez o mal feito --- já que não se considerou seriamente a abolição do mal no mundo ---, podes esperar que o mesmo te ocorra agora como uma questão de justiça. Duas facas no pescoço fazem dois homens dóceis. Isso nunca funcionou desse jeito, mas nas reflexões de Martha Medeiros ela (ênfase importante!) se convenceu de que um “olho por olho” mantém quatro. Quem afinal de contas não se convenceria de que com a faca no pescoço eu deveria deslizar a minha menos gentilmente pela do vizinho? O problema é que, invariavelmente, uma situação dessas acaba com duas gargantas cortadas, quatro olhos perdidos e uma geração de revides. Justiça e amor não são concorrentes, a troca de um pelo outro não é irrelevante. A inversão de uma assimetria cria injustiça, o tipo de injustiça que só o amor restituiu. Como isso poderia ser supérfluo?
2. No alto das catedrais há sempre um punhado de gárgulas, elas podem, simbolicamente, ser uma última ameaça do mundo para quem ali queira entrar, ou um aviso para não entrar sem convicção; seja o que for, seja nos antagonizando com um mundo competitivo e consumista, ou permeados de uma noção sentimental de “espiritualidade”, o templo é onde Martha busca um nada transcendente “sossego espiritual” --- a antiga “mortificação”2. Essa estrovenga é uma heresia católica e uma receita Quaker. Como heresia católica se chama Quietismo, um modo pelo qual através da passiva contemplação se busca uma união perfeita com "Deus", que chega a rejeitar qualquer salvação ou mesmo a noção de pecado como desnecessários para o caminho verdadeiro que é o da vida interior. Na receita Quaker, não passa, com mais razão, de um pouco nutritivo mingau sentimental. É um efeito conhecido da época das luzes, que os homens da idade da razão tenham defendido as palavras que expressavam suas aspirações como se fossem mais razoáveis que a noção de verdade. No exato momento em que se defendia a razão, essa hubris rendeu uma rematada frivolidade no uso das palavras e uma acachapante ingenuidade de que o que soa bom deve mesmo ser bom.
A verdade é uma força pouco polida para um sentimentalista que elegeu a etiqueta cortesã como “espiritualidade”. O que mais poderia advir de uma “união” com Deus (ou na sua negação mística) senão, de algum modo, uma equivalência com Ele, agora feita em qualquer coisa mais universal que reside em nós e que podemos buscar ali quando nossa alma contempla a paz de um regato ou os sons da natureza --- ou a vista de uma cobertura à beira-mar. Assim cheio de sentimentos benignos, o encontro do cético com (a negação de) Deus faz dele um “perfeito”. E nessa condição, a uma união sem pecados com o que antes alto e agora já mais baixo, parece estar ao alcance, porém mais abstrato, mais universal , como um espírito do tempo que se pode encontrar (e anunciar a todos) com ar de coisa que ninguém negaria pelo mero efeito agradável das palavras. O sentimentalista tem na face a luz dos tolos e está marcado por uma incapacidade atávica que lhe esclarece que a razão está no óbvio e no simples. A rejeição da transcendência releva que toda a complexidade da metafísica complicava a visão da mais plana realidade. O sentimentalismo achata e poli a rude verdade para tirar dela algum lustro difuso de benignidade, que permite ao sentimentalista revestir a sua vaidade de um ouropel de virtudes. Pecado e penitência, para seres iluminados pela exposição de um jornal de circulação que cobre todo o território da Província, que eles próprios escrevem, são coisa menor. Mas a negligência com o pecado faz se perder o fundamento da consciência reflexiva que é o que falta à Martha no exato momento em que diz se utilizar dela. Reflexão que é uma racionalização, uma justificativa dada no sofá de alguma altura social. Daí também a espontaneidade sem vergonha ou receio no que diz. E, afinal de contas, todo mundo sabe que a vergonha pode causar disfunções psicológicas no tipo de homem urbano contemporâneo. Estas pessoas podem --- imagine! --- ficar infelizes!
Diz Martha: “Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos confirmá-las, você sabe).” Ao ir à igreja, e a igreja é cheia de rituais, ou quase só isso, espero que todos me vejam lá sôfrego, tão bela alma, a minha, e para confirmar as minhas melhores intenções... Não, não eu, tenho horror a isso; rezar em público é um sofrimento no meio de pessoas tão desiguais. Mas imagine agora alguém tentando “confirmar” suas “melhores intenções” em silêncio, na solidão do pé da cama refletindo mantras de benignidade, ou calculando o que fizemos em caridade material. Nada de uma confissão diante da certeza de um observador onisciente, mas “perante a vida” --- seja lá o que isto queira dizer. Tem boas intenções quem tem ações equivalentes que as demonstrem, seria isto? Mas Martha fala de rituais que o podem confirmar a nós, não de obras. Não há nada que corresponda a uma confirmação de nossas boas intenções em rituais. Sobra a segunda via, a de que nossas melhores intenções podem se autojustificar no exercício de senti-las pelo uso de palavras adequadas. A exceção de que você possa fazer um relato de suas boas ações, obras materiais, caridade material real, ainda assim estas facilmente se tornam num exercício de caridade calculado, que desse modo permite que alguém ganhe um milhão de dólares de modo mais ou menos desonesto e depois faça caridade, quando já muito lhe sobra. Inaugura-se, assim, o ato ritual similar ao de Pilatos, mas no caso o ato de lavar as mãos é substituído pelo de lavar a cara, um ritual, sem dúvida, para aqueles atos anteriores, atos de cara deslavada. É quando a caridade e as maneiras tem o valor de uma purificação pessoal e de um ritual de iniciação! Só quando o sacrifício é real, e quando estamos completamente dentro da situação, podemos exercer nossas melhores intenções. A caridade pode perfeitamente ser feita desde fora da situação real e é o que geralmente acontece. Não é quando você tem dez pães, ceder um deles, mas quando você tem apenas um e tem que dividi-lo. Mas talvez essa perspectiva não faça sentido desde o ponto de vista de alguém que não pensa em sua alma perante Deus, mas no bem material do próximo. Para as melhores intenções de Martha Medeiros, o ideal seria o de uma sistema social que distribuísse equitativamente a caridade sem que a sequer a percebêssemos. O bem difuso e universal emanado dos melhores sentimentos encarnados numa instituição humana. A “caridade” é, então, uma função social numa sociedade onde sobram recursos. O sentimentalista que fala em nome da razão não percebe o peso das palavras, e nem onde o sistema de caridade material que defende leva quando ele se torna o valor da sociedade. Seus belos egos, no entanto, estão preservados.
3. “Intermediários” como Jesus ou o Papa, Buda ou um monge, Maomé ou um dervixe, são, para Martha, tipos de laranjas. Eles servem como figuras que despertam mais fácil a nossa sensibilidade para o marketing das nossas boas intenções. Nos convencemos delas buscando-as dentro de nós mesmos ou as calculamos do nosso carnê de caridades. Então aqueles garotos-propaganda de nossas melhores intenções nos lembram, num ritual de anamnese, extraindo de nós a humildade necessária para impedir de nos tornarmos tiranos. Martha está um pouco desatualizada dos eventos do último século, apesar de eu não duvidar que ela tenha uma larga experiência de leitura. Talvez, apenas, essa experiência tenha a aridez de um deserto de areia ou a frivolidade de um jardim geométrico. É impossível não lembrar de seus amigos L. F. Veríssimo, que defendeu alhures “a nobre idéia da comunidade” (européia), e David Coimbra, com o que são, para ele, os “pensamentos elevados” do socialismo. Representantes, enquanto falam (completamente fora da situação real), das melhores intenções reproduzem aquela terrível simplificação dos utopistas que, se fazendo de luzeiros no caminho da virtude, reconhecem estas primeiro em si mesmos, mas que a modéstia desvia para atributos naturais universais nos homens. Assim, com as melhores intenções, a sociedade poderia se converter em uma máquina de caridade impessoal. Mas as palavras nunca expressam exatamente o sentimento que está por traz das melhores intenções, assim como seus efeitos concretos, o que faz certamente que algo que as corrija possa sempre ser acrescentado.
Um pensamento assim, para abranger o máximo bem, invariavelmente gerou a tiraria, começando com as superstições mais fantasiosas nas cabeças enfeitiçadas pela noção perfeitamente razoável a esta mentalidade de que o que parece animar o tempo e o espaço aja assim quando uma conspiração favorável de palavras se alinha na mentalidade coletiva e consensual. Coisa lá que poderia ser feita projetando um modelo de sociedade esboçada no alto de uma cobertura, bem, bem, bem distante do chão no qual os mestres da sabedoria tradicional encontraram, ao longo de milênios, na luz da meditação verdadeira, um tesouro que a nossa sociedade guardou para que o formador de opinião ordinário nos desaconselhasse pelo excesso de palavras que negam a quieta vida interior em sua contemplação passiva, elevada de andares acima, do silêncio natural e da mística dos grandes espaços da arquitetura de um Oscar Niemeyer. O asceta da cobertura de vista para o mar não se deixa seduzir pelos tesouros que a humanidade guardou, mas os substitui pelas abundâncias ocas e sua estética das harmonias úteis.
4. A solução reside em nós, a livre-opção quando nenhuma opção livre pode mais existir. Bastaria adotar o “não causar mal” para que uma pequena revolução alterasse significativamente a face do mundo. Mas, se fosse obedecido... É simples, como a “nobre idéia da comunidade”, como a defendeu Veríssimo, e mesmo que seja inexeqüível, como diz David Coimbra, é superior... A explicação desse chiste está em Eric Hoffer, True believer, sobre aqueles tão egoístas que não podendo suportar as derrotas de seus egos (talvez aumentada devido a exposição midiática), dedicam-se a causas superiores e inatingíveis, onde estas belas almas de coberturas nunca serão testadas pela culpa. Martha sabe que é utopia demais. É inexeqüível! Vai falhar, repete a seu modo David Coimbra. Mas, de novo, reitera-se o irracional, “se fosse aplicada...”. A obviedade e a simplificação plana não são valores objetivos, mas de uma metafísica (que é a negação da metafísica e) que para não perder-se no vácuo do obscuro pelo mais obscuro, já teve seu fundamento reconhecido outrora numa “harmonia universal”, justificação de todos os sentimentos superiores (...de cobertura).
O ato de vontade pelo qual se optaria pelo inexeqüível --- um inegável ato de fé num valor universal plano de benignidade sentimental --- não ocorre, e talvez não possa ocorrer, senão como efeito de alguma altura social. A opção pelo bem (entenda-se “não causar sofrimento”), no entanto, não existe, ela não ocorre; e isso se dá assim porque o comportamento humano refuga a “solução simples”, que não comove a ninguém, não convence qualquer editor de jornal, nem tem aquele poder “suficientemente bombástico” que a propaganda nos disciplina para coisas bem menos importantes.3 Os valores de Martha valem apenas a certa altura da ascensão social, quando então passam a ter alguma utilidade. O que move os sentimentos do homem --- quando ele ainda não pode ser tocado pelos melhores sentimentos, ou estar em certos cumes sociais --- é o poder, a competitividade, a vingança, as necessidades, eis para o enfado de um leitor já um pouco envelhecido, o diapasão que soa o mantra da ideologia da nata pensante no charco provinciano de Porto Alegre. Não há maior sinal de provincianismo que a adoção elegante do cosmopolitismo como uma miscelânea de doutrinas “consagradas”, por ordinárias que sejam, que hoje sedam parte da população alfabetizada. O fundamento humano pode ser reduzido à psicologia aplicada e a esta sua subdisciplina mais nobre, a ciência do marketing. Assim, não apenas os rituais e os templos deixam de ser úteis, eles são substituídos pela visão interior e pela disciplina da persuasão de certos gestos e maneiras da língua civilizada; os rituais tornaram-se campanhas de “conscientização” das massas, que repetem valores nas palavras sem qualquer experiência real deles. A psicologia aplicada desdenhará do pecado e da culpa como efeitos de superfície de um neurótico reprimido. A liberdade de escolha, fundada no livre-arbítrio, é uma superstição que, uma vez negada, permite e requer o controle ativo das emoções humanas, exceto talvez as desse tipo de ascese do cidadãos de cobertura cuja simplicidade é um tipo de pureza que eles adquiriram olhando para dentro de si mesmos. Talvez porque, como se confessa Martha, a abundância já não permite muito mais ambição, quando do pouco que ainda se necessite seja apenas a manutenção de sua condição atual.
Ora, por que não optar pelas soluções simples, pelas ainda mais simples? Ansiolíticos e hipnóticos! Mas talvez estes também sejam “laranjas”, e como Buda e Jesus, dispensáveis. Pessoas educadas e alfabetizadas, até um certo nível, podem optar pelo adestramento mental que controla seus impulsos, ainda que na abundância, e ainda que, dessa forma, domem um rato numa roda de arames. Para essa árdua tarefa Martha cita os seus valores, que ela disciplinou dentro de si: gentileza, tolerância, honestidade, paciência, troca, afetividade, e no elenco de valores de Martha a sua última aquisição, a “elegância moral”. Termo que ela encontrou “outro dia”, anotou e adotou, não sei se para algum tipo de exercício ritual ou como um adereço à etiqueta palaciana numa corte de civilidade à la Luiz XV. O ouropel palaciano de Martha incluem o brilho de palavras de bijuteria. “Gratidão”, “troca” e “afetividade” são palavras escolhidas pelo sentimento que despertam, não porque tragam valores concretos à conduta prática. São expressões de afeição, isto é, demonstrações públicas de se estar envernizado com o tom da moda. “Honestidade” é o corolário de valores anteriores, é uma reputação e um dever, mas sabe-se lá o que quer dizer isso para alguém que não encontrou fora de si, nas linhagem das grandes tradições religiosas e da sabedoria secular o que reconhece como superior, e talvez um pouco além disso, qualquer valor que ela não pudesse encontrar numa reflexão interior. A “honestidade” de Martha é uma caixa de intenções sem qualquer virtude real capaz de sustentá-la --- de onde viria então a confiabilidade de suas reflexões? Sempre, é claro, é possível recorrer à própria torpeza para afirmar as suas convicções e respeitar as dos demais. “Paciência” é outro dever, pelo menos para um adulto; mas aqui já parece uma qualidade derivada da admissão temporária dos açodamentos alheios, uma altivez nossa. Além do mais, “paciência” não é um valor como a temperança, que diz respeito de nós e antes para com nós mesmos, menos que a uma conduta social. “Afetividade” é só um jeito de modular o tom da voz ou os gestos, maneirosos, para certo efeito a alguma benignidade sentimental. Aí então temos essa fantasmagoria patética que se denomina “tolerância”, o exercício da virtude antiga sem os valores equivalentes como norte. Em contraste lhe falta as fundamentais coragem e verdade, e o sacrifício sem o qual nada se alcança de valor, pelos quais se obtém aqueles outros. E estes realmente faltam em Martha. Não consigo, pelo que ela escreve, imaginar por que lembraria de algo assim. Se trocar todos estes valores de verniz pela noção de longanimidade, temos todas as qualidades citadas por Martha, mais a magnanimidade cujo contrário é a mesquinhez. Pois é o que se vê com mais clareza em Martha, ao dedicar-se a instruir num jornal de grande circulação pálidas noções de sentimentos benignos e um afetado comportamento cívico enquanto desfaz todos os homens santos, as grandes religiões, filósofos e cientistas verdadeiros, que não são exceção quando se tratava de buscar a verdade (ou, a certo tempo, o que a modernidade alterou em parte). Como a gratidão pode ser encaixada aqui, ou a tal da “troca”? Nem a humildade se pode achar aqui, nem qualquer coisa derivada; pode-se dizer que no máximo encontra-se um esboço de modéstia por efeito ou reflexo. Se estes valores estão ausentes quando se busca, se não estão presentes na solidão, se não estão presentes aí, nesse momento em que o espírito se guia a si mesmo, é porque não passam de palavras sentimentais, que já ganharam pelo seu valor “afetivo” o brilho de alguma razão, ou do que se deve persuadir para não escapar ao bom tom.
O que Martha elege na ausência de valores verdadeiros são as primícias de uma ética social, mas ainda menos que isso, uma “etiqueta” social. Algo assim pode ser adquirido em qualquer momento da vida, mas não o levará a nenhum lugar especial, ou a ascender socialmente --- antes pelo contrário: o que se pode adotar antes e melhor na abundância. O maneirismo da etiqueta social nada tem a ver com qualquer tradição que a tenha legado, como aqueles valores que o hábito sedimentou pela experiência efetiva. O hábito desses valores são agora reavaliados por reflexões que se vem fazendo nas horas vagas, e já parecem da cobertura com vista para o mar de um sobrenatural fora de moda. A formalidade da religião oficial, ou dos valores morais, bloqueiam nossa capacidade natural de reconhecer com o feeling apurado a luz interior de uma ética universal. Na falta de uma opção verdadeira, parece que Martha conseguiu pelo menos, como lhe parece útil, que seus valores tivessem o poder da solução mais simples: ansiolíticos e hipnóticos não químicos. Quietismo civil.
A espiritualidade para Martha é apenas o adestramento dos sentimentos (mas ela pode não saber disso), que podem ser alcançado com a prática fútil da oração, ou que serve para pouco menos que isso. Curioso que se comece refletindo sobre a superfluidade das religiões como prestidigitação hipnótica e se acabe por substituir Deus pelo que Ele nunca foi, como um bode-expiatório que em vez de nos limpar os pecados, realiza qualquer coisa semelhante à ação de um ansiolítico. E isto para se propor uma disciplina dos sentimentos que cumpriria melhor essa função. Ora, como alguém pode assumir suas responsabilidades se sequer as percebe? Os valores de Martha fazem esse trabalho, são os seus valores mais altos, ao mesmo tempo os menos exigentes, ou tão exigentes quanto a representação de um papel social num baile de máscaras; podem ser exercidos como virtudes, mas desde que soem bem para um número de pessoas suficientemente grande para serem percebidos sob certo consenso. Valores ocos, ouropel social; artifícios de uma estética moral que aspira se tornar uma ética social. Tal estética rende um fingimento histriônico colateral que se pode observar, sem desdouro profissional, nos senhores Ayres Brito e Luiz Roberto Barroso --- também encontrada, não por acaso, em expoentes espíritas ---; algumas vezes exemplificado pelo tom piegas de ultraje exaltado de uma Maria do Rosário (compare-se ela com seu antípoda, Jair Bolsonaro, tão desprezado pelo opinador ordinário da mídia, mesmo quando fala a verdade).
5. A frivolidade de um código de mesuras parece que pode dar caráter e ser a marca da personalidade de quem a este se dedica --- como em um ritual, sem dúvida ---, produzindo aquela mortificação aparente como se observa também nos espíritas, semelhante. O pensamento utópico de uma ética científica que confira à sociedade uma ordem ideal não é novo. Mas a sua possibilidade é completamente fantástica, um artigo de fé não apenas em algo remoto, mas verdadeiramente irracional. O esforço para torná-lo racional, e levado ao bom tom da razão sentimental, faz de uma ética social a aspiração, assim que possível, de uma disciplina científica do comportamento humano para algo mais perfeito. Como escreveu o filósofo Stanley Rosen a respeito, com exatidão: “No geral, o Iluminismo tentou substituir aquilo que podemos chamar de metafísica do absoluto pela absoluta certeza de soluções efetivas para problemas práticos4. É o fim de uma ética social, segundo William H. Whyte, no clássico The organization man (p. 12):Superficialmente, [uma ética social] parece dedicada a problemas práticos para a organização da vida... Mas é a promessa de longo prazo que anima seus seguidores, pois esta contém as técnicas para a visão de uma harmonia acessível e alcançável”. O mais curioso é que uma ética social não precisa ser aplicada em larga escala, pois ela se organiza de modo relativamente espontâneo para substituir a ordem que as religiões antes representavam com seu sistema de valores5, já tão sistemática e amplamente desprestigiados pelo formador de opinião ordinário. Efeito de uma cultura inteira que, não conseguindo mais falar de Deus, passa a explicar os problemas da vida prática como a aquisição de um comportamento padrão que garantiria a harmonia social num bravíssimo ato novo de fé.
A visão de mundo de Martha pretende a substituição do sobrenatural por uma superstição, organizar a vida humana sobre um padrão de comportamento superior quando qualquer ordem superior já não é possível. O resultado lógico, que tende então a se concretizar na história, é apenas o controle científico daquela vontade que deveria ter optado pela “elegância moral”, mas que não o faz por não se deixar convencer de simplicidades sem apelos. Lembremos, são a avidez, a disputa, a trama humanas a base da sociedade natural, como animais não domesticados. O sentimentalismo dos valores interiores de Martha são a pátina que recobre o lento e progressivo caminho da sociedade para uma ética social científica plena. Nunca foi outra coisa. Como se sabe, os deuses enlouquece antes aqueles a quem querem destruir.
Mas a pérola mais rara dessa etiqueta social e seu símbolo máximo, a mais alta responsabilidade do homem da cobertura, é a tolerância, esse mantra desapercebido que elegeu a hipocrisia como nobreza de comportamento sem os valores equivalentes aos da virtude. Estultice assim faz pensar se a leitura não é algo realmente danoso para mentes exaustas pela abundância. Notável por ofício, Martha faz da profissão o palanque da defesa do que ainda sente como necessidade, a manutenção de sua paz interior. A filosofia de vida de Martha Mederios tem as palavras como úteis para o exercício de superioridade que todos poderão alcançar quando se mudarem para uma cobertura à beira-mar. “Levar vantagem” é um traço bem conhecido do brasileiro, que se tornou uma autocrítica sem lá grande efeito, já que as palavras também apresentam a pátina do sentimentalismo que as atenua até algum tipo de simulação metafórica que desvia tudo para a galhofa. Vantagem é sinônimo do oportunismo que toma para si a sorte sem querer perder ou fazer sacrifício por quaisquer valores. Mas morrer pela defesa da paz interior não favorece algo que vá muito além da mera ironia.
A razão do antigo bom senso se torna uma racionalização num exercício de estética moral, de criação de uma moralidade nas palvras, sem as rudezas do pecado, da culpa ou da reflexão de penitência. No lugar colocou-se a noção de “responsabilidade”, esta associada à espontaneidade e à “autonomia” de um adulto livre. Liberdade guiada por nenhum valor, mas pajeada por um sem número de palavras benignas. O que quer que se queira dizer com “espiritual” não passa de uma imitação grosseira da religião verdadeira, que cria o ambiente mimético ao de uma metafísica através de expressões sentimentais, meramente alusivas de um comportamento moral e que já não passa de etiqueta social. A constelação de benignidades de Martha é de valores que não sustentam, valores superficiais e só para efeito de beleza pública. É nessa planície do suficiente ou do desnecessário parcimonioso que Martha reconhece a realidade que desdenha do sobrenatural. Faltou-lhe a reverência pela realidade que os antigos reconheciam como sustentada por um fundamento divino, até para não se permitir recriar o irracional numa superstição social. A atenção àquele fundamento é resultado de verdadeira reverência pelo real, que permite a atenção contemplativa e a humildade verdadeiras, tudo em Martha afundado em uma terrível carência, mesquinhez atroz e de simplória ignorância.
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Sabe o que tem o poder de mudar uma pessoa e o mundo, Martha? Não é o verniz de um sentimento, mas, se você já teve uma criança de dois anos brincando ao seu lado e perdido algum tempo observando-a, em silêncio, imaginar que uma delas tenha sido, de algum modo, o próprio Deus "disfarçado" atrás do nariz escorrendo. Isso muda o mundo, Martha. O resto, é latão amarelado.
Notas:
1 Zero Hora, 24 de dezembro de 2013.
2 No caso, refere-se ao sentimento de perda de prestígio (social) e (portanto) ou auto-estima, sentimento de humilhação, também em relação à sociedade, do que se deduz que a manutenção dessa aparência seja um esforço de adequação a maneiras codificadas socialmente, mas (por exclusão do contrário) nenhum valor real.
3 Se Martha e David Coimbra tivessem sido irmãos univitelinos suas convicções não teriam sido mais semelhantes.
4 Hermeneutics as politics, p. 145.
5 Ninguém diz, 'Eu acredito na Ética Social', e embora muito subscreveriam sinceramente as idéias separadas que a constituem, estas idéias ainda tem de ser postas juntas numa síntese final harmoniosa. Mas a unidade está ali” --- The organization man, p. 11.

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O sobrenatural e o real
Martha Medeiros | Zero Hora, 24 de dezembro de 2013
Há algum tempo venho pensando na função das religiões, e a cada reflexão me convenço de que não precisamos de templos, rituais, mandamentos, pecados, penitências e de intermediários falando em nome dos deuses – e nem de deuses precisamos. É tudo opcional. O que precisamos está dentro de nós.Templos são belos e podem ser úteis na busca por sossego espiritual, já que costumam ser silenciosos (a natureza também pode cumprir essa função, diga-se). Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos confirmá-las, você sabe). Pecados e penitências, eu pulo. São manipulações que só servem para gerar culpa. Intermediários? É bonito contar com a figura de um pai, seja real ou simbólico, e nesse sentido a figura do Papa, de um Buda, de um monge ou de qualquer pessoa de carne e osso com um projeto pacificador pode cumprir a função de extrair de nós a humildade necessária para não virarmos uns tiranos. Quanto aos mandamentos, bastaria um só, um único, que, se fosse obedecido, solucionaria boa parte dos problemas do mundo: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a ti”. Há muitas versões da mesma frase, mas essa vem sem metáfora, desembalada e pronta para usar.Já pensou se ela fosse aplicada na política? No universo corporativo? Eu sei, é utopia demais, mas se fosse aplicada ao menos nas nossas relações cotidianas, já faríamos uma revolução. Pena que ela apresente uma solução simples, e as pessoas rechaçam o simples. O simples não gera comoção, não dá pauta, não é suficientemente bombástico. A encrenca, a dificuldade, o jogo de poder, a competitividade, a vingança, isso tudo, sim, torna a vida menos monótona. Se as coisas derem certo, qual é a graça? Do que iremos nos queixar? Eu, que adoro uma vida mansa, sou totalmente partidária do simples, do óbvio, do fácil, do comum – dentro do que ambiciono, eles me servem muito bem. Minha religiosidade é desenvolvida através de valores que não dependem de representatividade formal, constituída e sacra. Gentileza, tolerância, respeito, elegância moral (ouvi essa expressão outro dia e adotei), honestidade, paciência, troca, afetividade e desapego de mágoas e rancores: disso tudo provém a verdadeira espiritualidade transmitida de pai para filho, de avós para netos, de amigos para amigos, sem necessidade de carteirinha de adesão a qualquer igreja. Neste Natal (e amanhã, e depois de amanhã...), reze, é um conforto para a alma. Ou não reze, se não possui o hábito. Não vai fazer diferença nenhuma para o mundo. O que faz diferença para o mundo é como você se comporta com os outros, não com Deus. Deus, muitas vezes, serve apenas para transferir responsabilidades. Assuma a sua, e amém: estaremos todos em paz.
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* Jornalista. Escritora. | Fonte: ZH online, 24/12/2013 | Imagem na internet.

maio 29, 2013

O canibal bulímico e a lei psicológica da projeção leninista da própria torpeza

Ou também, como ler a história reduzindo-a a encadeamentos lógicos a partir de resumos jornalisticos para ver no que se omite pela concisão o salto fantástico de uma conspiração que sabota a nossa utopia e nos ameaça com o risco de trazer de volta a lembrança velada pelo silêncio dos traidores.
 --- Como ler jornais – 4 ---
O mais velho e histórico assentamento americano de colonos europeus nos Estados Unidos se chamou Jamestown, às margens do rio James, sob reinado homônimo e sob as vistas dos índios Powhatans. Em artigo de Duda Teixeira, na Veja, uma cadeia lógica abusiva atribui atos de canibalismo ao comunismo, uma mácula certamente à memória do comunismo e um non sequitur do encadeamento lógico reacionário, segundo a crítica de Juremir Machado em “O canibalismo comunista da Veja” (24.05.13) , no Correio do Povo.
A acusação de Juremir, que encontrou no caso uma bela oportunidade de desmascarar a Veja confirmando os adjetivos que de tão prolíficos já não podem ser senão o eco de um julgamento prévio: charlatanismo, pseudociência, estupidez, rigidez lógica, ridículo, besteirol, galhofa, sensacionalismo, e, por fim (cuspindo para cima), orientação ideológica. Muito adjetivos para um artigo tão curto. Ao que parece, os adjetivos querem encontrar uma confirmação no artigo, aquilo que na história são hipóteses explicativas que se jogam sobre os fatos para se confirmar com o testemunho constrangido destes.
Quando uma cadeia lógica é muito longa, quando essa cadeia é uma dedução de eventos históricos, as circunstâncias devem poder convencer qualquer um sério a atenuar os extremos do silogismo como causa e efeito mesmo para um caso bem localizado como havido em Jamestown. Mas, se é assim, do inverso se deve estar igualmente advertido: de uma narrativa histórica não se pode tirar encadeamentos lógicos rigorosos. Agora, ainda menos de um artigo de jornal ou revista, que resume da narrativa histórica a nuances de alguma relevância para a vida humana atual --- um tipo de uniformitarismo que tende a ver no passado o que nos parece importante hoje.
Juremir trocará o jornalismo da Veja pelo jornalismo do “Vejamos”, para em seguida não trazer nada que não seja seu próprio espectro de cores, agora mais justificado desde que vê no artigo da Veja o traço grosseiro da ideologia que ele descreverá melhor. E sem economizar luzes, carrega na intensidades das cores, vai do ultraje à infâmia, e enfim ao histrionismo que, já confiante, deixa solta a própria torpeza para atribuir a textos históricos (e menos que isso, jornalísticos) o encadeamento lógico extraído de um resumo. De um compacto artigo de revista, Juremir analisa reducionistamente o artigo em uma cadeia lógica ofensiva de tão rígida, para acusar Teixeira de tê-lo feito antes. O nexo causal de Juremir é rígido por que ele não chegou à semântica, limitando-se à "lógica". Duda Teixeira coloca em destaque a odiosa ideologia que Juremir denuncia no título “Os ossos do comunismo” e na chamada que afirma que o sistema de produção coletivo ineficiente produziu a penúria que acabou em canibalismo. Os termos dessa conclusão em Teixeira são “deu no que deu e “se não fosse”, para se referir ao sistema imposto pela Cia da Virgínia, que preferiu o sistema coletivo de produção, como o de uma cooperativa arrendada, por temor a uma súbita autonomia e independência dos colonos do outro lado do Atlântico. Explica-se com mais força o ultraje de Juremir, pois sua lógica tem a Veja como premissa maior de tudo que os comunistas atribuíam à maçonaria e aos judeus por sua catástrofe, seus horrores e olheiras.
Simplesmente, a conclusão de que o suposto proto-comunismo da primeira colônia americana, que levou a sua população de cerca de 200 assentados a morrer em cerca de 80% no inverno de 1609-10, e antes disso ao canibalismo, como descobriram pela evidência forense inscrita na testa de uma jovem de 14 anos, não é de Teixeira, nem da Veja, é dos historiadores citados pelo artigo. Aparentemente, Juremir não deu conta disso.
A crítica de Juremir está quase completamente “fundamentada” sobre a forma tosca dos resumos de jornais e artigos de revistas. Só o título “Os ossos do socialismo”, na verdade um elogio que Teixeira presta a essa ideologia, ao compará-lo a Jamestown, é que sugere qualquer coisa digna da crítica hiperbólica de Juremir ao artigo. A visão “desmistificadora” de Juremir, intoxicado da rigorosa lógica alheia, desvelou a conspiração da “estupidez” do ponto de vista da própria torpeza. Juremir, no final, sai com o sarcasmo de que o comunismo comedor de criancinhas está finalmente provado, mais cabalmente pois que “agora é científico” --- segundo a ciência de Teixeira que Juremir chamou de charlatanismo. Ou terá ele se referido aos historiadores? Não ficou claro. Na verdade não fica claro nem mesmo se Juremir percebeu que as teses do artigo são dos historiadores.
Mas um pouco mais incompreensível é sugerir alguma dúvida sobre a prova científica de que o regime coletivo de produção é um fracasso e leva à penúria, que é coisa já há muito uma verdade histórica que ninguém discute serialmente. (Talvez o pessoal do PT, com o tipo de seriedade de que fala Juremir.) Ninguém que sabe que não pode defender o comunismo, ainda que usando termos tolos como “reacionário”, defenderia algo assim, que seria como que se desdizer no mesmo parágrafo o que recém se acabara de dizer --- ou, ao introduzir duas conclusões antagônicas na mesma cadeia causal necessária. Mas, de fato, para um marxista isso não seria lá algo que se pudesse dizer que é uma contradição.
A reportagem faz uma relação direta entre comunismo e penúria, relação que pode estar errada para o caso de Jamestown, é, no entanto, verdadeira para os casos de Sistemas coletivos de produção (i.e., onde a iniciativa individual é mais e mais suprimida). Exceto, é claro, ao sistema escravagistas, como observou sem perceber a ironia o socialista utópico Richard Owen.
O uso do termo “reacionário” é grandemente pouco auspicioso da capacidade cognitiva de um jornalista. E a miséria se confirma, mas de revés. Não é que Juremir quase que tem razão na sua conclusão maior? Que saiba, e só sei de ouvir dizer, ele já teria acertado uma outra --- não sei se essa seria uma hipotética segunda vez. Se ele acerta, infelizmente seria pelas razões erradas. (Ô gente complicada.)
Tentando, sem muito esforço, encontrar por que Teixeira tira conclusões que não estão em outros periódicos, vê-se, como dá a fonte, ser a hipótese de alguns historiadores. Tem que ler melhor que Jurandir para perceber que essa hipótese pode ter mais fundamento do que parece pelo que pode ser afirmado num artigo de jornal. O jornalista da Veja resume assim: “Se não fosse o sistema de produção fracassado, a situação dificilmente teria chegado a esse ponto”. É uma tese. Juremir acerta e erra; a “inflexão” do texto supervaloriza (?) um aspecto, dado pelo historiador George Percy. O “charlatanismo”, se há algum, não é de Teixeira, menos ainda da Veja, como o considera Juremir, talvez por conveniência ou inversão histérica. Outra coisa, muito verossímil: “O coletivismo fora implantado pela Companhia da Virgínia, empresa responsável pela empreitada em Jamestown, por temor de que, se os colonos tivessem sua própria terra do outro lado do Atlântico, deixariam de enviar o que produziam para Londres”. É tão verossímil esse medo que ele antecipa profeticamente a “revolução” americana; e que, além disso, com mais razão poder-se-ia afirmar que o controle dos meios de produção causou a tragédia. Mas estas coisas escapam a Juremires. É pedir demais que Juremir acredite que a disposição de espírito dos homens mude quando se lhes impõem os meios de produção? Mas Marx acreditava nisso! Tanto acreditava que queria libertar o homem do trabalho “alienado” opressor. A utopia erra também, por outro lado, porque o trabalho meramente por dever exterior aliena igualmente. O tipo humano soviético está bem documentado pelos soviéticos exilados no primeiro caso; os do segundo caso estão exemplificados pelas comunidades utópicas ao longo da história, muitas tentadas na América.
O texto da Veja, assinado por Duda Teixeira, pode, no máximo, dar ênfase a um aspecto da crise do primeiro assentamento americano como causa maior da penúria, ainda assim não da antropofagia, como diz Juremir. Mas não foi isso que está dito. A lógica de Juremir usa muito de relações causais metonímicas, toma um sentido de um aspecto ou parte pelo todo e conclui triunfalmente --- aquilo que ele chamou de “segurança dos tolos encantados”.
A decisão”, conclui Teixeira pelas palavras de alguns historiadores, “despertou os traços hoje bem conhecidos do capitalismo americano: o empreendedorismo e a aptidão para a competição”. --- A imprecisão está no “despertou”, que é um figuração para aquilo que o historiador concluirá ser a observação das circunstâncias que historicamente mostraram que seriam, sobre o homem americano, os seus traços positivos. Como causa, é meramente figurativo, não tem valor científico. Mas eu não sei se o historiador seguiria esse raciocínio linear que Juremir atribui a Teixeira. Diz Juremir:A cadeia estabelecida é imperativa: o coletivismo levou à preguiça, que levou à improdutividade, que levou à fome, que levou ao canibalismo”. Essa simplificação da “conclusão reducionista” do artigo é um ponto de vista de Juremir, fruto de seu particular modo cognitivo de ser (em palavras exatas). Isso sempre acontece quando o cara em vez de querer saber a verdade, corre para a refutação da “inflexão” ideológica do outro, acabando apenas por deformação igual e de sentido contrário --- quando não, Freud explica, simplesmente projetando no adversário as suas graves limitações de leitura.
O coletivismo leva à massificação e à mediação da ação humana por símbolos exteriores (p. ex.,o sentido abstrato de grupo, ou como a confiança na ajuda exterior --- coisa que pode ser reconhecida também na fé ou sujeição a um sistema de produção coletivo); a improdutividade levar à fome e ao canibalismo é verdadeiro para casos extremos, o comunismo é, sim, o melhor exemplo disso. Juremir já fizera uma boa descrição da penúria de Cuba, quando lá esteve, e rejeita a experiência comunista soviética, só que não sabe por quê. “A saída viria com a propriedade privada”, faz graça da simplificação que é, de novo, de sua lavra --- mas não. A saída veio com a propriedade privada, não “viria”. É o que Juremir chamou de “estúpido” --- os fatos, no caso. De novo, diz Juremir: “Todos os demais aspectos de adaptação e de conjuntura são desconsiderados”. Não tenho essa certeza.
Vamos ajudar Juremir. As circunstâncias --- a “conjuntura” de Juremir ---, ao contrário do que leu o guapo, estão lá, pois diz o artigo: “Findo o comércio, começaram as hostilidades. 'Os índios sitiaram o forte. Ninguém podia sair para conseguir alimentos'”, segundo o historiador William Kelso. O inverno de 1609-10, como está observado, levou a uma condição extrema, cerca de 80%, segundo a reportagens reproduzida no Los Angeles Times, “Os tempos de penúria trouxeram uma convergência tripla de desastres: pouca provisão, sítio dos Powhatans, isolamento de ajuda externa”. Nessas circunstâncias, não foi o regime coletivo de produção que gerou o possível ato de canibalismo, mas os historiadores não negam que o sistema de produção deles não permitia reservas nem anuais, sem ajuda externa.
Para a pragmática [!] revista Veja, no coletivismo, entre trabalhar e comer seus semelhantes, as pessoas escolhem a segunda opção”. Não, Juremir; com um sistema onde eles eram tão somente peças, que não trabalhavam para si mesmos, nenhum fruto colhiam do próprio trabalho. O modo de trabalho durou alguns anos, até parecer a uns quantos algo que se poderiam negligenciar indolentemente o que jamais se tornava um fruto mais maduro na divisão dos lucros da Cia da Virgínia.
Cada um pode enfocar o que entende ser o ponto central de aspectos concorrentes: a real penúria produzida pelo comunismo científico --- do qual o caso de Jamestown pode ser um mal exemplo ---; ou a conclusão mágica de que esse fracasso levou ao capitalismo. Fracassos não geram sociedade melhores --- isso é um conceito místico do marxismo, o da “crise”. (Essa noção é já um traço da mentalidade brasileira, qualquer um a reconhece como correta.) O exemplo de Jamestown poderia estar mais para as comunidades protestantes como tantas que se tentaram por lá, pequenas e conservadoras. Muitas das quais deram certo, até onde podem em certo isolamento, como os anabatistas Amish, americanos, e os Vyg, na Rússia, que existiram por longevos 150 anos. Não parece ser nem esse o caso de Jamestown, mesmo quando colocado ao lado dos mais notáveis fracassos de comunidades socialistas utópicas.
Juremir afasta qualquer chance de poder estar defendendo o comunismo. Difícil é de entender por que alguém diria algo assim; difícil igualmente é entender por que alguém faria uma advertência a um artigo que faz essa relação, como acabou me chamando a atenção ter sido feito, supostamente coisa que o artigo de Juremir teria desmascarado. O comunismo acabou com toda a “conjuntura”, Ucrânia e China viveram verdadeira catástrofe de penúria pelo Sistema de produção coletivista --- isto é, alguém organizando o sistema de produção, administrando-o de modo que a iniciativa individual é quase anulada. Assim resumirá a dialética historiográfica de Juremir no caso de Jamestown:
“Um colono comeu a esposa grávida. Veja, enfim, descobriu a origem da expressão “comunista comedor de criancinha”. Na verdade, encontrou algo mais grave, o comunista comedor de feto. Sem contar que Duda Teixeira chegou ao elo perdido, a origem sempre procurada do capitalismo, o estalo: “Foi essa mudança, nascida do trauma de um inverno em que colonos caíram na selvageria que permitiu aos Estados Unidos se tornar o maior gerador de riqueza do planeta e o berço do capitalismo moderno”. O capitalismo nada mais é que uma reação ao canibalismo comunista. Agora é científico.”
Na verdade, esse foi apenas um sinal profético, já que o canibalismo produzido pelo comunismo só mais tarde ganhou a lúgubre fama que a propaganda contraditou, desacreditou, como faria também para a ciência comunista: na China entre 1958 e 1962, e na Ucrânia, no inverno de 1932-33, quando o governo soviético instalou pôsters com os dizeres: “Comer as suas crianças é um ato de barbárie”. Juremir não apenas não sabe porque disse “Longe de mim defender o comunismo”, como desconhece também os meios do charlatanismo soviético que nele já são mentalidade.
Também se relata a indolência para o trabalho dos colonos, mas a preguiça pode ter sido, com mais chance de ser verdadeiro, fruto da confiança na ajuda externa, que naquele ano faltou. Mas, olha que curioso, a diferença entre um verdadeiro sistema de produção coletiva para aquele de Jamestown é que no primeiro o sistema de produção é imposto de fora, pode dar certo ou errado (sempre deu errado, de novo, exceto em regimes escravagistas); enquanto no caso dos colonos à margem do Rio James, foi a confiança na ajuda externa que os pôs à mercê daquele inverno e dos índios. As conclusões de Duda Teixeira, que para Juremir não passam de charlatanismo ideológico, são o resultado de uma cabeça que pensa por metonímias --- é claro que, para a economia psicológica de quem apostou demais na mentalidade de esquerda, e já não pode perder. Resta o “surplus” da projeção no outro da própria torpeza. Assim Juremir disfarça, afirmando que não há relação direta do “coletivismo” algo tão específico quanto o canibalismo. Nem se dá ao trabalho de distinguir entre “coletivismo”, os meios coletivos de produção, isto é, nas mãos de alguém, do comunismo como ideologia. As refutações de Juremir são grosseiros desvio semântico trocando palavras não para não perceber a tensão polêmica da narrativa histórica, mas porque não vê nenhuma tensão pode até mesmo usar sinônimos por homófonos.
Não fosse grosseiro, eu diria: é a coisa mais idiota que li” --- arremata Juremir.
Tudo aqui se explica por um encadeamento causal psicológico bem rígido. Há uma máxima leninista que é uma lei cega do pensamento de esquerda: “Xingue-os [adversários] do que você é; acuse-os do que você faz”. Nunca falha.
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A conclusão dos historiadores pode até ser falsa para o caso de Jamestown, mas realmente não é o que se pode concluir para a penúria extrema que o comunismo sempre se mostrou altamente capaz de produzir. Juremir parece que quer rejeitar o comunismo e limpá-lo de uma referência que nem de longe é uma mera especulação, nem mesmo para Jamestown, quanto mais para o coletivismo universal que prega, ainda hoje, o comunismo. Se há aí uma cultura coletivista, é porque também há uma mentalidade coletivista, a qual, simbolicamente, habituou-se a canibalizar ex-comunistas para sobreviver. “Longe de mim defender o comunismo”, diz Juremir. Canibalismo bulímico, bem a propósito da inversão revolucionária e da psicologia histérica que joga sobre o outro os seus horrores. Vomita o passado, como um tipo de Cronos, para dizer que não comeu, e volta a comer. É monstro pior.
O símbolo da penúria de Jamestown deveria ser vista hoje na miséria brasileira, que tem vários pontos de coincidência funesta com o espírito e as circunstâncias que levaram à Rússia para o comunismo, a pseudociência, a fé no futuro como destino, a falta de cultura verdadeira, a idéia de revolução, o marxismo, a filosofia “crítica” (i.e., marxismo difamatório, sorrateiro e sabotador), o caráter do homem, fraco, dissimulado, oportunista, massificado, relativista, solene, e, é claro, com essa mentalidade que permeia as caraminholas de Juremir e de quem o lê.
Alguns links:

Jamestown settlers ate 14-year-old girl, researchers say”, Los Angeles Times.

History rant: Cannibalism at Jamestown — Why?”, The Blaze; sobre a tese “de” Duda Teixeira que Juremir chamou de charlatanismo.

First permanent British settlers in America  were CANNIBALS who even ate a 14 year old girl to survive deadly 1609 winter”, Mail Online.

Cannibal Colonists Devoured 14-Year-Old Girl At Jamestown”, Buzz Feed.