junho 30, 2007

Nunca vi ninguém ler na rua por aqui


"Leia... Leia!
O homem que trabalha, que minimamente ganha a vida, que leia! Leia em casa, no ônibus, no metrô. Leia naquela hora que os meios de comunicação devoram contando casos de polícia, bobagens incoerentes, mexericos e fatos muito menores, cuja confusão e abundância parecem feitas para aturdir e simplificar grosseiramente os espíritos".



Paul Valéry


junho 25, 2007

Renan K. e o processo que condenou a realidade

Quando Renan despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto”.

Este talvez pudesse ser um modo do advogado de Renan Calheiros iniciar a defesa do conspícuo senador. Se bem que não se possa esperar muita chance de escapar quando os julgadores são o próprio enredo opressor, que parece que é regido pelas parcas schakespeareanas. A literatura é outra, no entanto, é de um outro o mundo fantástico de que se fala. Não é o reino de Macbeth, é o mundo de Joseph K.. Renan denunciou ser alvo de um processo kafkiano; Calheiros é um personagem kafkiano. É “Kalheiros”. É, por tudo que lhe acusam, como Maluf e Lula, o Mantega, a Marta, ora bolas, e, de resto, ainda que nem todos sejam mortos por inseticida, que pese não ter-se detetizado Brasília desde a inauguração.

Seguiria o rábula, descrevendo a situação kafkiana, a apontar contra seus antigos aliados, vira-casacas, que agora o abandonam “de costas”, deitado desconfortavelmente na cama que lhe prepararam, tão sordidamente. Renan viu seu grande ventre exposto para o ar, asqueroso, repartido como se a cada um coubesse uma parte. A coberta curta sentiu-a escorregar de cima dele, enquanto num debater de pernas que podiam alcançar longe, arriscava-se a atingir ex-amigos e amigos, e, ainda, as paredes brancas de concreto armado de todo recinto.

O tal processo foi reclamado por Renan como coisa lá de quem sofre de esquizofrenia, e curioso é que o tenha feito lembrando-se d'O processo, que é, não por acidente, a representação de uma esquizofrenia persecutória que no mundo literário é recorrente, como na loucura do nobre Macbeth, na excitação dos sentidos, no pressentimento da culpa, que a consciência já não pega, e lhe vem de fora como força da natureza incontida, que é só de onde pode vir o conhecimento de quem o acusa. Não há quem denuncie Kafka por esquizofrenia ou síndrome da teoria da conspiração, mas é inegável que o autor já sofre (e ou percebe) esta de algum modo. Não é diferente com Renan, que, ao que parece, caiu na própria armadilha, e agora diz que ouve um autor ignoto que murmura nos corredores do Senado sua condenação.

Nunca, nenhum dos autores tentou impor a sua ficção à realidade – pelo contrário, é na realidade que encontraram a inspiração de suas obras. Mas o caso do senador é o oposto, que as provas que já dá por feitas, antes de o serem, impõem à realidade a urdidura da burocracia e do corporativismo, como se fosse o formalismo a malha mesma da realidade.

Autor de mau gosto, a literatura de auto-ajuda de Renan o enriqueceu de vacas magras, e agora, robustecidas pela ficção (pastando cogumelos que crescem no prórpio estrume), e tendo comido da carne de vaca, sofre os seus efeitos.

Levou aos doutores da lei todas as provas que lhe absolvem, como se isso não fosse uma tautologia, que só um enredo cochichado ao pé do ouvido do Juíz pelo prórpio autor para ter poder de convencimento. Forneceu os documentos que todos pediram, que o absolvem, mas, por algum desvio kafkiano, negam-os.

Os recursos da defesa, como se pode ver, parecem cultos, mas não querer separar a realidade da ficção formalista e corporativa, deixou a usual cara de Valete do senador com traços monalísicos. Desfaçatez que, por trás, joga para dentro da toca do coelho toda realidade e acaba, com duvidoso humor, quase só com o sorriso indisfarçado, que quer pairar no ar, irônico, sobre a constrangedora situação, como aquele gato do país das maravilhas.

Com a razão burocrática, entende que um documento fornecido dá prova do que se pede, desde que o que se pede tenha sido o documento de prova. Ora, se prova era o que queriam, de prova foram supridos; materialmente. Mas agora estas sutilezas de chegar aos detalhes do que há escrito, e como se não fôssemos todos analfabetos funcionais, ainda ousamos entender o que não está dito no documento, que nos leva a conhecer que há um certo lucro impossível, que não há em terras secas de vacas magras e loucas. Essa lógica todos conhecem, é a lógica fantástica que aufere lucros sem fim, como dantes, quando anões fabulosos do orçamento atestavam, que o tesouro que lhes atribuíam era fruto de dezenas de loterias ao acaso. Quem viu nisto algum despautério, ilógica ou improbabilidade estatística, parece que deve reconciliar-se com a verdade de Renan e tentar vacinar-se contra a fé alucinógena da realidade.

Para nosso conforto, Epitácio Cafeteira, ex-relator no Conselho de Ética, declarou que, depois de 72 horas de “uma busca terrível”, não encontrara nenhum documento que incriminasse o presidente do Senado – seu amigo e aliado. Um dia depois apareceu a reportagem acachapante do Jornal Nacional mostrando as notas inventadas e, em seguida – ato contínuo – a declaração de Renan que teria “autenticado” as notas e que agora estava tudo provado. Tem-se que admitir que a estratégia de defesa de Renan é boa. Ele fala de igual para igual com os acusadores do sr. K. d'O processo, usa argumentos com a mesma lógica.

Quem dera, imagine só, K. tivesse podido contar com o advogado de Renan!

A fábula se materializa. O sr. K. está sendo condenado por um processo que não há; como não há indícios, não há nada, só a verdade, a despeito de todo o senso da realidade ter-se perdido, a verdade absolvirá o senador no fim de tudo, ele acredita. Afinal de contas, a verdade está sempre no final de tudo para uns, senão terá sido encoberta; já para outros, a verdade não está no fim, mas no começo de tudo. A esta inversão Renan chamou de movimento esquizofrênico, de desligamento da realidade. Terá ele se referido ao vestíbulo do Senado, àquela casa, como o buraco do coelho do País das Maravilhas? A revista IstoÉ deu tudo com a mesma versão, culpando Kafka pelo processo insano. Segundo a Zero Hora deste últimos domingo, dia 24, os senadores “não vêem, indícios para a cassação” (p. 17). Devem estar querendo dizer que não há “elementos” legais para a cassação, que indício é coisa que não falta, sejam pelas vacas envolvidas, seja pela notas que engordaram as vacas e as vacinaram, tudo ao mesmos tempo. E nem dá para falar que Olavo Calheiros, irmão do do Sr. Kalheiros, foi pego pela “Operação Navalha” (p. 14).

Ora, se o processo é kafkiano, não pode haver mesmo indícios; por isto, talvez, a defesa seja tão “mandrake”. Similia similibus...

Esse nosso país é mesmo o país do Renan “Kalheiros”, que disse que sofria um processo kafkiano. Isto é, que a realidade que o põe acusado é esquizofrênica, que não é real. Nesse processo, só quem pode ser condeanda é a realidade. Por fim, o Sr. K., de O Processo, sentiria náuseas se um dia acordasse em Brasília; e Gregor Samsa, de A metamorfose, sentiria asco se um dia acordasse e se visse – Horror! – metamorfoseado em Renan Calheiros.


junho 18, 2007

Behaviorismo mágico-metafísico

Sabe aquela máxima do buzz lightyear, “Para o infinito e além”? Pois é; somente algo assim pode explicar uma Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo (“SEALOPRA”), que o governo do Sr. Lula pretende criar para mostrar que sabe que existem coisa para lá da fome.

De início, a salinha que irá ocupar na Acrópole o Sr. Unger vai incorporar o IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e o NAE - Núcleo de Assuntos Estratégicos. Pelo primeiro, entendo que se trata de pesquisa na área de economia, com o fim de descobrir qualquer princípio não teórico para usá-lo na prática, o que, em outras palavras, chama-se: tentativa e erro; pelo segundo, “assuntos estratégicos”, entendo que deva reunir as operações que, no conjunto, signifiquem alguma coisa maior que elas mesmas, e ambos, em comum, dariam conta de descobrir o que é exatamente este algo maior, e como ele deve se tornar em ações no presente.

É, em resumo, um núcleo mágico-metafísico, pois que qualquer um que queira entender a realidade, e começa pelo erro econômico, deverá encontrar, no fim de árduo trabalho sem sentido, qualquer aspecto do princípio de caos behaviorista. Não espanta, portanto, se a coordenação destes assuntos que se vai empreender, não dê bem lá uma ação inteira, mas apenas numa incerteza operacional que não é ainda outra coisa que (de novo) o início de todo este esforço do modo mais vão.

Não será necessário muito mais que uma pequena sala ou gabinete, como divisórias pré-moldadas, pois as ações de longo prazo permanecerão pobres teoricamente e as ações que elas ensejam, decidida a qualquer ora por exigência metodológica. Alexandre Garcia perguntou se esta secretaria não teria seu objeto contemplado pela Secretaria do Planejamento. Ora, mas é preciso dizer que não há ação já no mero planejamento, portanto, nada mais acertado que criar uma secretaria de ação ligada ao planejamento. Como defendo, no entanto, que pelo que se disse antes fica evidente, e que a dúvida de Garcia reforça, vê-se que no planejamento não há nenhum esforço de “futurologia” responsável, que teoricamente gere algum fruto, tudo no espírito da maior inaptidão para o futuro. Há-de se ter grande acuidade de visão para ver o óbvio ululante do que se mostra com toda força, como o futuro brasileiro é o presente indisfarçado. Significa dizer que a Secretaria Especial para Ações de Longo Prazo só pode ser a ação constante sobre o presente estado de coisa para a sua manutenção exatamente como está, exagerando o método. Ações de longo prazo é o jeito de falar de um governo que faz das “bolsas” commodity de prestígio no mercado flutuante e especulativo do discernimento moral, que é com o quê este mendecápodo do nosso Molusco-Mor marca a sua real ação sobre a vida do país.

Nação da chicana, da magia negra e do sacrifício ritual (exemplar) dos seus companheiros presos pegos e com disposição de falar, alguns mais, outros menos, e, até por isto, o rito muda entre os extremos José Dirceu e Celso Daniel.

A manutenção do estado de coisas atual é a promessa sempre renovada de um futuro, o que é bem de acordo com o “candidato” na presidência que há, a nos falar sobre o futuro, que é esta entidade mágico-metafísica da propaganda política que se auto-alimenta, substituto da bancarrota moral proferindo agouros otimistas.

Para que as ações de longo prazo possam fazer efeito, vamos ter que dar uma espichadinha no presente, senão elas podem se tornar logo-logo anacrônicas. Mas pelo andar da carruagem, digo, carroça, haverá ainda muito tempo para que a SEALOPRA trabalhe de modo decisivo para uma grande mudança da vida nacional, agindo fortemente na aquisição de uma base mágico-metafísica adequada à estabilidade de consciência aplacada pela repetição de fórmulas de embotamento, para uma realidade mais tranquila e mais feliz para todos.


junho 10, 2007

O melhor argumento contra o aborto


Com a Gisele defendendo o aborto, os não-abortistas não precisam mais se preocupar. É um anti-exemplo do que se queria dizer. Poucas vezes vi (...li) coisa que, tentando dizer num sentido, fosse tão eloqüente expressão do sentido oposto.

No jornal O Sul do dia 06/06/2007, “Caderno de Reportagens” (p. 4), a entrevista com a modelo Gisele Bündchen questionou-a sobre o aborto e outros assuntos, totalmente desinteressantes, mas, pelo menos neste ponto – é bem verdade –, trouxe algo fora do comum; segue:

O Brasil tem discutido muito o aborto ultimamente. Qual é a sua posição a respeito?

[Gisele] Sou a favor de a mulher fazer o que deseja de seu corpo. Fui a uma exposição em Nova York que mostrava o interior do corpo humano e as fases da gravidez. Até quatro meses de gravidez, não existe quase nada. É como um grãozinho. Portanto, acho que a mulher deve ter direito de decidir o que é melhor. Se ela acha que não tem dinheiro ou condição emocional para criar uma criança, como pode dar à luz? É claro que a prevenção é a melhor coisa, mas existem situações que escapam ao controle.

A Igreja Católica é a principal opositora do aborto no Brasil, bem como do uso de camisinha...

[Gisele] Proibir camisinha é ridículo, basta pensar nas várias doenças que são transmitidas sem ela. Quando a igreja fez suas leis, milhões de anos atrás, a mulher era virgem, o cara era virgem... Hoje em dia, ninguém mais casa virgem. Me mostra uma pessoa que seja virgem! Acho que é obrigatório usar camisinha. Como é possível não querer que se use camisinha e que também não se faça aborto? É impossível, desculpa.”


Na declaração da Gisele estão todos os melhores pontos para uma defesa da vida – expressão que, a propósito, é o oposto sardônico de quem entende ser um “direito de escolha” da mulher cometer o aborto porque “escapou”... do controle. Exemplo forte de quando o modo como se defende uma idéia é mais efetivo que o conteúdo que a defende. Coisa semelhante como quando se diz que se defende a paz a qualquer custo. Talvez seja por isso que a palavra no Hebreu para dizer paz diz, no seu lugar, “não-guerra” (o que parece que tem lá a sua razão de ser).

Direito de escolha é uma coisa bonita para não dizer que queremos ter o direito de não fazer nenhuma reflexão melhor sobre as conseqüências do que dizemos, fazemos ou simplesmente defendemos. A ênfase fica toda no “direito” – estas coisinhas inalienáveis que um Estado laico nos garante, pelo menos no discurso – e neste prodígio, que é uma conquista que não poderia ser maior se, uma vez nos fosse permitida a escolha, soubéssemos como usá-la além da autonomia de dar um passo livre para dentro de um buraco no meio da rua. Gisela mostra isso com a elegância que desfila nas passarelas.

Doutro modo, que a vida é uma coisa para além do que podemos decidir sob o pretexto de direitos individuais, que, de outra forma, produzem o status quo do direito irrestrito de todos fazerem o que bem entendem sem parar, como a Gisela, um só minuto para dar conta do que se vai dizer antes de abrir a boca. Direito à vida é uma expressão que se perde nela mesma para dizer, no geral, que a vida lá tem direito à vida, que é a tautologia humanista por excelência, ao contrário desta outra, anterior, que trata do direito de escolha, que como está no artigo 5° da Constituição da Terra de Santa Cruz, dá-nos o indefectível poder de decisão de não querer decidir ou, pelo inalienável direito à consciência, até abdicarmos dela. Para não termos consciência e nada, por ela, escolher.

Nem milhões de anos atrás as coisas poderiam ser muito diferentes, lá ou cá a vida continua uma coisa desconhecida. Quem soprou essa coisa por aqui ainda não deu as caras de tê-lo feito em outros lugares. Apesar disso não ser improvável vida em outros planetas (Gliese 581c quem nos diga) –, quando uma notícia aparece dizendo que talvez a vida (outra vez) possa ter surgido ainda antes do que se imaginava, as probabilidades ficam sem crédito e o que quer que seja que se diga fica sob suspeita, principalmente quando um grão de poeira interestelar de pico-magnitude (~0,000000001 mm), por mais bela que seja, resolve que depois de quatro meses o embrião ainda quase não há como vê-lo e, por isto, dá nada “decidir” se ele existe ou não.

Ora – Pelas penugens do T-Rex! –, decidir sobre se há ou não vida é coisa pr'outros mundos, que aqui, que se saiba, é só chutar uma moita que pula bicho de todo lado – mesmo que a gente não os veja.


junho 08, 2007

A torpe carantonha da imprensa esportiva

Num dos programas mais patéticos dos últimos tempos, sem ter do que falar, o jornalista e âncora do programa Terceiro Tempo da Rede Record, Milton Neves, bem como toda a claque de “comentaristas”, apelaram para a chacota e à tática “bate e assopra” contra os Gaúchos para mostrar toda frustração com a classificação do Grêmio de Porto Alegre sobre o Santos Futebol Clube na Taça Libertadores da América. O assunto aqui não é, todavia, o futebol, mas coisa mais séria. Com alguma divergência, é bem verdade, mas mantendo-se, na média, atrás de assuntos menores, o programa teceu o melhor retrato de sua índole. Como um Dorian Gray que já não pode esconder sua fealdade, surpreende que não seja objeto de estudos sérios as mazelas dessa imprensa pasquimiesca. Todas as faltas éticas começam com estas inconsciências malandras e com a negligência de se apontá-las sempre que elas aparecem.

Mantém apenas um verniz de jornalismo, que os seus programas de esporte apresentam, e por baixo fica aquela volumosa carantonha malformada pela corrupção a inverter sentidos e criar o melhor futebol do mundo que o patrocinador quer jogar. E isso fica claro, quando ele declarou recentemente, como está no post “Formadores de opinião vendida” do dia 20/05/07: Torci para o São Paulo, Sim...”. Disse ele que pensou em “ter assunto” para falar, que, para ele, é o que interessa.

O programa do dia 07 de junho último do apresentador desfiou torpeza, negligenciou qualquer fato jornalístico, comentou opiniões magoadas e balbucios canhestros (e, certamente, negócios frustrados). Agarrados às declarações desaforadas dos diretores gremistas (não sem a contraparte de barbarismo, além do surrupio de ingressos à torcida gremista), abstraídas todas as verdadeiras circunstâncias, o que desqualifica a parte jornalísitca e cai para o desabafo e à mera contrariedade.

Ora, para uma semi-final de Libertadores da América, um dos campeonatos mais meritórios que um clube pode almejar, e para um programa que se quer esportivo, com ênfase no futebol, fica claro que o que o interessa estava em outro lugar. O Santos na final da Libertadores daria “muito assunto” ao sr. Milton Neves, como poderia querer-se dele outra coisa? Que ele próprio, talvez ingenuamente (ou sem ter como evitá-lo) o declara por incontáveis vezes. No demais, há que ser cego para, poucos minutos assistindo ao programa, não ter cristalizada a natureza do seu âncora.

Mas, é bom notar, que num país onde nega-se uma assinatura quase no ato, não é de se duvidar de nada – coisa para lá de terrível nas suas conseqüências para a consciência do cidadão e para a educação de toda a gente.

E não é coisa que já não se tenha observado anteriormente. Veja-se, por exemplo, o artigo “Publicidade 10 x 5 Debate”, do Observatório da Imprensa, que relata um programa picotado pela publicidade, sem que se apresente mais que papo fácil entre um reclame e outro. O autor do artigo, Antonio Carlos Teixeira, escreve, ao final:

Só depois de duas horas assistindo a mais propaganda do que a debate percebi que tinha sido usado indevidamente pela emissora e, por que não dizer, pelos anunciantes”.

Outro exemplo, do mesmo site de crítica jornalística, é o caso em que apressadamente divulgou-se que a FIFA teria reconhecido um título do Palmeniras de 1951, como primeiro Campeão Mundial Interclubes, mas a história não era bem essa. De qualquer sorte, Milton Neves foi um dos que mais que rapidamente deu como “fato” o que, fosse ou não verdadeiro, já era “assunto” dos que o interessam, de grande apelo. No artigo “FIFA & Palmeiras – As afoitezas do jornalismo esportivo”, Walter Falceta Jr. – que chama Neves de “jornalista e publicitário” – escreve:

Com raras exceções, é fato que a cobertura esportiva enveredou pelo caminho da celebração farrenta, descuidando da checagem das informações, ainda que sobrassem indícios de que se tratava de uma decisão não-definitiva”.

Fica claro que a notícia era assunto mais que valioso, para que se tivess escrúpulos com o trabalho jornalísitico. Que estas coisas sejam assim, agora, se antes não foram percebidas (veja-se aqui), é para que já não devam mais ser consideradas para os casos em que a justiça é acionada para calar os detratores desta máquina de publicidade que é uma praga da imprensa de massa.




junho 01, 2007

Desolação por aqui e além


Pontos de fuga em fila indiana... no horizonte.
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Com o sol ao alto, na extrema direita, tênue em comparação com o sol terrestre, tem-se uma difusa luz impessoal, despersonalizada, uma luz estranhamente amoral, envolvido por núvens tênues e uma atmosfera ocre; a percepção difícil das linhas de fuga alterna a imensidão com o consolo de algumas dunas familiares na paisagem de Marte.
Como único firmamente extraterreno conhecido, esta imagem, se olhada com atenção, pode causar a mesma impressão da descrição feita por H. P. Lovecraft, do homem errante na superfície de um planeta morto, que, mergulhado em noite perpétua – a noite de uma civilização fóssil –, faz aparecer um poderoso “sentimento de alienação cósmica, mistério sufocante e expectativa angustiosa que não tem paralelo...”. (Comentário feito para O país da noite (1912), de Hodgson, em O horror sobrenatural na literatura, 1945).
* * *

Gliese 581c...
Tão artificial quanto o nome, o nascer do sol na superfície do primeiro planeta extrasolar dscoberto recentemente orbitando em uma “zona habitável” pode, como na imagem, trazer à luz vermelha água em estado líquido.
A imagem é arte, mas o que sugere é ambíguo, maravilhoso e temível. O medonho horizonte marciano é, no entanto, até pela vivacidade, de uma solidão mais perturbadora que paisagens virtuais podem chegar a produzir.
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Sua órbita está mais próxima de um sol que Mercúrio; tem cinco vezes a massa da Terra, e pode, até, abrigar oceanos e vida neles.
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Em busca de outros mundos, surgem-nos problemas: às vezes os achamos!