agosto 20, 2007

Os termos em metástase

(Ou, mil maneiras de se matar um cidadão)

Quem diria que ao entrar em um avião se pudesse morrer de metáfora! Verve da delinqüência nacional, a metáfora verborrágica é como o câncer em metástase. Alastra-se em profusão a ponto mesmo de causar um fenômeno curiosíssimo, no qual o afetado é levado a declarar esquizofrênica a realidade dos sianais que apontam o seu estado malsão.

O tal câncer, por certo, deve ter alguma coisa que o desencadeie. Suspeitaria de vírus, e não duvido que venha de um hospedeiro marinho, um molusco do pacífico de saliva infecta. Assim, o adoentado de metáfora mortifica a realidade com uma música de elevador, que parece que vem de todo lugar e por ela entende que está tudo bem. A normalidade é de uma obviedade a toda prova. Como se adorassem um novo deus, cujos poderes facultam a realidade e prometem uma terra maravilhosa para onde vão os justos, isto é, aqueles que estão “ao lado da verdade”. Uma terra sem pepinos, ou outras metáforas leguminosas semelhantes. Quem diria que a crise na agroindústria iria atingir a aviação civil! Por outro lado, a mesma causa já levou a pecuária de Alagoas a grandes lucros. Esse vírus é uma doença da vaca louca ao contrário.

Dá para buscar uma explicação no fato de a mãe do presidente Lula ter nascido analfabeta (!). Ora, se sabe, quando faltam as palavras ou se carece de habilidade para “acolherar” as letrinhas, ocorrer naturalmente o uso de tropos, como os da vasta classe das metáforas e quejandos, para representar nossas impressões da realidade. Mas o problema é quando o processo de metaforização se torna em hábito, abstraindo pela ingenuidade toda figuração. E vira só em algoritmo. Aí dá nisso, toda vez que alguma coisa escapa da compreensão, tira-se uma metáfora da cartola e se a traz à carga, que lhe achata a algum patamar aceitável (e conveniente).

Outras metáforas são proféticas, como a metáfora das velhinhas dos precatórios, que teciam um o cachecol preto de 200 metros, parece, pelo que declarou um dos filhos, queriam figurar a paciência infinita delas pelos seus diereitos, como a Rapunzel ao esperar os cabelos crescerem, e infinito é a melhor palavra para esta paciência “além da vida”.

A inocência dos analfabetos leva-os a confeccionar metáforas – se bem que não só a isto –, e não me surpreenderia se elas estivessem mesmo, nesse estágio, no processo de geração das superstições. Sem ter me detido muito nisso, me parece que os processos vitais tem a curiosa natureza de não poderem ser menos do que são. Assim, quem não pensa em metafísica acaba pensado por ela; quem não domina a sua língua-mãe, é dominado por ela. Muito freudiano? Facilmente leva a um tipo de afetação histriônica que viceja em gente já adulta. Os gnósticos, por exemplo, tendem a ver na má sorte, azar; já os agnósticos não podem recorrer ao azar para escapar às responsabilidades – ou, bem, às conseqüências. Superstição é quando o sentido figurado do azar ganha autonomia para além da sorte, como funesto agouro. Mas um agouro das coisas pequenininhas, das explicações de coisas comezinhas. Quando chegam às coisas grandes da vida, bem, daí tratar-se-ão já de monstrinhos.

O que se quer é pegar a realidade, mas o que se tem é uma razão frágil, é uma razão ingênua, e uma proto-racionalidade. Não é assim, por acaso? Por exemplo, as aranhas tecem teias com uma proteína viscosa que serviria perfeitamente de modo figurado do poder intrínseco das metáforas. Pega-se, por elas, pelo padrão de alguns nós, um punhado de energia vital, uns pacotinhos de energia; alguma coisa da realidade viva, e a deixa como as moscas, para serem devoradas mais tarde, mumificadas, mas já sem conteúdo concreto, só vísceras líquidas sobram. E líquidos se digerem melhor. Esturricada, a realidade fica virada só em casca, daí vai para o mausoléu como uma lembrança medonha de si mesma.

As cotas discriminatórias também são “metafóricas”, se bem que aqui se trate mais de uma alegoria social das raças. As cotas “empacotam” o maldisfarçado conceito de “raça” pelo de “classe” social. A história das raças já esteve muito ligada à superstição de povos míticos, a de classe, ao que parece, já de muito everedou pelo mesmo caminho. Palavreado que se impõe à realidade e, se por acaso lhe falta algo equivalente nesta, trata-se logo de impô-lo. Na falta de raça, servem as classes, e pela política das classes, vêm as cotas. Quem disse que raça não existe! Não existe? Inventa-se.

Não se trata a bem da verdade de fenômenos da linguagem, mas de xenoglossia. É produzida por infecção viral e não pela cultutura. (Isto é, “viral” é qualquer coisa viva-morta que induz a uma condição vital semelhante a do agente infeccioso.) É uma doença do espírito, me parece, não da cultura; a cultura é onde se dá a sintomatologia apenas. As metáforas são perigosas, quando proliferam feito câncer em metástase dissolvem a realidade como um mantra, que de tanto repetir-se já nem se pode mais perceber os termos, e faz parecer a ladainha já a própria verdade nas formas trocadas da rigidez mental por rigor e da inanição por temperança.

O câncer das metáforas em metástase produz o fenômeno da xenoglossia, os termos ababelados em processo cascata de empacotamento da realidade para esvaziar esta de sentido e dar sentido mesmo à falta de sentido. A propósito, outro sintoma desta afecção do espírito é o processo mesmo como quiproquó metafórico de poderes mágicos para além da compreensão. E já não é mais nem preciso querer mudar a realidade, que é coisa muito difícil mesmo, e já se ouve no ar a música de elevador, apaziguadora...


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