agosto 11, 2007

Ídolos morais

Chame-se a Ana Paula, a bandeirinha, de potranca, e vai parecer machismo, mas se algo equivalente se disser de um homem, ninguém dirá que garanhão é aquele que dá coice. Donjuanismo não é exatamente a melhor caráter para um jogador de futebol, nem por isso se desqualifica o sujeito para jogar futebol. E às vezes até atrapalha. Mas se, pelo contrário, ele pega fama de “frouxo”, a coisa desagrada. É claro que estas coisas estão carregadas moralmente, e não descrevem nenhum traço da personalidade intrínseco ao sujeito. Ligam valores que são signos universais de força, e o que mais signifique o comportamento adequado para enfrentar uma disputa.

Um general sem moral com as tropas perde a guerra já no dia anterior à batalha principal por descrédito. Times de futebol mostram o mesmo fenômeno. Acusar um general romano, na época dos césares, de ter se deitado com um garoto antes de uma batalha, para obter alguma vantagem nisso, não teria o efeito desejado pelo inimigo. Chamá-lo de covarde e reportar-se a um fato de sua vida que o vexe, e ter-se-á alcançado o objetivo.

Há mesmo uma certa confusão entre a moralidade da hombridade cobrada para jogos masculinos como futebol, as figuras de linguagem que significam força ou a falta dela e o comportamento dos quais estas figuras de linguagem representam e carregam moralmente.

A decisão do juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, de São Paulo, Comarca da Capital, para a Queixa-Crime do jogador de futebol Richarlyson, reconhecido por um dirigente do Palmeiras como gay, motivou grande confusão. Mas a questão era se houve ou não “injúria”, onde se mede o dano sofrido por alguém por difamação, difamação injuriosa, isto é, do que é contra o direito.

Aline Pinheiro no site Consultor Jurídico descreveu assim o começo da coisa toda:

A polêmica “Richarlyson é gay ou não” começou quando o jornal Agora São Paulo noticiou que um jogador de futebol estava negociando com o Fantástico, programa da TV Globo, para revelar no ar a sua homossexualidade. Em junho, durante o programa Debate Bola, da TV Record, José Cyrillo Júnior foi questionado se o tal jogador homossexual era do Palmeiras. Cyrillo se saiu com essa: “O Richarlyson quase foi do Palmeiras”.

O caso era de averiguação de injúria, o que passava pela declaração feita a público pelo diretor do Palmeiras, portanto, se ele agiu de forma injuriosa ou não. Pelo que se sabe, deve haver cuidado em se declarar sobre a condição privada, de foro íntimo, individual, que pode trazer conseqüências ligadas a um contexto social discriminatório possível. Pode haver dano nestes casos à imagem pública ou pessoal.

Mas, depois do despacho do juiz, segundo Pinheiro, “[o] advogado de Richarlyson, Renato Salge, informa que ingressou com Reclamação no CNJ pedindo a punição do juiz por homofobia e intolerância”. Não só parece como é, de fato, um pouco demais. Imputa-se com muita facilidade crime a partir de expressões consagradas pelo “politicamente correto” sem que elas tenham base real ou legal. Ora, não houve intolerância, mas “tolerância”, que é um jeito de dizer “eles existem” e que fiquem entre os seus. É preconceito por estupidez, não que o preconceito caracterize estupidez, mas que a estupidez leva ao preconceito cego, que é por falta do hábito de pensar antes de falar ou, ao sentir assim, antes de pensar ou de agir. Já por homofobia dava para contra-atacar com “imputação de falso crime”, já que homofobia é o que aconteceu estes dias, se não me engano, em São Paulo, quando sob o pretexto de que um travesti tivesse cantado um rapagão, este, bem como toda a sua turminha, espancaram-no e atearam fogo com gasolina. Isso é que é homofobia.

A questão não era se o jogador era ou não homossexual ou se os adictos desse tipo de acarinhamento podem ou não jogar futebol, pela condição moral que o esporte exige, e isto independe se para homens ou para mulheres. Não vale por acaso o mesmo princípio da “hombridade” para o futebol feminino?

Esta força moral não é de um gênero ao que parece. No Gênesis 2:23 trata-se a mulher, carne da carne de Adão, como “Varoa”, o que, é óbvio, não se trata de dizer que ela é do mesmo gênero, mas de igual natureza – ou, per absurdum, que ela seja afeita a flertes com outras moças, o que, neste caso, penso eu, caracterizaria incesto, ora bolas. A etimologia vem do germânico baro, “homem livre”, refere, como substantivo, ao sexo masculino, ao indivíduo adulto, e a seus atributos: esforçado, valoroso, enérgico, forte, de uma força que é forte também a Varoa.

Nesse sentido, por acaso encontra-se mais hombridade em Renan Calheiros que em Richarlyson por ter aquele ido à cama com Mônica Veloso?

Já se se pensar por fidelidade à equipe, talvez Renan deva ser colocado entre aqueles indivíduos mais dignos de confiança, não parece que é assim? Mas no caso do Renan, será que o sentido de equipe é fruto nele de valores intrínsecos ao seu caráter ou está em função de outros valores? De interesses seus, comuns com o poder. Há hombridade neste senhor, há caráter, valor, força moral, há estas coisas que qualificam alguém como homem adulto?

Há categorias nas Pára-Olimpíadas para paralisia cerebral, mas nenhuma categoria existe para aqueles que manifestam “paralisia moral”, que é mesmo, em qualquer esporte, critério de seleção dos únicos que são aptos aos jogos.

Mas o juiz Maximiano, ao que parece, entenderia que Renan é dotado de tudo para jogar futebol, por não levar em conta estas distinções essenciais.

O senador manteria fidelidade mesmo quando algo ilícito tivesse ocorrido, mesmo que o time não o tivesse pedido por isto. Há quem pense que esta pequenas traições à verdade podem não dar muito certo para a unidade do grupo, outras vezes, no entanto, um erro do mediador consentido (calado) por todos traz vantagem. Mas o ato escamoteado, a pequena traição, a desonra, etc., estas coisas acabam por sabotar por dentro uma equipe.

Seria, então, o homossexualismo um caráter incompatível com o futebol? Duas coisas: 1 – (a) o comportamento homossexual característico, desenvolvido na intimidade, não tem implicação no jogo, mas (b) a exceção pode ser o ambiente de vestiário, por constrangimento de indivíduos que pensem ou sintam como o juiz; 2 – ou admite-se que há qualquer traço de personalidade nos adictos do homossexualismo ou visível no seu comportamento que o incompatibilize com a prática do futebol, que reflete certa incompatibilidade moral necessária.

Sobre 1a nada há a dizer; 1b é, indubitavelmente, verdadeiro, até por declaração quase unânime de dirigentes e jogadores, que a coisa gera, no mínimo, constrangimento. Nada demonstra, no entanto, que este desconforto de vestiário seja inevitável.

Até onde saiba, não há nenhum princípio moral que implique a incompatibilidade com a hombridade ou com a honradez que se apregoa nos campos que possa confirmar 2, senão sendo este verdadeiro, implicaria necessariamente em 1b.

Se sabe que a vida dos grandes imperadores romanos, muitos deles líderes natos em batalhas, não tinha uma orientação sexual unívoca, era mesmo de um profundo desregramento. Atos de coragem e capacidade liderando homens em batalhas prova que não há ligação direta de uma coisa com outra. Não quer dizer, por outro lado, que o convívio privado de uma grupo de homens numa tarefa ou em sociedade não se torne deletério com o tempo. Quando Constantino, antes de tornar-se imperador, viu a bravura com que os cristãos negavam-se a abandonar sua crença, mesmo diante de penas físicas e sociais, isso o impressionou. Não é desconhecido, além disso, que os princípios do estoicismo, de uma moralidade rígida, tenham exercido influência sobre o comportamento da cristandade e comovido mesmo alguns romanos desde muito.

Ora, é possível tirar do que se disse que nenhum comportamento íntimo seja influência suficiente para garantir que o adicto do homossexualismo na intimidade seja necessariamente incompatível com a prática do futebol. E mais, que os valores morais que o futebol exige, hombridade, coragem, lealdade, inteligência (temperança), que são valores práticos para a vida, algumas vezes considerados como valores transcendentes à própria vida, lhes sejam incompatíveis.

*

Quando, por tudo isto, se vê a bandeirinha Ana Paula sendo punida a apitar jogos na 3ª divisão por ter supostamente errado, menos que outros homens piores, e lembrando das declarações horrorosas do ex-presidente do Botafogo, Carlos Augusto Montenegro, vê-se que as qualidades do varão não são atributo certo de qualquer homem. Pelo contrário, foi Ana Paula quem exerceu na 3ª divisão seu ofício com a mesma dignidade com que fazia na 1ª. Faltava só agora, invertendo todo sentido moral, acusá-la de ser de uma horrorosa masculinidade, já de muito perdida por gente como o senhor Montenegro. A “virilidade” de Ana Paula é aquela que liga dignidade, lealdade, honradez, coragem, inteligência (temperança), todos substantivos femininos, todas donselas a serem conquistadas, aos valores desejáveis.

As suspeitas sobre a feminilidade de Ana Paula estão desfeitas, da de Mônica Veloso nunca se duvidou, já do caráter de uma e outra, a mesma certeza não existe. Por uma estreita analogia, a comparação cabe a mesma entre Richarlyson e Renan Calheiros.

Aí, me parece, está o maior erro do juiz Maximiano, de Montenegro e tantos outros, quando atribuem estes valores à testosterona, ao cheiro das axilas, a pêlos, à intimidação, à rispidez, e, no entanto, é a jogada técnica, plasticamente perfeita, que deita ao campo a rispidez do carrinho, e sai incólume, que é de grande exultação do público.

Insultar de “veado” a alguém tem mais força que descrever o suposto fato que o caracteriza. Se fosse insultado literalmente, “Você tem relações na tua intimidade com outro homem!”, ou coisa mais grosseira, bradado publicamente, para tornar vergonhosa a indignidade, não teria a mesma força. Mas por que se escolhe uma expressão figurada para isto? Ora, é porque o insulto é moral, e não uma descrição de um fato, mesmo que fosse verdadeiro. Daí não estranha se se chegar a odiar o veado campeiro, a espécie brasileira, porque já não se consegue distinguir entre o insulto figurado, moralmente carregado, e a descrição de um fato. Mas se for entendido dessa maneira, não há como entender que um homossexual, pelo que o caracteriza, seja impedido de jogar bom futebol. Mas por fim é o que acontece.

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Da decisão, dá para dizer o seguinte:

Aceitando o que diz o site Consultor Jurídico, houve sim identificação do “querelante” como homossexual (§2º). Mas isso não significa que o despacho do §1º seja um equívoco. No §3º ele omite uma terceira alternativa: “3.C” – sendo homossexual, ele tem o direito [legal] de, por riscos possíveis, em função de represálias sociais, bem como por dano à imagem pública ou pessoal, de optar quando e se o interessado se declarar nesta condição... O juiz teria que atender à queixa-crime. Claro que, para isto, parece-me necessário averiguar o que foi pedido exatamente na queixa-crime, e o que poderia se saber mais nesse sentido.

Por fim, a coisa toda desanda na última frase de 3.B, onde o juíz diz “Nesta hipótese, porém...”. Esse “porém” mata! Como pode admitir-se que essa “hipótese” impeça alguém de exercer o seu ofício? Mas o caso não é bem esse, mas a opinião que o juiz expressa com a força de uma decisão ex catedra. Opinião, quando deveria ser decisão nos termos da autoridade que lhe cabe. Ora, a resposta do atleta deveria ter sido dada, sim, no mesmo programa, à altura, o que até parece que seria mais digno que ir à justiça.

Mas algumas outras coisas são inglórias: dizer que Carlos Alberto Torres, do tipo machão montenegrino, que já achincalhou aos berros de “negro sujo” o juiz de futebol Paulo César de Oliveira, dando-o como exemplo contra impensáveis ídolos homossexuais, e não saber que hombridade eles tem pouca, se tomados como testemunhos os seus atos recentes (§5º), é abusar daquela truculência que leva alguém a pensar que hombridade no esporte é só ter um comportamento sexual “hétero” (sic.).

O §4º tem alguma razão, mas vá ser ruim assim longe para não saber responder a tal bobagem. Do modo como ele se defende, fica claro que era de conhecimento público que ele era homossexual e, portanto, que a queixa-crime não procede (o §1º do despacho). Não fosse isso, por que as citações em defesa dos homossexuais? Cacoete politicamente correto do advogado?

A partir do §8º, o juiz é simplório até quando faz graça.

No §11º, aí sim, o juiz está coberto de razão, pois que não vai demorar para se impor cota contra a “discriminação” gay nos clubes, que é coisa com que a retórica politicamente correta adora se lambuzar e espalhar esta incontinência para todo lado.

Por fim (§15º), será mesmo que os jogadores de futebol podem ser ídolos de alguma criança?

O juíz Maximiano tropeçou na própria boçalidade, que é coisa que não se deveria admitir nem de jogador de futebol, mas parece que em todo lugar os tais agradam sempre bem mais que a própria bandeirinha Ana Paula.


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