outubro 28, 2010

A falsificação da razão


por
Larry Anderson
Vivemos em um maravilhoso mundo de linguagem. A maioria de nós está advertido de que as palavras têm [algum] sentido [pelo menos]. Mas muitos de nós têm perdido a pista do fato de que não a estamos usando as palavras da maneira mais apropriada, ou pelo menos (como na famosa cena do Monty Python), se não as colocamos “na sua ordem correta”, nossas considerações tendem a ficar sem sentido.
Este é um tremendo problema filosófico, causado --- diga-se sem mais --- pelos próprios filósofos. Cuidadosos estudantes de filosofia sabem que a ruminação dos filósofos de envergadura mundial prepara o cenário de como as palavras serão usadas [estabelecendo um padrão] bem como do eventual abuso por intelectuais, educadores, políticos e, finalmente, pelo resto de nós.
Vamos examinar três conceitos simples: o mau uso do pronome da primeira pessoa do singular (o “eu”), a exploração de “palavras-sucesso” (tais como “conhecimento” --- “palavras-sucesso” serão explicadas abaixo) e o mau uso dos pronomes pessoais no plural (e.g., “nós”). Esta investigação irá nos ajudar a compreender como as classes política e intelectual empregam ostensivamente errado a linguagem para seu benefício --- e em nossa desvantagem.
Para os nossos educadores “pós-modernos”, políticos e intelectuais, o culpado inicial no abuso do pronome pessoal no singular foi René Descartes. Para dizê-lo suavemente, Descartes tinha a si mesmo em alta conta. Em dois parágrafos breves, seguindo pela abertura introdutória do seu Discurso do Método, Descartes maneja o pronome da primeira pessoa do singular cerca de trinta vezes. E ele estava apenas começando a falar de si mesmo [i].
O filósofo australiano David Stove foi capaz de descrever o real método de Descartes:
Descartes pretendeu, por certo, que o seu “eu”, “mim” filosóficos e que tais, fossem a mais genuína peça autobiográfica. … Mas René Descrates, sabendo que Mersenne está à sua porta, preparou-se para lançar uma campanha de propaganda, sabendo que o que ele estava escrevendo seria lido … por cada pessoa estudada na Europa --- este homem escreve como se apenas ele existisse, e finge que o é! Este espetáculo é tão desprezível quanto ridículo. … [ii] [ênfase no original].
O serviço em benefício próprio de Descartes prosperou desde então. A obra inteira do atual presidente dos Estados Unidos consiste em duas autobiografias. Ambos os livros chafurdam na dúvida e na obsessiva autoanálise [1].
Immanuel Kant, que admirava Descartes, levaria essa contribuição ao nível mais alto do narcisismo político e filosófico. Mas Kant acrescentaria uma nova guinada. Ele não apenas abusava dos pronomes, mas ele adulteraria as palavras-sucesso.
David Stove dá estes exemplos de “palavras-sucesso”:
… “prova” é uma palavra-sucesso, enquanto “acreditar” não é... [assim] você pode provar apenas o que é verdadeiro, mas você pode acreditar no que não é verdadeiro. “Refutar” é uma palavra-sucesso, desde que significa “provar a falsidade de”; “negar” não, desde que significa apenas “assegurar a falsidade de”. … Mas uma palavra-sucesso pode ser usada de tal modo … que sua implicação de sucesso seja cancelada ou “neutralizada” [iii].
Kant postulou temerariamente (por escrito), “Eu devo, portanto, abolir o conhecimento que deixa espaço para a fé [iv]” [ênfase do autor]. Notar o mal em ambos, o pronome pessoal “eu” e nas duas palavras-sucesso “abolir” e “conhecimento” [v].
Immanuel Kant (ou qualquer outro ser humano) não pode abolir o conhecimento mais do que poderia fazer o sol nascer no oeste. Ainda mais, o idealismo transcendental de Kant tem que dar espaço para o noumena (o que não podemos ver) e, ao mesmo tempo, tentar explicar os fenômenos (o que podemos ver). A solução de Kant foi uma dupla anulação de suas duas palavras-sucesso. Ele queria “abolir o conhecimento...”. O que Kant verdadeiramente fez, conduzindo-se por um tal apelo ridículo, foi demolir o senso comum e continuar a lenta derrocada da razão [2].
Indo, num corte rápido à frente, até o presidente G. W. Bush, as grosserias políticas de seu pai (que se vê melhor em “Leia meus lábios: não a mais impostos”) são pálidas em comparação a vindicação de Bush filho, “Eu abandonei os princípios do livre-mercado para salvar o sistema de livre-mercado” [ênfase acrescentada].
Bush ter assinalado o abandono dos fundamentos do livre-mercado para salvar o livre-mercado, recai exatamente sobre a mesma dissimulação linguística tal como a vemos na afirmação de Immanuel Kant sobre a “abolição do conhecimento”. Bush usou o pronome “eu” contraído --- no inglês, “I've”, [I have, “eu tenho”]. Significa que Bush acredita que ele tinha o poder de salvar os princípios do livre mercado ao abandoná-los. Esta ultrajante declaração foi esvaziada pela neutralização de Bush das palavras-sucesso “abandonar” e “salvar” [vi].
O livre mercado que é “abandonado” não é “salvo” --- eles são exterminados. Nem mesmo o presidente dos Estado Unidos tem o poder de abandonar o livre mercado, a menos que ele se torne um ditador.
A afirmação de Bush simplesmente não pode querer dizer o que as palavras querem dizer (e o que Bush pareceu pensar que as palavras significavam onde ele as disse). Assim, utilizando a “fala ambígua”, um recurso tipicamente intelectualista, Bush tentou cancelar, ou neutralizar, o sentido das palavras-sucesso “abandonar” e “salvar”. Suas palavras obviamente falham ao dizer qualquer coisa sobre o mundo real --- onde o o mercado livre não tem sido nem abandonado, nem salvo. Ao invés, o livre mercado está adoentado com mais ingerência, distorções e regulamentações governamentais.
O problema com a linguagem está por todo lado. Somos tão usados por intelectuais, políticos e pela grande mídia, que adotam o uso de palavras-sucesso, que nós raramente percebemos a “fala dupla” que elas contém. Charlie Rangel --- ou, senão, é como diremos --- “refutou” as alegações de impropriedade no uso da linguagem. “Refutar”, como visto acima, é uma palavra-sucesso. Mas alguém como Christine O'Donnell --- seus críticos irão sem dúvida censurar --- “negou” as acusações que contra ela se lançavam. “Negarnão é um palavra-sucesso. Charlie é clara; Christine está dando desculpas... senão, a narrativa liberal [3] seria revelada.
Mantenha um olho aberto contra estes abusos. A linguagem das elites intectuais está repleta de desvios desse tipo --- e a maioria dos conservadores está desavisada desse fato.
Um outro exemplo é o uso dos pronomes pessoais no plural, como o “nós”. Embora ele não seja o primeiro a abusar destes pronomes, o filósofo Bertrand Russell deixou-nos algumas verdadeiras pérolas:
Porque se nós não podemos estar seguros da existência externa dos objetos reais, [igualmente] não podemos estar certos da existência independente dos corpos das outras pessoas e, assim, muito menos das mentes das outras pessoas, desde que nós não temos fundamentos para crer nas mentes dos outros exceto por derivação, pela observação de seus corpos. Assim, se não podemos estar seguros da existência dos objetos, devemos ser deixados sozinhos em um deserto … isto, talvez … se nós sozinhos existimos realmente [vii]. [Itálicos no original, negritos do autor].
A molestação lógica do “nós” na citação é óbvia. Russell parece defender o impossível: solipsismo compartilhado. Não para insistir no óbvio, mas se apenas duas pessoas existem (é dizer, dois solipsistas --- “o resto de nós” é ilusão), mesmo dois auto-proferidos solipsistas não existem e não podem existir sozinhos. “Nós existimos sozinhos” é coisa patentemente falsa. “Dois é companhia” deixou de ser uma verdade filosófica, coisa lá para além do alcance de Bertrand Russell.
Russell, para ser consistente consigo mesmo, poderia ter escrito “eu” no lugar de “nós” ao longo daquela citação. Mas então Russell teria sido reconhecido tanto como um solipsista fracassado quanto como narcisista. Ele evitou estes rótulos burlando com o pronome da primeira pessoa do plura.
Obama manipula a palavra “nós” quase do mesmo modo que Russell. Três dos principais slogans de campanha de Obama foram 1) “Yes we can” [Sim, nós podemos], 2)Change we can believe in” [Mudar, nós podemos!...], e 3) We are the ones we have been waiting for” [Nós somos aqueles pelos quais por tanto tempo esperávamos] [ênfase do autor --- adaptei].
O 1º slogan é uma frase sem sentido. Quem são “nós”? E o que podem fazer aquelas pessoas? Votar em Obama? Acho que [esse] “nós” poderíamos. Quase todos os cartazes de campanha de Obama que incluiram as palavras “Yes, we can” fizeram-no apenas com o rosto de Obama ao lado. “Sim, eu [Obama] posso” deve ter sido a intenção real. Mas usando “nós” antes ao “eu”, Obama se coloca longe do isolamento no deserto da desilusão de Russell --- o qual é atulhado de solipsistas que “existem sozinhos”.
O 2º slogan, "Change we can believe in," --- “Mudar, nós podemos!...” --- é culpado de múltiplos crimes linguísticos. Notar que nem “mudança”, nem “crer” [believe] são palavras-sucesso. Mudanças podem ser boas ou más, e crenças podem ou não ser verdadeiras. Somente o crédulo [estulto] confiaria na lógica por trás de “Mudar, nós podemos!...”. Lançando o pronome “nós” identifica a audiência intencionada do slogan, pelo menos, como crédulos [bobocas].
Mas meu slogan favorito é o : “Nós somos aqueles pelos quais esperávamos”. Este slogan sofre de todas as falhas do 1º slogan... e então, uma a mais. Se a frase é literalmente verdadeira, então Obama deveria, provavelmente, ter que entregar seu cargo (digamos, nos fins de semana ou nas quartas-feiras) aleatoriamente a alguns outros “nós” ou a “um” [qualquer] que [nesse coletivo] tivéssemos esperado por.
Por certo, a frase não tem nada a ver com “nós”. Ela quer dizer “eu [Obama] sou o cara pelo qual vocês tem esperado”. [Mas, claro, dizendo desse modo tudo fica muito loucamente messiânico.]
Nós voltamos agora, fechando o círculo, ao narcisismo de René Descartes. E, então, ao fastio progressista pelo qual os críticos de Obama tem-no chamado de “o Messias”.
Notas do autor [i, ii...] e minhas [1, 2...]:
[i] O primeiro capítulo do Discurso do Método tem aproximadamente 2.600 palavras (quase o dobro deste artigo). Descartes se refere a si mesmo 150 vezes no primeiro capítulo. No capítulo seguinte ele se refere a si mesmo uma vez a cada 24 palavras. Assim, nos dois primeiros capítulos há cerca de 300 autorreferências em pouco mais de 6.000 palavras. (I.e., em uma de cada vinte palavras, Descartes menciona especificamente a si próprio.) Tenha em mente que o livro de Descartes não é uma autobiografia; isto é, como o título nos remete, a um discurso sobre o método.
[ii] Do ensaio de Stove, “Epistemology and the Ishmael Effect”. Eu usei alguns poucos exemplos filosóficos de Stove neste artigo --- mas dando a eles um viés político. O melhor livro sobre o declínio da razão na filosofia pós-moderna e sobre o desconstrucionismo em educação e em questões políticas está no Hermeneutics as Politics (Oxford University Press, 1987) de Stanley Rosen.
[iii] De “The Jazz Age in the Philosophy of Science”, de Stove.
[iv] Esta citação é do segundo Prefácio [Vorrede] (atualizado e corrigido) do trabalho mais influente de Kant, Kritik der reinen Vernunft. G.W.F. Hegel (o avô do narcismo) foi ainda mais longe que Kant. Hegel reivindicou no seu Einleitung à sua Logik, que o conteúdo de sua logik “é a exposição de Deus como Ele é em sua essência eterna antes da criação da natureza e da mente finita”. Assim, Hegel sabe o que Deus sabia antes de Deus criar Hegel. Esta é a condição realmente de um filósofo muito inteligente (tão inteligente quanto Deus, de fato), ou alguém que chegou a transcender mesmo o narcisismo, e/ou alguém mentalmente perturbado.
[v] “Abolir” é uma palavra-sucesso. Ela entende “Pôr formalmente fim ao sistema”. “Conhecimento” é uma palavra-sucesso: “fatos, informação e habilidades adquiridos por uma pessoa através da experiência ou da educação”. “Conhecimento” não pode ser “abolido” sem uma alteração radical de ambas as palavras --- mas é o que pode fazer e fez um filósofo arguto e famoso (como Kant) obscurecendo o sentido destas duas palavras.
[vi] “Abandonar” é uma palavra-sucesso porque ela significa “desistir completamente (de um curso de ação, de uma prática, ou de um modo de pensamento)”. “Salvo” é também uma palavra-sucesso: “mantenha a salvo ou 'de volta' (alguém ou alguma coisa) de [exposição a] dano ou perigo”.
[vii] Bertrand Russel, O Problema da Filosofia. Oxford University Press, 1951.
[1] Não é à-toa que Obama é filho do mesmo meio de Saul Alinsky, que escreve em Rules for Radicals (1971): “Para começar, [o militante, piqueteiro, organizador de movimentos de massa] não tem uma verdade fixa [para seguir] --- a verdade para ele é relativa e mutante; tudo para ele é relativo. Ele é um relativista político. Ele aceita a sentença de Justice Learned Hand, que “a marca de um homem livre é uma sempre ativa incerteza interna [que se pergunta] se ele está certo ou não” (“The Purpose”).
[2] Acostumar-se ouvir expressões ambíguas ou contraditórias é um modo de entorpecer a audiência justamente quando se esperaria que uma solução racional estivesse sendo apresentada. Sub-repticiamente não é isso que acontece, mas o enxerto, desde a linguagem, de aspectos benignos em propostas de ação que vão no sentido oposto ao que o bom senso reconhece mais que rápido como o certo. Isto é, distorce-se a linguagem para fazer a vontade predominar sobre as razões as quais um governante deve ao seu povo antes da ação.
[3] “Liberal”, indica nos Estados Unidos a esquerda reformista, enquanto não pode ser simplesmente socialista.
Larrey Anderson é escritor, filósofo e editor da American Thinker. Ele é autor de The Order of the Beloved, e das memórias Underground. Seu próximo livro, The Idea of the Family, examinará o papel da procriação para a autoconsciência humana.
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Original do American Thinker: Larry Anderson, “The Quietus of Reason” (Set 26, 2010)

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