dezembro 24, 2006

Architeuthis dux (Lula Gigante)

Artigo de primeiríssima grandeza da Criptozoologia, a fantástica Architeuthis dux foi filmada recentemente por pesquisadores japoneses (Yahoo! Notícias). Era um espécime pequeno, de cerca de 3,5 m, mas que pode chegar (oficialmente) de 13 a 15 m, enquanto a Mesonychoteuthis hamiltoni a mais que isto. Há quem tenha testemunhado exemplares de 20 metros e histórias relatadas no século XIX dão versões de exemplares legendários. As lulas apresentam comportamento agressivo no seu habitat natural, o que as leva ao canibalismo e a desenvolverem agilidade tanto para a fuga quanto para o ataque.

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A Wikipedia tem aqui (página principal), aqui (nesta, com fotos e ilustrações) e aqui (tamanhos) vasto material sobre o maior invertebrado do mundo.

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O vídeo em que a Architeuthis de 3,5 m é pescada por pesquisadores japoneses está no YouTube.


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Pela National Geographic chega-se a algumas fotos recentes, clique aqui. As imagens também aparecem em um programa de TV no YouTube, aqui, em língua espanhola.


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A MarineBio.Org traz dados técnicos e detalhes históricos, inclusive ataques a navios e relatos de animais de dimensões fantásticas.


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Na página da National Geographic pode-se ver um vídeo da Monterey Bay Aquarium Research Institute onde aparece uma espécie de calamar gigante pairando a 3.380 m de profundidade. Pode-se ler o “logbook” da expedição dese filme pelo link aqui.


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A agressividade das lulas gigantes parece que pode ser decorrência do ambiente altamente competitivo, escassez de comida e devido ao seu predador natural, a baleia Cachalote. Este outro vídeo aqui, no YouTube, é um exemplo desse comportamento “nervoso”.


Ficha técnica:
Todas as figuras tem seus links no corpo do texto.

dezembro 22, 2006

O lugar-comum do melhor futebol

A contradição é um troço terrível; tem lá efeito desde coisa abstrusa igual a enuciar o contrário da intenção explícita, como é o caso, semelhante ao que disse o minoano Epiménides, ao se dizer Estou mentindo!, que não deixa claro, nem de longe, se estou mentindo de fato e portanto digo a verdade, que estou mentindo de fato, por conseguinte não estou mentindo, do que segue, logicamente, que estou mentindo, e assim ad infinitum. Não é diferente em nenhum lugar ou tempo. A contradição antinômica anula o que se está postulando. Um chutão, uma casquinha de cabeça, outra casquinha de cabeça, Iarlei domina a bola, se livra do defensor, espera o companheiro (Gabirú) e passa a bola que, como um chute tosco faz o gol. Este lance define o maior título do melhor esporte do mundo. Um certo contrangimento leva a que se possa argumentar que futebol de resultado não é futebol, é coisa menor, é um tipo de pragmatismo de quem não gosta de futebol, mas que gosta é de vencer. O mais vistoso futebol do mundo, o espanhol Barcelona, é derrotado pelo pragmatismo.

Ninguém discute que o time catalão seja o “melhor” futebol do mundo, o mais vistoso, enquanto o melhor time é, por título, outro. Isso deveria diminuir o título d“o melhor time”, que joga o jogo para vencê-lo, enquanto o time espanhol joga “o melhor futebol” que pensa que deveria lhe dar o maior título de melhor time. Não aconteceu assim. O melhor futebol não é o do melhor time; o melhor time foi o que aderiu a uma forma pragmática de jogo, que é o “jogo do jogo”, que é a coisificação do jogo. Nada o vem de fora; uma idéia de futebol se confronta com o pragmatismo, que seria “idéia nenhuma de futebol”, se já não fosse. Mas é uma idéia mínima, é a menor idéia que se pode ter de futebol. É o jogo jogado na partida e com o futebol reduzido à estratégia de jogo. É o mínimo suficiente para não se perder por não se ter entrado em campo. São extremos, e eles se encontraram no campeonato mundial de clubes, tendo como vencedor o mínimo. Mas por que o mínimo jogo suficiente (que controla ao máximo o acidente e a criação aretística) venceu o “melhor” futebol do mundo? Ter uma idéia de futebol, que se admite correta, ter o melhor desempenho possível pelo maior número de tempo e reiteradamente e, ainda assim, não ser o melhor futebol do mundo de fato, tem razões ignoradas no modo como este nos aparece. Pois justamente, apareceu como uma declaração contraditória, quase antinômica, ao apresentar o melhor futebol do mundo como um lugar-comum. Contra o mínimo pragmático, o “melhor” precisaria ser mais que o conceito do “melhor” demonstrado à maneira dos geômetras, deveria ser o melhor “de fato”, mas o que se viu foi um “melhor” cheio de luagres-comuns, de movimentos que já se sabiam melhores, sem apresentar o imprevisível, o primor da arte, a mecânica de jogo, a adaptação tática, a dinâmica orgânica que confunde um único jopgador com o time inteiro, que combate o mínimo com o máximo que há de inusitado e de preciso ao mesmo tempo – às vezes ora preciso e certeiro, às vezes impreciso e genial (que faz aparecer o que ninguém via). O melhor futebol esbarrou na pragmática porque não há um “melhor” feito de lugares-comuns, um melhor que não preveja que, num mundo onde a contingência existe necessariamente, o melhor não pode ser definido de antemão, senão somente a posteriori, quando, uma vez equiparadas as máquinas, o brilho individua, a criação de um espaço, de uma passagem, de uma curva de trajetória impensada, ou o acidente, rompem a estrutura coesa do mínimo pragmático levando o melhor aonde deveria sempre estar.

Por fim, o time catalão perdeu porque entrou em contradição com o que é, que é só o que poderia levar o mínimo pragmático a ser o melhor. Uma clara inversão natural, devido a um destes acidentes cósmicos de uma metafísica esdrúxula, levaram a que o melhor futebol do mundo seja hoje o mínimo jogo suficiente.


dezembro 21, 2006

Presságios retrospectivos

A reflexão ambiental é nada mais que o presságio superabundante de um cataclismo no devir de algum tempo atrás e que se confunde mesmo com a lembrança de que se começou algum dia antes deste a assitir Lost, com o esquecimento repentino de que a poluição do rio dos Sinos é uma descoberta recente, que até pouco tempo gatos e cachorros e homens e macacos eram uns lá e outros cá, com o fato de que exobiogia não incluia fungos terrestres comedores de carne humana, com a idéia de que o tomar parte da defensoria pública não significava processualizar kafkianamente a aplicação das leis, que a destruição da amazônia não era um fato inevitável, comemorado a menor velocidade de desvastação inevitável, com o fato, pasmem!, de que líamos o mundo e não sabíamos que não sabíamos ler, bem como que a nossa alegria vã não tinha nada a ver com a festa quadrianual da campanha política – e que isso pareceça-nos hoje não ser algo terrível, é-nos, inescapavelmente, coisa pra lá de agourenta.


dezembro 20, 2006

Comparações imponderáveis

O rio dos sinos tem sua terceira mortandade de peixes desde o acidente de novembro último; a justiça desportiva, porque não funciona diariamente, de forma sistemática, resolve sempre os casos graves com “medidas exemplares”, prova de incompetência ou má fé; o futuro começa um ano depois do último ano de fracasso, entre outras coisas semelhantes. A inteligência brasileira é uma memória elíptica (gram.), uma negligência esquecida, um esquecimento (!) negligente. É o viés transcendente da verdade, é uma elíptica transcendental, cujo esquecimento a todos redime da consciência de um futuro melhor.


dezembro 14, 2006

Beco ambiental sem saída

Quando o filósofo define a Filosofia como “a unidade do saber realizada na unidade da consciência e vice-versa” (leia aqui), uma reflexão rápida deve concluir que não pode haver unidade de saber se não há na população as faculdades mínimas exigidas ao saber, alguma aptidão ao conhecimento. Os números do INAF, Índice Nacional de Analfabetismo Funcional, que apontaram 74% de dano às faculdades mínimas de aptidão humana ao convívio de qualquer espécie, em qualquer parte do mundo, mostram agora claramente uma forma de leitura de vários problemas endêmicos, que refletem as dificuldades de visão e de ação que sucumbem ao pensamento pelo hábito, pela repetição “macaquinizada” e pelos lugares-comuns, pela corrupção, que parece ter vínculos claros com a consciência fraca e com a coerência relativista que dá forma a uma ética suscetível a um sem número de mirabolâncias, para albergar todas as meias-verdades. Quando já não se distinguem quiproquós iguais, tem que se mudar a linguagem, mudar de gênero literário. Como pode haver mesmo rudimentos de saber se a faculdade média que permite a inteligibilidade de um texto está danificada, o que tem, pelas necessidade de fazer relações de todo tipo, e por razões teóricas, o reflexo prático no entendimento da prórpia realidade imediata, e do mundo como texto, cujos processos cognitivos se entrelaçam? O repertório das experiências de uma cultura, esquecido. Esse fenômeno caracteriza uma praga nacional amplamente difundida e de alta virulência. Assim, com pode existir “unidade” de saber se a faculdade da intelecção está gravemente danificada na população? E, pela afirmação do filósofo, deve-se concluir que se não há unidade de saber não pode haver unidade de consciência, que não pode daí senão as formas espontâneas de pensamento, os pensamendos mal pensados, a fantasia, a opinião (reconhecida espuriamente um “direito de todos”), o lugar-comum, a velhacaria. Na perspectiva ambientalista, unidade é toda e cada esfera excêntrica a um ponto qualquer tomados como um todo, sem posição definida nesse todo. A consciência é o foco central e a posição excêntrica ao mesmo tempo, deve pensar que pensa, deve pensar o pensar que pensa, um esforço de ampliação de perspectivas de perspectivas, que deve pensar a si mesma no ambiente e concluir que faz parte do meio; é uma faculdade reflexiva, um jogo de espelhos potencialmente infinito. Seu limite é um grau de desenvolvimento. Quanto mais baixo, pior. Se considerarmos que a Consciência e o Meio Ambiente são contíguos (como são contínuos conhecimento e consciência), como se pode falar de consciência ambiental quando a faculdade básica de intelecção está tão gravemente danificada na população?


dezembro 13, 2006

“Ocorrências ocorreram” na Rádio Gaúcha

É um caso de superfluidade “trava-cabeça” que saiu veiculado no dia 12/12/06, onde a expressão “ocorrências [policiais]... ocorreram” mereceria uma análise. A confusão parece que respeita regras semânticas selvagens do nosso cotidiano (a língua falada). As “ocorrências policiais” ocorreram quer dizer, foram formalmente lavradas, sendo a própria lavra o fato jornalístico. Como não poderia ser de outro modo. No entanto, é subentendido que o fato jornalístico é o número de crimes lavrados como fato criminal – o crime de fato. E por certo que só há fato jornalístico ligado à ocorrência policial, já que o fato criminal é objeto próprio da polícia. O desarranjo de se utilizar o lugar-comum criminalista para designar um fato jornalísitico é que parce, por fim, criminoso. Lembra alhures um certo esforço por “criar a conscientização ambiental(dito por um entrevistado no Jornal Nacional do dia 06/11/06), com o que correríamos o risco de termos, depois de certo tempo, muitos “conscientizadores” e consciência em ninguém. Parece um caso de desleixo com a redação do noticioso, um problema de gramática, em que o pensamento solto atropelou o português (sic.). A ocorrência de crimes ocorreram como registro policial e voltaram a ocorrer quando a notícia foi ao ar (!). Parece uma ponte que faz um loop e volta sobre si mesma para aproveitar um pilar, passando pelo mesmo lugar onde já havia passado, como se isso deixasse a via suspensa mais segura.


dezembro 12, 2006

Guerra brasiliana: ou, “ortotanásia marcial”

Santa Catarina! Só 13% da população naquele Estado é coberta por saneamento básico. São Leopoldo, um dos municípios que mais trata o esgoto no Rio Grande do Sul, alcança 20% e foi notícia nos últimos tempos um “incidente” ambiental que fez vir à tona o verdadeiro desastre dos 20.000 emissários de esgoto doméstico voltados para o rio e das empresas poluidoras e suas licenças ambientais pro forma. Novo Hamburgo, ao lado, trata somente 2% do esgoto. Basta saber que o índice de Santa Catarina é considerado igual ao de países em guerra, como o Iraque (Rádio Gaúcha, 17:05, 12/12/06) para se perceber o absurdo. Lembrar que o trânsito no Brasil mata mais, por ano, que a guerra naquele árido país. Aproveite-se que a discussão sobre a ortotanásia está em alta e faça-se uma reflexão sobre o moribundo gigante adormecido. A mosca do tsé-tsé causa letargia e leva freqüentemente à morte.


dezembro 05, 2006

Lulalia, o cacoete da repetição do presente no futuro

Lula declara (ai, ai): “Já não estou mais pensando em 2006” (sic.). Por um momento pareceu que ele diria “Já não estou... nem aí!. Quer dizer, não poder dizer outra coisa: quase de pronto ao agourento índice de crescimento do PIB de 2,8%, significa o imediatismo que não pensa nem no futuro nem no passado, mas no agora. O agora é sempre mais aconchegante, porque sempre tem um futuro distante o suficiente para a gente projetar as melhores expectativas.

Já se esperava que o resultado fosse ruim, mas não tão ruim. A retórica do presidente é alentadora, no entanto.

De novo (!), pela manhã (1º/12/06), e doeu no ouvido:

Eu já não estou mais pensando em 2006. Eu agora estou pensando em 2007, 2008, 2009 e 2010. Eu agora tenho que pensar para frente [sempre!]. Estamos tomando todas as medidas para que o Brasil tenha um crescimento mais vigoroso, um crescimento que possa atender mais rapidamente à necessidade da geração dos empregos e das riquezas que nós precisamos”, declarou o mendecápodo silvícola (de Silva).

Mais uma vez a ladainhalalia da “futurística fenomenológica”, que é quando a gente transforma em “fato” uma perspectiva toda particular sobre o futuro para compensar a realidade que contradiz essa perspectiva amplamente hoje. Ora, por que “tenho que pensar para frente”, não tem não! Pensar para frente é pensar o quê? O caso não é acertar a direção do pensamento, mas o que está sendo pensado. Houve algum crescimento vigoroso para que se deseje um crescimento “mais vigoroso”? É claro que é pura expectativa, contra os fatos! Tomar “todas as medidas” deve ser o mesmo que foi feito no último ano, quando se pretendeu o mínimo de 3,2% mas se chegou somente a 2,8%; senão admite-se que não se fez todo o possível para o mínimo! Parece pouco ainda e, a i n d a a s s i m, se vai repetir a dose. Depois, a superfluidade aliceana de que se utilizam o Rei de Copus e dois de paus da comitiva hiperbórea vem ainda como todas as medidas para que se “possa”, se se pudesse, no subjuntivo amarrado à ação do acaso, que dessa vez não nos sorriu à sorte merecida (outra referência ao futuro e nele aos 3,2% inalcançados), a'tender mais rapidamente o que até então é estagnação no principal, que é o que se projetou como mínimo. Ora, nessa retórica picaresca, se 3,2% não deram, vamos sonhar com 5%, e só na perspectiva disto já se prevê que o exagero superabundante deve, por certo, guardar algo mais (!).

Muito além dos atuais 2,8% de crescimento brasileiro existem a geração de empregos e as riquezas que nós precisamos, mas que se explique que o além é aqui e agora. Além, aqui, é em algum lugar perdido, que nem se consegue ver, por isso que, por cacoete, se imagina que ele seja o futuro. Damos um tapa em uma mobília velha e temos a consciência do passado por um tipo de intuição habitual; e nesse algo mais especioso que se repete indefinidamente – que distinguimos da eternidade sem muito boas razões para fazê-lo –, reconhecemos o futuro. Se não encontrarmos esse além e esse mais não haverá futuro. Dá para começar quase às cegas investindo em educação e cultura, e algum (pelo menos algum) bom senso e uma pitada de ingenuidade empirista. Sem adestramento, por favor! Se não se conseguiu pensar bem nem o 2006, e já se está dando passos mais largos, a 2008, 2009 e 2010... pare-se tudo! Isto de modo nenhum se justifica como método a qualquer das dez pernas que o homeostático molusco usa para se projetar por através da própria emulsão de tinta negra de confusão que ele expele, propulsionando-se (e nós com ele) para dentro da mandíbula estática de um futuro predador.


novembro 29, 2006

Como se corrompem orçamentos e conceitos

Orçamento público é ficção, diz o contador e economista Darci Francisco Carvalho dos Santos em “Algumas considerações sobre a situação orçamentária e financeira do Estado para 2007publicado no site do autor. Segundo dos Santos, governo inventou 15% de “receita extra” para encobrir déficit oculto (!). Todos os governos fizeram prestidigitação para ocultar o déficit, que se torna dívida mais juros ao longo dos anos e das gerações de todos os eleitos que passaram pelo govero do Estado Gaúcho. Diferente do que se recomenda (como se não fosse óbvio), calcula-se o que se quer gastar, o que é de direito, isto é, o que é possível retirar do orçamento legalmente (perniciosamente), desprezando-se o que há na realidade para gastar (Gaúcha repórter, 29/11/06 às 4:30). O déficit é inevitável. Curioso é que já tenha se tornado um hábito tão comum que se repita sempre de novo, e de novo, como uma condenação comum a todos. Em um outro artigo, “Corrupção ou irresponsabilidade fiscal?”, dos Santos escreve que a corrupção não é sempre o pior problema, pois a irresponsabilidade fiscal pode superar esse lugar comum da política: “[u]ma prova eloqüente dessa afirmativa é o caso do RS, onde os índices de corrupção estão entre os menores do país. No entanto, o Estado [do RS] apresenta a pior situação financeira do País. A principal causa desta situação está na irresponsabilidade fiscal ou, até mesmo, na demagogia”. No caso do orçamento, escreve que “decisões e omissões ocorridas ao longo dos anos, nem sempre condizentes com o interesse público” tiveram por efeito a dívida e o colapso da previdência. Por fim, o autor conclui que “[a] corrupção é um problema grave, mas a demagogia e a irresponsabilidade fiscal, ainda são mais nocivas”. No entanto, ora, como pode não se perceber que a demagogia e a irresponsabilidade fiscal vêm de um comportamento do legislativo do qual os valores estão corrompidos, tais como se manifestam no imediatismo assistencialista, que por si só resume a demagogia e a irresponsabilidade fiscal para que aquele possa ser atendido? Demagogia e irresponsabilidade fiscal são instrumentos de princípios políticos corrompidos. Eis a corrupção como ela aprece, como perversão que desvirtua princípios, sedução do eleitor que compartilha o vício que o habitua ao favor, à promessa que atende a necessidade, que não tem olhos para o futuro.

O Orçamento de 2007 foi aprovado ontem, dia 28/11/06, com 31 sins e 13 nãos – nada menos que 70% dos deputados estaduais corroboraram o mundo maravilhoso da fantasia de um orçamento de extras ocultos e emendas assistencialistas. Agarre o seu pedaço hoje, porque ele pode faltar amanhã – que, ao que parece, é o que vai acontecer. Isso é um exemplo de profecia que se auto-realiza, fruto de princípios cultivados no solo da imediatez e da necessidade.


novembro 27, 2006

Catastrófico Índice de Analfabetismo Funcional

A notícia de que 74% dos brasileiros são analfabetos funcionais em algum grau saiu pelo mundo (e.g., Espanha, UNESCO). Destes 30% se mantiveram no nível um, de quem apenas pode ler títulos ou frases isoladas e somente 26% apresentam habilidades plenas para ler e escrever plenamente. Trocando para números mais assustadores (arredondando para cima), somente 3 em cada 10 brasileiros são capazes ler e entender o que leram. O Instituto Paulo Montenegro mede o INAF – Indicador de Analfabetismo Funcional, que distingue três níveis, os quais correspondem a capacidades distintas. Basicamente, no nível três se é capaz de ler textos longos, fazer relações internas, realizando inferências e sínteses; no nível dois se está apto a localizar informações em textos curtos dentro de contextos conhecidos (p. ex., um bilhete reclamando que algo está errado, e o que está errado), até de média extensão. O nível um, o mais rudimentar, “corresponde à capacidade de localizar informações explícitas em textos muito curtos”, com o auxílio prévio de uma mínima idéia de como as coisas estão dispostas, como títulos de revistas ou títulos internos, anúncios, datas de início de campanhas ou eventos. Além disso, “[n]o conjunto da população instruída, a pesquisa verificou que 37% não lêem no ambiente de trabalho e 41% não escrevem; 38% afirmam ler jornal uma vez por semana e somente 17% usam computador eventualmente”. A respeito disto o jornal Correio do Estado de 22/05/2006, publicou em artigo, assinado por J. Bandeira(1), que nada haveria que se estranhar: “Se, uma das maneiras de conhecer e medir o preparo de um presidente é saber que leituras o influenciaram, não consta que Lula tenha lido algum livro em sua vida. Inquestionavelmente, face aos apetites pantagruélicos da quadrilha do PT que avançou sobre o dinheiro público, Lula caiu na abominação, uma vez que as provas de corrupção no seu governo são mais indiscutíveis, generalizadas, incontroversas, incontestáveis e, indubitavelmente, comprovadas”. A UNESCO aponta nesse sentido que Bangladesh, Brasil, China, Egito, Índia, Indonésia, México, Nigéria e Paquistão representam mais de 53% da população escolar mundial, 40% das crianças no mundo fora da escola e 70% dos adultos analfabetos. Isso sim é que é cataclismo ambiental!

1. Auditor Fiscal da Receita Federal Aposentado, ex-Vereador de Campo Grande, MS, e Pecuarista.


novembro 25, 2006

Mais Brasil!

(Enviado em apoio ao movimento Quero Mais Brasil)

A experiência cívica que se pode ter no país atual é, sim, a de uma metafísica fundada numa tépida realidade futura. Estupefatos, vemos que a experiência do país é a aplicação concreta dessa bizarrice. Os poderes se olham à distância e se entendem na cumplicidade do silêncio, mas se vierem a ter que falar publicamente, tergiversam em leguleios cínicos. Usam a máquina burocrática como um sofista usaria a retórica, formando uma relação de predominante prolixidade com a sociedade e de entraves a ações fundadas na verdade. As pessoas daqui são potencialmente boas, talvez melhores, mas o país está destruindo elas. O enigma brasileiro, repetido muito por Ariano Suassuna, é aquele de Machado: “O país real, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o país oficial, esse é caricato e burlesco. Esse país fictício tem que acabar – (coisa de louco:) o futuro não é um bem natural renovável, que se renova espontaneamente. É uma cultura. Se o presente é estéril, a crença no país do futuro é uma cultura condenada às pragas e ao pior dos desastres ambientais... Que esse “mais” seja uma nova metafísica brasileira, fundada na ética da verdade.


Lesmas de outros pagos

Estranho artigo, com o título “A volta dos alimentos contaminados” (O Estado de SP, 22/11), no Jornal da Ciência, assinado por Fernando Reinach, professor titular do Instituto de Química da USP e diretor-executivo da Votorantim Novos Negócios, e eleito no ao de 2003 pela Revista Scientific American uma das 50 pessoas mais influentes do mundo, se refere à agricultura orgânica como “primitiva”. Na página da Vitrine dos Orgânicos, o artigo A qualidade dos alimentos orgânicos dá uma perspectiva oposta; oposta mas não contraditória. Ambos coincidem ao dizer que existem poucos estudos sobre toxicidade em produtos alimentícios, mas os critérios podem definir a questão. Armazenamento, processamento, colheita, técnicas de plantio, etc., vão determinar as chances de contaminação por toxinas produzidas por fungos ou por bactérias como a E. Coli. O que estranha, e o texto do artigo corrobora essa perspectiva, é a imputação de “contaminados” aos alimentos orgânicos, reforçado pelo “a volta dos” como se se tivesse convivido com eles durante algum tempo, e não só convivido como tolerado os “orgânicos”, na perspectiva das tecnologias atuais sobrepujarem a natureza dos vegetais, suas qualidades e seu riscos. Por que será então que um tomate gaúcho tem o sabor e a consistência de algo “vivo”, enquanto os tomates seriados parecem “carne sintética”? O Sr. Reinach é grande empreendedor que detém uma empresa de exames de DNA, outra de hospedagem de sites (a terceira maior do país) e três de pesquisa genética, o que faz a curiosidade aumentar, substituindo a surpresa e trazendo com ela a desconfiança.


novembro 22, 2006

Metonímia, Hibridismo e Catacrese

O resultado do exame dos cachorrinhos que seriam supostamente cria de uma gata em Passo Fundo não mostraram evidência de que eles sejam híbridos, noticiou a RBS TV nesta terça. Os cães nasceram mesmo com 78 cromossomos, enquanto gatos têm só 38. Dever-se-ia encontrar um número intermediário de cromossomas para que se confirmasse o hibridismo. Esse é o critério que descarta uma exceção que continua a existir apenas como hipótese genético-paleontológica. Se a gata mostrou, no final deste caso, ter hábitos sexuais ortodoxos, uma pesquisa rápida na Rede mostra que o mesmo não ocorre com a retórica na crítica literária e racial, talvez por hábito de indivíduos que celebraram rituais antropofágicos em nome da miscelânea cultural e do caos de valores de onde se espera que saia o (bom) caráter profetizado do povo brasileiro. A improbabilidade genética do hibridismo tornou-o a expressão dos sem expressão. Termos como hibridismo moral, hibridismo cultural, hibridismo teórico, hibridismo étnico, & caterva, subentendem um pensamento "híbrido", porém, talvez justamente por isto, ainda não mestiço – capaz de complexa e às vezes caótica inteiração (o que lembra que antes se chamou isto de “promiscuidade”) porém não de gerar descendência fértil. Por aqui o caos cultural devora etnias e raças, e já quase sucumbe a própria espécie; o homem, tratado como gado, ao qual não falta o suficiente verde pasto, que cresce virgem na promessa de um futuro cuja riqueza é sua própria promessa.


novembro 21, 2006

Rio dos Sinos sofre de isquemia asmática

Rio dos Sinos está recebendo oxigênio puro bombeado por uma equipe da FEPAM. Os técnicos daquele órgão acham (!) que isso pode melhorar as condições da água no local e preservar cardumes que sobem o rio para se reproduzirem (Rádio Gaúcha, 21/11/06). Ainda que não se tenha ouvido mais falar sobre as empresas que despejaram efluentes químicos no rio dos Sinos, bem como dos 20.000 emissários de esgoto residencial da região, já começa a parecer razoável, pela medida tomada nesta terça-feira, poder se concluir (abusando da xenoglossia médica) que o rio sofre de algum tipo de dispnéia isquêmica aguda. Admitindo, por obséquio, a comparação de bacias hidrográficas com o corpo humano – a propósito, antiquíssima comparação da história da geologia –, é mais ou menos como querer intubar o rio dos Sinos por uma artéria para que lhe volte o fôlego. (Por favor, confronte-se este assunto com outro dois, “Doença degenerativa aflige Medicina” e “Medicina doente!”).

Já em Portugal, a polêmica em torno do rio Tinto (leia aqui) acabou com um arrazoado melhor quando se pretendeu “entubar” (por lá, canalizar por cá) o rio poluído. Saiu no Jornal de Notícias de lá (07/06/06): “Na perspectiva de Rui Sá o entubamento do rio não é solução e, apesar do grande desconforto , diz ser 'preferível sofrer com o mau cheiro e exigir medidas'. E o dinheiro gasto para entubar o rio Tinto seria gasto na despoluição [Lucidez!]. A única coisa a entubar seria, portanto, o esgoto, para o conduzir de uma ETAR [Estação de Tratamento...] para a outra”.

(Parem com as piadas!)


Perdidos

O seriado Lost parece que tem já programados mais três episódios (Atlântida FM, ?/11/06), para consternação de alguns. Não surpreenderá se após 15 anos do seriado, lá pelas tantas, a ilha ficar vazia e a campainha do aficionado tocar, e ao atender, ver ali, estupefato, os “ilhéus” todo juntos, sem dizer uma única palavra, mas já sabendo, por um estranho pressentimento, que estivera, por assim dizer, perdido no nonsense à-toa da superfluidade ilhoa desde então.


Evidências de promiscuidade

No artigo “Los humanos y los chimpances se cruzaron varias vecesespecula-se que ancestrais humanos e chimpanzés cruzaram-se diversas vezes e chegaram mesmo a produzir espécies híbridas. Deve-se ter em vista que os princípios evolutivos são uns para o tempo de vida humano; no tempo geológico, no entanto, as leis de probabilidade podem ser pulverizadas ou sofrer “evolução” qualitativa.


A Evolução é promíscua?

Gata de uma família de Passo Fundo teria dado cria a três filhotes de cachorro (RSB Notícia TV de 12/11/06 e aqui). Um especialista em genética foi colher material para exames. Os filhotes tem uma aparência estranha, mas há-de se ter reservas ainda com o caso. Esse tipo de hibridização poderia ser um poderoso processo de evolução animal, mesclando qualidades funcionais. Se aconteceu, no entanto, terá sido a primeira vez na história humana – desde que se é capaz de ter alguma idéia de que isso não pode acontecer, lá pormeados do século XIX – que se registra algo igual. É; não é lá muito tempo, mas a pendenga vai ser grande se isso aconteceu, mas grande... E vai sair prá lá d'Aldeia, mas bem pra lá d'Aldeia.


Guerra dos mundos

Fungo presente nas feses de pombos pode causar a chamada Criptococose, que é a infecção por infestação aguda de vários órgãos com corrupção dos tecidos e morte por parasitismo. No Jornal da Ciência...


Descoberta do que já se sabia!

Encontrado na Austrália, num primitivo recife de corais, o fóssil de um exemplar perfeito de “Gogonasus”, o mais ancestral elo perdido entre peixes e animais terrestres, com 380 milhões de anos. Leia mais... A idéia do “elo perdido” tem base na homologia, que é o princípio de que o que achamos é o equivalente a algo que esperaríamos encontrar ou extensão disto, que se relaciona com alguma coisa conhecida. Nesse sentido, a descoberta, apesar de nova, é banal. Encontrou-se exatamente o que se esperava encontrar se as coisas fossem como já havíamos conjecturado que seriam se esta parte da teoria estivesse certa. Dizer que isso é “descoberta” é um engano. Nada se acrescentou ao conhecimento preexistente sobre a história da vida, mas apenas se adquiriu uma peça nova para a bela história que já contávamos. [Sugiro que se dê uma olhada na notícia postada aqui hoje, no título “Evidências de promiscuidade”].


Desinformados funcionais (!)

Para Paulo Affonso Leme Machado, autor do livro Direito à Informação e Meio Ambiente (2006), “a democracia nasce e vive na possibilidade de informar-se. O desinformado é um mutilado cívico. Haverá uma falha no sistema democrático se uns cidadãos puderem dispor de mais informação que outros sobre um assunto que todos têm o mesmo interesse de conhecer, debater e deliberar[grifo meu] (JC, 7/11/06). O Jornal da Ciência reforça que este é um “terreno vital, porque do sigilo indevido podem nascer os privilégios (econômicos, políticos), como pode ser favorecida a corrupção”.


novembro 20, 2006

A regularidade é que é o negócio!

O Brasil caiu 5 posições no Índice de Percepção de Corrupção 2006 da Organização Transparência Internacional (6/11/06), agora ocupando o 70° lugar. Com a mudança de método e a inclusão de mais alguns países, o Brasil ainda assim cai na lista dos menos corruptos. Mas o que vale mesmo é a regularidade. Países que variam muito a percepção da corrupção dão indicação de modinhas e não de fundamentos seguros de honestidade.


Quem defende de quem defende?

Ministério Público quer dizer: a “magistratura que vela pela manutenção da ordem pública e execução e aplicação das leis” (Dic. Michaelis). Velar: “cobrir(-se) com véu; encobrir, ocultar; tornar sombrio” (Idem). Que estranho! [Talvez aqui...].


Espetáculo + Política = Goebbels

Ao contrário das eleições no Brasil, na França praticamente não se nota que ocorre eleição (“Gaúcha nas Eleições”, na Rádio Gaúcha, 29/10/06, 16:45h). Desinteresse? Ou será que os franceses acham que jingles, bandeiraços, criancinhas no colo, buzinaços, mãos dadas e manifestações semelhantes são dispensáveis, por motivos óbvios: apesar dos problemas e dos escândalos, de onde vem tanto animação por aqui? O quê visa esse tipo de campanha? (Goebbels aqui!)


Descarga de consciência (sic!)

Bola da vez: Abastecimento de água, esgoto e manejo de resíduos sólidos pululam no próximo ano. Acidente no rio dos Sinos pode ter precipitado discussões e ações legais. IBGE percorrerá municípios brasileiros para ver presença de tratamento de esgoto, abastecimento e avaliação da qualidade da atuação das prefeituras [D'A hora do Brasil em 19/10/06].


Doença degenerativa aflige Medicina

Todos os médicos cometem erros, mas apreensivamente os meios preventivos de evitar que se repitam estão progressivamente em declínio. A notícia da New Scientist de 13/11/2006, aqui, reforça o que escreveu Germana Barata em artigo da Com Ciência/SBPC, com atalho aqui pelo título “Medicina doente!”.


Destruição da Amazônia é motivo de comemoração (!)

Lula se regozija por deter a velocidade de devastação da Amazônia – que permanece sendo de, pelo menos, 11 mil Km2 por ano. Aqui, no Yahoo! Notícias...

Medicina doente!

Semiologia médica - a antiga prática da anamnese, a entrevista investigatória que o médico fazia com o paciente – perde campo para as baterias de exames e para o trabalho do especialista médico, garantindo que quando o paciente vier a óbito se saberá pelo menos o que foi que não o matou. Aqui, na Com Ciência.

O poder do silêncio

Os comunicadores sociais não podem reter em seu poder as informações de interesse geral. Os profissionais da comunicação fazem a ligação entre a fonte da notícia e seus destinatários, mas ninguém pode transformar-se em proprietário dessa informação” [grifo meu] (Paulo Affonso Leme Machado apud Washington Novaes, “Sigilo prevalece no meio ambiente?”, JC 3135 de 7/11/06).

novembro 19, 2006

O futuro superabundante

Na expressão “o futuro que virá” parece que se duvida do futuro e, por isto, se dá uma mãozinha a ele afirmando-o de qualquer sorte. Má sorte. É mais uma destas expressões ambientalistas, no pessimismo subliminar que acompanha a questão ambiental. Por isso, nada mais correto que as expressões alternativas ½ Ambiente ou a forma adverbial, Quase-Ambiente. Fábio Konder Comparato, professor titular aposentado da Faculdade de Direito da USP faz um retrato político atual no Jornal da Ciência: Nessas condições, por mais experimentados que sejam os pilotos, o desastre é inevitável. Não existe órgão nenhum, no Estado brasileiro, incumbido de desempenhar as funções vitais de previsão e planejamento”.


Três sinais dos tempos

Dicionários caros, analfabetismo funcional alto e culto à emoção – que se manifesta desde o fenômeno carismático até o uso da emoção como valor de juízo – são três evidências inquietantes que se pôde ver durante a 52ª Ferira do Livro de Porto Alegre. País onde dicionário é coisa de “burro” na alcunha que ele recebe de “amansa burro”, não pode despertar interesse mesmo em ninguém. Parece que o digno é lamentar-se e imprecar contra burgos racionais armado de sentimentos de rancor e absorto – nesse caso, de ab-surdo, “sempre surdo” (sic.).


Nota exploratória

Eis o espírito da coisa:

Ninguém pode ser mais feliz [...] do que um filósofo que lê nesse grande livro colocado por Deus ante nossos olhos. É dono das verdades que descobre; alimenta e eleva a alma; vive tranqüilo; nada teme dos homens, e a sua extremosa mulher...” se a evita com seus chiliques! – o demais aqui ficaria sem contexto (Voltaire, da boca de Zadig).

O “livro da natureza” é conhecido da geologia, é um dos seus mitos mais fundamentais na forma de uma metáfora de incrível poder de representação. A metáfora se desenvolve sobretudo na interpretação bíblica do Gênesis como correspondendo à ordem natural. As páginas do livro da natureza são como o documento dos historiadores, e foi Francis Bacon (1561-1626) quem disse que se deve “inquirir a natureza” ao modo como se faz nos tribunais. Mais que inquirir a natureza, há qualquer coisa “profética” nas especulações das ciências.

Aí está não apenas um princípio de investigação, como rudimentos de uma filosofia de ciências como as que o historiador Carlo Ginzburg juntou em um artigo1 famoso de 1979, onde coloca sob um mesmo procedimento racional história, arqueologia, geologia, astronomia física (ou astrofísica) e paleontologia – isto é, a formulação de “prognósticos retrospectivos”. Tal ferramenta visionária se ligam para Ginzburg às comunidades de caçadores primitivos pela experiência adquirida por estes na arte de interpretar rastros (Ginzburg, p. 100). A hipótese é a seguinte: “O caçador pode ter sido o primeiro a contar uma história” porque apenas caçadores sabiam como interpretar uma seqüência coerente de eventos a partir de obscuros (e quase imperceptíveis) sinais deixados pela presa” (Idem). “Interpretar” era justamente o que Charles Lyell (1797-1875), celebrado como um dos pais da moderna geologia, queria que se fizesse com o registro geológico. Talvez algo que não fica evidente de todo na leitura do caçador é ele poder lançar mão de uma variedade de “leituras” possíveis, de ver o que não é observável, porque se há tendências, comportamentos (ou, diríamos, leis de rastreamento) pelos quais se refazem passos, por situações conhecidas, é para se chegar a prever a ordem dos acontecimentos de um evento sem tê-lo jamais observado. Os prognóstico retrospectivos tem sentido “no fato de que se trata de uma apreensão daquilo que se localiza fora da esfera do conhecimento imediato; a visão daquilo que, para o sentido natural do profeta, é invisível [grifo meu] (Huxley apud Ginzburg, p. 11957).

Para Lyell o princípio de investigação era outro, daí insistir na fórmula que Huxley consagraria à geologia pouco antes de sua morte: dever-se-ia investigar o que está atrás das aparências literais (ibid.) contra a aparente brusquidão que a observação direta mostrava. Outra passagem digna de ser notada é quando Gould reputa a Lyell a defesa de que os fundamentos da teoria geológica deveriam ser impostos aos registros literais, que os dados imperfeitos não permitiam observar na ordem natural das coisas. O que vemos aqui é recorrente na observação do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que disse algures que a natureza melhor se mostra na maneira como gosta de se ocultar.

Outro apontamento relevante pode ser encontrado na contracapa de Aristóteles em nova perspectiva – Introdução à teoria dos quatro discursos (2006), do Filósofo Olavo de Carvalho. Ali, para esclarecer a compreensão que chegou sobre um ponto central capaz de dar unidade ao pensamento de Aristóteles, O.C. escreve: “se por compreensão se entende o ato de captar a unidade do pensamento de um homem desde suas próprias intenções e valores, em vez de julgá-lo de fora; ato que implica respeitar cuidadosamente o inexpresso e o subentendido, em vez de sufocá-lo na idolatria do “texto” coisificado, túmulo do pensamento” [grifo meu]. O mesmo princípio aplicado às disciplinas elencadas por Ginzburg faz surgir o procedimento que se atribui comum a todas elas e em tudo que se disse até aqui, a busca por aquelas interpretação de viés que deu a Sócrates conhecimento do conhecimento, e que poderia dar à geologia e às demais disciplinas, bem como ao discurso ambientalista, certa unidade perdida. Unidade de pensamento, para, daí, já não ser apenas um pensamento, mas uma filosofia da ciência e que, por isto possamos descobrir, como Paul Válery, que “as especulações feitas com rigor conduzam a mais estranhezas e perspectivas possíveis e inesperadas que a fantasia livre – que a obrigação de coordenar seja mais produtora de surpresa que o [próprio] acaso”.


notas

1. Carlo Ginzburg, “Chaves do mistério: Morelli, Freud e Sherlock Holmes” (publicação original in: A. Gargani (ed.), Crisi della ragione, 1979. Apud Umberto Eco & Thomas A. Sebeok, O signo de três. São Paulo: Editora Perspectiva, 1983.

Mundos hiperbóreos

(A alma do negócio:)

Num lugar onde o futuro é um bem inalienável de todo o povo e declarado riqueza natural renovável, espraiam-se vastos campos cultivados de esperança, um tipo de sisal que produz o fio com que se costura a sorte e o hábito de toda a nação, e onde o pensamento se isola da realidade, exaurindo a terra; e que só a intempérie e o tempo podem fazer surgir a oportunidade de uma relíquia à reflexão ou o enigma de um fóssil de algum mundo hiperbóreo, pouco mais além d'Aldeia.