abril 29, 2011

A ascensão da raça futura

(Ensaio sobre a síntese diabólica da retórica da violência com fundamento na imaginação fabulosa e em nome dos mais altos ideais utópicos de salvação secular)

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A pedra de Roseta de Chesterton
A retórica que mascara a violência está sempre antes da violência de fato, e seria o que, por fim, permite que se chegue perto demais do pior quando se percebe do que se está realmente falando. E parece que é justamente por isso que a violência pode, sempre de novo, se atualizar a despeito da advertência contra a violência; pois, ainda mais, não raro a advertência mais categórica está no início da violência que ressurge. Assim é que a acusação fácil de “racismo” contra aqueles que não esposam a linguagem politicamente correta pode esconder, por exemplo, a premissa da “luta de classes”; ou, hoje mais frequente, a desunião que o bom senso tende a querer levar ao consenso, este substituindo aquele, eliminando todo mérito no debate público à mera hipnótica “adesão voluntária”.
Essa adesão é um ato de boa vontade, mas não seria nada se fosse (como se pretende) “pelo bem comum”. Talvez o que melhor a explique seja a comparação de G.K. Chesterton sobre o vezo moderno que vê como fraqueza desarmar a crítica com a autocrítica e já como força desdenhar da crítica pela autoconfiança. Talvez esse movimento seja natural como resultado de se estar sob o ponto de vista crítico, que segue, como bem nota Chesterton, com a naturalidade de um escorregador untado de azeite, deslizando para um ato de vontade que hoje se consagra imitando a adesão ao “bem comum” pela ideia tática do “consenso” --- consenso leigo.
Assim se quer de novo, porque é ainda a mesma coisa, pregar as platitudes vazias de obviedades pueris de um bom senso postiço.
Exemplo deste postiço consenso sobre obviedades pueris é a adoção das melhores intenções como fim mesmo do que estas intenções pretendem alcançar, que se vê em algumas generalizações retóricas de homens quase pouco menos que santos, como o sr. Hermes Fernandes da igreja Reina [1]. O caso é relatado por Júlio Severo, quando Fernandes compara evangélicos e católicos com o assassino islâmico de Realengo.
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Sintaxe profética: raciocinando a partir da premissa perfectibilista
Sobre o artigo de Hermes Fernandes, “O que a carta do assassino de Realengo nos revela”, o seguinte trecho pretende analisar “criticamente” o “sincretismo” religioso de Wellington:
Percebe-se [na parte da carta citada] que o atirador seguia uma linha religiosa de cunho fundamentalista, principalmente ao demonstrar preocupação com quem tocaria seu cadáver, exigindo que fossem pessoas castas. Chegou-se a ventilar que ele fosse muçulmano, o que logo foi desmentido pelo presidente da União Nacional das Entidades Islâmicas do Brasil, Jamel El Bacha. Ademais, se fosse um seguidor do Islã, não teria mencionado a vinda de Jesus para despertá-lo do sono da morte para a vida”, aludindo à crença cristã na ressurreição dos mortos por ocasião do segundo advento de Cristo”.
Ora, então tudo se explica pelo “fundamentalismo” de uma religião inexistente, e isso esclarecido pelo presidente da União Nacional das Entidades Islâmicas do Brasil, que o atirador não era muçulmano. O termo tem aquele poder mágico que é da natureza dos que facilmente se reconhece por uma generalização equivalente, “os judeus”, “os capitalistas”, “a burguesia”, etc.. A síntese por traz do termo nominal mostra o processo da racionalização justificatória que fundamenta a ação radical, seja a do terrorista, seja a de Wellington, seja a da exortação que o sr. Hermes Fernandes faz contra toda forma de intolerância. Curioso que a advertência de “fundamentalismo” possa gerar um purismo fundamentalista que não perceberá quando avançar para realizar a sociedade como ela deve ser.
No blog da Igreja Reina, o artigo “Por que a igreja do futuro?” integra a ideia do mundo a ser reformado sob um ponto de vista espiritualista, que aparece em Fernandes, senão como premissa, como uma opção nada estranha e o que interessa mais, não importando, ao que parece, os meios seculares que se possa adotar ou aos quais se deva aderir para a consecução desse fim, conforme a sua chave Graça, Amor, Justiça:
A Reina se propõe a ser uma igreja voltada para o futuro. O que significa isso, afinal? A Igreja do Futuro não é voltada para si mesma, mas para o mundo, tendo por objetivo primordial a implementação do Reino de Deus.
Quando a ira de Wellington o incumbe de um ato de "justiça" por aqueles que, como ele, foram atormentados, encontra a chave que geralmente abre o futuro para as ideologias que pretendem reformar a sociedade, com a necessidade de um ato inicial de força purificadora. Pois é essa síntese da justificativa que interessa, o recorte de um "inimigo" e a racionalização que a justifica imaginosamente. 
O que se percebe é que Wellington faz uma mistura dos diabos entre trechos bíblicos soltos e o exemplo do vingador cheio de razão que o homem-bomba muçulmano é o modelo inconfundível. A “análise” racional de Hermes Fernandes de um argumento irracional cria linhas de ação que o perturbado Wellington jamais teve por três minutos de modo contínuo. O fundamentalista mais radical pode aprender a pilotar aviões para conduzi-los com perícia até as torres gêmeas; Wellington pôde agir com frieza e diligência até a consumação do massacre; todo o demais, nas palavras, é a racionalização que juntou todos os elementos possíveis para dar a estabilidade emocional e ordem às ações premeditadas. A interpretação radical do Corão feita por grupos políticos com motivação religiosa dá unidade inabalável à fundamentação, no caso do radical islâmico, contra os “infiéis” --- e nem por isso imagino que o presidente da União Nacional das Entidades Islâmicas do Brasil assuma que os terroristas tenham deixado de ser muçulmanos ---; a síntese “esotérica” de Wellington, de um tipo bem pessoal, ouviu do que pôde uma algaravia de vozes que o ungiram à ação radical.
Então, ao seu modo, Hermes Fernandes faz aquela mistura --- um privilégio que não é só dele --- entre o verdadeiro e o falso para, por efeito, premeditado ou não, dar alguma força de verossimilhança à falsidade pelo simples emparelhamento com o verdadeiro:
Alguns dos episódios semelhantes ocorridos nos Estados Unidos também envolviam religiosos fundamentalistas [1]. […] Não é raro encontrar sites ou blogs de conteúdo cristão fundamentalista que pregue, entre outras coisas, a superioridade de uma etnia sobre outras [2], o direito da população de armar-se, e, pasmem, até a escravidão como alternativa válida para os nossos dias [3]. Geralmente, são contra o aborto, mas a favor da pena de morte. Acham que o Estado não tem o direito de intrometer-se na economia, mas dão ao Estado o direito de tirar a vida [4]. Alguns beiram ao fascismo e ao nazismo [5]. Encontrei quem dissesse, por exemplo, que os negros deveriam agradecer por terem sido trazidos como escravos para as Américas, pois aqui teriam encontrado vida melhor do que tinham em seu próprio continente [6]. É difícil crer que alguém creia desta maneira em pleno século XXI. […]
Cabem considerações:
1. “Alguns” deve incluir o atirador muçulmano de Fort Hood, imagino.
2. É comum encontrar blogs defendendo qualquer coisa, como num cardápio que se pode usar para o que se bem entender e, com eles a vista, montar os fundamentos do argumento a favor da sua superioridade sobre os “fundamentalistas”.
3. Que me lembre, quem defendeu a escravidão como uma forma de vida “assistida” foi o socialista utópico Robert Owen, depois de muito fracassar em suas tentativas de vilas comunistas fechadas.
4. Mistura o vago apontamento de “grupos racistas” ao direito de ter armas, montando um silogismo obscurantista (como nota de outro modo Júlio Severo) daqueles que já se disse em outro lugar que é a mais fina arte do diabo: “mistura astutamente o verdadeiro e o falso...” através da omissão de certas distinções, como o crime de pena capital com a intervenção do estado na economia, deixando obscuro o que a defesa da vida tem a ver implicada à ação do estado na economia que seja, pela ação diligente e voluntarista, um bem (nas palavras) ao qual não podemos nos privar.
5. “Beirar ao nazismo e ao fascismo” deve ser uma daquelas redundâncias de reforço completamente dependentes da adesão espontânea (e entusiasmada) ao consenso, ocultas as premissas que falam pela boca do sujeito que de si mesmo não diz nada. Porque realmente não é preciso ter fé quando você adere ao consenso mais amplo --- senão isto, ao mais barulhento e ao mais repetido por mais tempo. A propósito de justificativas obscurantistas, que os fascistas as tinham, mas que os nazistas as tinham mais ao modo de Wellington, conforme a justificação lhes deu com força suficiente para a ação mais radical.
6. “Encontrei quem...” já decidiu a questão e a frase foi colocada no contexto que não poderia aludir a outra coisa que a uma generalidade que pretende exemplificar pela adesão que ela sugere de início. Algo assim, no que segue, é da natureza retórica dos enchimentos de vísceras para fins de volume estéril consagrado na culinária brasileira.
7. Por que o “pleno [?] século XXIdeveria ter um modo de pensar superior aos demais, parece de uma iluminação que já está sobre todos como um slogan ao consenso que chegou por aqui quando eu estava fazendo outra coisa, suponho. Imagino que no século XXII o futurismo terá sido comprovado pelo fluxo natural do progresso invencível da humanidade, nos seu apogeu, então perene.
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A fantasia como fundamento do futuro
Se você pegasse mil dentre os melhores seres humanos, os mais filosóficos, e os transformasse em cidadãos dessa comunidade idealizada, acho que em menos de um ano eles morreriam de tédio ou fariam algum tipo de revolução--- Bowler-Lytton, A raça futura.
Nós acreditamos na felicidade e na estabilidade. Uma sociedade composta de Alfas não poderia deixar de ser instável e infeliz. Imagine uma usina cujo pessoal fosse constituído por Alfas, isto é, por indivíduos distintos, sem relações de parentesco, com boa hereditariedade e condicionados de modo a tornarem-se capazes (dentro de certos limites) de fazerem livremente uma escolha e de assumirem responsabilidades. Imagine isso! — repetiu.” ---Mustafá Mond” in Admirável mundo novo, XVI.
Misturar fontes e articulá-las de mãozada, omitindo distinções dando por efeito que, na ausência de um sentido, evidência, experiência ou lógica mais forte, fica implícita a noção a fortiori da autoridade de quem fala. O que, fosse dito abertamente, teria o efeito aos nossos ouvidos da sobriedade austera do louco quando se apresenta galhardamente como Napoleão. A síntese de argumentos justificatórios num processo de racionalização muito inatural, reúne tudo o que solto e disparatado possa reforçar o impulso que a crítica à sociedade (ou ao convívio) pode conduzir de mais radical até a consumação ordeira de uma obra dos infernos. E é indiferente se essa obra tenha lá a aparência final de uma sociedade concebida perfeita ou o ato de justiça de uma vítima ultrajada.
A algaravia justificatória como peça sincrética de autounção ritual tem um efeito não dessemelhante em Wellington que aquele da fundação do arianismo ao justificar o nazismo à sua missão na terra; e igual mesmo a isto, que se lê como exemplo em Hermes Fernandes, ao assumir como Vril civilizacional a mais ampla difusão de amor, justiça e verdade na realização destes fins como meios eficientes para a sua autoconsecução.
Em outro contexto, chamar-se-ia “socialismo” a este artifício da omissão tática de tudo que não pareça a defesa mais radical do melhor futuro. No caso, aqui, parece que se trata de um pietismo ingênuo, de um paroxismo da polidez e da laicidade, que encontra puerilmente no termo genérico “fundamentalista” a rejeição ao que não seja simplesmente (como sempre) a mais ampla ação pacífica no mundo --- e, espantosamente, parece que nada mais que isso.
O resultado desse práxis purista leva ato contínuo ao moralismo dos gestuais delicados e do vezo de polidez cujo conteúdo é a inerme laicidade.
Mas nessa outra algaravia, a da reunião de tudo que pareça, por alto e rarefeito que seja, bom, a única coisa que sobra é --- além do nada óbvio papel que nós próprios representamos na ascensão da humanidade ao seu mais perfeito estado imaginado --- uma sociedade cheia da mais ampla tolerância dissolvente do julgamento que discrimina o bem e o mal, e isto por uma adesão, inevitável então, aos seus agentes autoincumbidos de seus representantes.
A puerilidade das soluções que comunistas e socialistas foram e são tão prolíficos, para propor os fins mais nobres como meios de si, parece que dá na mais inerme apoplexia espiritual dos que já aderem, num “corajoso” ato de autoconfiança --- que é pelo que passa o “espontaneísmo” voluntarista ---, a todos os atos de benevolência para com o que é grave e mal. O que se tem aqui é a força de uma mentalidade que dissolve a crítica, solvente de si mesma, a borrar os limites das distinções, no ato mesmo em que delineia o recorte de uma oposição “inimiga” contra a qual espelha dialeticamente todo o demais do qual possa fazer uso. Cristaliza-se a imagem do “reformador”, do “vingador”, do “moralizador”, ou do “balanço” consequente como cura de um mal, um agente individual, e, por isso mesmo, absoluto na sua motivação justificada.
No recorte do “inimigo”, esmaecida a autocrítica pela justificação autoconfiante, tudo que possa falar ao ouvido para justificar e dar fundamento à ação espontânea da vontade ganha uma coerência paradoxalmente sincrética.
Romance de Edward Bulwer-Lytton, A raça futura (1871), trata da raça subterrânea antediluviana que lembra anjos de um mundo perfeito pelo poder do Vril --- “o fluido que a tudo permeia---, que emergirá à superfície mesmo que isso signifique ter de eliminar parte da espécie humana.
Se se pode dizer que a algaravia esquizofrênica tem uma coerência, esta é a do sincretismo, conquanto tudo que possa arrolar contra seu inimigo seja já a fortiori a seu favor. O limite de uma justificação a qual falta a autocrítica é a que define um inimigo, um antípoda, contra o qual o universo conspira a nosso favor. Dissolvidas as distinções, o futuro tem um sentido positivo contra alguma coisa nefasta, contra algo nocivo.
A advertência de Fernandes aos que podem estar correndo o risco de dar visibilidade a blogs “danosos à sociedade”, enquanto reúne só o soberbo ao seu lado, exorta articulando o antigo vezo comunista à arte sintética negativa que aproxima tudo que possa pela différance para com o “inimigo” --- e então o futuro pode ser perfeito se este for eliminado.
Da mais ampla difusão de “graça, amor e justiça” tiramos o futuro como outrora se tinha por aquele velho panegírico da felicidade e da benevolência que se tem da docilidade natural de um selvagem utópico que o reformador leigo planejou achatando a natureza humana a uma abstração social. Talvez não por acaso a época que concebeu a este mundo reformado mais seriamente o tenha tentado reproduzir em escala pequena através da mera moralidade legal; a benevolência social (coletiva) tomada no lugar do amor cristão (individual). Mas sempre, de novo, se viu frustrada por uma outra antítese resistente: a realidade.
E a negação da realidade, à qual se antepõe um par dialético que é um mero “possível”, é também a negação da verdade; e a negação da verdade é a negação do amor cristão ao próximo por uma cópia macaqueada de benevolência social, pela qual se busca espargir ao mundo inteiro, como que encontrando o Vril de uma gnose sociológica. Ou ainda, num seu equivalente espiritualista, como já não é desconhecido da metafísica da benevolência. A arquitetura dessa sociedade não é nada estranha como já não parecem estranhas as utopias que se erigem nos vagos possíveis do futuro. Desse interstícios subterrâneo entre a realidade e o imaginário saem, como na obra de Edward Bulwer-Lytton, a “raça futura”, cuja missão, que esta reconhece como sua, é trazer para a superfície as soluções sociais e espirituais destes tempos corruptos com a eliminação curativa de parte do que existe.

Tudo conspira para que o cetro de Deus esteja nas mãos da humanidade. A meta dos revolucionários profissionais é a criação de uma comunidade evangélica com base na igualdade e na irmandade planetária. Para isto, ele está preparado para uma guerra de destruição contra aqueles que sucumbiram a Mamon e permitiram a dominação das leis de mercado que a todos profanam e corrompem. Daí o chamado destrutivo da revolução gnóstica: nem uma única pedra desse mundo corrompido deve ficar em pé; daí também a inevitável conflagração e autodestruição por vir do projeto revolucionário para purificar a existência através de uma política de terror disseminado e aniquilação.”
--- Luciano Pellicani, Revolutionary Apocalypse: “Prefácio”.
 

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