outubro 31, 2012

O universo plano de Ar-Naldo Jabor

Alas! A few years ago, I should have said “my universe”; but now my mind has been opened to higher views of things.” --- Edwin Abbott, Flatland – A romance of many dimensions, I, §1.

Em “Arnaldo Jabor fala sobre a campanha americana” o astro da fantasia em duas dimensões e um só sentido possível, analisa o confronto entre “O Cara” esguio e ágil, Mr. Barack “Smart” Obama knight, o garboso Robin Hood contra o xerife Mitt “Manguito e Abotoadura” Romney, o almofadinha inadmissivelmente rico, o melhor inimigo que Obama poderia querer para vencer dizendo aqueles velhos clichês que ninguém ousaria negar na sua plana obviedade.
Arnaldo Jabor frui de uma notável clarividência, de uma luz que lhe escapa pelo alto da cabeça, de grande área reflectante, e ilumina o ambiente com uma luz crepuscular, tirando os fatos mais óbvios de nossa obscuridade e colocando-os planamente (em duas dimensões e um só sentido) claros e distintos. Diz lá o para-analista político Jabor:
Os republicanos chamam Obama de muçulmano, covarde, comunista e filho bastardo de uma mãe promíscua com um amante...”,
e faz um elucidativo gesto de mãos para mostrar no ponto mais forte de seu argumento a exposição clara de uma verdade sem profundidades perspectivas. Mas, de fato, os republicanos chamam Obama não de tudo isso que o infamaria, mas simplesmente de mentiroso. Obama revelou em Dreams of my father uma história bucólica de uma típica família americana que jamais existiu, assim como seu certificado de alistamento e o número da previdência social. Ao se averiguar a história que ele contou, nada batia. No lugar da maquiagem que George Bush colocava na cara, no seu tempo de Casa Branca --- enquanto uma mulher com um pincel de blush dizia sem muita paciência o que ele deveria fazer um pouco antes de entrar no ar, com ele constrangedoramente dócil ---, Obama contou uma história completamente maquiada da própria vida, que quando investigada mostrou justamente o que Jabor toma por acusações infamantes. Os republicanos não ousam “chamar Obama de” qualquer coisa ofensiva, mas foram atrás da história dele e viram que não conferia.
Era de esperar que a banda podre da América agisse assim”, diz Jabor, “pois jamais engolirão um presidente negro...” --- assim como Lula por aqui não era aceito por ser torneio mecânico inábil ---, “...que pensa nos pobres e que quer taxas os mais ricos.” A literatura em Flatland, pátria natal de Jabor, tem um sentido de tempo muito ruim, e por isso os eventos, como nos filmes, que o enredo sabe perfeitamente em qualquer momento o que vai acontecer no fim, não têm conseqüências; e, assim, ignorando a história medonha dos que fazem o bem, vê o plano do mundo, como é na realidade, tão complexo quanto um mapa, ignorando a advertência que prega em sentido contrário: "O mapa não é o território!" Mas nas vastas áreas da terraplana seus latifúndios podem ser modificados para o bem de muitos (no mapa), da propaganda socialista que se ouve da boca de Jabor (v.g., afetado de xenoglossia).  
Providente, as articulações da trama se embaralham num mesmo plano, para chegar a um final feliz que é, sem profundidade, o horizonte da certeza inalcançável que permitirá que se persista sempre de novo e ainda uma última vez, mesmo depois de tudo o mais ter falhado. "Pensadores" como Jabor lutaram contra um Hitler, enquanto faziam a apologia de Stalin. A consciência de Jabor é uma propaganda política que roda em falso. Inadvertido ou inconsciente ou embuçado em ideologia, Jabor reproduz os temas do racismo, da luta de classes, do líder iluminado, da outra realidade, da engenharia plana e piegas de, assim simplesmente, fazer o bem aos pobres, contra (obviamente contra alguém) os criadores de teorias da conspiração que não acreditam que o republicano Romney faz parte da linhagem ocultista da ordem mística “Skull & Bones” que assassinou os Kennedy (Até John-John, caído de avião em 1999).
Para quem adora acusar os conservadores de criadores de conspirações, Jabor não percebe a sua própria torpeza simplória --- como aquele que disse recentemente que a religião era produto da mente humana, que o que pode haver de fantástico certamente era, no lugar de Deus, as “forças ondulatórias da mente humana”. O nome que se dá para esse fenômeno humano é o bárbaro “simple-minded”, o homem ordinário de “plana-mente” que assume um comportamento cético e crítico bastante razoável para a média do consenso, sem grande discrepância com o politicamente correto, para em seguida e planamente dizer um absurdo ainda maior.
Com Oliver Stone --- diferente desse e de Desmond Tutu no que se refere a achar Hugo Chávez um paladino da democracia no mundo ---, a América, para Jabor, está dividida entre Progresso e Regresso! E como todo mundo sabe, “para frente” é bom, porque para frente “avança”, ou “evoluiu”, e quem não quereria evoluir, não é mesmo? (Parece que os tubarões, os priapulídeos e... bem, teria que explicar aqui que a evolução tem um único objetivo final: não evoluir! Digressões à parte...) Obama é o “progresso”, então; é a “inteligência moderna” --- ((creeedo!)) --- contra (o maniqueísmo vive!) a “estupidez fundamentalista” de Romney. Este, fazendo-se de moderado --- lembremo-nos, é daqueles que mataram os Kennedy ---, e, como Lula, fala manso enquanto a SS do partido apunhala Obama pelas costas! Deve estar se referindo à declaração de um republicano que dizia que o estupro faz parte dos planos de Deus, prova imarcescível do trogloditismo conservador (que exemplos em contrário há tantos).
Emocionalmente, Jabor arremata com essa verdade que ninguém ousaria negar: “Eles mentem sem pudor, porque querem mudar o voto de pobres, intimidar latinos, indecisos e velhos sem preparo...” Querem continuar a obra catastrófica de Bush, as guerras. Numa lógica que não varia um milímetro, continua inferindo sagazmente: “O Paquistão e Israel já tem a bomba, e se tivermos uma guerra sofreremos nós aqui...”, por quê, diz aí, Jabor: “Por que sofreremos com os danos ao comércio internacional, sem contar os efeitos da poluição nuclear no planeta... Podemos rezar...” é o que podemos fazer. Mas... para quem, Ô, Jabor! É claro, para o Obama?
O mundo mais plano de Jabor tem de sua arte, o cinema, antes dos recursos em 3D ou das tecnologias de alta definição, a projeção chapada de um filme de terror trash dos anos 60. Mas vamos dizer como um verdadeiro criador, Edwin Abbott, “Be patient, for the world is broad and wide”. Precisamos de muita calma e atenção para não cair na esparrela dessa lei cega contra a qual um Nelson Rodrigues tanto advertiu, o progresso do idiota aos lugares mais leveados da sociedade, recebendo grandes doses de congratulações, e tanto mais notável no seu caráter quando tem algum talento, para com maior dificuldade perceber a estupidez. Assim, pelo que pensa saber, mais lhe parece que tem a missão de explicar para o mundo inteiro que o mundo é um lugar estreito e plano numa projeção da sua própria mente arrasada.

outubro 28, 2012

Voltas estranhas e inversões

Com pretexto em “Desconstruindo Huxley” (You Tube) sobre as voltas estranhas do pensamento rebelde.
Em “Admirável mundo novo” (AMN), Bernard Marx é especialista em hipnopedia; não o protagonista, que é o Selvagem. Dia destes, alguém tentando interpretar num jornal local “1984”, de Orwell, dizia que enquanto houver diferenças de classes e opressão dos trabalhadores, estaríamos expostos aos riscos de “1984”. Assim, exatamente no momento em que o autor do artigo descrevia os riscos daquela sociedade controlada, mostrava que estava completamente dentro dela e do AMN, repetindo lemas hipnopédicos --- aqueles que repetidos 62 mil vezes fazem uma verdade. De novo, é Marx o especialista em hipnopedia. Expressões como "crise do capitalismo", "consumismo", "elitista" "desconstruir", são expressões hipnopédicas, elementos doutrinários na propaganda que sai de redutos esquerdistas, redutos do que querem construir "o Sistema" como ele nunca existiu sem imperfeições. E estes "diferentões", Malcom X, Martin Luther King, Che Guevara (!), Jesus Cristo (que comparação!), Betinho (!), Panteras Negras... estavam completamente envolvidos com a revolução que só pode começar produzindo o clima emocional que dizendo ser crítica convoca à adesão de uma maioria. É um fato monótono que as rebeliões produzem sistemas ainda mais tirânicos do que aqueles que elas denunciavam.
Outro exemplo (vou chocar a muitos) é a música “Another brick in the wall”, Pink Floyd, de videoclipe famoso; o sistema que torna os alunos em homens-massa não é a educação, mas o sistema libertário que começou a ser aplicado com técnicas dignas da mais improvável engenharia social a partir dos anos 30 em várias partes o mundo. A cena da rebelião das crianças quebrando as classes é que as transforma em escravos. Se alguém quiser inutilizar a muitos, basta promover estas idéias de revolução e elas deixarão de alcançar o nível de poder resistir à propaganda. No começo do videoclipe, o professor ridiculariza os poemas, que só com uma boa educação se é capaz de ler e perceber a dramaticidade condenada e excluído no AMN.
O símbolo melhor de uma juventude que cresceu repetindo slogans marxistas é essa exclamação de Bernard Marx (o heterônimo do Karl famoso) em AMN: ""Ford! Como eu os odeio!" (III). Até para dizer que os odeia ele repete a interjeição do fundador daquele mundo, "O, Ford"! Muitos farão isso. A obra de Huxley (coisa não rara na arte) tem marcante o efeito dos quadros de Escher: os personagens refletem eles mesmos, historicamente, criticando o sistema/máquina (establishment) que eles ajudaram a criar. Como nos quadros de Escher, as "voltas estranhas" (Hoftadter) mais abertas deveriam pôr advertido o leitor de que ele talvez possa fazer parte do quadro todo.
As revoluções sempre resultaram em uns controlando maximamente a outros; o símbolo do rebelde está no começo da Revolução Francesa e Russa, está nos Demônios de Dostoyevky. As crises, ao contrário do que o marxismo prega (mesmo quando ele aparece sob o símbolo Paz-e-Amor), não são a oportunidade para a mudança, mas antes abrem espaço para os piores oportunistas.
O "consumismo" existe e torna o homem um sujeito oco e fútil; mas de modo nenhum ele está confundido com o capitalismo, que permite que algo como a internet exista. É a cultura materialista e hedonista, que Huxley denuncia, que está hoje completamente albergada na pena de autores de esquerda, que gera o consumismo e que possibilta o controle maciço, como ele pode existir fora das teorias conspiratórias --- obra desta arte mais do que velha ---, convidando, seduzindo a uma maioria a aderir. Aí as coisas começam a ficar confusas de novo, mas nem tanto: quando o consumismo de uns poucos não é o suficiente, aqueles que não podem consumir são assistidos pelo estado para entrarem no sistema e começar a consumir. Voltas estranhas... É um fato monótono que as rebeliões produzem sistemas ainda mais tirânicos do que aqueles que elas denunciavam. Nesse assunto, o neófito é pego pela boca, quando brande lemas de resistência que saem da propaganda dos próprios criadores de sistemas.