setembro 27, 2007

Sob a luz, medonhas criaturas

Agência Estado via Yahoo! Brasil

Certa psicologia é magia negra, certa literatura, auto-ajuda; cerca experiência, hábito; certo hábito, senilidade. Impressionam as metamorfoses de Renan, de certo Senado. Depois de se tornar uma barata, no início das denúncias, e de ter justificado a realidade com a falsificação das vacas, passa por uma nova metamorfose, encarnando por traz do sorriso monalísico, o espírito do imperador romano Caligula. Renan K., o do processo, não é morto, mas mata a verdade com um frio sorriso monalísico. É Renan K. Lígula, o Obsceno. Um tiranete num sultanato.
Condenado pelo processo, ele safa-se das acusações com a fantasia da loucura e mata a verdade. Como ele mesmo disse, “A verdade prevalecerá”. Afinal de contas, nada é mais evidente, numa cena de crime, que o grotesco cadáver estirado no chão frio – a isto, acrescente-se: “sendo violentado por um necrófilo de palitó e sorriso monalisico”.
O MP está movendo no Supremo peça criminal contra o senador, mas quem disse que é certo que o Supremo se encontra fora da fama que adquitiu nos últimos 20 anos? Não leram Edgar Poe! Como está na Carta furtada, “ampliam ou exageram seus velhos métodos de ação, sem mexer-lhes nos princípios”. Está tudo muito evidente, porém, justamente por isto, parece que é grande a chance de não encontrarem nada.
No Senado, o que esperar senão velhos senis? Solipsismo intrujão oculto na senectude – a velhacaria senil tomou a praça.
O Senado não caiu, elegeu um ditador, acólito daquele sultão que ele imita o sorriso.
O “dia do apagão moral”, como se disse, é o dia em que as portas da festa ficaram por acidente abertas – como aquela que o caseiro abriu. Há também quem dissesse que a reunião deveria ser feita numa prisão de segurança máxima, que era, de fato, lugar mais adequado para os vermelhos, o acolitato peemedebista e o Cesar Renan. A piada não é original: tranque-se as portas do Senado!
Renan manda no Senado, mas teme ser assassinado. Não há, no entanto, oposição real, apenas conspiração. Longe pela alienação, morando no último cômodo escuro da casa medonha do esquecimento, o sultão diz que não sabe de nada, mas vive proferindo pérolas definitivas como mantras, que lhe ajudam a respirar na escuridão. Num rompante, o louco sultão fala sozinho, na sala negra, proferindo centúrias sobre os fundamentos democráticos que ele descobriu, depois que lhe contaram, que chegou aonde está porque “maioria” é igual a “democracia”.
De uma ingenuidade toda tola, expostos à luz, alguns ventríloquos pregam a palavra do sultão louco. Almeida Lima – que deveria chamar-se “Apara-Arestas” – é aquele cara que participou da Comissão de Ética desde o começo com o intuito de absolver o senador Renan – o “Sr. K.” do Processo... (E conseguiu!) –, mas ninguém notou, como não notaram aquele outro velhaco, cujo nome é uma profecia quando sai da boa de um petista: Cafeteira, “o Epitáfio” – a pronúncia é dos petistas, bem como o critério ético também é dos petistas, o qual foi usado para julgar o “companheiro” Renan.
Depois do 3º Congresso Vermelho – a que se seguiu a defesa incondicional de Renan e a compra dos 300 picaretas na Câmara com emendas e nomeações – ficou claro quais são as linhas básicas da ética socialista.
O Palothi apareceu, sorrateiro, sem despertar a lembrança de ter usado a máquina do Estado para intimidar o caseiro da casa da Mãe Joana, onde reuniam-se todos os que não são Celsos Daniéis. O cadáver, novamente, em sincronia íntima, no tempo, vem à tona desse mergulho infernal, dá “corpo” ao crime, é evidência sob a luz natural verdadeira, ante o horroroso jogo de espelhos que multiplica os doppelgänger do vaidoso sultão.
Como a luz exposta a um buraco negro, a realidade é tragada e se distorce em torno de Renan e Lula, toma outras cores e outras formas. 

setembro 23, 2007

A Nova Epistemologia

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Admirável rodeio

Pressionados por avaliações de “produtividade”, a atividade científica, de psquisa e de ensino – que vêm associadas àquela –, parece que passa a sofrer cronicamente de “adaptação” estratégica, quase ao modo dos livros de auto-ajuda empresariais, que tem por fim último a manutenção de empregos, a ascensão profissional, no geral, a administração de carreiras.

Nesse ambiente de competição, é sintomático que “estratégia” e “adaptação” sejam palavras elevadas à categoria de essência, moldando não os fins, mas os meios de produção. Aliás, coisa que, de longe já cheira a uma inversão espúria, enquanto preocupado com a produção, coloca no centro das atenções os “meios” antes que os fins. Assim, “meios de produção” é apenas o termo composto pára dizer “meios”.

Perguntar-se-ia: Quais os fins? Mas isto é uma incógnita misteriosa protegida a sete chaves. Daí que na ausência de fins, o importante é om “impacto” que se pode produzir pela produção, consistindo na produção de impacto a noção nova de produção.

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Se “fator de impacto” fosse critério de qualidade científica, o noticiário sensacionalista seria o ápice de uma sociedade funada sobre a boataria, e daí, nesse processo civilizatório dá até para entender o Lula como um Sócrates às avessas: “Só sei que não sabia”.

Mas digamos que os tais famijerados “fatores de impacto”, os quais são apoiados por “indicadores estatísticos” – de citações – , sejam a comoção acadêmica, ainda assim ter-se-ia que diferenciar a comoção da autoridade da comoção de méritos que, por definição, não são lá coisa que aparece de uma hora para outra, senão como fruto da discussão interna, qualificada, de uma comunidade acadêmica autônoma.

Se congressos passam a falar apenas sobre as novidades apresentadas, então está-se a falar de efemérides.

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Ciência impessoal coletiva

Escreveu o cientista argentino residente en México, Marcelino Cereijido[1], que, querendo manter a regularidade de publicações, o jovem investigador não se pode dar ao luxo de abordar um problema profundo, porque corre o risco de que essa línha de estudos não produza publicações suficientes de modo que não lhe outorgue subsídeos, nem bolsas”.

Méritos é o que na dinâmica da “ciência impessoal”, despersonaliza o brilho individual (em alguns casos, puramente individual, pois contra a desatenção de todos) para tomar, como que por um imemorável legado, a herança das melhores hipóteses explicativas e métodos filosófico-científicos como algo imanente denro da comunidade impessoal.

Em artigo de 15/4/2007, Marcelo Leite escreve para a Folha de São Paulo – “O fim da era Einstein” – para notar que os trabalhos científicos cada vez mais são realizados por equipes; diz ele: “No campo das ciências naturais, o pesquisador é hoje mais chefe de equipe do que intelectual”.

Especializados até a idiotia...”, sentencia, pesquisadores como Einstein já não existem. Mas isto é um engano. “Einsteins” existem por conta de si mesmos, de tempos em tempos; é por justamente ter que ficar a espera de um Einstein que é o temível. Todo o há muito abaixo de Einstein será achatado e, o que há abaixo, dilatado, a um mesmo nível.

O efeito é evidente: os trabalhos acadêmicos deixam de ter objetos que não possam – e talvez poucos não possam de modo nenhum – serem desencadeadores de citações. Sem as citações, não há trabalho científico reconhecido, portanto, não há lugar para o cientista. É o que diz o cientista argentino: “si nos hacemos los locos nos toman las instalaciones”.

Desse modo, o trabalho científico é modelado pelo potencial de apelo a citações; isso modifica o próprio objeto da ciência em última instância. Isso é bem conhecido – o que não quer dizer que seja de todo consciente –, que o método de pesquisa “orienta” e “molda” o objeto de investigação, de modo que se busca algo que espera encontrar, sob algum aspecto. Que efeitos podem resultar, então, quando o que prescreve o método são “regras econométricas, administrativas e sindicais”?

Esse modo de avaliar a qualidade do trabalho cientifico, com número de citações, na maioria feito por equipes, não avalia o impacto cultural e efetivo do conhecimento no ambiente acadêmico, aplicado e social, que é onde parece que ele deveria ser medido e não vinculado diretamente a um cômputo de referências.

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A Nova máthêsis epistêmica

É tamanha a sanha pela avaliação de “produtividade” nas universidades que não vai surpreender que as preocupações com o método científico se tornem mera busca por eficiência ante os critérios da avaliação de produtividade. Se a “econometria” levar à forja do “novo método científico” – e da “nova epistemogia” –, desde já não se aceitará objeto científico que não dê azo aos resultados de produtividade que o método econométrico não “perceba”.

Vejamos quais os aspectos da pesquisa que podem se adequar a esta máthêsis meritocrática – ou, o cômputo do valor impessoal, que todos reconhecem em algum grau, para um trabalho por apoiar a rede de reconhecimento do cômputo do valor impessoal que todos reconhecem... (:)

1. A descrição ou ensaio de um caso particular qualquer, por amostragem, espécime, etc., seja lá uma inclusão fluída num pedaço de rocha, seja o ensaio casuístico de amostragem, isto é, o que estas coisas têm de diferença específica, que é, neste primeiro caso, existirem no espaço e ou no tempo e pelo erro comum de existirem, sem que se confundam num trabalho igual, o que nos leva a conhecer, por fim, qual é o valor certo de propriedades bem conhecidas [2].

2. Levado à generalidade de uma teoria ou metateoria que ao modificar conceito ou procedimento de grande extensão, obrigue a um número grande de citações.

O cômputo se dá sobre o primeiro reconhecendo a novidade de um trabalho sobre bases materiais “novas” – novo, aqui, tem o sentido mais pobre que o termo pode carregar, que qualquer espécime de uma espécie qualquer estudada pela primeira vez é uma novidade em sentido estrito. Mas qual a representatividade deste ensaio, amostra ou espécime, poder-se-ia levantar a objeção. Aí é que ocorre um dos desvios mais comuns de método em ciências naturais [3], que pode ser objeto de infinita corroboração por trabalhos semelhantes posteriores, sem conduzir a nenhum acrécimo substancial. Este trabalho é, realmente, dirigido a um só fim, que é instruir e treinar um iniciante que, de lambuja, pode publicar como novidade um trabalho “ensaístico”.

É bem verdade que se busca sempre a novidade qualitativa – específica –, como, em geologia, uma espécie nova – e tanto melhor quanto mais alta a filogenia – onde antes se não a conhecia naquele lugar ou tempo. A tal novidade é um “achado” casual, já que em geologia a descoberta de algo novo implica desconhecer que se possa encontrá-lo onde se o encontrou. Como mero achado, a novidade é fruto de um gope de sorte, consistindo nisso o mérito da novidade. As citações estão garantidas neste caso, mesmo sendo o mérito concreto da ação investigativa e especulativa (e seus riscos) o mínimo.

Bem, essa novidade específica pode ser encontrada por acaso – e geralmente é o que acontece. No entanto, essa novidade só é encontrada porque já está prevista de algum modo. Quando se encontra um fóssil de um filo numa posição onde não se o tinha conhecimento num momento anterior, é porque se conhece tanto o filo quanto o lugar onde ele não era esperado ser encontrado. Espécies novas paleontológicas não são reconhecidas de pronto. Os dinossauros foram tidos como um tipo de mamute, depois como lagartos gigantescos, e não por último ou de todo em definitivo, como ancestrais das aves.

3. Um terceiro aspecto é o da mudança teórica que vira referência geral, amplamente difundida, porém sem passar necessariamente por um ápice inicial, de amplo reconhecimento. Muitas vezes, se não recebe reconhecimento no seu próprio tempo, pode não o ter mais depois, quando pode já influir positiva e largamente sobre o pensamento de uma época – que pode estar restrito a uma disciplina específica –, sem ter o seu mérito devido e de seu autor de uma comunidade científica quanto mais da avaliação econométrica, que já não o pega de modo nenum. Por outro lado, um trabalho ensaístico recebe mérito sem tê-lo, e a mudança teórica pode ficar dispersa numa nuvem de propostas que concorrem com ela sem que no seu tempo ela receba o número de citações devidas.

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A produção de um novo pesquisador

O mérito, nesses caso, somente funciona para aqueles trabalhos que modernamente tomam corpo, como grandes consórcios que empreendem como um só. E a estes trabalhos que o método econométrico se dirige. São os trabalhos que criam as grandes bases empíricas e de levantamento de dados que servem a todos. Nas novas afoitezas das metodologias de avaliação, não está contemplada a existência da inovação científica relevante, pois seria invisível a ela um Einsten, nenhum empreendimento poderia prever a Relatividade.

Os grandes empreendimentos científicos, tais como o mapeamento do genoma humano ou aceleradores de particulas, os cincrotrons, que se valem do uso de instalações muito caras para uso restrito a poucos, somente possível nos grandes consórcios, tem mais alto potecial de citações, porém isso é encobrir o fato de que mudanças ou descobertas não são feitas pelas equipes, constituiondo elas apenas de um esforço coletivo por algo que se já se tem no horizonte e que não se poderia alcançar em menos tempo sozinho.

Revelam-se trabalhos grandes demais para um único pesquisador e dispendioso demais para bolsos individuais, porém a outra característica é que eles revelam algo que trazem à evidência que não é nenhum esforço cognitivo, mas o que culturalmente já se podia aceitar: o código genético humano, por exemplo; o que Einstein fez, por outro lado, não é um feito individual, é a descoberta de um modo de ver que não poderia nunca surgir como evidência trazida pelo trabalho de uma equipe que não tivesse surgido antes revelado a uma consciência individual dessa equipe.

Parece que o modo de fazer ciência atual pode cada vez menos reconhecer uma idéia individual, pois o método e as regras econométricas que o sobrepóe não podem identificar uma pesquisa que não tenha um fim certo. Uma idéia individual não pode estar prevista por “programas de pesquisa” e tampouco será identificado pela avaliação econométrica. Só o trabalho que sai do seio da coletividade, por interesse prévio dela, é que podertá existir, e se essa vontade respeita à econometria, anula-se a exploração individual e, com ela, a livre-iniciativa da investigação.

Novamente, “o jovem investigador não se pode dar ao luxo de abordar um problema profundo, porque corre o risco de que essa línha de estudos não produza publicações suficientes de modo que não lhe outorgue subsídeos, nem bolsas”.

Isso é um ócio que já não se tolera, e temos a situação temível que se pode perceber. Afinal de contas, Einstein era funcionário público a certa época.

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A “zolação” de Shakespeare

Reconhecido um problema, como aquele a que deu seu esforço Einstein, uma equipe poderia solucioná-lo cooperando, ainda assim, as soluções só poderiam vir da consciência de um único cientista no que ela tem de essencial. Este “um” seria Einstein, mesmo que nunca se saiba se da mesma magnitide, justamente porque não teve que desenvolver a explicação teórica sozinho. Outra questão a respeito seria saber se uma vez tendo idéia de uma coisa igual à Relatividade, seria possível que este quase-Einstein a compartilhasse com outros para ser desenvolvida em conjunto sob o prteexto de melhor sorte. Parece inverossímel e talvez seja isto mesmo improvável.

Aí se aplica aquilo que já se disse sobre Shakespeare, que ele não existiu, que era o consórcio de inúmeros autores, entre eles, talvez, o próprio Francis Bacon. Harold Bloom, se não me engano, disse que, de qualquer forma, Shakespeare existiu, seja lá ele carne e osso ou uma unidade metafísica coerente chamada “Shakespeare”. Há, efetivamente, uma unidade intelectual ideal reconhecível, segundo se tem reconhecido por séculos. Outrossim, Gustave Doré tinha um ateliê onde seus acólitos desenhavam sob seu comando e não o permitiam que se desse uma obra por terminada sem a sua inspeção. A griffe Doré é, efetivamente, Gustave.

Parece, por tudo isto, inviável uma avaliação desse tipo sobre o trabalho científico; fica claro, portanto, que o caráter “científico” venha a ser, pela avaliação de mérito, todo trabalho que está dentro do alcance dos critério de assimilação dos métodos de avaliação, e que se tornam referência obrigatória ao autor ou autores. Isso só se dá pelas grandes escalas de produção acadêmica (escalas “industriais”) ou pela novidade (diferença específica) mostrada por um autor único. Mas este terá dificuldade de ser reconhecido porque está sem o aparato caro de produção científica moderno, pode não estar referendado por uma instituição (pior), ou se está, deve fazer parte de uma linha de pesquisa ou projeto (aí tem-se já captação de recursos), que são, por definição, definidos para o trabalho em equipe.

Mas não se pode conceber uma novidade sendo planejada para acontecer, o que exclui do método de avaliação já de cara a inovação.

Isso não significa exclusão ampla da pesquisa, mas esta já não é uma investigação no sentido de uma logica inventionis. Porém, como diz Marcelino Cereijido sobre o jovem investigador, que no afã de manter a regularidade de publicações ou ser reconhecido entre seus pares, não se pode dar ao luxo de abordar um problema profundo, porque corre o risco de produzir menos ou fora de linhas de pesquisa normais, perca subsídeos e bolsas.

Einsteins não são mais possíveis por desentímulo; já não se pode pensar que isso impeça a ação individual, que nunca teve monopólio de um setor ou nível social unívoco entre cientistas ou filósofos, e Einstein, como funcionário público a certa fase da vida não foge da regra.

Por fim, os métodos de avaliação, o trabalho que já não tem, ao que parece, a consciência individual nele, leva a um cientista que se torna um mero administrador da própria carreira. É a desolação de Shakespeare, e a negação do homem por trás do empreendimento científico para hipostasiá-lo a um projeto de pesquisa proletário.


NOTAS

1. In: “Morrer de avaliação”, de Nora Bär ao La Nacion, Buenos Aires, 22/8. Notícias Domingo, 26 de agosto de 2007. JC de 22 de Agosto de 2007.

2. Este primeiro caso é justamente o que, em geologia, se diz que não se pode chegar a fazer de modo nenhum aplicando-o ao passado (Kitts, 1962, p. 306).

3. Penso especificamente na geologia, mas também na biologia e mesmo na filosofia e disciplinas derivadas, que não são lá das ciências naturais, mas partem (senão, pelo menos, deveriam) da mesma base, a realidade concreta, o hábito ou teoria dominante.

setembro 11, 2007

A revolta ípsilon-laica

(Cadê a transcendência que estava aqui?)

12º semana de gravidez

A ministra da Secretaria Especial de Política para as Mulheres, Nilcéa Freire, reagiu às declarações do Papa Bento XVI de que as mulheres deveriam receber ajuda estatal para se dedicar exclusivamente aos filhos e à família.

Em abril desse ano, Nilcéa veio, em uníssono, com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, postulando que a mulher deve ter a liberdade ao aborto até a 12ª semana (4º mês) de gravidez. Para ela, o aborto é uma questão de “autonomia” – ou, como traduz a filósofa Márcia Tiburi, o direito subjetivo da mulher “fazer o que quer do seu corpo”.

Curioso e inadvertido que o que mais mate mulheres em estado pré-natal seja a falta de assistência nesse período, sendo que o aborto é só a terceira causa, geralmente com números oficiais bem mais acanhados que os que os abortistas divulgam. Quer dizer. o papa mirou com a fé e acertou na realidade. Por princípios, acertou a realidade. Quando alguém tenta defender sua fé e consegue ser mais realista que os realistas, é de se perguntar se também a realidade não está sendo usada de expediente para fazer valer as subjetividades autônomas de Tiburi.

O papa não olha para o mundo real, porque o mundo real do papa é baseado na transcendência do homem ao real imediato ou temporal. Mas como Nilcéa deve desconhecer que justificou o “erro” do papa com o antípoda da fé do pontífice, deve ter visto apenas, ao olhar para o lado, um homem de idade avançada vestido de modo exótico, de cabelos brancos, declarando, para sua surpresa, coisas tão distantes dos graves problemas de saúde pública do seu Estado. Mas por um azar horroroso, a realidade das mortes de mulheres em estado pré-natal é justamente a falha do Estado no acompanhamento da gestação de mulheres solteiras e de famílias constituídas.

Um julgamento infeliz destes é quase motivo para adjetivar de criminosa negligência, principalmente vindo de um integrante do Estado.

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Esclarecendo” o Papa sobre a sua ingenuidade atemporal, tão pouco realista, Nilcéa explica que as mulheres – para as quais o Santo Padre queria a ajuda do Estado, para que elas cuidassem melhor dos filhos, que estas mulheres – participam da vida econômica do país, e querem a autonomia que lhes cabe, o que tem, por certo, o sentido de valores humanos inalienáveis, e por suas qualificações funcionais, para a coletividade.

O que deve ter, para Nilcéa – nesse sistema de valores – algum paralelismo integrador: “mão-de-obra qualificada”, “autonomia” e “participar da economia” cujos valores humanísticos que ela defende estão implícitos, forjando um sistema dentro do qual as mulheres encontram uma vida digna.

À manifestação do papa Bento XVI, respondeu a Secretária Especial:

Sinto-me compelida a dizer que o Papa precisa olhar para o mundo real. No mundo real, as mulheres participam da economia de seus países, não só pelo desejo de autonomia, mas porque também o desenvolvimento econômico precisa do talento, da qualificação e da mão-de-obra feminina [grifado]. (Evandro Éboli, “Descriminalização do aborto”. No JC/SBPC do dia 16/05/07. Original d'O Globo, 16/5/07).

Autonomia, para Nilcéa, é autonomia econômica e material, é satisfação do querer subjetivo e uma valorização da afirmação da mulher como apta a ser um fator de desenvolvimento econômico e capaz de provar que pode exercer o papel de mão-de-obra ípsilon. O que deve ser mesmo a idéia de “autonomia do proletariado” admirador-novomundista – ao modo, certamente, da “livre adesão fraternal à Revolução”, que é a única autonomia imaginável para esse caso: participar do mecanismo como uma mola bem azeitada, para fazer parte do Grande Sentido do Todo móvel.

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Mas há quem, como Nilcéa, sente de modo semelhante a esse tresloucado impulso pelo qual ela teve de explicar algumas coisinhas ao pontífice: “Aí, Papa; te liga, a realidade é outra!”. Tem gente que pretende que Jesus Cristo tenha sido um revolucionário como o “Che”, o que certamente tem a ver com a barba e o cabelo comprido, pois é grande a semelhança ideológica que têm quando comparados sob esse critério. Seria esta uma interpretação realista. Realista, porém, seria começar distinguindo coisas diferentes. Teria que dizer que a Igreja e as políticas de Estado tratam de coisas diferentes, e ficar por aí, que seria um vexame menor. Mas concluir não apenas pelas suas próprias coisas e convicções, além disso, opinar sobre as coisas da Igreja, fazer o secular explicar a realidade para o transcendental, é coisa lá de um nababesco ababelado sem par ou qualquer fundamento, a não ser a prórpia confusão. E enquanto não seja impossível decidir qualquer coisa sobre esses termos, resta apenas (por efeito ou por recalcitrante) reafirmar o que se pretendia desde o início, sem ter jamais (e não apenas agora) querido entrar (ou saber, mesmo remotamente, tê-la adentrado, incauta) na discussão.

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Como não pudesse ver no papa mais que dissimulação, passa-se rapidamete a especulação verossímil de que ele certamente estará, como para ela está, na defesa da teoria do Design Inteligente, intrometendo-se, portanto, como é da religião fazer, na ciência rigorosa, impondo a fé sobre a razão, a sobrepor-se a esta última, aos hábitos, cuja loucura intolerante de um São Paulo arrisca subjugar o mundo e impor a guerra contra a racionalidade ilustrada ao declarar que é loucura o que ele segue.

São Pedro é um perigo para as consquistas do Estado ípsilon-laico de analfabetos-funcionais, assim como a vida um risco para a autonomia e o amor próprio dos aminoácidos.

A conquista da sociedade laica – que traz subentendido que é moralmente superior justamente por eliminar a moral – e das suas liberdades, encontra a sua maior bandeira no Estado laicizado e, por ele, no direito à morte na forma da eutanásia e do aborto, além de outras formas de morte lenta. Não é estranho que isso leve à “transcendência do proletariado”, na revolução para o estado laico: morrer.

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Onde as mulheres não educam os filhos, geram-se Nilcéas, que querem que a educação das crianças fique com o Estado, para que o Estado se sirva das mulheres como mão de obra qualificada e autônoma. É o que dá para chamar um Estado ípsilon-laico, onde loucura é não ser adorador da liberdade de se poder consumir e produzir e por isto entender-se a autonomia do indivíduo, onde a livre adesão fraternal ao Estado-Organismo é a mesma “livre-adesão” que toma o Che pelo Cristo, como a encarnação mesma da Revolução que substitui a Providência, vendo-se aí as suas aspirações divinas terrenas.

Como pode-se cometer um erro tão grave é algo de deixar qualquer um boquiaberto. Particularmente sobre a defesa do aborto, que parece que até hoje não tem lá uma explicação muito convincente de como pode ter-se tornado um acontecimento social, apostaria em pura e simples rejeição a valores “pequeno-burgueses” – nada ou outra coisa muito diferente de uma rejeição dos valores que pedem algum esforço de espírito, que negaria a hybris de uma punhado de nitrato e carbono insosso – que, contra a dura e fria realidade que o povo laico se orgulha de ter a coragem de defender, como cavaleiros-negros portadores da verdade nua e crua da história.

Contra a transcendência da Igreja, mesmo o argumento mais torpe parece que é admissível. Mas o erro de Nilcéa não é apenas o erro contra a Igreja, é contra qualquer transcendência, é quase uma guerra contra o pouco mais além, uma negação da verdade, negação da vida e da consciência, ambas as quais, para Nilcéa, são uma coisa só, pois é verdade que a mente é a manifestação da fisiologia cerebral e que a vida é o efeito mais ou menos aleatório de algo que ocorre tal como caldo de galinha em fogo brando e nela a necessidade que tem os aminoácido de subir na vida como um Estado laico de coisas superiores, como numa luta entre a classe das enzimas deltas e ípsilons para dominar os meios de produção e decretar, de posse das forças do organismo, a irrealidade do fenômeno da vida e do espírito.




setembro 09, 2007

Invasão bárbara

[U]ma nação é livre não porque elege os seus representantes pelo voto direto, mas porque os direitos naturais universais dos seus indivíduos – vida, liberdade e propriedade - estão todos devidamente protegidos e prevalecem sobre quaisquer leis humanas. A democracia não é um valor social ou moral inquestionável, um fim a ser alcançado, como pretendem alguns. Ao contrário, ela é somente um meio, o menos pior dos sistemas de governo até hoje experimentado (Farol da Democracia Representativa).

A Democracia inquieta quando se pergunta se nela está o direito de escolher abandoná-la – e se isso se daria pelo voto da maioria. Outra inquietação é de que a maioria simples pudesse escolher como viveria todo o restante da população. Nesse caso, ela é um fim em si mesma ao modo de uma máquina totalitária da maioria. Nem uma coisa nem outra são problemas verdadeiros da democracia, que não está fundada em si mesma, mas nos valores que ela pretende ser um meio justo de exercê-los desde o indivíduo.

O desvario tem grande dimensão e é multifacetado, mas algumas coisas são onipresentes, de uma forma ou de outra estão lá.

A retórica de Lula foi repuatada recentemente como “folclórica” pela jornalista Lúcia Hipólito (no Gaúcha repórter de 3/8/07 na Rádio Gaúcha) – só que é curioso que não se tire deste gênero fantástico as conseqüências implicadas. Quer dizer que pouco importa o que o presidente diz – ele não deve ser levado a sério. Alguém tem que avisá-lo disso, que cada vez mais o homem se enche de moral, ou os rompantes devem ser atribuídos ao hábitos dos Decretos integrados já à sua frágil personalidade?

Alexandre Garcia faz uma análise diferente no Bom dia Brasil da Globo, no mesmo dia, e conclui, comentando algumas decisões do 3º Congresso do PT, que a retórica folclórica de Lula tem conseqüências suspeitas. Negam o “mensalão”, transformando-o em crime eleitoral, tráfico de influência ou mera prevaricação, ao mesmo tempo propõem os petistas a “câmara única”, com a extinção do Senado. Menos poder aos Estados, mais poder ao Governo, e negociações concentradas justamente onde estão sediadas as denúncias – ao que parece, muito bem fundamentadas – justamente do suposto “mensalão”. Congresso que – lembra Garcia – já foi chamado por Lula como a casa dos 300 picaretas.

Deixa-me entender... Os petistas querem extinguir o Senado para negociar diretamente com os trezentos picaretas?

Houve quem visse um ponto positivo no discurso de Lula, no 3º Congresso, quando tocou no assunto do “mensalão” – até então o assunto era tabu – apontando que os erros deveriam ser punidos, mas que não havia ainda desfecho do caso, portanto, nada de concreto em relação ao mérito. Isto mesmo que já com a acolhida da denúncia pelo Supremo, que, como se não bastasse, chamou atenção para os detalhes da prestidigitação na entrega do dinheiro aos seus devidos fins.

Tratar o discurso falacioso lulo-petista de “folclórico” é retirar-lhe todo efeito prático, é negar que ele está em sintonia com as ações dos seus “militantes”, que delas se armam. Mas quando os fatos corroboram as práticas que o discurso reitera explícita e implicitamente, isto não tem nada de inocente, nem de folclórico, não é fantasia, mas conduta pertinaz.

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Lúcia Hipólito diz ainda que o programa de partido é um, enquanto o programa de governo é outro, pois o partido pode se dar ao luxo de certas utopias; governar, por outro lado, não é uma coisa fácil, que os problmeas práticos restringem material e conjunturalmente a ação possível.

Não daria para o PT conciliar as duas coisas. Já para Walter Pomar, Secretário Nacional de Relações Internacionais do PT, o partido é socialista, que associa rapidamete à “justiça social”, aos “excluídos”. Pomar diz que o PT usa o modelo socialista, pelo qual se guia, mas não chegou ao poder pela Revolução, porém pelas eleições. Caberia perguntar aí se isso valeria senão somente em um “enquanto assim estiver funcionando”.

No artigo “Debatendo o Socialismo”, Pomar escreve que “o socialismo supõe a revolução, porque constitui uma”. Pomar também diz, de forma ambígua, que a utopia socialista se tenta, porém segundo os meios disponíveis ou do modo possível.

Para ambos, a utopiao que penso que seja o encantamento que pode levar ao discurso fabuloso e folclórico de Lula – é um modelo pelo qual se molda o programa atual em função das circunstâncias reais e dos meios disponíveis, sendo que para Hipólito a utopia é anacrônica, enquanto para Pomar ela é ainda uma vez mais atualizável.

Lúcia diz que o PT retoma uma idéia de socialismo utópica e defasada, arcaica mesmo, que se relaciona com a militância e pode ser mesmo por ela que essa “inflexão à esquerda” tenha se dado como ocorreu no 3º Congresso, como escreveu o historiador Carlos I. S. Azambuja no Farol da Democracia Representativa, no artigo “O III Congresso do PT”. Assim, as hipóteses que justificariam a “esquerdização” do PT, aventados por Azambuja, poderiam ser, 1º, “reaglutinar militância”, 2º, “reação ao governo Lula” neoliberal, e 3º, “disputa pela hegemonia na esquerda da América Latina”.

No entanto, parece-me que há ainda aquela, menos complacente para com a esquerda, de que o socilaismo é retomado agora não apenas como “ardil político” (como conclui Azambuja), mas como retomada de um programa socialista tendo em vista a tomada do governo, sem que isso signifique – separe-se isto por ora – ter o apoio popular para as modificações socialistas além da retórica de expressões tais como “a primeira opção pelos pobres”, “reserva ética”, “fazer pelo social”, “justiça social”, “democracia” e “democratização”, etc..

Pomar vai nesse sentido quando escreve, em “Debatendo o Socialismo”:

[Logo de início...] Partidos de esquerda, quando assumem o governo, geralmente tendem ao centro. Como decorrência, muitos abandonam seus compromissos programáticos originais. Ao menos no papel, não é isto que parece estar acontecendo com o PT. Ao contrário do ocorrido no 2º Congresso, quando alguém mais ousado pensou em tirar o socialismo do programa, a palavra de ordem no 3º Congresso parece ser “socialismo, socialismo, mil vezes socialismo” [grifado].

Percepção que Pomar mostra ter, porém cuidando para manter-se afastado das formas de socialismo que representam mudanças radicais a curto prazo. O discurso, no entanto, é instável, e como se vê acima, o socialismo parece que insiste em ser esse incômodo rumor de tambores bárbaros avançando, aumentando ao longe, aos poucos, vindos de dentro de uma floresta de caminhos tortuosos.

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Tambores

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OPORTUNISMO

[Falando sobre a crise do capitalismo, que ela não é garantia da revolulção, e que o socialismo não surge naturalmente da crise...] Mas também seria o caso de perguntar em que melhor momento o socialismo pode se apresentar como alternativa, senão exatamente nos momentos de crise do capitalismo!”

Temos aqui apenas o oportunismo de modelar o socialismo em tudo que possa falhar o capitalismo, sendo a sua “falha” entendida como uma prova da “negação” do capitalismo e de onde nasce toda a essência do socialismo: a utopia moldada por buracos, fatal e inexoravelmente construída na razão em que se realiza.

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TAUTOLOGIA

Mesmo que o capitalismo não seja apenas uma fortaleza e ainda que o socialismo (e o caminho para ele) constituam uma “construção histórica”, também é fato que o socialismo supõe uma revolução, até porque constitui uma [grifado].

O socialismo é, para o PT, uma revolução socialista, que se forma, historicamente, no caminho do socialismo – a revolução ababelada que encontra em si mesma o seu fim, supostamente.

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CONCLUSÕES ÓRFÃS

[Sobre as nova conjuntura para o socialismo...] A primeira diferença [ao que se discutia na época da queda do muro] é a confirmação, nestes dezesseis anos, da profunda contradição existente entre o capitalismo, por um lado, e a democracia, paz, bem-estar social e meio-ambiente, por outro lado. Inclusive onde antes existia a URSS e o chamado “campo socialista”. A segunda diferença é a mudança na correlação de forças na América Latina. E a terceira diferença é a experiência de quase cinco anos de governo federal.

O socialismo, que enquanto se afasta das formas marxista-leninista, pela força dos fatos históricos e da ausência de mecanismos de levá-lo aos seus fins sem se instaurar a barbárie, se aproxima de ser tudo que o capitalismo negligencia ou, menos que isto, tudo em que ele encontra dificuldades, que são prontamente conduzidos à prova de seu fracasso.

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MAIS EXATO E AMPLO QUIPROQUÓ

Sobre o mesmo assunto, o projeto afirma que “o século XX nos legou revoluções que não foram capazes de construir uma alternativa socialista democrática”. Mais exato e amplo seria dizer que estas revoluções desembocaram em sociedades que, ao fim e ao cabo, não conseguiram superar e derrotar o capitalismo.

O fracasso do socialismo como doutrina política humanista é, de qualquer modo, sempre e, não pode não sê-lo, a derrota frente ao nefando capitalismo.

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PARA TANTO, AINDA MENOS

De toda forma, para o projeto de resolução, “o desafio que temos pela frente neste novo século é o de reconstruir uma alternativa socialista libertária [I. E., um socialismo que não seja tirânico?]. Para tanto, temos de retomar a crítica ao capitalismo.

O desafio é inventar o socialismo que nunca existiu através não da correção dos erros do socialismo no passado, mas da retomada da crítica ao capitalismo; isto é, um socialismo que se define pela negação sistemática e recalcitrante do capitalismo. E novamente temos o oportunismo de modelar o socialismo em tudo que possa falhar o capitalismo ou em seus problemas, na tetativa de solucioná-los através do debate conflagrado – da dialética pertinaz e contenciosa – tendo aquele como oposto hidrofóbico.

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A CABAÇA DE PANDORA

Reafirma, ainda, que a “construção do socialismo segue o processo de acumulação de forças” previsto nas resoluções do 5º e do 7º encontros, o que não dispensa que “façamos um debate sério sobre as formas de transição ao socialismo adequadas a contemporaneidade”.

Mantém-se os princípios, enquanto se descobrem as formas nas quais estes encarnarão renovados – o recipiente contém o essencial, atualiza-se só a forma de retê-lo.

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No que parecem aspirações legítimas, carece qualquer argumentação concreta ou teórica consistente; portanto, é inevitável desconfiar da tagarelice bárbara, da orda de tartamudos que como que imitam na linguagem uma cultura do caminho tortuoso que percorrem, com o próprio judeu errante da lenda, e dela fazem a fórmual de modelar a socidade.

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As falas dos petistas, como Pomar, são um pouco titubiantes, levemente contraditórias em relação ao socialismo petista e o socialismo revolucionário, que o PT não praticou, pois Lula ganhou o poder pela eleição. Mas então a revolução apenas não foi necessária?

É de temer que os petistas encontrem-se nas suas contradições e resolvam chegar a um pensamento coerente sobre elas, à conclusão de que se não houvessem chegado ao poder pelas eleições a revolução continuasse sedo a fórmula oculta de rompimento institucional e reforma inexorável. Mas a prórpia revolução, contida nesse sentido mais radical, preparou a tomada do poder pela via democrática, negando, portanto, que seja de um fascismo inflexível de ação de longos períodos de tempo. Quase equiparável – senão de fato, por analogia – a um processo geológico, que molda o fundamento mesmo do mundo com forças maciças aplicadas em larga escala, que torna difícil manter, no curso das modificações, um ponto de referência que faça perceber o sentido do todo da mudança.

Mas do modo como a democracia é tratada pela esquerda, confunde-se com a própria definição (ou indefinição radical) de socialismo.

Agora ter-se-ia que perguntar aonde se vai chegar pela democraria que segue, tendo como seu lastro, uma política social dos excluídos. De onde virão os valores “dos excluídos”? Dos intelectuais? Quem são estes intelectuais e o que pensam? Acho três respostas: primeiro, os “materialsitas”, que querem liberdades individuais hedonistas, afeitos a bens práticos e apascentadores admirados-novomundistas; segundo, os “socialistas” – comunistomorfos – que chegarão à conclusão, pela reflexões sobre suas contradições, que os valores dos excluídos são o bem-estar que um materialista nunca chega a ter porque a excitação sensorial não pode acabar nunca, nem permanecer parada, senão entedia à morte – e sua solução e ideal sempre em mente: a eutanásia; e terceiro, os intelectuais têm os “valores revolucionários”, que é o que ficará no horizonte de possibilidades desejáveis até que se possa realizar por completo – aonde quer que leve isso, que ninguém sabe, nem pode – num mundo iminente e tão, tão, tão longe.