dezembro 30, 2007

Lastro metafísico

Nas outras criaturas vivas a ignorância de si mesmas é natureza; no homem, é vício.

Boécio.

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Sören Kierkegaard, tratando do desespero do finito (carência de infinito), escreve n'O desespero humano:

[N]ão se trata aqui senão de estreiteza e de indigência morais. Ao contrário, o mundo só fala de indigência intelectual ou estética ou de coisas indiferentes, que são as que mais o ocupam. Com efeito, porque a tendência é dar um valor infinito às coisas indiferentes”.

O mesmo, dito de outro modo:

Aquele que perde o senso do absoluto perde da mesma forma o senso das relatividades. Uma cultura que rompeu seus laços com o senso de infinitude metafísica está condenada a dar uma importância absoluta a imbecilidades que não têm nem mesmo importância relativa.”

Entrevista do filósofo e jornalista Olavo de Carvalho a Diana Nedelcu. Rádio Nacional, Bucareste, 12 de novembro de 1998.

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A reflexão de quase toda gente prende-se sempre às nossas pequenas diferenças, sem que, naturalmente, se dê conta da nossa única necessidade – porque a espiritualidade está em dar-se conta dela –, por isso nada percebemos dessa indigência, dessa estreiteza, que é a perda do eu, perdido não porque se evapora no infinito, mas porque se fecha no finito, e por que em vez dum eu se torna um número, mais um ser humano, mais uma repetição dum eterno zero.

Kierkegaard.

O conhecimento de nós mesmos nos diz de onde viemos, onde estamos e para onde vamos. Viemos de Deus e estamos no exílio; e porque a nossa potência de afeição tende para Deus nos damos conta desse estado de exílio.

Ruysbroeck.

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