abril 26, 2009

O Direito Natural dos excluídos


(Derivado do artigo O grande PT” de David Coimbra)
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A massa das minorias e o seu Direito Natural Novo
Um amigo disse-me, certa vez, que era "da época em que a esquerda ainda era melhor". É claro que essa frase só pode surgir de quem deu, algum dia, algum crédito ao consenso sobre ela, e que, por algum motivo, não existe mais naturalmente (pelo menos, em algum momento ou lugar) a mesma unanimidade sobre este consenso de outrora.
Essa fé sempre foi efeito de uma ampla corroboração. Não chegamos a nos demorar no assunto para saber de onde vem essa impressão, mas se pessoalmente cada um deve fazer a sua autoanálise e autoconfissão para descobrí-la, as origens históricas são bem menos obscuras.
No artigo "O grande PT (Zero Hora de 13.03.09), David Coimbra (RBS) --- reincidente nesse assunto --- dá ênfase ao aspecto positivo do partido, enquanto reconhece nele certa contradição em relação à democracia representativa --- ou, pelo menos, de parte do partido --- e por estar dentro do sistema, pregando a democracia, ser efeito dela, ao mesmo tempo em que frequentemente age fora da lei, como no caso da Via Campesina ao invadir e tomar reféns no Banco do Brasil, recentemente; ou o próprio MST, de cujos crimes se reputam as ações legítimas dos "movimentos sociais" contra os quais qualquer restrição suscita logo a denúncia contra aqueles que querem "criminalizar os movimentos sociais".
A inversão é constranger aquele que invoca a lei, ao tipificar o ato que corresponde ao crime, segundo se quer fazer acreditar que há atos cuja condição deve ser reconhecida em si mesma como "superior". Assim surge a suposta "criminalização" de reivindicações legítimas, porém fora da lei. Uma espécie de "direito natural" enviesado --- salvoconduto para todo tipo de ação fora da lei, que apela a um tal estado de direito natural dos excluídos concedido pelas desigualdades sociais, quaisquer que sejam elas, e que a quem estas possam ocorrer, justifica-lhes compensá-las por quaisquer meios impunemente.
As tais "minorias" e essa plétora de "direitos" postiços que se os invoca em nome daquelas, são o efeito mais visível dessa fórmula invertida que é a paradefinição de democracia dada pela esquerda, que quer "dar feição democrática" (isto é, aparentar) ou, simplesmente, popularizar o que, obviamente, não é do hábito popular.
Mas David escreve que o PT "exerceu" um papel, que foi o de, por óbvio, ter sido o que parecia que era. Não entendo. O PT não foi o que parecia que era, que seria bom se tivesse sido, mas, ainda assim, o reconhece uma "aragem benfazeja". Por certo, deve estar querendo se referir ao que aparentou ser como algo que, por muito tempo influenciou-nos a crer em um comportamento ético inegociável. Como uma peça de ficção, o PT mostrou-nos o que devemos buscar ser, que ironicamente, continua existindo apenas como horizonte imaginável, que em algum momento, na história do Brasil, chegou a ser até mesmo verossímil.
Mas, então, de lambuja, David torna o PT o partido mais importante da história do Brasil. Pular de uma coisa para outra não tem explicação. Que tenha chegado a se tornar verossímil, no entanto, nos adverte de que assim se fez por deficiência nossa, e não por méritos da esquerda. Essa "aragem" --- que deveria estimular aspirações no sentido dela --- até poderia absolver David Coimbra, se não fosse ter sido esse sempre o programa histórico do PT, tornar-se o último partido político "da história da democracia brasileira".
É inegável que conseguir isso, qualifica-o para sê-lo --- e isso, ainda assim, é estar não apenas distante, mas ser o exato contrário de qualquer coisa positiva que David Coimbra quis fazer crer que devêssemos ter visto com ele.
O maior partido da história da democracia estatal brasileira pode chegar a ser desde o ponto de vista do próprio partido --- como nunca é outra a perspectiva ---, isso para não falar no que o PT entende por "democracia": o simples e inalienável direito do povo votar livremente, tanto melhor se for no partido, que, caso contrário, estão alienados de seus verdadeiros interesses e precisam ser recoduzidos à luz. O sentido corrente de democracia por aqui, mesmo para pessoas sérias, é pois exatamente este, a vontade da maioria pelo voto.
Nessa perspectiva, é verdade que o PT, quando rouba, rouba motivado por ideal, exceto talvez no caso da ascenção de Lulinha, e no geral, do modo como se viu a família de Lula, certamente por direitos legítimos, locupletar-se. Mas não dá para dizer mesmo que eles sejam de esquerda, já que a família que geralmente se beneficia de uma posição política de destaque desse modo é o mais legítimo representante das oligarquias.
É bem mais fácil concordar que o PT tem pouco "apreço" pela democracia representativa --- se bem que não fica claro o que pode David Coimbra compreender por isto, já que a plétora de direitos que surgiram do discurso petista das "minorias" é lá um tipo de democracia representativa (efetiva) radical. O direito das minorias é o único exemplo histórico de dever universal a algum direito que todos devem ter, segundo sua prórpria maneira de ser uma "minoria" social, de sentir-se discriminado e tantos quantos forem estes que assim se reconhecem, para então formar a grande massa dos excluídos.
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A pedra angular do Direito Natural dos Excluídos
"Sentir-se disciminado" é o critério mesmo para que alguém possa reivindicar o seu personalíssimo "direito" e pleiteá-lo ao seu congressista.
É relativamente fácil perceber que estimular as pessoas a buscar em si alguma revolta, em suas mágoas, frustrações e inconformidades aquilo que as distinga dos demais, de modo que as aproxime de alguns poucos, tem o efeito social de gerar conflito local e, na totalidade das minorias, a unidade de massa a partir dos ressentimentos dos "excluídos". Em outras palavras, são formadas "classes" de pessoas criadas e induzidas a buscar contra "o sistema", o que é:
1) Uma forma de lavagem cerebral já na (2ª) fase, de inoculação;
2) Uma técnica de subversão da sociedade.
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Aragens da conciliação radical
A frase "Nem o velho PTB de Getúlio Vargas & Brizola exerceu o papel que um dia cumpriu o PT" deveria ter sido escrita de outro modo, na sua parte final, para dizer "o papel que um dia coube ao PT". A política limpa do PT nunca discerniu que certos meios são ilícitos em si mesmos, a despeito dos fins "superiores" para os quais servem. E por "ética inegociável" entenderam jamais transigir com a ilicitude alheia. Esse sentimento "ético" é tão forte no PT que não se viu nenhuma contradição em usar a corrupção da direita (i.e., todos os outros partidos) para comprar o voto de parlamentares no atacado.
"O que fez com que o PT perdesse muito do respeito da população [...] não foi a corrupção. Foi a falta de apreço que o PT tem pela democracia representativa. Alguns petistas não confiam na democracia representativa como sistema. O que gera uma contradição: o PT está dentro do sistema, pertence ao sistema, é um de seus instrumentos, mas nacos do PT às vezes trabalham para solapar o sistema."
Ora, a democracia representativa impede a hegemonia que o PT precisa para formar o partido único, e a simples existência de uma democracia representativa impede mesmo que as liberdades individuais sejam deslocadas muito do eixo do Direito Natural, que é a pedra angular e o principal obstáculo para o estado planificador e toda a engenharia social com a qual a esquerda (sentido lato) poderia colocar em ação uma mudança social que não é nem uma proposta política, nem uma teoria econômica --- nunca foi.
Isso mostra que David Coimbra não tem as fontes do que diz. Talvez amigos, o partido, mas não seria de surpreender (acreditando-o honesto) que sua fonte de informações seja apenas o jornal onde escreve, o Zero Hora. Nenhum livro parece ter sido lido pelo autor para escrever o que costuma escrever; mas talvez o pior, nem mesmo as discussões internas, que a esquerda mantém entre partidos afins, e em seus lugares próprios, onde expressam suas teses mais francamente e entre iguais. Nem mesmo os sites da esquerda parece que David os lê. Mas, enfim, ele é um jornalista profissional, um entertainment man com os típicos arroubos de formador de opinião da profissão.
Pouco importa dizer que o PT "cometeu erros" --- em tom conciliador, como faz David Coimbra, e tentar buscar algo de positivo no anticlímax causado pelo partido e reiterado no 3º Congresso petista, quando o código de ética era o que havia de mais premente, em vista dos escândalos de 2005, mas que acabou protelado para "outro momento".
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Revolução constante
Bem, mas de fato não há qualquer contradição no PT, como diz David Coimbra, senão apenas para quem vê o partido como um punhado de gentes com idéias nem tão levemente divergentes, para que se admita dentro do mesmo partido o apoio às instituições formais e, por outro lado, as exigências de reformá-las desde dentro e, para isso, signifique romper com suas bases democráticas e inocular nelas os gérmens de sua ruína (v. "Retórica da confusão estratégica"):
Los revolucionarios entramos al sistema, para cambiar el sistema, y no para que el sistema nos cambie a nosotros”.
Autor: Schafik Handal, companheiro de primeira hora de Fidel Castro e adicto do Foro de São Paulo, fundado por este último e por Lula.
Hugo Chávez o corrobora, diz ele: "Sou da linha trotskysta: revolução permanente" (é o oposto, Chávez: tá mais para Lênin que para Trotsky).
Mas quando a franqueza estulta está ausente, ainda assim, bastam poucas linhas de artigos internos para começar a entender como é que age a esquerda comandada pelo PT, como nesse curiosíssimo artigo do portal Vermelho.Org, "Tarso Genro denuncia cerco contra a atividade política" (06.04.09), onde o sr. Márcio Pochmann, presidente do IPEA --- expurgado de economistas conservadores --- é apresentado:
Em sua intervenção, Marcio Pochmann sugeriu às forças progressistas interessadas em superar o capitalismo algumas tarefas e reflexões. ''A crise do capital abre uma discussão a respeito da propriedade. É necessário que se levante a bandeira da revolução da propriedade. Ela concentrada tal como está hoje, do ponto de vista privado, é um entrave ao avanço econômico e social'', ponderou [sic.].
O contexto das declarações de Pochmann é o do evento Seminário Desvendar o Brasil, sobre o tema "Os rumos da revolução brasileira e a transição para o socialismo" e o esforço que denominam "lutas progressistas".
O esforço progressista é o esforço por construir a sociedade ideal através do Estado, como segue no mesmo artigo: "Sem o Estado transformado e a serviço da nova sociedade não é possível dar forma às mudanças, ressaltou [o presidente do PCdoB Renato Rabelo]". É o que quer dizer "instituições sólidas" para a esquerda.
E sempre de novo repetido:
"Segundo Renato Rabelo, para enfrentar a crise o Brasil não está bem preparado porque o Estado está submetido a uma legislação que trava as iniciativas do governo".
"Renato Rabelo finalizou dizendo que na visão do PCdoB a democratização do Estado significa fazer dele um indutor do avanço civilizacional..."
Essa última frase é de uma clareza perfeitamente esotérica, cujas expressões "democratização do Estado" e "avanço civilizacional" testemunham com despudor o que Schafik Handal diz com toda consciência.
Outra amostra desse pensamento sistemático e internamente coerente pode ser lida no artigo, no mesmo seminário, "Para sociólogo, neoliberalismo destruiu consciência coletiva":
"Para ele [Giovanni Alves, professor de sociologia da Unesp], mudar os rumos do capitalismo para a construção do socialismo depende de “mediações concretas – com instituições sociais, políticas ou culturais – capazes de produzir um tipo específico de consciência social: a consciência de classe”.
Para Alves, é preciso
"formar adequadamente, para além dos muros da escola, cidadãos críticos e conscientes da necessidade de se mudar estruturalmente a sociedade" [grifado].
Exorta Alvez a se formar cidadãos críticos --- e aí vem a preposição --- "da" necessidade de se mudar estruturalmente a sociedade. É a famigerada "conscientização", que é criar consciência de --- no caso, consciência de classe. Em outras palavras, criar as condições psicológicas e espirituais para a revolução socialista, formando as minorias que compõe a massa de "excluídos", ressentidos contra a sociedade capitalista.
Identifica-se claramente aqui aquela regra, descritas por Iuri Bezmenov, para quebrar a unidade social gerando conflito social:
"Dissemine a desunião e a disputa entre os cidadãos" (Sun Tzu)
"Divida as pessoas em grupos hostis tocando constantemente em temas controversos de nenhuma importância" (Preceitos Revolucionários)
Se qualquer distinção de classe inexiste, deve-se criá-las.
Para essa teoria da ação político-estratégica da transformação da sociedade pela engenharia social --- isto é, quando a política não é uma proposta que se apresenta claramente aos eleitores, mas tenta subterraneamente formar a sua "base social", o que pelos métodos, vê-se logo, ignora a consciência e a liberdade de escolha, para produzí-la como "consciência" de alguma coisa predeterminada --- Tarso Genro (Ministro da Justiça) é apenas um moderador entre a perspectiva socialista como esta é, de fato, e o que deve parecer para não ser rejeitada já de cara.
Esta contradição do PT --- bem como de toda esquerda revolucionária ---, que nota David Coimbra, é de uma coerência feroz. Ferocidade faminta.
Os partidos de esquerda não estão na luta contra o pior, mas tomam justamente o pior como bandeira para derrubar o sistema positivo que surgiu com o capitalismo.
O Partido dos Trabalhadores pode vir a ser o partido mais importante do Brasil, de todos os tempos, porque pode ser o último partido da democracia brasileira, ou como o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei) foi, sem dúvida, um dos mais importantes partidos da história alemã --- para sempre.
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Contradição de estimação:
como domesticar um parasita para ele ser o seu melhor amigo
Mas é justamente essa a intenção do PT, e sempre foi. Não há contradição --- a contradição da esquerda é o modo mesmo de sua subsistência. Contradição ela cria quando pretender existir dentro não apenas de qualquer sistema político e econômico positivo, mas nos termos da própria idéia ocidental de civilização.
A existência de uma esquerda positiva é a existência intersticial de um parasita dentro de um tecido orgânico vivo.
A aparente contradição decorre de que a esquerda existe apenas como nota marginal sobre os pontos imperfeitos do capitalismo sob o direito natural: é o que lhe dá a aparência de falar a verdade. Aponta as falhas sem poder oferecer nada positivo no lugar das democracias capitalistas representativas.
Segundo ainda Pochmann,
"[O] atual modelo de capitalismo está em xeque, mas não pelo aparecimento de um novo projeto. Caberia, portanto, à esquerda construir essa alternativa".
O modelo capitalista sempre está em crise, para a esquerda, esse "atual" atualiza uma vez mais o que nunca deixou de ser, a não ser que se admita que quando o capitalismo está gerando riqueza e fazendo um número cada vez maior de pessoas melhorar de vida (i.e., os padrões mínimos sobem), este seria o pior quadro para o socialismo. O desaparecimento da "classe" proletária seria, então, o fim --- pelo menos temporário --- dos nobres ideais socialistas.
Por fim, "caberia... à esquerda constriuir essa alternativa" ao capitalismo --- sim, o que não os impede de já a estarem pondo em prática.
É justamente o que é a esquerda, um comentário de rodapé crítico ao capitalismo ou a qualquer sistema que esteja vigendo.
A contradição existe quando a esquerda existe como partido político com aspiração ao poder, o que parece que não pode dar em outra coisa que em um pragmatismo radical, desde que ela não tem nada para oferecer de positivo, e isso significa a tal "dialética" da esquerda de moer carne e ossos. A assimilação de tudo de forma homogênea para que permaneça existindo. A esquerda se alimenta dessa contradição, sem a qual ela não existiria --- porque simplesmente não pode existir de nenhuma outra forma.
A "ética" do PT, de que fala Coimbra, sempre foi a mesma, como é historicamente, e como veio a se mostrar depois. Assim como o termo "democracia", que o PT usa concordando no geral, mas com um sentido essencialmente diferente, a ética petista é “de acordo com o partido”, como sempre foi na esquerda historicamente.
A esquerda nunca foi mais que uma crítica ao sistema, não a crítica mesma, como o marxismo quer fazer pensar que é, mas uma crítica, que no que tem de bom, significa a constante lembrança de que isto e aquilo outro são coisas negativas que devem ser superadas. O artigo (“a”) mostra que o discurso da esquerda não passa de um grande "polislogan" (análogo ao polissilogismo), cuja voracidade subverte qualquer termo em uma deformação perversa.
A esquerda nunca quis ser tão pouco quanto um viés crítico das democracias representativas e capitalistas. Essa “crítica” sempre foi uma maneira de minar o sistema existente para substituí-lo por outro, jamais definido ou que se pôde dizer como funcionaria. E não bastou fracassar historicamente sempre, pois o slogan tem vida própria, é como um vírus que precisa de algo vivo, de algo positivo, do qual tira sua propria vida --- é um parasita.
Tem que ter muito estômago para chegar ao ponto de criar esse parasita como animalzinho de estimação, e alimentá-lo e deixar crescer até que ele acabe empesteando toda a casa e, por fim, matando o dono.
A metáfora parasitológica tem lá sua razão, pois “crítica”, ou [seja lá] aquilo que acaba por nos matar, fazem parte da vacina contra males piores --- bactérias, os vírus mesmo, a oxidação, partes de nós que morrem para que outras assumam seu lugar ---, para que o organismo como um todo permaneça saudável, mas jamais se poderia confundir a vida mesma de um organismo inteiro com os seus mecanismos periféricos que o permitem no pormenor.
De qualquer outra forma, seria confundir um parasita com um bichinho de estimação e, pela proximidade (irc!), tomá-lo como seu melhor amigo.
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Um mergulho para dentro de Matrix
A comemorada “Ética” petista, que é para David coimbra uma aragem benfazeja para o Brasil, sempre foi apenas a aparência criada pelo uso repetido da palavra em substituição ao que ela pudesse significar para a orientação da conduta humana e para o sistema político que ela leva a efeito. A ética petista foi reptida como técnica hipnopédica até que, por jamais sofrer qualquer teste, fosse consagrada como “superior” (v. Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo).
O Brasil é o campo ideal para esquerda porque a tradição de uma direita oligárquica corrupta deu à esquerda um arsenal de erros para a crítica. Exatamente como um sistema vivo que, de tantos os problemas de saúde que têm, acaba sofrendo de um processo infeccioso que o leva à falência múltipla dos órgãos.
A esquerda não passa dessa terapia mórbida ante a falência múltipla dos órgão --- isto é, das instituições (em sentido lato) ---, levando senão à morte, a um estado de morbidez cadavérica. Antes do óbito, a grande solução terapêutica mortifica a vida social; à iminência da morte, induz-se a forma mais radical de evitar a aniquilação completa do organismo: o coma induzido.
Fosse por isto apenas, e ter-se-ia como justificá-lo sem escândalo, mas para a esquerda isso não basta, ela toma e proselitiza o coma induzido como um modo mesmo de vida superior.
Como se não bastasse o fundo do poço, o socialismo inventou o dever por um esforço a qualquer coisa mais abaixo que o fundo, para prevenir o que quer que ainda suscite crítica. Esse caminho tem um só fim, na certeza de que a angústia permanecerá em qualquer condição, propõe a anulação completa da consciência, para que nenhuma angústia e nenhum sofrimento sejam percebidos, quanto mais alguma reflexão.
O esquerdismo não é simplemente um totalitarismo político, mas um estilo de vida mesmo, e uma hegemonia psicológica e espiritual, onde toda crítica cessa de uma vez por todas.
O Socialismo, que é só um eufemismo para o Comunismo, implica na reforma absoluta da vida mesma, a potestade dos subterrâneos, o mundo melhor projetado nas catacumbas ricamente decoradas dos faraós, a justiça asboluta e quieta.


abril 21, 2009

A cúpula medonha

Um lugar, outro mundo [...] deve agora existir, próspera estância de novos entes nomeados “Homens”, semelhantes a nós... A ele sustentemos os tentames todos, Saibamos que habitantes o possuem, Seus dotes, seu poder, substância, fórmula, Qual é o seu fraco, se melhor contra eles Guerra aberta utilize ou trama oculta.

John MILTON, 1667. O Paraíso Perdido. Canto II

(Belzebu, incitando os revoltosos, no Inferno, contra os homens)

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Entre iguais

O Cúmulo das Américas (exceção feita à Uribe) lembra-me aquela declaração de Lula: "É que o rei não é um de nós", disse Lula: "Nós, entre nós, nos entendemos". Faltou, na foto, o próprio --- se bem que na de cima ele deve estar.

Metade superior da obra Cristo carregando a cruz (1490), de Hieronymus Bosch, e a 5ª Cúpula das Américas (foto do jornal Zero Hora, 20|Abr|2009, p.4). O quadro de Bosch está acima, a 5ª Cúpula está abaixo --- para não confundir.

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Releitura

Dizer que Chávez é um duro "crítico" da América é atribuir destreza com a espada a alguém que brandiu a vida inteira o bordão; mas como já não se assinam artigos de jornal, sabe-se lá quem é que teve a naturalidade de dizê-lo. Chávez é também chamado no artigo de "sarcástico", o que pode explicar ter dado à Obama um livro em Espanhol, logo depois de tê-lo chamado de "pobre ignorante".

A artigo do Zero Hora destaca essa frase: "Só funciona quando é autêntico", sobre a simpatia de Obama, de autoria de Juliano Corbellini, cientista político, da área do marketing. (Redundância?) No Big Brother Brasil, a propósito, sempre dá para ver esse tipo de autenticidade, que após uma grande canalhice, ouve-se um momento de autocondescendência sob a justificativa de espontaneidade e que "veio do coração".

E mais: o artigo chama Evo Morales e Cia. de "ícones" da esquerda latino-americana, talvez melhor seria dizer, carantonhas --- caricaturas bem mais ao estilo de Bosch que ao da foto do Zero Hora. Enquanto Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, diz que "sentia vergonha" pela ausência de Cuba, Chávez declara que "De todas as cúpulas às quais assisti [grifei] nesta década, esta, sem dúvida, é a mais bem-sucedida, a que abriu as portas a uma nova era de relações entre os países". (É um estadista...)

Em seguida, noutra página, o ZH traz que "até o último minuto houve mostras do caos que caracterizou a reunião desde o início". Houve absoluto desrespeito ao protocolo, boicote do documento final, a foto do fecho do encontro foi frustrada e acabou-se por ficar a falar de Cuba.

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Essa "nossa" ideologia

Também não dá para saber o que levou o guapo (o jornalista autor das matérias, p. 5 da ZH) a dizer que "As veias abertas... [da América-Latina] contribuiu para reforçar a confiança na ideologia latino-americana." Se foi Alcy Cheuiche, que é citado abaixo, faltaria ao moço explicar o que é essa tal de "ideologia latino-americana". Obviamente, a dá por óbvia e, desde já, sentimo-nos comovidos a ela antes mesmo de questionar-nos sobre o seu aspecto meio bizarro e sorrateiro.

Essa é uma das características mais notáveis do jornalismo moderno, não importa o quanto seja desconexo e sem sentido o que está ocorrendo, por algum respeito reverencial a essa inexpugnável "ética" esotérica da profissão, a qual só inciados têm acesso, eles permanecem descrevendo os fatos exatamente como eles ocorrem e quando e como podem sair em uma foto no dia seguinte. Além disso, tudo não passa de opinião e interpretação subjetivas.

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Ciência política posicional

Agora, mais estranho é a reportagem do "cientista político" Juliano Corbellini [*], segundo o qual

"O presidente Obama é muito mais um fenômeno de posicionamento do que marketing. Ele sinaliza mudanças profundas sem a necessidade de fazer rupturas. Faz um discurso que é, ao mesmo tempo, de mudança e de valorização da nação americana. No plano exterior, Obama é um não à mesmice da direita e um não à mesmice da esquerda".

Bem; "Mesmice" é um termo técnico? E isso é o comentário de um cientista político? O que quer dizer quando um cientista político especializado na área de marketing diz que Obama não é um fenômeno de maketing, mas de "posicionamento"? O que é posicionamento? Resposta: comunicação não-verbal --- pelo menos é o que diz Corbellini. E esse negócio de nem esquerda, nem direita é já uma mesmice das maiores em si mesmo --- a propósito, repetida à exaustão pela mesma esquerda ultrarradical de Obama.

O que Obama pretende é "distender" o sentimento antiamericano, quer atrair a simpatia e a colaboração dos... dos quem mesmo? Diz Corbellini, "Quando se esvazia o sectarismo, isso desarma o inimigo". Inimigo? Que inimigo? China e Rússia estão longe desse assunto, até para evitar comparações com Guantánamo, a pior prisão do Ocidente moderno; e o Irã quer ser desarmado com palavras, quer que lhe calem a boca colocando entre seus dentes uma ogiva nuclear.

Um discurso que prega "mudanças profundas" sem ruptura, ao mesmo tempo a "valorização da nação" deve querer dizer outra coisa, a tal da "síntese": a nova nação americana, aquela que a América deverá ser segundo ele e o Partido Comunista Americano.

Um cientista político, cuja área de trabalho principal é o marketing (!), só poderia achar Obama "O cara", bem como, por sua vez, Obama achar Lula "O cara" (Similia similibus). Obama é o supremo títere do marketing depois dos grandes "líderes" populares do século XX.

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*Juliano Corbelini, nascido em 1968, é filho de militantes da Ação Popular e do PT, nascido em Porto Alegre, esteve engajado na militância estudantil desde 1985, no movimento secundarista. Ingressa no curso de Ciências Sociais da UFRGS em 1986, e torna-se secretário geral da União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Sul e secretário de imprensa da UNE e depois, em 1988, presidente dessa organização. É mestre em Ciências Políticas pela UFRGS, professor e consultor de "marketing eleitoral". (Fonte: Memória do Movimento Estudantil)