março 15, 2008

Departamento de Oximórica e Jornalismo Opinativo

Em algumas universidades, o que é nada pouco surpreendente, constata-se que há dentro do curso de Jornalismo qualquer coisa semelhante a um departamento de oximórica, que, a bem da verdade, parecia-me que fosse apenas uma brincadeira de Umberto Eco no livro Diário Mínimo. Mas parece que a idéia é bem mais comum do que seria imaginável que fosse, de cujo efeito visível temos o ramo do “jornalismo opinativo”.

A extensão do dano eu desconheço, mas alguns sinais na imprensa e dado por alguns universitários é de estarrecer – lembrando as palavras do Ministro do Supremo, Marco Aurélio Mello, ditas para as declarações espontâneas de Lula. Igualmente espontânea é essa categoria de jornalismo, pois nada mais espontâneo que dar opinião. Daria também para chamar de jornalismo espontâneo, quem sabe para fazer par com aquele outro, o jornalismo criativo, que pode ser uma “construção de rica fantasia” de que fala o editor da revista Língua Portuguesa[1].

E na entrada do Departamento de Oximórica, como parece que não poderia ser outro, deve estar o busto de seu representante máximo, Arnaldo Jabor[2]. Não se pode negar que se o modelo de jornalismo de sucesso é o praticado por um cineasta – mesmo que ele venha a se horrorizar com essa imitação –, e já se troca mesmo a técnica de um pela de outro, dá para reconhecer que tipo de entendimento se vai ter dos fatos e do modo de apresentá-los.

Lembrando que Lula se definiu como uma “metamorfose ambulante”, quando na verdade ele é – sabem todos que acompanham suas declarações – um “oxímoro deambulante”, que se diz e contradiz para diferentes platéias em questão de poucas horas, ou que cria o entendimento pela coincidentia oppositorum [coincidência dos opostos], anulando assim qualquer absurdo em qualquer coisa que diga, já vejo aí uma certa relação disto com esta nova forma de jornalismo.

Temos um presidente opinativo e espontâneo, e para dar conta das suas declarações temos o jornalismo opinativo. Caso contrário, ter-se-ia que admitir que Lula é um lunático, e isso não seria de muito bom tom. A propósito, a educação, a polidez, a etiqueta são princípios fundamentais do jornalismo opinativo, mas há também a variante virulenta (que ocorre, eventualmente, itercalada à polidez), cujo achaque ganha, pela perfomance, credibilidade.

Fica bem mais fácil entender as razões de um Departamento de Oximórica no curso de Jornalismo, pois o cenário brasileiro precisa de uma disciplina adequada para pegar aspectos da “realidade” novos que estavam passando desapercebidos. Junto com o jornalismo opinativo, a ancoragem é outra modalidade fundamental de jornalismo, daí talvez – proponho – tal departamento passe a se chamar Departamento de Oximórica, Jornalismo Opinativo (ou Espontâneo) e Ancoragem, cobrindo daí todo espaço fundamental da disciplina, seu objeto, a Oximórica (por seus inúmeros fenômenos), sua forma de abordagem, o Jornalismo Opinativo e Espontâneo, e matéria de fundamento de credibilidade, a Ancoragem. É um curso completo e, imagino, levado só por aqui à excelência.

O domínio da opinião está em consonância com a condição de metamorfose ambulante, na verdade talvez ambas as coisas se criem mutuamente, a este estado transitório e que não pode ser imperfeito porque nunca encontra a sua forma acabada. Opinião não pode ser algo fixo, se não se torna em um tipo de conhecimento degenerado – porque “enquanto conhecimento”. Se não fosse espontâneo também não teria nenhum sentido e acabaria, de novo, em algum tipo de conhecimento degenerado.

Temos então o estado de metamorfose ambulante intimamente ligado à oximórica. Assim pode-se encontrar fundamento seguro para entender e modificar o mundo com base na opinião, agindo espontaneamente. A oximórica deambulante é um modo mesmo de compreender o mundo, e está em alternativa à lógica formal clássica, que tem como base o princípio de Identidade. O princípio da oximórica é um eixo “de cabeça para baixo”, quer dizer, um eixo que não guarda posição, daí dar em metamorfose.

A metamorfose ambulante é sempre pleonástica, porque quando redunda, contradiz a si mesma para ser outro: é uma “contradição vagabunda” ou um “divagar ababelado”, é um “erro desencontrado” e, portanto, é sempre um efeito da oximórica; dito mais claramente, como na figura de um “erro errado” – erro, de “errar”, de “vaguear”, e chegamos ao erro que erra e, portanto, não é erro, mas um acerto fugaz, que já não é... (!).

A lógica oximórica é um epifenômeno da semiose e do desconstrutivismo, e tem, como se pode ver, um amplo campo de aplicação e uma infinita implicação para a ação humana, em todas as suas esferas – a começar pela política. Assim, o jornalismo espontâneo tenta cobrir toda a ampla gama de fenômenos que se esboçam modernamente.

A oximórica vem dar fundamento ao que se costuma apontar ser um vício de Lula, quando o chamam de apedeuta; quando se trata de oximórica, o apedeuta é uma autoridade.

Ora, não estranha, portanto, que tão profundas mudanças na realidade precisem de um jornalismo mais dinâmico, mais ágil, aí a fórmula “espontânea” e “opinativa” para dar conta de tantos fenômenos curiosos sem perder-se em devaneios lógicos ou quimeras estáticas, que, como todo mundo sabe, só quando há uma realidade a se buscar é que pode haver erro, e se há erro, desmoronam quaisquer tentativas de construção de um mundo justo, onde todos, e nenhum menos, são iguais.


Notas

1. Ver revista Língua Portuguesa nº27, p. 5, seção Carta ao leitor.

2. Dever-se-ia dar a Jabor - o cineasta - crédito quando trata da sua profissão, já não dá para ter a mesma confiança nele quando usa-a para tratar de assuntos políticos ou, culturais. Quando observa, p. ex, que Rafael Correa , presidente do Equador, com ares de galã - diz ele -, é um perfeito canastrão, ou quando diz o mesmo de Chávez, não apenas como estadista, mas até como ditador, é dizer o óbvio. E se no demais, dá mera opinião, o que sobra talvez seja só uma sensação de verossimilhança, quase toda deriavada de suas perfomances.