fevereiro 28, 2007

Tecnologias de um admirável mundo novo

Finalmente se encontrou o que sustente aquela propaganda que diz “Ler também é um exercício” (do governo federal, se não me engano). Não me ocorre agora nenhuma tabela de conversão de calorias/abdominais ou calorias/tempo de corrida, etc., que compare-as com as calorias que se perde lendo. Mas claro que não é disto que se trata, mas da comparação em si mesma. Onde se lê pouco, para que coisa tal faça sentido, só comparando a algo que se possa reconhecer facilmente. A medida certa é a medida comum, a medida certa, que não coincide necessariamente com a medida justa ou mesmo com a medida da verdade, é aqui o exercício físico. Poder-se-ia fazer essa comparação com o próprio dinheiro, tipo “Ler rende juros de 10% ao ano” ou, “Ler agrega valor à comodite “pessoa”!”. A questão aí é que esse tipo de comparação não funciona. Ninguém vai à academia (que ninguém se engane, não é a de Platão e Aristóteles) malhar porque isto lhe resulta em desejáveis músculos, pois seus fins são tê-los como meios da atenção alheia. Músculos são moeda de troca, não um fim em si mesmos. Sedutores obesos e sebosos seriam promíscuos se fosse possível sê-lo como tais.

Já esperar desenvolver músculos no cérebro com exercícios, identificando o processo à leitura, é uma comparação inadequada. Se bem que é verdade que a leitura não deixa que atrofiem músculos virtuais nossos, se, por outro lado, leitura for o ato de ler como ir de palavra em palavra, de página em página, atravessando o livro até o seu fim, para começar outro, criar-se-ia o hábil hábito que tem um trem de escolher para onde vai. Ler errado dá calo na cabeça e abobalha. O caso, ainda assim, escapa do que se propõe, desde que a leitura visa promover o entendimento, enquanto a academia fisiculturista visa a aparência. Por acaso corre melhor o fisiculturista? Nada melhor? Salta melhor? Adquire ele alguma técnica? É mais saudável? Nem vale dizer que se trata do exercício olímpico, ou de um esforço igual, pois se a força é premissa do hábito atlético, a técnica e a destreza hábil são atributos maiores que a idéia boba do “exercício”. Assim se parece.

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No fim dos exercícios não está a saúde e a boa forma, uma vida feliz e longa, assim como no final da leitura não está o entendimento.

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Por aí se deve tentar entender o artigo do biólogo Fernando Reineck, onde ele descreve o experimento em que, por simples simulacro, vê-se desenvolver áreas do cérebro – como o exercício qualificado que os pugilistas fazem à frente da sombra. No caso, trata-se de um exercício ao piano. Ao se constatar a evolução da atividade cerebral em regiões exigidas pelos exercícios, já colhendo alguns frutos à prática hábil; não sendo bastante isto, “os cientistas resolveram verificar se é necessário executar o movimento para que as alterações ocorram ou basta imaginar o movimento”. Pediu-se que se imaginasse apenas o movimento dos dedos, sem movê-los. Concluiu-se pelo que se observou que mesmo sem mover os dedos, o exercício surtia efeito, “demonstrando que somente o ato de imaginar o movimento da mão é capaz de alterar a estrutura do cérebro”.

Mas aí lê-se algo que deixa uma impressão não muito boa – diz Reineck no JC:

As implicações desta descoberta são enormes. Atualmente, muitos cientistas acreditam na possibilidade de utilizar exercícios mentais para modelar nosso cérebro, da mesma forma que utilizamos as academias para modelar nossos músculos. Ainda não se sabe se essas técnicas são efetivas no tratamento de doenças mentais”.

Seria possível modelar áreas do cérebro para desenvolver algumas atividades, como competências técnicas comparadas a ferramentas bem ajustadas. Isto não garantiria, por certo, competência maior que a que dá a leitura dinâmica, e que saiba, não se dá a ela maior poder de entendimento senão aquele do próprio ato de leitura – o que fica melhor como discernimento cognitivo.

No Fedro (268), Platão deu o exemplo de alguém que chega anunciando-se em condições de praticar e ensinar a medicina pelo seu domínio prático de técnicas médicas correntes, bem como, em outros dois exemplos, diz o mesmo de quem quer pela afinação de cordas chegar a dominar a arte da harmonia, ou pelo manejo da escrita chegar à arte dramática, que são, no entanto, conhecimentos preparatórios e não a própria arte que se busca alcançar.

O problema todo não está em se tentar fazer da escaramuça um instrumento de modelamento ou aprimoramento do cérebro como o faz o pugilista frente à sombra, e daí também o que vale para o exercício objeto da experiência descrita, que apresenta benefício para o seu adepto. Daí a querer “modelar nosso cérebro, da mesma forma que utilizamos as academias para modelar nossos músculos” é já arriscar-se a formar atletas intelectuais truculentos e inconscientes.

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A coisa toda não é nova, principalmente no desenvolvimento da leitura dinâmica e, em particular, que me ocorre, o trabalho do psicólogo Samuel Renshaw (1892-1981), a quem se atribui ter treinado soldados para identificar o inimigo numa fração de segundo durante a II Guerra Mundial.

A técnica como sempre é bem-vinda, deve-se desconfiar, no entanto, dos seus usos e do uso das palavras quando feito displicentemente, como “modelar” e “tratamento” aparecem no artigo de Reineck, até que, antes disto, se defina que conhecimento se quer, como ele deve ser, e o que são doenças a tratar, a que pessoas tratar, quando e por quanto tempo; etc.. Aliás, ao que já Platão se referia objetando ainda no Fedro.

No Admirável mundo novo, Com um centímetro cúbico [de “soma”] se curam dez sentimentos lúgubres” é o que parece que a medicina, esta que quer modelar nossa saúde, resolveu que era bom. Na última biografia que saiu sobre o João Cabral de Melo Neto, o autor relata o sofrimento do escritor diagnosticado como depressão o que ele próprio entendia como um sofrimento existencial, que os médicos queriam tratar com antidepressivos. Curar um estado de espírito, que manifesta mudanças químicas no cérebro, como caso de desequilíbrio químico anterior, é inverter tudo. E abre precedente para se pensar os riscos de modeladores da estrutura cerebral, por estímulo artificial, para, como se faz com programas de computador, introduzir no HD “habilidades” tantas, rapidamente. E retirá-las, quando se quiser, e repô-las outras vezes.

No caso do João Cabral, o sofrimento auto-impõe-se à consciência, que dele não quer se apartar por meios evasivos. É indigno de um homem consciente o recurso ao expediente químico. Um mundo de laboratório já se esboça como política de massa, e só mesmo João Cabral de Melo Neto para se justificar a si próprio sem ser menosprezado pela velhice e pela ranzinzice. Nele, ver-se-á consciência; no homem médio, moléstia. É coisa que se esboça vez por outra como sociedade ideal, onde os problemas superam-se por uma nova técnica que transforma o homem, que prescinde da consciência individual. É o “homem-mundo”, tão natural quanto uma reação química, para a qual os mesmos valores serão a medida, à mesma polícia um controle análogo dos radicais livres, oxidantes marginais – novos Prometeus – de um mundo de paz orgânica.


fevereiro 24, 2007

O enigma das esfinges

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O que é que essa gente tem que, do que os distingue entre si, os torna como se fossem um só?


fevereiro 22, 2007

O comprido pescoço da ficção ambientalista

(Um caso de criptozoologia ambientalista.)

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No artigo acima, da Zero Hora, o ex-Diretor-técnico da FEPAM diz que foi demitido por punir a Utresa, enquanto o atual presidnete , o Sr. Breuning, declara que Müller, apesar de competente, estava “atarefado demais”. Deve-se supor, como fizeram Caren Baldo e Eduardo Rodrigues, que assinam a reportagem, que por estar aterefado demais, a troca do diretor técnico melhorará a situação de trabalho de Müller. Isto é certo, o que não é certo é que o próximo diretor terá condições melhores de trabalho. Um belo argumento, como se pode ver.

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Teria Müller saído por punir a empresa que se concluiu que contribui com uma parcela dos 8 ou 11% do que cabe às empresas na poluição dos Sinos, sendo que os restantes quase 90% sendo atribuídos à 20.000 emissários de esgoto sem tratamento que correm direto para o rio?

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Outra justificativa, de grande vacuidade, é declarar que Müller “não estaria dentro do perfil desejado”.

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Que caráter é esse do perfil de Müller que o desqualifica? Por que motivo, contexto, estratégia ele está fora do perfil “desejado”? O ex-Diretor está desqualificado pela nova presidência da FEPAM, mas para apontar este traço de perfil que o distingue, temos do argumento dos atores um imbróglio de meias-palavras. Müller, como diz a reportagem e como concorda Breuning, é um profissional competente, mas, segundo ele, “estava atarefado demais”,

senão, que parece ainda pior, declarar que o então diretor-técnico não mais se enquadrava num suposto “perfil ”. Ora, se cometeu prevaricação ao se comunicar com o dono da Utresa, que é do que o acusam, como pode entender-se que se o exonere por estar por demais “atarefado”? Ele cometeu um crime, senão pelo menos um deslise ético grave (v.g., tráfico de influência).

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Quer dizer que para justificar a saída de Müller da FEPAM, o atual presidente, o Sr. Breuning, optou pelo “perfil inadequado”, senão quem sabe, por aquele estar muito atarefado, ao dossiê que tinha em maõs?

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Por que, raios, é política a escolha de representantes fiscalizadores? Que, por certo, são (ou deveriam ser) cargos de carreira.

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Por que “Fundação”, se o cargo é político?

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Por que raios isso não parece estranho?

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Há que se esperar ainda pelas empresas imputadas pelo MP e, se não se esqueceu, dos técnicos do Estado que assinaram as licenças dias antes do flagrante à Utresa e Cia.

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Termos vagos como “nova gestão administrativa” não dizem nada, são obscuros e devem conter, por falta de opção, a tergiversação maliciosa das coisas que não podem ser ditas. Velhacaria travestida de tecnicismo, que, surpreendentemente, a imprensa reproduz como se fossem coisa válida para uma versão oficial; são os formalismos ocos, que se mostram como se fossem fatos por si mesmos. É o embuste da instituição brasileira.

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Cargos políticos, licenças pro forma, sistema complicado e demorado, falta de rescursos, ações eventuais e pirotécnicas, estratégias jurídicas que antecipam ações dos emprendedores, e coisas outras, e a Democracia vira ficção de direitos sem nenhuma possibilidade de chegarem a ter conseqüências sérias. Lembrando o post passado: “[Nós, brasileiros, estamos carregados] de direitos, sem nenhuma possibilidade” – Olavo de Carvalho.

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É possível acreditar-se que a flatulência de Nessy (o mítico monstrengo escocês do lago Ness) possa ter matado os peixes no rio dos Sinos, desde que passa a ser válido qualquer coisa pelo princípio oculto que permite que o embuste cause algum efeito tranquilizador na população, redundando na suspensão da descrença amplamente válida a qualquer coisa que nade pelas mesmas águas ficcionais.


fevereiro 20, 2007

A experiência clarividente da razão atenta


Foi uma intuição, como explicou o próprio goleiro. Aos 43 minutos do segundo tempo, com seu time perdendo, nenhum jogador cobra pênalti colocado” (L.H. Benfica).

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Mas Saja já tinha defendido em outra oportunidade, na final da Copa Mercosul 2001, um pênalti do mesmo atacante, Ramírez.

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Então Saja teve a intuição de um pensamento, que lhe ocorreu de pronto. A intuição nesse caso tem a forma de uma hipótese. Parece que o “sexto sentido” de Saja é a capacidade de usar suas experiências passadas para tomar decisões sobre coisas que estão prestes a acontecer, já quando identifica a condição de uma situação como indicativa de coisa já conhecida. Dilui assim a incerteza do futuro, o que lhe favorece a ação. Outrora chamava-se a isto razão.

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São os cincos sentidos, o paladar, o tato, o'lfato, a'udição e a visão, o sexto deve ser algo que transcende o caráter que é comum aos primeiros cinco (que é a mera reação física), o que é perfeitamente razoável que se o identifique à razão e assim se a'tribua pelo poder de “ver” sem precisar dos olhos, a chegar ao antendimento mediato, que é coisa outra que podem aqueles.

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Juntar, todavia, “pensamento”, “intuição” e “sexto sentido” para explicar as coisas é fazer uma bagunça grande e, com sorte, contar com a “amnésia dinâmica” do leitor para que ele não junte as coisas, mas apenas as tome isoladamente no texto. É bem verdade que intuição quer dizer, vulgarmente, o conhecimento imediato de qualquer coisa remota e, acrescente-se, o que também se atrinbui intuitivamente (com a pior intuição), o que está fora do alcance do que pode ser apreendido racionalmente. O motivo pelo qual a isto não se identifique a razão, que apareceu, como pensamento, de pronto, dando informações da situação atual e as condições para se decidir algo, só pode ser explicado por pura falta de intimidade com o pensar e seu rigores e encantamentos. Está-se a pensar por lugares-comuns, por hábito, que é o que identifica a intuição a um “sexto sentido” transcendente além dos sentidos e da razão.

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Curioso aí é que em vez de se reconhecer que além dos sentidos se encontre a coisa mais sutil que é a razão, vá-se buscar, sem reconhecer os méritos desta, uma intuição transcendente para explicar decisões acertadas. Aceita-se melhor a magia das palavras que o teor disciplinador da razão; que ao poder do encantamento das palvras estejamos mais suscetível, portanto, não espanta.

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Saja “intuiu” o pensamento de que as coisas se passariam, por razões implícitas, de um modo e não de outro. O pensamento ocorre sempre de forma intuitiva. Quando pensamos, intuimos o pensamento e intuimos que intuimos. Saja pensou a lógica implícita nas condições de jogo de como tudo transcorreria.

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O fato de que seja motivo de notícia (ou, destaque) algo que se identifica à “intuição” e a qualquer coisa incomum nela, deve-se tanto ao estranhamento de que coisa semelhante exista com esse poder, por não ser de uso comum o pensamento atilado, seja porque quem o praticou tenha conseguido dizer o que se passou com ele naquele momento, que não é lá coisa que os repórteres de campo ouçam constumeiramente dos jogadores. Que lhes pareça, quando ocorre, qualquer coisa como um “sexto sentido”, é porque já não se o reconhece nem junto às sensações, nem à dor ou à emoção, e que, por isto, fica-lhes entre as coisa incorpóreas dotadas de certo poder mágico, capazes de, subitamente, permitir decidir a uma ação em vez de outras.


fevereiro 19, 2007

Jornalismo ababelado

Vem ocorrendo na imprensa, com certa freqüência, uma comutação espúria como principal artifício de qualquer coisa informal que se identifique a uma “hermenêutica jornalística”. Nesta curiosa praxis, relata-se o que se especula como se isso fosse mesmo uma regra das possibilidades contida na prática jornalística. Dizer “As mesmas palavras” significa a mesma coisa que “As palavras mesmas”? É uma dinâmica do ababelado, que junta de uma algaravia o sentido dos enunciados pelo arranjo possível que pode haver nela. É o ardil das tensões: interpreto algo errado para emitir a opinião de que não acredito nela, deixando, todo caso, esta tensão de que pode ser. Na Rádio Gaúcha, 13:15 de 04/02/07, no “Sala de Domingo” [fala Nando Gross]: Mano critica Carlos Eduardo, dizendo que ele tem que ser mais jogador de futebol e menos boleiro (reproduzido de memória). Mas não notei nada mais forte..., termina ele dizendo, coisa nesse sentido. No jogo o contexto é o seguinte: Perguntado se o jogador Carlos Eduardo poderia jogar mais, Mano diz: Ele é um boloeiro talentoso, mas agora deve apreender mais sobre jogar futebol, que é algo um pouco mais complexo..., fazendo um comentário a respeito da evolução do jogador que acaba de surgir e ainda tem o que aprender.

Longe de uma crítica, o técnico de futebol estava respondendo a um questionamento sobre o desempenho, que foi bom, de um jogador que poder chegar a ser ainda melhor. Houve, na pergunta jogada verde, o rearranja das palavras declaradas e, por ela, julgou-se que o sujeito disse outra coisa. A interpretação, que não creio ser de má fé (o que talvez seja pior), parece puro hábito semi-consciente que chega por um monólogo de especulações às suas conclusões mordendo o próprio rabo.

Coisa igual – e, ao que parece, é bem mais comum do que se quereria aceitar – ocorreu no caso em que um jornalista escreveu na “Seção Radar” da revista Placar que Abel Braga, treinador do Colorado, estaria sendo sondado para ser técnico da seleção olímpica. Bem, essa história preencheu boa parte do dia 04, domingo, mas daí, na falta de qualquer confirmação ou coisa que merecesse ser ouvida, e já começando a dar sinais de exaustão, aproveitou-se, como se por um último esforço ventríloquo, para especular “se” Abel aceitaria, “caso” a notícia fosse verdadeira (!). Perguntado sobre, disse que não especularia sobre propostas que não são oficiais. “Não houve um convite oficial” significa para o nosso jornalismo, pelo termo “oficial”, poder haver um convite, e, pelo mesmo termo, uma porta para conseqüências; ou, que no caso de haver um convite, ele poderia aceitá-lo. Resumindo tudo; uma falsa notícia veiculada na imprensa gerou atenção à mera possibilidade de um convite para que o técnico Abel, que poderia aceitá-lo, assumisse a seleção olímpica, o que o tiraria do Colorado.

Antes mesmo de testar a notícia, já se está analisando as conseqüências, o que é claro, é o que interessa, se não fosse tudo ficção. Trata-se, portanto, não de informação, mas de noticiar, na falta do fato, o efeito possível mesmo ligado ao fato, o que inclui o absurdo da tagarelice ou qualquer outra forma de logro.

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Para não dizer que é tudo miudeza azeda, está aí, que soube pelo livre vagar, coisa igual, do blog gropius.org, onde no postA linguagem dos jornais” (15/02/07) se estranha que a tagarelice encontre, ao voltar-se sobre si mesma, o que falar sobre o que fala e, com algum método, noticiar o que não houve.

Escreve: [na linguagem jornalística dir-se-ia que] “[a] Força Nacional de Segurança deverá ocupar a favela do Macaco Borrado por tempo indeterminado”, quando tudo não passa de um esdrúxulo talvez aconteça que se estará e por quanto tempo: “A não-informação tornou-se informação num passe de mágica”. Tudo porque os fatos são opressores, restringem a liberdade ao final de contas; têm aquele atributo ontológico, a “subsistência”. Mas daí já a se encontrar na sua subsistência a potência da distância, é magia negra da braba.

O comentário único (suponho de um estudante ou ex- de jornalismo), de “Chiuso”, o corrobora:

Poderá, deverá, cairá, derreterá as geleiras e as calotas polares SE a temperatura aumentar. Haja subjuntivo e conjunção subordinativa condicional. Pior que na faculdade dizem para usar verbos de ação e no presente. Mas como fazer isso se as notícias estão mais para previsões do que fatos concretos? O jornalismo virou um grande horóscopo[grifo alheio].

Pior do que “previsão” é tagarelar desenfreadamente e, por algum tipo de delay mental, conjecturar sobre o palavreado até conseguir encontrar efeitos e ir averiguá-los (Hahaha).


fevereiro 16, 2007

A Proposta Paidéia


Reprodução:

O filósofo Olavo de Carvalho, no BlogTalkRadio: True Outspeak, fala sobre religião no Brasil, educação superior, conservadorismo, incultura brasileira e coisas afins. Aos 31min e 22s do programa de 12 de Fevereiro de 2007.

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“O crescimento econômico da nação não acompanhou o seu progresso jurídico. É bonito você fazer leis que dão direitos às pessoas, mas acontece que o direito fica só no papel porque não há possibilidade de atendê-los”.

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“Você proclamar um direito sem você esclarecer a quem incumbe a obrigação de atendê-lo é a mesma coisa que não fazer nada”.

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“[Estamos carregados] de direitos, sem nenhuma possibilidade”.

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Porque, afinal de contas, não cultivar nada também requer alguma persistência e esperança.


fevereiro 15, 2007

Educação Superior, Universal

A razão pela qual o sufrágio universal numa verdadeira democracia demanda um ensino público universal é que a democracia sem a educação produz um eleitorado ignorante e reduz-se a um logro das instruções e processos democráticos. Para evitar esse perigo, o ensino público tem que ser universal em mais do que seu aspecto quantitativo. Tem que ser universal também em seu aspecto qualitativo. Daí, o segundo objetivo do ensino básico – uma preparação adequada ao cumprimento dos deveres e responsabilidades da cidadania”.

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Mortimer J. Adler, A proposta Paidéia. Editora Universidade de Brasília, p. 30.

fevereiro 11, 2007

Concentração

Paulo Roberto Ferreira, árbitro da partida Grêmio Barueri vs. Rio Claro, Estádio Schimitão, abertura da quinta rodada do Campeonato Paulista da Série A-1, dando início ao jogo SEM A BOLA

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Pode imaginar-se coisa tal como estar ausente o centro do mundo? Qualquer um que joga bola sabe, mesmo que seja de forma intuitiva e semi-consciente, que o mundo gira em torno de um detalhe especificíssimo do jogo. Esse detalhe é “a bola”. O centro do mundo é a bola na atenção do jogador ou do peladeiro. Quem vê a bola vê da periferia, numa periferia qualquer, tanto mais periférica quanto mais distante do centro. É claro que se isto vale para quantos joguem, e para tudo também quanto exista alheio ao jogo, a bola é, por força cosmológica, o centro do universo da atenção do jogador. Um jogador que começa seus exercícios e não tenha sequer pensado uma vez que fosse na bola, não deve saber exatamente o que está fazendo e, provavelmente, entra em campo para desempenhar uma função tática e, se muito, interagir só quando necessário com a bola. Para o peladeiro, por outro lado, esta alienação em relação ao centro cosmológico do mundo da atenção é impensável, pois do contrário o futebol resumir-se-ia a correr um pouco aos fins de semana, sem pretensões esportivas mais elevadas, que geralmente pedem aptidão física e plenitude, ou desenvoltura atlética; concentração, imprescindível para desenvolver a consciência (é desejável que seja o mais ampla possível), e vice-versa – residindo nessa inversão um dos pontos mais importantes e um dos mais negligenciados para a prática hábil. A consciência amplifica a concentração. Aí chegamos de novo ao centro do mundo esportivo, que, no caso do futebo, é a bola. Completa-se este esquema com a aplicação tática, que quando existe equivale as ações aos três primeiros critérios. De outro modo, o time mais organizado, ou de tática mais adequada à escaramuça desportiva, leva sempre ampla vantagem.

Os jogadores orbitam a bola física e mentalmente. A disposição das coisas num jogo de futebol cria aquela tensão que é a dinâmica do esforço pela harmonia entre a posição relativa da bola em campo com a posição relativa de um esferóide imaginário que jaz no diafragma do jogador como que se pendurado por uma haste de peso insignificante e atrito ideal igual a zero amarrada à altura da glote, a qual oscila quando o jogador se move como um prumo, e que representa o equilíbrio do jogador em relação à posição relativa da bola de modo que ela idealmente permanece ao alcance dele sem estar ao mesmo tempo ao alcance de qualquer outro jogador. Esse “balé de tensões” é, dito de outro modo, o “eros” do jogo. O tanto quanto se consiga isto, é a medida do bom jogador e do melhor jogador.

A “concentração” é, portanto, o sentido todo de uma boa jogada, enquanto se traduz em equilíbrio, desde que coloca a bola como centro dinâmico pelo qual se deve estar em melhores condições que o adversário. Admitindo um jogador perfeito, ele conduziria a bola sempre, na velocidade permitida a um homem, até a meta, sem que ninguém conseguisse sequer tocar na bola. Isto não significa que nessa jogada ideal a bola não tenha passado pelo pé dos demais jogadores do mesmo time. “Concentração” vem do Latim com- “junto” + centrum “centro”, que originalmente tem o sentido de “trazer a ou vir a um centro comum”, que é “estar em relação a um centro”. O sentido de “foco mental” é só de 1860. É a relação de que o centro é algo que está na atenção e pelo qual se forma a consciência do cunjunto das coisas em jogo. Ora, não é possível desenvolver a concentração sem a consciência (e vice-versa), que é a capacidade de unir num “todo” e de perceber este todo e de agir de acordo com a consciência da totalidade que a atenção faculta.

Nota técnica
Imagens da TV Globo, modificada da reprodução do estadao.com.br em notícia de 31/01/07, 19:08.


fevereiro 10, 2007

Sonâmbulos

Adj. 1. Diz-se de quem, dormindo, anda, fala e faz certos movimentos como se estivesse acordado. 2. Que não tem nexo; disparatado. S. m. Indivíduo sonâmbulo (Dicionário Michaelis).


fevereiro 09, 2007

Reductus in pulvis

Na ocasião recente da morte de uma estudante de 13 anos e de seu professor de música, 31, em Porto Alegre, em um motel, tendo como circunstância ou enredo supostamente duplo suicídio, aventou-se não ter sido ela a matar-se, mas o seu nefando par. Suscitou-se o exame residográfico logo algum tempo após o enterro da menina, o que gerou obscuras explanações do porquê dele não ter sido feito antes. Tergiversou-se então sob pretexto de que não havia mais como identificar traço de qualquer coisa [1]. Deve surprender que, ainda assim, passado o enterro se tenha chegado à conclusão de que o exame deveria ser feito e o cadáver exumado.

Há alguns meses, num encontro entre o governo do Estado do RS e um representante do governo federal, que veio ouvir as razões do Estado a respeito da dívida com Aquele, os dois representantes sairam falando coisas completamente diferentes da sala de reuiniões, e ninguém fez o menor comentário a respeito desta outra esquisitice. O representante do Estado do RS disse que tudo havia sido demonstrado em detalhe, o que deixou evidente as dificuldades e o rigor da dívida. Por outro lado, o representante brasiliano, de sobrancelhas altas, diz que nada havia sido discutido em profundidade e que nem sequer haviam tocado na dúvida, não podendo ele se manifestar sobre o caso.

Pois isto é que é “registrar os fatos”? A propósito, o Dicionário do Diabo tem no verbete “Repórter” a seguinte definição: “Colunista que tateia o seu caminho até a verdade e a dispersa numa tempestade de palavras”. Em outros tempos isto se chamava nuvem de fumaça – era produzido por persistente sapateio aloprado até que a núvem, ao baixar, deixasse ver apenas distantes silhuetas a afastarem-se da confusão que elas pórprias produziram.


Notas

1. O estranhamento foi manifestado pela Rádio Gaúcha à época.

fevereiro 06, 2007

Futurologia táctil

Pesquisadores dizem que Brasil não tem política pública de redução de danos: “A mudança climática já está aqui. Não tem mais o que combater”, diz o pesquisador José Morengo do Inpe. Sendo assim, não há o que fazer senão tentar reduzir o impacto esperado para as próximas décadas, a começar de agora. Se a dinâmica que existe atualmente entre desenvolvimento e meio ambiente tem lá a sua harmonia, ainda que precária, de modo que possam nos passar despercebidos problemas graves como a questão do tratamento de esgoto residencial, a crise climática tende a perturbar esse equilíbrio que como um truque de ilusionismo (de auto-ilusão coletiva) embasbaca a população. Exemplo disso é o abandono de lixo em córregos, rios e arroios, que é carregado e, como que por mágica, “desaparece!”. Até que algum acidente venha trazer a incômoda consciência de que o problema existe, as coisas permanecem invisíveis a uma população embuçada pelo dinheiro e pela propriedade da própria obtusa consciência. Segundo o pesquisador da Fiocruz Ulisses Confalonieri, o panorama de que alguns problemas serão potencializados é o mais correto. Mudanças no clima já vem exercendo pressão sobre a agricultura, alterando padrões climáticos e fazendo culturas típicas de uma faixa climática migrarem a outras mais altas (mais ao sul). Assim, por exemplo, surge o cultivo de seringueiras em São Paulo e se prevê que o café encontre seu ambiente ideal mais ao sul, enquanto a soja desapereceria em terras gaúchas.

A propósito, sobre consciência, ter que perceber o mundo através dos sentidos apenas, como quando a água está a bater na bunda, é coisa de que não se deve tentar se orgulhar. Por isto, melhor nem reclamar depois. O estardalhaço vai chamar atenção apenas para o entolecido ali, de pé, olhando desconfiando de que lhe olham, torpe e vazio.


fevereiro 01, 2007

O grande ainda maior e incontido que se agiganta

Por certo que não dá para dizer “Nada declaro!” sem declarar alguma coisa, que é coisa auto-evidente; porém, se a negação de algo auto-evidente leva a absurdos enérgicos, a negação do óbvio leva sempre a disparates que, ao seu modo, são evidentes por contraste. É o que acontece no caso relatado pelo noticioso Mídia Sem Máscara, leia aqui, onde a frase “governo chinês” vem sendo censurada em websites oficiais chineses. Se você digitar “Mao Tse Tung” aparece a menssagem “informação ilegal”. O mesmo ocorre com outras palavras “sensíveis”. O Partido Comunista Chinês pode ser reconhecido pelo codinome Wei-Guang-Zheng – isto é, o Grande-Honorável-Justo. Ora, parece óbvio que esse tipo de filtragem tende a se exorbitar ao infinito, e tudo que se exagera ao absurdo acaba por não dar conta das conseqüências. Começa que o simples fato de se proibir a frase “governo chinês” já evidencia que se pretende restringir qualquer pensamento “equívoco” de que possa existir, por força lógica, outro governo que não o chinês. Se alguma coisa se afirma desse modo, negando que se identifique um óbvio “governo chinês”, é para preservar-se de que ao ser governo possa também não ser governo. Como se vê, defender a si próprio é, ao mesmo tempo, mostra de um esforço por permenecer o que se é. Essa força de resistência ocorre contra o que ele não quer que aconteça, que é, neste caso, deixar de ser governo. Só pode mesmo ter que sensurar a expressão. A repetição incessante de um nome evoca o seu contrário? Chama-se o que existe em oposição ao que não existe – que não tem nome. Quando evocamos nosso nome, evocamos um “deixar de não ser”. O governo chinês quer permanecer inconsciente na mente dos chineses, quer ser confundido com um pensamento habitual e desatento ou com um instinto. Mas quando não é assim, entra em contraditórios “erros técnicos”. Quer ser o próprio povo indiferenciado e inconsciente, cavalgando as costas do gigantesco dragão onde, como outrora na terra ecúmena dos medivos, habita o homem de Beijim. A máxima comunista que identifica povo e partido é um agourento espírito do tempo colhendo consciências à massa burocrática informe. É interessante acompanhar as tentativas chinesas de controlar a Rede, sob o pretexto dos mais altos valores da cultura chinesa. Estas coisas podem ser úteis em reinos de tentáculos nem tão fortes, porém bem mais longos e de indistinta trama.