janeiro 20, 2011

Augúrios dos Séculos

Não venda Virtude para comprar saúde; nem Liberdade para comprar poder.
--- Benjamin Franklin
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Nosso Ford fez muito para tirar a importância que se dava à verdade e à beleza, transferindo essa importância para o conforto e para a felicidade. A produção em massa exigia esta transferência. A felicidade universal mantinha as engrenagens em funcionamento muito regular, a verdade e a beleza não eram capazes de fazê-lo. E devemos lembrar que cada vez que as massas se apoderavam do poder político, era a felicidade, mais que a verdade e a beleza, o que importava” (XVI).
Depois que Obama foi laureado com o Nobel Pax Sinistra --- i.e., ungido com o Nobel esquerdista a fortiori por feitos futuros ---, e, como ele, “o cara”, entre os quais difícil é saber quem é mais esquerdista, o (venturosamente já não mais) presidente brasileiro, Luiz Inácio, distinguido em Davos por sua inestimável contribuição para a mais vasta sensação de paz e enternecimento que o mundo jamais vira.
Obama e Lula têm, ambos, aquela marca inconfundível para pastorear a massas sonâmbulas atrás de suas honoráveis personalidades vazias. Por alguma qualidade especial análoga ao vácuo, Obama e Lula atraem as pessoas justamente por não terem qualquer consistência. Esse fenômeno psicológico jamais foi explicado de fato, mas apenas equacionado, para fins descritivos, como um lapso de atenção perante a autoridade forjada. O vácuo atrai o vácuo? Explicaria ele estar, na maior parte, todo junto e, a propósito, que alguma consistência penda ao vácuo seria mais porque o vácuo tende ele mesmo a se reunir, juntos assim, antes a essa lei boba que a física pensou entender.
Se Deus morreu, caímos no mundo irresponsáveis e tornamo-nos fenômenos bioquímicos, fisiologia e psicologia manipuláveis?
Para a nossa maior felicidade, é preciso sermos aperfeiçoados ao ponto dos erros que produzem erros serem atenuados ao chão.
O sonho de um mundo perfeito, parece-me, terá o efeito (sempre que sonhado, como outrora) que o aperfeiçoamento cirúrgico causou ao rosto de Michael Jackson. Lembra também as cidades futuristas idealizadas por sonhadores revolucionários que acabam acordando com uma rede de burocracia tão rígida quanto o esquife; ou o rosto do novo homem que sonhando como Avatar acaba como rebento d'A Ilha do Doutor Moreau.
Imaginaram comigo Lula e Obama de aventais brancos e máscara? --- !! --- Lula, que Obama reconheceu por um “my man” ser o cara dos great looks, parece que tem o valor da retórica associada à imagem que o historiador Simon Schama reconheceu a “alta jogada” às quais nos acostumamos permitir aos nossos políticos para nos enganar com a credibilidade. Que, pelo efeito que nos causa, permite-nos raros momentos de atenção, quando notamos tarde demais que os seguimos crédulos já longe demais.
Obama e Lula são visões ominosas, são “Omens” do século, com “O” maiúsculo. São --- e serão, ainda mais com o passar do tempo --- considerados os “omens” do século 21: augúrios. Veremos ainda o dia, no mundo futuro possível que cultuar Obama e Lula, em que os benzodiazepínicos (e.g., Valium) e que tais serão citados na ONU por seus inestimáveis serviços à sensação mundial de paz e dócil contentamento que foram capazes de difundir.
Essa visão de mundo, de um bizarro já sem poder dizê-lo, é possível vê-la no drama de Micheal Jackson como o símbolo mais perfeito do drama do século 21. Como Nietzsche foi o profeta do século 20, cujo símbolo mais próximo parece ter sido o 1984 de George Orwell, Michael Jackson é o profeta do século 21. Nesse século, experimentaremos um pouco (ou mais) do Admirável mundo novo de Aldous Huxley, que buscará por anular a si mesmo com drogas em busca de saúde, sob as bênçãos do Estado benfeitor e de cada governo por vir, igual ao anterior; e por outros artefatos do mesmo culto: a toxina botulínica, as próteses de silicone, antioxidantes e cosméticos de culto à juventude, estimulantes sexuais, antidepressivos, ansiolíticos, hipnóticos não apenas as drogas, mas a cultura inteira, cada hábito aceito como moral do deleite que ninguém ousaria repreender no outro ou mesmo viver de um modo que conduzisse a desagradáveis comparações. A felicidade é uma obrigação de tal sorte que negar-se a ela é infligir constrangimentos à maioria que a têm por estilo de vida; por se ter permanecido omisso a tudo o mais. Coisa assim tão curiosa como o Codex Alimentarius tenta fazer, promovendo a sociedade de bem-estar planificada desde cima; desde baixo levando àquela rebeldia pela melhor condição de bem-estar que nenhum dinheiro pode comprar, nem seria defensável tentá-la se sua demanda trouxesse à mente as consequências a que conduzem quando seguem premissas tão planamente desenhadas.
As semelhanças ominosas do testemunho das vidas destes homens são maiores do que parecem, pois nem Nietzsche fez profecias, nem Michael, mas foram suas vidas os testemunhos proféticos que anunciaram os tempos vindouros. Nietzsche viveu, como um “Jesus Anticristo”, uma odisseia --- já não a de Homero, mas a de Joyce --- encarnando o mito da personalidade hegeliana que concentra o foco de realização de uma época. Com Michael Jackson ocorreu o mesmo fenômeno da vida, um testemunho da época vindoura.
Saber por qual motivo os socialistas tem tanta confiança no mérito futuro de seus fracassos presentes, sempre de novo tentados, é um caso de profecia retrospectiva realista (em sentido escolástico). O futuro profetiza uma encarnação que o anuncia; honestamente o futuro não idealiza seus feitos, mas os revela com a trombeta e seja lá que tipo de som sai dela. 
Entender Michael Jackson é entender o século 21 e o nosso destino e o curso dos acontecimentos vindouros.
Curioso que esse tipo de encarnação dos Zeitgeist das épocas tem um valor de ciência para a esquerda, enquanto se mantenha perfeitamente inconsistente em relação ao resto todo do mundo e para qualquer agenda social que queira ainda estreitar-se com algum valor cristão nato; mesmo quando só macaqueado. O espírito do tempo para a esquerda que o defende se realiza como uma profecia verdadeira, ainda que lá pelos seus meios autóctones bem próprios. Que o espírito do tempo tenha se realizado em Stlalin, quando este assim se reconheceu, ou o Príncipe em Mussoline, quando este, por sua vez, fez o mesmo, ou Hitler, ao formar a Legião de 1000 anos em 12 do Terceiro Reich.
Já até prevejo, afetado de parapsicologismos, um neologismo nascente, o “Omen”, a testemunha, quando um homem, ou testemunho, quando um evento, profético retrospectivo de um tempo vindouro que se antecipa. Napoleão antecipou encarnando o novo absolutismo de estado, que flerta com as liberalidades todas para trocá-las pela liberdade. O estado se torna, com Napoleão, encantador de serpentes e golem, lugar de representação e de tentação discreta das populações.
Aí vem as diferenças assombrosas, que revelam a força de um Omen. Enquanto Nietzsche adoece de sífilis e cai louco perseguindo o poder de um super-homem, Michael Jackson se tornou bizarramente esquisito perseguindo a felicidade.
O mesmo é visto no romance de Huxley, a busca pela felicidade, a absoluta necessidade da felicidade. “Ah, como seria bom se não precisássemos nos preocupar com a felicidade”(XII) [1], diz o Administrador Mundial Residente para a Europa Ocidental.
Esse é o novo fascismo, não um fascismo de brutalidade, mas de meiguice e servidão. Nesse escárnio de mundo, “Admirável” (Brave) quer dizer um kitch piegas, fútil e de uma moral bizarramente afeminada.
O staus quo educacional brasileiro, completamente mergulhado no espírito do tempo, já sabe como derrotar os inextrincáveis e renitentes piores resultados nos testes educacionais, que agora podem ser substituídos por medicamentos. Uniformidade de modos, igualdade de performances associadas a escolha de perfis psicológicos padronizados, boa disposição para o que quer que seja, a educação da consciência substituída por processos industriais de massificação chamados “conscientização”, enquanto o déficit de atenção tem sido cuidado com Ritalina.
Se com Nietzsche ouvimos o rumor do século 20, e com O triunfo da vontade a sua realização e apogeu, com a busca obsessiva da sociedade pelo bem-estar, o século 21 será o século da apatia e da nulidade. Será outro o filme então, o do triunfo catatônico do século da esperança. Há também uma forte tendência para que a fraqueza, que engendra a covardia, quando perante a necessidade e a exigência, encontre na esperteza e no espírito faccioso de grupo uma fuga, a favor do mal.
A forma material da iron cage espiritual do século 21 é a da busca angustiada por proteção e segurança; será experienciada como uma aproximação do Admirável mundo novo de Aldous Huxley. Os benzodizepínicos, a Ritalina e o Viagra são os precursores, tal como a burocracia que absolve nossas faltas, negligências e omissões em complicados rituais de remissão ao esquecimento e à exaustão; são centúrias mudas. Da mesma família do soma, ansiolíticos e hipnóticos.
Esta será a normalização produzida ao mundo pela pax brasiliana --- e se chegar ao paroxismo à paz absoluta, será, depois de tudo, alcançada com Propofol.
Notas
1. What fun it would be,” he thought, “if one didn’t have to think about happiness!” (Brave New World, XII)

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