dezembro 30, 2007

Lastro metafísico

Nas outras criaturas vivas a ignorância de si mesmas é natureza; no homem, é vício.

Boécio.

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Sören Kierkegaard, tratando do desespero do finito (carência de infinito), escreve n'O desespero humano:

[N]ão se trata aqui senão de estreiteza e de indigência morais. Ao contrário, o mundo só fala de indigência intelectual ou estética ou de coisas indiferentes, que são as que mais o ocupam. Com efeito, porque a tendência é dar um valor infinito às coisas indiferentes”.

O mesmo, dito de outro modo:

Aquele que perde o senso do absoluto perde da mesma forma o senso das relatividades. Uma cultura que rompeu seus laços com o senso de infinitude metafísica está condenada a dar uma importância absoluta a imbecilidades que não têm nem mesmo importância relativa.”

Entrevista do filósofo e jornalista Olavo de Carvalho a Diana Nedelcu. Rádio Nacional, Bucareste, 12 de novembro de 1998.

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A reflexão de quase toda gente prende-se sempre às nossas pequenas diferenças, sem que, naturalmente, se dê conta da nossa única necessidade – porque a espiritualidade está em dar-se conta dela –, por isso nada percebemos dessa indigência, dessa estreiteza, que é a perda do eu, perdido não porque se evapora no infinito, mas porque se fecha no finito, e por que em vez dum eu se torna um número, mais um ser humano, mais uma repetição dum eterno zero.

Kierkegaard.

O conhecimento de nós mesmos nos diz de onde viemos, onde estamos e para onde vamos. Viemos de Deus e estamos no exílio; e porque a nossa potência de afeição tende para Deus nos damos conta desse estado de exílio.

Ruysbroeck.

dezembro 27, 2007

A dialética antinômica nos filmes “O Perfume” e “Cheiro do ralo”

(Sobre o paralelo antitético entre o filme Perfume, de Tom Tykwer, e O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia)

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Prolegômenos à dialética do pior

Por que Deus, o criador de tudo que existe no Universo, ao dar existência ao ser humano, ao tirá-lo do Nada, destinou-o a defecar? Teria Deus, ao atribuir-nos essa irrevogável função de transformar em merda tudo o que comemos, revelado sua incapacidade de criar um ser perfeito? Ou sua vontade era essa, fazer-nos assim toscos? Ergo, a merda?”

Começa assim o conto “Copromancia” do livro de Rubens Fonseca, Secreções, excreções e desatinos, no qual depois de uma fase inicial de sistematização naturalista dos dejetos, com domínio da anamnese excrementícia, revela-se ao narrador a capacidade da copromancia.

Em outro trecho, o narrador diz: “o certo é que estava pensando em Deus e observando as minhas fezes no vaso sanitário. É engraçado, quando um assunto nos interessa, algo sobre ele a todo instante capta a nossa atenção...”. A este trecho, segue-se que, do que lhe despertara a atenção, naquele momento, conste ouvir o barulho da descarga do vizinho e perceber uma nota num canto de jornal sobre a venda de potes de fezes, sob o expediente de arte conceitual, arrematada por alguém por alguns milhares de dólares.

Leiam-se as incertezas, a tensão da condicionalidade que liga as frases, pois não é à toa o imbricamento “deus/Fezes”[1] e, depois, que o assunto indeterminado concentre a atenção para o que lhe é semelhante. Se o assunto que interessava ao protagonista eram as fezes, não dá, por outro lado, para deixar de notar aquele momento breve e passageiro em que Deus, no justo instante da indecisão, compartilha retroativa e subliminarmente do mesmo jogo de forças que trazem à atenção os dejetos, quando se vê o protagonista descrever sua acuidade metafísica para com o mais baixo e degradante, o mais insignificante e indigno de se ter na atenção.

O narrador, declarado ateu, entende que é “...Deus um mistério acima dos poderes humanos de compreensão”, por isso Deus sempre pouco lhe interessara. Pode talvez explicar-se por isto que estivesse pensando em Deus quando contemplava as próprias fezes no vaso sanitário. Esse sentido da divindade ser inefável tem outra alusão no conto, quando justamente outro inefável lembra-lhe de Immanuel Kant.

Tentava ele, em certa etapa do seu esforço anamnésico, descrever o próprio odor das fezes que catalogava, porém no que fracassou.

Atribuiu o insucesso, em concordância com a opinião de Kant, de que o olfato é um sentido meramente secundário devido a sua inefabilidade. Conseguiu no máximo, segundo ele próprio, “sinonimizar”; o processo, no entanto, é o da sinestesia, que atribui o que é de um sentido a outro, fazendo passar por “opaco” o que ele descreveu antes como sendo de textura “espessa”. Compara-se ao enólogo (como ao perfumista, seu semelhante), porém reforça o caráter de que as suas descrições olfativas, as quais empreendera, partem para “uma espécie de poesia”. E a poesia é o domínio da possibilidade, daí a expressão sinestésica “odor opaco” que o narrador estranhou ter cunhado na primeira tentativa de descrição olfativa.

Negando essa via, parte para uma descrição bioquímica do odor das fezes. Diante da inefabilidade dos cheiros, coisa que ele já atribuíra a Deus, aceitando a opinião de Kant, recua agora até as propriedades físico-químicas do excremento, negando a própria diferença que percebia dos cheiros, sem notar que o que descrevia era justamente o essencial, e não a base comum a todo dejeto humano.

Eram os cheiros, justamente, as nuanças do processo da anamnese. O que ele fez, ao recusar os cheiros, foi tomar conhecimento deles e, por tê-los incognoscíveis, negá-los, afirmando a base química sobre o fenômeno mais complexo. Do mesmo modo, um tanto grosseiro, refuta Deus; o mesmo inefável, que esteve uma vez na atenção, é recusado por uma explicação mais baixa. A dinâmica desse conto de Alvez vai ser importante para mais tarde.

Pouco depois diz: “O exame das fezes é muito importante nos diagnósticos definidores dos estados mórbidos, é um destacado instrumento da semiótica médica. Tanto a anamnese quanto a enologia (também a perfumaria) tratam do inefável; outros campos que tratam do inefável, são a física de partículas e a teologia. A nomenclatura destas disciplinas é altamente arbitrária e alusiva. O naturalista fracassou nesse momento, pois quando ele negou a linguagem poética[2] que surgiu das suas tentativas, o caminho oposto, por algum tipo de “escândalo”, foi o de recusar a experiência inefável como irreal ou desinteressante. Não tê-lo tentado, condiz com o desinteresse dele pelo próprio Deus inefável, cujo nome mesmo é sempre apenas alusivo.

Há uma analogia assimétrica entre pensar em Deus e, impedido de prosseguir, perceber as fezes; e, num esforço por perceber o odor destas, recuar até os seus princípios químicos comuns que as compõem. Já não há aí nenhuma possibilidade de anamnese.

Se Deus inefável é o mais alto, negá-lo leva ao mais baixo; já na fase inferior da analogia, o inefável do cheiro negado, leva ao mais abaixo, à matéria química que o explica desde baixo. E é desde aí, desde baixo, negando o inefável, que o protagonista refuta Deus ao desinteresse.

Não espanta, portanto, que distraído no inefável, o que para ele é de todo opaco ao entendimento, o narrador acabe por fixar sua atenção nas próprias fezes. E sua atenção é aguçada para coisa equivalente (o anúncio no jornal, a descarga no vizinho). O desprezo do protagonista-narrador por Deus, enquanto ser inefável, refletiu a indolência para baixo, às fezes e à acuidade de coisa igual. Note-se que ele vai de alto a baixo, do cheiro inefável à matéria química, como antes, pensando em Deus, detinha-se no vaso sanitário.

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O que sobrou sem Deus

A atenção do narrador permanece, desde o início, no tema do dejeto, a ponto mesmo de se perguntar se Deus teria destinado o homem a defecar. Convenhamos que é dar muita importância aos dejetos; porém, se olharmos direito, que opção lhe sobrou? Pois justamente quando pensava em Deus, é que percebeu as fezes no vaso sanitário. Sem Deus, sem a acuidade da direção à Deus, sobrou-lhe – pois, assim, só por acaso as fezes, como – qualquer coisa menor.

Mas nenhuma frase é tão eloqüente disto quanto as que seguem, mas não é necessário repeti-las. A importância do excremento funda mesmo o homem: “Ergo...” e fez-se o homem. Ao voltar-se para Deus, viu-o inefável, e por não poder continuar, voltou-se ao que lhe sobrou: dejetos.

A partir daqui, já temos um diapasão do que será dito em seguida. As analogias vão ser evidentes, para pensar a simetria e oposição entre os filmes que se segue a comentar. Além disso, é dizer que todas as possibilidades do narrador de Copromancia estavam ligadas ao universo simbólico que tinha no bolo fecal a substância da realidade.

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O lado “B”

O argumento por trás das câmeras de O Cheiro do ralo é a libertação do mal irreprimível dos bons, segundo o diretor, Heitor Dhalia. Para todo bom instinto, algo obscuro por traz que pode ser liberto ou, por pudor, participado, numa catarse do mal: “O filme aborda um lado “B” que todo mundo tem, que às vezes a gente tenta esconder”.

O contraste das fezes é mais forte quando contraposto a um Rei que a um ogro. O Rei no seu “trono”, lembra – de alusões de aquém-mar – a aparência opulenta mascarando a verdadeira natureza de que são feitos todos os homens. Nada cheira muito bem, esse odor, pelo menos, foi reconhecido; é como a água para o peixe, e o ar para a ave do céu – lembrando uma passagem de William Blake.

Começa com aquela justificativa da acuidade própria daquele que se mantém por tempo demais mirando o nada: algo sombrio por trás e abaixo, como o fundamento existencial mesmo que dá dignidade ao homem ao saber e aceitar essa condição. Um heroísmo luciferino deixa brilhar a luz da alma má nos olhos. Para quem o bem é uma hipocrisia de um “lado A” oficialesco, mais verdadeiro seria este “lado B” onde o pior e mais inferior fundamentam, desde baixo, a natureza do homem.

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Silogismo existencial tupiniquim

Mas não há como deixar de ouvir os depoimentos dos extras para aguçar os sentidos para coisas iguais, senão poderiam apenas parecer grosseria. “O título era o principal obstáculo para a captação de recursos” – diz o diretor. O suposto enredo de “um cara [que] se apaixona por uma bunda”, não faz justiça à lógica do sanduíche (!). Disse isto imaginando, talvez, recuperar algum virtuosismo parabólico-analógico por trás da (sic.) aparente vulgaridade.

Um motejo feito análise psicológica surge quando o diretor declara que “O Cheiro do ralo fala das coisas que estão escondidas nas pessoas”. Mais uma vez, quer-se revelar o que há por trás da aparente dignidade humana, por desprezo a qualquer valor, para elevar sobre todos os valores, a ausência de valores. (Essa é mesmo a lógica do Estado laico.) Para mim, só outro grafiteiro rupestre de banheiros públicos.

Eis o termo médio de um silogismo falacioso, que o homem escatológico torna o traço comum dos homens, porque é como pode se reconhecer homem: quando escrevem nas paredes dos banheiros, ao mostrar que sabem que todos fazem a mesma coisa, e por isto pensam achar algo que mostra que eles e os outros são, como eles próprios, identificados na merda.

Comparam-se facilmente, assim, a um Conrad, a um Blake ou a Chesterton, Churchil, tomando o que eles faziam no banheiro, isto como caráter mesmo do homem; porque é a única coisa que pode “aproximar” aqueles homens do grafiteiro escatológico. O dejeto é o termo médio de um silogismo falacioso, ainda que nem todas as premissas precisem ser falsas.

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O döppelganger d'O Perfume

O lixo é o troco”. É o dejeto do sanduíche, de um amor por uma bunda, são as quinquilharias do dono do antiquário trash de o protagonista d'O cheiro do ralo. O lixo é bom; não, O lixo é ruim; é feito pelo homem; o outro diz: não, o lixo é bom, é a ocupação dos desocupados. O que fariam os desocupados sem o lixo? Ele próprio, que se ocupa de quinquilharias desprezadas, sabe bem disso. O que sobra disso, como essência, é o dejeto.

Que essa lógica tenha gerado um filme, revelaria o “lado B” do autor, do diretor e de seu ator principal? Aplicar-se-ia, assim, o expediente psicológico parafreudiano aos entusiastas desse amor marginal?

Instar ao tropismo no odor do “troco”, é torná-lo a inefável imanência, e desta a fonte, o ralo, o inferno de cujo olho pestilento só tem olhos para o dejeto, para a minudência, fazendo dela mesma, essência.

O desprezível e até mesmo o pestilento feito como que essência de um mundo que só vê corrupção nas coisas: “A vida é dura”. O Olho vê o banal, o vulgo, o pequeno, o particular, faz um mundo de particulares, de restos, de dejeto, de entulho; do troco, que é a própria incompletude que passa a circunscrever a existência. É um mundo de obstáculos e de miudezas a se perder, a si mesmo, de vista.

Lourenço tenta preencher a ausência comprando coisas, diz Dhalia; preenche-se de quinquilharias para ocupar a ausência. Mas é justamente essa completação que é incompletude: encher-se de coisas que nada valem, é estar pleno de nada. Completação pelo “resto”. No filme Perfume, o protagonista, Grenouille – um monstro de Frankenstein ao seu modo – , se vê induzido pela diversidade à busca de uma unidade transcendente; para Lourenço, n'O Cheiro, a diversidade não é diversidade, é apenas a repetição sempre igual do mesmo. As novidades do antiquário são reminiscências da origem que não há, na figura do pai; na construção de uma origem monstruosa – frankensteiniana.

A busca em ambos tem a mesma direção, mas sentidos opostos. Grenouille desesperar-se-á com a transcendência ainda além; Lourenço, com a infinita dispersão na repetição errante.

Para o que se disse sobre O Perfume, a respeito das capacidades olfativas de Grenouille poder criar mundos olfativos (worlds of scent), o equivalente no Cheiro do ralo é uma composição de mundo feita com restos de outros mundos.

Outra analogia ocorre na passagem do simbolismo do cheiro para o do olho.

Das quinquilharias vem “o olho”, uma relíquia neurótica de Lourenço que aparece no filme com destaque, e suas aparições, sempre mais envoltas em vulgar estranheza, em interesse pelo bizarro, pelo canhestro; é um olhar sem pálpebras, cuja “vigília” desesperada imita a onisciência às avessas.

O olho é “daquele outro”, diz Lourenço, não o da nota de dólar. Há uma grande diferença entre tudo ver e não poder não ver. No primeiro há onisciência; no segundo, desespero. Num primeiro plano do filme, o ralo é o símbolo do “olho infernal”, o olho daquele outro, enquanto, num plano paralelo, é a fonte do Cheiro, onipresente. E no sentido invertido de que é “onipresente”, todos o vêem. Em uma barganha, isso é dito a Lourenço, que explicava que o cheiro vinha do ralo, mas o homem diz que vem dele, de Lourenço. “Quem usa o banheiro?”, pergunta. O ralo é um tipo de olho que tudo vê; nesse sentido, é onipresente; é infestação.

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Buscar para se perder

Para o diretor, este “é um filme sobre a busca: [Lourenço] procura preencher o vazio dele comprando objetos. Em seguida ele começa a comprar pessoas também”. É coisa bem curiosa, isto de fazer da “busca” o tema de um filme que já se encontrou, em cada personagem; o sentido é estático; a “busca”, uma repetição de hábitos, para encontrar o próprio rabo preso nas quinquilharias. Não dá nem para falar em cadeia causal viciada, é pura metafísica vil do mais baixo. A essência do Cheiro é reconhecê-lo como familiar, a cadeia inquebrantável de uma maldição que engendra uma paternidade postiça. O mote “A vida é dura” é o guia para se perder na quinquilharia, é esse “olho” que faz um mundo pelo que ele vê, e, de volta, é o que ele só olha.

No rabisco na parede, nos Extras: O ralo é o olho do inferno / O inferno só tem um olho / O inferno é meu pai.

É o próprio inferno essa busca interminável para se preencher de vazio, para encontrar uma origem que fundamente a ausência.

A busca de Grenouille, em O Perfume, é também uma tentativa de completar-se, mas Grenouille é símbolo dos extremos: porque tudo falta nele, ele vai buscar a essência última, a mais elevada. Já Lourenço preenche-se mesmo da falta, do que não tem valor; não é correto dizer que ele usa as quinquilharias como substituto de uma ausência de humanidade ou de essência ou o que lhe daria alguma decência; a essência em Cheiro do ralo é o próprio desprezo que as coisas sem valor aludem. Por isso, no Cheiro não há a dinâmica que passa de um plano de significado a outro, mas apenas a modorra de um indigestão reiterada num único plano, que se estende a tudo, que a tudo abrange, como a substância mesma imanente na metáfora do cheiro do ralo.

A indigestão no Cheiro é o aborto de todo um mundo, sob a vista do ralo, e de seu poder de impregnar tudo.

Há uma justaposição entre esta metáfora e a dinâmica do enredo, onde tudo tem o valor de quinquilharia; por isso tudo, não vale o que diz Dhalia, que o filme é um filme “sobre a busca...”.

A grande metáfora do ralo é aquele lugar aonde vão as coisas sujas, as coisas desagradáveis que a gente não quer lidar”. Segundo a própria reflexão de Lourenço, a certa altura do filme: “Eu vou ao bar, atrás da bunda [da garçonete]; como o sanduíche [ruim], sinto-me mal e, desarranjado, uso o sanitário; e o ralo cheira mal...”. O enredo do filme, de “um cara se apaixona por uma bunda”, deixa o filme nauseabundo. As coisas desagradáveis que a gente não quer lidar podem incluir, segundo essa lógica, os próprios idealizadores – autor, ator e diretor.

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A medida do valor no Cheiro e no Perfume

Paralelo em ambos os filmes, é a alusão pela doença dessa incompletude, vinculando-a à origem parental, à ascendência: o “olho” é do pai (Dhalia?). Como Grenouille, ele é órfão. Há um reconhecimento de Lourenço para com a incompletude, ele não se completa com as quinquilharias, ele é a própria incompletude e reconhece isso pela ascendência que faz dele filho de uma pai feito o próprio de quinquilharias; Lourenço também é órfão, sua ascendência torna-o no que ele é. Como este, Grenouille veio dos desvalidos, não tem alma (cheiro), busca completar-se com um aroma essencial que é inalcançável. Mas Grenouille tende para as alturas (cena da montanha), onde o ar é mais puro, onde a existência quase se resume à sua essência, quase acredita que pode encontrar a essência da existência na própria existência, envolvido pelo aroma de antigüidade de pedras e musgos quase primitivos.

Já a ascendência de Lourenço é a quinquilharia que ele toma posse, ele reconhece essa origem nela, por ela monta seu pai fictício, onipresente e onisciente, desse olhar desesperado, como o cheiro do ralo que o envolve.

Em ambos os filmes há incompletude, mas Grenouille responde à questão de Hamlet, tragicamente (deixa a existência), enquanto Lourenço encontra definitivamente a essência que ele nega, de início (“Esse cheiro que você está sentido, é do ralo”), para a ascendência que o cheiro e a barganha de coisas sem valor tem sobre ele: Lourenço [legitima, valoriza] em troca de coisas sem valor, estima quando parecem não valer nada; desdenha quando elas valem, por si, mas ele as nega.

Grenouille desespera-se na direção de uma abstração de humanidade pura, pura essência, enquanto Lourenço, carente de toda infinitude, não pode ter uma idéia de humanidade que não seja degenerada, feitas de coisas extraviadas de vidas extraviadas.

A pergunta para o caso de Grenouille é saber por que ele não se contentou em fazer perfumes diversos, ou criar um perfume marcante e único para si próprio, em vez de buscar uma essência última? Sem uma experiência de valor, Grenouille é amoral: “Grenouille não distinguia entre os cheiros ruins e os bons”. Grenouille é motivado não por um bem próprio, que não pode conhecer, nem por analogia; mas pela busca de um Bem último, que é inalcançável como padrão de todo bem existente. A ausência de ascendência funcionará, também para Grenouille, como falta que o acompanha, para ser buscada e nunca encontrada numa essência última, que se torna, para ele, a figuração da própria incompletude. Por esta, irá buscar como um monstro prometéico, para fracassar tragicamente.

O que falta de todo a Grenouille (cheiro), é levado à máxima potência na busca da essência última, medida de todas as coisas. Para Lourenço, todas as coisas ganham a mesma medida, a mais baixa.

Essa tensão no Perfume falta ao Cheiro, que se naquele o mínimo leva a uma busca pelo máximo, neste último o mínimo é feito a própria essência imanente a tudo.

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Desespero de finito e de infinito

A completude é negada para o finito e para o mortal, ela não se alcança porque é plenitude, que vai contra o próprio sentido da finitude e da mortalidade. Lourenço apenas reconhece a sua condição, desde sempre; termina consciente dela; mas Grenouille é inconsciente do que seja valor humano, ele mata inocente, buscando a essência absoluta e a completude plena, mas fracassa duplamente. Não fracassa como ser notável, não porque queria ter um cheiro, que ele percebe que lhe falta. Que por essa miudeza se queria deduzir, como faz a crítica, o enredo do Perfume, é buscar a origem de tudo, como no Cheiro, por alguma falta ou vício. Faltas e vícios não são motor de nada; são antes, atravancamento.

Quisesse ele apenas essa “identidade odorífica”, tê-la-ia com facilidade, talvez, ao menos, camaleônica ou de uma particularidade toda individual, isto é, uma griffe.

O reconhecimento como perfumista torná-lo-ia alguém, por que então Grenouille não para de matar? Grenouille exaspera-se da transcendência, quer ela como última essência, porém, esta é inalcançável. Então, num último ato, Grenouille usa a essência para despertar o poder que adquiriu para a destruição de forma finita e mortal.

É exemplar que a incompletude de Grenouille, no Perfume, seja o oposto simétrico da incompletude de Lourenço. Na filosofia dialética de um Kierkegaard, enquanto um representa o desespero de finitude, ou carência do infinito, o outro representa o desespero de infinitude, ou desespero do finito.

O eu não tem saúde e não está livre do desespero, senão quando, tendo desesperado, transparente a si mesmo, projeta-se até Deus”. Grenouille é, verdadeiramente, “transparente” a si mesmo; não tem cheiro. A essência ou o cheiro dos cheiros, é mais que identidade pessoal, é a infinitização da identidade. Grenouille é Prometeu, é um Dr. Frankenstein do aroma dos aromas.

Para Kierkegaard, a imaginação reflete no eu o seu possível de intensidade, infinitiza-o, a ponto de perdê-lo... “O desespero que se perde no infinito é... imaginário, informe”.

A saúde de Grenouille estava no alto da montanha, no cheiro de musgo, chuva e rocha... A carência de finito que Grenouille intui e que o alegrou até quase esquecer-se de si: “Como o sentimento se torna imaginário, o eu evapora-se mais e mais, até não ser ao fim senão uma espécie de sensibilidade impessoal, desumana, doravante sem vínculo num indivíduo, mas partilhando não sei que existência abstrata, a da idéia de humanidade, por exemplo”[3].

O problema de Grenouille é o poder da acuidade de seu olfato ser tão forte que essencializa todas as coisas, as abstrai, e já não pode não fazê-lo ao máximo. Tomado dessa imaginação odorífica, infinitiza-a, e não é por acaso os opostos “não ter cheiro” e “buscar a essência” aparecerem como pólos dinâmicos na história de Grenouille.

No Cheiro, Lourenço sofre do contrário: “não se trata aqui senão de estreiteza e de indigência morais. Ao contrário, o mundo só fala de indigência intelectual ou estética ou de coisas indiferentes, que são as que mais o ocupam. Com efeito, porque a tendência é dar um valor infinito às coisas indiferentes”.

Lourenço é uma de suas quinquilharias, tem o valor de uma delas; e por elas, substituiu a transcendência pela repetição incessante de uma só coisa, de um único valor, comum a tudo, o mais baixo, que nem mais se distingue coisa e gente:

A reflexão de quase toda gente prende-se sempre às nossas pequenas diferenças, sem que, naturalmente, se dê conta da nossa única necessidade – porque a espiritualidade está em dar-se conta dela –, por isso nada percebemos dessa indigência, dessa estreiteza, que é a perda do eu, perdido não porque se evapora no infinito, mas porque se fecha no finito, e por que em vez dum eu se torna um número, mais um ser humano, mais uma repetição dum eterno zero” [4].

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Pólos dramáticos

A crítica da revista Set reconhece a frase de Lourenço, “Eu não gosto de ninguém” a definição da vida do protagonista.

Mas como poderia gostar, se toda essência é perdida, se a humanidade não é. É o que acontece com aqueles seduzidos do perfume, quando Grenouille estava prestes a ser imolado. Espargi então o perfume que a todos atordoa, como se eles começassem a ver pela primeira vez, e nesse frenesi, o homem vulgar chegasse ao invés da contemplação moral ou divina, apenas à sensação – o oposto de Grenouille, todos os sentidos são exacerbados no festim da multidão embriagada enquanto o sentido do olfato de Grenouille fica definitivamente separado do êxtase da multidão.

Sem poder compreender uma essência, os populares excedem em sensualidade erótica e frenesi libertino.

Grenouille, o assassino, está num nível de consciência maior que a multidão, apesar de seus crimes. E, ao mesmo tempo, reduzido a uma caricatura da própria multidão. É tão desumano quanto ela. Grenouille é um Frankenstein e um Prometeu. Ele e a multidão medíocre são um duplo Ersatz, um grotesco reflexo um da continuidade um do outro.

Num extremo, Lourenço; no outro, Grenouille.

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Nonsense crítico

Sem saber por onde começar, optei por alguns textos dos seguintes sítios: Set (revista), Omelete, Sinestesia, Cinematical, Time OUT/N.Y., e Contraponto.

No sítio Contraponto, as “notas” são dadas segundo a escala a) obra-prima, b) vá ver imediatamente, c) vá ver assim que puder, d) vá ver caso haja interesse, e e) vá ver por sua conta e risco. Deixando para lá todos os filmes de diretores e atores consagrados e as unanimidades, para os quais os críticos todos repetem-se, as notas dadas aos filmes Perfume e Cheiro do ralo são, incompreensivelmente, semelhantes. Menos compreensível é, no entanto, a diferença de qualificação entre um e outro. O filme nacional recebe qualificação vá ver assim que puder (1), vá ver caso haja interesse (1) e vá ver por sua conta e risco (3); enquanto, enquanto Perfume tem coisa menor: vá ver caso haja interesse (1) e vá ver por sua conta e risco (2).

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O filme não tenta, mas consegue, atormentar com a repetição pornográfica de cenas vulgares: a bunda, o balcão, a mesa de penhora, o ralo, frases repetidas à náusea, o olho, a perna, o filme perde qualquer aspiração que tivesse de fábula moral quando transporta o espectador para dentro da náusea, quer que ele experimente o mundo do filme. O próprio espectador é assediado pelo pouco que Lourenço tem a oferecer, e se deixa comprar porque sofre o estelionato de um apelo à arte oculta na quinquilharia e no dejeto.

A resenha em Contraponto é de uma linguagem difícil de acompanhar. Clichês como a mercantilização do homem, a metonímia da bunda pela mulher, são elementos de uma análise psicológica que levam a interpretar o que o filme pretende comunicar, como se fosse um teste de alfabetismo funcional. Antes de saber se os personagens tem uma psicologia, seria bom assistir os Extras.

É sempre curioso que restrições orçamentárias tendam a levar às explicações técnicas mais laboriosas, de modo a, como ocorre com freqüência, chegar a fazer um filme tornar-se cult, ou tecnicamente melhor ou mesmo virtuoso. Isso talvez explique como as categorias artístico e comercial se definem por aqui: quando falta dinheiro, é arte; quando sobra, é comercial.

Segundo a revista Set, o filme é “espetacular”. E “não há espaço para frescuras”, há apenas a preocupação em fazer cinema de verdade” (sic.). Suponho que não tenha a ver, essa “verdade”, com a pornografia que permeia todo o filme, exagerando-a de tal modo que pareça, por isto, algo mais que o que é.

Atribui-lhe o triunfo por “atuações”, pela “direção impecável”, e pelo “apuro técnico”, mas viria, sobretudo, da técnica, o primor, portanto, vale a frase do diretor: “O filme é o que é”. A tecnicidade não absolve, no entanto, o que o filme tem, senso estrito, de pornográfico na delongada temática da bunda, na vacuidade de Lourenço, na ausência de valor das quinquilharias, que é mesmo a ascendência do protagonista, na náusea das entrevistas, na grosseria pueril dos diálogos, na vulgaridade reiterada, no deserto da reflexão. A demora nestas coisas quer essencializá-las, como se nelas existisse alguma coisa mais, e para isso inverte tudo e põe o foco sobre o insignificante, para, por atração dialética, não dar escolha senão encontrar algum valor no sem valor.

Levando em conta o que diz a Revista Set, na crítica do filme, que lhe deu nota 9,0, sobre o conjunto da técnica com o “roteiro brilhante”, que o resume, “trabalham para contar uma história, [n]ada além[,] [n]ada mais simples”, só resta imaginar o inimaginável, o que poderia ser mais simples; nada mais é a essência do filme. Ele é o que é.

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Repudiar o pior

Como a pornografia não é mais que o que é, o Cheiro do ralo torna explícito o que é evidente, mais que isso, pelo mais baixo – ou o menos levado ao máximo –, prende-se em detalhes vulgares e insignificantes do que não tem valor e faz disso algum valor. Perdura vulgar e ofensivo, entrecortado por palavrões ditos de boca cheia, como trovões de verdade, revelando a hipocrisia por trás dos bons hábitos, querendo mostrar, em negativo, que a essência das pessoas é o dejeto quando elas abandonam seus princípios, segundo se possa tomar o que declara o Roteirista: “O [filme] é uma prova de que a dignidade humana não é negociável”. A idéia de decência, no entanto, se está na garçonete, cuja moral é uma inocência que vai-se perdendo, e vira, rapidamente, em algo lascivo e mercantil, qual então o parâmetro de decência que faz o Roteirista reclamar para o filme qualquer alusão à dignidade?

Pede ele que o próprio espectador reconheça o que o filme não media de nenhuma forma? Nenhum veículo, símbolo ou interpretação, revela a fábula moral por trás da pornografia do pior em O Cheiro do ralo. Uma referência à garçonete é mostrar, por a mais b, como a ingenuidade leva à corrupção. Deve o espectador, com algum senso de decência, repudiar todo o ofensivo mundo da quinquilharia, na participação de uma catarse pelo pior?

Nesse sentido, o filme quer, expondo ao pior, que se repudie justamente o pior, mas desconfio que isso seja já impossível sem repudiar o próprio filme. E não haverá arte ou técnica apurada que impeça a sensação de que assisti-lo não vale a pena.

Por fim, o amor de Lourenço, a bunda, é reconhecida pela essência acre do ralo. O “cheiro” é o protagonista, é a alma do filme e o Senhor diabólico que dirige a vida de todos os personagens, é a essência das coisas que não tem qualquer valor. O filme é o que é.

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O primeiro, no entanto, O pefume, é um bom filme; O cheiro, por outro lado, é, por justiça, aquilo mesmo que ele retrata. Se a crítica restaura alguma dignidade para este filme, é por comparação com o Perfume, nunca por ele mesmo. É de empréstimo apenas que aquele se faz notável: Cheiro do ralo é pornografia do pior.


Notas

1. Parear “Deus” às “fezes” só pode dar na inversão de valor de um e outro, daí “deus/Fezes”.

2. A mesma linguagem poética recusada pelo protagonista é usada pelos físicos de partículas subatômicas para referir uma propriedade denominada arbitrariamente “charme”, na falta de qualquer termo mais adequado.

3. Monstruosidade conhecida dos “homens de esquerda”, na empresa do “mundo futuro”,

4. As citações são de O desespero humano, de Sôren Kierkegaard, a) Desespero da infinidade ou carência de finito, para Grenouille (O perfume), e b) Desespero no finito ou carência de infinito, para Lourenço (Cheiro do ralo).

dezembro 18, 2007

Homens sinistros


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Sociologia e cachorro-quente
Já vi o cachorro-quente ser associado ao capitalismo, mas ainda não tinha visto ele ser feito o triste destino daqueles que, por sabotagem da livre iniciativa, não puderam ter subsidiados os estudos pelo Estado. A lógica disso, num artigo curioso do colunista do jornal Zero Hora, David Coimbra (em 7/12/07, p. 3),Homens de esquerda”, surpreende.
Não fosse a educação pública, hoje eu seria, talvez, vendedor de churros. (...) Logo, por formação, não posso ser de Direita. Não posso ser um liberal, que é a favor da extinção do Estado. Concordo, pois que saiba, quem teve uma legítima educação Liberal não seria tão simplório e presunçoso assim; nem tão fantasioso, assim, delirante, que com a sensibilidade de um coice de mula define a posição da Direita como o esforço para a extinção do Estado para, certamente, predominarem os valores individualistas da burguesia reacionária. Ora, bolas.
E foi o Chávez – este “homem de esquerda” que não soube sê-lo – que deu golpe duas vezes antes de ir, pela aclamação da maioria, ao Poder. E são costumeiramente os países socialistas que extinguem o Estado ao modo democrático para instaurar instituições postiças ligadas como apêndices ao partidão. Pensando desde pensamentos elevados, David Coimbra parece que nem precisa tratar dos termos corretos, basta ter certeza de que o oposto é pior por ser o oposto de princípios superiores, pelo menos, em termos humanistas.
Imagino que os vendedores de cachorro-quente e os churreiros tenham ficado desgostosos com o comentário de David, pois se David fizesse cachorros-quente do modo como comenta política, a salsicha correria o risco de estar coberta de pêlos e, por quase nada, miar.
Conclui, então, que, por formação, não poderia ser de Direita. “Não posso ser um liberal, que é a favor da extinção de Estado. Mas que raios! Deve estar se referindo à dívida que tem com o Estado, e, portanto, que já pode prescindir da própria consciência ou desta existir só em favor deste – senão, mesmo, por este. Pagou seus créditos com uma nota? Parece que custou bem mais caro.
Toda minha educação foi forjada pelo ensino público” quer dizer exatamente o que as suas opiniões demonstram por si mesmas. Num Estado que oferece uma educação tão ruim, David só pode estar se referindo ao emprego na RBS, e, desde aí, ser, por si mesmo, prova de sua natureza superior, que ele, de lambuja, reconhece no socialismo e no comunismo, onde o partidão tinha, por si mesmo, a validade mais geral e compulsória.
Se bem que, com a natureza de suas opiniões, não teria dificuldade de ser o editor-chefe de um jornal como o Pravda.
Um estado maior, que abrangesse todos os informais é, para David, o ideal de Estado; o oposto do que a Direita quereria, porém que, ao contrário do que pensa David, concebe o Estado o agente de estímulo à iniciativa privada sob a regulação legal num estado de direito que é a própria força de produção, e que sustenta a caridade feita a David.
Num Estado de Direita, as carrocinhas de cachorro-quente podem existir legalmente como iniciativa privada, cujo ocntrole do Estado se limita à fiscalização sanitária e aos impostos. Até para evitar as salsichas de carne de gato do colunista.
David resolve os problemas dos informais pela solução: subsidiando o estudo; quando não, subsidiando estudantes de jornalismo que acabam em um jornalão dando opiniões falaciosas sobre seus princípios nobres para fundamentar um estado de direito sem deveres. A começar pelo dever de honestidade intelectual, que, em épocas de Internet, teria ficado menos grotesco ter citado verbetes da Wikipedia.
É a própria sempre renovada encarnação do intelequitual esses rompantes de luzeiros faróis das páginas dos jornalões. Sofrem de luciferismo. O “portador da luz” esqueceu-se que esse título só tem sentido quando ele porta a luz e quando já não a leva consigo, que já não quer dizer nada, mas exagerando, pela verossimilhança – que é no que apostam por ofício – naquela marca angelical que o soturno ainda carrega.
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Luciferismo
O Estado, segundo David, “existe justamente para defender o mais fraco, para lhe propiciar, no mínimo saúde, segurança e educação.... E como a iniciativa privada não tem nada de fraca, ele tem por aí que não só o Estado é a própria caritaspagã, laica, humanista – como o empresariado a injustiça de alguns poucos de vida extravagante, de gozos cínicos e prática espoliativa.
A Direita, quando prega a extinção do Estado [sic.], alegando ser o Estado incompetente, está sendo cínica. Pronto; junto com o Jabor, outro freudiano dotado da acuidade dos piores instintos movendo, pelo substrato verdadeiro, a aparência dos bons princípios. Mas temos que rever essa psicologia: define a Direita pela extinção do Estado, que, cínica, faz que não vê que ela própria tem lá suas incompetências, e, que, portanto, deveria ser ela própria extinta; porém, a quer a do outro. O mundo de cabeça para baixo (aos olhos de David): como se não pudesse ser mais inverídico, atribui, de sua própria “forja”, a definição de Direita em negativo ao seu Estado Todo-Caridade[1].
São os valores mais altos, de pensametno elevados, que estes cavaleiros de esquerda carregam, como sabres de luz snistra.
David faz de sua gratidão para com o Estado-Mãe (que o forjou na ficção) a experiência definitiva da realidade, e que molda todas as outras. David toma sua própria experiência pessoal como marco existencial e aspiração de todo vendedor de cachorro-quente.
O mesmo crédito educativo cobrou de conhecida minha 600,00 reais por mês, valor que nem mesmo a Universidade pensou em cobrar dela no decorrer do curso. Mas David Coimbra entende que esse Estado-Mãe é bom pela sua experiência individual, tomada tão estreitamente quanto pode, que sequer parece que ouve os seus colegas de empresa, que se peca, parece que é por dar liberdade à expressão, mesmo quando ela, no conteúdo, vai contra os fatos que o próprio veículo dá conhecimento em outro lugar.
A Direita sabe que incompetência não é justificativa para abolir uma instituição, mas finge que não sabe para desmantelar o Estado. O que é exatamente que David está querendo dizer com isso não dá para saber. Como será que a livre iniciativa está querendo abolir as instituições do Estado? Será que por ela sustentar o Estado e, assim, ao cometer suicídio, tornando-se todos esquerdistas, levaria as instituições à bancarrota?
Em seguida, complementa o parágrafo dizendo que “[c]aso contrário a iniciativa privada seria muitas vezes abolida no Brasil - não são raros os casos de incompetência da nossa classe empresarial. É um típico “esquerdista”: entende tudo errado, simplifica a coisa toda ao extremo, refuta pela torpeza do próprio argumento o oponente e daí não poderia sair outra coisa que quejandos – e, por fim, reafirma um humanismo absolutamente idealista, que se mostra mesmo pela natureza da argumentação, sempre tão geral quanto não possa ser menos, para concluir pela própria miopia a desorientação da posição oposta.
(Assustador.)
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Igualdade no pó(stumo)
Então, entre Esquerda e Direita, sou Esquerda. Até porque a Esquerda é movida por uma idéia generosa de mundo. O comunismo e o socialismo acreditam no ser humano e na justiça. Podem não funcionar, podem ser inexeqüíveis [!], mas são pensamentos elevados, obviamente superiores ao pensamento da Direita, em termos humanísticos” [grifo meu].
Termos humanísticos” deve ser, para David, os princípios superior que persistem mesmo confrontados com a injustiça e com a opressão que produzem, quando incondicionalmente abraçados pelo socialismo e pelo comunismo. E esse “Até porque...” só pode querer dizer que, antes de tudo, é óbvio e evidente que a esquerda tem os valores superiores, essa “idéia generosa de mundo, mesmo que nunca dê certo.
Estende seus esforços de iluminar o mundo a todos, de tão desapegada, e assim independentemente mesmo das conseqüências que todos sofram.
Eu acho que eu não li isso! Podem não funcionar, podem ser inexeqüiveis, mas são pensamentos elevados.... Além disso,obviamente superiores ao pensamento da Direita, em termos humanísticos. E por estes pensamentos elevados, apesar de não darem certo, como diz David, quando dão errado, terão sido por uma boa causa; mesmo que isso signifique apoiar um completo atordoamento cultural que fabrica o embotamento cognitivo de qualquer princípio elevado.
É essa luz emanada de princípios elevados, que abdicou da consciência pelo senso de gratidão subserviente para com o Estado Todo-Caridade, que pela sombra fundamentam a visão de mundo pacifista e igualitária no pó. Como uma Fênix, o pó já parece poder significar mais, encarnado num estado de Caridade Social realizar a quimera antiliberal.
Esse novo mestre da política novomundista, discursa sobre temas altíssimos, como é natural de quem tem os mais nobres sentimentos. Seria de uma ingenuidade atroz, se esta ingenuidade não fosse a mesma do nosso tipo endêmico que mesmo sobre um tronco de mais de metro de diâmetro nega que ainda se derrube árvores; que se coloca desde logo ao lado da verdade, e ambos, em comum acordo, produzem este homem do “Só sei que não sabia”, o tirano discreto deste Estado-Mãe cuja teorização é digna de IgNobel.
Esse processo perverso que leva um modesto colunista a se tornar um comentarista social inverídico, deve vir da sabedoria do inverossímil (às vezes pelo jogo verossímil de contra-opiniões desqualificadas) que os grandes jornais criam para manter um otimismo estupefaciente na catarse do novo circunstancial, acidental e póstumo; e de breves interjeições de indignação sem entendimento.
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Educação superior
Parece que David Coimbra não assiste ao programa do Lasier Martins, colega seu, que volta e meia divulga os méritos da iniciativa privada gaúcha e de sua capacidade de manter o Rio Grande de pé, mesmo contra governos que perdem prazo de cobranças de dívidas, que arrastam déficits até não poder mais – e chega o dia em que não podem mesmo –, de esquemas ilógicos que tornam departamentos máquinas de arrecadação corruptas, supertaxadoras, inibindo justamente quem lhe permite fazer caridade.
Mas David prefere um governo centralista e educador dessa educação novomundistas da classe “ípsilon-laica” que está entre os últimos dentre as quase-nações do mundo.
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Esse papo babujoso do David pela Esquerda-Estado é uma das mais simples e evidentes mostras de inépcia do homem de esquerda. A adesão abobalhada deste Então, entre Esquerda e Direita, sou Esquerda”, é a adesão do opinador frívolo, bem como parece que é o método do jornalista ou já, por não poder ser de outro modo, a personalidade mesma do escritor que está acostumado a ver comezinhos detalhes da vida privada, como o seu mestre “yoda”, L.F. Veríssimo. (A doxografia da curiosíssima carreira de “cientista político” de Veríssimo só pode ser conferida nos jornais do centro do país.)
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O eixo de um mundo desgovernado
David diz que prefere a Esquerda à Direita por seus “pensamentos elevados, superiores, mas por fim tem que admitir e inverter tudo para reafirmar sobre ambos a Democracia. Não é preciso ver alguma contradição aí, pois sendo pensamentos elevados os guias inconseqüentes para chegar ao que ele chama de justiça, não estranha – até, pelo contrário, esclarece – que a Democracia seja, por fim, considerada o fiel da balança dessa justiça que arrisca com o voto simples da maioria colocar no poder uma caricatura grosseira e duble de tirano.
Que valores elevados são estes, que David associa à confiança no homem e na justiça que não devam estar presentes na iniciativa privada? Por definição, quem acredita no homem é o livre-mercado de inicitiva privada, e não o culto ao Estado, que é seu oposto se não é meramente regulador, e se assim não se limita a ser.
E assim, não são os valores superiores de David que garantem o regime democrático, já que as ações que engendram não são exeqüíveis; isto é, estes princípios estão desde sempre fora do plano de ação do homem da Esquerda, senão criam injustiça e tirania. A justiça de David serve perfeitamente ao tirano que busca igualdade por esta noção iluminada de justiça. Talvez as palavras de David expliquem por que estes homens de esquerda, ao se dirigirem por pensamentos elevados, acabem por fraudar a Democracia como ele faz notar para Chávez.
Vejam só, o ditador do século XXI “é um homem de esquerda...”, mas até para David fica evidente que ele é um imbecil. E os pensamento superiores tiveram uma conseqüência, exatamente aquela que torna a revolução um sucesso e o Estado de esquerda inexeqüível. David usa a mesma lógica que Chávez usa; o artigo de David é o exato reflexo da lógica de Chávez.
Como diz mesmo David: “se trata de um óbvio, e grosseiro, aspirante a ditador.
David Coimbra e Gisele Bündchen[2] tem um caso de afinidade insuspeitado, que se vê quando, ao defenderem uma idéia, ambos dão testemunho eloqüente do ponto de vista oposto numa rara refutação por torpeza evidente.
A lógica de David é bem a lógica dos homens de esquerda, toda atravessada, de tal modo que nunca vêem as atrocidades que causam; depois, quando tudo falha, fazem como o Pomar (PT), e diagnosticam o fracasso do regime por não terem conseguido suplantar o Capitalismo. É o que dá defender sempre os valores mais altos e nobres por esta instituição da esquerda que é a confusão contumaz.
Os princípios elevados de David são o eixo de um mundo desgovernado, o eixo que a esquerda tem para o sistema político democrático, sem ater-se às conseqüências de que é causa. A luz do homem de esquerda é uma luz sinistra, porque ilumina desde cima e de fora, independente do que causa, essa justiça que te diz para onde ir e, por ela, levar os outros. O mundo da Esquerda é excentricidade sem centro, ou essa luz humanista no homem que guia de modo inconseqüente.
A positividade das realizações de esquerda são reflexos negativos da Direita; é parasitária, em busca (obviamente) do que há de melhor. Em torno desse eixo, o erro é a lei do vagar à sombra dos princípios mais altos, arbitrária e pueril.


Notas
1. O hábito que se reconhece aí é comum a “homens de esquerda”, como se lê em Pomar, do PT, em “Invasão bárbara.