novembro 25, 2010

Metamorfoses antropofágicas e a mistificação modernista

Anita Malfatti: Nu cubista nº 1 (1915-16) 
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Monteiro Lobato
"Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres [meu, quando grifado em negrito].
Quem trilha por esta senda, se tem gênio, é Praxíteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Rembrandt na Holanda, é Rubens na Flandres, é Reynolds na Inglaterra, é Leubach na Alemanha, é Iorn na Suécia, é Rodin na França, é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno daqueles sóis imorredouros [...]. A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva.
São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. Embora eles se dêem como novos precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranóia e com a mistificação.
De há muito já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura.
Todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem do tempo nem da latitude. As medidas de proporção e equilíbrio, na forma ou na cor, decorrem do que chamamos sentir. Quando as sensações do mundo externo transformam-se em impressões cerebrais, nós “sentimos”; para que sintamos de maneira diversa, cúbica ou futurista, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em “pane” por virtude de alguma grave lesão.
Enquanto a percepção sensorial se fizer normalmente no homem, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá “sentir” senão um gato, e é falsa a “interpretação” que do bichano fizer um “totó”, um escaravelho, um amontoado de cubos transparentes.
Tarsila de Amaral: Estudo (grande nu) [1922] · Estudo (Academia nº 2) [1923] · O modelo [1923]
Estas considerações são provocadas pela exposição da Sra. Malfatti, onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia. Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida para má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Percebe-se de qualquer daqueles quadrinhos como a sua autora é independente, como é original, como é inventiva, em que alto grau possui um sem-número de qualidades inatas e adquiridas das mais fecundas para construir uma sólida individualidade artística.
Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura.
Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros tantos ramos da arte caricatural. É a extensão da caricatura a regiões onde não havia até agora penetrado. Caricatura da cor, caricatura da forma - caricatura que não visa, como a primitiva, ressaltar uma idéia cômica, mas sim desnortear, aparvalhar o espectador.
A fisionomia de quem sai de uma dessas exposições é das mais sugestivas. Nenhuma impressão de prazer, ou de beleza, denunciam as caras; em todas, porém, se lê o desapontamento de quem está incerto, duvidoso de si próprio e dos outros, incapaz de raciocinar, e muito desconfiado de que o mistificam habilmente. Outros, certos críticos sobretudo, aproveitam a vaza para épater les bourgeois.
Teorizam aquilo com grande dispêndio de palavrório técnico, descobrem nas telas intenções e subintenções inacessíveis ao vulgo, justificam-nas com a independência de interpretação do artista e concluem que o público é uma cavalgadura e eles, os entendidos, um pugilo genial de iniciados da Estética Oculta. No fundo, riem-se uns dos outros, o artista do crítico, o crítico do pintor, e o público de ambos.
Há de ter essa artista ouvido numerosos elogios à sua nova atitude estética. Há de irritar-lhe os ouvidos, com descortês impertinência, esta voz sincera que vem quebrar a harmonia de um coro de lisonjas. Entretanto, se refletir um bocado, verá que a lisonja mata e a sinceridade salva. O verdadeiro amigo de um artista não é aquele que o entontece de louvores e sim o que lhe dá uma opinião sincera, embora dura, e lhe traduz chãmente, sem reservas, o que todos pensam dele por detrás.
Os homens têm o vezo de não tomar a sério as mulheres. Essa é a razão de lhes darem sempre amabilidades quando pedem opiniões. Tal cavalheirismo é falso, e sobre falso, nocivo. Quantos talentos de primeira água se não transviaram arrastados por maus caminhos pelo elogio incondicional e mentiroso? Se víssemos na Sra. Malfatti apenas “uma moça que pinta”, como há centenas por aí, sem denunciar centelha de talento, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meia dúzia desses adjetivos “bombons”, que a crítica açucarada tem sempre à mão em se tratando de moças.
Julgamo-la, porém, merecedora da alta homenagem que é tomar a sério o seu talento dando a respeito da sua arte uma opinião sinceríssima, e valiosa pelo fato de ser o reflexo da opinião do público sensato, dos críticos, dos amadores, dos artistas seus colegas e... dos seus apologistas.
Dos seus apologistas sim, porque também eles pensam deste modo...  por trás.  
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Monteiro Lobato, “Paranóia ou Mistificação?” (1917)
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A antropofagia do modernismo
A crítica de Monteiro Lobato à Anita Malfatti, em 20 de dezembro de 1917, não foi tanto uma crítica à autora quanto à arte moderna e ao seu modo de deformar a realidade por qualquer impulso de fazê-lo.
Talvez dê para arriscar dizer que o Modernismo é uma única e grande obra de arte sem nenhum sentido além do quadro geral do puro experimentalismo sem pé nem cabeça. Ainda que uma subescola como o Surrealismo possa ter características que não o fazem confundir com outras, por ser talvez um modo mais radical de Modernismo, e, pelo que se aproxima de um simbolismo próximo ao dos sonhos, o Surrealismo talvez lance um pouco de luz sobre o Modenismo ao refleti-lo sob suas próprios “luzes”. O Modernismo aparece então com relevo, banhado por luz crepuscular. Mais próximo, no conjunto, a um pesadelo que a qualquer sonho individual. 
Se as imagens são formas limitadas de impressões concretas, o Modernismo é um tipo de fluxo furioso de imagens que mais se parece a uma paciente digno de ter seu quarto próprio em um hospital manicomial.
No entanto, quando esse experimentalismo retorna à sociedade, alimentando a filosofia e a política, nos reencontramos com a sociedade moderna nas suas variações equivalentes, como afloraram na primeira metade do século 20. Estranha num primeiro momento que aqueles movimentos políticos escatológicos tenham se referido ao Modernismo como cultura de elite e, como Monteiro Lobato, de arte decadente. Mas só num primeiro momento, porque uma vez que uma destas explosões estéticas modernas alcança a posição de status quo volta-se logo contra as demais formas que tendem a lhe resistir, de onde ela própria saiu --- mescladas convergiam ao divergir. Somente uma que se diferencie pode formar uma mentalidade política e cultural.
Uma vez no poder, a corrente modernista vencedora passa a coibir as manifestações que querem continuar “criando”, a ponto de que se tomasse isto como o canário na mina para os regimes tirânicos. Ao reivindicar ao homem, como fez a Escola de Frankfurt, o “poder de criar”, de “inovar” (v.g., a espontaneidade do experimentalismo como motor sem direção) e modificar seu meio-ambiente num passo cujo futuro se confunde com o próprio progresso que tem por horizonte.
Particularmente afim com as propostas da Escola de Frankfurt, o Modernismo encoraja o re-exame de cada aspecto da existência, no comércio, na filosofia, na política, com o objetivo de encontrar o que estava “obstruindo” o progresso para eliminá-lo e para liberar as vias progressistas. Mas é do meio dessa correnteza que o próprio Modernismo faz parte e converge. Não é de outra fonte de onde surge o nazismo que, com o futurismo, tão caro ao comunismo, ora lutam entre si, ora convergem para um ponto de fuga virtual no fim do quadro geral da época que o gerou. Depois que a tormenta passou, o efeito visível e o estrago que se viu, foi um só --- foi a obra de um único ator fazendo dois papéis.
Essa evolução de formas que da cultura alcançaram a política começa prestando reverência ao passado, mas muito rápido suas linhas se distorcem e voltam-se contra si mesmas, encontrando atratores estranhos derivados ao acaso da grande “lei da mudança”, contorcendo-se e perturbando seus limites contra qualquer tentativa de estabilidade. O kitch do nazismo é apenas uma fase dessa metamorfose que se renova revendo suas formas, devorando seus limites e se refazendo numa de suas experimentações contra as demais tentadas.
Picassos: Reading [1932] · Grand nu au fauteuil rouge [1929] · Repose [1932] · Nude and Still Life [1931]
O progressismo do Modernismo assim se renova como uma projeção no horizonte, nuançando sombras sobre si mesmo num looping-the-loop que volta a cristalizar formas temporárias. Onde há uma forma, um limite, há uma tensão para atravessá-lo, para destruir, criando; onde há caos, há o ato criador, há o rumor iminente de uma forma.
O exercício sistemático do grotesco geométrico criticou-se como arabesco, evoluiu para os gatafulhos e se cristalizou de novo num caleidoscópio simbólico sugerindo formas e negando-as em parte ou no todo; como se à espera de um momento oportuno para se vender a alguma ideologia política, disfarça-se de cultura enquanto se mantém proselitista da liberdade dos experimentalismos e da grande lei da mudança, da evolução, da renovação e do progresso esquizofrênicos.
Aquilo que Lobato chamou de mistificação é hoje, mais do que nunca, a pedra de toque de todos os “desmistificadores” racionalistas e “críticos” de toda a produção artística, filosófica e --- como não poderia deixar de ser, --- política. Quando muito, aproveitam-se do escândalo, mas até o escândalo parece ter sido desmoralizado. A forma final dessa arte dos diabos, que é a expressão de uma cultura inteira de colagens e deformações, não permite definições, ela é em si, em cada um de seus momentos, bem como no seu movimento dinâmico, uma feitiçaria de mistificações e disfarces.
Tarsila de Amaral: Antropofagia [1929]
O sentido da antropofagia do Modernismo é ser devorador de suas próprias formas exaustas, e renovar-se na própria crítica --- temporariamente. Antropofagia é comer para assimilar desconstruindo, renovando-se numa metamorfose constante que, ao negar toda a forma, celebra-se como uma primavera perene. O movimento gera a mistificação da realidade na qual se incorpora o culto a um fluxo cego de mudança sem altar, que espera apenas um momento para se tornar puerilmente em alguma coisa sempre muito próximo da pura e simples autodestruição.
Sua forma histórica, como ocorre na Escola de Frankfurt, ao atacar a alienação do homem na técnica, acaba sempre por fim abstraindo a pura “criação” à técnica sem conteúdo. Que se queira por isto libertar o poder humano de criação, apressando o progresso e a mudança, é um mistério que no fim talvez não tenha uma desculpa melhor que seu apelo.
Ao futuro que se parte, queira-se ou não, de um passado mistificado, é uma viajem às cegas. Que se veja amiúde figuras geométricas ou a planta baixa de uma cidade futurista parece o chamariz apenas de uma mandíbula. Se o Modernismo tem um zeitgeist, é, se pode haver, a possessão demoníaca de um período histórico. A sua tendência, portanto, irremediável tem claramente uma inclinação infernal. É uma primavera de luz espectral à meia-noite, onde é possível encontrar um rito pagão em uma ilha tropical ensolarada e sacrifícios humanos. Ou aquela cidade circular perfeita que é o sonho ainda hoje de todo delírio humanista. É onde só pode ser: no sono de sucessivos sonhos que a repetição oferece num baile de máscaras de máscaras, de sombras de sombras.