dezembro 10, 2011

A mãe das crises do Capitalismo


Mesmo que saibamos como fazer o mundo melhor, o grande enigma é se há recursos e força suficientes para fazê-lo”.
--- Zygmunt Bauman, filósofo socialista polonês para o Fronteiras do Pensamento 2001, Porto Alegre.

A futura sociedade administrativa enfrentará um tríplice problema:
1) Reduzir os capitalistas (em casa e, finalmente, no resto do mundo) à impotência;
2) Coagir as massas de tal modo a fazê-las aceitar o governo dos administradores e eliminar qualquer ameaça contra si;
3) Competir entre si [dois ou três grupos que lutam pelo poder mundial] para superar seus rivais.”
--- James Burnham, Managerial revolution. Os problemas que um Estado Mundial terão que enfrentar são aqueles que se viu surgir na União Soviética no lugar de uma socidade socialista, como ela foi sonhada. 
 
Das fontes esquecidas do século XX, uma verdadeira profecia retrospectiva sobre a crise do “capitalismo” (made in socialist tactics) e suas engenhocas que não funcionam (lubrificadas com pouco sangue).
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...Nos Estados Unidos a tendência é a de abandonar o capitalismo, e onde a sociedade administrativa (managerial society) recebeu uma expressão ideológica nativa sui generis. Esta expressão, condizente com os estágios inciais do processo que ocorreu na Russia e na Alemanha, é o New Deal...
Podemos ser cuidadosos em não identificar o New Deal e o newdealismo com Franklin D. Roosevelt e seus atos. Roosevelt é um político brilhante e um demagogo, que não criou o New Deal, mas o esposou quando apresentado às suas propostas. O New Deal saiu de dentro da estrutura que [conduz] a sociedade moderna, as forças que estão operando o fim do capitalismo e o começo de um novo tipo de organização social, as mesmas forças que nos estágios finais e sob diferentes circunstâncias produziram as revoluções na Rússia e na Alemanha. Os mais firmes defensores do New Deal não são Roosevelt e outros importantes “políticos do New Deal", mas um grupo mais jovem de administradores, expertos, técnicos e burocratas, os quais vem encontrando lugar em toda parte do aparato estatal: não aqueles apenas especializados em técnicas políticas, em redigir [com perícia] leis escondendo “armadilhas”, dando a Roosevelt uma dramática nova idéia, mas também a aqueles que estão levando adiante a ampliação do estado sobre os empreendimentos [privados e demandas sociais]: os managers. Entre estes estão alguns dos mais esclarecidos administradores que podem ser encontrados em todos os países. Eles são confiantes e agressivos. Embora alguns deles tenham algum background no marxismo, eles não tem nenhuma fé nas massas de modo a querer liderá-las a acreditar nas idéias de uma sociedade livre e sem classes. Ao mesmo tempo eles são, algumas vezes, abertamente escarnecedores dos capitalistas e das idéias capitalistas [v.g., a liberdade de ação empresarial como sempre existiu sem alternativas que com ela rivalizassem]. Eles estão prontos para trabalhar com qualquer um e não são tão melindrosos a ponto de insistir que suas palavras devam coincidir com seus atos e objetivos. Eles acreditam que podem fazer [muito], e eles gostam disso.
[…] Com o advento do New Deal, as causas daquelas mudanças, para as quais referimos tão freqüentemente e das quais eu listei, aceleraram. A intervenção estatal realmente andou. A percentagem da renda nacional contabilizada pelo empreendimento estatal direto dobrou em cinco anos. Uma parcela substancial da população está direta ou indiretamente dependente do estado para viver. O estado controla de uma centena de maneiras diferentes a totalidade da economia. A agricultura tronou-se totalmente dependente de subsídios estatais e sob o seu controle. Exportações e importações aumentam conduzindo-se para o monopólio do controle estatal. O controle privado sobre fundos de capital foram cortados por atos governamentais controlando a emissão e a segurança do mercado [trading in securities] e a estrutura de companhias de seguros. O dinheiro perdeu seu lastro metálico “livre” para se tornar administrado como “moeda corrente” e garantida a liquidez sob a direção do estado. Na completa negligência às concepções e princípios orçamentários capitalistas, o estado se permite déficits anuais de bilhões de dólares e usa as dívidas anuais como um instrumento de gerenciamento de políticas sociais. Impostos são destinados ao seguro social e fins políticos, mais do que aos salários. O estado, através de várias instituições, torna-se de longe o maior estabelecimento bancário. No geral, medidas depois de medidas os direitos de propriedade privada dos capitalistas foram reduzidos, enfraquecendo o relativo poder social dos capitalistas. Nos Estados Unidos ocorreu uma mudança semelhante a que havia antes ocorrido em escala mundial. A expansão das relações capitalistas na totalidade da economia foi substituída por uma crescente e contínua redução dela. A percentagem da economia sujeita às relações capitalistas, se medida em termos de propriedade direta e operação ou de grau de controle, começou a decrescer em razões ainda mais rápidas.
Os managers prosperavam no aparato estatal e na empresa privada, enquanto os capitalistas lamentavam entre si “aquele homem” [Roosevelt]. O Congresso, com apenas pequenas e raras revoltas, caia cada vez mais enquanto a soberania mudava do parlamento na direção dos bureaus e agências. Um após outro, os bureaus executivos tomaram para si os atributos e funções da soberania; os bureaus tornaram-se os “legisladores” de fato. Por volta de 1940 estava posto que o Congresso não possuiria mais o poder de fazer a guerra, a pedra angular da soberania. As disposições constitucionais não podiam mais estar contra a estrutura das mudanças da sociedade moderna e da natureza da guerra moderna: as decisões sobre a guerra e a paz não estavam mais sob o controle do parlamento. De novo e de novo isto foi publicamente jogado na cara do Congresso --- pelo obstáculo de Bremen, o congelamento das relações exteriores em acordo com políticas jamais submetidas ao Congresso[1], a prontidão de emissários confidenciais, particulares [discretos], no lugar de oficias da diplomacia regular [2, 3], a liberação de material militar e segredos a poderes beligerantes [4]. E não houve reação a que o parlamento se atrevesse.
O New Deal não é stalinismo, e também não é nazismo. Não é um análogo direto daqueles, porque o New Deal é de longe mais primitivo com respeito às mudanças [e] maturidade da revolução administrativa em desenvolvimento, e o capitalismo não está expurgado nos Estados Unidos. Porém, nem mesmo o observador ingênuo, amigo ou inimigo do New Deal, pode negar que este, em termos econômicos, políticos, sociais e ideológicos, é uma coisa diferente do capitalismo tradicional, e que move-se na mesma direção do stalinismo e do nazismo”[5].
--- James Burnham, Managerial Revolution (1940); pp. 254ss.

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Addendum
 Em 1947 a população americana contava 148 milhões. Hoje ela é de 312 mi --- um aumento de 111% (*Pensões, Saúde, Educação e Assistencialismo)
Enquanto o PIB aumentou a um fator de 5,5, os gastos aumentaram por 10,5, ou próximo do dobro da taxa de crescimento. Isto significa que existe muito menos dinheiro disponível na economia para a criação de empregos, a expansão e formação de riqueza. Em 2011 o gasto total do governo foi de 33% do PIB, um aumento de $1,13 trilhão.

Fonte do addendum: “Vampire Government: How the Left is Sucking the Life out of the Private Economy”, por Steve McCann. Leia mais no American Thinker.
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Notas
1. Veja-se as reuniões e atas do Foro de São Paulo e também os artigos de Paulo Brossard, sobre isto, A cartola mágica, por Paulo Brossard” (27.07.09), “Precedente perigoso” (31.08.09) e “PL – Mussolini, por Paulo Brossard” (18.05.09).
2. “Três dezenas de pessoas em volta de Barack Obama administram este problema ou aquela questão, mesmo que ainda não confirmados pelos Senado ou operando uma agência criada pelo Congresso, não são verdadeiramente seus “czares”. Estas pessoas são, ao invés, seus “comissários”. A Rússia soviética e a Alemanha nazista, ambos chamaram aquelas figuras vagas e indefinidas, nomeadas pelo Líder, para pôr em ação suas intenções, de “comissários”. (Hollywood nunca fala sobre os comissários nazistas pela mesma razão que ela nunca nota que os membros do Partido Nazista chamam uns aos outros de “camaradas” --- a pretensão de que os nazistas e bolshevistas foram pólos opostos mais que irmãos gêmeos, é algo vital para o mito difundir-se”. In: "Not Obama's Czars but his Commissars" (20.07.2009), por Bruce Walker, no site do American Thinker.
3. Visita de emissário discretos em comitiva petista à Coréia do Norte foi criticada no site do PT e depois atacada pelos próprios petistas.
4. Estes fatos, notadamente, continuaram acontecendo nos anos de Clinton e agora de Obama, de modo notável.
5. Agora lembra-me Chico Vicente (PT) e outros tantos comunistas, dizendo que vivemos um “capitalismo tardio”. Quer dizer, um capitalismo que não é mais um capitalismo, que eles desconversam com a acusação, quando o capitalismo atual é um capitalismo feito por materialistas marxistas e por socialistas utópicos --- e tanto mais crises há para a crítica triunfalista do vácuo marxista quanto mais eles próprios criam as condições para, outro de seus nomes, que seja verdadeiro esse capitalismo postiço, também chamado pejorativamente de “neoliberalismo”.