janeiro 19, 2010

O exagero dos velhos novos métodos em educação


Os meios de comunicação vêm sistematicamente defendendo as causas dos problemas na educação como última palavra para solucionar as nossas deficiências, completamente ababelada de ladainhas dos reformistas sociais marxistas.
É bem essa a imagem mesmo. A imprensa, cheia de volteios constrói uma babel convulsionada de palavrório, quase todo da propaganda oficial dos programas “reformistas” da esquerda iluminada --- que já há tantos que aderem porque jamais ouviram outra coisa ---, independentemente de eles serem bons ou ruins. É o princípio justo na mídia da distribuição equitativa do certo e do errado entre todas as propostas (!).
O fetiche do “novo método em educação” da “Nova Escola” é um slogan moto-contínuo, que gruda na cabeça oca do jornalista com uma força embasbacante.
É quase impossível não concluir que o jornalismo tornou-se numa extraordinária máquina de propaganda involuntária, que na incapacidade de avaliar --- desde que os profissionais saem de cursos ocupados por uma linha de ensino que aqui se denuncia --- nada podem fazer.
Esse caramujo tá precisando um pouco de sal em cima dele!
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Errou na mosca!
Mais uma vez, em EDITORIAL de 11 de janeiro de 2010, “O foco na Educação”, o Zero Hora --- e o grupo RBS, incompreensivelmente, padronizado --- erra em cheio! Antes o Jornal do Almoço (RBS TV), alheio a toda discussão sobre a educação e ignorando até mesmo opinião de especialistas como Eunice Durham, adota cegamente a linguagem postiça do Grande Administrador Central (o Governo) e de seus Planos Universais de salvação compulsória.
O Brasil não pode desperdiçar a oportunidade que tem, a partir deste ano, de obter também na área educacional o reconhecimento mundial que angariou pela gestão da economia.
A oportunidade é o “agora” --- isto é, não fazer nada é perder a oportunidade. Que é o mesmo que dizer que todo erro está em não agir. Isso deve ser Sartre. Nada objetivo, mas o que engendra o pior mormente: a ansiedade incontrolada faz uso de qualquer termo que lhe dão, que a atenda tão mais rápido possa, apaziguador.
Se o modelo de sucesso é o da economia, tomando os méritos reclamados recentes, basta deixar tudo como está --- ou piorar um pouco ---, para quando tudo der errado, poder-se dizer que não se fez nada; ou, se der para tirar alguma estatística positiva, dizer que aquelas ações, daquele plano, foram os responsáveis e gozar os méritos por isto.
Mas há algo positivo nessa comparação, porque a economia tornou-se firme quando voltou à ortodoxia. Bingo! As avaliações recentes vêm mostrando que justamente é o ensino ortodoxo e conservador que dá os melhores resultados, isso quer dizer, não se trata de estrutura e meios materiais, mas de modelo. Aquele que se abandonou, justamente, por reformas. O editorial da RBS não apenas errou em cheio --- “na mosca!” --- como promove e amplifica a propaganda do fracasso.
Edgar Allan Poe tem uma frase que explica esse erro sistemático, diz ele n'A carta furtada:
Eles não variam de princípios em suas investigações; no máximo, quando premidos por alguma emergência insólita, por alguma recompensa extraordinária, ampliam ou exageram seus velhos métodos de ação, sem mexer-lhes nos princípios”.
Aí é que vem a mirada, que quer atingir o alvo olhando por uma lente baça.
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O manifesto das intenções de planificação
O novo Plano Nacional de Educação (PNE), que deve ser votado pelo Congresso, deixa de ser, pelo menos nas intenções, mais um remendo nas políticas para o setor. Anuncia-se, com o aval de especialistas da área, que o PNE tem o poder de finalmente cumprir com o que foi prometido em 1932, quando um grupo de educadores, mobilizados pelo Manifesto dos Pioneiros da Educação, inspirou a inclusão de um programa nacional na Constituição de 1934.”
Aval de especialistas” pode querer dizer que vai piorar muito; portanto, não está dizendo nada, ou quer-se dizer que os especialistas estiveram ausentes nas últimas décadas de fracassos?
A educação que vem dando errado seguiu o caminho exatamente daquele Manifesto dos Pioneiros da Educação, que na primeira metade do século XX contava com intelectuais de peso, inegavelmente superiores aos atuais, e não apenas superiores, mas os havia, alguns, verdadeiramente. E como não dizer que tudo isso não teve o looongo braço do Manifesto de 1932?
A reformulação da educação não deu apenas condições a quem não tinha, mas acabou com os princípios da educação conservadora, fracassando na implementação da educação obrigatória e gratuita de qualidade. Enquanto isso, a exceção no meio do fracasso são justamente as escolas conservadoras, as militares e as ligadas à igreja.
Agora, o esforço por esse “Plano Nacional de Educação”, repleto de platitudes ocas e fórmulas fracassadas, tem de pontos distintos apenas o espírito igual às diretrizes “humanísticas” do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, pregando uma visão materialista, funcional e laica --- além de francamente antidemocrática ---, que é o coração do fracasso atual.
O sucesso desejável de oferecer educação para o maior número de crianças alcançado, veio com a massificação da educação em níveis infamantes, ao maciço analfabetismo funcional e ao rebaixamento da capacidade dos mais altos níveis da educação.
Mas, então --- pasmem ---, tudo vai ser ampliado (!).
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Fazer o que não se sabe e ampliar o que deu errado
Adiou-se até hoje...” o que ninguém sabia fazer? “...[O] cumprimento de compromissos e direitos básicos previstos na Constituição de 1988” e que, quando tentaram, piorou tudo. Um cientista político disse, certa vez, que não poderíamos cometer o erro de tornar nossas esperanças mais otimistas em tendências históricas inevitáveis, o que pode fazer-nos errar a perder ad eternum de vista qualquer sucesso real.
Por ter particularidades que o distinguem dos anteriores” --- como o PNDH3? --- por seus “recursos” (i.e., fracassar gastando dinheiro) e “metas” (i.e., fracassar com boas intenções).
Mas lá vem o pior:
Articulados, União, Estados e municípios perseguirão objetivos inegociáveis, entre os quais o de antecipar o ingresso de crianças nas escolas. O programa parte do princípio de que, ao antecipar a presença no ensino, o setor público não estará apenas potencializando a capacidade de aprendizado das crianças, mas dando suporte a famílias que, por questões econômicas, sociais ou culturais, não se sentem estimuladas ou não têm condições de perseverar no encaminhamento e na manutenção dos filhos na escola.
Bem, é fato que quanto mais cedo começamos a aprender, há mais potencial sendo usado --- “potencializar” quer dizer melhorar as chances do melhor. Quanto menores somos, maior o nosso potencial; a medida que amadurecemos, vamos atualizando o nosso potencial e nos tornando sempre pouco menos do que o todo do potencial latente antes, quando o potencial era o máximo e o real e efetivo em nós, quase nenhum. Mas esse potencial é natural das crianças; é um ponto de vista curioso esse, uma vez reptido por Max Gehringer (no programa Fantástico), que disse que no caso de fracasso no começo da vida profissional, os jovens deveriam apegar-se ao que ainda tem: a juventude.
Assim, é possível entender como as crianças terão sua educação “potencializada” ao entrar mais cedo na escola pública, potencializada para a escola pública --- onde as crianças entrarão com mais potencial, mas, junto, o que vem com a escola pública, laica, gratuíta e obrigatória: a pior educação. A escola pública terá mais potencial, para destruir.
Como algo assim não pode errar em cheio sempre e sempre de novo? Fatalmente. Crianças com famílias estruturadas e conservadoras é a melhor forma de “potencializar” no que devem tornar-se efetivas.
E novamente aderiram ao erro de dizer que as condições sociais são decisivas... Não que não sejam graves, ou que não o sejam de modo nenhum, mas é o que vem desta conclusão que desencaminha, as soluções que se seguem, o pior. Misturam-se, nesse ponto, as dificuldades intrínsecas aos meios econômicos à eficiência da educação, que são coisas distintas.
Ampliando-se...” quer dizer, aquilo que deu errado até agora. “...[A] noção de que a obrigação do Estado” [com pomposa letra maiúscula ritual]... à educação. A adição de “e dos pais” é uma mera alegoria retórica, um modo de falar por truísmos e terminar a frase. A continuação, o que segue ali, é só a queda naquilo que estatisticamente mostraria uma frequência alta de expressões que ocorrem juntas, num país onde uma cultura comum do homem médio desapareceu completamente: Amplia-se a noção de que a obrigação do Estado e dos pais no que se refere à educação deve inevitavelmente passar pela compreensão das realidades sociais.”
A obrigação do estado passa pelas “realidades sociais” quer dizer que aquele deve dar conta das diferentes condições materiais das famílias, como se pudesse misturar os meios fracassados da nossa educação com a falta de condições de muitos. Se estes muitos chegarem à escola, encontrarão a miséria da escola. É inegável que essa é uma sociedade igualitária.
Bem, aí querem cobrar responsabilidade dos governantes, tal qual há para as finanças públicas, por uma “lei de responsabilidade educacional” com metas; mas como cobrar o que não se tem as formas de fazer? A educação tornar-se-ia o que já é, como muita coisa por aqui --- por mais um diploma, medalha ou título --- uma mera contabilidade de condecorações vazias.
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As palavras pelas coisas
Outras platitudes, já agora com jeito de um povo neurótico: “Quase 10% da população brasileira é de analfabetos. Apenas 13,7% dos jovens de 18 a 24 anos frequentam curso superior”. Como menos de 10% de analfabetos pode ser um problema? Foi o grande sucesso, temerário sucesso, de levar à escola e mal-alfabetizar milhões. Existem duas tragédias no Brasil, em educação; a primeira: as crianças não chegam às escolas; a segunda: às vezes elas chegam. Se apenas 13,7% frequentam o ensino superior, jamais houve tantos no ensino superior, e nunca, jamais --- talvez e em nenhum lugar do mundo, em nenhuma época --- tantos tão mal preparados tendo passado por uma máquina de ensino --- de moer carne.
Poucos jovens têm acesso a um ensino superior que forma bárbaros para exercer uma profissão com eficiência, que é o que se quer, de início, já que não dá para educar todo mundo ao mesmo tempo, no melhor, mais alto e eficiente, como iguaizinhos: “O que nós devemos buscar, de uma vez por todas, é a perfeição, negligenciada!”, deveriam dizer. Manicômio para a tagarelice à-toa é ao que se deveria dedicar por aqui.
O estado, diz-se, deve remunerações melhores aos professores... Quando ouço isto lembro os americanos lutando com unhas e dentes para deter o plano de saúde compulsório de Obama, que ameaça saúde universal aos americanos para que eles possam ser todos mau atendidos por igual: curiosamente, o caso da educação brasileira.
O sonho no lugar da realidade de novo:
O PNE... é recebido como a possibilidade real de fazer com que, em duas décadas, o Brasil possa reduzir a distância em relação aos melhores ensinos do mundo, com elevação da escolaridade e redução das desigualdades sociais e regionais que de fato democratizem o acesso à educação.”
Depois de tanto tempo de frustrações, olhamos para o que deu errado e dizemos: “Bem, vamos lá, dessa vez vocês tem que fazer!” Fazer o quê, carambolas?! As políticas de estado, como as que surgiram com o “Plano Nacional de Educação” em 1932 não eram, afinal, um plano de governo? O plano de 1932 é a pedra fundante do erro na educação, seguido até hoje, reformado apenas com alguns detalhes para pior: “colocar-se no lugar dos escravos”, “pensar por si mesmo”, “inventar a sua própria interpretação”, etc., à náusea. Além desta locução abracadabrosa: “fazer com que... [se] possa” --- Os portões do inferno devem ter essa estrovenga inscrita.
O absurdo de se repetir termos de um discurso sem jamais se perguntar de onde ele vem, faz-nos trocar as coisas pelas palavras, as quais tornam, num passo certo cego, a sociedade inteira numa grande máquina convulsiva e que aponta para si mesma, monstruosa --- uma gosma coloidal de marxismo, iluminismo, socialismo, humanismo à la Rousseau, cientificismo e fascismo --- forma de continuar lutando pelo “progresso”. Assim, porque só o futuro algum dia redimirá, sempre a perseguir o novo e reformar o velho, que já é o próprio novo puído e poeirento.
Quando o que se diz não pega de modo nenhum ao de que se refere, o efeito é o erro seguido do fracasso, acompanhado de perto pela loucura e com fim no pior.
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Tráfico ideológico da infância
Dentre vários pontos do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, podem ser ressaltados alguns que são inovadores e de grande contribuição. O primeiro deles diz respeito à própria caracterização da educação brasileira” (“O Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova de 1932: principais propostas”. Resumos).
Em vez de tratar-se de ampliar os meios e o acesso à educação, levantou-se a bandeira da “reforma” e confundiu-se o modelo certo com a necessidade de abranger uma maioria de excluídos. O que saiu daí foi uma ladainha marxista mascarada a não poder ser mais danosa.
Coerentemente com essa definição da "educação nova", os educadores propunham um programa de política educacional amplo e integrador, assim registrado no manifesto: "A seleção dos alunos nas suas aptidões naturais, a supressão de instituições criadoras de diferenças sobre base econômica”.
Como pode se amarrar ações práticas, coerentes com o princípio --- esse sim um princípio, ainda que um princípio de caos --- que se enuncia de uma “educação nova”? Como pode o novo ser um princípio de ordem em si? Palavreado bizarramente amalucado.
É fácil ver que a educação tornou-se apenas o desenvolvimento de habilidades e voltadas para o progresso material.
A escola integral e única proposta pelo manifesto era definida em oposição à escola existente, chamada de "tradicional". Assim conceituava o manifesto a "escola ou educação nova": "A educação nova, alargando sua finalidade para além dos limites das classes, assume, com uma feição mais humana, a sua verdadeira função social, preparando-se para formar ‘a hierarquia democrática’ pela ‘hierarquia das capacidades’, recrutadas em todos os grupos sociais, a que se abrem as mesmas oportunidades de educação” (Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova).
De cada um segundo a sua capacidade e a cada um segundo as suas necessidades” diz o lema comunista. Qualquer semelhança com essa “finalidade para além dos limites das classes” para formar uma “hierarquia democrática” pela “hierarquia das capacidades” deve ser teoria da conspiração.
Aquilo que destruiu a educação é apresentado agora, no fundo do poço, como trampolim para uma reforma da educação.
Ressoa assim a nauseante ladainha do fracasso. E o seu rumor persiste, se justamente a educação “tradicional” é que deu os melhores frutos! É fácil comparar a primeira metade do século XX com a segunda e constatar isso, além das persistentes confirmações das instituições conservadoras como as melhores.
Mas como agora ir-se-ia integrar ao conceito de “nova educação” o conceito de melhor e de mais eficiente tendo que, para isso, retornar aos velhos métodos? Impossível! A persistência na cabeça dos “formadores de opinião” de slogans surrados é blindada. Nunca se tratou de educação realmente, mas de reforma social, de engenharia social, daquele igualitarismo cujos meios foram os do fascismo, o racionalismo do humanismo científico aqui novamente, do qual se valem --- para todos.
Os pioneiros eram a favor de uma educação pública, gratuita, mista, laica e obrigatória. Isto quer dizer que o Estado deveria se responsabilizar pelo dever de educar o povo, responsabilidade esta que era, a princípio, atribuída à família.”
Isso poderia ser o chavão da propaganda soviético para uma educação igualitária. Sempre, de novo, macaqueando o certo para levar alguma vantagem; o analfabetismo foi um pretexto para estabelecer a estatização da educação e chegar hoje aos níveis do escárnio demoníaco. Quase ao ponto de podermos dizer não que o Haiti é aqui, mas que os fundamentos da civilização haitiana estão quase podendo ser adotados (quer dizer, dar uma nova demão de tinta) de pleno como a pilastra de nossa civilização (!): revolução popular por uma sociedade sem classes.
O novo substituiu o tradicional e em nome do “direito biológico dos indivíduos à educação” --- que é uma aberração que sinaliza ao adestramento ---, aproximou-se extraordinariamente dos planificadores fascistas do social-iluminismo a transformar a educação humana em uma indústria de massificação. É um truísmo socialista que uma vez desaparecidas as classes sociais, alcançar-se-ia um melhor ordenamento na produção (stakhanovismo, taylorismo), com a valorização do trabalho em si como valor máximo, igualmente distribuído. Com isso esperando-se que a produção aumentasse, bem como todas as capacidades seriam adquiridas mais rápido e perfeitamente.
Falhou uma vez e fracassamos nós e todos que tentaram; mas --- surpreza! --- vamos tentar tudo de novo no mais aberto espírito sincretista, laico e materialista. Basta fazer uma coisa que ainda não foi feita, que ninguém conhece, mas para as quais temos as palavras para designar as melhores intenções de tentá-lo --- o novo de novo.
Contrários ao costume de muitas escolas da época, os pioneiros pronunciaram-se favoráveis à escola mista e, questionando os princípios da educação católica, defendem uma educação laica, o que distanciaria a educação de questões religiosas e a aproximaria das questões sociais, dando oportunidades iguais a pessoas de ambos os sexos, e de diferentes credos e camadas sociais” (Resumos, id.).
Novamente; nunca se tratou realmente de educação! A preparação do homem para o progresso, para a otimização do trabalho, para a sociedade sem classes, de todas as formas que se possa começar fazendo, aproximando-se sempre mais dos ideais socialistas de uso da democracia, até extingui-la:
Educação de todas as crianças a partir do instante em que possam prescindir dos cuidados maternos, em estabelecimentos nacionais e a cargo do Estado. Educação conjugada com o trabalho fabril”.
Friedrich Engels, Princípios do Comunismo, Pergunta 18, item 8.
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Educação dos infernos
É incrível, que como ocorreu já outra vez, no caso do “X da Edução”, da RBS (seus editores e produtores), se venha repetindo à náusea com solução justamente o que é o problema.
É como se fosse de duvidar que se pudesse chegar a propor a doutrinação nazista ou fascista abertamente nas escolas, como método novo, e não pode haver dúvida que a mídia --- os mediadores e formadores de opinião --- adeririam entusiasticamente, pelo caráter definitivo daquelas propostas, sem se darem conta de nada. Obviamente, sem aqueles nomes.
Incrível, mas coisa parecida ocorreu na economia, quando o economista socialista Luiz Gonzaga Beluzzo propôs em artigo, por ocasião da crise recente, adotar medidas econômicas tomadas pelos nazistas (sem dizê-lo) para precaver-se daquele mal.
Enquanto se fala de realmente democratizar a educação, o governo nega-se terminantemente a considerar o homeschooling para quem pode se valer dele além de negar-se a explicar as suas possibilidades, ou dos métodos de Mortimer Adler.
O objetivo de nossos governos social-iluministas, da Sacra República Brasileira, jamais foi a educação, mas a padronização, a massificação sistemática e o cerceamento dos meios que poderiam evitar o pior ao qual chegamos, porque seus fins --- conscientes ou não disso --- são outros, dos princípios invertidos de criar o homem “humanizado” do socialismo, do nada, que ausente Deus, sai-se à imagem e semelhança do oco onde foi chocado, vazio tão grande quanto um abismo, ao qual se precipita.
Outra coisa; enquanto o objetivo for ser uma potência mundial ou tirar boas notas, ou entrar no mercado de trabalho, os resultados sempre vão ser inferiores do que os que se pretende. A instrumentalização da cultura, o pragmatismo e a racionalização do sonho social-ilulminista só tem um futuro, o da térmita.

janeiro 11, 2010

Os russos estão chegando!


O passado nunca morre: ele mata!
Uma ótima maneira de combater a corrupção agora é aderir, como Lula, ao planejamento feito pela esquerda brasileira em nome dos Direitos Humanos; pois não há regime mais eficiente para combater a corrupção que as tiranias de esquerda --- excluindo, é claro, o pessoal do partido.
Com esse 3ª Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), que Lula disse que assinou sem ler --- ele não sabe de nada mas está sempre bem assessorado (!) --- e com o exemplo anterior de Honduras, ficou óbvio, mesmo para o mais recalcitrante cético (mentalmente são), que a esquerda capitaneada pelo PT pretende modificar o estado brasileiro tão lentamente quanto seja necessário, tateando a chance, como se fez na Venezuela, Chávez à la Chávez, como na Argentina se esboça, e como se tentou em Honduras. Tudo nos moldes do mais rigoroso método marxista-leninista, aquele mesmo do passado --- a despeito da óbvia contradição, que confunde alguns jornalistas, de que o passado, por definição, passou.
Para os nossos jornalistas --- sobretudo a linha editorial adotada pela RBS/ZH, que me intriga --- o passado só pode existir como uma pilha de cadáveres, quando já não dá para negar que o pior JÁ aconteceu.
Certa vez, quando os sindicatos fizeram passeatas por todo o país, fazendo baderna, jornalistas aqui do RS disseram: "Não dá para saber se foi orquestrado" --- o mesmo embasbacamento apoplético que Nerval Pereira mostrou recentemente. A imprensa, quando honesta, parece que acha que 2 + 3 = 5 é teoria da conspiração. Então, para tranqüilizar-se, repetem o mantra de que a economia vai bem e que isso são méritos óbvios mais objetivos que qualquer esquisitice política. Na Argentina e na Venezuela os desmandos sobre a realidade econômica parece que, mais do que o clima, vai acabar vendo uma “reação vingativa” da economia.
A imprensa só acredita em "fatos", ao que adjetivam de "jornalístico" --- doutrina oficial da Comunicação Social, “engajada” e “conscientizada” ---, como quando as enchentes recentes arrastaram meio mundo, e foi possível ir lá ver... E muitos que fizeram isso caíram nela.
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Jogo de ligar

O jogo de ligar “Busque a relação” foi inspirado nas mais recorrentes “Teorias da Conspiração” de todos os tempos, para o jornalista que quiser adquirir qualquer mínimo senso imponderável de realidade para além de fatos atomísticos e das relativizações possíveis (infinitas), ...antes que os russos cheguem!
O mais curioso é que já há quem diga que as tentativas estas --- afoitas? --- de fazer modificações estruturais por meios não democráticos foram notadas, como por José Nêumanne Pinto, que disse que por muito menos os militares deram fim às reformas revolucionárias socialistas d'outrora.
O que persiste é a idéia de que Lula é quem controla o pessoal do achaque, todos ex-guerrilheiros e terroristas. Que saiba foi Benedetto Croce quem disse que a mentira fala por duas vias, uma para dizer outra para desdizer. Com língua bifurcada, mente e desmente.
O papel de Lula é exatamente este --- que Valium como ansiolítico e hipnótico ---, enquanto a tropa de frente faz as investidas exploratórias, como disse Reinaldo Azevedo, para ver se as reformas da “revolução pacífica” de Lula podem ser implementadas; e a qualquer insucesso Lula sai dizendo que ele é quem manda, que ele não leu, que não sabia e põe tudo nos lugares de novo, até a próxima investida. É sempre assim, mas parece que é sempre novo.
O que os petistas chamam de “democracia” é a popularidade de Lula, “para poder fazer”, “quando o povo quiser” e “as instituições estiverem fortes”, que quer dizer exatamente “ocupadas”. A democracia direta é democracia nenhuma. O respeito que esse pessoal mostra pela democracia é a possibilidade aberta nela de extingui-la de todo pelos seus próprios meios.
José Nêumanne Pinto, na Jovem Pan, coloca a nova PNDH como coisa muito mais complexa do que parecia a primeira vista, e cheia de arapucas. É um “ataque à democracia”, disse o comentarista. Eis a lista resumida:
  • Dificultar a desocupação de terras invadidas (MST), condicionada à audiência pública com participação dos invasores;
  • Fiscalização das empresas multinacionais que desenvolvem tecnologias;
  • Reduz capital estrangeiro em empresas de comunicação de 30% para 10%;
  • Inclui sindicatos no processo de licenciamento ambiental;
  • Monitorar o conteúdo do jornalismo, criando um index das empresas que trabalham ativamente pelos direitos humanos (i.e., que repetem os slogans do governo-partido e que defendem os “movimentos sociais” e o “social” e os sindicatos, etc.)
  • Cria um “Código de Ética do Jornalismo”, quer dizer, a vontade da propaganda oficial (e se depender dos códigos de ética do PT e da RBS, servem só para fazer alguém dizer, por fim, o que vale, absurdos!).
O que mais espanta (deveria), não é que talvez estas coisas não passem, mas que elas vêm sendo sistematicamente tentadas.
Os meios são aqueles mesmos, literalmente aqueles do Manifesto Comunista, sem grandes adaptações.
O que me intriga, e é um mistério, é que o jornalismo da RBS está alheio a tudo isso, como se não fosse bem isso, porque “o passado não volta”, por definição.
É um fenômeno curioso que o padrão de qualidade e os manuais de ética (v. Ética é a burocracia do politicamente correto) de alguns meios de comunicação --- que nem a Rede Globo manteve com tamanho paroxismo --- não se contentando em “normalizar” a realidade, terminem por se confundir com ela ou mesmo acabem sendo postos, para alguns homens “superiores” da imprensa, no lugar daquela. Sua exegese, porque é preciso crer para ver, é a da polidez, do mútuo autorrespeito babujoso, da elegância, da moderação e da cordialidade que já são máxima razão.
A herança da esquerda traz consigo essas táticas de subversão, de ataque às bases da democracia representativa, que de nada lhes serve se não for usada para o proletariado (no Manifesto Comunista), e que se pode ter exemplo nas atas do Foro de São Paulo, sempre repetido: "Entramos no sistema para modificá-lo desde dentro, e não para nos modificarmos a nós". Como podem não acreditar no que dizem eles próprios, da conspiração aberta? Que só não é mais aberta porque o fato de ser aberta conta com essa “relativização necessária” que os jornalistas armam-se para aplacar a ansiedade perante os rumores do pior.
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O aquecimento global da batata dos jornalistas
Não dá mais para olhar para cima, fingindo ver as nuvens e especulando o clima, agora que as coisas estão ficando gravemente visíveis. A partir desse ponto, a tolerância começa a se tornar “irresponsabilidade criminosa”.
Não bastasse ignorar os problemas políticos, de longe bem mais reais que quaisquer outros hoje, adotam como linha editorial o pânico e o chamado histérico pelo “aquecimento global” produzido por modelos que não acertam o clima geológico, nem qualquer coisa para além de 5 dias, mas botam fé daqui a 50 anos.
Quando os russos chegaram em Auschwitz, trataram de ir até os moradores alemães mais próximos e fizeram-lhes passear entre as pilhas de cadáveres e respirar os miasmas acres da morte, mostrar a eles o que estava acontecendo ali, e perguntando-lhes: “Vocês não viram isto?”
Ahh, os russos estão chegando!...”

janeiro 05, 2010

Criaturas selenitas da ilha do Dr. Moreau


Comentários delongados ao artigo da sra. Elenita Malta Pereira, historiadora, mestranda em história pela UFRGS,Abram os olhos para ver Avatar”, que ganhou página inteira no jornal Zero Hora --- o que foi adotado, por algum motivo que desconheço, como linha editorial cega ---, e à idéia do “Novo Homem” e do “Novo Mundo”, que jaz abaixo de tudo que se diz ali, para tentar entender do que se está falando realmente.

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Ilhas mentais, mentes lunares
Algumas pessoas parecem que conseguem imaginar poder colocar o mundo inteiro dentro de pequenas ilhas idílicas, as quais não têm lugar --- utópicas --- n'outro que não dentro de suas próprias cabecinhas ocas.
No filme O dia em que a Terra parou [The Day The Earth Stood Still], uma fantasia similar à Avatar, na versão nova com Keanu Reeves, a cena do tiro precoce contra a nave alienígena fica totalmente fora do contexto original (do dir. Robert Wise, de 1951), como o risco de começar fazendo o que mais se temia do inimigo vermelho. Essa síndrome do perseguido/perseguidor é bastante conhecida da psicologia do movimento revolucionário socialista:

  1. Em nome da liberdade, a Rússia criou a maior tirania;
  2. Em nome da paz, trouxe guerra;
  3. Para lutar contra o fascismo, aliou-se a ele;
  4. Bradando lutar contra o poder e os privilégios, criou um abismo entre o povo e um imenso poder de uma elite;
  5. A única nação sem fundamentos para o imperialismo, na teoria, tornou-se na prática, de pleno e completamente, imperialista;
  6. A terra refúgio de todos os oprimidos matou dezenas de milhares em pelotões de fuzilamento e mandou milhões ao exílio, a campos de concentração e para trabalhos forçados, e deportou perseguidos;
  7. O país genuinamente contra a guerra, promoveu o ato que dá início à IIªGM;
  8. Declarou-se dedicada a melhorar as condições de trabalho, mas criou o stakhanovismo;
  9. O governo que denunciou a Liga das Nações por ser um “covil de gananciosos”, ali entrou para tornar-se o mais ferrenho defensor de seus próprios interesses;
  10. O estado que clamou por uma frente popular para acabar os agressores da noite para o dia, caminhou dos campos da democracia para os de seus inimigos mortais;
  11. E apesar do que profetizaram seus amigos e adversários, de sua rápida queda, o regime resistiu por mais de 23 anos;

--- James Burnham (1940), Managerial revolution, XIV. “The Russian way” (parafraseei)

Mas hoje parece tudo muito incrível.
O “enredo” do filme de 2008, da direção de Scott Derrickson, é realmente indefectível, como agora o é o de Avatar, a lua dos delírios de construção de um Novo Mundo sem contradições internas, que nunca houve, nem haverá jamais, senão na cabeça de lunáticos monomaníaco e simplórios. O sonho delirante de Avatar e a proposta de salvação de O dia em que a Terra parou começam no paraíso e terminam no inferno, na destruição da velha ordem por uma nova e na forja, num forno muito quente, de um novo homem, imitando as experiências eugênicas de H.G. Wells n'A Ilha do Dr. Moreau; por fim, numa aberração sub-humana e num mundo inferior.
No filme Avatar, a ilha do Dr. Moreau torna-se a lua Pandora do povo Na'vi, que parece ser uma coisa --- como a eugenia parecia ser a chave de uma raça limpa ---, mas é outra; o novo mundo, esse aludido em Avatar, dará em outra coisa, bem mais bizarra.
*
A tecnologia redentora
A idéia da catástrofe por “vingança” da natureza ou de uma força universal superior, os alienígenas ---- “Ó! Salve-nos... Superman”, diria Homer ---, recria um símile da mitologia bíblica da purgação de nossos pecados num grande evento supernatural. Klaatu é um tipo de Cristo, imita a onisciência (cena do detetor de mentiras), é Um com o poder alienígena, enquanto a destruição vem por uma espécie de “nuvem de gafanhotos”, uma punição dos “céus”. A “encarnação” do alienígena em um corpo humano, “de carne e osso”, e as esferas que descem do céu para retirar animais, como na Arca de Noé, traz todo “problema” da “crise” dos males do mundo para o plano temporal e humano, do qual a conclusão óbvia é a “mudança” e a “ação”.
A petição de princípio tem uma premissa oculta: A evidência de que nós estamos cometendo danos potencialmente irreparáveis ao ambiente é irrefutável”, diz o produtor Erwin Stoff. Disso não se conclui que a solução seja um imposto mundial, um governo tutor central --- um Paracleto --- e as políticas “progressistas” da ONU, que vão da liberação do aborto (ou “do filho único”, um eufemismo) ao controle dos costumes, à desapropriação do valor das tradições, à flexibilização do conceito de família, o desarmamento da população, tudo com o efeito óbvio de massificar e homogeneizar tanto quanto se possa um número maior de pessoas a responder de forma tão mais imediata aos slogans ligados à “comunidade global” --- ou, senão, pelo menos a não poderem reagir quando necessário.
Klaatu sabe que o que pede tem vinculado, em “não fazem nada para mudar sua opinião”, de nossa “relutância às mudanças”, a antítese de que é necessário mudar; e em nossa “destrutividade” natural, uma negação dos valores positivos da natureza humana que já não pode ser senão aquela que reconhece nos seus valores comunitários uma tutela da tecnologia superior dos alienígenas --- o “racionalismo científico” da experiência russa.
Então o mesmo de novo, quando concede o conhecimento do que vem acontecendo aos cientistas.
É realmente excitante estar envolvido em um filme sobre a salvação do mundo”, diz o produtor de efeitos especiais Jeff Okun. O filme faz referência explícita ao imaginário bíblico, já não podendo não ter reduzido Deus a uma sabedoria cósmica manifestada materializada nos ETs.
Junte-se a “sabedoria” que os cientistas e ETs parecem compartilhar e sua supertecnologia e coloque-os como poder total do universo, e temos a fórmula do Tutor Universal. O esforço por espelhar as fraquezas humanas contra uma tecnologia muito superior à nossa nas mãos de seres bizarramente frios, encarnando uma força de pura justiça e sabedoria (fairness), parece querer sugerir que se deva encontrar sua realização na adesão às mudanças para salvar o planeta concebendo um análogo terrestre de poder --- mas, claro, aí já nem tão perfeito. 

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Uma só consciência, cega
O poder alienígena é frio e estranho às “fraquezas” humanas, como nem o Deus do Antigo Testamento o é, mas encarnado em Klaatu, ao viver como homem, experimenta a esperança, comove-se e dá nova chance à espécie humana. Bem, a frieza dos alienígenas para com o destino humano parece não estar ligado à sua sabedoria ou a previsões em super-supercomputadores alienígenas ou qualquer outra tecnologia que lhes permitisse decidir pela extinção da espécie humana, mas a uma mera MEDIDA ADMINISTRATIVA.
Desde que Klaatu percebe tão imperfeitamente quanto os humanos, como se a mente alienígena fosse antes apenas privada de dúvida, de modo que já não sabia se deveria extinguir o homem da terra ou não.
A sabedoria superior das advertências dos alienígenas era apenas um tipo de estreiteza mental ligada à fé cega em uma tecnologia que não era consciência de ninguém, mas um processo mecânico de cálculo.
A divindade ambientalista não passa de rotinas de uma inteligência artificial que, uma vez confrontada com a necessidade de tomar decisões, moralmente --- quer dizer, com liberdade ---, anula todas elas e chama a isso de “esperança”.
Qualquer coincidência com as comissões da ONU de especialistas, tal como a do IPCC, deve ser mera coincidência, mas é uma coincidência de assustar.
O dia em que a Terra parou condena a tecnologia humana comparando com a sua própria; torna-se, assim, naquela pegadinha diabólica que se pergunta que se Deus fosse bom não teria nos dados uma natureza tão frágil propensa ao pecado. Os alienígenas não nos dão os meios de sua tecnologia para reformar a nossa matriz energética, pelo contrário, aniquilam a tecnologia existente devolvendo a espécie humana à era do arado puxado por animais.
Assim, a tecnologia alienígena aparece como um superpoder criador e destruidor superior, mas não mais que como o protocolo cego que devolve o homem à uma condição de meios a mais primitiva, mais próxima de uma colônia jesuítica --- isto é, para dentro da utopia de Thomas More.
Façam-se conforme a minha imagem, dizem os alienígenas; mas devolvem-nos ao mais próximo da condição material das bestas. A tecnologia redentora, o fogo de Prometeu, é o símbolo da “consciência” de Klaatu como uma coisa única ligada ao poder administrativo dos alienígenas, e pelo que deveríamos ser punidos.
Para que os homens se comportem como consciências tão puras quanto as de Klaatu, teríamos que nos submeter às rotinas de uma administração global, conforme uma sabedoria universalmente válida --- ou, isto é, a uma autoridade a qual não se deve questionar. E isto é o que se quer toda vez que se invoca a “conscientização” para causas tão delirantes quanto as que pretendem “salvar o planeta”.
A mensagem política parece estar justamente na utopia antitecnológica e na regressão do homem a uma condição de “primitivismo” romântico de Jean-Jacques Rousseau ao mesmo tempo em que nos coloca julgados por uma tecnologia superior. Mas também, aí o ponto, à construção de uma sociedade tutorada por um poder central administrativo e que representa sem falhas a consciência social ou popular.
E, daí, claro, no que vai dar no fim: Tirania! É sempre assim quando a mente de simplórios pacifistas, ambientalistas escatológicos e de revolucionários de qualquer causa, que creem num estado de rotinas administrativas mais afeitas aos simplificados mecanismos de inteligência artificial, colocado então na posição de benfeitor mundial, que dará em opressão, violência e loucura.
Salvar a Terra é a idéia de alguns lunáticos que querem purgá-la com a sua destruição --- senão a de toda a Terra, pelo menos com a nossa; se não de todo, com todos, pelo menos estes malditos capitalistas! Depois veremos, quem sobrar, se vamos à praia, à beira-mar, n'algum resort intacto, ou se a praticar nudismo na selva amazônica, talvez de calção azul, para não ser tão radical.
Agora, à visão lunar da sra. Elenita.

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Avatar de Marx
Na versão de 1951 de O dia em que a Terra parou, a ameaça alienígena materializa o medo red under the bed que ameaçava tornar real acontecimentos funestos desencadeados justamente por esse medo. A cena do incidente do tiro precoce provava a natureza violenta do homem e sua tendência à autodestruição. Na versão de 2008, os alienígenas são a ameaça desconhecida que vem advertir o homem alterando o pânico red under the bed, do filme de 1951, para uma catástrofe ambiental causada pelo homem.
O risco por começar fazendo o que mais se temia do inimigo vermelho está em Avatar na intervenção alienígena, quando pretende extinguir o homem da face Terra, mas parece que suas medidas vêm em dose exagerada, arriscando a destruição de boa parte do que está na superfície do planeta.
No filme de 2008, Klaatu encarna a destruição preventiva do mundo atual, e sua reconstrução Ground Zero.
Valem as admoestações acima, do primeiro título: Avatar induz a que se aja no sentido de salvar o planeta construindo um sistema social tão eficiente quanto a ordem social de uma térmita --- e com a mesma consciência individual que ali pode existir. Isto é, o medo de que o planeta possa --- verdadeiramente ou não --- passar por modificações ambientais, com paroxismos climáticos reais, não deixar de ser (mesmo sendo o aquecimento verdadeiro no pior) um pretexto poderoso para fazer outra coisa. Não para resolver os problemas que surgirão, mas para criar um Administrador Central, com poder para controlar globalmente o “clima” dos acontecimentos humanos.
A comparação das forças da natureza com um poder superior, tecnológico, tem o efeito de um elástico, que distende abruptamente para acertar na idéia de um poder que possa deter as nossas agressões ao planeta. O que poderia nos levar a um sistema de controle humano tão cego quanto o poder alienígena em O dia em que a Terra parou, que já não é outra coisa que as sociedades descritas pela ficcção de George Orwell e Aldous Huxley.
Dona Elenita adere com fé a essa boa-nova macaqueada dos céus, a do racionalismo científico e sob bases puramente “humanísticas”, no espírito do “progresso” niilista que nasceu dentro do ocidente e produziu o sonho, que virou em pesadelo.
A apologia indisfarçada em O dia em que a Terra parou, de Derrickson (2008), e Avatar agora, de Cameron, parece ser a mesma, a da mais deslavada propaganda ambientalista, com outros fins.
O filme de Cameron é um “poderoso brado de alerta”, uma “poderosa mensagem ecológica”, diz Elenita, que se liga então a um slogan vazio: “o homem precisa restabelecer sua conexão com a natureza”.
O foco da “conscientização” da professora de história da UFRGS é similar ao clamor que se fez às miríades de etnias na Rússia pré-soviética para formarem nacionalidades locais para lutar contra o poder do nacionalismo da Grande Rússia, o “Grande Perigo”. Enquanto reuniam-se em nacionalidades, com a liberdade permitida --- o que deveria ser reconhecido sempre como a marca das falsas liberdades ---, os povos que viriam a constituir a União Soviética formaram, sem o saber, o grande montão maciço de paralisados sob as botas de Stalin. Depois, a “normalização”. Tornaram-se todos “índios” (korenizatsiia) numa grande massa de tolos usados.
Para mover as pessoas a aderir, deve-se concentrar a atenção de todos num só problema, análogo às imprecações desferidas contra Emmanuel Goldstein em Nineteen Eighty-Four, de Orwell; todos os problemas do mundo são resumidos num, “para...”.
lutamos contra “A Grande Rússia”, já lutamos contra o “imperialismo”, viemos lutando contra o “capital internacional”, agora vamos lutar, mutatis mutandis, contra o Cataclismo Global.
A fórmula é sempre a mesma, muda apenas a máscara. Se o problema for real, melhor ainda; geralmente procura-se um problema real, não soluções reais, mas problemas reais, para adotá-lo como anteparo. Não é o problema que importa, mas que a solução seja reconhecida por todos, a qual se faz visível não por ela ser óbvia e melhor, mas assim se a faz parecer, voltando-se para o outro lado, apontando sempre de novo a existência do problema.
Como disse Stalin: mensagem nacionalista na forma, mas socialista no conteúdo; que dá para repetir a mesma da mensagem pacifista: mensagem pacifista na forma, mas socialista no conteúdo; e agora, novamente adaptada: mensagem ecológica na forma, mas socialista no conteúdo.
E isto que essa apologia vem de uma professora de história! Bem, História, Pedagogia, Geografia, Jornalismo (ou Comunicação) já há muito que são apenas disciplinas revolucionárias, até a tampa cheias de “conscientizadores” e “conscientizados”. Buscar a verdade não é, no entanto, o forte da imprensa, que precisa reunir todos numa grande comunidade de bem-intencionados, compulsoriamente, e confiar cegamente na força natural do progresso humano.
Quando o pior acontecer, como as cheias recentes, sairá nos jornais
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Encantadora Segunda Realidade (3D)
O amor ao próximo, macaqueando os evangelhos (como sempre), está nesse “respeito ao próximo”: homem, animal ou floresta. É a alteridade absoluta, que pode significar uma vida planificada desde nossas relações ecológicas mais básicas, enquanto essa ligação telúrica já não pode deixar de ser um apascentador para anestesiar as violências que advirão de uma negação do homem.
"O espectador é transportado para a lua Pandora, habitada pelo povo Na’vi, um universo de experiências sensoriais encantadoras, com seres de formas jamais imaginadas, cores reluzentes e uma natureza exuberante” [Assinado: Homer Simpson... Não; é mesmo da professora de história da UFRGS] [grifei].
A nova realidade em 3D não poderia ser melhor instrumento de gestão ambiental, se bem que eu imaginei que aqueles jogos de administração do planeta, que traziam inúmeras variáveis as quais o jogador deveria equilibrar, com seu custo/benefício próprio, eram bem mais complexos que a mentalidade de pessoas como a sra. Elenita ou que qualquer planejamento vindo da ONU parece ser capaz de conceber.
Qualquer coisa a que queira se referir à frase “um universo de experiências sensoriais encantadorasparece que se define melhor pelo ambiente de alucinação e de formação de uma segunda realidade na qual uma quantidade tão grande de lugares comuns são chaves de acesso a uma vida em comunidade superior, nessa realidade. É claro, teremos que aderir a esta realidade, mas podemos delegar a alguém também que nos convença com métodos mais eficientes, de “conscientização”.
"No fim... os Administradores compreenderam a ineficácia da violência. [Aos] métodos mais lentos, porém infinitamente mais seguros, da ectogênese, do condicionamento neopavloviano e da hipnopedia...” (Admirável Mundo Novo, III).
Bem, de qualquer forma, se não melhorar o mundo, pelo menos nos fará crer ser possível conforme esse pessoal acha que devem ser as soluções.
Para variar, estas segundas realidades, a maioria delas vinda antes por locuções apascentadoras (o Paracleto agindo) --- as quais George Orwell não deixaria de notar --- só podem estar dizendo outra coisa, como por “encantadora” o que quer dizer, na realidade, medonho, bizarro, sinistro, etc., para quando o avatar enfim encarna.
O Novo Mundo é sonhado em 3D e habitado por seres moralmente superiores --- de uma moralidade alcançada através de efeitos visuais e maquiagem ---, mas quando nascem têm outro aspecto, e olhos desesperados.
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Conscientizados conscientizadores
Talvez dos exemplos citados de filmes pela sra. Elenita, Wall-e tenha tratado o tema melhor, sem ignorar o problema ambiental, mas mostrando que este é usado para outros fins. Em Wall-e metáfora de abrir os olhos surge quando a viseira digital que está sempre na frente dos olhos das pessoas, mostrando-lhes a segunda realidade, como um modo de “o grande timoneiro” AUTOPILOT --- um símile de Hall 9000, o computador central de 2001 – Uma odisséia no espaço, que passa a entender que o homem não é mais necessário lá pelas tantas --- oferecer facilidades para decidir a melhor forma de vida, mais econômica, mais justa, para cada um: Leave the flying to Us”.
Se vale aqui a frase de Hugo von Hofmannsthal, citada sempre por Olavo de Carvalho, "Nada está na realidade política de um país se não estiver primeiro na sua literatura", então a profusão contemporânea de enredos de tentativas de implantação de sistemas de controle social e estupidificação coletiva --- das quais as fontes mais conhecidas são Orwell e Huxley --- deveriam estar sendo levados muito mais a sério.
Os slogans do grande timoneiro, do Tutor Administrativo Global, anunciada para a salvação do mundo fazem uso, por todos os meios racionais, largamente da engenharia social, tornar-nos-á pouco menos que homens.
É uma trampa de proporções inacreditáveis, seguindo o princípio da Big Lie. O meio hipnótico pelo qual viemos podendo não perceber e que desmentem como coisa inverossímil mesmo “tricks” bem mais discretos como o da adulteração dos bancos de dados do IPCC.
A pergunta de Elenita, “Por que tantos filmes com preocupação ecológica?” não tem uma resposta simples, do tipo: Porque o mundo vem passando por uma crise climática produzida pela cobiça humana, como ela vai concluir no fim. A solução monomaníaca do problema ambiental pensada na mudança dos regimes de produção e de uma alteração radical do estilo de vida está mais para uma redução a termos marxistas.
Crises despertam os “conscientizados” a retomares a crítica marxista, porque ela se encaixa sempre muito bem como crítica a qualquer coisa, sem jamais poder oferecer soluções positivas --- além, é claro, das que lhe são peculiares.
Contra os meios de dona Elenita, Delfim Netto e Bjorn Lomborg concordam ao dizer que os meios de solucionar o problema ambiental é antes a inovação tecnológica, em vez de as disputas por reformas globais da economia e dos hábitos, que cheira a oportunismo para-lá-de-maquiavélico.
Dona Elenita está tão completamente “conscientizada” que se tornou uma multiplicadora natural ou espontânea da mensagem ecológica e das idéias que, como historiadora, já mostra bem que tipo de realidade persegue criando para sua disciplina gramsciana --- espontaneidade que só pode já significar outra coisa: automatismo e propaganda.
Os termos são exatos para quem vê por esta segunda realidade, como se ela falasse pela boca dos conscientizados sem que estes, de si próprios, falassem qualquer coisa. Assim, o anterior conscientizado agora tornou-se uma máquina de “conscientização”.
Quem prega um mundo harmonioso e sob uma disciplina rigorosa de um tutor tem já o próprio pensamento funcionando como esse mundo.
A segunda realidade de Avatar, na sua simplificação mágica, é o produto de designers sociais, os quais produziram a mentalidade da sra. Elenita, e que agora estão aptos a seguir o seu trabalho de conscientizados-conscientizadores na construção de um mundo perfeito segundo critérios tão simples quanto a intenção de salvá-lo. 

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Abrindo uma outra caixinha
Peça de propaganda mal acabada, que prima pela simplificações. O artigo de Elenita faz uso de distorções forçadas.
O conceito de desenvolvimento sustentável, nesse sentido, quando apropriado pelas empresas, foi distorcido de seu significado original e utilizado para proporcionar lucros, incentivando o consumo. O movimento ambientalista pregava em seu início, nos anos 1970, justamente o contrário, o anticonsumismo [grifei].
Inova ao expor a monstruosidade, o lado perverso do ser humano – personificado no personagem do coronel Quaritch Miles (Stephen Lang) –, que destrói um mundo em perfeita harmonia, com uma brutalidade chocante, em cenas que provocam indignação no espectador. Mostra até onde o homem é capaz de chegar para obter ganhos econômicos [grifei, nauseado].
O conceito de “deselvolvimento sustentável” foi apropriado pelas empresas e “distorcido” para incentivar o consumo e aumentar lucros (!). É a voraz crítica marxista em estado puro: a simples propaganda que quer “conscientizar” as pessoas a aderirem ao ideal de mundo da sra. Elenita é já considerado tática para aumentar o consumo. Crítica, essa afetação de espíritos superioríssimos, é assim mesmo --- como o Uroboro ---, não se contenta com algo, quer tudo e acaba mordendo a própria cauda.
Avatar... --- e lá vem o show de frases feitas pelas quais os conscientizados conscientizam --- “propõe uma discussão pertinente”, e “inova”, então escreve ela, ao apresentar um militar sem coração que destrói um mundo em harmonia com brutalidade!
Todos os males do mundo são atribuídos à maldade humana e ao regime capitalista, ávido por pilhar e pilhar insaciável.
Mas a estrutura da frase é mais aloquente disso: “enfim, todas as desgraças provocadas pelo homem são evocadas”. Exatamente, nada menos que “todas”!
Por muito menos dá para acusar um conservador de teórico de conspirações; enquanto Elenita liga aqui todos os males do mundo, a ganância, a avareza e a brutalidade ao mundo ocidental. Teóricos assim são delirantes mitômanos, herdeira do pior do século XX, mas que já pouco se distinguem da “conscientizada” Elenita.
Vemo-nos em ação, atirando contra a natureza, só porque debaixo dela se encontra um minério valiosíssimo, que, para os humanos, seria capaz de resolver a crise energética... Com a Terra arrasada, segue-se a colonização de outros mundos. Ao mostrar nossa mesquinhez, o filme pretende atingir o que ainda resta de consciência ecológica em seu público [grifei].
Como, por Deus, uma historiadora pode exercer a sua profissão com uma imaginação tão frágil só pode ter uma conclusão: não pode. Sobra tornar-se uma “conscientizadora”.
O modelo de mundo que a sra. Elenita defende é uma projeção futura pelo qual se julga todo passado --- definição do melhor mundo revolucionário ---, assim como a humanidade é medida por seres de moral 3D feitos por computação gráfica.
Por estes modelos fabulosos dona Elenita julga todo demais, de onde, segundo ela, saem, como da caixa de Pandora, “todas as desgraças provocadas pelo homem”. A chave da caixa de Pandora da sr.a Elenita é a “ganância”! É fácil perceber que essa chave interpretativa abre melhor aquela outra caixa, a do filme Hellraiser – Renascido do inferno, porque a ganância aqui, como o “prazer” no filme, para os cenobitas, quer dizer outra coisa.
Hellraiser começa com o protagonista, um homem impulsivo e violento, comprando de um mercador uma antiga relíquia em forma de cubo. Segundo a lenda que cerca a peça, o cubo seria capaz de abrir uma passagem para um reino de prazer sensual inimaginável.
Os cenobitas do filme, os demônios para além do portal, são os cátaros humanistas e valentinianos 3D da ascendência da sra. Elenita --- os hereges profetas da febre de um mundo de cabeça para baixo.
Ao mostrar a mesquinhez do homem quer despertar “o que resta de consciência ecológica” nas pessoas. O que resta quer dizer, que já havia, como um instinto de integração à natureza, como o que leva os povos indígenas a conviver em perfeita harmonia com a natureza? Tinha para mim que o que levasse os povos indígenas a conviver em perfeita harmonia com a natureza fosse sua cultura, e abaixo dela tornam-se quase-macacos. Não que o sejam, mas a ausência de cultura leva a isso --- símiles imperfeitos de símios.
O homem de Jean-Jacques Rousseau dá em um homem-demônio, já não o sonho eugênico, mas em “eugenia” social, em engenharia humana, qualquer coisa nem humana, nem divina, nem animal.
A questão aqui não é a de retornar às florestas e viver como bosquímanos nudistas, como reconhece Elenita não ser o caso, mas pensar um sistema social tão perfeito e harmonioso como nunca houve e ninguém jamais o fez --- e aplicá-lo!
Dona elenita parece que quer nos fazer acreditar em um mundo de harmonia, paz e camaradagem que, no entanto, sempre, historicamente, vem se mostrando o pior, bem para além do desgaste consumista do liberalismo. Um mundo que os cenobitas verdes nos oferecem sem explicar o que querem dizer suas palavras e o que está por trás de tantas frases feitas, que terminam sempre querendo dizer outra coisa.
Tais sistemas sempre deram em outra coisa, mas vá explicar isso para uma professora de história “conscientizada”, súcubus e selenitas úteis que tais
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A verdade é, que serve
A mensagem marxista é “significativa”: mostra um mundo harmonioso e belo, mas para isso tem-se que, antes desse mundo, persuadir as pessoas de que ele é assim mesmo, no futuro.
O próprio filme é assim, ao recriar um mundo em 3D fantático que se vale do mais alto artifício gráfico --- quiçá aquele que “arrumou” os bancos de dados do IPCC para aquecer o aquecimento global --- para persuadir.
Significativo” quer dizer: “pode ser usado”.

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Pandora: chave interpretativa e os demônios
A variedade do mito de Pandora apareceu para Elenita um salto elíptico na similitude entre cuidar da caixa dos males como cuidado ambientalista do planeta. Mas a analogia do mito, que não tem uma só forma narrativa ou símbolo, serve-se de chave interpretativa, pode ser aberta não para fazê-la adequar-se a uma imagem gasta e unívoca à escatologia ambientalista, mas para ser de fato uma chave interpretativa que queira explorar a simbologia do filme Avatar.
O mito, como no mito da Árvore do Bem e do Mal no Gênesis, confere à mulher (“misógino” que nada!) os dons todos, não apenas os males, mas todos, derivados do conhecimento e adquiridos por uma transgressão. Não como Lúcifer, mas nas origens, como se descreve um homem criado por Deus e com seus dons próprios, e como há no papel do pecado original cristão. A transgressão não é uma punição, mas o símbolo que parece justificar retroativamente a condição mesma da natureza inatural do homem.
Todos os nossos males são problemas insolúveis para o conhecimento, não podem ser extirpados da natureza humana, mas constatados; porém, o oposto pode ser sonhado por aquelas experiências monstruosas que querendo construir um homem perfeito --- da ideia original do século XIX da degeneração da raça --- geram uma aberração, que já não é um homem, nem pode ser animal apenas.
Parece-me mais consistente a versão que deixa a esperança na “boca do jarro” dos dons, a qual sobrou apenas este, enquanto os demais subiram ao Olimpo de volta; e não que os males tenham sido libertados. De outra forma, mas não irreconciliável, teríamos que crer que dos males que escaparam apenas um ficou: a esperança! Essa versão tem a vantagem de acertar em cheio a sra. Elenita na nuca, como um bumerangue: a esperança de um mundo melhor é um dos males que encarna o demônio de um mundo estranho e de uma utopia medonha.
Assim, tratando de mundos perfeitos, essa deformação da alma humana parece reproduzir aquele outro mundo utópico, de ilhas ficcionais que tais à do Dr. Moreau, de H.G. Wells, habitada por seres que não são homens, nem são animais.
Elenita não fez do mito de Pandora uma chave interpretativa de Avatar, mas fez dela uma imagem de propaganda para a adesão “conscientizada”.
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A salvação n'outro mundo e a salvação gnóstica
As outras criaturas debruçadas
Olhando a terra estão; porém ao homem
O Fator conferiu sublime rosto,
Erguido para o céu lhe deu que olhasse.
- Ovídio. Metamorfoses, I.
Enquanto em O senhor dos anéis duendes, elfos, anões, hobbits e os homens juntam-se para lutar em aliança contra o mal que aprisiona consciências, em Avatar a “conscientização” é um bem do qual Jake Sully “desperta”. A forma da iniciação espiritual é sempre a mesma, seja para libertar-se de uma prisão hipnótica, seja para começar a ser hipnotizado e chegar a tornar-se um “conscientizado”.
A visão de um mundo melhor, isto é, a esperança de um outro mundo melhor, está junto a alguma sensação de insatisfação; até aí, tudo certo.
"As criaturas não nascem com desejos que não podem ser satisfeitos. Um bebê sente fome: bem, existe o alimento. Um patinho gosta de nadar: existe a água. O homem sente o desejo sexual: existe o sexo. Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo” (Cristianismo puro e simples, 10. Esperança [cristã], 3).
Se por um lado a ânsia por algo que não pode ser cumprido talvez lance-nos para além da vida, na visão cristã de C.S. Lewis, o mesmo sentimento de “saudade” de uma era de ouro pode se tornar perigosamente de uma vaga aspiração do futuro a um paroxismo de ansiedade.
A esperança é para estes dois modelos coisas distintas: é tanto a aspiração que o homem tende para uma vida após a morte, quanto, quando se torna ansiedade, na tentativa de realizá-lo na terra. Nesse segundo caso, liga-o a alguma linha de acontecimentos terrenos que os tornam acessíveis de algum modo e daí num esforço possível.
Não se trata portanto de uma nostalgia de algo no homem que o lembra de sua origem divina --- como no mito de Pandora a criação do homem está ligada ao mal assim como no mito das origens cristãs o pecado original que vem de Adão é um dos dogmas do cristianismo ---, mas de reconhecer nele mesmo a possibilidade e o processo que lhe permite alcançar a sua própria salvação: gnose.
A salvação gnóstica torna a esperança que sabe de sua condição divina na esperança de poder realizá-la por si mesmo. Nesse sentido, o outro mundo da Boa-Nova cristã é encarnado.
Avatar é uma idade de ouro, cujo retorno pretendido viola bizarramente a própria lei que condenou o homem no mito a ser expulso da idade de ouro, quando Prometeu transgrediu roubar dos deuses o fogo ou como no mito genesíaco. O sonho de construir um mundo perfeito, de retornar ao mundo perfeito, é o sonho gnóstico de construí-lo.
Aberração igual produziu-se quando o medo da degeneração da raça convergira no pior do século XX, como prefaciado por Wells em A Ilha do Dr. Moreau. As experiências pela realização da “raça pura” ainda são as mesmas que agora querem construir um “novo mundo” sem contradições e sem sofrimento com idéias puristas saídas de mentes simplórias.
Em Pandora a ansiedade humana, os desejos, as aflições que “despedaçam os membros” (Hesíodo, Teogonia) levarão a abri-se a caixa dos males: a busca pelo prazer levará à dor --- como em Hellraiser ---, e a busca empertigada por um mundo perfeito, levará ao inferno na terra.
 Abram os olhos para estes olhos!

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O mecanismo do alçapão abre a caixa
Avatar é uma imagem embelezada d'A Ilha do Dr. Moreau com um reflexo superficial da Utopia de Thomas More. Em vez da ilha, a lua “Pandora”.
A segunda realidade é um conjunto de dados artificiais, pelos quais somos orientados a agir para algum fim... que não nos contam.
A metáfora parece especialmente significativa depois que as manipulações dos dados base do IPCC mostraram que tudo é muito pouco transparentes. O desmentido sem investigação, em um processo de Moscou no qual a verdade foi expurgada, deixa tudo ainda mais com a verossimilhança dos engodos e que justifica um pé atrás. Se algumas pessoas convictas de que os fins do ambientalismo são justos (a qualquer custo) a despeito da mentira que utilizam para mover as pessoas para um mundo melhor, parece que o fim é já conhecido: movem-nos para dentro da caixa de pandora --- ou, talvez, mais modernamente, para dentro do cubo de Hellraiser.
A beleza do filme, como os atributos de Pandora, parece traze-nos os prazeres sensuais ilimitados em Hellraiser, ou um mundo melhor, sem injustiças --- que quer dizer perfeitamente outra coisa.
E é outro filme, no entanto, que conta-nos melhor da natureza desse convite, mais fielmente, do qual o preço do ingresso é o imposto global para salvar o planeta: “Pague para entrar, reze para sair”.
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O enredo “É uma teia”
José Lutzenberger era um teórico da conspiração! Acreditava que “tudo estava ligado a tudo”, como numa teia, menos a propaganda ideológica aos seus fins. Haja fé cega. Esse enredo “é uma teia” piegas e que quer dizer outra coisa.
Esse “Eu vejo você”, em Avatar, querendo dizer ainda mais, um perceber que é “ambiental”, é pleno, é um ersatz do que só pode ocorrer em Deus segundo a tradição, ou se se preferir, o sentido que o cristianismo dá a essa ligação QUANDO a liberdade é uma faculdade humana --- o livre-arbítrio --- e sem a qual tornamo-nos em outra coisa bizarra.
Se é necessário uma ligação com a “teia” da vida, essa não pode se dar abaixo do nível de consciência (consciência não-engajada) e isso implica o de responsabilidade plena numa condição de liberdade que permite optar (por possível que seja) pelo mal. Quebrar com isso é tornar o homem e a sociedade humana naquele “unidade” (ou continuum) de mentes inconscientes contra a qual C.S. Lewis espelha a necessidade de um “meio neutro” em O problema do sofrimento humano, para o homem perceber Deus e à sua própria individualidade.
Tentar uma noção de integração ecológica sem o livre-arbítrio dá em colônia de insetos e em engenharia social segundo o modelo da rainha-mãe-aranha: no meio dessa teia tem uma armadilha. Se a ligação do homem com a natureza não se der dentro de uma cultura e de uma sociedade que não lhe permita a liberdade de escolha, e de erro, então não será o homem que foi ligado, mas uma das experiência do Dr. Moreau.
Novamente, Elenita encarna o avatar de Marx e recomeça a cantilena. “O filme nos mostra que mesmo as sociedades tidas como primitivas, até mesmo selvagens, têm sabedoria...”, menos o capitalismo liberal, que é o mal puro... (!):
Somos responsáveis pelo sistema econômico falho, excludente, perverso [tem que notar que a frase esta não é uma descrição, mas um brado] – que, apesar da recente crise, surpreendentemente permanece o mesmo – que, visando ao lucro e ao crescimento ilimitado, coloca a natureza como um detalhe”.
E...” --- deve estar com as Missões jesuíticas em mente --- “geralmente, [tem] uma ligação com a natureza muito mais rica do que a nossa”.
Elenita atribui o fracasso de Copenhague ao interesse econômico ganancioso e ignora a complexidade da política internacional, a qual reduz à simplíssima e maníaca “vontade de mudar” uma solução pela qual não se optou. E a China, bizarramente colocada dentro dos emergentes, bateu pé e não aceitou parar de crescer, mas a culpa é dos países ricos (o “capital internacional”, o “imperialismo”, a “Grande Rússia” contra a qual Lenin advertia as minorias étnicas, enganando-as, etc., etc.).
A conexão na “teia da natureza” é uma ilha-idéia política romanesca (piegas):
Estamos cada vez mais desconectados com a teia da natureza, preocupados em ganhar dinheiro custe o que custar. Mesmo que o preço seja a vida dos que ainda não nasceram ou até mesmo dos oceanos, das árvores e dos animais...”
O nó dessa teia é um laço socialista no pescoço das futuras gerações, cujo problema tem uma solução que todo homem de esquerda adere (exceto os expurgados recentes pelo código de ética do PT) quando apóiam o aborto como uma “liberdade da mulher” de usufruir do seu próprio corpo. As gerações futuras estariam preservadas se não nascessem. É inegável que essa lógica é de um rigor inextrincável.
Com seus corpos azuis, orelhas pontudas, narizes achatados, cabelos em trança e muito mais altos do que nós”, os habitantes de Pandora são ripongas tagarelas de slogans “conscientizadores”: “Eles nos passam uma importante mensagem: ainda há tempo para salvar a Terra, basta nos reconectarmos” --- isto é, aderir.
A sra. Elenita pede que o leitor abra os olhos, logo depois de pulverizar no ar uma névoa alucinógena que realça o aspecto de que “a vida no avatar passa a ser mais real do que a 'vida real'”: Segunda Realidade.
Como não poderia deixar de ser, delirante!
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O Cubo
Os maiores absurdos de hoje são os slogans aceitos ontem”
- Ayn Rand.
Mas o filme O Cubo é que parece dar a experiência semelhante e mais adequada para o mundo planejado da sra. Elenita, se se for buscar a forma mais simples dessa fórmula ilimitada liminada de mundo sem transcendência --- isto é, ou limitado ilimitado pela repetição ou looping de uma fórmula monótona; o qual, ampliando um pouco mais, dá em Brazil, de Terry Gilliam --- a iron cage weberiana ---, cujo paroxismo (até agora) foi 1984, de Orwell.
Na forma essencial, O Cubo essencializa quase ao mais puro abstratismo matemático a metáfora das sociedades opressoras, não mais explicitamente porque seja uma máquina que oprime e terrifica, mas porque estaríamos acostumamos com ela e sem saber como pudéramos ter nos metido lá dentro, quando damos conta de que talvez quiséssemos sair.

Aldous Huxley referiu-se, certa vez, a qualquer coisa igual à sedução da caixa de pandora, que como parte do homem traga-o e deforma a uma condição sub-humana, dizendo:
Uma mente estreita é perfeitamente adequada a vacas e babuínos; mas a um animal que pretende pertencer a mesma espécie de Shakespeare, é coisa simplesmente infame”.
A tentação de negar-se a conduição humana por qualquer coisa inferior (e menos consciente) parece que seduz a uns quantos.
Um ser humano é muito mais que um milhão de pessoas dividido por um milhão (Arthur Koestler), as quais se deveria ordenar como milhão.
Mas as idéias simplistas de humanidade nunca desapareceram de todo, não apenas não desapareceram como são o instinto condicionado dominante hoje desde o homem médio até seus representantes civis. A forma matemática de uma sociedade que calcula indivíduos, procedimentos ou processos sociais, como já ouve antes, parace nascer de mentes tão simplistas quanto as soluções que vêm delas.
Sempre que alguém diz alguma coisa que parece vaga demais, sem mostrar as ações que devem ser tomadas por ela, é porque vai dar em outra coisa e provavelmente é para esta outra cosia que ela foi pensada.
Certos perigos --- e comum que sempre os piores --- parecem poder ser sempre de novo esquecidos mais facilmente que os menos danosos. Alguns deles, ligados às revoluções, --- como ovos de serpentes --- vêm infestados dentro de sonhos de experiências arrebatadoras, de utopias idílicas e que trazem junto um ersatz de esperança, que ao despertar mostram-se pesadelos medonhos.
Especialmente os jovens parece que desconhecem completamente o risco real que jamais deixa de existir, e que não volta com a mesma face. Hitler não terá amanhã o mesmo bigode, nem Stalin virá com a auréola de eleito “pelo povo” causar outro Grande Terror, mas talvez venham nos aprisionar numa gaiola de aço, ou talvez de ouro: “Deem-me o supérfluo e eu abrirei mão do essencial” (Oscar Wilde).
Na escuridão, ao meio-dia, parece que cada vez menos --- por aqui --- ninguém mais busca conhecer a história com aquela confiança na verdade que não é nem de ontem, nem de hoje, mas de sempre. Mas, como a sra. Elenita, inventá-la desde um ponto de vista qualquer, que é sua “consciência”, que é consciência de ninguém: condenados a repetí-la de outra forma, a qual a literatura parece invocar em sua objetividade peculiar, que já não se acredita ser possível, por ter-se perdido a fé em tudo.
A salvação vem hoje pela fé cega, em meio à escuridão, de que não há nada na realidade que não seja a confirmação posterior ao fato, o único que merece nossa atenção; e que é a objetividade máxima já do mundo, além da vontade incauta, firmemente decidida ao encalço de soluções simples e rasteiras de uma outra redenção humana.
* * *
Mas, afinal, sra. Elenita, o mercador quer negociar:
Como gostaria de ser salva, minha sra?” [*]

Notas
*A frase final do filme Hellraiser, quando o cubo volta ao mesmo mercador de onde fôra comprado, é: O que lhe dá prazer, Sr.?