julho 31, 2007

Uma visão memorável

A escada de Jacó desce até o centro da Terra.

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As estrelas pulsam, quase caem em si, e quase se vão, excêntricas – é o caso de uma nebulosa estelar que abandonou o gás que a circundava e o caso do resto do mundo, que aquele anjo oprime.

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Bons e maus anjos, amorais.

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Satã e Galáxia com um (provável) Buraco Negro no centro.

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Um anjo e a Nebulosa planetária, de luz ultravioleta e de 250.000°C.

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Plêiades

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Se olhar muito de perto, quase nem se vê que é um homem

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Newton é pó de estrela.

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Pra mim se trata da mesma coisa, Doré!

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Caos

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Luz

julho 29, 2007

Testemunhas proféticas

(Desta vetusta edição, quase já uma múmia:)

“Um professor alemão, o primeiro a iniciar-me nos estudos da Filosofia, conhecedor do nosso povo, costumava manifestar-me a sua admiração pela inteligência de nossa gente. Para ele, que percorrera tantos países, que ministrara lições em tantas universidades e escolas do Ocidente e do Oriente, era o brasileiro o aluno mais vivo, mais inteligente, mais sagaz no raciocínio, e de mais profundas intuições que conhecera. No entanto, punha uma restrição. Julgava-nos demasiadamente inquietos e desequilibrados quanto ao conhecimento. Afirmava-me ter encontrado grandes valores, homens de capacidade extraordinária, mas, em muitos aspectos, falhos de certos conhecimentos elementares, que eram como abismos por entre cumes de montanhas. Atribuía esse desequilíbrio à natural pressa dos povos americanos e à falta de disciplina mais rígida no trabalho. Nessa época, considerava eu as suas palavras um tanto exageradas. Mas, com o decorrer do tempo, e através de aulas e inúmeras conferências, palestras e debates que empreendi, verifiquei assistir ao meu velho e venerando mestre uma grande soma de verdade”.



– Mário Ferreira dos Santos, em “Prefácio” de Filosofia e Cosmovisão (1952) [4ª edição de 1958].

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Ver também o depoimento contemporâneo de Richard Feynman sobre o aluno no Brasil, do post “O malvado Mr. Feynman”.

julho 26, 2007

Desprezo pelo conhecimento

O problema do Brasil, no fundo, não é o esquerdismo, não é a corrupção, não é a violência, não é nem mesmo o “poder secreto”. É o desprezo atávico pelo conhecimento, ao lado de um amor idolátrico aos seus símbolos exteriores: diplomas, medalhas, honrarias acadêmicas, títulos honoríficos”.

De Remexidos pelo vira-bosta, de Olavo de Carvalho. Diário do Comércio, 18 de junho de 2007. Resposta a artigo de Armindo Abreu sob o título "O vira-bosta da Virgínia".


julho 16, 2007

Paralelismos da eloqüência

Certamente, toda causa produz um efeito. Mas , em moral, é igualmente bem certo que uma repetição de efeitos tende, por sua vez, a tornar-se causa. Aí é que reside o princípio do que chamamos vagamente hábito”.
- Edgar Alan Poe
A estratégia silenciosa, o cozimento em banho-maria, que é inquietante. O nazismo disse Ein Volk, ein Reich, ein Führer (um Povo, um Império, um Líder). Simples e fácil de decorar. O Diário Granma de Cuba estampou na comemoração do 50º aniversário da Revolução Cubana, "Cuba muestra la unidad indisolubre entre Pueblo, Partido y las Fuerzas Armadas Revolucionarias" – POVO, PARTIDO e FORÇAS ARMADAS, justapostas, e como um só.
A identificação do Nacional Socialismo (“NaZi”) a uma integração popular (Volksgemeinschaft) em torno do IIIº Reich, transfiguração em uma Nação-Estado, anula o indivíduo e comemora propriedades que surgem somente numa “ordem” maior, no caso, no Reich.
Sintomas das febres fascistas e dos seus fürer intrujões – ou que, pelo menos, seguem a lógica da eloqüência e do chavão – têm semelhança com aquela transfiguração esquizóide de Vacas em Cadeiras, que permanece sempre em processo, sempre em renovação, e dá até para achar que se vê estas coisas por aí, que é coisa tão obviamente impossível de existir hoje, segundo se crê, quase tão irreal quanto é imediato recorrer à paz para indicar o caminho de uma solução para os dramas do mundo.
SINTOMAS (observações de Campo):

  • Apoio popular inconsciente – que aumenta na proporção direta em que se tem detratada a imagem do populista.

  • Festa para aplacar o que não parece lá muito bem.

  • Otimismo “racial” - ou, “de classe”, que é quase a mesma coisa.

  • Propaganda ostensiva – já sendo aceita mesmo como argumento.

  • Mitomaia – mentira sistemática (relatividade como estratégia retórica).

  • Populismo.

  • Baixo nível de instrução, baixo nível de consciência moral, manutenção destes baixos níveis.

  • Respeito cego à mecânica “do social” (nacionalismo, populismo, etc., inversão entre causa e efeito).

  • Superfluidade da lei, a lei a favor do Estado, de um controle central – isto é, a legitimação do hábito como fiel do valor social com o aval do Estado (juros, aceitação da imputação de racismo, valores obscuros encontrados nas minorias, etc.).

  • Subserviência das instituições como o judiciário, que se prostitui ao Estado – e nesse sentido, as instituições se dizem autônomas, mas sempre legitimam o Estado nas suas intenções, não fiscalizam, não punem, e tudo isto por artifício de que são autônomas, mas, ora, se são autônomas, como se a autonomia fosse o mesmo que isolamento, e não poder influir nas decisões dos demais poderes que se dizem independentes, quando avançam licenciosos.

  • Aumento das restrições para com as liberdades individuais.

  • Corrupção endêmica e epidêmica.

  • Negação maníaca em relação ao que acontece no seu Staff.

  • Indiferença em relação ao próprio povo – ou consentida ou justificada.

  • Princípios obscuros influentes por trás das práticas políticas oficiais.

  • Insensibilidade com relação a crimes contra a vida – relativização do crime, sendo o único e verdadeiro crime cometido contra o Estado (v.g., signo do Estado-Povo, o Fürer cego orwelliano).

  • Auto-identificação com um ideal de humanidade superior – de algum modo superior, propaganda sobre isto.

  • Viés místico, como parece que Hitler cria, como quando se contam histórias da busca de Agartha, o mundo subterrâneo, de aberturas nos pólos, e o quiprocó. Por hoje, são quejandos feitos a “paz” e a “esperança”.

  • Contradições visíveis – que não sei se são novas –, como inversões lógicas, como as que apregoam um país feito de gente miscigenada que celebra esta diversidade ao mesmo tempo em que quer encontrar o seu melhor nas minorias raciais e em leis seletivas discriminatórias dos demais (a maioria).

  • Quando as críticas são públicas, eles as perdoam em nós – quando são privadas, ficam por trás do sorriso, do otimismo, e do – indefectível – continuar sempre e sempre discursando.
Este tipo de sistema populista já foi comparado a um “povo” de dez mil longos tentáculos, nunca antes tão longos, cabeça de Mussoline de outro temperamento, viscoso e infecto. Assusta não pela jactância arrogante, pela ameaça iminente, mas pela silhueta monstruosa, gigantesca; não pela força dos golpes, mas pelo longo abraço e pouca e contínua força que esmaga sem mesmo se dê conta de que se está a ponto de perder a consciência.

julho 10, 2007

Buracos de vermes nos miolos

Desarranjo visceral podem ser vermes. Mas se os indícios são entendidos fracos nesse sentido, fica o rumorejar premonitório, o augúrio desse desarranjo. Premonição retrospectiva, que vê, pelo efeito, insinuarem-se as causas. Nesse sentido, a casa ter desmoronado é evidência – ainda que, é bem verdade, nem por todos reconhecida – de furos na estrutura.

No blog do Noblat d'O Globo On-Line, em “Premonição”, a ilustração de um Renan Calheiros parasitando a cadeira do Senado, é o que se pode chamar de um retrato a Dorin Gray.

É infestação, e não mandato.

O Senado e a Câmara dos Deputados sofre de infestação de um tipo de verme; ele causa alucinações esquizofrênicas que já não deixa ver o buraco da corrupção que rói a instituição secular e torna decadente as colunas da nação. Tudo é recoberto, esquizofrenicamente, com o verniz de formalismos vazios, de brilho de integridade, de coisa nova, mas cheira a mofo. “A verdade aparecerá e mostrará que a razão está comigo...”; com letras grandes, “O dossiê ignorado” ignora as provas, enquanto declara que “não pairará dúvida” depois dele; pergunta-se o Sr. K., “Do que é que me acusam? De ter um filho fora do casamento?” como se seu maior pecado fosse ser o dono de um rebanho como quem se jacta do maior falo, e das vacas que cobre, como um Júlio César triunfante, que manda no Senado por virtudes superiores que tais.

Renan é um elemento mágico, é um ente sobrenatural, fantasmagoria, alucinação das paredes do Senado, assombrado pelo horror que elas testemunham.

O lugar não é bem habitado; maldito, é assombrado por agouros pestilentos de horrores sem-nome, que jornal nenhum relata.

Há quem diga que a assombração é simples doença mental; então este é um país de loucos, com o seu chefe louco e o séquito de insanos que o segue.

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A popularidade do presidente Lula, seu “desempenho pessoal”, cresce e já conta com o apoio de 64% da população entrevistada:

A estabilidade da economia e os programas sociais do governo continuam sustentando a popularidade do presidente Lula em altos patamares. A avaliação do governo Lula é a segunda maior desde a crise do mensalão em 2005.

Pela pesquisa, Lula é isento dos problemas políticos, tem carisma pessoal maior do que seu próprio governo e conta com a estabilidade da economia”, disse Ricardo Guedes, responsável pela pesquisa do Instituto Sensus”.


É tudo meio atravessado mesmo. A rejeição à lista fechada vem ao encontro daquilo que o artigo d'O Globo chama de “carisma pessoal”. O brasileiro vota na imagem, vota no candidato, nunca no... presidente. O triunfo do presidente é ser um candidato vencedor – e que, quando chegue eleito, não se faça esta distinção, já não espanta. E o brasileiro respira aliviado e comemora depois da eleição:

A enquete também ouviu os entrevistados em relação à reforma política em discussão no Congresso. Dos 46,8 por cento que tomaram conhecimento do assunto, 74 por cento são contra o voto em lista pré-ordenada pelos partidos, como querem PT, PMDB e DEM (ex-PFL).

A cadeira do Senado é o corpo daquele Brasil formal do Machado de Assis, caricato e burlesco, que não tem como trabalhar pela boa “natureza” do povo brasileiro, que deverá vê-la perdida progressivamente, carcomida por uma já vasta infestação de vermes esquizóides.

Quanto mais as coisas vem à tona, menor é a vontade de acreditar na realidade, e maior é a necessidade de sobreviver no mundo kafkiano de Renan.

O povo brasileiro reconhece alguma coisa nesse inconsciente coletivo esquizofrênico, que é como a exsudação do feromônio pela pele lúbrica da massa, que reconhece um rei sem arestas, um rei que é a imagem mesma da unidade do povo.

Como certas febres, que se alastram pelo contato e evoluem à demência, porque já não há como escapar às seqüelas.