maio 27, 2007

Ventríloquo de uma moral atravessada

Artigo publicado no Jornal da Ciência da SBPC, assinado por rgio Malbergier, jornalista e editor do caderno “Dinheiro” da Folha de São Paulo (15/05/07), onde o autor trata de uma Igreja que doutrina, um Estado que dá liberdades e de outros valores que julgam ambos. Para estes últimos, segue o comentário enviado a 17 de maio de 2007:

Resistir à religião

Pouco se discute no místico Brasil sobre as relações entre igreja e Estado, religião e liberdades civis. Talvez porque se discuta pouco no Brasil temas que fujam dos jogos da rodada e dos telenovelixos globais.

De olho mais na doutrina católica do que na vida de seus fiéis, o papa Bento 16 tomou pouco conhecimento das sensibilidades locais em sua primeira visita ao Brasil.

Ratzinger e seu segundo escalão bateram duro na relativa liberalidade moral do país -virtude que nos torna tolerantes com diferentes crenças e comportamentos.

E pouco disse sobre a devassidão moral de grupos que impõem a corrupção quase completa aos poderes públicos nacionais -alguns de seus representantes, inclusive, estavam na primeira fila de convidados.

O papa veio doutrinar o rebanho e pedir regalias para a igreja. Fez bem o presidente Lula, num de seus intervalos de extrema lucidez, ao se opor publicamente e com algum vigor à investida papal. Pouco se discute no místico Brasil sobre as relações entre igreja e Estado, religião e liberdades civis. Talvez porque se discuta pouco no Brasil temas que fujam dos jogos da rodada e dos telenovelixos globais.

É uma discussão muito presente nos EUA -onde a força da fé tornou-se força política- e nas áreas de alguma predominância islâmica -onde o extremismo muçulmano quer retroagir o Estado moderno a um mero serviçal de Deus.

Esse retorno da fé religiosa à esfera política, como mostram os exemplos acima, assusta e deve ser combatido.

As religiões devem ser exercidas com total liberdade. Mas sempre respeitando o direito de delas discordarmos. No Brasil, de instituições ainda em consolidação, a luta pela liberdade em relação ao credo religioso alheio deve ser apoiada.

Um de seus maiores combates é o aborto, e a coragem do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, é admirável. Outro, menos evidente, está sendo travado no Supremo Tribunal Federal, sobre a constitucionalidade da Lei de Biossegurança de 2005, que autoriza a pesquisa com células-tronco extraídas de embriões produzidos “in vitro”.

O subprocurador-geral da República Cláudio Fonteles, autor da ação de inconstitucionalidade, disse da geneticista Mayana Zatz, uma das cientistas mais respeitadas do país e defensora da legislação no STF: “A doutora Mayana Zatz, que é o principal elemento de quem pensa diferentemente da gente, tem também uma ótica religiosa, na medida em que ela é judia e não nega o fato”.

Zatz foi precisa na resposta: “Estou triste, porque isso contraria a tradição de tolerância e de respeito à diversidade religiosa que caracterizam este país. Posso garantir que minha defesa da pesquisa com células-tronco embrionárias está longe de ser motivada por razões religiosas. É por meus pacientes, para minorar o sofrimento”.

É essa tolerância que precisa ser defendida, com máximo vigor.”

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Notícias, Sábado, 26 de maio de 2007 no JC e-mail 3263, de 15 de Maio de 2007

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Enviado ao JC/SBPC em comentário ao artigo “Resistir à Religião”, de Sérgio Malbergier

no JC e-mail 3263, de 15 de Maio de 2007:

Resistir ao Bem (por Soberba)

Por que não tomar “entendimento” no lugar de “tolerância”? Não negar-se ao conhecimento, ao bem do conhecimento, que é um ato de soberba com ou sem religiões. E uma vez que tolerar já tem um valor implícito que não se sabe onde está e, portanto, se desconhece seus princípios éticos e quem os guarda, que não os mostra de jeito nenhum.

Se defender “com máximo rigor” a tolerância representar tolerância à falta de discernimento entre o certo e o errado, recue-se um passo por precaução. Se isto for proposto como algum modo de doutrinação que faz às vezes de substituta da dialética moral ao modo de nonsense-comum cheio de cacoetes de linguagem pós-modernistas – estes sim, verdadeiramente os aspectos místicos deste infeliz país do futuro, que lá nunca chega porque lá já está –, assume-se todos os riscos de se divinizar a “tolerância” como apanágio de um admirável mundo novo como o mostrou Aldous Huxley. Que seja vista como grande virtude nossa, não pode ser confundido com a relativização de valores que levam, entre outras coisas bizarras, a que se tente, como fez uma jornalista aqui do sul recentemente, mudar, como lhe parecia melhor, “aliciar” por “cooptar”, querendo por este jogo de espelhos iludir o espectador contra os gritos da vítima que se declarou aliciada; que levou um apresentador de programa esportivo, também recentemente, a dizer que associa, sim, a notícia ao que vende, mesmo que processe colegas por lhe acusarem disto, e vê-se juízes aceitando a imputação por difamação; litigantes de má-fé de recursos intermináveis logrando êxito permanentemente; assinaturas à margem de somas de peculato que o autor nega quase no ato; que faz duvidar-se já mesmo do flagrante, por incertezas jurídicas que apontam o direito à privacidade; corrupção que o político diz que não viu nem ouviu ocorrendo oculto dentro das suas próprias gavetas, que pensava ser um rato e o deixou em paz; os direitos humanos do bandido contra um estado de coisas opressor, fazendo da sociedade de bem (sim, existe isso), por uma volta lógica curiosa, ré de toda desordem; desordem contra as minorias decentes, porque são só virtude, e a sociedade impessoal, que não é ninguém, é todo o mal; some-se a tudo isto – quantitativamente, já que a vida humana não vale nada mesmo quando não se sabe a diferença entre o certo e o errado –, os 50 mil brasileiros que morrem assassinados anualmente (número, aliás, por algumas evidências, subestimado), para se ter uma idéia do caos, que só promete ser contido quando a sociedade se transformar num sistema normatizado e legalista feito de lugares-comuns em vez de consciência e discernimento moral. Que, não é que não existe, mas não é dado por ninguém, senão conquistado com alguma coragem, honestidade e amor pelo conhecimento.

Todas estas coisas são fruto de virulenta chicana, que já é o modo mesmo como a população passa, aos poucos, a pensar por padrões mentais, enquanto a imprensa a reproduzí-las com a força de uma praga de dimensões epidêmicas.

Não ajuda nada que os “formadores de opinião” usem a propaganda do que vendem como opinião, também as próprias idéias, ausente o devido contraponto – que é uma reflexão que não se permitem habitualmente, e por quais motivos esteja ausente, quaisquer que sejam, é já fruto da mesma loucura.

Por tudo isto, a defesa à tolerância precisa de um recuo honesto, e por qualquer coisa maior que apenas conforto nosso, fazê-la mostrar-se contrafeita pela fé nos valores que se busca reconhecer ao longo da vida, que não são dados por nenhum manual de ética aplicada publicado pelo Estado laico, pois estão somente na transcendência, que é do que trata toda religião verdadeira. Contra e além de liberdades morais que não são outra coisa que a marca de homens ocos. E, neste sentido, a liberdade não passa de uma resistência errante e ressentida de todo o Bem, e, por isto, sobrevêm em desespero.


maio 21, 2007

Branca de Neves e os sete anões do orçamento

(Continuação de “Formadores de opinião vendida”)

Chamado pelo Correio Brasileinse de “Berlusconi paranaense”, Petraglia, o ex-presidente “dono” do Atlético Paranaense, é um dos protagonistas do caso escabroso, juntamente com o Alberto Dualib do Corinthians, da compra de resultados junto ao chefe dos árbitros na ocasião, Ivens Mendes. Como era de se esperar, não houve punição, só um bobo “Ah, isso não pode...”, como relata o site Consultor Jurídico no artigo “Um-Zero-Zero” – código relacionado ao valor da propina.

Nenhuma conseqüência se teve disso, exceto, é claro, aquele estranho efeito, que já não é, de que se possa fazer coisa igual e mais do que rapidamente esquecer-se de tudo. Sempre lembro aos meus mais próximos conhecidos que Dualib apareceu, mais tarde, quando o Corinthians foi campeão postiço daquele torneio onde, curiosamente, o campeão da libertadores atual, o Palmeiras, não participou. Diante de coisa assim, deveria se esperar que a imprensa lembrasse o caso? Claro que não, que o que tinham na mão, na ora, era bem mais valioso.

Banidos num primeiro momento, houveram em seguida incólumes porque as gravações, por serem ilegais, não foram aceitas como prova. Este absurdo está entre aqueles relatados no artigoMedo da Justiça”, assinado por Alexandre M. F. Moreira. Os crimes são evidentes, mas não se pune os culpados porque se questiona até mesmo a evidência mais fundamental – às vezes, ameaça-se, o próprio flagrante, como aqui foi o caso.

Por outro lado, no caso mais recente do árbitro Edílson Pereira de Carvalho, onde apostadores de jogos ilegais foram lesados por estes mesmos jogos fraudados, os envolvidos foram enquadrado por estelionato dentro da chamada “torpeza bilateral”. Como se aplica a lei a vítimas/réus? Uns e outros, ora vítimas, ora criminosos, devem ser ambos punidos, e não se estabelece que Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, ao contrário, vão ambos para a jaula. As vítimas são clubes e jogadores, que são os verdadeiros lesados, mas apesar de não se citar o torcedor, este é, ao final de contas, o maior aviltado.

*

O conto de fadas toma forma nas instituições jurídicas para (talvez seja isto) aumentar o espectro da verdade. Logo, defende-se uma coisa assim como o sumo bem, que é o que a justiça tem como escopo, pois quanto mais ampla a verdade, quanto mais se a abre para todos, maiores as chances do judiciário fazer justiça – que o erro, por certo, se torna bem menos provável.

A estultice de uma coisa assim é só o que pode fundamentar a declaração que vem da boca de alguém que invoca o respeito mútuo entre os formadores de opinião, colocando-se como um deles, ao mesmo tempo que diz que torce para poder “ter o que falar”, que é orientar a notícia pela propaganda, que mostra claramente que o tipo de formação de opinião que ele deseja é aquela de quem vende um produto e quer que o maior número de pessoas seja adicto dele, ou seja, exatamente (e agora, declaradamente) do que o desregrado Kajurú o acusava.

Mas o mesmo nonsense jurídico denunciado por Alexandre M. F. Moreira é já um tipo de senso comum brasileiro, que tolera todas estas coisas já habitualmente.

Quem declara estas coisas é porque é um oportunista do politicamente correto canalha. Produz-se assim vasto pasto para chicaneiros que transitam nesse caos lógico e cultural e que podem dizer qualquer coisa para defender interesses torpes e o aviltamento da própria profissão em benefício do lucro pessoal. Essa relativização traz, como escreve Alexandre M. F. Moreira, bizarras situações, tais como: o réu invocar a própria torpeza para safar-se do que se motivou por ela; o proformismo do Processo atropelando o aspecto “penal”, feito aquele um fim em si mesmo; a inconstitucionalidade da prisão em flagrante por, talvez, alguma valor inalienável à privacidade; que pessoas conhecidas, de habitual exposição na mídia, reivindiquem “direito privado sobre a sua imagem pública”; jornalistas que inadvertidamente (talvez) “arredondam” a notícia porque admitem subliminarmente que fatos jornalísticos de natureza política tem uma ética especial, que é, de certo modo, voltar ao início aqui e derramar a torpeza sobre toda a sociedade para se atingir um grau mais ameno de normalidade ou, por reflexo, culpar a impessoal sociedade por seu mal intrínseco, o que resume de certa forma estas tantas coisinhas monstruosas. Além do ridículo de quem entende que quando uma pessoa declara que viu, ouviu e vivenciou o mau convívio com um colega de trabalho, deva ser esta punida, quando está já bem delimitado o âmbito e, por ele, a gravidade da sua declaração, não se podendo entender que caiba pena ao declarante por não apresentar provas das coisas que dá testemunho.

A confusão destas coisas leva a que se chegue nesse absurdo “nonsense comum” que assola o brasileiro disseminando um clima de incerteza, violência e corrupção, sem que se possa fazer muita coisa contra.

*

Mergulhado até o pescoço na própria parcela de corrupção, que ele cavila no próprio trabalho, serve-se da justiça para ocultar a cavilação, desde que esta delibera sobre formalismos que cada vez mais se afastam da realidade e mergulha profundamente em um mundo de fantasia torpe.

Senão, vejamos.

Segundo o site Consultor Jurídico (que assina A. M. F. Moreira), de uma série de artigos entre 2003 e 2005, tem-se, do difundido hábito de calar o julgamento moral individual através da justiça, que, segundo levantamento feito pelo site há pouco mais de 1 ano, “para um universo de 2.783 jornalistas de 5 grupos jornalísticos havia 3.342 ações judiciais por dano moral [convenhamos...]”.

O assédio jurídico se materializa como “queixa-crime” contumaz:

O estudo mostra que a imprensa foi engolfada pelo alto grau de litigiosidade que atinge todos os setores do país”.

A repetição das interpelações é questionada pelo advogado de defesa:

Fala-se da honra alheia como quem amaldiçoa o clima. Neste endereço residem os mais de cem processos contra Kajuru, que até hoje nunca teve a suspeita da venalidade levantada contra ele”.

O que o site destaca é que este

é o segmento de empresas e profissionais que usam o jornalismo para fazer negócios: suprimem ou dão notícias em troca de dinheiro, publicidade ou favores”. O Sindicato dos Jornalistas marca posição na questão, acreditando que “para recuperar o respeito da sociedade e do Judiciário a corporação deve reagir contra quem usa o jornalismo para atos de banditismo”.

*

Kajuru chamou Milton Neves, sem citá-lo nominalmente, de “rei do jabá” em entrevista ao programa A Casa é Sua, da Rede TV. O resultado foi uma condenação por difamação. Mas como pode alguém ser condenado por isto? Além de tudo, é possível provar o contrário.

Veja-se isto:

...Em sua defesa, Kajuru alegou que não quis ofender o apresentador. O jornalista afirmou, em depoimento, que considerar ofensiva a expressão jabá é uma questão de conceito e não significa necessariamente que quem faça isso esteja cometendo algum tipo de corrupção. Ele disse, ainda, que a afirmação foi feita em tom bem humorado e não de forma pejorativa”.

Esta última passagem é reveladora. A questão que deveria ter sido defendida por Kajuru é que “jabá” é, para ele, falta de ética, ainda que não crime. Isso poderia ter sido testemunha do por gente da área. Porém o argumento de que não foi pejorativo é ridículo. Mas o argumento da juíza é, de outro modo, igualmente esdrúxulo. Afirmou ela que:

[A]inda que a expressão ‘rei do jabá’ tenha sido emitida em tom bem humorado, tenho que a mesma era passível de ofensa à honra, notadamente em razão de sua interpretação duvidosa”.

Deus do céu! O que quer dizer isso? Será que ela não considera em nenhum momento a veracidade ou plausibilidade da acusação? A orientação da juíza mostra, nas entrelinhas, que o mérito está sendo julgado “sobre as palavras” e não sobre os fatos. Se o judiciário já está absorvendo a chicana como meio de azeitar a máquina judiciária, para bem de uma sociedade mais sã – já que de outro modo ter-se-ia que concluir que está todo mundo endoidecendo –, todos aqueles itens assinalados acima começam a ganhar, aos poucos, concretude na vida legal do brasileiro e trânsito livre no entendimento habitual das ruas.

Não estando em questão a venalidade de Kajurú, como sublinhou o advogado de defesa, a “honra” não poderia ter sido atingida, mesmo porque se, ausente a venalidade, quem sentir-se desonrado por um xingamento que desqualifica uma conduta deveria defender-se no mérito da conduta e não, tendo como defesa, o ataque a algo que só pode ser qualificado como difamação como forma de desacreditar, novamente, sem que se leve em conta o mérito. A juíza sequer considerou a possibilidade de que talvez a maledicência fosse uma descrição precisa dos fatos.

Segundo o site Conjur.Estadão (leia aqui),

Na decisão, Graciella ressaltou, ainda, que “ao afirmar que o querelante (Milton Neves) recebeu ‘jabá’, o querelado (Jorge Kajuru) denegriu a imagem daquele, tendo-o difamado, já que a ele imputou fato ofensivo à sua reputação, configurando o crime de difamação, já que pessoas que recebem a denominada ‘bonificação’, no meio artístico, são tidas como pessoas que não agem de acordo com a ética”.

E as pessoas que recebem, de fato, faltam com a ética, alguém deveria chamar a atenção da juíza Graciella. O que está se tornando habitual, é o absurdo de qualquer manifestação que demonstre desaprovação de conduta ou desaprovação moral e ética, tornar-se crime por puro formalismo processual.

*

No caso relatado por Milton Neves no programa É show, da Rede Record, de quando sua mãe lhe passou uma represália seguida de uma orientação moral, Kajuru quis encontrar aí razões para as suas acusações.

Na ocasião, ele contou que, ainda criança, encontrou uma carteira na rua, com notas de um e dois cruzeiros, e a levou para casa, para comprar figurinhas e sorvete. Quando soube, sua mãe mandou que ele levasse a carteira de volta ao local onde a encontrou” (no artigo de Tognolli & Pinheiro).

Aproveitando-se disso, Kajuru disse que “rato também morre pela boca”, se referindo à história, e o chamou de “'picareta, delinqüente juvenil'”. Fez uma grande imbróglio, mas parece que pelo menos em uma destas coisa Kajuru estava certo, depois do que disse Milton no dia 07/05/07 no programa Terceiro Tempo. Kajuru não escapou de ser condenado mais uma vez, tendo negado o argumento da defesa que consistiu, uma vez mais, em dizer que a declaração foi feita de maneira jocosa.

Acredito que Neves nunca mais pegou uma carteira e a levou para casa que encontrasse na rua, porém a lição de sua mãe talvez fosse outra, e a experiência deveria valer como princípio e não como exemplo particular. Senão poder-se-ia duvidar se em casos semelhantes, posteriores, ou em não sendo a mesma carteira pela qual a mãe repreendeu-o uma vez, ele não teria reincidir no “delito” entendendo que poderia fazer novamente o que a mãe condenara apenas particularmente.

O que parece é que Milton não pôde transportar essa experiência e essa lição que sua mãe lhe deu para casos gerais, para outras situações. Pegar a fé pública do torcedor e aliciá-la a produtos de consumo, é devolver a carteira e ficar com o dinheiro. Não, Milton, não era isso que sua mãe lhe queria ter ensinado.

Pegar o futebol e o desporto e tornar ele em propaganda é levar uma coisa que não é sua para casa e se apossar dela para usufruto.

Neves, ao que parece – pelo que diz –, não entendeu muito bem o que sua mãe lhe quis ensinar, que não o aplica no seu próprio trabalho. Além disso, talvez o mais grave, é ver que o juízes não vêm mostrando preparo para discernir o que é uma coisa e o que é outra; parece que podem passar em concursos rigorosos, mas estão mal aparelhados para julgar outras pessoas sendo que para isso é preciso um tipo de formação que dê ao juiz condições de julgar com conhecimento da sociedade em que ele vive. O caso não é apenas de saber, como aqui, a maneira como funciona o jornalismo esportivo, mas de conhecer as mazelas da sociedade que o Juduciário media.

O abuso da lei pode criar uma sociedade que, como mostrou A. M. F. Moreira, já não encontra os seus caminhos pela mais básica capacidade de discernir o certo do errado.


maio 20, 2007

Formadores de opinião vendida

O fascínio que as camisas dos clubes de futebol exercem sobre o torcedor cria uma mitologia moderna, digna de narrativas épicas já não possíveis em outras áreas. Feitos de guerra, por exemplo, somente são notáveis com a distância do horror dos milhares de civis mortos e abstraídos os dias que se passa sob esse horror. Não é incomum, no entanto, que estas imagens de poder sejam adotadas por governantes (oportunamente) que invocam a lembrança de heróis míticos como reflexo de valores pegos emprestados por quem os invoca. Mesmo o excelentíssimo chefe desta nação já o fez algumas vezes, quando se comparou a Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e ao próprio Cristo, que eu me lembre.

Outro uso que já não é incomum é, por certo viés da canalha nacional, a utilização da boa fé do torcedor por seus símbolos habituais, e o uso destes para dar lastro a símbolos outros, por empréstimo, como modo de auferir qualquer simpatia do torcedor a estes outros. Produz-se assim, artificialmente, uma ligação entre heráldica e marketing. Outro viés é dar valor não pelos feitos dentro do campo de batalha – ou, do campo de futebol –, mas por um trabalho de publicidade bem feito. Assim é que clubes brasileiros que nunca mostraram o valor de um campeão de título internacional são considerados, ainda assim, “grandes” e, por este indefectível imperativo, concluir-se que não podem perder, pois é da sua natureza habitar os mais altos píncaros da glória, que lhe é a essência mesma, quando não, eles próprios, a essência mesma do futebol. Foi aí que se criou o torpe futebol bem jogado só quando jogado pelo meu time. Chicanagem!

Mesclar notícia com propaganda, colocando-os no discurso em continuidade a ponto de não se saber quando terminou um e já começou o outro, é para perder a noção entre uma coisa e outra mesmo – mas o que, como se verá, tem lá a sua razão de ser.

Nossa fabulosa mídia televisiva, que tanto se inspira na fantasia para criar mitos, especialmente ilhas de embotamento, mostrou neste último dia 7/05/07, no programa Terceiro tempo, por ocasião da vitória gremista sobre o São Paulo em confronto pela taça Libertadores da Amétrica, o apresentador Milton Neves, que declarou “Torci para o São Paulo, Sim...”. Diz ele que pensou é em “ter assunto” para falar, que, para ele, é o que interessa. Isso não quer lá dizer muita coisa longe do contexto da chicanagem a que os jornalistas esportivos se dedicam mutuamente.

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Se os times daqui vão bem, tem assunto para falar e todo mundo ganha – e que se dane o jogo limpo. Fica bem mais fácil de entender por que o presidente do Corinthians, Alberto Dualibe, e o sr. Mário Celso Petraglia, do Atlético Paranaense, nunca foram punidos por terem sido pegos tentando acertar resultados com o chefe dos juízes. Curiosamente, o sr. Jorge Kajuru, que critica Milton Neves por ele vincular o jornalismo esportivo ao marketing e o reputa sardonicamente o “rei do jabá”, em referência à caixinha que ele fez dos seus programas na TV, é alvo freqüente de processos e, amiúde, réu condenado.

Com poderia ser diferente, se no congresso nacional, em escândalo recente, os caçados foram o arrogante e o alcagüete, os demais só foram condenados por um cálculo difícil que deve envolver uma menos-valia nos negócios que a eles lhes interessam.

Aí vejamos o que se passa mais de perto. - Segue esta declaração:

Eu não sou desprezível. Ele não é desprezível. Ninguém é desprezível. Precisamos nos respeitar porque somos formadores de opinião. Eu somente entro na Justiça em último caso”.

Bem curioso que ele se identifique com um formador de opinião, mas não ache estranho declarar que torce, de início, para um time, não por afinidade clubística, mas por negócio (!). Que torcida dele é propaganda! Que outra conclusão se pode tirar? E que, por efeito, tem o seu programa a função de uma máquina de propaganda dos clubes que lhe dão retorno financeiro (ou leia aqui no original).

Vejamos, então, como ele se encaixa nesse negócio de “formador de opinião”. Uma vez que ele se manifesta de modo a deixar claro que é “garoto propaganda”, mais que comentarista esportivo, é dizer, sem ter como concluir outra coisa, que ele forma opinião para quem paga mais. Ora, como pode ele pedir respeito mútuo justamente para aquele que o acusa de não ter opinião, ou tê-la, com o devido lastro em ouro?

Em vez de afirmar valores éticos – pois não é outra coisa que ele pede quando invoca o respeito mútuo entre “formadores de opinião” –, no exercício de sua profissão, o que faz é se transformar em um formador de opinião paga! Ele monstra que se puder formará a opinião dos espectadores de modo que eles vejam os times de São Paulo e do Rio com os melhores ou que, pelo menos, eles devam ser os melhores ou que haja injustiça quando eles não o são. Por aqui no sul, o locutor Pedro Ernesto declarou coisa parecida, quando admitiu que torcia para o time que representava a manutenção do trabalho dele, portanto, e não poderia haver, por isto, empatia por um ou outro time.

É também, para quem pede paz nos estádios, uma reflexão defeituosa, quando massas de torcedores, que vêem repetidamente seus clubes serem declarados os maiores e mais dignos das vitórias, por algum tipo de emulação dos céus, e quando não vencem, sentirem-se no direito de apontar uma arma na cara de alguns jogadores.

É evidente que é um caso em que a ética foi jogada no lixo ou, reciclada por uma ética postiça, que declara que o bom futebol é jogado pelos times que o escudo rende os melhores dividendos. É uma espécie de dinheirismo e clubismo que avilta o esporte e deseduca a população. A lógica é invertida: primeiro meu clube, a vitória dele, depois o meu gosto pelo futebol e pelo esporte, que tem lá, no entanto, as suas regras e a sua ética, que não podem ser quebradas sob o risco de se passar a admitir que o melhor futebol é quando o meu time vence.

(Continua em “Branca de Neves e os sete anões do orçamento”)


maio 15, 2007

Um par para a parábola d'O que é o que é

(Relativo ao apólogo de Mário Ferreira dos Santos, do post passado, do dia 11)


[S]e os homens pecam por necessidade de sua natureza, são desculpáveis; não explica, entretanto, o que se inferiria de tal feito. É acaso que Deus se verá impedido de zangar-se com eles? Ou é melhor que mereceram a beatitude que consiste no conhecimento e amor de Deus? Se quer dizer o primeiro, concordo plenamente em que Deus não se zanga e em que tudo acontece por seu mandato. Mas nego que, por esta razão, todos os homens deveriam ser felizes. Sem dúvida os homens podem ser desculpáveis e, contudo, carecer de felicidade e ser atormentados de muitos modos. Um cavalo é desculpável por ser cavalo e não homem; entretanto, por necessidade tem que ser cavalo e não homem. Quem [enlouqueça] raivoso pela mordida de um cão é desculpável; porém o certo é que [se morrerá] de asfixia. Do mesmo modo, quem não pode governar suas paixões, nem as conter por respeito à lei, embora acaso seja desculpável por razão de debilidade, é incapaz de gozar a conformidade de espírito e o conhecimento e amor de Deus; e está perdido inevitavelmente”.

Spinoza,

d'A filosofia perene (1944) de Aldous Huxley.

maio 11, 2007

O que é o que é: que tu tens na cabeça?


O que há neste pacote?

Vejamos as opções que me foram sugeridas, duas delas, pelo menos, literalmente; as demais ficaram subentendidas:
(a) pasta de coca;
(b) tijolo de erva;
(c) artigo de sex shop;
(d) artefato para construir uma bomba;
(e) um livro.
A curiosidade seguiu, com olhares oblíquos, o pacote que carregava enquanto cruzava o centro da cidade. Imagine que você só tem, como opção, a, b, c, e d e que não pode, por absurdo estranhamento ou incrível que pareça, ver senão estas quatro primeiras opções.
Se você chegou nesse nível – o que pode acontecer a uma comunidade inteira – e está portanto entre aquelas pessoas que não podem reconhecer a opção e como válida, o problema é meu, que é quem carregava o pacote. Se quiserem achar-me por estes dias, certamente estarei dando satisfações à Polícia Federal, se não sobre as opções ilícitas acima, talvez por “incitar pensamentos libidinosos na poupulação”, que por não poder ver nada além do que reconhece intimamente, seja obrigada a admitir o que suspeita.
Minha aparência não ajuda lá muito, é bem verdade, mas até então o único constrangimento real limitava-se a evitar usar gorro preto, no inverno, próximo de bancos e carros-forte.
Mas, sendo assim, fica-se na situação do sujeito que teve que explicar-se a uma conhecida sobre o seu convite para ir à feira do livro e se viu constrangido a ter que trocar, figurativamente, das prateleiras da feira legumes e verduras por livros. É como se fosse, diz você, mas há livros no lugar de verduras e legumes. Isto não o poupou de ouviu ainda um “Mas o que ir fazer lá mesmo”? Feito o esforço, desfazia assim, com duvidosa eficiência, a desconfiança de que aquilo fora, por meio oblíquo, qualquer assédio.
Pois ora, como se pode cobrar qualquer coisa melhor de um povo ou comunidade que, como por esta amostra, vê um mundo empacotado por preconceitos de leis vegetais e lugares-comuns, sendo aí só por onde ela se move?
*
Não poderia deixar de notar – mais uma vez nesta página – o que concorre em sincronia. No encontro com a juventude hoje em São Paulo, no estádio municipal do Pacaembu, o Papa Bento XVI, lá em certo momento de seu discurso, cita, à guisa de guia espiritual aos jovens, a passagem de Mateus 1916-22, aquela passagem conhecida pela parábola em que Jeus diz que mais fácil é um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino do céu. Antes disso, no entanto, a passagem diz o seguinte (pergunta um jovem rico):
16Bom Mestre, que obras boas devo eu fazer,
para alcançar a vida eterna?”
17Jesus lhe respondeu:
Por que me perguntas tu o que é bom?
Bom só Deus o é.”
Bento XVI dá atenção, nessa passagem, e ao que se segue a ela, tomando como que saído da boca de Jesus – interpretando –, o sentido da aspiração honesta do jovem que vem até o Mestre, pois assim o reconhece, em busca de sentido, como resposta ao que fazer da vida para vivê-la na plenitude. O Santo Padre transmuta a pergunta por Que devo fazer para que minha vida tenha sentido, para vivê-la inteira e plenamente?, aproximando o anseio do jovem de hoje da parábola. Em seguida, completa: Por que me dizes bom?, pergunta ele, parafraseando a passagem de Mateus 1617. Só Deus é bom, diz Jesus; o Papa diz, em resposa ao anseio do jovem: é Acolher Deus para ser bom.
Nesse ponto o discurso se fecha e emenda, diz ele: O jovem tinha uma experiência da bondade, e pôde ver o bem em Jesus. Ao buscar a Deus, buscava o seu bem; ao realizar o seu bem, conhecia-o por Deus (que como e onde é mistério). O jovem que se chega a Jesus seguia os princípios, tinha ele uma experiência da virtude, da busca pelo bem, e só Deus é o bem, é dizer – nas palavras do Papa – Acolher Deus para ser bom.
Platão teria escrito, onde já não me recordo: Quem diz que conhece o bem e não pratica o bem, não conhece o bem. Não há como conhecer sem uma aproximação íntima com o que se quer conhecer, sem desejar conhecer e sem aplicar-se na experiência e na buscar por conhecer. É o processo cognitivo que é central aqui, perante o que se busca. A frase carrega a forma do processo congnitivo, que retém o bem como um alvo na consciência, que, uma vez lá, se o persegue; e já não se pode agir, quando ele é um conhecimento positivo, senão por ele, uma vez que se o reconheceu como verdadeiro. Se atendes ao mandamento “Não matarás”, é porque não haverá, desde então, em ti nada menos que repulsa por matar. A repulsa é o sentimento visceral de ter compreendido o bem do mandamento.
Porque o jovem era bom, viu a bondade no Mestre e a buscava ao seu bem – enquanto aos pobres diabos é reservada a desconfiança que eles supõem por falta de opção.
*
Agora vou revelar o que havia no pacote. Era, por incrível que pareça, só um livro; e no livro, logo no início, esse apólogo que seu autor, o filósofo Mário Ferreira dos Santos, acrescentou-lhe para meditar:
“Certa vez, um jovem, ansioso de conhecimentos, procurou um sábio que vivia isolado dos homens.
Senhor, — disse o jovem — vim à vossa procura, porque só vós sereis capaz de resolver o problema que me aflige. O sábio olhou o jovem com simpatia, e disse-lhe:
Fala que eu te ouvirei.
Senhor, por mais que procure Deus, eu não o encontro. Estive nos templos que os homens construíram, atravessei países, conheci diversas crenças, interroguei o céu, as estrelas, as nuvens, essas mensageiras meigas e suaves, o vento que embala as folhas das árvores, e não o encontrei. Creio que só vós sois capaz de responder à minha pergunta...
Meu filho, não crês que Deus seja o Bem?
Naturalmente, senhor.
Admitirias que fosse ele mau?
Como admitir tal coisa?
Não é ele o Bem supremo de tudo?
Assim o creio; mas onde está?
O sábio fez um gesto para detê-lo, e continuou:
Vês aquela planta que se desenvolve sob aquele carvalho? Não estende ela as suas raízes no chão em busca da água e do alimento? E não é a água e o alimento da terra o seu bem?
É, senhor.
E quando ela estira os ramos em busca do sol, do ar, não procura ela o seu bem?
Procura, senhor.
E aquele pássaro que canta naquele carvalho... Olha, ele desce. Vem até o chão. Vês como bica, aqui e ali... Que busca ele? O seu mal?
Não, senhor, o seu bem.
E não busca tudo o seu bem?
Busca, senhor.
E tu, quando me vieste procurar, buscavas o Mal?
Não, senhor, eu procurava o Bem.
E saber onde está Deus, seria para ti um mal, ou um bem?
Um bem, senhor.
Então, ao achares Deus, acharias um bem, que é o teu bem, não é verdade?
Pois não é Deus um bem? E ao achá-lo não conhecerias um bem, por tua vez?
É verdade, senhor.
E achas que o teu bem seria um mal para Deus?
Não, senhor, pois ele, que ordenou o mundo, deu-me o anseio do bem.
O sábio sorriu satisfeito, e disse-lhe pausada e paternalmente:
Pois, meu filho, respondeste admiravelmente. Deus, que é o Bem, ordenou o universo. E é da lei do universo que todas as coisas busquem o seu bem. Mas o homem é livre, e pode procurar o próprio mal. Tu não queres o teu mal...
Nunca, senhor.
... queres o teu bem. E ao querê-lo, cumpres a lei de Deus, e ao buscá-lo, buscas Deus, porque Deus é o bem. Fez uma pausa, e prosseguiu:
Meu filho, olha para dentro de ti. Realiza o teu Bem. Ele não necessita do mal de teu semelhante. Ama o teu bem, respeita-o, como deves respeitar e amar o de teu semelhante. E à proporção que realizes em ti, e à tua volta, o Bem, Deus há-de aparecer cada vez mais nítido para ti, pois Deus é o bem, o supremo bem que todas as coisas anseiam.”
*
Porque o jovem era bom, viu a bondade no Mestre e a buscava ao seu bem – enquanto aos pobres diabos é reservada a desconfiança que eles supõem por falta de opção.
Responde por ti mesmo agora: O que há no pacote?
*
Por que razão as desconfianças da rua, o texto do livro e a pregação do Papa coincidiram com sincronia hoje talvez só o explique uma experiência direta de que Deus ordena o mundo e no-los faz ver quando seguimos o nosso anseio pelo bem, para como está no apólogo, “à proporção que realizes em ti, e à tua volta, o Bem, Deus há-de aparecer cada vez mais nítido para ti, pois Deus é o bem, o supremo bem que todas as coisas anseiam.

maio 07, 2007

A biblioteca esvaziada


Biblioteca nacional, Rio de Janeiro.

A rigor não deve haver livros que estupefazem, mas leitores com maus hábitos de leitura. Posto isto, pode-se perguntar qual o papel das bibliotecas em educar o leitor. Como se monta uma biblioteca do nada? Quem a idealiza? Quem pensa uma biblioteca ou quem deve pensar uma biblioteca, e quais as aptidões ou formação para se montar uma biblioteca? Quais os livros iniciais, por onde se começa? Pode uma comunidade partir do que sabe ou do que reconhece e do que lê habitualmente (quando lê) para montar uma biblioteca?

Em visita recente a uma biblioteca, observei algumas coisas preocupantes; hei-las:

1 – Atendentes e uma bibliotecária, mas nenhum cadastro de livros, nem autores, nem títulos.

2 – Uma maioria de livros atuais, de apelo popular e de vida curta, sendo que os espaços destinados às bibliotecas públicas é limitado.

3 – Mesas pequenas, cadeiras pequenas, mostram que o uso habitual está restrito a turmas de pequeninos, que freqüentam na maioria as primeiras séries do ensino fundamental.

4 – Insípido (se existe algum) conhecimento dos clássicos (e do papel deles numa biblioteca); há mesmo dúvida que uma coisa possa ser melhor que outra, que pessoas possam ser melhores que outras, que existam livros bons e livros ruins.

5 – Investimentos por encomenda – que os freqüentadores pedem.

Por um inviabiliza-se qualquer tentativa de leitura comparativa e por temas (leitura “sintópica”). O discernimento parece mesmo algo longe de ser reconhecido como desejável. Quatro e cinco são conseqüências disto. Por dois se nota que a biblioteca não difere, para quem a idealiza, em nada das bibliotecas escolares, quando as há. Não há idéia de que tal espaço possa e deva ser dirigido ao cidadão para formá-lo, e para isto, ocupe-o pessoa hábil na leitura, na organização e hierarquia de uma biblioteca, bem como – que não se pode esquecer – nos grandes autores e, se possível, grandes idéias. Como há cursos tantos por aí, uma biblioteca pública deveria poder ministrar cursos de leitura para a massa adulta.

Quanto bem poderia fazer como centro cultural, mas o que se vê é que elas se atrofiam aos poucos, salvo talvez nas capitais e nas cidades que têm heranças culturais fortes. De qualquer forma, mesmo nestas, esse papel não parece que é tão claro ou que não seja cada vez mais obscuro.

Biblioteca é coisa de criança por aqui, ou fizeram dela uma ambiente externo das escolas primárias. O terceiro item aqui pede que perguntemos O que ocorre com os adultos? Já devem ter se resolvido, já são donos da suas vidas; já não precisam de livros? Afinal de contas, não cultivar nada é também um tipo de cultura. Que tipo de crescimento superior alcançaram os adultos para que estejam fora das bibliotecas? E o quanto isso contribui para que os adultos de uma comunidade não sejam capazes de reconhecer nas leis a ordem comum dela própria, porque não sabem lê-las, ou quanto isso significa à inaptidão cognitiva para temas como meio-ambiente, ética, ciência e para as questões gerais da vida?

Mas mais curioso é que ainda se estimule a leitura, como se fosse um bem superior – e não se discute isto. Toda boa sorte está em aprender a ler. Nem nos lembramos mais por que uma biblioteca existe, é puro hábito mental, repetido desde a novela, passando pelo noticioso na TV, e papagaiado pelas professoras; a dizer, com saber superior, “leia mais”, “ler é um exercício” e outras coisas assim. Como se tivéssemos que equivaler a leitura de um clássico a uma quantidade comutável de abdominais. De tanto repetir-se estas coisas, ninguém as discute, mas também, já não paira dúvida, pouco sabem do que se trata. Isso se deve a um senso-comum fabricado pela inépcia. Aos poucos, vai-se perdendo qualquer sentido prático das bibliotecas, que vão paulatinamente se tornando coisas abstratas incompreensíveis, até que algum vereador irá propor um outro uso para os espaços das bibliotecas públicas, transferindo às escolas municipais os seus exemplares.

Em quatro vê-se que o conhecimento de hierarquia é coisa pra lá de estranha por aqui. Há preconceito mesmo em se dizer que há diferença entre uma coisa e outra, por qualquer critério, e, por ele, distinto mérito, que é como que um viés do politicamente correto, uma etiqueta perversa. O estulto político e o professor emérito são iguais – nenhum é melhor que o outro, cada um na sua área. Tempo de exposição torna qualquer um superior.

Há o entendimento que o caminho da leitura começa por qualquer parte e é um caminho único, independente de onde se parta, o que, se não parece falso, é coisa contra a qual se deve ter alguma cautela. Apenas uma única coleção de pocket books trazia títulos universais. Mas o que adianta, se o extrato deles permanece um verniz que as edições brasileiras se esmeram e que já até comemoram, quando ouço um dos seus representantes (se não me engano, da L&PM) dizer, com orgulho, que um livreiro francês mostrou-se impressionado com a qualidade das nossa edições (!). Vindo de um povo que cultua a prática da leitura, isso soa mais uma provocação, mas não para o livreiro daqui.

O filósofo e educador Mortimer Adler, morto em 2001 aos 98 anos, dá, com certo rigor, que 99% dos livros escritos no ocidente “não exigirão o bastante de você para melhorar as suas habilidades” ou contribuirão com mais que informação, em vez de desejável discernimento. Segundo Adler, somente alguns milhares serão realmente superiores, e talvez não chegue a cem aqueles que merecem que se diga deles que “não pode ser exaurido nem pela melhor leitura de que somos capazes”. Sobre este educador, por ocasião de sua morte, escreveu o filósofo Olavo de Carvalho:

O falecimento de Mortimer J. Adler, aos 98 anos, há cerca de um mês, não foi registrado pela imprensa nacional. Duvido que não haja pelo menos uns poucos brasileiros que devam a esse filósofo e educador o melhor do que aprenderam nesta vida – mil vezes melhor do que poderiam ter aprendido em qualquer curso universitário ou na leitura diária de todas as publicações culturais impressas nesta parte do mundo. Mas, no geral, a cultura nacional está hoje nas mãos de pessoas que ignoram Mortimer J. Adler. Se não o ignorassem, não seriam o que são, nem a cultura nacional a miséria que é” (Época, 21 de julho de 2001 e aqui).

E por ser desconhecido, se esclarece parte da ausência de dúvida sobre a natureza e a função de uma biblioteca pública – como meio de alavancar o discernimento de uma comunidade e de representar o que ela repete como um papagaio, sem saber dizer porque ou dizer, com o entendimento da fé, as palavras que repete.

Por cinco já se elimina qualquer chance de educa o leitor e melhorar a população de leitores, de levá-lo de uma condição de saber menos para a condição de saber mais, como escreveu aquele educador, e oferecer a este leitor livros que exijam dele mais para recompensá-lo melhor. Assim, desde que os próprios decidem, com aquela liberdade que um condenado tem de botar a corda na árvore, no pescoço, e pular dela. As próprias doações atulham a biblioteca de caricata “auto-ajuda”, que não ajudam o leitor a ser um leitor melhor, que muito pouco distinguem-se entre si, o que deve dar prova de que o leitor não pode esperar encontrar ajuda nessa área totalmente sozinho.


maio 01, 2007

Novos mundos, outros mundos

Algumas notícias concorrem em sincronia:

Descobertas:
  • planeta nos arredores de uma estrela anã vermelha, em uma órbita habitável (JC/SBPC em 25/04/07);
  • encontrado mineral semelhante à kriptonita (Jadeíta) da ficção do Super-Homem (JC/SBPC em 25/04/07);
  • continente do Mesolítico desaparecido sob a água de degelo interglacial revela civilização de caçadores-coletores-pescadores (JC/SBPC em 25/04/07).

Não estranha que um fragmento de kriptonita na localidade de Jadar, na Sérvia, não seja o pedaço de outro mundo, desconhecido, mas qualquer coisa ainda desconhecida deste mesmo mundinho já lá sem maiores mistérios. Ou, pelo menos, com homens menos afeitos a crer neles. Que seja assim, nem o pedaço de um mundo desconhecido, explica a falta do mistério.
Escapou que o mundinho próximo à Gliese 581, há 20,5 anos-luz da Terra, pode comportar ou ter comportado uma potencial civilização extinta depois do colapso de sua estrela, que atualmente é uma anã-vermelha com 1/3 da massa do nosso Sol. Ora, se sabe que as estrelas de pequena massa tem vida média maior que as estrelas de massa maior, isso significa que, se por um lado a estrela teve muito tempo para o aparecimento e desaparecimento da vida, e até de civilizações imagináveis, as melhor condições –-- para os nossos padrões, pelo menos --– teriam passado a existir apenas nas últimas fases do ciclo de vida deste sistema solar promissor. Lembrar a propósito, que a estrela de Kal-El era uma estrela vermelha (gigante) que passa por uma crise, o que condena a civilização de Krypton.
A kriptonita jadeíta é quase a mesma descrita na ficção, basicamente constituída de sódio, boro, lítio e hidróxido, faltando-lhe apenas o fluor para coincidir em tudo com o mineral extraterrestre que lembra ao Super-Homem que santo de casa não faz milagre. O novo planeta, ainda sem nome, que guarda possibilidades de vida, ainda tem sua massa não muito bem calculada e a composição da atmosfera precisa ainda de dados sobre a luz emitida pelo planeta para determinar do que é feita [atualização de Out 2010]. Simbolicamente, o nosso sol amarelo devolve aos kriptonianos toda a força de lembra a grandeza de que sua civilização era dotada antes da crise solar, enquanto o próprio planeta tornara-se, como que se lembrando seus habitantes, signo do seu maior mal.
É inegável que esse sincronismo é irônico, pois nas atuais condições, confirmada a crise ambiental [que em 2010 já parece ser só política] e o fracasso da espécie humana em se tornar no que é capaz, parece que somente um herói extraterrestre para tirar-nos do nosso gigantesco sarcófago de carbono. Na falta do humanóide superpoderoso, vale encontrar um novo planeta, como aquele que se achou em torno de Gliese 581. Não tem graça, por outro lado, que a kriptonita lembre que outro planeta habitável seja quase igual ao de sua origem, e, de volta, acerte em cheio as nossas esperanças, sob essa lembrança, de que o fragmento de outro mundo seja ao mesmo tempo o do fim deste mesmo mundo.
Como se não bastasse, “outro mundo” é encontrado no fundo do Mar do Norte, na costa leste da Inglaterra, ilhas Shetlands e Escandinávia. O nível do mar teria subido em 4.000 anos e ocupado 23 mil quiômetros quadrados, quando a população humana já ocupava ostensivamente regiões que teriam começado a desaparer sob as águas. O “paleo-continente” submerso não tem sobreviventes, que se saiba, mas se existisse um, pleo menos, talvez ele tivesse algum poder de nos convencer, por comoção, que é coisa que se atribui aos heróis da arte dramática, da unidade da experiência humana na Terra, que é de onde deveriam sair valores de convívio, pela autoconsciência da prórpia experiência individual como reflexo de aspectos universais da experiência.
Por mais que se jogue com as palavras, parece que a promessa de heróis e novos mundos devolvem-nos sempre para o nosso lugar de origem. Há sincronicidade simbólica entre o signo de um mundo extinto, aqui e agora, o próprio mundo extinto, e a promessa de um novo mundo. A falsa kriptonita lembra que o mundo que não existe é muito próximo deste mesmo mundo que existe ou pode deixar de existir logo depois, que é o símbolo doloroso do mundo decadente, que não é real, mas é possível.
E aí está tudo que um mundo sem mistérios sugere, de um novo mundo extinto possível, a já ele próprio, submerso no Mar do Norte ou perdido por 20 anos-luz, distante.