janeiro 31, 2007

Direito sobre o equívoco alheio

(Outras Cicarellis na Rede.)

Que informar-se não é um processo unívoco, é evidente na experiência direta com qualquer forma de mídia. Não é necessário advertir, como se anda fazendo, que a Rede não é um lugar totalmente seguro para obter informação, como se isto já não valesse para a imprensa oficial. A abertura fácil a “sítios” alternativos de informação propagam o equívoco, isto é, aquilo que se diferencia do que é inequívoco ou do que é unívoco por um viés prórpio. Há uma algaravia de vozes na Rede que contém o falso e o verdadeiro multiforme, de tal modo que informar-se não é coisa lá muito fácil, e sequer é possível imaginar isto sem que se tenha aptidões para “pegar” o que se quer – sem, portanto, alguma idéia de formar-se a si mesmo, por si mesmo e por meio dos outros.

Informar-se sem formar-se é sujeitar-se à imposição do unívoco. Deste truísmo ululante seria desnecessário advertir, porém coisas fronteiriças acontecem na Rede indo contra essa regrinha evidente para navegar na informação encapelada.

O artigo “Cometa alcança brilho máximo no hemisfério sul” (Sexta, 19/01/2007: 16h16; atualz.: 17h15), que não pode ser lido “aqui” porque não pode ser redifundido (ver abaixo), que saiu na Terra Notícias, seção Ciência, sob os diretos da Agência France-Presse, faz ampla restrição (círculo vermelho) à “reprodução e representação”, da seguinte forma:

Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 2000 Agence France-Presse. Todas as informações reproduzidas nesta editoria (notícias, fotos, logotipos) são protegidas por direitos de propriedade intelectual detidos pela AFP. Por conseguinte, nenhuma destas informações pode ser reproduzida, modificada, armazenada, redifundida, traduzida, explorada comercialmente ou reutilizada sem o consentimento prévio por escrito da AFP”.

(Imaginei, como é óbvio, que a reprodução da Advertência não esteja sob as mesmas regras da notícia.)

Vamos repetir o essencial. A notícia não pode ser: “reproduzida”, “modificada”, “armazenada”, “redifundida”, “traduzida”, “reutilizada” ou – e precisa dizer, depois de tudo isto? – “explorada comercialmente”.

Se parte fundamental do jornalismo é a divulgação de informações, como justamente pode ser cerceada esse aspecto após a notícia sair a público? Do mesmo modo, como pode haver “propriedade” de uma informação que se leva a público? Qual o sentido ou o que quer dizer “propriedade intelectual da informação” pelo amor de Deus! As restrições elencadas? Não dá pra ver que tem um absurdo torpe e conspiratório nesse negócio?! Tudo que se pode fazer com essa informação, com todas estas restrições é esquecê-la no mesmo momento em que se terminou de lê-la. Isso não é informação, é uma pílula paralisante, o excipiente fixador de um taxidersmismo totalitário. A informação torna-se inócua. Para o que é que serve uma informação sob todas estas restrições?

Não estranharia se a Agence France-Presse, após analisar as suas restrições de uso à informação, não chegasse a concluir que uma vez que deram a notícia de um fato o mesmo não passasse, por efeito, à sua propriedade. Assim poderia até aproveitar e vender terrenos na superfície do cometa, desde que sob os mesmos termos de uso da notícia. Graças a Deus ainda temos o direito de intuir o mundo sem que se nos cobrem por isto. Que ninguém banque o oportunista nessa ora! O que por um lado já é feito, pois desde que a intuição caiu em desuso, podem nos vender de tudo, a começar pela perspectiva do mundo que as notícias querem que a gente saiba sem que ela seja questionada ou comparada ou equívoco semelhante, porque equívoco é coisa que não se comete se se respeitar as regras de uso impostas pelas agências de notícias.


[Nota]
O texto completo encontra-se aqui.


janeiro 25, 2007

Ensaios sobre a vertigem: o “Viaduto 13”


Silvícola testa se o ponto de fuga é uma projeção para o infinito metafísico ou se há algo que o interrompa, ao encontro de qualquer coisa mais dura.

O curioso de notar é que a vertigem impede que o hominídeo confie na sua intuição da vertigem e ainda assim sinta a necessidade de testá-la por meios empíricos. Algumas verdades devem ser necessariamente intuídas pela consciência, mesmo quando ela está perturbada pelas distâncias. O risco de um ato impensado pode fazer crer que certas aventuras “radicais” são válidas porque se nos parece, de algum modo, difícil crer nas suas conseqüências ontológicas mais óbvias – que certas passagens estreitas levam, pelo poder dessa metáfora fatal, a coisas que a ela se equivalem.

A propósito, alguém gritou nessa ora, “Há outro túnel além do fim do túnel!”. Depois da moderna engenharia de túneis e estradas, a alegoria da caverna de Platão parece que perdeu um pouco o seu poder filosófico ou força de fundamento de outra vida “fora” desta.

Outra coisa para observar é a curiosa sensação de que aquilo que nos parece mais sólido possa tão de repente compartilhar com a vertigem de uma outra vida uma insuspeitada natureza comum – ou, pelo menos, foi isso o que os incautos descreveram (sem tê-lo dito com todas as palavras) quando o trem passou com eles lá em cima, agarrados em moirões que oscilavam feito o fio de esperança que sobrou porque não tinha para onde correr.



O “ensaio” cético foi realizado no Viaduto 13, no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, na foto, entre os municípios de Doutor Ricardo e Dois Lajeados – direção SW-NE.


janeiro 24, 2007

Fenômenos meteoromórficos

Curiosa miscigenação esta da formação do halo solar de altas cirrustratus que ocorreu no dia 16 de janeiro, com a passagem do cometa McNaught, que alcançaria dois dias depois seu brilho máximo no hemisfério sul. A proximidade entre os dois fenômenos levou a outro fenômeno, o da síntese metamorfósica entre ambos. Pensou-se que o halo solar fosse produzido pela passagem do cometa, e houve quem falasse em sinais escatológicos. Invencionice à parte, dá para ver nisso algo como uma “causalística metonímica” (sic.), onde coisas diferentes viram “sinal” significativo um do outro: sendo o halo o consequente e o cometa o seu antecedente cósmico. Que isto ganhe força de “comunicação” e não de simples relação causal (que, de fato, não existe), é já aquela necessidade de no silêncio dos seres ainda assim buscar ouví-los. Houve já quem dissesse que as igrejas e os radiotelescópios buscam a mesma coisa no silêncio dos seres. Não é de hoje, a propósito, querer-se encontrar uma mensagem em luzeiros errantes, como foram os casos não raros de cometas agourentos ao longo da história. O poeta espanhol Antônio Machado escreveu certa vez, Quien habla solo espera hablar a Dios un día. É como se o céu cochichasse furtivamente significados a nós negados, e daí nossa atávica desconfiança do que nos vêm do céu. A própria meteorologia é já, na inerente fatalidade, o signo da fortuna, do destino que cabe a cada um. Daí não é de estranhar que o silêncio nos seja algo perturbador e prefiramos “ouvir” o diálogo rumorejante das coisas e nele qualquer sinal de uma revelação e por esse pensamento solto no ar, apanhar qualquer sonho de entendimento.

O caos no céu antes do homem é toda coisa indistinta, até o Logos ou Razão vir dar conta:

Antes do mar, da Terra, e céu que os cobre / Não tinhamais que um rsoto a Natureza: / Este era o Caos, massa indigesta, rude, / E consistente só num peso inerte / Das coisas não bem juntas as discordes, / Priscas sementes em montão jaziam; / [...].


Ar, e pélago, e Terra estavam mistos: / As águas eram pois inavegáveis, / Os ares negros, movediça a Terra / Forma nenhuma em nenhum corpo havia, / [...].


Um Deus, outra mais alta Natureza / À contínua discórdia enfim põe termo: / A Terra extrai dos Céus, o mar da Terra, / E ao ar fluido, e raro abstrai o espesso. / [...].


O universal Fator [Logos, Razão, Deus] também dissera: / Descei, ó vales, estendei-vos, campos, / Surgi, montanhas, enramai-vos, selva!”


Ovídio, Metamorfoses: Livro I, 5-437.


Foto: Mariana Correa/SEMMA v. Aires

janeiro 17, 2007

Quase ético

Passou-me despercebida a matéria “Quase lógico” da Revista Língua nº10/2006 (pp. 44-5) sobre o modo de falar do presidente Lula, assinada por José Luiz Fiorin, professor de Lingüística da USP. Ele explica as críticas ao discurso “quase lógico” do presidnete no artigo com o mesmo título, e sob o subtítulo “Definição imprecisa de recurso retórico alimenta preconceito contra o presidente Lula”. Entre outras coisas, o autor defende a “quase lógica” na perspectiva de uma estratégia comunicativa do tipo que nos utilizamos no cotidiano. Coisa como “X é corrupto; afinal, todos os políticos são corruptos” é considerada na categoria dos “raciocínios preferíveis... [da Retórica]”, que são “...aqueles cuja conclusão não advém imperiosamente das premissas colocadas”. Até aí tudo bem; não fosse, por outro lado, existir uma grande diferença entre usar raciocínios “preferíveis” e preferir não falar a verdade. Daí a colocar isto sob a perspectiva de que há preconceito contra o presidente pelo modo tosco com que se comunica e jogar a explicação para o lado de uma “definição imprecisa de recurso retórico” é, no contexto dos fatos recentes, coisa pra lá de licenciosa.

Texto enviado à seção “Cartas” da revista Língua Portuguesa dia 17/01/2007:

Raciocínios “preferíveis” são aqueles usados para quem compartilha algum entendimento sobre eles: nem muito simples, porque não se os aceitaria, nem muito complexos ou específicos que não se os alcançasse ou reconhecesse. É essa a crítica que recai sobre o presidente, que se deve acompanhar no contexto onde a imagem – e o marqueteiro sabe disso – é mais importante que os argumentos ou o domínio dos assuntos. Sim; é retórica a quase lógica do presidente, o que é explicável por um lado não é, no entanto, defensável para o debate público. Admitir a confusão do palavreado pitoresco de uma “razão prática” na boca do presidente da república é já querer que o presidente não tenha que fazer qualquer esforço para se comunicar com a sociedade, senão ao modo daquele outdoor que se espalhou pelo país onde uma criança tentava tocar o candidato. Discurso assim é ambiente de totalitarismos – do domínio retórico da imagem e onde se instala o “preferível” por decreto. É claro que a imagem do presidente se trata de uma estratégia retórica, nem por isto se deve aceitar um comportamento quase ético porque se o identifica a um discurso quase lógico que já se está propenso a aceitar de antemão dentro da validade de uma estratégia contumaz de termos preferíveis. Inúmeras vezes é preferível aos políticos tergiversar que falar a verdade, e isto não é uma expressão quase lógica, é o fundo do poço em época em que o Supremo permite que um inquirido não diga a verdade em depoimento a uma CPI. Não se pode admitir que convicções, crenças e preferências desarazoadas entrem no debate público de forma incólume; é, pelo contrártio, contra estes expedientes que o discurso público se faz. Salvo interesses outros que interferem com as melhores razões. Quando o presidente disse ao final do ano que já não estava pensando em 2006, mas nos anos que viriam, mostrou-se, como de costume, pródigo em expressões que se valem de fragmentos do tipo “pensar para frente”, “tomar todas as medidas”, fazer “mais”, ou fazer com que se “possa” atender isto ou aquilo, que de modo tão geral justifica a crítica ao caráter de sua estratégia comunicativa. O mesmo vale para as aparições públicas onde, nos casos de corrupção recentes, ele tentou transmitir otimismo e firmeza mesmo contra os fatos e sem nada se valer de modo que os tornasse objeto de uma defesa em termos preferíveis. Mas é ingênuo quem pensa que a retórica do presidente está nas palavras. É na imagem criada para o cadidato que o presidente dialoga com a sociedade – até, é claro, que a platéia desperte dessa maresia de palavras, enjoada e sem direção [Fim].

Vá lá que se atribua o uso de um “recurso” retórico ao presidente, que de fato o tem, mas que se justifique a ausência de conteúdo pela estratégia comunicativa é dizer, sem tirar nem pôr, que o discurso (imagético) do presidente se identifica ao “populismo” evidente na imagem eternizada do candidato, que o povo reconhece como a protelação da esperança pela esperança da protelação a um pouco mais, para que se possa, ainda então, continuar esperando, que é o que se pode ter da frialdade mecânica de um candidato eterno: esperança perene.


janeiro 13, 2007

Profecias especulativas sobre o óbvio

O Brasil antes e depois do cataclismo que inundará a orla onde vivem 70% da população, a qual terá que se evadir saltando os demais buracos, até o centro do país, para Minas Gerais, por exemplo, escapando por um triz das inundação de lama industrial, pular o pantanal, afinal de contas, que não é nenhum buraco mas também está alagado, e finalmente chegar à Cordilheira dos Andes, onde é óbvio que a água não nos alcançará. Os Aparados da Serra também estão no alto, mas por isso mesmo cheios de buracões, e devido a essa que é uma vocação nacional, seria muito arriscado. De qualquer forma, parece melhor lá que aqui embaixo, no Brasil. Outro problema é que lá em cima corre-se o risco de dar de caras – digo – com as caras do Hugo Chaves e dos chapolins colorados revolucionando a América Latina como pedras rolantes morro abaixo – soçobrando no (nem tão) Pacífico. Como os Andes estão cheios de buracões também, o negócio vai ser ficar na encosta, como todo brasileiro sempre soube viver, num mundo paralelo, nem uma coisa, nem outra: um meio termo onde a declividade eterna dê a impressão nem que sobe nem que desce, onde a água não se acumula e o buraco fica desentendido se só aparece em contraste com as alturas da cordilheira. E, sinceramente, se o conceito de “buraco” tiver que ser definido em contraste aos Andes, convenhamos, fica muito mais difícil de perceber que se vive no buraco. Pior é na orla, onde a água, que antes batia na bunda e agora já ultrapassa o último fio de cabelo dá prova mais que evidente que abaixo do nível do mar não pode ser mesmo outra coisa senão “buraco”. O mais estremecedor é que, se notar bem, vê-se que o único ponto que não coincide com o mapa do Brasil é lá no alto, no extremo noroeste, onde deveria estar o contorno de Roraima, mas tem algo mais[1]. A foto ao lado – Credo! mostra que esse algo mais é a silhueta da Venezuela. Ou então nós anexamos eles, ou eles nos anexaram... Mas que diabos de profecia mais agourenta. Maldito buraco!

Notas: 1. As diferenças no contorno entre as figuras, antes e depois do cataclismo, se devem ao fato de que com as mudanças climáticas e a elevação do nível do mar, que é seu efeito mais imediato, o desenho da linha de costa não permaneceria exatamente o mesmo – o óbvio. Ficha técnica: Foto de Porto de Galinhas, do site aqui.

janeiro 09, 2007

Exposer cobra privacidade da imagem pública

A exposer Daniela Sic.arelli ganha o direito de ter sua performance pornográfica indisponível para todos os brasileiros, com o bloqueio do site “You Tube”. Segundo o Yahoo! Notícia, “a decisão da Justiça tem como objetivo punir o YouTube por continuar a exibir o vídeo da apresentadora Daniella Cicarelli e o namorado Tato Malzoni na praia de Cádiz, na Espanha” [grifo meu]. O sistema gratuíto de downloads e uploads de vídeos, de comunidades aficionadas por raridades e toda sorte de bobagem que é o traço picaresco e nada raramente medonho da Internet, é retirado de cerca de 3 milhões de usuários. O desembargador Ênio Santarelli Zuliani determinou o bloquio do vídeo do casal com a “colocação do filtro na solicitação de acesso ou na entrada da resposta no website americano” inviabilizando todo o You Tube. A chapuletada era pra ser no You Tube, que, no entanto, continua acessível a todo o resto do mundo. A propósito, “resto do mundo” são Brasil, Irã e China que formam o pequeno grupo de países que transgridem censurar a Internet por justificativas tão boas quanto as de Fidel Castro pelo bem de seu “polvo” (sic.). A notícia já nasce fria, de tão fabulosa; e fábula é o que os gigantes adormecidos sonham que sejam pensamentos. Senão vejamos: a mulher vai a praia, que até onde sei na Espanha também é pública, bem como, portanto, a sua paisagem, e é filmada chupando o nariz do namorado – para resumir tudo. O filminho dessa cena bastarda, que não pertence a paisagens marinhas nem aqui, na Espanha ou na China, aparece no You Tube gratuitamente e é considerado o quê? Exposição de imagem pública? Imagem pública é o que a gente faz em público. Imagem privada é o que a gente faz (moderemos) em particular, em nosso domicílio. Privado é o que a gente faz fora de locais públicos, é “o que não é público”. Como, por favor, se pode dar direito por uso de imagem pública sem fins outros que a simples exposição? A nossa privacidade, exposta em local público é, portanto, um ato público. Em lugar da Srta. D. Sic. (!), por rigor, ter direito a tirá-lo de todos, deveria ela ser repeendida por expor imagem tão desgraciosa emergindo das areias como um periscópio que dá uma espiadela para ver se ninguém o vê, já mostando-se em grande vulto. A real corte das minorias superexpostas, que deveriam dar-se ao desfrute em áulicos recintos, desfila publicamente como o rei nu, orgulhoso da nobreza, reconhecido pelo populacho como a excentricidade nativa da alta corte (estando aí todo o reconhecimento que podem ter da realeza do rei). Do que se faz no ambiente nos salões palacianos, na vida íntima, vivem as cortesãs, mas deve-se uma boa dose de imaginação para tentar entender que uma “cortesã pública” (!) não seja, de fato, de ofício e gosto, como é o caso, senão coisa igual à “puta mundana” da comadre Joana[1], que faz por gosto da vida privada perfomance na vida pública. E tem gente que achava que seis dedos era algo esquizito (!).

Notas
1. Comadre Joana é personagem do livro Fragmentos de Uma Paixão da deputada Esther Grossi (PT/RS), de memórias de sua infância em São Vicente do Sul, na “picada dos Farrapos”.

janeiro 08, 2007

Muleta ecúmena

O geólogo Samuel Bowring, 53, do MIT (Massachusetts Institute of Tecnology) encabeça o projeto Earthtime (o “Tempo da Terra”), que pretende encontrar marcadores geocronológicos universais para integrar a coluna geológica das eras em todos os continentes. Assim se saberia exatamente onde estão os principais intervalos de cada era e período. Segundo ele, as datas relativas, que definem tempos a partir da informação contida nas rochas, comuns do calendário geológico, são um problema para os paleontólogos (! - poder-se-ia dizer até que são o trabalho dos paleontólogos, mas...). Kirk Johnson, paleontólogo do Museu de História Natural de Denver, também entende assim: “O Jurássico, por exemplo, é uma definição européia. O que é Jurássico na Europa pode não ser na China”, diz. Segundo o artigo “Projeto tenta ordenar a história da Terra” que saiu no JC/SBPC, aqui, as datações relativas criam paradoxos constrangedores, como a ocorrência de aves no Jurássico alemão e de dinossauros emplumados, que seriam em teoria os ancestrais das aves, encontrados em rochas aparentemente mais jovens, do Cretáceo chinês. Difícil é entender por que isto não é apenas encarado como um problema local, e daí tentar resolvê-lo. Um dos motivos para querer uma datação “absoluta” da Terra seria o de definir intervalos menores que 50 mil anos para poder perceber no registro geológico mudanças climáticas semelhantes as que estariam ocorrendo na Terra hoje. Mas isso pode ser um problema da redação da notícia no Yahoo!, já que não parece ter ligação ou a, pelo menos, relação não ficou clara. Já se consegue medir intervalos de apenas 100 mil anos, nada em termos geológicos. O problema é que não dá para entender o sentido desta cronologia miúda quando se diz que o objetivo é integrar datas em toda a Terra. O detalhamento para estudar intervalos pequenos para fazer comparações de períodos de mudança climática com as mudanças atuais não parece que tem muito a ver com o estabelecimento de marcadores universais na escala geológica. Fazer localmente esse esmiuçamento pode ser desejável, quando necessário, quando se identifica um esudo de caso promissor, como no caso do paradoxo dos dinos emplumados e do Jurássico da China. Difícil entender, por isto, como um único métodos pode fazer tudo. Browing fala (segundo matéria do JC) em usar cristais de Zircão para datar as rochas. Mas o mineral não é encontrado em todas as formações, residindo aí um dos problemas.

No caso acima, ou as rochas na China não são Jurássicas ou as aves surgiram na China. A investigação geocronológica é adequada neste caso para uma averiguação ou mesmo para solucionar definitivamente este problema. Recuperar trabalhos anteriores e buscar pontos obscuros ou negligências e os critérios de identificação podem ajudar também. Dizer, no entanto, sentir-se incomodado por ter que conviver com aparentes paradoxos é brincadeira! Não precisaria existir geologia se fosse de outro modo. O paradoxo é motivo de estudo, não de incômoco a uma classe profissional que tem em uma de sua incumbência justamente buscar dar respostas a estas questões. A datação certamente não acabará com o problemas de interpretação na história da Terra, nem serão nunca mais que uma muleta ou um “marcador de página” na história da Terra. Detestaria ter que concluir que os geólogos são analfabetos funcionais nessa matéria. Entendem de setores da gramática geológica e são péssimos em “literatura”? São analfabetos funcionais; editam livros que não sabem ler? E tudo que se faz é investigar onde estaríam os capítulos das folhas que desapareceram. Este homem é o que Orte y Gasset definuiu no seu A rebelião das massas como o “novo bárbaro”, embuçado na “faina mecânica de pensamento” técnico. A lembrar da negligência com os fundamentos e princípios do pensamento geológico que nunca chegaram a um esforço mais que diletante (no sentido pejorativo), este projeto “marca-página” poderia ser batizado de outro modo: “muleta ecúmena”, para lembrar de nossos medievos patrícios além-mar e o sentido do mundo habitado que tinham, olhando da orla da ilha de Toa a miragem de uma outra terra.