agosto 03, 2008

Os intelectuais da ordem de Monty Python

Consciência subliminar

Depois que descobriram a mensagem subliminar, a última grande invenção – de quem, exatamente, desconheço – foi a “consciência subliminar” – ao que parece, uma evolução daquela, senão isto, o seu efeito depois de muito tempo submetido àquela.

A consciência subliminar é o meio natural do pensamento ideológico, do modo como o descreve Eric Hoffer – ver “Seguidores cegos: a gênese do homem-massa, de Eric Hoffer”. Uma das suas manifestações exteriores é o esquecimento neurótico da realidade pela ênfase, subvertendo o momento cognitivo de uma intuição, de como o mundo não pode deixar de ser, que do contrário, como já o deu exemplo eloqüente o ex-presidente do Senado, Renan Calheiros, só pode significar que a realidade está esquizofrênica[1].

Os donos de uma consciência subliminar mostram também, quando sentem-se ofendidos, um bizarro ritual de indignação que já lança um embuste de ultraje contra o “injuriante” em um processo inquisitorial histriônico e sumário[2], lembrando o tipo “solene fútil” de Umberto Eco[3].

Algo assim só pode ser compreendido no cenário da série de filmes do grupo Monty Python, geralmente misturado com alguma alusão ou analogia fingida com o futebol, de resultado bastante duvidoso.

*

Era uma vez um rei pescador

A torcida estava entusiasmada, mas no jogo jogado acabou silenciada pelo adversário. Os primeiro foram os uruguaios, depois vieram outros; o Grêmio contra o Flamengo, teve o Juventude contra o Botafogo; recentemente foram os mexicanos, com o paraguaio Cabañas; e'ntão vieram os equatorianos da LDU, contra o Fluminense.

Alguém acabou lembrou o rei, por uma destas associações mentais vagabundas, tão próximas de afluxos do inconsciente, aquele rei que havia mandado há pouco um ogro calar a boca. E advinha se já não estavam torcendo para o mais fraco: “Dá-lhe ogro!”

A imprensa parece que se esforça por ser assim, que nem escanteio mal cobrado; e quando resolve cruzar para a área, tantas vezes errado como se da próxima vez tivesse mais chance, pelo simples fato de terem falhado as vezes anteriores; afinal, a melhor jogada do jogador ruim é a superstição, que lhe garante alguma confiança para tomar as mesmas decisões que já deram errado das vezes anteriores. Não é conhecimento, nem prudência, é pura sorte aumentada pela insistência. Se bem que, geralmente, sem nenhuma conseqüência; a não ser o efeito nefando de profundo constrangimento do público.

Será que não há ninguém, nos times de futebol, com bom-senso para mandar o sujeito parar, pelo amor de Deus, de tentar? Isso certamente tem a ver com a incapacidade brasileira de não desistir nunca: todo mundo sabe que brasileiro nunca desiste... Paciência.

Isso vale também – e, é claro – para os ouvintes de rádio, para os espectadores de TV, não para o próprio opinion maker, que por serem espontâneos, só podem errar se fizessem um esforço real para saber alguma coisa. Mas os fatos são muito complicados hoje em dia, as versões livres é que representam melhor a realidade. É a lei do “cobertor curto”, como diz Lauro Quadros: sempre que se tenta descobrir as coisas por um lado, se as encobre por outro, de algum modo; por fim, no tumulto desse princípio universal que é o ressentimento para com a verdade, vale o consenso.

Sem qualquer lastro para saber das coisas, resta aos nossos comunicadores, reproduzir os fatos como naturalistas, ou mentir sobre eles com aquela honestidades dos pescadores, ou, às vezes, a soldo, de tal modo que já seja apenas aquele esquecimento neurótico da realidade pela ênfase, que a consciência subliminar reproduz como a peste. Geralmente, o que acaba por tornar-se, depois de algum tempo, ao que tende inevitavelmente, à pura propaganda.

*

No programa de rádio “Sala de Redação” (Rádio Gaúcha 600 kHz) de quinta-feira[4], dia 3 de julho de 2008, ouvi espantado Ruy Carlos Ostermann e companhia:

SANT'ANA: “Com é que ele disse? 'Por qué no te callas?'

OSTERMANN: “Ah! Isso é aquele progressista; da Espanha, né? O Rei, né?!”

KENNY “Juan Carlos...”

OSTERMANN “Progressista, no?”

[CACALO] “Tão secando o Rei...”

OSTERMANN: “Pois devia ter vindo aqui tirar a Ìngrid... Devia ter vindo...”

De tão simpático, pela bagunça que domina o programa Sala de Redação, da Rádio Gaúcha (RBS), mal se percebe que enquanto tudo é discutível, tudo passível de opinião, algumas coisas parece que ficam subentendidas como obviedades como que jogadas ao chão, pesadamente, como se já não pudessem não estar lá. O programa desorienta o ouvinte ao debate responsável, preferindo um formato livre de impressões soltas, frases balbuciadas, opiniões indefectíveis e mediação relativista.

O que é mesmo um rei “progressista”?

*

Desconfiança perfunctória

Paulo Sant'Ana, em sua coluna de 4 de julho de 2008, de título “Um resgate estranhíssimo”, dá por inverossímil o resgate de Ingrid Betancourt nas condições que foram apresentadas pela imprensa: 1 – guerrilheiros experientes enganados por camisa de Che, sem disparar um único tiro? 2 – os cativos eram mantidos separados, e naquele dia foram transportados todos juntos; 3 – seriam deslocados por entidade humanitárias para próximo de um possível líder surgente (Fonte: rádio suíça RSR).

Sant'Ana estranha ainda a empatia de Ingrid pelos seqüestradores, quando se disse apiedada de um deles, que a cuidou nos dias de selva, com o rosto no chão. “Só faltou agradecer... aos guerrilheiros”, disse Sant'Ana. O caso não é nada incomum, segundo se sabe da “síndrome de Estocolmo”, cuja afeição despropositada pode chegar à cumplicidade verdadeira entre vítima e criminoso. Além do mais, é inverossímil acreditar que se passe seis anos na floresta sendo tratada inumanamente por todos ou não se adquira preferência ou afinidade por alguns dentre os seqüestradores. É mesmo do entendimento da psicologia criminal que alguma relação seja mantida com o seqüestrador para retirar da vítima a atenção, diminuindo os riscos.

Há, em Sant'Ana, grande esforço por chegar a conclusão que ele quer chegar. Diz ele:

Betancourt que tinha sido fotografada tempos atrás no cativeiro, esquálida, pálida, doente, apareceu agora totalmente alegre e hígida, falante, com o rosto estampando sorrisos / Estava muito ajeitadinha, corada, disposta, eloqüente, gordinha, para quem saíra de um cativeiro opressivo. / Está na cara que ela foi produzida durante meses para ser apresentada daquele jeito...”

Sant'Ana, ao que parece, desconfia que o acordo com as FARC implicava que ela aparecesse melhor para melhorar a imagem do tratamento das FARC com os seqüestrados. Como se isso fosse o bastante ou como se fosse possível manter alguém em estado de semi-invalidez na selva e conseguir manter a pessoa viva. Há tantas inconsistências que se podem levantar contra qualquer destas versões postiças que a única coisa evidente de todas as desconfianças é a defesa parcial de um ou outro lado. O que no caso de Paulo Sant'Ana ficou mais que verossímil, ficou mesmo provável.

Como, então, teria sido “preparada durante um ano” para esse momento? Os vídeos apresentados não dão a impressão de que a emoção dos libertos fosse falsa. Nem falsas parecem ser as impressões de Sant'Ana e Ostermann, quando emocionam-se com a possibilidade, para eles repulsiva, de ter sido Uribe a quem se deva os méritos, a obter os louros de um resgate que Chávez, Lula e coisa que os valha desejaram eles próprios. Mas a ênfase ficou mesmo na desconfiança contra Uribe.

A guerrilha teria aceitado entregar sua principal moeda de troca por necessidade financeira. Esta tese é uma especulação montada apenas em achômetro. Poderia perguntar-se se o triunfo de Uribe, ao matar o segundo das FARC, Raúl Reyes, tivesse sido também “negociado”. Ao interpretar os fatos em si mesmos, como um caricato naturalista do século XIX descreveria um único inseto, perdem toda a urdidura da intriga, mesmo aquela que faz anteceder a este resgate suspeito uma operação militar tremendamente bem sucedida.

Além do mais, onde está a imoralidade em oferecer-se dinheiro para libertar o seqüestrado? Mas isto não chegou, em nenhum momento, a ser a discussão. É obra de armação, mas se obteve o que se queria. Isso não foi colocado em questão em nenhum momento. Humanitários, os jornalistas pensam no dinheiro, pensam no acordo que deu notoriedade a Uribe. Dinheiro que nenhuma família se negaria a dar se o tivesse por um familiar.

Lembro a pior coisa que ouvi Ingrid dizer: “A vida aqui é um exercício mórbido de desperdício de tempo”.

Não me pareceu, em nada, uma frase falsa.

*

Prestidigitação auto-hipnósica

“– O sr. era um dos intelectuais, Professor?

Não, eu estava lá servindo de garçomE'u acredito.

Sant'Ana teve eco, um dia depois, de Ostermann, o qual, no dia 03 de julho, pedira para o Rei de Espanha, Juan Carlos I, vir salvar Ingrid: “Pois devia ter vindo aqui tirar a Ìngrid... Devia ter vindo...”, foi o que disse. Pois, simbolicamente, não é que veio! A 02 de abril, uma missão humanitária envolvendo Espanha, França e Suíça queria facilitar a libertação de Ingrid Betancourt[5]. A primeira tentativa tinha sido feita. A segunda deveria estar pelo menos no horizonte de possibilidades do jornalista quando o resgate tivesse sucesso. Senão isto, não referir, no ponto particular da preença de helicópteros, a óbvia farsa de Uribe.

As especulações e argúcia de Ostermann e Sant'Ana já tem, de antemão, a conclusão para o que já concluíram. O demais são só perguntas retóricas e alusões onde o que se quer que seja já esteja implícito.

Conheço dois tipos de gente que tem mão rápida: prestidigitadores e larápios. Como aquela estratégia de mostrar algo para desviar a atenção de outra coisa, que é o que realmente interessa. Já é bem curioso que brandir esta tática para usá-la, exatamente no momento em que se a desmascara; é um golpe de mestre. E, por espantoso que seja, já não pode ser outra coisa que um hábito mental que aparece no exato momento em que se o acusa no outro. Faz sentido o que Eric Hoffer nota, que freqüentemente imitamos aquilo que odiamos, que a psicologia mesma de fanáticos, ideólogos, idólatras, e'tc., funciona como um símile contramolde do seu antagonista.

Suspeitas e especulações sobre Uribe cuidam de parecer argutas mas não passam de performances pseudo-críticas. O jornalista poderia ponderar que se uma missão humanitária já fora tentada uma vez, seria não só possível, mas verossímil e provável até que se a tentasse uma vez mais. De tudo, talvez o mais grave seja não que as FARC tenham recebido dinheiro vivo para libertar Íngird (coisa que eu faria também pela minha sobrinha), pois o preço que Cháves pagaria na tentativa de resgate que ocorrera semanas antes era muito mais alto, pelas relações que o próprio teve descobertas nos computadores apreendidos pela operação que matou Reyes, bem como pela presença nauseante de Oliver Stone, quando se pensara que Ingrid seria solta (que coisa, né?).

Teria passado pelas cabeças dos dois que talvez, mas, somente talvez, o resgate de Ingrid fosse uma armação de Chávez para fazer propaganda? Vejamos, então; Chávez contratou Oliver Stone para filmar o resgate, ou Oliver Stone veio por vontade própria? Mas por que ficaria frustrado com o resgate, quando deu errado? E por que Oliver Stone não se interessou pela operação na fronteira com o Equador, esta sim, espetacular?

Coisa menor foi Ostermann ter pedido pelos terroristas desaparecidos, que teriam sido presos no resgate, e ouvir de Cacalo (Luiz Carlos Martins) que eles haviam sido apresentados pela manhã, sobrando-lhe o silêncio e investida outra qualquer. “Onde estão?... Onde estão?...”, perguntava ele. Dias depois os guerrilheiros seriam citados como testemunhas, eles mesmos, do pagamento. Ainda assim, não ficou claro se, como declarou as FARC, eles foram traidores pagos, e o dinheiro não foi para as FARC, ou se por sursis beneficiados, ou ainda se houve traição fingida e pagamento direto às FARC. Pois ou as FARC foram traídas ou foram pagas. Tudo nada muito óbvio, exceto para quem manda sua mensagem já com endereço certo.

O pior de tudo é que do jeito que o jornalista “imparcial” faz, não sobra nem acusá-lo de boboquice.

Ostermann e Sant'Ana desconfiaram da operação de Uribe do mesmo modo que Patricia Sverlo, na biografia não autorizada do Rei Juan Calros I, levanta suspeitas do monarca ter ajudado a simular um golpe de estado em 1981, quando aparecia publicamente antagonizando com os militares, para poder ter aumentada sua popularidade, enquanto a apoiava para impedir o levante armado real da guerrilha socialista.

Presta-se atenção às ações de escamotage mais que ao fato de que uma revolta armada evitada é mais importante que um blefe.

Como costumam fazer os socialistas, por exemplo, ao edificarem seu mundo melhor nas falhas do capitalismo, o jornalista comprometido com a sua fantasia escolhe muito bem os pontos a abordar. Desde aí passa a divulgá-la como sua própria descoberta, de grande acuidade, de ter visto o “truque” sem perceber em que palco as coisas se haviam.

Os EU pagaram também para que Raúl Reyes morresse? Pagou a um traidor que deu-lhes as informações, ou pagou ao próprio Reyes para morrer? Militares de Israel estariam metidos no resgate, teriam ajudado também a tomar informações para pegar as tropas das FARC escondidas na fronteira do Equador? Por que o Equador não combatia ou sequer reclamava das FARC no seu território? Por que Correa não ajudou Uribe, se as FARC haviam entrado no seu território? Os EU urdiram por trás do cenário sul-americano porque tem intenções imperialistas, ou porque os únicos com quem se dão, verdadeiramente, por aqui são Chile e Colômbia?

Deveriam ajudar os EU ao casal Kirchner, a Lugo, Chávez, Rafael Correa, Evo Morales, ou... a Lula, que diz que torceu para vietcong e chama a política americana na OMC de propaganda nazista? Se bem me lembro de leituras, a Alemanha do imperador Guilherme IIº chamava os ingleses e os judeus de Krämer-Nation – “nação de logistas”, e por “negociantes” aludindo a algum desvirtuado meio de burla.

O Brasil tem destas coisas de desenterrar mortos e fazê-los andar. Mas em que pé será que está nosso monstrengo de Lula-Frankenstein? Que seja plantado em terra que tudo dá já é preocupante, como escreveu T. S. Eliot antes da IIª Guerra Mundial:

Tu, que estiveste comigo nas galeras de Mylae!

O cadáver que plantaste ano passado

em teu jardim já começou a brotar?

Dará flores este ano? Ou foi a imprevista geada

que o perturbou em seu leito?

Conserva o cão à distância, esse amigo do homem,

ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!

E era possível resgatar Ingrid pagando antes da operação militar que matou o nº 2 das FARC? A busca pela autoria do resgate foi tentada por todos, havia lucros políticos para quem quer que fosse capaz de realizá-lo. E isto é coisa que passa longe da argúcia de Ostermann e Sant'Ana? O quadro político passou-lhes, parece inacreditável, despercebido? O movimento da esquerda Lula-Chávez-FARC de obter méritos pelo resgate simulado de crimes que eles próprios conspiraram e executaram não é muito mais escandaloso?

*

Flatulência intelectual

Nada é dito, tudo pode-se desmentir, é o fingimento de brincadeirinha; no fundo do que se está discutindo, só há referências pejorativas à maior democracia do planeta, com seus problemas, infinitamente melhor que o fingimento maldisfarçado de democracia brasileira.

Nenhuma reflexão ou pensamento qualquer que seja sobre a democracia, apenas o ressentimento para com os arrogantes que propuseram-se a fazer algo que somos incapazes, a qual invejamos a ponto mesmo de destruir na primeira oportunidade o símile desta que por aqui há.

Sala de Redação, Sexta-Feira (04/07/08):

LAURO QUADROS “Independence Day, Professor. E pay-day, Professor... O dia do pagamento também, Professor”...

LAURO “I've got you, under my skin...”

OSTERMANN “Tu sabes que esse é um hino à cocaína?!...”

OSTERMANN “O Paulo Sant'Ana escreve hoje a coluna que eu gostaria de escrever se tratasse de temas gerais: aquele resgate foi uma farsa...”

CACALO “Mas já está denunciado que foi uma farsa...”

OSTERMANN “Mas eu estou dizendo que o Sant'Ana escreve sobre isso... [enfático, teatral]: mas é o primeiro! jornalista que escreve sobre isto... Mas é claro que pagaram!!!”

CACALO “Uma rádio suíça denunciou... na internet: 20 milhões teriam sido pagos às FARC...”

OSTERMAN “Não te duvido!”

OSTERMAN “Pontos fracos: nos refúgios, a presença de helicópteros...”

CACALO “Foi muito fácil...”

OSTERMANN “Segundo: havia três ou quatro pessoas que foram presas: onde elas estão? Onde elas estão? [intrigante]”.

OSTERMANN “O MacCain chegou na hora: Por quê?!!!!!!!!!”

*

Afinal de contas, se onde há fumaça há fogo, onde a coisa está cheirando mal... espera-se coisa análoga. E, de fato, não faltaram temas escatológicos, como a flatulência intelectual de Lauro Quadros, e o tipo de visionário iniciado, Ostermann.

Toda evidência deveria poder prescindir de teatralidade, porém, não é o caso de todas as coisas verdadeiras, pois não há nada óbvio para a mente subliminar. É por isto que em Ostermann qualquer evidência é fruto de ênfase pessoal. Assim são as suas obviedades histriônicas, obviedades de retórica e performance que o ofício de radialista tornou em razão com a idade. A evidência é sempre enigmática de uma clareza obscura, e que tem a intenção de dar sub-repticiamente tom solene de denúncia ao avistamento de discretos abrolhos na superfície da trama orquestrada para falsificar o seqüestro, mas que não teria passado despercebida pelo intelectual atento.

O almirante Ostermann manda o submarino submergir quando vê, na superfície, ameaçador abrolhos...

No dia da Independência americana, Uribe e seu resgate estranho inspiram em Sant'Ana, Ostermann e Lauro a desconfiança de uma conspiração, de um obviamente claro engodo, e cruzando esse véu opaco os espíritos iniciados, tipos de pequeninos Illuminati, urdindo coisa mais obscura que o obscurantismo denunciado.

Eric Hoffer foi feliz ao descrever os seguidores cegos (true believers no original, que prefiro a “verdadeiros crentes” com vi por aí), como tornarem-se o que são depois de reconhecerem-se no tipo com quem se antagonizam. E só a partir daí projetarem no antagonista a condição que é mais deles que do denunciado.

É claro que eles sabiam que a operação se daria naquele dia, e não foi coincidência MacCain aparecer lá. Os grandes denunciantes de conspirações são os verdadeiros conspiradores eles próprios; buscam o mist como visão; a confusão é o que lhes garante algum sentido profundo ao superficial e notoriedade às evidências tornado-as obscuras suposições, então por eles reveladas.

MacCain tinha interesse, por ajuda oferecida, de ser avisado do resgate... A vitória de Uribe recente não foi uma armação; mas a armação de Uribe libertou Ìngrid.

Não coincidentemente, no dia da independência da maior e mais duradoura democracia do mundo, foi lembrado um hino à cocaína, e, certamente por pura coincidência, a flatulência intelectual de Lauro sobrepôs marotamente “o dia do pagamento” à democracia – não tanto pelo conteúdo, mas pela burla de deixar dito na forma mesma com que se manifestaram. A orientação geral é outra coisa que fica clara.

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Obscurantistas, declaram: “Está tudo vindo à tona...”. Omitindo todas as ligações e apoio sistemático do governo brasileiro aos guerrilheiros terroristas das FARC, a ligação de Chávez nos computadores de Reyes, Ostermann, já com voz calma, dá por iniciado o processo que revelará “tudo” que jazia submerso na escuridão, que emerge desde as profecias pelágicas saídas do mar da inconsciência da mente subliminar.

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A evidência tem cifrõe$

Uribe pagou por um símbolo; agora deveriam pagar um pouco menos pelos demais que ainda restam cativos. Sinceramente, para libertar todos os reféns, melhor que o Brasil ajudasse a pagar também, já que há de fazer alguma coisa além de discursos paradoxais e ações menos dignas.

Mas a ênfase é na imoralidade de se pagar para simular uma vitória. Ora, a vitória foi real; o dinheiro fez, então, que se libertassem tantos prisioneiros “sem disparar um único tiro”. E isso não é bom? Correria o risco de matar alguns daqueles heróis acorrentados. Mas o que querem os conspiradores de anticonspirações é que o resgate seja feito com grande audácia, com a morte eventual de cativos e guerrilheiros. No entanto, quando ocorreu, no lado equatoriano, foi considerado uma “violação” territorial.

Notaram a dificuldade de boa parte da imprensa, seguindo a cartilha de Lula e do PT, de dizer com todas as letras que a liberdade de Ingrid Betancourt é uma vitória inequívoca de Álvaro Uribe?”, perguntou Renaldo Azevedo.

Indiferente a isto, às suas próprias contradições, o intelectual, em meio a garçons, denuncia, com os dentes cerrados, a farsa de uma libertação PAGA.

Será que pagaram pela morte de Raúl Reyes? Para Reyes? Por que não consideraram isto, já que o resgate só saiu depois da operação militar onde as FARC se escondiam, em território venezuelano, sem que o exército Colombiano tivesse a colaborção dos venezuelanos, nem mesmo dos supostos maiores interessados, os equatorianos, para combater os revolucionários? Especulação mais certeira e digna de indignação era, certamente, a omissão do Equador com a presença das FARC nas suas fronteiras.

Já até posso ver os intelectuais desmoralizando Uribe no bar: “Pagaaaaramm; é claro que pagaram. Pois não?! Hêin? Eu não duviiiido! E por que aquele rei não vem aqui soltar a Ingrid??? Garçom?! Um shopp!...”.

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O intelectual pescador

Por que a sagacidade perfunctória do jornalista bufão não notou os movimentos opostos de tentativa de obter dividendos políticos com um resgate que seria uma flagrante falsificação?

A quem vencesse o desafio, desse-lhe o mérito; e aos que perderam, que se lhes imputasse o mesmo intento e então pôr todos sob as mesma eqüidade crítica.

Clamaram, ironicamente, para que o rei Juan Carlos viesse salvar Ingrid, numa associação de responsabilidade bastante curiosa, e quando o resgate ocorre, passam a denunciar o grande blefe de Uribe e dos EU. O cala-te-boca do rei a Chávez desautorizou, para Ostermann, o discurso de quem estava intermediando o resgate-embuste que seria filmado por Hoolywood.

Como Homer Simpson, parece que Ostermann também espera aprender algo dos filmes americanos.

*

Apostaram” errado, e querem agora colher os lucros por resgatar a verdade de em meio à operação real de resgate. O ocultismo sempre tem uma verdade mais profunda; o resgate difícil, que parecia depender de negociações sem fim, resolveu-se com uma operação ao segundo das FARC, ao seu enfraquecimento e, só então, à amplaição da possibilidade de negociação. Mas parece bem mais fácil resumir tudo a uma única ação e, sobretudo, aos seus odiosos aspectos “negociados” (Krämer-Nation, diziam os alemães).

Mas é claro que isso não se trata de desonestidade, trata-se de uma total descompostura intelectual que faz o jornalista adiantar-se no que sua consciência tem subliminar à uma observação mais séria dos fatos.

De que outro jeito, no entanto, o tipo intelectual poderia gozar de algum prestígio, senão revelando, supersticiosamente, o obscuro por trás de cada fato singular? Aquilo que para o jornalista espontâneo é a magia negra de algum nexo compreensível.

Na totalidade do movimento político, viram apenas uma trama e um blefe, e como aprendizes de ilusionismo, mostraram a ponta da orelha do coelho dentro da cartola como prova do truque que eles próprios criaram para explicar a peça e denunciar o “Autor Oculto”.

O simulacro supersticioso que faz as vezes de análise política projeta sobre a realidade um olhar pesaroso de guru ocultista, que como já sabe do que pretende, que mantém como intenção escusa, alude para parecer isenção distante. Na mais rigorosa tradição iluminista, “joga luz” sobre os fatos para deter-se na sombra projetada mais atrás, onde o obscurantista vê a verdade digna de culto.

É como se quem quer que obtenha sucesso acabe por ser, a fortiori, o autor do blefe, de uma conspiração. Mas o que parece, antes, é que se esperava por um ato “humanitário” das FARC, ou o sucesso das intermediações de Chávez.

Tudo bem menos obscuro do que querem deixar parecer.

*

Para o jornalista, a grande farsa do resgate é uma intervenção americana, sem ater-se nem mesmo aos primeiros e mais óbvios esforços em meio as tensões formadas num cenário muito bem definido, que de um lado tem os legitimiadores de orientação antidemocrática, que está por trás das FARC, com a dissolução paulatina de nações democráticas – particularmente agindo na política, na justiça e na cultura –, contra quem defende seus princípios[6].

Tem-se que concluir, então, que consciente ou inconscientemente, por fraude ou por subserviência da vontade onde a vontade não pode prosperar, o jornalista assume o hábito de legitimar (na sua esfera de ação, a repetição diária) práticas antidemocráticas[7].

A ação militar de Uribe em território equatoriano foi direta e certeira, o que confunde muito quem não acredita na ação humana, mas está acostumado a obedecer tendências, comandos, sugestões, conselhos, senão, por esse instinto postiço que a consciência subliminar faz sentir como coisa vinda da própria natureza humana: o assobio do dono. Claro que o a ação de Uribe só pode ter sido algo que o comandou, por trás, como a um fantoche – pois esta é a experiência mais íntima do obscurantista.

Se a inconsciência é um pecado, a mente subliminar é a própria possessão demoníaca. Para efeito psicológico, é auto-hipnose. Assim, mesmo perante um fato que se dê na sua frente, nada prepara o ilusionista de ser afetado pelo próprio olhar incrédulo. Como se não pudessem ver, e não apenas não acreditar, numa ação como a que matou Reyes, sobra a negação e o obscurantismo de uma conspiração, que para o analista político é uma vitória não de um golpe só – que pareceria daí, sim, algum tipo de mágica –, mas de um difícil e intrincado conjunto de ações que chegaram ao objetivo, com vitória militar e política.

Mas a magia negra mudou de lado, pois o próprio Uribe se valeu dos desmentidos para atenuar a invasão do território venezuelano, e os simulacros de homens tiveram que se adaptar a uma escaramuça de condenação para Uribe.

Todos contra o rei – contra a condição de estabilidade e contra os princípios democráticos, que foi exatamente o que defendeu o rei Juan Carlos quando Chávez teve seu discurso interrompido, enquanto acusava o opositor de direita do atual primeiro ministro Zappatero de fascista. De volta à encenação (recuo estratégico), Chávez visita o rei Juan Carlos na Espanha e todos sorriem.

Mas no jogo ambíguo dessa nova dissidência esquerdista não constava a possibilidade de um golpe objetivo e direto, breve e certeiro, para dentro das fronteiras equatorianas, revelando os desmentidos que ligam Chávez às FARC e as já conhecidas (“O quê? Onde?”) ligações de Lula ao Foro de São Paulo, e por si mesmo, por sua vez, de Lula e do PT com as FARC.

*

A empáfia de Ostermann com o rei Juan Carlos é um traço de ressentimento pelo quê? É como se o rei Juan Carlos tivesse falado ao próprio Ostermann “Cala-te!”. Que, por certo, teria tido a mesma reação de Chávez: calar-se e ficar com cara de bobo atordoado.

Os dois acontecimento tem perfeita simetria: O rei disse um direto “Cala-te!” que o deixou mudo e embasbacado, e novamente, na ousada ação militar em território equatoriano, reduto seguro das FARC, um golpe direto desmontou a mentira do fanfarrão.

Na falta de algum sentido de honra, o ressentimento traveste aquela em orgulho, coisa inegável quando se esboça já, como se viu, a máscara do “ultraje histriônico”.

De todo o imbróglio, sobra essa incrível capacidade de ver claramente um ponto muito preciso de uma área muito, mas muito pequena. Alguém disse-lhes que “acertar na mosca” era extrema precisão, e desde então deixou-se de ver no que, no todo, estava-se enfiado até o pescoço, que atraia as moscas.

É a “desconfiança pelo auto-exemplo” ou, a partir do que se faz, que já se o dá por base mínima à especulação. Só um prestidigitador tarimbado para ver em outro as afetações espetaculosas. Ostermann reconheceu-a, de pronto, em Uribe, mas perdeu a de Chávez. O que só pode querer dizer que Ostermann sabe que deve denunciar apenas os truques do adversário.

*

Filosofando em meio a garçons, o intelectual aproveita a garbosa indolência que tem para com a amizade que conquistou cedendo aos ossos do ofício bem remunerado. Por fim, tirar coelhos de cartolas é coisa já muito desgastada, não impressiona a mais ninguém. Outro uso, mais vantajoso, é esse de ocultar a própria boçalidade desonesta, e evadir-se sumindo para dentro da cartola; mas, pelo resgate de alguma dignidade, talvez devesse o velho jornalista ir dedicar-se à honesta trapaça dos pescadores[8], contadores de causos.

Notas

1. V. “Renan K. e o processo que condenou a realidade”.

2. “Inquisitorial” quer dizer aquilo que, na média, se tem por algo injusto, sem a noção de como os processos inquisitoriais se davam, mas como eles aparecem no consciente coletivo popular, que fique bem claro.

3. No Pêndulo de Foucault, se não me engano, ou será no Diário mínimo?

4. Programa aqui da Rádio Gaúcha, do grupo RBS.

5. http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL385212-5602,00.html

6. Rodrigo Tavares, “A usurpação do mito Ingrid” (15/7/2008)

7. V. a manipulação da língua em Vitimização, “Demoníacos”, abaixo, nada de muito novo.

8. Excerto de “Autonomia na redação”. Entrevista do Jornal da UFRGS com o jornalista, filósofo e professor universitário, Ruy Carlos Ostermann, da Rádio Gaúcha, Zero Hora e RBS TV (segundo os próprios alunos do curso):

Jornal da UFRGS – Autonomia é uma palavra mágica que pode provocar transformações. O senhor dirigiu a redação da Folha da Manhã e o departamento de jornalismo da Rádio Gaúcha. Com resultados dramáticos para a redação, porque sua maneira de chefiar permitiu autonomia, vôos, incentivou as pessoas a tomarem iniciativa, em vez de ser centralizadora e castradora como a maioria das chefias. Essas experiências custaram caro: nunca mais permitiram ao senhor nenhuma chefia. Fale sobre a questão das pessoas pensarem por conta própria no jornalismo.

Ruy Carlos Ostermann - A gente não pode tirar do contexto que o jornalismo que se pratica é o dos donos do poder, das pessoas e dos interesses que querem expressar suas vontades dentro da sociedade e que se valem do jornalismo para esse fim. É clássico entre nós, jornalistas, que quando se fala de liberdade de imprensa as pessoas ficam se olhando. Há, sim, é uma liberdade de empresa. Só. Toda a liberdade de que se pode usufruir é a que a empresa concede ou não. A minha biografia profissional é marcada por esses dois episódios que tu lembraste, nos quais eu procurei ser coerente e sensato em relação a minha formação e a minha exigência na redação. Só que eu esbarrei no establishment. Entendi que a possibilidade de uma certa desordem cultural, social, levaria, necessariamente, a um descontrole. Era uma liberdade demasiada. Os conceitos são estes, para não entrar em mais detalhes. São conservadores? Não. São de propriedades. Proprietário trabalha assim, em qualquer instância. No jornalismo não pode ser diferente.

JUFRGS – As duas experiências não foram adiante por serem um erro ou uma estratégia inadequada?

Ostermann – O erro foi a nossa grande virtude, da qual todos nos orgulhamos muito. A gente tentou fazer a coisa, como se fosse possível ser feita, levando-se em conta certas limitações, mas tentando avançar tanto quanto se pudesse naqueles anos. Não deu certo, mas formou cabeças, determinou biografias, trajetórias pessoais. Marcou certas coisas que hoje se fazem com referência àquelas que foram feitas. E se você pensar em toda a imprensa alternativa do país no período da ditadura, na sua capacidade de rebeldia diante dos fatos, e na sua tentativa sempre de passar para o outro lado, sempre tentar uma coisa, valeu o esforço. Sabemos o quanto todos nós temos sofrido, na medida que a gente pretende esses caminhos. Por outro lado, não há outro caminho. O caminho da acomodação, do servilismo, do silêncio, da repetição, da reprodução, ou simplesmente do atendimento de todas as prerrogativas, é o caminho da falta de personalidade, da falta de grandeza, de honra, de dignidade. Este não é caminho. Quando alguém me diz que não dá mais para trabalhar, respondo: ‘Faça outra coisa com dignidade. Vá pescar, vá pescar com dignidade, relacione-se com o mar, com o rio, com o peixe, com os anzóis, com o barco, com os companheiros. Com dignidade, faça disso uma profissão, faça disso uma relação com o mundo. Se você acha que não dá para fazer jornalismo, porque insistir no jornalismo?’.

SEM A MÃO DO PRESTIDIGITADOR:
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=6780
http://www.nodo50.org/americalibre/consejo.htm