abril 23, 2007

O malvado Mr. Feynman

Quem diria que a nova física poderia produzir um espelho quântico de horrendo reflexo à educação nacional. Pior; que a face distorcida fosse nenhum efeito, senão – imperturbada – o caráter mesmo do povo, a sua cultura da escaramuça perversa.

Desatento à banalidade de um carro caído dentro de um buraco sem sinalização, o físico Richard Feynman mal percebe que descia a uma grande depressão, até o centro cultural do Brasil de 1957. O acidente geográfico em questão (ênfase em “acidente”) é, na verdade, o resultado do que até hoje se entende uma grande extensão de terra geologicamente imperturbável. Trata-se, doutro modo, de parte ativa da crosta terrestre, que subside lentamente e traga, aos poucos, como o Mäelstrom relatado por Edgar Poe, um povo inteiro ao Nada.

Cinqüenta anos depois da visita de Feynman, basta ouvir o que o físico genial disse para encontrar a escuridão vazia em excertos da resenha do livro O senhor está brincando, Sr. Feynman! da Editora Campus, na Scientifica American nº 59/Abril 2007:

Ao fazer a escolha do horário de suas aulas, foi encorajado a ministrá-las no horário mais conveniente para ele, mesmo que este não fosse bom para os alunos. Ele diz que no Brasil aprendeu 'a ver a vida de maneira diferente', e resume nossa mentalidade assim:

'Se é melhor para você, vá em frente!'.

Sua crítica mais dura recaiu sobre nosso sistema educacional. Pouquíssimos alunos faziam perguntas ou entregavam seus trabalhos. Sempre se justificavam, dizendo que não era necessário resolver problemas. Quando algum aluno fazia perguntas, era estigmatizado pelos outros.

'Era como se fosse um processo de tirar vantagem de alguém, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e humilham os outros como se eles realmente soubessem',

afirmou.

Os alunos decoravam tudo como papa­gaios (o lívro-rexto preferido no Brasil tinha trechos em negrito para facilitar a memorização) e mesmo após terem acabado de definir um conceito, não conseguiam enxer­gar como ele se aplicava ao mundo real. Os professores fingiam ensinar e os alunos fingiam aprender, num processo perverso [pp. 94-95]”.

A miséria por aqui parece que é infinita.

Lembrando – de outro post daqui – aquela frase do machado de Assis que o Ariano Suassuna gosta muito de repetir:

O país real, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o país oficial, esse é caricato e burlesco.

O caso é que o país oficial, desde 1957 – pelo menos, como vemos –, está matando o país “real” - leia-se aí, me parece, país “natural”.

Muito malvado, Sr. Feynman, muito malvado!


Nenhum comentário: