outubro 09, 2008

Demoníacos

(continuação de “Os intelectuais da ordem de Monty Python”)

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O código do autômato

Não é a primeira vez que se vê Ruy Carlos Ostermann tendendo à “esquerda”, se bem que isto não tenha nada a ver com partidos políticos, senão só como efeito secundário.

Mas é necessário, pelo menos, distinguir, em linhas gerais, o que há de nefando no que se chama “esquerda”.

Segundo o filósofo Olavo de Carvalho, ocorre ali uma inversão essencial – quais sejam, nas suas formas, inversão temporal: a causa pelo efeito; existencial (negação da experiência, da qual a unidade é fruto de delírio que a adultera); e inversão cínica: o bom é o ruim, o bem é o mal, a virtude é o vício, e vice-versa; inversão niilista (ou metafísica): o ser pelo nada, a presença pela mudança; inversão cognitiva: o percebido é enganoso, a desconfiança, mais real; inversão semiótica: a essência é intangível, e a aparência e a diversidade são aspectos daquela, gerando a “semiose infinita” e a consciência subliminar e o consenso [1]; inversão fenomenológica: a essência pela aparência, paralaxe entre o que se sabe e o que se percebe e faz e é[2].

Tudo isto está, e muito, na “cartilha” sinistra – um tipo de cartão perfurado do autômato de Charles Babbage e de la Mettrie –, que é já mesmo o roteiro que a consciência segue onde ela vigora como orientação “superior” do pensamento: no intelectual – a petição de princípio de quem sabe. O fenômeno da “consciência subliminar” deve-o explicar, ao preencher de conteúdo pré-moldado a cabeça do intelectual com seus inumeráveis vícios de linguagem, clichês, slogans, paralogismos (ou sofismas), fórmulas hipnopédicas, etc., niilismo “humanista”, rancor à realidade, remorso piegas e impenitente, e histérica desfaçatez.

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Inocência compulsória

O misterioso de uma reverência quase instintiva pelos temas da cartilha (perfurada!) da esquerda, como o do “conflito de terras” – i.e., de criá-lo onde ele não houver –, que em entrevista, durante a última Feira do Livro (2007), suspirou em frente ao jornalista que a havia coberto em algum lugar pouco abaixo do equador. O jornalista testemunhara o pós-conflito, e registrou as mortes violentas, as emboscadas, a condição subumana de crua torpeza do homem local, cujo trabalho parecera a Ostermann motivo de inveja: “Te invejo, sabe?...”, disse ele ao entrevistado, buscando aquela velha fantasia pieguíssima do intelectual engajado na denúncia velada de qualquer coisa que possa mantê-lo desencantado com o mundo dos homens, mas com aquela faísca acesa que não é outra coisa que o orgulho de si mesmo, que é o que o leva quase às lágrimas com a tragédia dos miseráveis.

Se uma imagem pode ser um clichê – e parece que pode –, algumas personalidades parecem que tem o mesmo destino. Não dá para pedir muita consciência a esse tipo intelectual, que acaba envelhecendo neurótico, identificado de personalidade com o clichê que repetiu ao longo da vida. Nesse ponto, e com alguma sorte, só o velho Alzheimer poderá libertá-lo.

Ostermann se referia ao entrevistado ter estado no local e ter podido cobrir um fato tão notável, pela condição subumana, porém alheio ao estado de indigência moral que está secundado pela idéia deslocada de alguma injustiça pela posse das terras. O bang-bang sem mocinho é transformado em prosélito do “povo brasileiro”, reconhecido na figura do índio espoliado, mas também na do pobre-coitado desalmado, por alguma referência ao que aquele conflito representava no imaginário de pesadelo igual ao do patético livro de Charles Kiefer, Quem faz gemer a terra.

O miserável de espírito, que por abandono do Estado já não encontra sentido na vida, e dá-se por morto, alimentado pelo ressentimento de que é um inocente, e, por tudo, e por honestidade à crueza do mundo, sem pecados segundo seus mentores intelectuais, amotinados contra um sistema injusto, armados de suas indefectíveis opiniões-ferramentas: uma chave-inglesa para apertar-lhe o pescoço, um guarda-chuvas para estocá-lo, uma foice para cortar-lhe a cabeça, etc..

O uso semiótico de ferramentas verbais para ajustar a realidade leva à recíproca das ferramentas usadas como argumentos, a se acreditar que uma chave de fendas possa ser usada para coçar o tímpano, ou os exemplos anteriores.

É daquele pobre-diabo imaculado que a esquerda para-miliciana e estratégica, a pretexto de “consciência superior” (cartão perfurado) – que já não pode autodenominar-se “ética” –, retira a defesa incondicional de um inocente que se deriva de uma abstração equívoca chamada “direitos humanos”. Dessa pecha – ou, por fazer-se deste isso – inverte-se cinicamente o sinal entre criminoso e vítima, atordoando à injustiça que marca essa inversão, e desde aí justificando a pureza de qualquer vingança torpe.

Assim, desde logo absolvido da transgressão social cometida em vista de sua origem miserável, seus crimes não são seus crimes, são da sociedade; as ações, portanto, feitas por este Cristo novo, sem pecados, acabam gozando de destino divino. E, por delegação, a missão apostólica aos “intelectuais”.

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Cultores do diabo e...

...A magia negra da inversão

O mecanicismo (1662), como se sabe, é uma das ciências ocultas mais difundidas no Iluminismo, que deu na fé de La Matrie, em Kant, Hegel e em Marx, em Auguste Comte e na Modernidade.

Daquela época temos a prática moderna de arrancar cabeças para melhorar um estado de coisas: chamamo-lo, simplesmente, “Estado”. O pensamento crítico nasceu, senão originalmente, uma vez mais, ali, e é, como não poderia não ser, na fonte nua um tipo de misticismo. A visão de mundo ocultista, que jaz no nascedouro da Modernidade, invocou a luz para deduzir desde aí o estado de coisas, de cujo entendimento derivou o Estado moderno, e toda uma tradição apostólica da apologia escatológica pela base.

O bem-estar do povo é o fim de que todos os meios devem ser usados pelo Estado para realizar. O “crítico místico”, no sentido do que se expôs acima, o “intelectual” moderno – seu papel é agir como uma seta que mira o erro de todo sistema político e, como solução, apontar quem deve ser beneficiado por fim.

Nada mais simples que apontar a solução por quem deve ser, por fim, beneficiado – e desde aí tirar que qualquer meio que o almeje seja um fim em si.

Por alguma fabulesca dignidade por quem luta pela terra, Ostermann chega à cumplicidade intimista para com as causas sociais, mas o exemplo daquela vez (de novo) era um bang-bang sem mocinhos, onde a torpeza do ganancioso garimpeiro (a mando ou não de um senhor rico) só se compara ao ridículo a que índios e caboclos estão expostos pela miséria, destruição da cultura e tráfico social no centro do conflito.

Mas as mortes são associadas ao “conflito por terras”, como se esse fosse um movimento espontâneo e nada conduzido por baixo, obscuramente, que produz e mantém uma injustiça simulada atribuindo-lhe à herança perene das oligarquias espoliativas, as quais se paga tributo aprendendo-lhes os meios e justificando a violência mais crua por algum direito histórico inventado batizado em sangue novo.

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Consciência de classe

O anti-americanismo na imprensa pode não ser, algumas vezes, mais que cacoete, mas ficou claro no caso do resgate de Ingrid[3], comentado no programa Sala de Redação, que coincidiu (não por acaso) com o dia da independência dos Estados Unidos. Sobre índios e denúncias simuladas, vê-se comoção e cumplicidade; sobre o modelo da democracia americana, nenhuma palavra – e nem me venham dizer que há crueldades lá, e falsificar o modelo pelo que ele falha, invertendo a solução positiva pelas imperfeições.

No programa Gaúcha Entrevista o ar chique-cult disfarça a subserviência do intelectualismo de Ostermann, que não passa nunca de uma cumplicidade a qualquer custo com o entrevistado – a propósito, que é uma das condição mesmas pelas quais se reconhece um “intelectual”, sempre tão agradável com o beletrismo e o supérfluo, e tão ordinário, se já não criminosamente negligente, com o essencial –, chegou mesmo ao ridículo da inanição em entrevista recente com Roberto Shinyashiki.

O guapo ouvia do entrevistado que o futuro do livro, em vista das tecnologias digitais, era tornar-se “presente”, com edições mais luxuosas, e no demais, tornar-se uma concessão digital. Ostermann mostrava um constrangido desconforto, mas tudo que se viu dele, apesar da clara indisposição com o que o “guru” motivacional falava, foi nada mais que gemidos patéticos de tolerância, hesitantes e desconfortáveis.

O intelectual pode ter essa cara, absurdamente educado com o supérfluo, com a mentira, com o paralogismo, com a magia negra da inversão, com a trucagem semântica do neologismo, e sem já poder perceber que o que vê deve ser repudiado, adere – “superior” – ao controle de sua repulsa pelo indefectível direito democrático que a polidez concede à mera opinião e à fantasia delirante – senão à necessária subserviência aos ossos do ofício [4] e à cumplicidade do “espírito de solidariedade”, que eu chamei, certa vez, quando ainda na universidade, “acordo entre canalhas”. (Mal sabia eu da extensão disso...).

O programa de entrevistas, que já se tornara há muito um exercício de beletrismo depressivo, tem par com aquela frase de Ìngrid: “um mórbido exercício de desperdício de tempo”, e de culto – martirizante – ao supérfluo.

A defesa retórica [e irrefletida] de temas “sociais”, que pese parece não seja de má fé, mina a imparcialidade do programa – se bem que não seja apenas seu privilégio, mas pecado de toda a grande imprensa remunerada. E assim mesmo, como ocorre com tudo sob esse termo, cuja abstração coletivista não pode tomar outra forma que a de chavões esvaziados de qualquer sentido, sequer algum valor prático ou qualquer unidade teórica, e que alimenta, quando muito, conversas de intelectuais em mesas de bar, lugar já mesmo por excelência da atividade intelectual de massa (intelectuais, filósofos e acadêmicos). O que, é claro, não é dito com palavras inteiras, mas alusivamente, na entrelinha do gesto performático, tão a gosto do radialista que domina seu métier.

Mas se o próprio ofício é o conteúdo do que há a comunicar, passa à primazia deste sobre o debate, formando um quadro em que a moldura é o próprio meio de expressão e não a pintura ou, já a se identificar ambos. Algo assim tem muito pouco de intenção consciente. A consciência mesma já está submersa no modo mesmo que se manifesta discursivamente, e o seu conteúdo – que, coisa bem moderna, não raro é a precisa falta dele – já não pode deixar de estar perdido por uma uníssona algaravia.

E se a forma não muda, o conteúdo é só o efeito caricato, moldado ou “sovado” daquela, e a tudo o mais, fim pelos mesmos meios.

A consciência subliminar está sempre abaixo do nível em que ela se expressaestá sempre submetida de modo a ter a consciência apenas ao modo do que a constitui. Tudo assim sai deformado, seja qual for o conteúdo emoldurado, ela sempre conclui não como o faria uma ideologia, mas ao modo de ideologias.

A falta mesma de lastro lógico e senso de realidade faz a mente subliminar permanecer suscetível de discursos que se falam a si mesmos pelo falante, possuído pelo discurso de um tempo, de um lugar, de um grupo de pessoas, ou mesmo de algum lugar do passado, de ideologias, etc.. E, ora: falar abaixo do limiar de consciência é falar outra língua que a da consciência, senão, é manifestação do fenômeno bem moderno da xenoglossia, de algo que possui a consciência e fala pela boca de quem nada fala.

Não estranha que qualquer “consciência”, no caso de uma mente subliminar, vá dar no reconhecimento de algum consenso improvisado para o momento; é assim a consciência subliminar: a mensagem que dá é de uma lógica interna subvertida à estrutura do próprio consenso. Quando a “memória da moldura” não consegue enquadrar o assunto, o consenso, seu símile, toma o lugar, ocupando a consciência subliminar de sua vocação essencial ao ócio cooperativo. Não é d'outro modo que fala Ostermann nos casos comentados até agora.

Suspeito já que os ossos do ofício sejam aqui o arcabouço da consciência de classe [5] – consciência outra, cujo fundamento é o pesadume e a ausência.

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A'utoridade


Uma das coisas que aparece logo à consciência subliminar como irresistível é a submissão à “autoridade”. Se bem que a qual sempre provisória.

No dia 4 de julho de 2008, Pedro Ernesto Denardin conversa com o dissoluto Iotti no programa Show dos Esportes, e, para desconforto de Denardin, o cartunista fala muito por alto e etilicamente qualquer coisa desabonadora sobre Lula, e ouve do apresentador que ali ele não ia falar do presidente, porque “ele é uma autoridade”.

No início do artigo “O estilo Pavlov de governar” (Jornal da Tarde, 2003), Olavo de Carvalho escreve, sobre Lula, que:

a gente tem de tratá-lo ao mesmo tempo com a reverência do cidadão comum à autoridade presidencial e com a condescendência paterna do adulto letrado para com um rapaz de pouca instrução. / É preciso levá-lo totalmente a sério, para evitar o risco de ofendê-lo, e não levá-lo a sério de maneira alguma, para evitar que suas palavras ofendam nossa inteligência.

Como a noção da segunda passe totalmente despercebido a Denardin – por motivos intrínsecos –, sobra a primeira, o respeito à “autoridade presidencial”, em qualquer condição.

Quando Raul Pont usou o contra-argumento “da autoridade”, diante da consistência das refutações do ex-contador Darcy Francisco Carvalho dos Santos às suas declarações ao Le Monde Diplomatique Brasil, o que fez foi, invertendo o ônus da prova, quando já não tinha mais ao que recorrer, senão tentar reconhecer por blefe o que pelas fontes e pela lógica punham evidente e a pletora de mentiras ditas em entrevista àquela revista.

A “autoridade”, num e noutro caso, é usada em perspectivas opostas, porém com o mesmo entendimento do que esta seja. É a mesma falta de entendimento do que seja autoridade quando é reconhecida por diplomas biônicos. Num caso se reconhece o diploma e se mantém deferência para com o portador daquele (mesmo quando é só um formalismo vazio ou inconseqüente); no outro, é justamente o entendimento da autoridade como truque retórico que o faz denunciar a aparência de autoridade, negando-a a quem, no caso, representava a autoridades das fontes primárias em questão.

Além disso, é usual desse espírito de malandro da imprensa, reconhecer autoridade no presidente sem cobrar-lhe, por óbvios ossos do ofício, as responsabilidades do cargo, mas o que já o colocaria na premência de ser considerado um criminoso. Não se espere nada disso, mas fuga covarde para um estado de normalidade mais acolhedor, como mostrou esse caso de cega deferência para com a “autoridade”.

Ambos os casos depõem mais sobre a condição de indigência de Denardin e de Pont que qualquer outra coisa. Mas o que em Denardin é auto-hipnose (e na imprensa de modo geral), em Pont é magia negra.

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Hitler não sabia de nada

A defesa incondicional da imagem do presidente pela imprensa, no particular que cabe aqui à província, foi novamente manifestada pelo mesmo Denardin, tempos depois[6], no caso da crítica do goleiro da Seleção, Júlio César, quando declarou que as críticas de Lula deveriam levá-lo a torcer para o time argentino.

Mais uma vez, a “autoridade” de Lula veio à baila, com a subserviência incestuosa do locutor.

Wianey Carlet[7] foi pelo mesmo caminho, não bastando a crítica ao goleiro da seleção, teve que sair-se com esta: “Eles [os jogadores] não conhecem a realidade que eles tem que decidir, muita fome, corrupção, eles vem aqui, jogam e acham que estão falando grande coisa”.

O sr. Wianey por certo deve conhecer essa realidade, uma realidade que sabe que não sabe nada, mas que é, por certo, muito dura, onde o presidente da república luta contra a “corrupção”, a “fome”, os problemas da economia, estes sim, que nós, mortais, não podemos saber nada mesmo, mas Lula... ah, Lula sabe. O próprio filho do Lula, conhecendo bem estes problemas, resolveu ganhar um dinheiro com a ajuda dos amigos do papai para garantir o futuro da família. Mas a família parece que não está satisfeita, pois, como noticiou Diogo Mainardi esta semana, quase toda a família de Lula está envolvida em denúncias de práticas criminosas. E o que fez Lula? Tratou logo de acusar o jornalista, alusivamente, de “roubo”.

Já é efeito, por certo, de dano mental sério ouvir do jornalista que o presidente, atarefadíssimo como é, tem coisas muito importantes para lidar, como a corrupção... – corrupção, não se esqueça, de que ele próprio é acusado, além de outros crimes constitucionais (para os quais não se tem um denunciante) e outros contra a inteligência, e não estes bobinhos equívocos de Português, que é o que se quer fazer passar a extraordinária indigência de Lula, inconsciente para questões sérias como saber diferenciar o chavismo do parlamentarismo inglês.

Alguém filmou Hitler nos campos de concentração, na época do holocausto? Senão, o risco do mesmo tratamento que dão a Lula ainda vá acabar por absolver Hitler por injustiçado que seja.

O sr. Wianey, assim como o sr. Denardin tem responsabilidade pela posição que ocupam numa rádio tão poderosa, pela parcialidade submissa que assumem e pelas responsabilidades que se negam e, para isso, tem que não vê-las também no presidente vermelho que está no poder.

O mais próximo que Zero Hora chega da cadeia de fatos ardilosos, acabou dando no artigo “As conexões das FARC no Brasil”[8] com a intrigante opinião de Klécio Santos, que deu por “flerte” as conexões do PT com as FARC e, PASMEM, deu por “uma relação que chegou bem perto de Lula. Uuuu.

Os atuais 80% de aprovação de Lula devem muito a estes jornalistas descomprometidos com a verdade, e pelo culto do direito inalienável à opinião desmistificatória e, desde este direito, à implicação de que está também garantida, por ele, a condição metafísica da dúvida absoluta e das incríveis dificuldades que ninguém, a não ser o presidente da república, pode não saber resolver sem arcar com as conseqüências.

Denardin dá o tom da hipnose mais uma vez: “Eu levo em conta muito o que diz o presidente, afinal, ele é a maior autoridade do país.”.

Sieg Heil!, Sieg Heil!, Sieg Heil!sr. Denardin!

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Sócrates às avessas

A subserviência piegas dessa babujosa adoração à abstração vazia da autoridade, mostra que Denardin entende tanto de autoridade quanto Lula de Democracia, o que não os impede de repetir à náusea suas opiniões, que ganham força de verdade pela simples exposição à mídia que ambos têm, respectivamente, atrás de seus muros.

Arnaldo Jabor já havia declarado que a inépcia de Lula tornou-o num tipo novo de estadista, que Lula inventou um “maquiavelismo macunaímico”[10], que pela absoluta inépcia, letargia e submissão, impediu uma guerra no continente por ter feito papel de mediador boboca, evitando que os ânimos se acirrassem[11].

Depois de Jabor, Denardin – naquilo que já parece mais epidemia – entoa o mantra hipnopédico de que ele não sabe de nada, ninguém sabe de nada, e conclui: mas ele deve saber o que faz. É isso?

Paulo Sant'ana repetiu a frase, invocando sem sabê-lo, a tese de Jabor do novo estadista. Seriam agentes de desinformação, se pudessem ser conscientes disso. Talvez por essa razão não seja ainda o pior – ou talvez o seja, disfarçado.

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Propaganda por consciência

Observar o que dizem os candidatos de si mesmos deveria ser o óbvio para a imprensa menor; não ir buscar onde se deve a figura mesma dos candidatos por trás do discurso, é já omissão dos principais veículos.

Como ocorre com Lula, a imprensa amorfa reproduz as vozes sem decidir pelo evidente nem mesmo em relação ao que é absurdo. A imprensa trata já quase todos os assuntos que se possa dirigir a palavra como absolutamente “relativos” às opiniões, e, obscurum per obscurius, nega o absoluto disto por auto-contaminação, num processo iterativo que se alastra, em metástase, como o câncer, contaminando todo o “sistema” – isto é: a própria consciência (v.g., no plano elocutório).

As manifestações desta consciência coletiva são, e não podem não ser, subliminares. A consciência passa a ser qualquer consciência que ouça a algaravia de vozes (opiniões) e, abaixo destas, permaneça no estado de incapacidade mental de não saber sequer se sujou as calças.

Derivada das opiniões está este modus brasileiro de não encontrar responsáveis nos responsáveis formais. A imprensa é porta-voz subserviente da consciência subliminar que tende a difundir a sensação de uma normalidade patológica.

O modelo desse jornalismo é o de Arnaldo Jabor. Foi ter à frente uma só vez o negro candidato e ele já repete quase como um mantra fetichista as expressões “change”, “negro sexy” e sobre seus “conteúdos de discurso” (!), claro, negligenciando tudo que haja de supersticioso (isto por suspeitoso) sobre a vida do homem. A propaganda é a biografia – chama-se a este, que saiba, “filho de chocadeira”. Assim, o mesmo, do mesmo modo, atribui-se à suposta capacidade de Lula para negociar e, antes, as virtudes éticas do PT – a mentira mais repetida de todos os tempos –, que já era uma verdade ao mais claro estilo Goebbels. E quase ninguém mais era capaz de pensar (e não ousar) noutro sentido; o estupor da repetição é o estado e o processo mesmo da consciência de nossa boa gente por seus porta-vozes (ir)responsáveis da imprensa. Estes com culpa pelo estado daqueles.

Outra loucura despercebida pela imprensa, é esta tal “mudança”. Todos vão mudar (para melhor, claro), e os que, como em Porto Alegre, estão no poder, vão “continuar a mudança”. O nonsense das campanhas políticas é um dos sintomas da consciência subliminar, e que se aceite algo assim, é já contribuir para um estado de embotamento coletivo que tem o aspecto intensamente desejável de normalidade.

O jornalista, quando se afeta a “crítico”[12], nega, por seu relativismo, que possa saber qualquer coisa que não se reduza, pela crítica, a uma mais voz de opinião entre vozes de opinião. Pois não há lastro cognitivo para afirmar qualquer coisa, senão o próprio relativismo (!); e, isto, pelo nonsense que causa, cria o efeito colateral de permitir, ainda assim, que o guapo continue falando. Com isso, no máximo, passa-se à categoria de “opinião” tudo que se diga, mesmo quando se trata de um metafísico 2 + 3 = 5, para em seguida assinalar “As opiniões aqui não são necessariamente as da empresa”.

A certeza da incerteza cinde a cabeça a ponto mesmo de passar-se a ver apenas ao que falta totalmente sentido ou nexo.

A eqüidade assim tornar-se em molestação cognitiva para, aos poucos, com a repetição, conduzir a políticas não discriminatórias, igualitárias, e daí 2 ≈ 3 vira um ergo: 2 + 3 = 4 ou 6. Se chama “aparar as arestas”. Claro que esse resultado é produto, como fica evidente, de prévio consenso.

Assim, Goebbels, que por aqui encarnou em Duda Mendonça, o marqueteiro petista, passou com naturalidade, pode-se dizer, a assessor presidencial na Organização Mundial do Comércio. Amorin sabe do que fala quando cita o chefe da propaganda nazista para referir-se às práticas ardilosas dos países ricos na OMC.

Mas se Duda Mendonça é um mestre ilusionista, Jabor é um expert em prestidigitação performática, para tornar a moldura do cineasta em artifício de jornalismo. Não é à toa que Jabor acredite no slogan Change” de Barak Obama, pois reconhece na moldura o quadro todo. O que mais esperar de um cineasta que se faz de jornalista? Como já deixou claro antes Michael Moore: imparcialidade é nada, propaganda é tudo.

Obama, lance de três, jump, acertou...”. E se erra, pergunta retoricamente Ruy Carlos Ostermann.

Ignorando McCain, que “dizia alguma bobagemem algum lugar, Jabor tem repetido com o silêncio sobre o candidato republicano. Limita-se a odiar a política da guerra. Bem simples tudo, como sempre. Ostermann já se limita a nada dizer sobre McCain, que apareceu nesta semana de mãos dadas com o Dalai Lama, pedindo a liberdade do Tibet. Mas que reacionário, não?! Ir contra Wei-Guang-Zheng – o Grande-Honorável-Justo – o partido-nação socialista chinês? (Reacionário!)

Obama estava na Alemanha, fazendo um discurso de esforço imaginário no qual dizia que não era mais tempo de construir muros, mas tempo de ligar o mundo construindo pontes. (Um verdadeiro pontifex novomundista). O que quer que queira dizer isto, deve ser algo bom – supostamente –, e, ao mesmo tempo, por seus conteúdos de discurso, dos quais se afeta Jabor.

Goebbels é um desses caras que dá para chamar de profeta moderno: “Não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um determinado efeito”.

Os jornalistas devem muito a Goebbels, e depois do sucesso estrondoso de Duda Mendonça, não estranha quando todo o jornalismo vai-se tornando, aos poucos, em propaganda.

Notas

1. Cf. Leon Festinger, Teoria da Dissonância Cognitiva, p. 27s.

2. Cf. op. cit., Festinger: §3, p. 22.

3. Em Flatulência intelectual, de “Os intelectuais da ordem de Monty Python.

4. No remate de O intelectual pescador, op. cit..

5. V. “Ofício proibidode Olavo de Carvalho.

6. Programa Show dos Esportes, de 05.09.2008 [21:34].

7. Já não lembro onde, mas, se não me engano, é no Supersábado.

8. ZH, Sexta, 1º e agosto de 2008; capa e pp. 4-6.

9. Na transmissão do jogo do Brasil contra o Chile, dia 07.09.08, às 23:04.

10. V. “Fé na inépcia, A fé na negação coroa o rei nu, e nota 8.

11. V. “Presidente Rafael Correa decide expulsar a Odebrecht do Equadore “Amorim diz que Petrobras pode deixar Equador caso não haja acordo com o governoe notícias relacionadas.

12. Entenda-se por “crítica” um momento de simulacro, nas redações dos jornais e revistas, a favor da opinião oposta, geralmente veiculada por autor ocasional e menos importante.

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