maio 09, 2014

O caminho errado (de novo)

Comoas pessoas chegaram a essas conclusões? Você entenderá que o grande mal do mundo não é a miséria, nem a guerra: é a interpretação de texto.” --- D. Coimbra, Uma história do mundo (p. 220).
"Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?" --- 1 Coríntios1:20.
Zero Hora,18 de Abril de 2014, p. 2, David Coimbra, "O sal da terra" [1] --- ou, um breve tratado para hipertensos.
'Sejais o sal da terra' é o que ouve, mas 'Sal demais faz mal a saúde' é o que entende no lugar o comentarista leigo sobre Mateus 5:13-14. O leigo não acredita nas escrituras, mas já não pode deixar de buscar uma forma de moral que substitua a religião. Uma forma, no entanto, mais moderada, livre dos excessos dogmáticos de outrora. Mesmo o historiador como Arnold Toynbee sabia que o homem não podia viver sem religião, por isso seria inevitável que o que quer que se opusesse a ela deveria a substituir e não a destruir. Explorar o lado filosófico das religiões e extrair daí uma moral convencional, uma moral de regras universais, naturalmente aceita por todos, pareceu sempre muito mais razoável para o leigo, que faz do seu "não julgamento" profissão de fé. Já há tempos tenho a impressão de que esse termo é um equivalente, num outro mundo possível, ao princípio da própria torpeza, a qual passa, com essa nova moral, a ser tolerada como padrão mesmo de normalidade. Esse é o "leigo", que interpreta as passagens bíblicas reduzindo-as a alguma ciência, sem ter conseguido ainda dominar a capacidade da boa leitura.
O sal de má qualidade na região do Mar Morto, misturado a sulfato de cálcio se chama gipsita (Ca(SO4)), era usado na época de Jesus para marcar caminhos, em contraste ao "sal" da terra, contraste entre a fé que se conduz no caminho da Verdade e o caminho consensual ou utilitário. Afinal de contas, parece que o inferno pode ser atenuado, isto é, pavimentado com ternura, e cheio de boas intenções e benevolência, como o sal pode ser substituído por uma variação de enxofre que passa como se sal fosse --- até, pelo menos, ele começar a comer as sandálias dos transeuntes. A ambigüidade do 'equívoco' cometido por David carrega o sinal de desvio que extravia da verdade quando justamente pretende instruir; talvez sob o efeito daquela loucura divina que Paulo referiu como superior à sabedoria. Essa loucura parece que deu uma volta na sabedoria que David alardeia como coisa mais sensata, e enquanto se defendia do medo, não se viu perseguido, como fazem aqueles “sombras” com as pessoas desavisadas nas ruas, e acabou imitado sem que o tivesse notado. Fazer do testemunho da verdade, para além dos discursos, referido na metáfora do "sal da terra", um caminho consensual, bem, este é o objetivo da moral leiga --- ironicamente, um sal de enxofre.
O que o "leigo" quer é atenuar a lei moral numa moral civil, uma moral consensual, essa mão leve ao salgar que busca uma "medida" das coisas que poderia, com a sabedoria racional da boa proporção, um substituto das grandes religiões. Mas o "caminho do meio" da Nova Era é, afinal de contas, apenas um modo de errar da verdade. Agora, muitos de nós não dirão abertamente, mas pensarão como Pilatos: "Mas o que é a verdade?" A verdade é uma função da evidência, dizia um cientista político no século passado (os milagres), e é aquilo que você sabe perfeitamente bem, mas talvez mais importante, e para efeito moral, aquilo que quando você encontra, não nega ou dissimula por conveniências. A verdade é lenta --- "Veritas filia temporis", dizia Tomás de Aquino ---, nela somos o que somos, inclinados a ela hesitamos, cuidadosos, reflexivos, dá para se tornar um bom leitor lendo com alguma reverência a Bíblia. A verdade de Pilatos é a do estado romano, aquilo que ao poder convinha como medida para atender a uns quantos --- à exceção descarada da própria verdade.
Em "O sal da terra", David Coimbra adverte a quem o lê, antes de tudo, do risco das religiões como o seu dogmatismo moral, com o que ele quer dizer essa mania que a religião organizada tem de estabelecer interdições sobre certos assuntos e ser taxativa sobre outros. Ora, um sábio não é taxativo, ele é vago e pacífico... (ou, pelo menos, a imagem cinematográfica dele o é). David tem medo das religiões, ainda que não consiga dar uma única demonstração de que seja capaz de compreendê-las, nem naquele esforço inicial. Mas não quero fazer parecer que alguém que jamais quis saber, nem buscou em nenhum sentido, em verdade, devesse a qualquer um de seus leitores esse "início" de algo que lhe é alienígena. Não há nenhuma busca em David. Ele teme também as ideologias, ao lado das religiões, porque estas têm pela fé cega o cutelo do julgamento do bem e do mal, fundamento do seu "dogmatismo". Que é o mesmo que dizer que há valores positivos pelos quais uma tradição deva proteger e até lutar para defendê-los. Além do mais, têm também sempre algum mistério para justificar obscuramente esse fundamento. Não; David está esclarecido pelo espírito do seu tempo, e por este espírito nos dá a saber que há uma sabedoria em todas as religiões, uma que, bem ao modo das simplificações dos clássicos do MEC, atalha o que cada religião em particular obscurece ao seu modo. Assim se pode distinguir entre uma raiz pura e seus corruptores e entre a sabedoria dos caminhos bem marcados e a escuridão da fé. A sabedoria de Deus é loucura para os homens, mas para David a loucura de Deus foi psicanalisada por Freud, que no fundo do inconsciente reprimido encontrou um povo favorável a acreditar em peças de propaganda de místicos do cajado oco. O medo, como se sabe popularmente, no entanto, não é bom conselheiro; e o medo da superstição pode acabar por conduzir, antecipando o mal, a outro tipo de superstição, a superstição de que a verdade é tão plana quanto o cotidiano e o tempo presente, de uma claridade, a despeito de artificial, ou justamente por isso, mais cheia de luz do que qualquer treva passada, que já mal se distingue o semblante de qualquer homem, quando então sobram só caricaturas. Todos já parecendo muito taciturnos e embuçados em hábitos certamente "medievais".
A chave do horror civil, de uma época muito mais polida que qualquer outra tenha sido, vem de uma dogmática moral maniqueísta no alinhamento entre as palavras "fé", "dogma" e "religião". "Horror! Horror!" Fecha-se rápido o silogismo de que pelas religiões, crepusculares e morais, matam e morrem --- imaginem só, os santos! Eles morrem "em nome de...". São radicais, mesmo quando não matam! Porque eles reforçam a força que justifica o sacrifício. E aqui a sabedoria de J.C. tem necessariamente que encontrar a sua loucura, que há certo tempo o filho do homem não poderia negar mais que desconhecesse que acabaria morrendo pela boca. Foi um mestre moral doidivanas. Mas algumas coisas ficam mais claras no fim do texto de David, ou o que ele e essa época frívola entende por religião, a tal de "espiritualidade". Essa coisa sentida, e meramente sentida, quer encontrar num estado emocional atenuado o guiamento moral. Julgar é o único pecado! Chesterton disse, certa vez, que a "tolerância" é o que sobra quando se perde de vista todos os valores. Uma superficialidade que aparece quando o bem e o mal são apagados (bem como seu fundamento misterioso). Sem a perspectiva (sim, é uma perspectiva) do bem e do mal, sobra um sistema de valores postiços que se faz sobrepor àqueles, ou equivalentes emocionais. O sentimentalismo reconhece a fraqueza e a carência como valores em si. Por isso o tom de voz é o primeiro a ser controlado, é o nó na garganta que combina com o terno moral com que o hábito social reconhece como aceitável. Pelas palavras de Marta Medeiros, um vestuário de hábitos civis está cortado por uma estética moral que racionaliza a dureza do julgamento para certa "elegância moral". O sentimentalismo faz da moralidade coisa de consumidores capazes de comprá-la, é um fetiche de espíritos pobres.
"Não oponhais resistência ao mal, e se alguém te bate na face, oferece-lhe também a outra..." --- porque que mérito há em amar o justo, ou amar a quem o ama? O bem e o mal objetivos são a condição do Sermão da Montanha, a paixão do Cristo é a condição do Sermão. A verdade, para a qual Pilatos lava as mãos, para o perspectivismo conveniente ao estado romano, aquela verdade é deixada morrer. Não se faz ali um julgamento do bem e do mal, mas um ajuste de interesses, paga-se à civilidade, à moralidade civil, à legalidade, embusteiras e hipócritas: são umas e outras equilíbrios só um pouco distantes da Verdade. Para David, o amor cristão é um tipo de "não vale a pena" ao estilo budista da Nova Era, gira em torno do próprio umbigo de modo que ignorância e iluminação ficam atenuadas e indistintas num tipo moderno de quietismo. Mas o caminho do meio é só um jeito de errar com alguma elegância.
A lisonja da "profundidade" ao Sermão da Montanha, de David, não passa do reflexo de céu de um espelho d'água: o sentimento de comoção ante um pai que chora por um filho reflete o amor instintivo, justamente o que a passagem que chama o homem de "sal da terra" valoriza no sentido oposto e contra o sentimentalismo que ali se encontra. O publicano, tão baixo entre os judeus da época, também ama o filho ferido. 'Então no que tu te distingues deste?' O ímpio também ama os que o amam. David quer ver na passagem em que Jesus diz aos presentes "Sois o sal da terra... e a luz do mundo" apenas aquilo que o homem é conforme aquele sentimento compassivo que é humano, sem ser cristão. Em Uma história do mundo, David Coimbra fez uma interpretação da história em base psicológica e materialista, o que levou a uma leitura dos textos sagrados como efeito direto, raso e rasteiro, dessa dupla base. Aqui, novamente, David não fez outra coisa ao falar de Jesus Cristo, nas suas palavras, como "um dos mais revolucionários filósofos morais" da história (um "homem de esquerda"?). Mas fosse só isso, perder-se-ia quando muito na tradição rabínica, ao ponto mais longe que um erudito judeu mais liberal poderia ir, em concordância com a tradição que os Evangelhos revalidam e não diferente desta. David não quer perder de todo a beleza de reconhecer J.C., e depois de passar uma rasteira nele, coloca-o, de si mesmo, num posto que lhe parece bem alto, o de sábio. Sabedoria e não santidade, como ele mesmo trata de explicar querendo fazer com isso parecer mais sensato o Sermão da Montanha. O homem é capaz do bem e do mal, como poderia ser este a luz do mundo? É nesse ponto que o Sermão faz sentido, pois são os apóstolos na Fé e na Verdade que são a luz do mundo, não o homem, não o julgamento que media, no meio do caminho, entre perspectivas distintas. A tolerância, quando ao lado da Verdade, absolve Barrabás.
Mas David já havia esclarecido que não estava tratando do "Jesus cristão", ...como se houvesse outro! --- outro pelo qual se pudesse, colocando-o no centro dos Evangelhos, reinterpretá-los. Mas essa dogmática revolucionária não é nova, ela reconhece em Jesus, quando muito, esse filósofo moral cuja mensagem fica mais sensata modificando-a no que parece misteriosa. Melhor reconhecer só uma profundidade poética e fingir que ela passou desapercebida. Essa declaração patética é um fetiche intelectual, e tende já aqui a rebaixar Jesus de sábio a "filósofo inovador", que, sem inventar nada, deve quer dizer outra coisa. Mais um homem espirituoso, capaz de frases de profundidades ociosas, tão ociosas quanto segredos ainda não desvendados por outros evangelhos de um modernismos pseudo-epígrafo. 
O "sábio" que se produz hoje em dia não passa de um frasista (aprovado pelo MEC). Daí porque toda a "mensagem" de Jesus é mais palatável quando mais insossa: os exageros da culinária cristã, qualquer coisa além nas frases em João, são a insensatez de uma época obscura. David tem o instinto armado contra as ideologias que o ativismo revolucionário advertiu outrora e o desconhecimento técnico de que essa ideologia está sempre disfarçada para que possa ser adotada --- como, por exemplo, quando esta faz Jesus parecer um sábio no lugar de Deus. O bom leitor lê a “ideologia” do livro quando o lê, e não a sua própria, seja lá qual for. O Jesus não-cristão é um dogma original anticristão e uma liberdade de entendimento que parece bem mais aceitável à ciência mais obscura de todas, a ciência da interpretação de textos. Em vez de ler em busca de entendimento, os Evangelhos são explicados à luz dessa ciência sem fronteiras claras que quer poder compreender Shakespeare antes de lê-lo. David tem razão ao sentir medo destas coisas --- se os fantasmas não existirem, quem os vê não deixa de estar assombrado.
E, por fim, o rogar piedoso de David ao bem do menino é em vão, roga ao nada, a Ninguém. Não tem a quem rogar, pede o bem do menino como um ato interno, que reflete o mal que ele rejeita, como qualquer um de nós. O ato de David de "rogar" é meramente estético --- é o chiste da "elegância moral" que só tem o fim de embelezamento pessoal. David pede o bem como um autista se balança para suportar o mundo de sofrimento exterior, que sua "sensibilidade" sentida exige. ...Vós sois o sal da terra, a luz do mundo, mas se o sal ficar insosso, com que o temperarão? Não há mais temperos, o próprio gosto já parece um barbarismo. O sal de gipsita é sal atenuado, não é bem sal, e nem serve como sal; não é um tempero de verdade, nem um conservante de verdade, como qualquer coisa que não é bem de verdade, é outra coisa. Esse caminho é o caminho mesquinho do sentimentalismo leigo, da moral "sentida", predominante em nossos dias, é um substituto da religião verdadeira. É, portanto, um descaminho da verdade, mas um descaminho só pode ser o que é porque tem a aparência de caminho: caminho alargado, pavimentado e levemente inclinado... para baixo. Já ouvi essa história antes.
*
David Coimbra reproduz no texto “O sal da terra”, como já havia feito no seu livro Uma história do mundo, o argumento do “Livro verde” criticado por C.S. Lewis em A abolição do homem, mas num movimento adiante, quando já deixa aparecer um sistema de valores substitutos àquele tradicional. A base dessa substituição, e que fundamenta a sua interpretação das passagens bíblicas citadas, é a mesma do “Livro verde”: relativismo, utilitarismo, hedonismo, e para certo verniz moral a partir de uma base amoral, surgem, como em Marta Medeiros (v. “O verniz 'espiritual' daestultice supersticiosa”), sentimentos benignos que se faz passar por “valores” objetivos e capazes de constituir uma moral civil, substitutos da religião. Como advertiu C. S. Lewis, a sociedade que aceitar estes valores está fadada a desaparecer, pálida e vazia, indo da burrice à loucura.

Notas
1. “O sal da terra

O caminho errado (de novo)

Como as pessoas chegaram a essas conclusões? Você entenderá que o grande mal do mundo não é a miséria, nem a guerra: é a interpretação de texto.” --- D. Coimbra, Uma história do mundo (p. 220).
"Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?" --- 1 Coríntios 1:20.
Zero Hora,18 de Abril de 2014, p. 2, David Coimbra, "O sal da terra" [1] --- ou, um breve tratado para hipertensos.
'Sejais o sal da terra' é o que ouve, mas 'Sal demais faz mal a saúde' é o que entende no lugar o comentarista leigo sobre Mateus 5:13-14. O leigo não acredita nas escrituras, mas já não pode deixar de buscar uma forma de moral que substitua a religião. Uma forma, no entanto, mais moderada, livre dos excessos dogmáticos de outrora. Mesmo o historiador como Arnold Toynbee sabia que o homem não podia viver sem religião, por isso seria inevitável que o que quer que se opusesse a ela deveria a substituir e não a destruir. Explorar o lado filosófico das religiões e extrair daí uma moral convencional, uma moral de regras universais, naturalmente aceita por todos, pareceu sempre muito mais razoável para o leigo, que faz do seu "não julgamento" profissão de fé. Já há tempos tenho a impressão de que esse termo é um equivalente, num outro mundo possível, ao princípio da própria torpeza, a qual passa, com essa nova moral, a ser tolerada como padrão mesmo de normalidade. Esse é o "leigo", que interpreta as passagens bíblicas reduzindo-as a alguma ciência, sem ter conseguido ainda dominar a capacidade da boa leitura.
O sal de má qualidade na região do Mar Morto, misturado a sulfato de cálcio se chama gipsita (Ca(SO4)), era usado na época de Jesus para marcar caminhos, em contraste ao "sal" da terra, contraste entre a fé que se conduz no caminho da Verdade e o caminho consensual ou utilitário. Afinal de contas, parece que o inferno pode ser atenuado, isto é, pavimentado com ternura, e cheio de boas intenções e benevolência, como o sal pode ser substituído por uma variação de enxofre que passa como se sal fosse --- até, pelo menos, ele começar a comer as sandálias dos transeuntes. A ambigüidade do 'equívoco' cometido por David carrega o sinal de desvio que extravia da verdade quando justamente pretende instruir; talvez sob o efeito daquela loucura divina que Paulo referiu como superior à sabedoria. Essa loucura parece que deu uma volta na sabedoria que David alardeia como coisa mais sensata, e enquanto se defendia do medo, não se viu perseguido, como fazem aqueles “sombras” com as pessoas desavisadas nas ruas, e acabou imitado sem que o tivesse notado. Fazer do testemunho da verdade, para além dos discursos, referido na metáfora do "sal da terra", um caminho consensual, bem, este é o objetivo da moral leiga --- ironicamente, um sal de enxofre.
O que o "leigo" quer é atenuar a lei moral numa moral civil, uma moral consensual, essa mão leve ao salgar que busca uma "medida" das coisas que poderia, com a sabedoria racional da boa proporção, um substituto das grandes religiões. Mas o "caminho do meio" da Nova Era é, afinal de contas, apenas um modo de errar da verdade. Agora, muitos de nós não dirão abertamente, mas pensarão como Pilatos: "Mas o que é a verdade?" A verdade é uma função da evidência, dizia um cientista político no século passado (os milagres), e é aquilo que você sabe perfeitamente bem, mas talvez mais importante, e para efeito moral, aquilo que quando você encontra, não nega ou dissimula por conveniências. A verdade é lenta --- "Veritas filia temporis", dizia Tomás de Aquino ---, nela somos o que somos, inclinados a ela hesitamos, cuidadosos, reflexivos, dá para se tornar um bom leitor lendo com alguma reverência a Bíblia. A verdade de Pilatos é a do estado romano, aquilo que ao poder convinha como medida para atender a uns quantos --- à exceção descarada da própria verdade.
Em "O sal da terra", David Coimbra adverte a quem o lê, antes de tudo, do risco das religiões como o seu dogmatismo moral, com o que ele quer dizer essa mania que a religião organizada tem de estabelecer interdições sobre certos assuntos e ser taxativa sobre outros. Ora, um sábio não é taxativo, ele é vago e pacífico... (ou, pelo menos, a imagem cinematográfica dele o é). David tem medo das religiões, ainda que não consiga dar uma única demonstração de que seja capaz de compreendê-las, nem naquele esforço inicial. Mas não quero fazer parecer que alguém que jamais quis saber, nem buscou em nenhum sentido, em verdade, devesse a qualquer um de seus leitores esse "início" de algo que lhe é alienígena. Não há nenhuma busca em David. Ele teme também as ideologias, ao lado das religiões, porque estas têm pela fé cega o cutelo do julgamento do bem e do mal, fundamento do seu "dogmatismo". Que é o mesmo que dizer que há valores positivos pelos quais uma tradição deva proteger e até lutar para defendê-los. Além do mais, têm também sempre algum mistério para justificar obscuramente esse fundamento. Não; David está esclarecido pelo espírito do seu tempo, e por este espírito nos dá a saber que há uma sabedoria em todas as religiões, uma que, bem ao modo das simplificações dos clássicos do MEC, atalha o que cada religião em particular obscurece ao seu modo. Assim se pode distinguir entre uma raiz pura e seus corruptores e entre a sabedoria dos caminhos bem marcados e a escuridão da fé. A sabedoria de Deus é loucura para os homens, mas para David a loucura de Deus foi psicanalisada por Freud, que no fundo do inconsciente reprimido encontrou um povo favorável a acreditar em peças de propaganda de místicos do cajado oco. O medo, como se sabe popularmente, no entanto, não é bom conselheiro; e o medo da superstição pode acabar por conduzir, antecipando o mal, a outro tipo de superstição, a superstição de que a verdade é tão plana quanto o cotidiano e o tempo presente, de uma claridade, a despeito de artificial, ou justamente por isso, mais cheia de luz do que qualquer treva passada, que já mal se distingue o semblante de qualquer homem, quando então sobram só caricaturas. Todos já parecendo muito taciturnos e embuçados em hábitos certamente "medievais".
A chave do horror civil, de uma época muito mais polida que qualquer outra tenha sido, vem de uma dogmática moral maniqueísta no alinhamento entre as palavras "fé", "dogma" e "religião". "Horror! Horror!" Fecha-se rápido o silogismo de que pelas religiões, crepusculares e morais, matam e morrem --- imaginem só, os santos! Eles morrem "em nome de...". São radicais, mesmo quando não matam! Porque eles reforçam a força que justifica o sacrifício. E aqui a sabedoria de J.C. tem necessariamente que encontrar a sua loucura, que há certo tempo o filho do homem não poderia negar mais que desconhecesse que acabaria morrendo pela boca. Foi um mestre moral doidivanas. Mas algumas coisas ficam mais claras no fim do texto de David, ou o que ele e essa época frívola entende por religião, a tal de "espiritualidade". Essa coisa sentida, e meramente sentida, quer encontrar num estado emocional atenuado o guiamento moral. Julgar é o único pecado! Chesterton disse, certa vez, que a "tolerância" é o que sobra quando se perde de vista todos os valores. Uma superficialidade que aparece quando o bem e o mal são apagados (bem como seu fundamento misterioso). Sem a perspectiva (sim, é uma perspectiva) do bem e do mal, sobra um sistema de valores postiços que se faz sobrepor àqueles, ou equivalentes emocionais. O sentimentalismo reconhece a fraqueza e a carência como valores em si. Por isso o tom de voz é o primeiro a ser controlado, é o nó na garganta que combina com o terno moral com que o hábito social reconhece como aceitável. Pelas palavras de Marta Medeiros, um vestuário de hábitos civis está cortado por uma estética moral que racionaliza a dureza do julgamento para certa "elegância moral". O sentimentalismo faz da moralidade coisa de consumidores capazes de comprá-la, é um fetiche de espíritos pobres.
"Não oponhais resistência ao mal, e se alguém te bate na face, oferece-lhe também a outra..." --- porque que mérito há em amar o justo, ou amar a quem o ama? O bem e o mal objetivos são a condição do Sermão da Montanha, a paixão do Cristo é a condição do Sermão. A verdade, para a qual Pilatos lava as mãos, para o perspectivismo conveniente ao estado romano, aquela verdade é deixada morrer. Não se faz ali um julgamento do bem e do mal, mas um ajuste de interesses, paga-se à civilidade, à moralidade civil, à legalidade, embusteiras e hipócritas: são umas e outras equilíbrios só um pouco distantes da Verdade. Para David, o amor cristão é um tipo de "não vale a pena" ao estilo budista da Nova Era, gira em torno do próprio umbigo de modo que ignorância e iluminação ficam atenuadas e indistintas num tipo moderno de quietismo. Mas o caminho do meio é só um jeito de errar com alguma elegância.
A lisonja da "profundidade" ao Sermão da Montanha, de David, não passa do reflexo de céu de um espelho d'água: o sentimento de comoção ante um pai que chora por um filho reflete o amor instintivo, justamente o que a passagem que chama o homem de "sal da terra" valoriza no sentido oposto e contra o sentimentalismo que ali se encontra. O publicano, tão baixo entre os judeus da época, também ama o filho ferido. 'Então no que tu te distingues deste?' O ímpio também ama os que o amam. David quer ver na passagem em que Jesus diz aos presentes "Sois o sal da terra... e a luz do mundo" apenas aquilo que o homem é conforme aquele sentimento compassivo que é humano, sem ser cristão. Em Uma história do mundo, David Coimbra fez uma interpretação da história em base psicológica e materialista, o que levou a uma leitura dos textos sagrados como efeito direto, raso e rasteiro, dessa dupla base. Aqui, novamente, David não fez outra coisa ao falar de Jesus Cristo, nas suas palavras, como "um dos mais revolucionários filósofos morais" da história (um "homem de esquerda"?). Mas fosse só isso, perder-se-ia quando muito na tradição rabínica, ao ponto mais longe que um erudito judeu mais liberal poderia ir, em concordância com a tradição que os Evangelhos revalidam e não diferente desta. David não quer perder de todo a beleza de reconhecer J.C., e depois de passar uma rasteira nele, coloca-o, de si mesmo, num posto que lhe parece bem alto, o de sábio. Sabedoria e não santidade, como ele mesmo trata de explicar querendo fazer com isso parecer mais sensato o Sermão da Montanha. O homem é capaz do bem e do mal, como poderia ser este a luz do mundo? É nesse ponto que o Sermão faz sentido, pois são os apóstolos na Fé e na Verdade que são a luz do mundo, não o homem, não o julgamento que media, no meio do caminho, entre perspectivas distintas. A tolerância, quando ao lado da Verdade, absolve Barrabás.
Mas David já havia esclarecido que não estava tratando do "Jesus cristão", ...como se houvesse outro! --- outro pelo qual se pudesse, colocando-o no centro dos Evangelhos, reinterpretá-los. Mas essa dogmática revolucionária não é nova, ela reconhece em Jesus, quando muito, esse filósofo moral cuja mensagem fica mais sensata modificando-a no que parece misteriosa. Melhor reconhecer só uma profundidade poética e fingir que ela passou desapercebida. Essa declaração patética é um fetiche intelectual, e tende já aqui a rebaixar Jesus de sábio a "filósofo inovador", que, sem inventar nada, deve quer dizer outra coisa. Mais um homem espirituoso, capaz de frases de profundidades ociosas, tão ociosas quanto segredos ainda não desvendados por outros evangelhos de um modernismos pseudo-epígrafo. 
O "sábio" que se produz hoje em dia não passa de um frasista (aprovado pelo MEC). Daí porque toda a "mensagem" de Jesus é mais palatável quando mais insossa: os exageros da culinária cristã, qualquer coisa além nas frases em João, são a insensatez de uma época obscura. David tem o instinto armado contra as ideologias que o ativismo revolucionário advertiu outrora e o desconhecimento técnico de que essa ideologia está sempre disfarçada para que possa ser adotada --- como, por exemplo, quando esta faz Jesus parecer um sábio no lugar de Deus. O bom leitor lê a “ideologia” do livro quando o lê, e não a sua própria, seja lá qual for. O Jesus não-cristão é um dogma original anticristão e uma liberdade de entendimento que parece bem mais aceitável à ciência mais obscura de todas, a ciência da interpretação de textos. Em vez de ler em busca de entendimento, os Evangelhos são explicados à luz dessa ciência sem fronteiras claras que quer poder compreender Shakespeare antes de lê-lo. David tem razão ao sentir medo destas coisas --- se os fantasmas não existirem, quem os vê não deixa de estar assombrado.
E, por fim, o rogar piedoso de David ao bem do menino é em vão, roga ao nada, a Ninguém. Não tem a quem rogar, pede o bem do menino como um ato interno, que reflete o mal que ele rejeita, como qualquer um de nós. O ato de David de "rogar" é meramente estético --- é o chiste da "elegância moral" que só tem o fim de embelezamento pessoal. David pede o bem como um autista se balança para suportar o mundo de sofrimento exterior, que sua "sensibilidade" sentida exige. ...Vós sois o sal da terra, a luz do mundo, mas se o sal ficar insosso, com que o temperarão? Não há mais temperos, o próprio gosto já parece um barbarismo. O sal de gipsita é sal atenuado, não é bem sal, e nem serve como sal; não é um tempero de verdade, nem um conservante de verdade, como qualquer coisa que não é bem de verdade, é outra coisa. Esse caminho é o caminho mesquinho do sentimentalismo leigo, da moral "sentida", predominante em nossos dias, é um substituto da religião verdadeira. É, portanto, um descaminho da verdade, mas um descaminho só pode ser o que é porque tem a aparência de caminho: caminho alargado, pavimentado e levemente inclinado... para baixo. Já ouvi essa história antes.
*
David Coimbra reproduz no texto “O sal da terra”, como já havia feito no seu livro Uma história do mundo, o argumento do “Livro verde” criticado por C.S. Lewis em A abolição do homem, mas num movimento adiante, quando já deixa aparecer um sistema de valores substitutos àquele tradicional. A base dessa substituição, e que fundamenta a sua interpretação das passagens bíblicas citadas, é a mesma do “Livro verde”: relativismo, utilitarismo, hedonismo, e para certo verniz moral a partir de uma base amoral, surgem, como em Marta Medeiros (v. “O verniz 'espiritual' daestultice supersticiosa”), sentimentos benignos que se faz passar por “valores” objetivos e capazes de constituir uma moral civil, substitutos da religião. Como advertiu C. S. Lewis, a sociedade que aceitar estes valores está fadada a desaparecer, pálida e vazia, indo da burrice à loucura.

Notas
1. “O sal da terra

janeiro 07, 2014

O verniz "espiritual" da estultice supersticiosa

Em artigo recente, Martha Medeiros elegeu seus valores superiores, gentileza, tolerância, respeito, “elegância moral”, honestidade, paciência, troca, afetividade e desapego de mágoas e rancores, com os quais ela fundamenta uma verdadeira espiritualidade, pondo de lado as tradições das grandes religiões e todos os grandes sábios e alguns milagres, de lambuja.
1. O super-realismo de Martha Medeiros em “O sobrenatural e o real”1é um tosco lençol que cobre algo que não toca o chão. A expressão do cotidiano vinda do homem da mídia é uma média ordinária, da boca dos quais se ouve a repetição da moda. O que restringe as reflexões sobre o cotidiano a um mingau de verossímil consenso com a consistência de uma substância social pegajosa: o politicamente correto. Palavras que referem nenúfares e efemérides de polidez como se fossem valor objetivo, que, mesmo que sem conexão com o real, pois soando benigno, pareçam aceitáveis à sensibilidade. E já então quando os sábios se tornaram eles mesmos supérfluos diante da revolução na cobertura de prédios de classe média-alta, quando já parece natural que estes andares sejam os verdadeiros fundamentos do edifício todo. Sobrenatural é crer que as palavras possam se referir a alguma coisa mais que para a persuasão de nós mesmos, então a antiga manipulação dos “pecados” e “penitências” já não engana mais a ninguém --- não engana mais a Martha. Mas não podendo acreditar em valores objetivos, não lhe resta já muita coisa senão substituir a função da disciplina religiosa por um simulacro de virtude social constituído no seu todo por maneirismos e mesuras, e por uma mortificação histérica na forma da polidez e da tolerância.
Com um corte assombroso na herança de todas as tradições religiosas, de todas as grandes religiões, Martha Medeiros permitiu se convencer, com aquele poder de persuasão que é o fundamento do “real” em seu artigo, que a função das religiões é completamente supérflua. Mandamentos, templos, rituais, ou mesmo Deus, do ponto de vista do homem privilegiado da sociedade contemporânea, morando na cobertura à beira-mar, não lhe parecem, dessas alturas, dotados de qualquer existência ou neles qualquer “utilidade”. E olha que se deve ter uma boa vista de lá. Tudo é opcional, porque tudo isso serve apenas para nos persuadir de uma ética que é universal, qualquer um pode reconhecê-la através da máxima: “Não faz o mal ao próximo que não queiras para ti”. Desapercebido está, no entanto, a premissa de que uma vez o mal feito --- já que não se considerou seriamente a abolição do mal no mundo ---, podes esperar que o mesmo te ocorra agora como uma questão de justiça. Duas facas no pescoço fazem dois homens dóceis. Isso nunca funcionou desse jeito, mas nas reflexões de Martha Medeiros ela (ênfase importante!) se convenceu de que um “olho por olho” mantém quatro. Quem afinal de contas não se convenceria de que com a faca no pescoço eu deveria deslizar a minha menos gentilmente pela do vizinho? O problema é que, invariavelmente, uma situação dessas acaba com duas gargantas cortadas, quatro olhos perdidos e uma geração de revides. Justiça e amor não são concorrentes, a troca de um pelo outro não é irrelevante. A inversão de uma assimetria cria injustiça, o tipo de injustiça que só o amor restituiu. Como isso poderia ser supérfluo?
2. No alto das catedrais há sempre um punhado de gárgulas, elas podem, simbolicamente, ser uma última ameaça do mundo para quem ali queira entrar, ou um aviso para não entrar sem convicção; seja o que for, seja nos antagonizando com um mundo competitivo e consumista, ou permeados de uma noção sentimental de “espiritualidade”, o templo é onde Martha busca um nada transcendente “sossego espiritual” --- a antiga “mortificação”2. Essa estrovenga é uma heresia católica e uma receita Quaker. Como heresia católica se chama Quietismo, um modo pelo qual através da passiva contemplação se busca uma união perfeitacom "Deus", que chega a rejeitar qualquer salvação ou mesmo a noção de pecado como desnecessários para o caminho verdadeiro que é o da vida interior. Na receita Quaker, não passa, com mais razão, de um pouco nutritivo mingau sentimental. É um efeito conhecido da época das luzes, que os homens da idade da razão tenham defendido as palavras que expressavam suas aspirações como se fossem mais razoáveis que a noção de verdade. No exato momento em que se defendia a razão, essa hubrisrendeu uma rematada frivolidade no uso das palavras e uma acachapante ingenuidade de que o que soa bom devemesmo ser bom.
A verdade é uma força pouco polida para um sentimentalista que elegeu a etiqueta cortesã como “espiritualidade”. O que mais poderia advir de uma “união” com Deus (ou na sua negação mística) senão, de algum modo, uma equivalência com Ele, agora feita em qualquer coisa maisuniversal que reside em nós e que podemos buscar ali quando nossa alma contempla a paz de um regato ou os sons da natureza --- ou a vista de uma cobertura à beira-mar. Assim cheio de sentimentos benignos, o encontro do cético com (a negação de) Deus faz dele um “perfeito”. E nessa condição, a uma união sem pecados com o que antes alto e agora já mais baixo, parece estar ao alcance, porém mais abstrato, mais universal , como um espírito do tempo que se pode encontrar (e anunciar a todos) com ar de coisa que ninguém negaria pelo mero efeito agradável das palavras. O sentimentalista tem na face a luz dos tolos e está marcado por uma incapacidade atávica que lhe esclarece que a razão está no óbvio e no simples. A rejeição da transcendência releva que toda a complexidade da metafísica complicava a visão da mais plana realidade. O sentimentalismo achata e poli a rude verdade para tirar dela algum lustro difuso de benignidade, que permite ao sentimentalista revestir a sua vaidade de um ouropel de virtudes. Pecado e penitência, para seres iluminados pela exposição de um jornal de circulação que cobre todo o território da Província, que eles próprios escrevem, são coisa menor. Mas a negligência com o pecado faz se perder o fundamento da consciência reflexiva que é o que falta à Martha no exato momento em que diz se utilizar dela. Reflexão que é uma racionalização, uma justificativa dada no sofá de alguma altura social. Daí também a espontaneidade sem vergonha ou receio no que diz. E, afinal de contas, todo mundo sabe que a vergonha pode causar disfunções psicológicas no tipo de homem urbano contemporâneo. Estas pessoas podem --- imagine! --- ficar infelizes!
Diz Martha: “Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos confirmá-las, você sabe).” Ao ir à igreja, e a igreja é cheia de rituais, ou quase só isso, espero que todos me vejam lá sôfrego, tão bela alma, a minha, e para confirmar as minhas melhores intenções... Não, não eu, tenho horror a isso; rezar em público é um sofrimento no meio de pessoas tão desiguais. Mas imagine agora alguém tentando “confirmar” suas “melhores intenções” em silêncio, na solidão do pé da cama refletindo mantras de benignidade, ou calculando o que fizemos em caridade material. Nada de uma confissão diante da certeza de um observador onisciente, mas “perante a vida” --- seja lá o que isto queira dizer. Tem boas intenções quem tem ações equivalentes que as demonstrem, seria isto? Mas Martha fala de rituais que o podem confirmar a nós, não de obras. Não há nada que corresponda a uma confirmação de nossas boas intenções em rituais. Sobra a segunda via, a de que nossas melhores intenções podem se autojustificar no exercício de senti-las pelo uso de palavras adequadas. A exceção de que você possa fazer um relato de suas boas ações, obras materiais, caridade material real, ainda assim estas facilmente se tornam num exercício de caridade calculado, que desse modo permite que alguém ganhe um milhão de dólares de modo mais ou menos desonesto e depois faça caridade, quando já muito lhe sobra. Inaugura-se, assim, o ato ritual similar ao de Pilatos, mas no caso o ato de lavar as mãos é substituído pelo de lavar a cara, um ritual, sem dúvida, para aqueles atos anteriores, atos de cara deslavada. É quando a caridade e as maneiras tem o valor de uma purificação pessoal e de um ritual de iniciação! Só quando o sacrifício é real, e quando estamos completamente dentro da situação, podemos exercer nossas melhores intenções. A caridade pode perfeitamente ser feita desde fora da situação real e é o que geralmente acontece. Não é quando você tem dez pães, ceder um deles, mas quando você tem apenas um e tem que dividi-lo. Mas talvez essa perspectiva não faça sentido desde o ponto de vista de alguém que não pensa em sua alma perante Deus, mas no bem material do próximo. Para as melhores intenções de Martha Medeiros, o ideal seria o de uma sistema social que distribuísse equitativamente a caridade sem que a sequer a percebêssemos. O bem difuso e universal emanado dos melhores sentimentos encarnados numa instituição humana. A “caridade” é, então, uma função social numa sociedade onde sobram recursos. O sentimentalista que fala em nome da razão não percebe o peso das palavras, e nem onde o sistema de caridade material que defende leva quando ele se torna o valor da sociedade. Seus belos egos, no entanto, estão preservados.
3.“Intermediários” como Jesus ou o Papa, Buda ou um monge, Maomé ou um dervixe, são, para Martha, tipos de laranjas.Eles servem como figuras que despertam mais fácil a nossa sensibilidade para o marketing das nossas boas intenções. Nos convencemos delas buscando-as dentro de nós mesmos ou as calculamos do nosso carnê de caridades. Então aqueles garotos-propaganda de nossas melhores intenções nos lembram, num ritual de anamnese, extraindo de nós a humildade necessária para impedir de nos tornarmos tiranos. Martha está um pouco desatualizada dos eventos do último século, apesar de eu não duvidar que ela tenha uma larga experiência de leitura. Talvez, apenas, essa experiência tenha a aridez de um deserto de areia ou a frivolidade de um jardim geométrico. É impossível não lembrar de seus amigos L. F. Veríssimo, que defendeu alhures “a nobre idéia da comunidade” (européia), e David Coimbra, com o que são, para ele, os “pensamentos elevados” do socialismo. Representantes, enquanto falam (completamente fora da situação real), das melhores intenções reproduzem aquela terrível simplificação dos utopistas que, se fazendo de luzeiros no caminho da virtude, reconhecem estas primeiro em si mesmos, mas que a modéstia desvia para atributos naturais universais nos homens. Assim, com as melhores intenções, a sociedade poderia se converter em uma máquina de caridade impessoal. Mas as palavras nunca expressam exatamente o sentimento que está por traz das melhores intenções, assim como seus efeitos concretos, o que faz certamente que algo que as corrija possa sempre ser acrescentado.
Um pensamento assim, para abranger o máximo bem, invariavelmente gerou a tiraria, começando com as superstições mais fantasiosas nas cabeças enfeitiçadas pela noção perfeitamente razoável a esta mentalidade de que o que parece animar o tempo e o espaço aja assim quando uma conspiração favorável de palavras se alinha na mentalidade coletiva e consensual. Coisa lá que poderia ser feita projetando um modelo de sociedade esboçada no alto de uma cobertura, bem, bem, bem distante do chão no qual os mestres da sabedoria tradicional encontraram, ao longo de milênios, na luz da meditação verdadeira, um tesouro que a nossa sociedade guardou para que o formador de opinião ordinário nos desaconselhasse pelo excesso de palavras que negam a quieta vida interior em sua contemplação passiva, elevada de andares acima, do silêncio natural e da mística dos grandes espaços da arquitetura de um Oscar Niemeyer. O asceta da cobertura de vista para o mar não se deixa seduzir pelos tesouros que a humanidade guardou, mas os substitui pelas abundâncias ocas e sua estética das harmonias úteis.
4. A solução reside em nós, a livre-opção quando nenhuma opção livre pode mais existir. Bastaria adotar o “não causar mal” para que uma pequena revolução alterasse significativamente a face do mundo. Mas, se fosse obedecido... É simples, como a “nobre idéia da comunidade”, como a defendeu Veríssimo, e mesmo que seja inexeqüível, como diz David Coimbra, é superior... A explicação desse chiste está em Eric Hoffer, True believer, sobre aqueles tão egoístas que não podendo suportar as derrotas de seus egos (talvez aumentada devido a exposição midiática), dedicam-se a causas superiores e inatingíveis, onde estas belas almas de coberturas nunca serão testadas pela culpa. Martha sabe que é utopia demais. É inexeqüível! Vai falhar, repete a seu modo David Coimbra. Mas, de novo, reitera-se o irracional, “se fosse aplicada...”. A obviedade e a simplificação plana não são valores objetivos, mas de uma metafísica (que é a negação da metafísica e) que para não perder-se no vácuo do obscuro pelo mais obscuro, já teve seu fundamento reconhecido outrora numa “harmonia universal”, justificação de todos os sentimentos superiores (...de cobertura).
O ato de vontade pelo qual se optaria pelo inexeqüível --- um inegável ato de fé num valor universal plano de benignidade sentimental --- não ocorre, e talvez não possa ocorrer, senão como efeito de alguma altura social. A opção pelo bem (entenda-se “não causar sofrimento”), no entanto, não existe, ela não ocorre; e isso se dá assim porque o comportamento humano refuga a “solução simples”, que não comove a ninguém, não convence qualquer editor de jornal, nem tem aquele poder “suficientemente bombástico” que a propaganda nos disciplina para coisas bem menos importantes.3Os valores de Martha valem apenas a certa altura da ascensão social, quando então passam a ter algumautilidade. O que move os sentimentos do homem --- quando ele ainda não pode ser tocado pelos melhores sentimentos, ou estar em certos cumes sociais --- é o poder, a competitividade, a vingança, as necessidades, eis para o enfado de um leitor já um pouco envelhecido, o diapasão que soa o mantra da ideologia da nata pensante no charco provinciano de Porto Alegre. Não há maior sinal de provincianismo que a adoção elegante do cosmopolitismo como uma miscelânea de doutrinas “consagradas”, por ordinárias que sejam, que hoje sedam parte da população alfabetizada. O fundamento humano pode ser reduzido à psicologia aplicada e a esta sua subdisciplina mais nobre, a ciência do marketing.Assim, não apenas os rituais e os templos deixam de ser úteis, eles são substituídos pela visão interior e pela disciplina da persuasão de certos gestos e maneiras da língua civilizada; os rituais tornaram-se campanhas de “conscientização” das massas, que repetem valores nas palavras sem qualquer experiência real deles. A psicologia aplicada desdenhará do pecado e da culpa como efeitos de superfície de um neurótico reprimido. A liberdade de escolha, fundada no livre-arbítrio, é uma superstição que, uma vez negada, permite e requer o controle ativo das emoções humanas, exceto talvez as desse tipo de ascese do cidadãos de cobertura cuja simplicidade é um tipo de pureza que eles adquiriram olhando para dentro de si mesmos. Talvez porque, como se confessa Martha, a abundância já não permite muito mais ambição, quando do pouco que ainda se necessite seja apenas a manutenção de sua condição atual.
Ora, por que não optar pelas soluções simples, pelas ainda mais simples? Ansiolíticos e hipnóticos! Mas talvez estes também sejam “laranjas”, e como Buda e Jesus, dispensáveis. Pessoas educadas e alfabetizadas, até um certo nível, podem optar pelo adestramento mental que controla seus impulsos, ainda que na abundância, e ainda que, dessa forma, domem um rato numa roda de arames. Para essa árdua tarefa Martha cita os seus valores, que ela disciplinou dentro de si: gentileza, tolerância, honestidade, paciência, troca, afetividade, e no elenco de valores de Martha a sua última aquisição, a “elegância moral”. Termo que ela encontrou “outro dia”, anotou e adotou, não sei se para algum tipo de exercício ritual ou como um adereço à etiqueta palaciana numa corte de civilidade à la Luiz XV. O ouropel palaciano de Martha incluem o brilho de palavras de bijuteria. “Gratidão”, “troca” e “afetividade” são palavras escolhidas pelo sentimento que despertam, não porque tragam valores concretos à conduta prática. São expressões de afeição, isto é, demonstrações públicas de se estar envernizado com o tom da moda. “Honestidade” é o corolário de valores anteriores, é uma reputação e um dever, mas sabe-se lá o que quer dizer isso para alguém que não encontrou fora de si, nas linhagem das grandes tradições religiosas e da sabedoria secular o que reconhece como superior, e talvez um pouco além disso, qualquer valor que ela não pudesse encontrar numa reflexão interior. A “honestidade” de Martha é uma caixa de intenções sem qualquer virtude real capaz de sustentá-la --- de onde viria então a confiabilidade de suas reflexões? Sempre, é claro, é possível recorrer à própria torpeza para afirmar as suasconvicções e respeitar as dos demais. “Paciência” é outro dever,pelo menos para um adulto; mas aqui já parece uma qualidade derivada da admissão temporária dos açodamentos alheios, uma altivez nossa. Além do mais, “paciência” não é um valor como a temperança, que diz respeito de nós e antes para com nós mesmos, menos que a uma conduta social. “Afetividade” é só um jeito de modular o tom da voz ou os gestos, maneirosos, para certo efeito a alguma benignidade sentimental. Aí então temos essa fantasmagoria patética que se denomina “tolerância”, o exercício da virtude antiga sem os valores equivalentes como norte. Em contraste lhe falta as fundamentais coragem e verdade, e o sacrifício sem o qual nada se alcança de valor, pelos quais se obtém aqueles outros. E estes realmente faltam em Martha. Não consigo, pelo que ela escreve, imaginar por que lembraria de algo assim. Se trocar todos estes valores de verniz pela noção de longanimidade,temos todas as qualidades citadas por Martha, mais a magnanimidadecujo contrário é a mesquinhez.Pois é o que se vê com mais clareza em Martha, ao dedicar-se a instruir num jornal de grande circulação pálidas noções de sentimentos benignos e um afetado comportamento cívico enquanto desfaz todos os homens santos, as grandes religiões, filósofos e cientistas verdadeiros, que não são exceção quando se tratava de buscar a verdade (ou, a certo tempo, o que a modernidade alterou em parte). Como a gratidãopode ser encaixada aqui, ou a tal da “troca”? Nem a humildade se pode achar aqui, nem qualquer coisa derivada; pode-se dizer que no máximo encontra-se um esboço de modéstia por efeito ou reflexo. Se estes valores estão ausentes quando se busca, se não estão presentes na solidão, se não estão presentes aí, nesse momento em que o espírito se guia a si mesmo, é porque não passam de palavras sentimentais, que já ganharam pelo seu valor “afetivo” o brilho de alguma razão, ou do que se deve persuadir para não escapar ao bom tom.
O que Martha elege na ausência de valores verdadeiros são as primícias de uma ética social, mas ainda menos que isso, uma “etiqueta” social. Algo assim pode ser adquirido em qualquer momento da vida, mas não o levará a nenhum lugar especial, ou a ascender socialmente --- antes pelo contrário: o que se pode adotar antes e melhor na abundância. O maneirismo da etiqueta social nada tem a ver com qualquer tradição que a tenha legado, como aqueles valores que o hábito sedimentou pela experiência efetiva. O hábito desses valores são agora reavaliados por reflexões que se vem fazendo nas horas vagas, e já parecem da cobertura com vista para o mar de um sobrenaturalfora de moda. A formalidade da religião oficial, ou dos valores morais, bloqueiam nossa capacidade natural de reconhecer com o feeling apurado a luz interior de uma ética universal. Na falta de uma opção verdadeira, parece que Martha conseguiu pelo menos, como lhe parece útil, que seus valores tivessem o poder da solução mais simples: ansiolíticos e hipnóticos não químicos. Quietismo civil.
A espiritualidade para Martha é apenas o adestramento dos sentimentos (mas ela pode não saber disso), que podem ser alcançado com a prática fútil da oração, ou que serve para pouco menos que isso. Curioso que se comece refletindo sobre a superfluidade das religiões como prestidigitação hipnótica e se acabe por substituir Deus pelo que Ele nunca foi, como um bode-expiatório que em vez de nos limpar os pecados, realiza qualquer coisa semelhante à ação de um ansiolítico. E isto para se propor uma disciplina dos sentimentos que cumpriria melhor essa função. Ora, como alguém pode assumir suas responsabilidades se sequer as percebe? Os valores de Martha fazem esse trabalho, são os seus valores mais altos, ao mesmo tempo os menos exigentes, ou tão exigentes quanto a representação de um papel social num baile de máscaras; podem ser exercidos comovirtudes, mas desde que soem bem para um número de pessoas suficientemente grande para serem percebidos sob certo consenso. Valores ocos, ouropel social; artifícios de uma estética moral que aspira se tornar uma ética social. Tal estética rende um fingimento histriônico colateral que se pode observar, sem desdouro profissional, nos senhores Ayres Brito e Luiz Roberto Barroso --- também encontrada, não por acaso, em expoentes espíritas ---; algumas vezes exemplificado pelo tom piegas de ultraje exaltado de uma Maria do Rosário (compare-se ela com seu antípoda, Jair Bolsonaro, tão desprezado pelo opinador ordinário da mídia, mesmo quando fala a verdade).
5. A frivolidade de um código de mesuras parece que pode dar caráter e ser a marca da personalidade de quem a este se dedica --- como em um ritual, sem dúvida ---, produzindo aquela mortificação aparente como se observa também nos espíritas, semelhante. O pensamento utópico de uma ética científica que confira à sociedade uma ordem ideal não é novo. Mas a sua possibilidade é completamente fantástica, um artigo de fé não apenas em algo remoto, mas verdadeiramente irracional. O esforço para torná-lo racional, e levado ao bom tom da razão sentimental, faz de uma ética social a aspiração, assim que possível, de uma disciplina científica do comportamento humano para algo mais perfeito. Como escreveu o filósofo Stanley Rosen a respeito, com exatidão: “No geral, o Iluminismo tentou substituir aquilo que podemos chamar de metafísica do absoluto pela absoluta certeza de soluções efetivas para problemas práticos4. É o fim de uma ética social, segundo William H. Whyte, no clássico The organization man (p. 12):Superficialmente, [uma ética social] parece dedicada a problemas práticos para a organização da vida... Mas é a promessa de longo prazo que anima seus seguidores, pois esta contém as técnicas para a visão de uma harmonia acessível e alcançável”. O mais curioso é que uma ética social não precisa ser aplicada em larga escala, pois ela se organiza de modo relativamente espontâneo para substituir a ordem que as religiões antes representavam com seu sistema de valores5, já tão sistemática e amplamente desprestigiados pelo formador de opinião ordinário. Efeito de uma cultura inteira que, não conseguindo mais falar de Deus, passa a explicar os problemas da vida prática como a aquisição de um comportamento padrão que garantiria a harmonia social num bravíssimo ato novo de fé.
A visão de mundo de Martha pretende a substituição do sobrenatural por uma superstição, organizar a vida humana sobre um padrão de comportamento superior quando qualquer ordem superior já não é possível. O resultado lógico, que tende então a se concretizar na história, é apenas o controle científico daquela vontade que deveria ter optado pela “elegância moral”, mas que não o faz por não se deixar convencer de simplicidades sem apelos. Lembremos, são a avidez, a disputa, a trama humanas a base da sociedade natural, como animais não domesticados. O sentimentalismo dos valores interiores de Martha são a pátina que recobre o lento e progressivo caminho da sociedade para uma ética social científica plena. Nunca foi outra coisa. Como se sabe, os deuses enlouquece antes aqueles a quem querem destruir.
Mas a pérola mais rara dessa etiqueta social e seu símbolo máximo, a mais alta responsabilidade do homem da cobertura, é a tolerância, esse mantra desapercebido que elegeu a hipocrisia como nobreza de comportamento sem os valores equivalentes aos da virtude. Estultice assim faz pensar se a leitura não é algo realmente danoso para mentes exaustas pela abundância. Notável por ofício, Martha faz da profissão o palanque da defesa do que ainda sente como necessidade, a manutenção de sua paz interior. A filosofia de vida de Martha Mederios tem as palavras como úteis para o exercício de superioridade que todos poderão alcançar quando se mudarem para uma cobertura à beira-mar. “Levar vantagem” é um traço bem conhecido do brasileiro, que se tornou uma autocrítica sem lá grande efeito, já que as palavras também apresentam a pátina do sentimentalismo que as atenua até algum tipo de simulação metafórica que desvia tudo para a galhofa. Vantagem é sinônimo do oportunismo que toma para si a sorte sem querer perder ou fazer sacrifício por quaisquer valores. Mas morrer pela defesa da paz interior não favorece algo que vá muito além da mera ironia.
A razão do antigo bom senso se torna uma racionalização num exercício de estética moral, de criação de uma moralidade nas palvras, sem as rudezas do pecado, da culpa ou da reflexão de penitência. No lugar colocou-se a noção de “responsabilidade”, esta associada à espontaneidade e à “autonomia” de um adulto livre. Liberdade guiada por nenhum valor, mas pajeada por um sem número de palavras benignas. O que quer que se queira dizer com “espiritual” não passa de uma imitação grosseira da religião verdadeira, que cria o ambiente mimético ao de uma metafísica através de expressões sentimentais, meramente alusivas de um comportamento moral e que já não passa de etiqueta social. A constelação de benignidades de Martha é de valores que não sustentam, valores superficiais e só para efeito de beleza pública. É nessa planície do suficiente ou do desnecessário parcimonioso que Martha reconhece a realidade que desdenha do sobrenatural. Faltou-lhe a reverência pela realidade que os antigos reconheciam como sustentada por um fundamento divino, até para não se permitir recriar o irracional numa superstição social. A atenção àquele fundamento é resultado de verdadeira reverência pelo real, que permite a atenção contemplativa e a humildade verdadeiras, tudo em Martha afundado em uma terrível carência, mesquinhez atroz e de simplória ignorância.
*
Sabe o que tem o poder de mudar uma pessoa e o mundo, Martha? Não é o verniz de um sentimento, mas, se você já teve uma criança de dois anos brincando ao seu lado e perdido algum tempo observando-a, em silêncio, imaginar que uma delas tenha sido, de algum modo, o próprio Deus "disfarçado" atrás do nariz escorrendo. Isso muda o mundo, Martha. O resto, é latão amarelado.
Notas:
1Zero Hora, 24 de dezembro de 2013.
2No caso, refere-se ao sentimento de perda de prestígio (social) e (portanto) ou auto-estima, sentimento de humilhação, também em relação à sociedade, do que se deduz que a manutenção dessa aparência seja um esforço de adequação a maneiras codificadas socialmente, mas (por exclusão do contrário) nenhum valor real.
3Se Martha e David Coimbra tivessem sido irmãos univitelinos suas convicções não teriam sido mais semelhantes.
4Hermeneutics as politics, p. 145.
5Ninguém diz, 'Eu acredito na Ética Social', e embora muito subscreveriam sinceramente as idéias separadas que a constituem, estas idéias ainda tem de ser postas juntas numa síntese final harmoniosa. Mas a unidade está ali” --- The organization man, p. 11.

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O sobrenatural e o real
Martha Medeiros | Zero Hora, 24 de dezembro de 2013
Há algum tempo venho pensando na função das religiões, e a cada reflexão me convenço de que não precisamos de templos, rituais, mandamentos, pecados, penitências e de intermediários falando em nome dos deuses – e nem de deuses precisamos. É tudo opcional. O que precisamos está dentro de nós.Templos são belos e podem ser úteis na busca por sossego espiritual, já que costumam ser silenciosos (a natureza também pode cumprir essa função, diga-se). Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos confirmá-las, você sabe). Pecados e penitências, eu pulo. São manipulações que só servem para gerar culpa. Intermediários? É bonito contar com a figura de um pai, seja real ou simbólico, e nesse sentido a figura do Papa, de um Buda, de um monge ou de qualquer pessoa de carne e osso com um projeto pacificador pode cumprir a função de extrair de nós a humildade necessária para não virarmos uns tiranos. Quanto aos mandamentos, bastaria um só, um único, que, se fosse obedecido, solucionaria boa parte dos problemas do mundo: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a ti”. Há muitas versões da mesma frase, mas essa vem sem metáfora, desembalada e pronta para usar.Já pensou se ela fosse aplicada na política? No universo corporativo? Eu sei, é utopia demais, mas se fosse aplicada ao menos nas nossas relações cotidianas, já faríamos uma revolução. Pena que ela apresente uma solução simples, e as pessoas rechaçam o simples. O simples não gera comoção, não dá pauta, não é suficientemente bombástico. A encrenca, a dificuldade, o jogo de poder, a competitividade, a vingança, isso tudo, sim, torna a vida menos monótona. Se as coisas derem certo, qual é a graça? Do que iremos nos queixar? Eu, que adoro uma vida mansa, sou totalmente partidária do simples, do óbvio, do fácil, do comum – dentro do que ambiciono, eles me servem muito bem. Minha religiosidade é desenvolvida através de valores que não dependem de representatividade formal, constituída e sacra. Gentileza, tolerância, respeito, elegância moral (ouvi essa expressão outro dia e adotei), honestidade, paciência, troca, afetividade e desapego de mágoas e rancores: disso tudo provém a verdadeira espiritualidade transmitida de pai para filho, de avós para netos, de amigos para amigos, sem necessidade de carteirinha de adesão a qualquer igreja. Neste Natal (e amanhã, e depois de amanhã...), reze, é um conforto para a alma. Ou não reze, se não possui o hábito. Não vai fazer diferença nenhuma para o mundo. O que faz diferença para o mundo é como você se comporta com os outros, não com Deus. Deus, muitas vezes, serve apenas para transferir responsabilidades. Assuma a sua, e amém: estaremos todos em paz.
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* Jornalista. Escritora. | Fonte: ZH online, 24/12/2013 | Imagem na internet.

O verniz "espiritual" da estultice supersticiosa

Em artigo recente, Martha Medeiros elegeu seus valores superiores, gentileza, tolerância, respeito, “elegância moral”, honestidade, paciência, troca, afetividade e desapego de mágoas e rancores, com os quais ela fundamenta uma verdadeira espiritualidade, pondo de lado as tradições das grandes religiões e todos os grandes sábios e alguns milagres, de lambuja.
1. O super-realismo de Martha Medeiros em “O sobrenatural e o real”1 é um tosco lençol que cobre algo que não toca o chão. A expressão do cotidiano vinda do homem da mídia é uma média ordinária, da boca dos quais se ouve a repetição da moda. O que restringe as reflexões sobre o cotidiano a um mingau de verossímil consenso com a consistência de uma substância social pegajosa: o politicamente correto. Palavras que referem nenúfares e efemérides de polidez como se fossem valor objetivo, que, mesmo que sem conexão com o real, pois soando benigno, pareçam aceitáveis à sensibilidade. E já então quando os sábios se tornaram eles mesmos supérfluos diante da revolução na cobertura de prédios de classe média-alta, quando já parece natural que estes andares sejam os verdadeiros fundamentos do edifício todo. Sobrenatural é crer que as palavras possam se referir a alguma coisa mais que para a persuasão de nós mesmos, então a antiga manipulação dos “pecados” e “penitências” já não engana mais a ninguém --- não engana mais a Martha. Mas não podendo acreditar em valores objetivos, não lhe resta já muita coisa senão substituir a função da disciplina religiosa por um simulacro de virtude social constituído no seu todo por maneirismos e mesuras, e por uma mortificação histérica na forma da polidez e da tolerância.
Com um corte assombroso na herança de todas as tradições religiosas, de todas as grandes religiões, Martha Medeiros permitiu se convencer, com aquele poder de persuasão que é o fundamento do “real” em seu artigo, que a função das religiões é completamente supérflua. Mandamentos, templos, rituais, ou mesmo Deus, do ponto de vista do homem privilegiado da sociedade contemporânea, morando na cobertura à beira-mar, não lhe parecem, dessas alturas, dotados de qualquer existência ou neles qualquer “utilidade”. E olha que se deve ter uma boa vista de lá. Tudo é opcional, porque tudo isso serve apenas para nos persuadir de uma ética que é universal, qualquer um pode reconhecê-la através da máxima: “Não faz o mal ao próximo que não queiras para ti”. Desapercebido está, no entanto, a premissa de que uma vez o mal feito --- já que não se considerou seriamente a abolição do mal no mundo ---, podes esperar que o mesmo te ocorra agora como uma questão de justiça. Duas facas no pescoço fazem dois homens dóceis. Isso nunca funcionou desse jeito, mas nas reflexões de Martha Medeiros ela (ênfase importante!) se convenceu de que um “olho por olho” mantém quatro. Quem afinal de contas não se convenceria de que com a faca no pescoço eu deveria deslizar a minha menos gentilmente pela do vizinho? O problema é que, invariavelmente, uma situação dessas acaba com duas gargantas cortadas, quatro olhos perdidos e uma geração de revides. Justiça e amor não são concorrentes, a troca de um pelo outro não é irrelevante. A inversão de uma assimetria cria injustiça, o tipo de injustiça que só o amor restituiu. Como isso poderia ser supérfluo?
2. No alto das catedrais há sempre um punhado de gárgulas, elas podem, simbolicamente, ser uma última ameaça do mundo para quem ali queira entrar, ou um aviso para não entrar sem convicção; seja o que for, seja nos antagonizando com um mundo competitivo e consumista, ou permeados de uma noção sentimental de “espiritualidade”, o templo é onde Martha busca um nada transcendente “sossego espiritual” --- a antiga “mortificação”2. Essa estrovenga é uma heresia católica e uma receita Quaker. Como heresia católica se chama Quietismo, um modo pelo qual através da passiva contemplação se busca uma união perfeita com "Deus", que chega a rejeitar qualquer salvação ou mesmo a noção de pecado como desnecessários para o caminho verdadeiro que é o da vida interior. Na receita Quaker, não passa, com mais razão, de um pouco nutritivo mingau sentimental. É um efeito conhecido da época das luzes, que os homens da idade da razão tenham defendido as palavras que expressavam suas aspirações como se fossem mais razoáveis que a noção de verdade. No exato momento em que se defendia a razão, essa hubris rendeu uma rematada frivolidade no uso das palavras e uma acachapante ingenuidade de que o que soa bom deve mesmo ser bom.
A verdade é uma força pouco polida para um sentimentalista que elegeu a etiqueta cortesã como “espiritualidade”. O que mais poderia advir de uma “união” com Deus (ou na sua negação mística) senão, de algum modo, uma equivalência com Ele, agora feita em qualquer coisa mais universal que reside em nós e que podemos buscar ali quando nossa alma contempla a paz de um regato ou os sons da natureza --- ou a vista de uma cobertura à beira-mar. Assim cheio de sentimentos benignos, o encontro do cético com (a negação de) Deus faz dele um “perfeito”. E nessa condição, a uma união sem pecados com o que antes alto e agora já mais baixo, parece estar ao alcance, porém mais abstrato, mais universal , como um espírito do tempo que se pode encontrar (e anunciar a todos) com ar de coisa que ninguém negaria pelo mero efeito agradável das palavras. O sentimentalista tem na face a luz dos tolos e está marcado por uma incapacidade atávica que lhe esclarece que a razão está no óbvio e no simples. A rejeição da transcendência releva que toda a complexidade da metafísica complicava a visão da mais plana realidade. O sentimentalismo achata e poli a rude verdade para tirar dela algum lustro difuso de benignidade, que permite ao sentimentalista revestir a sua vaidade de um ouropel de virtudes. Pecado e penitência, para seres iluminados pela exposição de um jornal de circulação que cobre todo o território da Província, que eles próprios escrevem, são coisa menor. Mas a negligência com o pecado faz se perder o fundamento da consciência reflexiva que é o que falta à Martha no exato momento em que diz se utilizar dela. Reflexão que é uma racionalização, uma justificativa dada no sofá de alguma altura social. Daí também a espontaneidade sem vergonha ou receio no que diz. E, afinal de contas, todo mundo sabe que a vergonha pode causar disfunções psicológicas no tipo de homem urbano contemporâneo. Estas pessoas podem --- imagine! --- ficar infelizes!
Diz Martha: “Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos confirmá-las, você sabe).” Ao ir à igreja, e a igreja é cheia de rituais, ou quase só isso, espero que todos me vejam lá sôfrego, tão bela alma, a minha, e para confirmar as minhas melhores intenções... Não, não eu, tenho horror a isso; rezar em público é um sofrimento no meio de pessoas tão desiguais. Mas imagine agora alguém tentando “confirmar” suas “melhores intenções” em silêncio, na solidão do pé da cama refletindo mantras de benignidade, ou calculando o que fizemos em caridade material. Nada de uma confissão diante da certeza de um observador onisciente, mas “perante a vida” --- seja lá o que isto queira dizer. Tem boas intenções quem tem ações equivalentes que as demonstrem, seria isto? Mas Martha fala de rituais que o podem confirmar a nós, não de obras. Não há nada que corresponda a uma confirmação de nossas boas intenções em rituais. Sobra a segunda via, a de que nossas melhores intenções podem se autojustificar no exercício de senti-las pelo uso de palavras adequadas. A exceção de que você possa fazer um relato de suas boas ações, obras materiais, caridade material real, ainda assim estas facilmente se tornam num exercício de caridade calculado, que desse modo permite que alguém ganhe um milhão de dólares de modo mais ou menos desonesto e depois faça caridade, quando já muito lhe sobra. Inaugura-se, assim, o ato ritual similar ao de Pilatos, mas no caso o ato de lavar as mãos é substituído pelo de lavar a cara, um ritual, sem dúvida, para aqueles atos anteriores, atos de cara deslavada. É quando a caridade e as maneiras tem o valor de uma purificação pessoal e de um ritual de iniciação! Só quando o sacrifício é real, e quando estamos completamente dentro da situação, podemos exercer nossas melhores intenções. A caridade pode perfeitamente ser feita desde fora da situação real e é o que geralmente acontece. Não é quando você tem dez pães, ceder um deles, mas quando você tem apenas um e tem que dividi-lo. Mas talvez essa perspectiva não faça sentido desde o ponto de vista de alguém que não pensa em sua alma perante Deus, mas no bem material do próximo. Para as melhores intenções de Martha Medeiros, o ideal seria o de uma sistema social que distribuísse equitativamente a caridade sem que a sequer a percebêssemos. O bem difuso e universal emanado dos melhores sentimentos encarnados numa instituição humana. A “caridade” é, então, uma função social numa sociedade onde sobram recursos. O sentimentalista que fala em nome da razão não percebe o peso das palavras, e nem onde o sistema de caridade material que defende leva quando ele se torna o valor da sociedade. Seus belos egos, no entanto, estão preservados.
3. “Intermediários” como Jesus ou o Papa, Buda ou um monge, Maomé ou um dervixe, são, para Martha, tipos de laranjas. Eles servem como figuras que despertam mais fácil a nossa sensibilidade para o marketing das nossas boas intenções. Nos convencemos delas buscando-as dentro de nós mesmos ou as calculamos do nosso carnê de caridades. Então aqueles garotos-propaganda de nossas melhores intenções nos lembram, num ritual de anamnese, extraindo de nós a humildade necessária para impedir de nos tornarmos tiranos. Martha está um pouco desatualizada dos eventos do último século, apesar de eu não duvidar que ela tenha uma larga experiência de leitura. Talvez, apenas, essa experiência tenha a aridez de um deserto de areia ou a frivolidade de um jardim geométrico. É impossível não lembrar de seus amigos L. F. Veríssimo, que defendeu alhures “a nobre idéia da comunidade” (européia), e David Coimbra, com o que são, para ele, os “pensamentos elevados” do socialismo. Representantes, enquanto falam (completamente fora da situação real), das melhores intenções reproduzem aquela terrível simplificação dos utopistas que, se fazendo de luzeiros no caminho da virtude, reconhecem estas primeiro em si mesmos, mas que a modéstia desvia para atributos naturais universais nos homens. Assim, com as melhores intenções, a sociedade poderia se converter em uma máquina de caridade impessoal. Mas as palavras nunca expressam exatamente o sentimento que está por traz das melhores intenções, assim como seus efeitos concretos, o que faz certamente que algo que as corrija possa sempre ser acrescentado.
Um pensamento assim, para abranger o máximo bem, invariavelmente gerou a tiraria, começando com as superstições mais fantasiosas nas cabeças enfeitiçadas pela noção perfeitamente razoável a esta mentalidade de que o que parece animar o tempo e o espaço aja assim quando uma conspiração favorável de palavras se alinha na mentalidade coletiva e consensual. Coisa lá que poderia ser feita projetando um modelo de sociedade esboçada no alto de uma cobertura, bem, bem, bem distante do chão no qual os mestres da sabedoria tradicional encontraram, ao longo de milênios, na luz da meditação verdadeira, um tesouro que a nossa sociedade guardou para que o formador de opinião ordinário nos desaconselhasse pelo excesso de palavras que negam a quieta vida interior em sua contemplação passiva, elevada de andares acima, do silêncio natural e da mística dos grandes espaços da arquitetura de um Oscar Niemeyer. O asceta da cobertura de vista para o mar não se deixa seduzir pelos tesouros que a humanidade guardou, mas os substitui pelas abundâncias ocas e sua estética das harmonias úteis.
4. A solução reside em nós, a livre-opção quando nenhuma opção livre pode mais existir. Bastaria adotar o “não causar mal” para que uma pequena revolução alterasse significativamente a face do mundo. Mas, se fosse obedecido... É simples, como a “nobre idéia da comunidade”, como a defendeu Veríssimo, e mesmo que seja inexeqüível, como diz David Coimbra, é superior... A explicação desse chiste está em Eric Hoffer, True believer, sobre aqueles tão egoístas que não podendo suportar as derrotas de seus egos (talvez aumentada devido a exposição midiática), dedicam-se a causas superiores e inatingíveis, onde estas belas almas de coberturas nunca serão testadas pela culpa. Martha sabe que é utopia demais. É inexeqüível! Vai falhar, repete a seu modo David Coimbra. Mas, de novo, reitera-se o irracional, “se fosse aplicada...”. A obviedade e a simplificação plana não são valores objetivos, mas de uma metafísica (que é a negação da metafísica e) que para não perder-se no vácuo do obscuro pelo mais obscuro, já teve seu fundamento reconhecido outrora numa “harmonia universal”, justificação de todos os sentimentos superiores (...de cobertura).
O ato de vontade pelo qual se optaria pelo inexeqüível --- um inegável ato de fé num valor universal plano de benignidade sentimental --- não ocorre, e talvez não possa ocorrer, senão como efeito de alguma altura social. A opção pelo bem (entenda-se “não causar sofrimento”), no entanto, não existe, ela não ocorre; e isso se dá assim porque o comportamento humano refuga a “solução simples”, que não comove a ninguém, não convence qualquer editor de jornal, nem tem aquele poder “suficientemente bombástico” que a propaganda nos disciplina para coisas bem menos importantes.3 Os valores de Martha valem apenas a certa altura da ascensão social, quando então passam a ter alguma utilidade. O que move os sentimentos do homem --- quando ele ainda não pode ser tocado pelos melhores sentimentos, ou estar em certos cumes sociais --- é o poder, a competitividade, a vingança, as necessidades, eis para o enfado de um leitor já um pouco envelhecido, o diapasão que soa o mantra da ideologia da nata pensante no charco provinciano de Porto Alegre. Não há maior sinal de provincianismo que a adoção elegante do cosmopolitismo como uma miscelânea de doutrinas “consagradas”, por ordinárias que sejam, que hoje sedam parte da população alfabetizada. O fundamento humano pode ser reduzido à psicologia aplicada e a esta sua subdisciplina mais nobre, a ciência do marketing. Assim, não apenas os rituais e os templos deixam de ser úteis, eles são substituídos pela visão interior e pela disciplina da persuasão de certos gestos e maneiras da língua civilizada; os rituais tornaram-se campanhas de “conscientização” das massas, que repetem valores nas palavras sem qualquer experiência real deles. A psicologia aplicada desdenhará do pecado e da culpa como efeitos de superfície de um neurótico reprimido. A liberdade de escolha, fundada no livre-arbítrio, é uma superstição que, uma vez negada, permite e requer o controle ativo das emoções humanas, exceto talvez as desse tipo de ascese do cidadãos de cobertura cuja simplicidade é um tipo de pureza que eles adquiriram olhando para dentro de si mesmos. Talvez porque, como se confessa Martha, a abundância já não permite muito mais ambição, quando do pouco que ainda se necessite seja apenas a manutenção de sua condição atual.
Ora, por que não optar pelas soluções simples, pelas ainda mais simples? Ansiolíticos e hipnóticos! Mas talvez estes também sejam “laranjas”, e como Buda e Jesus, dispensáveis. Pessoas educadas e alfabetizadas, até um certo nível, podem optar pelo adestramento mental que controla seus impulsos, ainda que na abundância, e ainda que, dessa forma, domem um rato numa roda de arames. Para essa árdua tarefa Martha cita os seus valores, que ela disciplinou dentro de si: gentileza, tolerância, honestidade, paciência, troca, afetividade, e no elenco de valores de Martha a sua última aquisição, a “elegância moral”. Termo que ela encontrou “outro dia”, anotou e adotou, não sei se para algum tipo de exercício ritual ou como um adereço à etiqueta palaciana numa corte de civilidade à la Luiz XV. O ouropel palaciano de Martha incluem o brilho de palavras de bijuteria. “Gratidão”, “troca” e “afetividade” são palavras escolhidas pelo sentimento que despertam, não porque tragam valores concretos à conduta prática. São expressões de afeição, isto é, demonstrações públicas de se estar envernizado com o tom da moda. “Honestidade” é o corolário de valores anteriores, é uma reputação e um dever, mas sabe-se lá o que quer dizer isso para alguém que não encontrou fora de si, nas linhagem das grandes tradições religiosas e da sabedoria secular o que reconhece como superior, e talvez um pouco além disso, qualquer valor que ela não pudesse encontrar numa reflexão interior. A “honestidade” de Martha é uma caixa de intenções sem qualquer virtude real capaz de sustentá-la --- de onde viria então a confiabilidade de suas reflexões? Sempre, é claro, é possível recorrer à própria torpeza para afirmar as suas convicções e respeitar as dos demais. “Paciência” é outro dever, pelo menos para um adulto; mas aqui já parece uma qualidade derivada da admissão temporária dos açodamentos alheios, uma altivez nossa. Além do mais, “paciência” não é um valor como a temperança, que diz respeito de nós e antes para com nós mesmos, menos que a uma conduta social. “Afetividade” é só um jeito de modular o tom da voz ou os gestos, maneirosos, para certo efeito a alguma benignidade sentimental. Aí então temos essa fantasmagoria patética que se denomina “tolerância”, o exercício da virtude antiga sem os valores equivalentes como norte. Em contraste lhe falta as fundamentais coragem e verdade, e o sacrifício sem o qual nada se alcança de valor, pelos quais se obtém aqueles outros. E estes realmente faltam em Martha. Não consigo, pelo que ela escreve, imaginar por que lembraria de algo assim. Se trocar todos estes valores de verniz pela noção de longanimidade, temos todas as qualidades citadas por Martha, mais a magnanimidade cujo contrário é a mesquinhez. Pois é o que se vê com mais clareza em Martha, ao dedicar-se a instruir num jornal de grande circulação pálidas noções de sentimentos benignos e um afetado comportamento cívico enquanto desfaz todos os homens santos, as grandes religiões, filósofos e cientistas verdadeiros, que não são exceção quando se tratava de buscar a verdade (ou, a certo tempo, o que a modernidade alterou em parte). Como a gratidão pode ser encaixada aqui, ou a tal da “troca”? Nem a humildade se pode achar aqui, nem qualquer coisa derivada; pode-se dizer que no máximo encontra-se um esboço de modéstia por efeito ou reflexo. Se estes valores estão ausentes quando se busca, se não estão presentes na solidão, se não estão presentes aí, nesse momento em que o espírito se guia a si mesmo, é porque não passam de palavras sentimentais, que já ganharam pelo seu valor “afetivo” o brilho de alguma razão, ou do que se deve persuadir para não escapar ao bom tom.
O que Martha elege na ausência de valores verdadeiros são as primícias de uma ética social, mas ainda menos que isso, uma “etiqueta” social. Algo assim pode ser adquirido em qualquer momento da vida, mas não o levará a nenhum lugar especial, ou a ascender socialmente --- antes pelo contrário: o que se pode adotar antes e melhor na abundância. O maneirismo da etiqueta social nada tem a ver com qualquer tradição que a tenha legado, como aqueles valores que o hábito sedimentou pela experiência efetiva. O hábito desses valores são agora reavaliados por reflexões que se vem fazendo nas horas vagas, e já parecem da cobertura com vista para o mar de um sobrenatural fora de moda. A formalidade da religião oficial, ou dos valores morais, bloqueiam nossa capacidade natural de reconhecer com o feeling apurado a luz interior de uma ética universal. Na falta de uma opção verdadeira, parece que Martha conseguiu pelo menos, como lhe parece útil, que seus valores tivessem o poder da solução mais simples: ansiolíticos e hipnóticos não químicos. Quietismo civil.
A espiritualidade para Martha é apenas o adestramento dos sentimentos (mas ela pode não saber disso), que podem ser alcançado com a prática fútil da oração, ou que serve para pouco menos que isso. Curioso que se comece refletindo sobre a superfluidade das religiões como prestidigitação hipnótica e se acabe por substituir Deus pelo que Ele nunca foi, como um bode-expiatório que em vez de nos limpar os pecados, realiza qualquer coisa semelhante à ação de um ansiolítico. E isto para se propor uma disciplina dos sentimentos que cumpriria melhor essa função. Ora, como alguém pode assumir suas responsabilidades se sequer as percebe? Os valores de Martha fazem esse trabalho, são os seus valores mais altos, ao mesmo tempo os menos exigentes, ou tão exigentes quanto a representação de um papel social num baile de máscaras; podem ser exercidos como virtudes, mas desde que soem bem para um número de pessoas suficientemente grande para serem percebidos sob certo consenso. Valores ocos, ouropel social; artifícios de uma estética moral que aspira se tornar uma ética social. Tal estética rende um fingimento histriônico colateral que se pode observar, sem desdouro profissional, nos senhores Ayres Brito e Luiz Roberto Barroso --- também encontrada, não por acaso, em expoentes espíritas ---; algumas vezes exemplificado pelo tom piegas de ultraje exaltado de uma Maria do Rosário (compare-se ela com seu antípoda, Jair Bolsonaro, tão desprezado pelo opinador ordinário da mídia, mesmo quando fala a verdade).
5. A frivolidade de um código de mesuras parece que pode dar caráter e ser a marca da personalidade de quem a este se dedica --- como em um ritual, sem dúvida ---, produzindo aquela mortificação aparente como se observa também nos espíritas, semelhante. O pensamento utópico de uma ética científica que confira à sociedade uma ordem ideal não é novo. Mas a sua possibilidade é completamente fantástica, um artigo de fé não apenas em algo remoto, mas verdadeiramente irracional. O esforço para torná-lo racional, e levado ao bom tom da razão sentimental, faz de uma ética social a aspiração, assim que possível, de uma disciplina científica do comportamento humano para algo mais perfeito. Como escreveu o filósofo Stanley Rosen a respeito, com exatidão: “No geral, o Iluminismo tentou substituir aquilo que podemos chamar de metafísica do absoluto pela absoluta certeza de soluções efetivas para problemas práticos4. É o fim de uma ética social, segundo William H. Whyte, no clássico The organization man (p. 12):Superficialmente, [uma ética social] parece dedicada a problemas práticos para a organização da vida... Mas é a promessa de longo prazo que anima seus seguidores, pois esta contém as técnicas para a visão de uma harmonia acessível e alcançável”. O mais curioso é que uma ética social não precisa ser aplicada em larga escala, pois ela se organiza de modo relativamente espontâneo para substituir a ordem que as religiões antes representavam com seu sistema de valores5, já tão sistemática e amplamente desprestigiados pelo formador de opinião ordinário. Efeito de uma cultura inteira que, não conseguindo mais falar de Deus, passa a explicar os problemas da vida prática como a aquisição de um comportamento padrão que garantiria a harmonia social num bravíssimo ato novo de fé.
A visão de mundo de Martha pretende a substituição do sobrenatural por uma superstição, organizar a vida humana sobre um padrão de comportamento superior quando qualquer ordem superior já não é possível. O resultado lógico, que tende então a se concretizar na história, é apenas o controle científico daquela vontade que deveria ter optado pela “elegância moral”, mas que não o faz por não se deixar convencer de simplicidades sem apelos. Lembremos, são a avidez, a disputa, a trama humanas a base da sociedade natural, como animais não domesticados. O sentimentalismo dos valores interiores de Martha são a pátina que recobre o lento e progressivo caminho da sociedade para uma ética social científica plena. Nunca foi outra coisa. Como se sabe, os deuses enlouquece antes aqueles a quem querem destruir.
Mas a pérola mais rara dessa etiqueta social e seu símbolo máximo, a mais alta responsabilidade do homem da cobertura, é a tolerância, esse mantra desapercebido que elegeu a hipocrisia como nobreza de comportamento sem os valores equivalentes aos da virtude. Estultice assim faz pensar se a leitura não é algo realmente danoso para mentes exaustas pela abundância. Notável por ofício, Martha faz da profissão o palanque da defesa do que ainda sente como necessidade, a manutenção de sua paz interior. A filosofia de vida de Martha Mederios tem as palavras como úteis para o exercício de superioridade que todos poderão alcançar quando se mudarem para uma cobertura à beira-mar. “Levar vantagem” é um traço bem conhecido do brasileiro, que se tornou uma autocrítica sem lá grande efeito, já que as palavras também apresentam a pátina do sentimentalismo que as atenua até algum tipo de simulação metafórica que desvia tudo para a galhofa. Vantagem é sinônimo do oportunismo que toma para si a sorte sem querer perder ou fazer sacrifício por quaisquer valores. Mas morrer pela defesa da paz interior não favorece algo que vá muito além da mera ironia.
A razão do antigo bom senso se torna uma racionalização num exercício de estética moral, de criação de uma moralidade nas palvras, sem as rudezas do pecado, da culpa ou da reflexão de penitência. No lugar colocou-se a noção de “responsabilidade”, esta associada à espontaneidade e à “autonomia” de um adulto livre. Liberdade guiada por nenhum valor, mas pajeada por um sem número de palavras benignas. O que quer que se queira dizer com “espiritual” não passa de uma imitação grosseira da religião verdadeira, que cria o ambiente mimético ao de uma metafísica através de expressões sentimentais, meramente alusivas de um comportamento moral e que já não passa de etiqueta social. A constelação de benignidades de Martha é de valores que não sustentam, valores superficiais e só para efeito de beleza pública. É nessa planície do suficiente ou do desnecessário parcimonioso que Martha reconhece a realidade que desdenha do sobrenatural. Faltou-lhe a reverência pela realidade que os antigos reconheciam como sustentada por um fundamento divino, até para não se permitir recriar o irracional numa superstição social. A atenção àquele fundamento é resultado de verdadeira reverência pelo real, que permite a atenção contemplativa e a humildade verdadeiras, tudo em Martha afundado em uma terrível carência, mesquinhez atroz e de simplória ignorância.
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Sabe o que tem o poder de mudar uma pessoa e o mundo, Martha? Não é o verniz de um sentimento, mas, se você já teve uma criança de dois anos brincando ao seu lado e perdido algum tempo observando-a, em silêncio, imaginar que uma delas tenha sido, de algum modo, o próprio Deus "disfarçado" atrás do nariz escorrendo. Isso muda o mundo, Martha. O resto, é latão amarelado.
Notas:
1 Zero Hora, 24 de dezembro de 2013.
2 No caso, refere-se ao sentimento de perda de prestígio (social) e (portanto) ou auto-estima, sentimento de humilhação, também em relação à sociedade, do que se deduz que a manutenção dessa aparência seja um esforço de adequação a maneiras codificadas socialmente, mas (por exclusão do contrário) nenhum valor real.
3 Se Martha e David Coimbra tivessem sido irmãos univitelinos suas convicções não teriam sido mais semelhantes.
4 Hermeneutics as politics, p. 145.
5 Ninguém diz, 'Eu acredito na Ética Social', e embora muito subscreveriam sinceramente as idéias separadas que a constituem, estas idéias ainda tem de ser postas juntas numa síntese final harmoniosa. Mas a unidade está ali” --- The organization man, p. 11.

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O sobrenatural e o real
Martha Medeiros | Zero Hora, 24 de dezembro de 2013
Há algum tempo venho pensando na função das religiões, e a cada reflexão me convenço de que não precisamos de templos, rituais, mandamentos, pecados, penitências e de intermediários falando em nome dos deuses – e nem de deuses precisamos. É tudo opcional. O que precisamos está dentro de nós.Templos são belos e podem ser úteis na busca por sossego espiritual, já que costumam ser silenciosos (a natureza também pode cumprir essa função, diga-se). Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos confirmá-las, você sabe). Pecados e penitências, eu pulo. São manipulações que só servem para gerar culpa. Intermediários? É bonito contar com a figura de um pai, seja real ou simbólico, e nesse sentido a figura do Papa, de um Buda, de um monge ou de qualquer pessoa de carne e osso com um projeto pacificador pode cumprir a função de extrair de nós a humildade necessária para não virarmos uns tiranos. Quanto aos mandamentos, bastaria um só, um único, que, se fosse obedecido, solucionaria boa parte dos problemas do mundo: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a ti”. Há muitas versões da mesma frase, mas essa vem sem metáfora, desembalada e pronta para usar.Já pensou se ela fosse aplicada na política? No universo corporativo? Eu sei, é utopia demais, mas se fosse aplicada ao menos nas nossas relações cotidianas, já faríamos uma revolução. Pena que ela apresente uma solução simples, e as pessoas rechaçam o simples. O simples não gera comoção, não dá pauta, não é suficientemente bombástico. A encrenca, a dificuldade, o jogo de poder, a competitividade, a vingança, isso tudo, sim, torna a vida menos monótona. Se as coisas derem certo, qual é a graça? Do que iremos nos queixar? Eu, que adoro uma vida mansa, sou totalmente partidária do simples, do óbvio, do fácil, do comum – dentro do que ambiciono, eles me servem muito bem. Minha religiosidade é desenvolvida através de valores que não dependem de representatividade formal, constituída e sacra. Gentileza, tolerância, respeito, elegância moral (ouvi essa expressão outro dia e adotei), honestidade, paciência, troca, afetividade e desapego de mágoas e rancores: disso tudo provém a verdadeira espiritualidade transmitida de pai para filho, de avós para netos, de amigos para amigos, sem necessidade de carteirinha de adesão a qualquer igreja. Neste Natal (e amanhã, e depois de amanhã...), reze, é um conforto para a alma. Ou não reze, se não possui o hábito. Não vai fazer diferença nenhuma para o mundo. O que faz diferença para o mundo é como você se comporta com os outros, não com Deus. Deus, muitas vezes, serve apenas para transferir responsabilidades. Assuma a sua, e amém: estaremos todos em paz.
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* Jornalista. Escritora. | Fonte: ZH online, 24/12/2013 | Imagem na internet.