janeiro 07, 2014

O verniz "espiritual" da estultice supersticiosa

Em artigo recente, Martha Medeiros elegeu seus valores superiores, gentileza, tolerância, respeito, “elegância moral”, honestidade, paciência, troca, afetividade e desapego de mágoas e rancores, com os quais ela fundamenta uma verdadeira espiritualidade, pondo de lado as tradições das grandes religiões e todos os grandes sábios e alguns milagres, de lambuja.
1. O super-realismo de Martha Medeiros em “O sobrenatural e o real”1 é um tosco lençol que cobre algo que não toca o chão. A expressão do cotidiano vinda do homem da mídia é uma média ordinária, da boca dos quais se ouve a repetição da moda. O que restringe as reflexões sobre o cotidiano a um mingau de verossímil consenso com a consistência de uma substância social pegajosa: o politicamente correto. Palavras que referem nenúfares e efemérides de polidez como se fossem valor objetivo, que, mesmo que sem conexão com o real, pois soando benigno, pareçam aceitáveis à sensibilidade. E já então quando os sábios se tornaram eles mesmos supérfluos diante da revolução na cobertura de prédios de classe média-alta, quando já parece natural que estes andares sejam os verdadeiros fundamentos do edifício todo. Sobrenatural é crer que as palavras possam se referir a alguma coisa mais que para a persuasão de nós mesmos, então a antiga manipulação dos “pecados” e “penitências” já não engana mais a ninguém --- não engana mais a Martha. Mas não podendo acreditar em valores objetivos, não lhe resta já muita coisa senão substituir a função da disciplina religiosa por um simulacro de virtude social constituído no seu todo por maneirismos e mesuras, e por uma mortificação histérica na forma da polidez e da tolerância.
Com um corte assombroso na herança de todas as tradições religiosas, de todas as grandes religiões, Martha Medeiros permitiu se convencer, com aquele poder de persuasão que é o fundamento do “real” em seu artigo, que a função das religiões é completamente supérflua. Mandamentos, templos, rituais, ou mesmo Deus, do ponto de vista do homem privilegiado da sociedade contemporânea, morando na cobertura à beira-mar, não lhe parecem, dessas alturas, dotados de qualquer existência ou neles qualquer “utilidade”. E olha que se deve ter uma boa vista de lá. Tudo é opcional, porque tudo isso serve apenas para nos persuadir de uma ética que é universal, qualquer um pode reconhecê-la através da máxima: “Não faz o mal ao próximo que não queiras para ti”. Desapercebido está, no entanto, a premissa de que uma vez o mal feito --- já que não se considerou seriamente a abolição do mal no mundo ---, podes esperar que o mesmo te ocorra agora como uma questão de justiça. Duas facas no pescoço fazem dois homens dóceis. Isso nunca funcionou desse jeito, mas nas reflexões de Martha Medeiros ela (ênfase importante!) se convenceu de que um “olho por olho” mantém quatro. Quem afinal de contas não se convenceria de que com a faca no pescoço eu deveria deslizar a minha menos gentilmente pela do vizinho? O problema é que, invariavelmente, uma situação dessas acaba com duas gargantas cortadas, quatro olhos perdidos e uma geração de revides. Justiça e amor não são concorrentes, a troca de um pelo outro não é irrelevante. A inversão de uma assimetria cria injustiça, o tipo de injustiça que só o amor restituiu. Como isso poderia ser supérfluo?
2. No alto das catedrais há sempre um punhado de gárgulas, elas podem, simbolicamente, ser uma última ameaça do mundo para quem ali queira entrar, ou um aviso para não entrar sem convicção; seja o que for, seja nos antagonizando com um mundo competitivo e consumista, ou permeados de uma noção sentimental de “espiritualidade”, o templo é onde Martha busca um nada transcendente “sossego espiritual” --- a antiga “mortificação”2. Essa estrovenga é uma heresia católica e uma receita Quaker. Como heresia católica se chama Quietismo, um modo pelo qual através da passiva contemplação se busca uma união perfeita com "Deus", que chega a rejeitar qualquer salvação ou mesmo a noção de pecado como desnecessários para o caminho verdadeiro que é o da vida interior. Na receita Quaker, não passa, com mais razão, de um pouco nutritivo mingau sentimental. É um efeito conhecido da época das luzes, que os homens da idade da razão tenham defendido as palavras que expressavam suas aspirações como se fossem mais razoáveis que a noção de verdade. No exato momento em que se defendia a razão, essa hubris rendeu uma rematada frivolidade no uso das palavras e uma acachapante ingenuidade de que o que soa bom deve mesmo ser bom.
A verdade é uma força pouco polida para um sentimentalista que elegeu a etiqueta cortesã como “espiritualidade”. O que mais poderia advir de uma “união” com Deus (ou na sua negação mística) senão, de algum modo, uma equivalência com Ele, agora feita em qualquer coisa mais universal que reside em nós e que podemos buscar ali quando nossa alma contempla a paz de um regato ou os sons da natureza --- ou a vista de uma cobertura à beira-mar. Assim cheio de sentimentos benignos, o encontro do cético com (a negação de) Deus faz dele um “perfeito”. E nessa condição, a uma união sem pecados com o que antes alto e agora já mais baixo, parece estar ao alcance, porém mais abstrato, mais universal , como um espírito do tempo que se pode encontrar (e anunciar a todos) com ar de coisa que ninguém negaria pelo mero efeito agradável das palavras. O sentimentalista tem na face a luz dos tolos e está marcado por uma incapacidade atávica que lhe esclarece que a razão está no óbvio e no simples. A rejeição da transcendência releva que toda a complexidade da metafísica complicava a visão da mais plana realidade. O sentimentalismo achata e poli a rude verdade para tirar dela algum lustro difuso de benignidade, que permite ao sentimentalista revestir a sua vaidade de um ouropel de virtudes. Pecado e penitência, para seres iluminados pela exposição de um jornal de circulação que cobre todo o território da Província, que eles próprios escrevem, são coisa menor. Mas a negligência com o pecado faz se perder o fundamento da consciência reflexiva que é o que falta à Martha no exato momento em que diz se utilizar dela. Reflexão que é uma racionalização, uma justificativa dada no sofá de alguma altura social. Daí também a espontaneidade sem vergonha ou receio no que diz. E, afinal de contas, todo mundo sabe que a vergonha pode causar disfunções psicológicas no tipo de homem urbano contemporâneo. Estas pessoas podem --- imagine! --- ficar infelizes!
Diz Martha: “Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos confirmá-las, você sabe).” Ao ir à igreja, e a igreja é cheia de rituais, ou quase só isso, espero que todos me vejam lá sôfrego, tão bela alma, a minha, e para confirmar as minhas melhores intenções... Não, não eu, tenho horror a isso; rezar em público é um sofrimento no meio de pessoas tão desiguais. Mas imagine agora alguém tentando “confirmar” suas “melhores intenções” em silêncio, na solidão do pé da cama refletindo mantras de benignidade, ou calculando o que fizemos em caridade material. Nada de uma confissão diante da certeza de um observador onisciente, mas “perante a vida” --- seja lá o que isto queira dizer. Tem boas intenções quem tem ações equivalentes que as demonstrem, seria isto? Mas Martha fala de rituais que o podem confirmar a nós, não de obras. Não há nada que corresponda a uma confirmação de nossas boas intenções em rituais. Sobra a segunda via, a de que nossas melhores intenções podem se autojustificar no exercício de senti-las pelo uso de palavras adequadas. A exceção de que você possa fazer um relato de suas boas ações, obras materiais, caridade material real, ainda assim estas facilmente se tornam num exercício de caridade calculado, que desse modo permite que alguém ganhe um milhão de dólares de modo mais ou menos desonesto e depois faça caridade, quando já muito lhe sobra. Inaugura-se, assim, o ato ritual similar ao de Pilatos, mas no caso o ato de lavar as mãos é substituído pelo de lavar a cara, um ritual, sem dúvida, para aqueles atos anteriores, atos de cara deslavada. É quando a caridade e as maneiras tem o valor de uma purificação pessoal e de um ritual de iniciação! Só quando o sacrifício é real, e quando estamos completamente dentro da situação, podemos exercer nossas melhores intenções. A caridade pode perfeitamente ser feita desde fora da situação real e é o que geralmente acontece. Não é quando você tem dez pães, ceder um deles, mas quando você tem apenas um e tem que dividi-lo. Mas talvez essa perspectiva não faça sentido desde o ponto de vista de alguém que não pensa em sua alma perante Deus, mas no bem material do próximo. Para as melhores intenções de Martha Medeiros, o ideal seria o de uma sistema social que distribuísse equitativamente a caridade sem que a sequer a percebêssemos. O bem difuso e universal emanado dos melhores sentimentos encarnados numa instituição humana. A “caridade” é, então, uma função social numa sociedade onde sobram recursos. O sentimentalista que fala em nome da razão não percebe o peso das palavras, e nem onde o sistema de caridade material que defende leva quando ele se torna o valor da sociedade. Seus belos egos, no entanto, estão preservados.
3. “Intermediários” como Jesus ou o Papa, Buda ou um monge, Maomé ou um dervixe, são, para Martha, tipos de laranjas. Eles servem como figuras que despertam mais fácil a nossa sensibilidade para o marketing das nossas boas intenções. Nos convencemos delas buscando-as dentro de nós mesmos ou as calculamos do nosso carnê de caridades. Então aqueles garotos-propaganda de nossas melhores intenções nos lembram, num ritual de anamnese, extraindo de nós a humildade necessária para impedir de nos tornarmos tiranos. Martha está um pouco desatualizada dos eventos do último século, apesar de eu não duvidar que ela tenha uma larga experiência de leitura. Talvez, apenas, essa experiência tenha a aridez de um deserto de areia ou a frivolidade de um jardim geométrico. É impossível não lembrar de seus amigos L. F. Veríssimo, que defendeu alhures “a nobre idéia da comunidade” (européia), e David Coimbra, com o que são, para ele, os “pensamentos elevados” do socialismo. Representantes, enquanto falam (completamente fora da situação real), das melhores intenções reproduzem aquela terrível simplificação dos utopistas que, se fazendo de luzeiros no caminho da virtude, reconhecem estas primeiro em si mesmos, mas que a modéstia desvia para atributos naturais universais nos homens. Assim, com as melhores intenções, a sociedade poderia se converter em uma máquina de caridade impessoal. Mas as palavras nunca expressam exatamente o sentimento que está por traz das melhores intenções, assim como seus efeitos concretos, o que faz certamente que algo que as corrija possa sempre ser acrescentado.
Um pensamento assim, para abranger o máximo bem, invariavelmente gerou a tiraria, começando com as superstições mais fantasiosas nas cabeças enfeitiçadas pela noção perfeitamente razoável a esta mentalidade de que o que parece animar o tempo e o espaço aja assim quando uma conspiração favorável de palavras se alinha na mentalidade coletiva e consensual. Coisa lá que poderia ser feita projetando um modelo de sociedade esboçada no alto de uma cobertura, bem, bem, bem distante do chão no qual os mestres da sabedoria tradicional encontraram, ao longo de milênios, na luz da meditação verdadeira, um tesouro que a nossa sociedade guardou para que o formador de opinião ordinário nos desaconselhasse pelo excesso de palavras que negam a quieta vida interior em sua contemplação passiva, elevada de andares acima, do silêncio natural e da mística dos grandes espaços da arquitetura de um Oscar Niemeyer. O asceta da cobertura de vista para o mar não se deixa seduzir pelos tesouros que a humanidade guardou, mas os substitui pelas abundâncias ocas e sua estética das harmonias úteis.
4. A solução reside em nós, a livre-opção quando nenhuma opção livre pode mais existir. Bastaria adotar o “não causar mal” para que uma pequena revolução alterasse significativamente a face do mundo. Mas, se fosse obedecido... É simples, como a “nobre idéia da comunidade”, como a defendeu Veríssimo, e mesmo que seja inexeqüível, como diz David Coimbra, é superior... A explicação desse chiste está em Eric Hoffer, True believer, sobre aqueles tão egoístas que não podendo suportar as derrotas de seus egos (talvez aumentada devido a exposição midiática), dedicam-se a causas superiores e inatingíveis, onde estas belas almas de coberturas nunca serão testadas pela culpa. Martha sabe que é utopia demais. É inexeqüível! Vai falhar, repete a seu modo David Coimbra. Mas, de novo, reitera-se o irracional, “se fosse aplicada...”. A obviedade e a simplificação plana não são valores objetivos, mas de uma metafísica (que é a negação da metafísica e) que para não perder-se no vácuo do obscuro pelo mais obscuro, já teve seu fundamento reconhecido outrora numa “harmonia universal”, justificação de todos os sentimentos superiores (...de cobertura).
O ato de vontade pelo qual se optaria pelo inexeqüível --- um inegável ato de fé num valor universal plano de benignidade sentimental --- não ocorre, e talvez não possa ocorrer, senão como efeito de alguma altura social. A opção pelo bem (entenda-se “não causar sofrimento”), no entanto, não existe, ela não ocorre; e isso se dá assim porque o comportamento humano refuga a “solução simples”, que não comove a ninguém, não convence qualquer editor de jornal, nem tem aquele poder “suficientemente bombástico” que a propaganda nos disciplina para coisas bem menos importantes.3 Os valores de Martha valem apenas a certa altura da ascensão social, quando então passam a ter alguma utilidade. O que move os sentimentos do homem --- quando ele ainda não pode ser tocado pelos melhores sentimentos, ou estar em certos cumes sociais --- é o poder, a competitividade, a vingança, as necessidades, eis para o enfado de um leitor já um pouco envelhecido, o diapasão que soa o mantra da ideologia da nata pensante no charco provinciano de Porto Alegre. Não há maior sinal de provincianismo que a adoção elegante do cosmopolitismo como uma miscelânea de doutrinas “consagradas”, por ordinárias que sejam, que hoje sedam parte da população alfabetizada. O fundamento humano pode ser reduzido à psicologia aplicada e a esta sua subdisciplina mais nobre, a ciência do marketing. Assim, não apenas os rituais e os templos deixam de ser úteis, eles são substituídos pela visão interior e pela disciplina da persuasão de certos gestos e maneiras da língua civilizada; os rituais tornaram-se campanhas de “conscientização” das massas, que repetem valores nas palavras sem qualquer experiência real deles. A psicologia aplicada desdenhará do pecado e da culpa como efeitos de superfície de um neurótico reprimido. A liberdade de escolha, fundada no livre-arbítrio, é uma superstição que, uma vez negada, permite e requer o controle ativo das emoções humanas, exceto talvez as desse tipo de ascese do cidadãos de cobertura cuja simplicidade é um tipo de pureza que eles adquiriram olhando para dentro de si mesmos. Talvez porque, como se confessa Martha, a abundância já não permite muito mais ambição, quando do pouco que ainda se necessite seja apenas a manutenção de sua condição atual.
Ora, por que não optar pelas soluções simples, pelas ainda mais simples? Ansiolíticos e hipnóticos! Mas talvez estes também sejam “laranjas”, e como Buda e Jesus, dispensáveis. Pessoas educadas e alfabetizadas, até um certo nível, podem optar pelo adestramento mental que controla seus impulsos, ainda que na abundância, e ainda que, dessa forma, domem um rato numa roda de arames. Para essa árdua tarefa Martha cita os seus valores, que ela disciplinou dentro de si: gentileza, tolerância, honestidade, paciência, troca, afetividade, e no elenco de valores de Martha a sua última aquisição, a “elegância moral”. Termo que ela encontrou “outro dia”, anotou e adotou, não sei se para algum tipo de exercício ritual ou como um adereço à etiqueta palaciana numa corte de civilidade à la Luiz XV. O ouropel palaciano de Martha incluem o brilho de palavras de bijuteria. “Gratidão”, “troca” e “afetividade” são palavras escolhidas pelo sentimento que despertam, não porque tragam valores concretos à conduta prática. São expressões de afeição, isto é, demonstrações públicas de se estar envernizado com o tom da moda. “Honestidade” é o corolário de valores anteriores, é uma reputação e um dever, mas sabe-se lá o que quer dizer isso para alguém que não encontrou fora de si, nas linhagem das grandes tradições religiosas e da sabedoria secular o que reconhece como superior, e talvez um pouco além disso, qualquer valor que ela não pudesse encontrar numa reflexão interior. A “honestidade” de Martha é uma caixa de intenções sem qualquer virtude real capaz de sustentá-la --- de onde viria então a confiabilidade de suas reflexões? Sempre, é claro, é possível recorrer à própria torpeza para afirmar as suas convicções e respeitar as dos demais. “Paciência” é outro dever, pelo menos para um adulto; mas aqui já parece uma qualidade derivada da admissão temporária dos açodamentos alheios, uma altivez nossa. Além do mais, “paciência” não é um valor como a temperança, que diz respeito de nós e antes para com nós mesmos, menos que a uma conduta social. “Afetividade” é só um jeito de modular o tom da voz ou os gestos, maneirosos, para certo efeito a alguma benignidade sentimental. Aí então temos essa fantasmagoria patética que se denomina “tolerância”, o exercício da virtude antiga sem os valores equivalentes como norte. Em contraste lhe falta as fundamentais coragem e verdade, e o sacrifício sem o qual nada se alcança de valor, pelos quais se obtém aqueles outros. E estes realmente faltam em Martha. Não consigo, pelo que ela escreve, imaginar por que lembraria de algo assim. Se trocar todos estes valores de verniz pela noção de longanimidade, temos todas as qualidades citadas por Martha, mais a magnanimidade cujo contrário é a mesquinhez. Pois é o que se vê com mais clareza em Martha, ao dedicar-se a instruir num jornal de grande circulação pálidas noções de sentimentos benignos e um afetado comportamento cívico enquanto desfaz todos os homens santos, as grandes religiões, filósofos e cientistas verdadeiros, que não são exceção quando se tratava de buscar a verdade (ou, a certo tempo, o que a modernidade alterou em parte). Como a gratidão pode ser encaixada aqui, ou a tal da “troca”? Nem a humildade se pode achar aqui, nem qualquer coisa derivada; pode-se dizer que no máximo encontra-se um esboço de modéstia por efeito ou reflexo. Se estes valores estão ausentes quando se busca, se não estão presentes na solidão, se não estão presentes aí, nesse momento em que o espírito se guia a si mesmo, é porque não passam de palavras sentimentais, que já ganharam pelo seu valor “afetivo” o brilho de alguma razão, ou do que se deve persuadir para não escapar ao bom tom.
O que Martha elege na ausência de valores verdadeiros são as primícias de uma ética social, mas ainda menos que isso, uma “etiqueta” social. Algo assim pode ser adquirido em qualquer momento da vida, mas não o levará a nenhum lugar especial, ou a ascender socialmente --- antes pelo contrário: o que se pode adotar antes e melhor na abundância. O maneirismo da etiqueta social nada tem a ver com qualquer tradição que a tenha legado, como aqueles valores que o hábito sedimentou pela experiência efetiva. O hábito desses valores são agora reavaliados por reflexões que se vem fazendo nas horas vagas, e já parecem da cobertura com vista para o mar de um sobrenatural fora de moda. A formalidade da religião oficial, ou dos valores morais, bloqueiam nossa capacidade natural de reconhecer com o feeling apurado a luz interior de uma ética universal. Na falta de uma opção verdadeira, parece que Martha conseguiu pelo menos, como lhe parece útil, que seus valores tivessem o poder da solução mais simples: ansiolíticos e hipnóticos não químicos. Quietismo civil.
A espiritualidade para Martha é apenas o adestramento dos sentimentos (mas ela pode não saber disso), que podem ser alcançado com a prática fútil da oração, ou que serve para pouco menos que isso. Curioso que se comece refletindo sobre a superfluidade das religiões como prestidigitação hipnótica e se acabe por substituir Deus pelo que Ele nunca foi, como um bode-expiatório que em vez de nos limpar os pecados, realiza qualquer coisa semelhante à ação de um ansiolítico. E isto para se propor uma disciplina dos sentimentos que cumpriria melhor essa função. Ora, como alguém pode assumir suas responsabilidades se sequer as percebe? Os valores de Martha fazem esse trabalho, são os seus valores mais altos, ao mesmo tempo os menos exigentes, ou tão exigentes quanto a representação de um papel social num baile de máscaras; podem ser exercidos como virtudes, mas desde que soem bem para um número de pessoas suficientemente grande para serem percebidos sob certo consenso. Valores ocos, ouropel social; artifícios de uma estética moral que aspira se tornar uma ética social. Tal estética rende um fingimento histriônico colateral que se pode observar, sem desdouro profissional, nos senhores Ayres Brito e Luiz Roberto Barroso --- também encontrada, não por acaso, em expoentes espíritas ---; algumas vezes exemplificado pelo tom piegas de ultraje exaltado de uma Maria do Rosário (compare-se ela com seu antípoda, Jair Bolsonaro, tão desprezado pelo opinador ordinário da mídia, mesmo quando fala a verdade).
5. A frivolidade de um código de mesuras parece que pode dar caráter e ser a marca da personalidade de quem a este se dedica --- como em um ritual, sem dúvida ---, produzindo aquela mortificação aparente como se observa também nos espíritas, semelhante. O pensamento utópico de uma ética científica que confira à sociedade uma ordem ideal não é novo. Mas a sua possibilidade é completamente fantástica, um artigo de fé não apenas em algo remoto, mas verdadeiramente irracional. O esforço para torná-lo racional, e levado ao bom tom da razão sentimental, faz de uma ética social a aspiração, assim que possível, de uma disciplina científica do comportamento humano para algo mais perfeito. Como escreveu o filósofo Stanley Rosen a respeito, com exatidão: “No geral, o Iluminismo tentou substituir aquilo que podemos chamar de metafísica do absoluto pela absoluta certeza de soluções efetivas para problemas práticos4. É o fim de uma ética social, segundo William H. Whyte, no clássico The organization man (p. 12):Superficialmente, [uma ética social] parece dedicada a problemas práticos para a organização da vida... Mas é a promessa de longo prazo que anima seus seguidores, pois esta contém as técnicas para a visão de uma harmonia acessível e alcançável”. O mais curioso é que uma ética social não precisa ser aplicada em larga escala, pois ela se organiza de modo relativamente espontâneo para substituir a ordem que as religiões antes representavam com seu sistema de valores5, já tão sistemática e amplamente desprestigiados pelo formador de opinião ordinário. Efeito de uma cultura inteira que, não conseguindo mais falar de Deus, passa a explicar os problemas da vida prática como a aquisição de um comportamento padrão que garantiria a harmonia social num bravíssimo ato novo de fé.
A visão de mundo de Martha pretende a substituição do sobrenatural por uma superstição, organizar a vida humana sobre um padrão de comportamento superior quando qualquer ordem superior já não é possível. O resultado lógico, que tende então a se concretizar na história, é apenas o controle científico daquela vontade que deveria ter optado pela “elegância moral”, mas que não o faz por não se deixar convencer de simplicidades sem apelos. Lembremos, são a avidez, a disputa, a trama humanas a base da sociedade natural, como animais não domesticados. O sentimentalismo dos valores interiores de Martha são a pátina que recobre o lento e progressivo caminho da sociedade para uma ética social científica plena. Nunca foi outra coisa. Como se sabe, os deuses enlouquece antes aqueles a quem querem destruir.
Mas a pérola mais rara dessa etiqueta social e seu símbolo máximo, a mais alta responsabilidade do homem da cobertura, é a tolerância, esse mantra desapercebido que elegeu a hipocrisia como nobreza de comportamento sem os valores equivalentes aos da virtude. Estultice assim faz pensar se a leitura não é algo realmente danoso para mentes exaustas pela abundância. Notável por ofício, Martha faz da profissão o palanque da defesa do que ainda sente como necessidade, a manutenção de sua paz interior. A filosofia de vida de Martha Mederios tem as palavras como úteis para o exercício de superioridade que todos poderão alcançar quando se mudarem para uma cobertura à beira-mar. “Levar vantagem” é um traço bem conhecido do brasileiro, que se tornou uma autocrítica sem lá grande efeito, já que as palavras também apresentam a pátina do sentimentalismo que as atenua até algum tipo de simulação metafórica que desvia tudo para a galhofa. Vantagem é sinônimo do oportunismo que toma para si a sorte sem querer perder ou fazer sacrifício por quaisquer valores. Mas morrer pela defesa da paz interior não favorece algo que vá muito além da mera ironia.
A razão do antigo bom senso se torna uma racionalização num exercício de estética moral, de criação de uma moralidade nas palvras, sem as rudezas do pecado, da culpa ou da reflexão de penitência. No lugar colocou-se a noção de “responsabilidade”, esta associada à espontaneidade e à “autonomia” de um adulto livre. Liberdade guiada por nenhum valor, mas pajeada por um sem número de palavras benignas. O que quer que se queira dizer com “espiritual” não passa de uma imitação grosseira da religião verdadeira, que cria o ambiente mimético ao de uma metafísica através de expressões sentimentais, meramente alusivas de um comportamento moral e que já não passa de etiqueta social. A constelação de benignidades de Martha é de valores que não sustentam, valores superficiais e só para efeito de beleza pública. É nessa planície do suficiente ou do desnecessário parcimonioso que Martha reconhece a realidade que desdenha do sobrenatural. Faltou-lhe a reverência pela realidade que os antigos reconheciam como sustentada por um fundamento divino, até para não se permitir recriar o irracional numa superstição social. A atenção àquele fundamento é resultado de verdadeira reverência pelo real, que permite a atenção contemplativa e a humildade verdadeiras, tudo em Martha afundado em uma terrível carência, mesquinhez atroz e de simplória ignorância.
*
Sabe o que tem o poder de mudar uma pessoa e o mundo, Martha? Não é o verniz de um sentimento, mas, se você já teve uma criança de dois anos brincando ao seu lado e perdido algum tempo observando-a, em silêncio, imaginar que uma delas tenha sido, de algum modo, o próprio Deus "disfarçado" atrás do nariz escorrendo. Isso muda o mundo, Martha. O resto, é latão amarelado.
Notas:
1 Zero Hora, 24 de dezembro de 2013.
2 No caso, refere-se ao sentimento de perda de prestígio (social) e (portanto) ou auto-estima, sentimento de humilhação, também em relação à sociedade, do que se deduz que a manutenção dessa aparência seja um esforço de adequação a maneiras codificadas socialmente, mas (por exclusão do contrário) nenhum valor real.
3 Se Martha e David Coimbra tivessem sido irmãos univitelinos suas convicções não teriam sido mais semelhantes.
4 Hermeneutics as politics, p. 145.
5 Ninguém diz, 'Eu acredito na Ética Social', e embora muito subscreveriam sinceramente as idéias separadas que a constituem, estas idéias ainda tem de ser postas juntas numa síntese final harmoniosa. Mas a unidade está ali” --- The organization man, p. 11.

---------------
**
O sobrenatural e o real
Martha Medeiros | Zero Hora, 24 de dezembro de 2013
Há algum tempo venho pensando na função das religiões, e a cada reflexão me convenço de que não precisamos de templos, rituais, mandamentos, pecados, penitências e de intermediários falando em nome dos deuses – e nem de deuses precisamos. É tudo opcional. O que precisamos está dentro de nós.Templos são belos e podem ser úteis na busca por sossego espiritual, já que costumam ser silenciosos (a natureza também pode cumprir essa função, diga-se). Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos confirmá-las, você sabe). Pecados e penitências, eu pulo. São manipulações que só servem para gerar culpa. Intermediários? É bonito contar com a figura de um pai, seja real ou simbólico, e nesse sentido a figura do Papa, de um Buda, de um monge ou de qualquer pessoa de carne e osso com um projeto pacificador pode cumprir a função de extrair de nós a humildade necessária para não virarmos uns tiranos. Quanto aos mandamentos, bastaria um só, um único, que, se fosse obedecido, solucionaria boa parte dos problemas do mundo: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a ti”. Há muitas versões da mesma frase, mas essa vem sem metáfora, desembalada e pronta para usar.Já pensou se ela fosse aplicada na política? No universo corporativo? Eu sei, é utopia demais, mas se fosse aplicada ao menos nas nossas relações cotidianas, já faríamos uma revolução. Pena que ela apresente uma solução simples, e as pessoas rechaçam o simples. O simples não gera comoção, não dá pauta, não é suficientemente bombástico. A encrenca, a dificuldade, o jogo de poder, a competitividade, a vingança, isso tudo, sim, torna a vida menos monótona. Se as coisas derem certo, qual é a graça? Do que iremos nos queixar? Eu, que adoro uma vida mansa, sou totalmente partidária do simples, do óbvio, do fácil, do comum – dentro do que ambiciono, eles me servem muito bem. Minha religiosidade é desenvolvida através de valores que não dependem de representatividade formal, constituída e sacra. Gentileza, tolerância, respeito, elegância moral (ouvi essa expressão outro dia e adotei), honestidade, paciência, troca, afetividade e desapego de mágoas e rancores: disso tudo provém a verdadeira espiritualidade transmitida de pai para filho, de avós para netos, de amigos para amigos, sem necessidade de carteirinha de adesão a qualquer igreja. Neste Natal (e amanhã, e depois de amanhã...), reze, é um conforto para a alma. Ou não reze, se não possui o hábito. Não vai fazer diferença nenhuma para o mundo. O que faz diferença para o mundo é como você se comporta com os outros, não com Deus. Deus, muitas vezes, serve apenas para transferir responsabilidades. Assuma a sua, e amém: estaremos todos em paz.
----------------
* Jornalista. Escritora. | Fonte: ZH online, 24/12/2013 | Imagem na internet.

Nenhum comentário: