outubro 30, 2018

Crônicas de Arkham

(Um Monólogo Psiquiátrico-Literário)

 “Um inexpugnável paraíso, onde alguém pode continuar a guerra e vencê-la --- porque quando esta guerra estiver perdida, a outra é vencida”.
--- Miguel Serrano, Adolf Hitler: El Último Avatar (1984).

Saído direto de um hospício de H. P. Lovecraft (no vídeo) e sede dos mais bizarros vilões de Gotham, eis o nosso o Coringa! Boulos é o nosso profeta de Arkham. Poucas vezes um sujeito real conseguiu ser tão parecido com um vilão do cinema quanto Boulos. Ele não tem a naturalidade do Lula para falar e acaba forçando as caretas, aumentando a intensidade do que diz com uma expressão carregada e abusando de uma narrativa conspiracista, com um ritmo pausado como o de quem relata fatos perfeitamente encadeados, unidos por uma lógica muito justa e subtons psicopáticos.
Pressupõe entredentes um estado de coisas sombrio (Gotham City é uma cidade cheia de pecados), aponta uma pessoa odiosa, alguém que só se pode temer, e afirma tudo isso dizendo que "essa foi uma eleição marcada pelo medo e pelo ódio", exatamente enquanto cria essas características reagindo a elas. Ele simula a emoção que quer que as pessoas sintam com ele para declarar que é o estado criado pelo adversário. O modo como ele liga fatos eventuais como se fossem relações causais arma o teatro bufo: 'Bolsonaro venceu porque fugiu dos debates e se escondeu por trás de uma rede de mentiras, no WhatsApp, a base de fraude e financiado com Caixa 2'. É o Coringa falando. "Redes de mentiras" é um termo forte para depois dizer que esse poderoso recurso foi urdido no ZapZap. Mas as caretas ficam mais graves, a câmera então se aproxima, fecha no rosto caricato dele, como quem conta uma intimidade: "Se você olhar debaixo da sua cama... Não, espere! A mão!... Ela pode aparecer".
O candidato do medo (que é anunciado produzindo medo) foi de fato o candidato da euforia por ser alguém que aparecia fora da falsidade política corriqueira dos marqueteiros e do discurso mais demagógico; além, é claro, de avesso do nauseante politicamente correto. Para Boulos, o nosso Coringa, Bolsonaro é o que o PT foi até agora. Nada mais certo que sentir como verdadeiro a emoção que você mesmo produziu. Disseminar o ódio e o medo, para denunciá-lo. Faz mais sentido. Para esse conjunto paranoico de conclusões a melhor expressão é uma calma neurótica, o que antecipa a preparação de uma reação ampla para defender a democracia com todos aqueles que "SOUBERAM SE COLOCAR DO LADO CERTO DA HISTÓRIA".
Se disse já, na época do comunismo, que ser degredado do paraíso socialista implicava não apenas alienação da pátria, mas temporal, haver-se expulso da própria história.
É preciso que se diga, diz ele: "Vai ter resistência", e nisso contém a exaltação que a expressão pede. Contida, como uma ameaça. "Do exílio (?) nós escolhemos as ruas...". O paranoico se exila para reagir do estrangeiro, lá dessa outra terra que ele habita no centro oco da terra (que ele tem na cabeça), contra as forças da superfície. Nós, os defensores da democracia! "Ele" não vai silenciar as nossas vozes, mesmo que nunca tenha sido isso; sabemos que é assim que temos de nos sentir, pois não há outra justificativa para encobrir nossos crimes (os havidos e os a haver). O tom apocalíptico de terror que ele acusa, ele cria primeiro: "Nuvens cinzentas de intolerância e violência vão passar", sem isso não haveria pelo que reagir, nem resistir --- diz com a certeza de um paranoico perseguido por sombras.
Boulos quer outra guerra para vencer, está à espera da encarnação do próximo líder, do avatar do socialismo que trará a prática certa do atual momento histórico. Ele termina, como todo fanático, com uma frase sem sentido: "O Brasil é muito maior que Jair Bolsonaro, vamos à luta!" diz o nosso Coringa. Mas esse tipo de mente doentia é seu próprio hospício, ninguém pode libertá-lo, nunca.

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