novembro 18, 2007

O Rei vive, Viva o Rei!

Era uma vez, numa terra distante, um Rei. Mas isto é hoje coisa incrível, pois ter-se-ia ainda que poder imaginar as Antípodas dos medievais, longínquas terras, distantes além-mar, das quais diríam os próprios espanhóis: Una vez, en una tierra muy lejana, había un Ogro... Bem, O Rei está, sim, numa terra distante, não seria por menos que não vislumbre nada menor, o que se prova pelo lema do brasão espanhol: Plus Ultra (“Mais além”). Mas se o Rei anuncia, desde o coração do seu reino, um mais além, o Ogro, como se não pudesse se calar nunca, e querendo ser mais ágil que a agilidade, rebate prontamente: Adonde?! [1]

Já duvidando, ao não ver nada além, sente-se cheio de razão tê-lo demonstrado a todos, que, constrangidos, sorriem acabrunhados. Tendo sido apontado com o espírito, o homem que se considera um ótimo observador, diz que nada vê e que, portanto, miram o vácuo.

O Rei, sem precisar conter-se ao plano político, onde todos são iguais – os bons e os ineptos, para fins diplomáticos –, do estupor geral disse-lhe com autoridade: “?Mas porque no te calla?”. Como se lhe faltasse todo entendimento de onde vinham as palavras, que não podia ver, imaginou ter vindo de um homem qualquer, senão concluiu por isto, ser o “Rei” aludido pelos que lhe contaram o que se havia passado, o ser fabuloso que narram-nos as lendas de cavalaria.

Le roi est vif; vive le roi!

*

Tiranos das Antípodas[2]

Já de volta ao reino muito, muito, muito pouco distante, o Ogro garatuja a situação e sai-se, ultrajado, com esta:

Esse incômodo do rei, essa fúria de sua majestade surpreende a estas alturas. Surpreende em um homem tão maduro quanto ele, e um homem que se supõe sábio, não enviado de Deus, como antes se dizia”.

Como se não bastasse, quis ver o rei como um personagem de fábula, que brinca com futilidades de uma terra muito, muito, muito distante que, sem a qual o olho veja, poder-se-ia saber que não existe...

Ontem... eu via as imagens do rei alterado. Bom, os reis também se alteram, então. Conclusão: são seres humanos, de carne e osso. Porque antes se dizia aos índios daqui que o rei era enviado de Deus”.

Nenhuma referência ao burro do Shrek, mas se sabe logo por que alguns não se calam nunca, como aquele outro destituído de transcendência, que tomou uma ilha para provar todos os dias, com os próprios olhos, que não havia nada distante que não fosse dar antes no mar. Mesmo se se invertesse a história, a Ilha não poderia conhecer outros povos, simplesmente porque seu comandante não poderia ter nunca acreditado em sair para ver qualquer coisa que não fosse dar na praia e no mar, onde, pouco ali, dá-o por óbvio, escorrega o mundo pela sua borda.

Não adianta nem tentar explicar, que o falastrão não para nem para ver o que as palavras que ele mesmo pronuncia já não contenham da certeza irrefletida que dele emana, quanto mais vindas de outro. O Rei, por outro lado, provou que ele está só abaixo de Deus, não abaixo da meiofauna palustre sul-americana. Por isso mandou o idiota calar a boca, mas o idiota, como era previsível, não entendeu nada. Ele escutou apenas a voz embravecida e indignada do Rei, e ficou magoado. E, magoado, dá para ouvir ele pensando no escuro: “Eu também quero ser Rei”. Se da potestade o rei é a hipóstase terrena, o tirano megalomaníaco para o mesmo infinito se direciona, quer estabelecer, ele também, numa caricatura grotesca, pela via mais bizarra, o poder terreno que, por não poder encontrar nada acima dele, se dirige para a inflação do totalitarismo.

Mas como convencer a estupidez de que lhe falte quaisquer fundamentos para discernimento? Zapatero defendeu a legitimidade de Aznar dizendo – num ato ainda mais ofensivo que o “cala-te” de Juan Carlos, que Chávez mal percebeu – que não se começa desqualificando o adversário, mas vá explicar isso para o lombrosiano do século XXI. Para mostrar que, novamente, não entendeu nada, já em casa não demorou-se a desqualificar também o Rei, colocando-o em “iguais condições” (!) ao tomá-lo colmo qualquer um outro “de carne e osso”.

O Chávez lembra aquele artistas rupestres das paredes dos banheiros públicos, adictos da grafitagem escatológica que ali encontramos, que entendem que os dejetos os ligam de algum modo a qualquer pessoa decente: “Bom, os reis também se alteram, então. Conclusão: são seres humanos, de carne e osso. Nada mais diferente que um Rei e um Ogro, porém isto só aos olhos do Rei; aos olhos do Ogro, por não poder ver nada além de si mesmo, intui que sejam iguais.

Explicam-se por isto as declarações de Lula, e nela isto que se entende que teria sido uma confusão ridícula, quando compara a monarquia parlamentarista inglesa ao socialismo do século XXI de Hugo Chávez. Ora, pois não tendo nenhuma noção de grandeza ou de fundamento, qualquer coisa saída da boca parece ao presidente Lula um argumento. Mas não há nenhuma confusão aí, Lula não se enganou, defendeu o ponto de vista do daimon político, que é, por fim, na verdade, o seu oráculo de sabedoria infusa.

Sem lastro nenhum, a democracia se torna, naturalmente, em tirania. Os espanhóis mostraram que estes lastros estão fortemente visíveis na figura do Rei, que não está lá pelo sistema eletivo, mas por ascendência superior – eixo mesmo que dá unidade a qualquer sistema político de um povo e, que, se não o tem, não pode sequer existir como nação [3] –, é curioso que esta ascendência superior seja justamente aquilo que defende a democracia contra um tiranete que não conhece, das práticas democráticas, justamente um dos fundamentos do seu exercício, que é a conduta correta na discussão pública.

Se não conhece não pode praticar a democracia, e irá fazer confundir o regime com o modo apenas de chegar, pelas eleições, ao Poder. Mas é justamente isto que se vê no que costuma dizer Lula, que apesar de declarar “Se tem uma coisa que eu aprendi a respeitar, é a democracia”, fá-lo simplesmente pelo fato de que o sistema eletivo em governos democráticos permite que um fantoche oco, como ele e Chávez, possam chegar, sem nunca ter lido um só livro na vida, ao Poder (que é como esses ogros chamam as nossas vidas), e por acreditarem que uma vez no Poder, legitimados pela maioria, possam dar-se poderes adicionais emanados dessa mesma maioria contra a manutenção essencial – porém, para eles, invisível – dos direitos individuais. Acham, por isto, que podem cercear qualquer um pela força da maioria impessoal, que o entanto, já não é a massa de votos que lhes dá, mas o próprio Poder.

Isto ficou evidente com as declarações de Chávez que referiam Lula como um “magnata do petróleo”, que mostra bem a visão do tiranete sobre o papel personalista de quem está no Poder e do que, por este, lhe dá posse da sorte do povo.

Longe de não acreditar na ascendência divina do Rei, ele próprio reclama-a para si.


*

Plus ultra

O lema no brasão espanhol constrange um brasileiro. Ariano Suassuna gosta de repetir aquela frase do Machado de Assis, que diz “O povo brasileiro mostra os melhores instintos, mas o Estado formal é caricato e burlesco”. O lema nos lembra a “ordem” burocrática da nossa “Ordem e Progresso” positivista, ou o Estado “caricato e burlesco”, da expressão machadiana; lembra os nossos “melhores instintos” como virtude espelhada de nossa identidade tirada de nossas florestas, de nossas riquezas naturais exploráveis, de nosso clima, de nossas mulheres... E então, o “Progresso” deve-se, por acaso, àquela frase do Lula quando ele diz: “Eu já não estou mais pensando em 2006. Eu agora estou pensando em 2007, 2008, 2009 e 2010. Eu agora tenho que pensar para frente”? [4]

Bem que eu sempre achei a máxima do Buzz Lightyear muito boa para colocar na bandeira brasileira: “Para o infinito... e além”, no lugar desse lema utilitário que está no nosso céu e que troca os nossos melhores instintos para começar por onde queremos chegar.

E teria sido de grande semelhança com esse Más allá dos espanhóis, que talvez tivesse nos inspirado a superar o que nunca conquistamos que celebramos quase como virtudes superiores. Os símbolos amorais do Brasil refletem ainda o orgulho índio que integra a nação pela ingenuidade tupiniquim. A mesma ingenuidade que exaspera o cafuzo Chávez de seus poderes aborígenes contra o império espanhol de 500 anos. Que assim, faz de um acontecimento histórico, um encontro de civilizações do século XV, motivo de um julgamento segundo a ordem jurídica atual, prova que ainda é aquele índio primitivo que não pode nunca permanecer o que é quando encontra outros povos, e aquele índio aborígene torna-se nesse índio velho que veste calção, minera em terras públicas – ou, como o Chávez, extrai petróleo por Pode – e vai à cidade gastar o dinheiro com o que acusa o império estrangeiro de ter feito com ele.

Chávez é esse índio ridículo, que quer o poder do império para se tornar alguma coisa, não como um Grenouille, protagonista do filme Perfume, mas como o protagonista Lourenço, de O cheiro do ralo. Tudo que ele ainda quer, são as miçangas e quem ele possa comprar com elas, como ele próprio foi comprado uma vez.

Então é verdade que há uma relação direta entre homens que abusam de crianças e futuros abusadores. Pelo petróleo, pelo desrespeito às fronteiras, pelos poder da força do golpe que o colocou lá, pela censura que impõe, pela força bélica na qual investe, pelo poder de intimidação atômica, Chávez teria sido o tipo pior de abusador estrangeiro. Quer ser um imperialista índio, quer ser aquele espanhol ultrajante que existe no imaginário do homem miserável latino-americano, que a ingenuidade demoniza com fins políticos.

Pela ingenuidade mantida do povo, pelo mal inerente ao homem, que alguns deles repitam sobre o próprio povo o que atribuem ao estrangeiro histórico e assim tentem contra os valores da civilização estrangeira, contra a democracia, leva a que sejam colonizados, uma vez mais, pelo ressentimento e pela estupidez. Sentem a sua identidade aviltada pelo estrangeiro reconquistada agora com os métodos do próprio colonizador histórico, do qual tem consciência pelo Poder cobiçado do estrangeiro séculos antes, o que eram e queriam ser ainda mais, e, alguns como Chávez, piores, serem os próprios conquistadores, armados agora, então, do ressentimento contra o que lhes mostra, novamente, o que são.

Novamente, tem-se que admitir, o reino de Espanha serviu de espelho à civilização primitiva d'além-mar. Se historicamente a identidade das nações sul-americanas está marcada pela crueza de um choque entre civilizações, que só por acaso, o conquistador odioso é outro, que não nós próprios, sendo isto reconhecido, é-o por entender-se que deve haver soberania dos povos, que é uma noção de civilidade estrangeira. Reclamada, então, historicamente, vê-se oprimida novamente pelos conquistadores, que mais uma vez lhe servem de espelho, quando pela figura do Rei ouve o sr. excelentíssimo índio bobão a admoestação de que deve aprender a falar civilizadamente antes de reclamar dos outros o que tem a aprender com eles.

Mas quem disse que Chávez quer a democracia? O que o tiranete quer é aquele poder despótico que os espanhóis exerceram sobre o “seu” povo, que é o que lhe seduz verdadeiramente.

*

O nem tão distante reino de mais-aquém

O mundo de Lula e Chávez é o mundo do mais aquém, o mundo do “idnada fabuloso – El Id, o grande cavaleiro que luta ferozmente contra o vazio interior e é sempre derrotado por usar a arma mesma do adversário que enfrenta, que o vence sempre, reiteradas vezes. Lembra um certo conto de Gerald W. Page, “O herói que voltou”, que narra a história de um quase herói, Dunsan, que venceu um espectro assassino porque fracassou matá-lo. O golpe que não deu, mas sofreu, matou o espectro que os outros, antes deles, haviam tentado e por este morrido.



Notas

1. Com aquela cara de tonto que só os tontos tem quando acreditam estar parecendo sábios.

2. Trechos selecionados das declarações de Chávez do Yahoo Notícias e Folha On-Line.

3. Recentemente, o Supremo decidiu que os partidos tinham primazia sobre os canditatos, por serem “entes reais”, anteriores a própria lei. Anterior à Constituição de um país, há os valores do povo e o respeito pela ordem que dispõe a prórpia lei. A democracia, pro si mesma, é, nesse sentido, oca sem algo perene na alma do povo que a fundamenta.

4. Post “Lulalia, o cacoete da repetição do presente no futuro” do dia 05/12/06.

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