dezembro 05, 2006

Lulalia, o cacoete da repetição do presente no futuro

Lula declara (ai, ai): “Já não estou mais pensando em 2006” (sic.). Por um momento pareceu que ele diria “Já não estou... nem aí!. Quer dizer, não poder dizer outra coisa: quase de pronto ao agourento índice de crescimento do PIB de 2,8%, significa o imediatismo que não pensa nem no futuro nem no passado, mas no agora. O agora é sempre mais aconchegante, porque sempre tem um futuro distante o suficiente para a gente projetar as melhores expectativas.

Já se esperava que o resultado fosse ruim, mas não tão ruim. A retórica do presidente é alentadora, no entanto.

De novo (!), pela manhã (1º/12/06), e doeu no ouvido:

Eu já não estou mais pensando em 2006. Eu agora estou pensando em 2007, 2008, 2009 e 2010. Eu agora tenho que pensar para frente [sempre!]. Estamos tomando todas as medidas para que o Brasil tenha um crescimento mais vigoroso, um crescimento que possa atender mais rapidamente à necessidade da geração dos empregos e das riquezas que nós precisamos”, declarou o mendecápodo silvícola (de Silva).

Mais uma vez a ladainhalalia da “futurística fenomenológica”, que é quando a gente transforma em “fato” uma perspectiva toda particular sobre o futuro para compensar a realidade que contradiz essa perspectiva amplamente hoje. Ora, por que “tenho que pensar para frente”, não tem não! Pensar para frente é pensar o quê? O caso não é acertar a direção do pensamento, mas o que está sendo pensado. Houve algum crescimento vigoroso para que se deseje um crescimento “mais vigoroso”? É claro que é pura expectativa, contra os fatos! Tomar “todas as medidas” deve ser o mesmo que foi feito no último ano, quando se pretendeu o mínimo de 3,2% mas se chegou somente a 2,8%; senão admite-se que não se fez todo o possível para o mínimo! Parece pouco ainda e, a i n d a a s s i m, se vai repetir a dose. Depois, a superfluidade aliceana de que se utilizam o Rei de Copus e dois de paus da comitiva hiperbórea vem ainda como todas as medidas para que se “possa”, se se pudesse, no subjuntivo amarrado à ação do acaso, que dessa vez não nos sorriu à sorte merecida (outra referência ao futuro e nele aos 3,2% inalcançados), a'tender mais rapidamente o que até então é estagnação no principal, que é o que se projetou como mínimo. Ora, nessa retórica picaresca, se 3,2% não deram, vamos sonhar com 5%, e só na perspectiva disto já se prevê que o exagero superabundante deve, por certo, guardar algo mais (!).

Muito além dos atuais 2,8% de crescimento brasileiro existem a geração de empregos e as riquezas que nós precisamos, mas que se explique que o além é aqui e agora. Além, aqui, é em algum lugar perdido, que nem se consegue ver, por isso que, por cacoete, se imagina que ele seja o futuro. Damos um tapa em uma mobília velha e temos a consciência do passado por um tipo de intuição habitual; e nesse algo mais especioso que se repete indefinidamente – que distinguimos da eternidade sem muito boas razões para fazê-lo –, reconhecemos o futuro. Se não encontrarmos esse além e esse mais não haverá futuro. Dá para começar quase às cegas investindo em educação e cultura, e algum (pelo menos algum) bom senso e uma pitada de ingenuidade empirista. Sem adestramento, por favor! Se não se conseguiu pensar bem nem o 2006, e já se está dando passos mais largos, a 2008, 2009 e 2010... pare-se tudo! Isto de modo nenhum se justifica como método a qualquer das dez pernas que o homeostático molusco usa para se projetar por através da própria emulsão de tinta negra de confusão que ele expele, propulsionando-se (e nós com ele) para dentro da mandíbula estática de um futuro predador.


Nenhum comentário: