Voltas estranhas e inversões
Com pretexto em
“Desconstruindo
Huxley” (You Tube) sobre as voltas estranhas do
pensamento rebelde.
Em “Admirável
mundo novo” (AMN), Bernard Marx é especialista em
hipnopedia; não o protagonista, que é o Selvagem. Dia
destes, alguém tentando interpretar num jornal local “1984”,
de Orwell, dizia que enquanto houver diferenças de classes e
opressão dos trabalhadores, estaríamos expostos aos
riscos de “1984”. Assim,
exatamente no momento em que o autor do artigo descrevia os
riscos daquela sociedade controlada, mostrava que estava
completamente dentro dela e do AMN, repetindo lemas hipnopédicos
--- aqueles que repetidos 62 mil vezes fazem uma verdade. De novo, é
Marx o especialista em hipnopedia. Expressões como "crise
do capitalismo", "consumismo", "elitista"
"desconstruir", são expressões hipnopédicas,
elementos doutrinários na propaganda que sai de redutos
esquerdistas, redutos do que querem construir "o Sistema"
como ele nunca existiu sem imperfeições. E estes
"diferentões", Malcom X, Martin Luther King, Che
Guevara (!), Jesus Cristo (que comparação!), Betinho
(!), Panteras Negras... estavam completamente envolvidos com a
revolução que só pode começar produzindo
o clima emocional que dizendo ser crítica convoca à
adesão de uma maioria. É um fato monótono que as
rebeliões produzem sistemas ainda mais tirânicos do que
aqueles que elas denunciavam.
Outro exemplo (vou
chocar a muitos) é a música “Another brick in the
wall”, Pink Floyd, de videoclipe
famoso; o sistema que torna os alunos em homens-massa não
é a educação, mas o sistema libertário
que começou a ser aplicado com técnicas dignas da mais
improvável engenharia social a partir dos anos 30 em várias
partes o mundo. A cena da rebelião das crianças
quebrando as classes é que as transforma em escravos. Se
alguém quiser inutilizar a muitos, basta promover estas idéias
de revolução e elas deixarão de alcançar
o nível de poder resistir à propaganda. No começo
do videoclipe, o professor ridiculariza os poemas, que só com
uma boa educação se é capaz de ler e perceber a
dramaticidade condenada e excluído no AMN.
O símbolo
melhor de uma juventude que cresceu repetindo slogans marxistas é
essa exclamação de Bernard Marx (o heterônimo do
Karl famoso) em AMN: ""Ford! Como eu os odeio!" (III).
Até para dizer que os odeia ele repete a interjeição
do fundador daquele mundo, "O, Ford"! Muitos farão
isso. A obra de Huxley (coisa não rara na arte) tem marcante o
efeito dos quadros de Escher: os personagens refletem eles mesmos,
historicamente, criticando o sistema/máquina (establishment)
que eles ajudaram a criar. Como nos quadros de Escher, as "voltas
estranhas" (Hoftadter) mais abertas deveriam pôr advertido
o leitor de que ele talvez possa fazer parte do quadro todo.
As revoluções
sempre resultaram em uns controlando maximamente a outros; o símbolo
do rebelde está no começo da Revolução
Francesa e Russa, está nos Demônios de
Dostoyevky. As crises, ao contrário do que o marxismo prega
(mesmo quando ele aparece sob o símbolo Paz-e-Amor), não
são a oportunidade para a mudança, mas antes abrem
espaço para os piores oportunistas.
O "consumismo"
existe e torna o homem um sujeito oco e fútil; mas de modo
nenhum ele está confundido com o capitalismo, que permite que
algo como a internet exista. É a cultura materialista e
hedonista, que Huxley denuncia, que está hoje completamente
albergada na pena de autores de esquerda, que gera o consumismo e que
possibilta o controle maciço, como ele pode existir fora das
teorias conspiratórias --- obra desta arte mais do que velha
---, convidando, seduzindo a uma maioria a aderir. Aí as
coisas começam a ficar confusas de novo, mas nem tanto: quando
o consumismo de uns poucos não é o suficiente, aqueles
que não podem consumir são assistidos pelo estado para
entrarem no sistema e começar a consumir. Voltas estranhas...
É um fato monótono que as rebeliões produzem
sistemas ainda mais tirânicos do que aqueles que elas
denunciavam. Nesse assunto, o neófito é pego pela boca,
quando brande lemas de resistência que saem da propaganda dos
próprios criadores de sistemas.
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