O universo plano de Ar-Naldo Jabor
“Alas!
A few years ago, I should have said “my universe”; but
now my mind has been opened to higher views of things.” ---
Edwin Abbott, Flatland
– A romance of many dimensions,
I, §1.
Em “Arnaldo Jabor fala sobre a campanha americana” o astro da fantasia
em duas dimensões e um só sentido possível,
analisa o confronto entre “O Cara”
esguio e ágil, Mr. Barack “Smart” Obama knight,
o garboso Robin Hood contra o xerife Mitt “Manguito e
Abotoadura” Romney, o almofadinha inadmissivelmente rico, o
melhor inimigo que Obama poderia querer para vencer dizendo aqueles
velhos clichês que ninguém ousaria negar na sua plana
obviedade.
Arnaldo Jabor frui
de uma notável clarividência, de uma luz que lhe escapa
pelo alto da cabeça, de grande área reflectante, e ilumina o ambiente com uma luz
crepuscular, tirando os fatos mais óbvios de nossa obscuridade
e colocando-os planamente (em duas dimensões e um só
sentido) claros e distintos. Diz lá o para-analista político
Jabor:
“Os
republicanos chamam Obama de muçulmano, covarde, comunista e
filho bastardo de uma mãe promíscua com um amante...”,
e faz um
elucidativo gesto de mãos para mostrar no ponto mais forte de
seu argumento a exposição clara de uma verdade sem
profundidades perspectivas. Mas, de fato, os republicanos chamam
Obama não de tudo isso que o infamaria, mas simplesmente de
mentiroso. Obama revelou em Dreams of my father uma
história bucólica de uma típica família
americana que jamais existiu, assim como seu certificado de
alistamento e o número da previdência social. Ao se
averiguar a história que ele contou, nada batia. No lugar da
maquiagem que George Bush colocava na cara, no seu tempo de Casa
Branca --- enquanto uma mulher com um pincel de blush dizia sem muita
paciência o que ele deveria fazer um pouco antes de entrar no
ar, com ele constrangedoramente dócil ---, Obama contou uma
história completamente maquiada da própria vida, que
quando investigada mostrou justamente o que Jabor toma por acusações
infamantes. Os republicanos não ousam “chamar Obama de”
qualquer coisa ofensiva, mas foram atrás da história
dele e viram que não conferia.
“Era de
esperar que a banda podre da América agisse assim”, diz
Jabor, “pois jamais engolirão um presidente negro...”
--- assim como Lula por aqui não era aceito por ser torneio
mecânico inábil ---, “...que pensa nos pobres e
que quer taxas os mais ricos.” A literatura em Flatland,
pátria natal de Jabor, tem um sentido de tempo muito ruim, e
por isso os eventos, como nos filmes, que o enredo sabe perfeitamente em qualquer momento o
que vai acontecer no fim, não têm conseqüências; e, assim, ignorando a história medonha dos que fazem o bem, vê o plano do mundo, como é na realidade, tão complexo quanto um mapa, ignorando a advertência que prega em sentido contrário: "O mapa não é o território!" Mas nas vastas áreas da terraplana seus latifúndios podem ser modificados para o bem de muitos (no mapa), da propaganda
socialista que se ouve da boca de Jabor (v.g., afetado de xenoglossia).
Providente, as articulações da trama se embaralham num mesmo plano, para
chegar a um final feliz que é, sem profundidade, o
horizonte da certeza inalcançável que permitirá
que se persista sempre de novo e ainda uma última vez, mesmo
depois de tudo o mais ter falhado. "Pensadores" como Jabor lutaram contra um Hitler, enquanto faziam a apologia de Stalin. A consciência de Jabor é
uma propaganda política que roda em falso. Inadvertido ou
inconsciente ou embuçado em ideologia, Jabor reproduz os temas
do racismo, da luta de classes, do líder iluminado, da outra
realidade, da engenharia plana e piegas de, assim simplesmente, fazer
o bem aos pobres, contra (obviamente contra alguém) os
criadores de teorias da conspiração que não
acreditam que o republicano Romney faz parte da linhagem ocultista da
ordem mística “Skull & Bones” que assassinou
os Kennedy (Até John-John, caído de avião em
1999).
Para quem adora
acusar os conservadores de criadores de conspirações,
Jabor não percebe a sua própria torpeza simplória
--- como aquele que disse recentemente que a religião era
produto da mente humana, que o que pode haver de fantástico
certamente era, no lugar de Deus, as “forças
ondulatórias da mente humana”. O nome que se dá para esse fenômeno humano é
o bárbaro “simple-minded”, o homem ordinário de
“plana-mente” que assume um comportamento cético e
crítico bastante razoável para a média do
consenso, sem grande discrepância com o politicamente correto,
para em seguida e planamente dizer um absurdo ainda maior.
Com Oliver Stone
--- diferente desse e de Desmond Tutu no que se refere a achar Hugo
Chávez um paladino da democracia no mundo ---, a América,
para Jabor, está dividida entre Progresso e Regresso! E como
todo mundo sabe, “para frente” é bom, porque para
frente “avança”, ou “evoluiu”, e quem
não quereria evoluir, não é mesmo? (Parece que os tubarões, os priapulídeos e... bem, teria que explicar aqui que a evolução tem um único objetivo final: não evoluir! Digressões à parte...) Obama é
o “progresso”, então; é a “inteligência
moderna” --- ((creeedo!)) --- contra (o maniqueísmo vive!) a
“estupidez fundamentalista” de Romney. Este, fazendo-se de
moderado --- lembremo-nos, é daqueles que mataram os Kennedy ---,
e, como Lula, fala manso enquanto a SS do partido apunhala Obama pelas costas!
Deve estar se referindo à declaração de um
republicano que dizia que o estupro faz parte dos planos de Deus, prova
imarcescível do trogloditismo conservador (que exemplos em contrário há tantos).
Emocionalmente,
Jabor arremata com essa verdade que ninguém ousaria negar:
“Eles mentem sem pudor, porque querem mudar o voto de
pobres, intimidar latinos, indecisos e velhos sem preparo...”
Querem continuar a obra catastrófica de Bush, as guerras. Numa
lógica que não varia um milímetro, continua
inferindo sagazmente: “O Paquistão e Israel já
tem a bomba, e se tivermos uma guerra sofreremos nós aqui...”,
por quê, diz aí, Jabor: “Por que sofreremos com
os danos ao comércio internacional, sem contar os efeitos da
poluição nuclear no planeta... Podemos rezar...”
é o que podemos fazer. Mas... para quem, Ô, Jabor! É claro, para o Obama?
O mundo mais plano
de Jabor tem de sua arte, o cinema, antes dos recursos em 3D ou das
tecnologias de alta definição, a projeção
chapada de um filme de terror trash dos anos 60. Mas vamos
dizer como um verdadeiro criador, Edwin Abbott, “Be patient,
for the world is broad and wide”. Precisamos de muita calma e
atenção para não cair na esparrela dessa lei
cega contra a qual um Nelson Rodrigues tanto advertiu, o progresso do idiota aos lugares mais leveados da sociedade, recebendo grandes doses de congratulações, e tanto mais notável no seu caráter quando tem algum talento, para com maior dificuldade perceber a estupidez. Assim, pelo que pensa saber, mais lhe parece que tem a missão de explicar para o mundo inteiro que o mundo é um lugar estreito e plano numa projeção
da sua própria mente arrasada.

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