Questão 1 à-toa: Da restituição da virgindade metafísica
“A Verdade é mais
estranha que a Ficção; é que a Ficção está obrigada a se ater
às possibilidades --- a Verdade não”.
--- Mark Twain
“Por que Deus não cura aos amputados?
Se você fez
um curso acadêmico, seja lá onde foi, salvo se tenha
dado muita sorte (ou se acostumado mais do que rápido), deve
ter visto uma certa quantidade de irracionalidade que só pode
ser ignorada pelo temor do mestre que invocou, naquele instante em
que você iria fazer uma observação
constrangedora, o princípio racionalíssimo da simples
autoridade. Obviamente, omitiremos os departamentos das humanas para
continuar aceitando o que o narrador do vídeo nos diz.
Na minha
experiência de quase uma década na universidade
brasileira (talvez não o melhor exemplo), as lacunas no
princípio de formalidade da teoria eram geralmente preenchidas
por sua vez com a “autoridade” do prático ---
geralmente ele um bolsista de uma área que nada tinha a ver
com a arte racionalíssima da engenharia do negócio. Se
a fé é irracional, uma falaciosa premissa oculta do
narrador, explica por que um prático resolva a quarta casa
decimal depois da vírgula segundo certo tino que se lhe
atribui dotado para uma decisão mais
exata --- ou, no caso, de fato, indiferente ---, ao que parecia mera
arbitrariedade.
Há outro
princípio racionalíssimo na universidade, que tem na
austera formalidade da formatação de relatórios
científicos por honoráveis editores de texto o respeito
de todos. Mas é inegável que alguns procedimentos, pelo
seu rigor técnico, guiam pela impessoalidade qualquer mente
supersticiosa a resultados perfeitamente sóbrios. E pela
sobriedade da retidão da linearidade, a tomar a credulidade
por razão exata. Como, no entanto, a austeridade científica
do procedimento técnico possa se tornar no reconhecimento
de julgamento crítico de uma pessoa que até então
serviu como um macaco apto a descascar uma banana, é já
mais difícil de explicar. Mas certamente não será
necessário recorrer à fé --- nem que se tenha
que negar isso se início!
Se
você tem algum trabalho de responsabilidade, e ignorando para
fins de formalidade científica o que se disse acima, você
pode perfeitamente tirar de sua experiência a razão de
um procedimento eficiente para algum fim previsto conforme a natureza
das coisas dá sem ocultar muito de si mesma. Que isso gere
alguma confiança --- nunca fé! --- que o mundo mais
real é sempre de algum modo planamente racional, pressupõe
que racional quer dizer coisa capaz de ser posta dentro de um
procedimento tão complexo quanto possa caber no horizonte da
onisciência que um bolsista alcança observando um rato
num laboratório --- mas cujas pretensões, diga-se sem
mais, não
são poucas. É este o fundamento de nossa ilimitada
confiança --- nunca fé --- no princípio superior
da perfeita razoabilidade.
Seja
lá como for, os deístas resolveram esse impasse
professando crer num Deus artifex --- o prático que
sabe, por fim, como tudo deve funcionar no caso de alguma coisa
parecer irracional ---, ao qual podemos invocar junto ao princípio
de formalidade dos formulários padrão que dão
algum sentido para além do que possa ter falhado por aqui.
Ainda mais, prometendo-nos algo perfeitamente aceitável ou
invocando humilíssimos as nossas limitações, sem
que nessas limitações se encontrem, para efeito de
autocrítica, com algo
que justamente nos indique certo limite à razão,
de modo então porquanto tenhamos que decidir de qualquer modo
--- como pedindo a ajuda do prático num ensaio de engenharia a
um bolsista do direito.
Existem
técnicas perfeitamente racionais que, no entanto, darão
perfeitamente errado, mas você só saberá disso
(mas nem sempre) quando vir o resultado. A ciência tem inúmeras
histórias de arcabouços especulativos que foram
admitidos a certa época o fim do erro e da precariedade,
ainda assim, depois de muito desmentido --- e das "crises" paradigmáticas, como as chamam ---, resta inexplicável a crença
automática num sentido do progresso científico
catapultado pelo erro dos anúncios anteriores. Ninguém
admitiria aceitar que procedimentos racionais perfeitamente coerentes
pudessem dar sempre em resultados, digamos assim, verdadeiros,
justificando-os por serem assim lá ao seu modo todo
particular; e que para fins práticos apenas é que
devêssemos considerá-los falhos. Certamente o fim certo
de um procedimento é a verdade desse procedimento, cego como a
natureza o dotou. Exatidão e Verdade mantêm de qualquer
forma sempre uma respeitável independência. É o
que dá para dizer do que às vezes é “errar
na mosca”.
Se
a razão é assim um procedimento de formalidade que
pessoas normais e inteligentes podem seguir, deveriam fazê-lo
apenas quando e para os fins tão restritos quanto se os
estabeleceu, sobre casos inquiridos e de modo nenhum invocá-los
para justificar qualquer outra coisa, omitindo-se tomar por eles uma
refutação da fé ou do próprio homem. Ou,
essa arte arrogante que monta o espantalho da credulidade para
refutar uma faculdade cognitiva.
“Você
consegue usar a razão que o conduz na sua vida profissional
para pensar a sua fé?” pergunta o vídeo no
início. Nossas decisões diárias são tão
sujeitas a irracionalismos que antes seria prova do contrário.
Ora, por uma mera sensação de ordem prática que
nem Kant conseguiu resolver para lá da mera arbitrariedade, o
ateu tira o sentido do que é “racional”. Ou, não
exatamente o “sentido”, mas o sentimento --- pois
a razão do ateu é uma sensação emocional
estetizada que tem o implícito desapercebido dos símbolos
de harmonia, equilíbrio, equivalência, etc., que moldam
seu mundo mais racional. Rebaixando o céu a um procedimento
cirúrgico, o ateu militante usa a sensação
ignorante de que tudo é racional, quando se pode dispor de uma
boa explicação para tudo, o que não deveria
fugir de sua própria censura sobre as “racionalizações”.
O racionalismo do ateísmo, e já não é de
hoje, não passa de um tipo de superstição; e
superstição, não incomum, associada à
conjuração, à magia, ao cabalismo, etc.: uma
gnose, mas que se recusa a conhecer. Afinal de contas, “a
certeza de que não há nenhuma salvação é
um tipo de salvação; de fato, é
já salvação” --- Emil Cioran.
Se
há mesmo um número respeitável de médicos
que acreditam que Deus cura doentes diariamente, por que Ele não
cura aqueles que rezam por suas pernas amputadas? Faltou dizer,
supondo que alguém o peça. Desconheço quem tenha
pedido isso algum dia, mas já dá para imaginar possível
pelo milagre de que alguém, querendo-se honesto, desafie a que
se o faça, previsivelmente para não ser atendido,
comprovando por efeito acachapante o que se quer dizer e de lambuja,
siga-se que Deus --- que não responde à essa
excentricidade --- não exista.
Tomás
de Aquino dirá que nem mesmo Deus pode restabelecer a
virgindade perdida de uma donzela. Mas, de novo, se você não
pode vencer alguém, tente convencê-lo de que ele está
derrotado, é um truque que se não funciona muito bem
com Deus, causa uma certa confusão que tem lá os
seus resultados não de todo negligenciáveis. Mas São
Tomás parece que não lembra que Jesus Cristo curou a
“mão seca” de um homem, num milagre parecido ao
apelo do ateu, ou ao paralítico, que deve ter sofrido de
alguma restituição física verdadeira. De
qualquer forma, se a donzela, que já não é,
voltou a sê-lo, a não ser que Deus apague também
o seu desvirtuamento do próprio tempo, de ter alguma vez
ocorrido, o que é a razão da intervenção
milagrosa --- e é provável que não possa ser
apenas isto, mas ir um pouco além ---, e porque deveria fazê-lo
também da memória de todos e de sua prória,
parece que, de fato, nesse ponto São Tomás tem razão,
e razão mais forte, para afirmá-lo. Mas estes
procedimentos parecem repulsivos a nós que se os atribua ou
peça a Deus.
A questão
quer dizer que Deus, ao permitir algo, no curso do tempo, deveria,
por um simples pedido, desfazer algo já ocorrido, é só
um modo de dizer no pequeno o que num quadro grande equivale à
pergunta mais fundamental que esta --- tentar enfiar na cabeça
de Deus que ele está derrotado ---, que tenta Deus
pedindo-lhe que deixe ser Deus para provar que é Deus. Deveria
eu rezar para que Deus me trouxesse à vida assim que eu
morresse, sendo este o sentido de ser redimido dos pecados e, por
razão mais forte, não outro? Ou,
deveria Deus não apenas redimir nossos pecados, mas fazer com
que eles jamais tivessem acontecido? Deus, para um ateu, se
existe, não pode passar de um manipulador previsível.
Me passa pela
cabeça que Deus seja infinito na sua bondade, mas um tanto
racional para com o mal no mundo, tanto que
geralmente repete que há --- vejam que injustiça! ---
consequências para os atos maus
(Êxodo 34:7).
Extensão desta diabrura em forma de curiosidade é
aquela que se pergunta por que Deus permite que o mal ocorra a
pessoas boas. Mas, ora, e sobre quem mais poderia ocorrer o mal? Se
ocorresse apenas ao ímpio, chamar-se-ia não mal e sim
justiça. Mas o efeito, dificilmente previsível, de tudo
que alteraria na ordem do mundo, gera uma destas absurdidades
paradoxais que levariam à extinção da
possibilidade do mal e, com ele, do livrer-arbítrio. Não
haveria como não transformar o homem num bizarro animal dotado
de razão e a razão já sem se poder distinguir
muito do mero instinto ou do comportamento dos insetos sociais.
Homens completamente iguais uns aos outros, porque não haveria
o mal, nem a liberdade, nem nenhuma escolha verdadeira e toda a
aventura humana já narrada teria podido existir algum dia; a
qual, então, ter-se-ia resumido a um paraíso medonho de
uma raça pálida e piegas. A própria questão
de uma sociedade mais perfeita só faz sentido num fundo de
imperfeição, que é, de algum modo e em algum
grau,
sentida como sofrimento. O mundo mais
perfeito é, portanto, de aspiração frustrada,
qualquer que seja a perfeição dessa sociedade. A busca
pelo prazer é uma fuga do último prazer que então
já começa a parecer desconfortável aos que se
acostumaram com ele. Não é à-toa que em
Admirável
mundo novo o
Administrador esclarece, para controlar aquela distopia artificial,
que a idéia de felicidade está relacionada à
satisfação prontamente de todos os instintos, associado
ao estímulo permanente destes mesmos instintos (--- alguma
semelhança com as campanhas pelo uso de anticoncepcionais e
preservativos, e em seguida do aborto, ao mesmo tempo em que se
estimula o sexo livre?). Uma população dedicada à
“harmonia” em um mundo maximamente controlado tem de,
necessariamente, ser reduzida a um cálculo ponderado de reação
e estímulo. Só uma população inferior
poderia suportar um mundo sempre mais perfeito. Os ancestrais dessa
população, são hoje justamente os que sonham
mais ardorosamente com um mundo mais e mais perfeito, e aqueles que
já o vivem, maximamente, como indivíduos que se
satisfazem.
O
pior de tudo é, além do mais, que esse mal pode, sim,
atingir pessoas inconscientes dele. Suprema injustiça para
algumas pessoas muito boas --- segundo seu próprio julgamento
---; ou, para aqueles que julgam que não há culpa,
porque não há livre-arbítrio, de modo que
qualquer deslise de comportamento deveria receber o devido tratamento
pelo sistema de saúde público; ou o infortúnio mortal,
compensado por méritos havidos ou parcelamento ascético
doravante. O perdão divino feito bônus num tipo de
procedimento financeiro onde o valor moral da ação
humana pode ser convertido a moedas de troca. Mas Deus parece que não
pensou em nada disso. Difícil, além do mais, seria
explicar como pessoas assim inconscientes do mal alheio fossem muito
diferentes, ou de outro modo diferentes, para o mal que elas próprias
seriam agentes. Outras compensações assombram; quando o
ateu malicioso parece ter desistido de voltar contra Deus qualquer
diferença deste mundo para com um muito mais perfeito, vemos
uma troca de tática, e o mesmo reaparece como um esforço
pela máxima difusão de igualdade por ações
afirmativas que individualmente parecem o próprio bom senso
permeado de compaixão. Ocorreu-me que uma campanha do grupo
gaúcho RBS recentemente tinha a chamada que dizia: “O
que você acha que um deficiente intelectual gostaria de ouvir?
'Sim, você pode trabalhar na nossa empresa!'”
e qualquer coisa como “exija de
sua empresa seus direitos de ser incluído”.
As cotas para negros chegaram a 30% em algumas universidades, ao
mesmo tempo que se estimula o sentimento de rancor racial e, por
efeito, sua contraparte; a defesa de gays e lésbicas como
pessoas especiais, que precisam ter privilégios legais, vem
acompanha de campanhas feitas por estes grupos para emporcalhar a
igreja e subverter o padrão da maioria exigindo desta
deferência pelo que os distinguem dos demais; ou o expurgo de
terras a ocupação de índios romanceados por
poesia piegas. As compensações artificiais que impõem
no pequeno à luz de uma sociedade (algum dia) maximamente
justa, perdem facilmente a noção do absurdo que
produzem no conjunto, mesmo quando individualmente nos parecem o
extrato mesmo do bom senso.
Vamos dizer assim,
voltando ao assunto, que Jesus curou a uns quantos, como Lázaro
e a mão seca de um homem, e pior, no sábado! E fez
horrorizarem-se aqueles como aos ateu militante, e não antes
pelo milagre, senão pela ousadia inacreditável de ir
contra as mais antigas e conhecidas tradições sociais
do seu povo. Porque é do que se trata a razão atéia:
mero hábito; o padrão uniformitário do consenso.
Não é, afinal de contas, apenas a
fé que cega, parece que a sóbria razão prática
e habitual também o faz. E parece que o faz mais que mais
profundamente que o inefável do numinoso que nos assombra de
vez em quando. Que
lembre, a despeito de a Verdade ter, no Cristo, realizado o incrível
de modo insuspeito mesmo na ficção, o mesmo Jesus explicou didaticamente que os
milagres não tinham a função de curar as pessoas
quando elas quisessem ou servir de sistema de resgate em caso de
inundações. Ter o Cristo pedido pela fé aos que
o seguiam, e não ao desejo de serem curados, à
benevolência ou à tolerância, igualmente, é
que não o torna um curandeiro carismático. A coisa
fica, para o cristão, toda mais --- nas palavras do ateu
militante --- “irracional” então.
Por
este “irracionalismo” --- cuja petição de
princípio faz a razão medir a realidade, invertendo
aquele adágio de Marc Twain --- , um C. S. Lewis reconhece à
inaturalidade tão diferente do panteísmo ou da física
newtoniana; pois é justamente o que há de imprevisível
e idiossincrática da revelação cristã, “a
experiência forte de viril da realidade que não foi
criada por nós, nem, de fato, para nós, mas que nos
golpeia o rosto”. Ou Chesterton, ao ouvir que o
cristianismo não passava de uma fábula, respondeu
dizendo que se tratava exatamente disso: nas estórias do que
um homem sensato faria num mundo de loucura, aí encontramos
essa sinuosidade obstinada e dramática da fé cristã,
uma mensagem que é mais real que a realidade --- e por isso
mesmo, muito pouco racional.
As
causas que levam a que alguém possa perder uma perna é
a mesma que leva a que alguém possa pensar como um ateu e
ainda querer que seja razão superior. Vantagem ao perneta, que
não tem a mesma facilidade para acreditar que com uma perna a
menos isto o habilite a caminhar com mais leveza, por tocar, quem
sabe, menos vezes no chão. Infortunadamente, não dá
para dizer o mesmo do ateu militante. Assim, a reivindicação
--- de investida recente --- de grupos ateus por “igualdade”
e “não discriminação” parece que
estão em perfeita sintonia com as campanhas também
recentes pela inclusão dos deficientes intelectuais. A máxima
comunista “de cada um segundo suas capacidades, a cada um
segundo suas necessidades”, que prevê um mundo
igualitário, desceu confiante à amorfose anárquica
da sociedade sob outra máxima: “de todos a cada um,
indistintamente, de cada um como qualquer outro”. Se a frase
resultou esdrúxula, o que ela realiza pretendendo a igualdade,
não será menos.
Como
a “mente” de Deus é uma coisa um tanto insondável
para os últimos procedimentos racionais da ciência
moderna, às vezes as respostas de Deus podem não
parecer exatamente... lineares. Digamos assim, que equações
diferenciais metafísicas existam... O que é para Deus
linear é, para nós, nem tanto. Saberíeis por
aquela máxima “Deus escreve certo por linhas tortas”.
Pedisse eu para que jamais houvesse perdido a perna, teria sido eu
antes um bom cristão, ou tornei-me apenas um indignado cliente
de Deus após o evento sinistro? De onde vem que se deva
pedir a Deus algo assim, pedido que é, de fato, acusação!
Ou, está aí o ponto: quando, afinal de contas, deveria
eu parar de pedir pelos meus membros, antes de começar,
digamos ao sétimo desejo de restituição, decidir
que, enfim, Deus não é infinitamente bom e isso seja já
contradição suficiente para negar infinitamente o que
eu perdi apenas em parte?
Meu
plano de saúde, em outra ocasião, cuidou de questões
menores, de muita ajuda, quando de uma pequena cirurgia reconstitutiva do joelho, mesmo
que tenha feito o contrato justamente pelo incidente. Eu sou um cliente por necessidade de meu plano de saúde. Quantas vezes,
depois disso, percebi que erros nossos potencialmente perigosos
estiveram cobertos por bem mais que a minha capacidade de controle
pudesse dar conta. Digo-o não para provar que Deus nos cuide,
mas que querer que ele nos cuide nos traz a consciência de toda
a gravidade de que alguns momentos de desatenção podem
ameaçar-nos de um modo que nenhum cálculo permite
antecipar.
Se
eu rezasse para que Deus me protegesse e, por algum lampejo de
lucidez eu atentasse na estrada evitando um acidente que
(imprevistamente) teria me dilacerado uma das pernas, eu não o
atribuiria a Deus para muito mais longe que a reflexão de que
pedir para que me cuide desse-me a lucidez de refletir sobre meus
riscos atuais diminuindo-os, assim, no futuro. Mas, temerosamente ---
arriscando importunar ao Senhor ---, indo mais além, supor se
Deus pode nos lembrar contra o próprio sentido do tempo, já
é coisa que não poderíamos descartar se
quisermos continuar acreditando nos milagres do Cristo citados aqui
pouco antes --- e, pelo menos, no que tange à
cura física ---, para em seguida ter que levar seriamente em conta a lição de São Tomás. Assim, se Deus o fizesse, impedindo-nos de perder a perna, fá-lo-ia
antes não ao modo de um esquecimento retroativo de algo de
fato ocorrido, junto da restituição do mal havido, mas
de uma ordem das coisas que antecipando o mal, o evita ou desvia? Por
que Deus atenderia a um pedido que exigisse que ele permitisse ao
demônio contingente do mal para arrancar-nos uma perna e em
seguida, (e só em seguida) restaurá-la, pareceria mais
o exibicionismo de um poder, atendendo prontamente ao Diabo, antes que coisa lá
ao modo de Deus. Atender ao diabo certamente não deve ter
outro fim, além do mais, que esculhambar não apenas com
a obra divina, mas com o próprio Deus, desde baixo, desde a
inversão de tudo por desvio malicioso. Servir a esse
propósito desviante é o que faz o séquito conduzido que adota
o mal como princípio de reforma do mundo.
Se
Deus nos protege pessoalmente, isso só faz sentido ---
racionalmente, para efeito do princípio de formalidade de um
cristão --- se supormos que haja algo que não tenhamos
confiado a Deus ainda (e que, então, havia-Lhe escapado), de
modo que precisássemos invocá-Lo para que se
realizasse. Doutro modo, Deus já sabe o quanto nos deve
proteção ou os limites de nossa vida, senão de
todo, que nos deu certa liberdade a isso por meio de e conforme
certas tendências naturais --- é o
que devemos aceitar --- antes mesmo que quaisquer previsões que pudéssemos fazer chegassem a alcançar
um grau de previsibilidade útil. Ora, que no fim desse esforço
de amor próprio acabemos por pedir pela nossa vida, já
seria uma pequena traição para com Jesus Cristo --- segundo o princípio de formalidade que se apresenta a um cristão.
De
qualquer forma, a questão agora não é saber por
que Deus não nos permite escapar de todo o mal, no qual o ateu
militante encontra onde quer que pareça haver qualquer
contradição à infinita bondade de Deus um argumento que
lhe sugere então algo que não deveria ter faltado a nós
se Deus, é claro, realmente existisse. A crítica que
visa denunciar o mundo atual comparado a um mundo futuro sempre
melhor é a perseguição que pretende evitar o pôr
do sol numa jornada sem fim para oeste.
Apontar o dedo contra tudo que se diga, buscando compreender, que não tome o mundo com a "simplicidade" de um raciocínio linear, claro e distinto, de racionalizações
muito esquisitas é um modo de limitar toda a realidade e Deus
para caber dentro de um procedimento científico perfeitamente
impessoal, talvez tão impessoal quanto as “caixas de Skinner”,
e, obviamente, negá-los a por razão mais forte. E por
não admitir, com o ateu ladino, você está tentando fugir --- ...da
armadilha --- com uma racionalização qualquer? A
auto-referência do ateu militante não é uma
malícia, é uma condição estruturante da
alma do ateu militante --- isto é, claro, se é que ele
tem uma. (A recusa dela, afinal de contas, pode perdê-la.) Para
evitar acusações de irracionalismo, digamos que a
detecção da alma não seja feita por
plasmógrafos metafísicos, mas pela unidade que haja quando Deus não
cumpre a restituição em nós do que quer que seja
ao modo de como consideramos poder ser o caso para restituir não
apenas a virgindade de uma donzela, mas também a sua reputação
perante toda a comunidade ao custo de esquecimento e
alienação[1]:
isto é, pela unidade de nossa alma, pelo conhecimento de
nossos atos conscientes, pelo conhecimento confrontados com o real e
(talvez antes), na solidão de nosso quarto, sós, perante Deus.
A
solução mais razoável para que Deus nos proteja
do pior dano físico seria ele deter o mal antes de acontecer,
ou cair no círculo infernal que restitui um malefício a
custa da unidade de consciência e de nossa alma. Só o
demônio pensaria em algo assim; pensaria em algo assim para que
alguns pensassem-no para destruir a fé, essa capacidade cognitiva que tem por suas
superstições mais persistentes a Verdade e a
Realidade, mesmo quando esta, à luz de Marc Twain, acontece de
modo irracional, imprevista e singular. Sabiam os gregos antigos, os quais começaram o que viria a se tornar essa fé cega da Deusa Razão da ciência moderna, que a verdadeira ciência jamais começaria questionando a natureza da realidade negando-a de início aquilo que a nós se revela como a evidência real, do modo mesmo como ela se apresenta, e isto claramente contra a espectativa simplória do ateísmo de que a razão seja, invertendo tudo, a medida da própria realidade [2].
Objeções
a se negar ao ateu uma alma podem ser dirimidas questionando o seu
fundamento sem fundamento, a razão. Se a alma é um
procedimento racional da máquina humana, passível de
mera descrição de fragmentos de consciência que
giram em torno de um centro vazio, talvez assim seja por uma opção
e recusa de que seja de outro modo. Já que à consciência
se nega de pronto a vontade livre, que parece que não faz parte
dela ou, que não há vontade livre, mas o cálculo
difícil de um acidentado mecanismo de tendências que
levam à arbitrariedade. É curioso como a vontade, da
qual bom funcionamento pode ser a própria fé austera,
pode criar, por uma função específica sua, a
condição humana para a danação da alma ou
para sua formação; porque a existência da alma deve refletir a consciência humana na sua melhor condição, ou a sua perda e a sua sujeição. O homem, quando descrê de
Deus, pode fragmentar a sua alma e danar-se; e pode ocorrer que a
condição da formação da alma, por
processo natural --- daquela natureza humana de que tratava há
pouco ---, seja uma função da fé. Talvez não seja nada muito longe disso. A realização
de parte do aparato cognitivo tipicamente humano pode ser justamente
a faculdade integrada da vontade livre que reconhece a Deus. Mas isso
está para um ateu, que não admite a consciência
para lá da libido mascarada de racionalizações, ou isto à vontade livre, desde o início excluído por razão
mais forte --- Ateus militantes: pelo direito de não
perguntar!
Exclua-se o que há de distintivo no homem, e voilà, sobra necessidade e circunstância. Mas se fizer parte do homem que ele assuma pela vontade um Deus transcendente, quiçá um pouco mais, o próprio Bem, então passará às cegas o ateu, conduzindo a uma maioria para as sombras.
Exclua-se o que há de distintivo no homem, e voilà, sobra necessidade e circunstância. Mas se fizer parte do homem que ele assuma pela vontade um Deus transcendente, quiçá um pouco mais, o próprio Bem, então passará às cegas o ateu, conduzindo a uma maioria para as sombras.
Pedir para que uma
perna se regenere não é nem um pouco equivalente a
pedir algo que ainda pode acontecer e está dentro do universo
do possível natural --- ou, sem, pelo menos, ou por analogia, algo que
esteja ainda coerente com a vontade de Deus ---, mesmo ainda que
inacreditável, como o disse melhor Marc Twain. Mais inacreditável, ainda que perfeitamente racional, é
o embuste de pedir para que se creia num poder mágico para,
vendo-o falhar, negar a Deus que não atende a caprichos e a
acusadores dissimulados. O ateu militante mostra ter uma visão preconceituosa do que é a realidade e supersticiosa em relação à razão.
A
despeito disto tudo, o vídeo ateu acha legítimo que a oração,
que não deva poder nada, seja capaz de pedir algo impossível
(que talvez possa significar apenas o simplesmente inconveniente aos
olhos de Deus); ou, que se possa crer que ao não
ressuscitarem todos, esse argumento possa parecer
mais válido para uma maioria que não voltará.
Reforçado assim o público do ateu militante, é
do mesmo modo que a cura do câncer não é
impossível, nem mesmo, em alguns casos desacreditados pelos
médicos; mesmo assim, o que ocorre não é algo
mágico, mas, ainda assim, cuja explicação
racional do
ocorrido
não pode ser dada melhor do que o faz o fato de que isso tenha
se passado exatamente assim. E que, de novo, assim sendo, o tal fato
dotado de nenhuma razão (explanável) pareça a um
ateu que possa ter alguma explicação perfeitamente...
“razoável” é já uma liberdade que o
próprio ateu militante diria ser uma mera evasiva e uma
“racionalização”. É a falsidade para
fins de sombra, para onde se evade com um sorriso confiante e citando
Wittgenstein, de que o silêncio é o refúgio da
verdade, quando se é pego no embuste.
Por que pede o
ateu ao cristão que creia no impossível,
contrário à vontade de Deus, está numa razão
maliciosa direta com a de tentar a Deus a Se mostrar tão fraco
quanto sua recusa a isto o quer tornar tornar impotente. Pergunta que os ateus
compulsaram do demônio para tirar a fé de uma maioria.
Não vê nisso intenção consciente ao pacto
com o demônio o ateu militante, obviamente; mas por seus
efeitos, o lado que assume o ateu nesse jogo entre o bem e o mal não
lhe dá muita escolha. As máquinas de momentuum
de revolução estável são conhecidas por
serem bastante sensíveis a forças externas, como os
objetos no espaço a preservar a força aplicada
deslocando-se sem perdas. Pois a tautologia ou o looping
da razão cria efeito semelhante: quando se apoia num giro que
acaba sendo a consciência por procuração de um
sentimento anônimo de desamparo nesse mundo, ao qual nos vem
acudir com um contrato de alívio neste mundo.
Justamente, isto, o que se atribui à religião quando se
a toma por artifício supersticioso perante o medo da morte
ou do dano físico.
A
idéia esposada por Antoine-François Momoro (1756-1794)
de rezar missas em Notre Dame à “Deusa Razão”
segue dessa racionalidade que se põe superior a tudo, que
chegará em lugar menos instruído à coisa
mais grotesca,
e exatamente quando se pretende mais racional, dá no contrário
--- na mais ridícula idolatria. Quando aquele outro, contrário
a Deus, é desmascarado, sendo
sua natureza, ainda assim, de Deus, ruboriza-se, para ser seu rubor
imediatamente ocultado por uma camada de pó de arroz que torna
toda essa pantomima ainda mais grosseira; e, por algum outro milagre
digno de crer cegamente, que pareça assim mais verissímil
por esse verniz de pálido disfarce que chamam razão, é
já o que se pode fazer num palco montado para que Deus
justamente não apareça.
O
que realmente não faz sentido é acusar que se negar a
usar a razão conduza à racionalização de
uma justificativa. Certo pela culatra! O apelo à razão
em si é apenas uma racionalização em looping
auto-referente --- isto é: arbitrariedade crédula, cuja
crendice, com outro nome, chama-se ideologia e superstição.
E, ora, a epistemologia de uma ideologia é uma estética.
Onde está sua premissa, nem o ateu sabe, que a estética
é uma premissa subliminar, o lapso de consciência e de
linguagem: é o discurso que fala pela tua boca, sendo que tu,
de ti mesmo, não dizes nada. Concordar
com o vídeo seria mais racional que qualquer racionalização
que mostrasse o truque malicioso por trás da pergunta!
O
apelo de racionalidade do vídeo ateu é um apelo para a
vanglória do homem, que se emancipe de Deus. Chama-se a essa
emancipação, dando o seu nome verdadeiro, Queda.
Mas imagino que ao ateu a Queda só possa se referir à
queda do perneta, ao chamar por Deus, que não o atende. E pelo
efeito dessa baixa graça
escapar entre risos, de
ser pego na impostura. Deus também parece que é
insensível aos clamores piegas do ateu militante, quando ele
pede ad absurdum por um mundo sem sofrimento, ou quando tenta
a Deus para a todo momento colocar o tempo de pernas para o ar, para
mostrar ao seu bel-prazer, não sem ironia, que é, de
fato, Deus. Um deus-sabujo, um deus de coleira, preso pela guia de
demandas diabólicas. Um deus que atende prontamente, e,
portanto, que caso atendesse, ao atender, deixaria de ser Deus.
É
uma marca-diagnóstico das coisas demoníacas pedir para
não ser atendido e concluir por isto que não há
Quem atenda; e caso fosse atendido, instantaneamente, deixaria de ser
Aquilo que o ateu acusa Deus não ser.
Nota
1.
Nesse assunto estou completamente em desacordo com o ponto de vista
que tem Umbero Eco, que diz em Os limites da interpretação,
2.1.1. O Modus,
que Deus estaria impedido de alterar a ordem temporal do havido ---
querendo estar compulsando essa noção dos gregos ---, e
que, portanto, não poderia justamente violar o princípio
lógico do modus ponens, pensando colocar em cheque o
princípio de identidade (PI, A=A, i) ao fazer disso uma
contradição que arriscaria a existência do
próprio Deus. Eco consegue dizer que o PI é uma
invenção da civilização grega ao mesmo
tempo que é o modo como ele coloca em cheque os poderes de
Deus de um modo que Deus estaria à mercê do tempo, ou do
que o tempo exige, logicamente (lógica desligada da
ontologia), porquanto de uma cultura que elegeu a lógica a
partir de sua necessidade de ordem sequencial da racionalidade
linear. Eco usa justamente dessa linearidade lógica e ingênua, que atribui aos gregos, para acusá-los (!) de racionalidade, ao mesmo tempo que que faz notar neles os cultos ao deslisamento mágico-mítico de sentido do hermetismo. Acusação que Sócrates, na base da fundação da civilização, é testemunho do contrário, mas que Eco não se demora em ignorar.
2. Curioso que essa inversão tenha no Idealismo Alemão sido reconhecido em parte como a própria definição de "idealismo".
2. Curioso que essa inversão tenha no Idealismo Alemão sido reconhecido em parte como a própria definição de "idealismo".
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