outubro 13, 2007

Ciência traz avanço ético para ratos

Conhecimento detalhado do cérebro permitirá aperfeiçoar juízos morais”, defende neurobiólogo do Collège de France, Jean-Pierre Changeux, acólito de Jacques Monod, que foi tema do artigo de Marcelo Leite para Folha de SP de 9/8/07 (Jornal da Ciência de 09 de Agosto de 2007).

Uma ciência objetiva da moralidade deve ser, na visão do Sr. Changeux, a escolha que se faz pelo funcionamento mesmo do cérebro como base para uma lógica da escolha. Princípio tomado da neurofisiologia e extrapolado para toda a vasta gama de fenômenos morais. E quem diria, depreendidos do funcionamento mesmo desta máquina maravilhosamente complexa que é o cérebro humano; tão maravilhosa que permite que surja um erro tão igualmente fantástico como o de que se possa deduzir dela algo como o livre-arbítrio puramente de seu mal funcionamento.

Ver na possibilidade de conhecer o cérebro mesmo em seu funcionamento qualquer equivalência com a possibilidade de traçar os planos de uma ética, é hipostasiar a consciência mesma de onde surge qualquer possibilidade de ética a uma coisa menor que ela. Ora, isto só pode dar em uma ética postiça, que garantirá a vantagem da precisão em relação ao “erro” intrínseco à escolha ética, o que, por definição, lhe restringe já no que é seu fundamento.

Mas é o cébrebo mesmo que descobre os valores? A neurofisiologia poderia elucidar o que seja, nos processos cerebrais, o modo de ser de uma ética que, portanto, só se torna imperfeita quando se manifesta na mente? Como não se fez qualquer pergunta semelhante, não vai dar para saber se tem algo mais no que se diz de menos.

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O fantasma do rato na máquina

A partir do “poder explicativo já alcançado na elucidação dos processos materiais na base de faculdades mentais, como a capacidade de fazer juízos morais” Changeux é da convicção de que a neurociência [a ciência do “como a mente funciona”] pode fornecer uma base sólida para a ética e torná-la uma “ciência objetiva da moralidade”. Mas desconheço como imaginar o modo de como isso possa ocorrer, senão por certa analogia que perde o essencial e acerta – por qualquer semelhança mera que se possa encontar – a “base” sólida para além do qual todo fenêmeno do espírito lhe escapa:

A neurociência está acumulando conhecimento sobre o cérebro. Na medida em que ela progride, temos de tomar em consideração esse avanço para entender melhor como os seres humanos pensam e agem. Isto é, devemos aceitar esse conhecimento, uma vez que seja verdadeiro, como modo de mudar nossas vidas.

É uma obrigação de todos tentar entender o que está acontecendo nesse campo”. É, certamente, dever moral nosso reconhecer o que foi alcançado, senão pactuar com aqueles “casos de corporativismo filosófico. Ninguém mais questiona, diz Changeux, que a dualidade mente/corpo esteja superada pela redução recalcitrante à doutrina materialista a(na)tomística – ênfase neste “-mísitca” –, que, por algo ainda não explicado, deu-se o sentido de uma evidência, apenas como que ainda desconhecida tão somente do homem médio, nunca de cientistas – altíssima estirpe de pensadores –, de que “o pensamento ocorre em corpos materiais.

Leia-se o que diz a seguinte passagem do artigo de Marcelo Leite:

Para ele, assim como o neurocientista precisa conhecer os progressos da física, psicólogos, sociólogos, filósofos e até teólogos têm o dever de acompanhar o que se passa na neurociência.

Compare-se agora a seguinte passagem d'O fantasma na máquina” de Arthur Koestler:

(...) Os behavioristas chegaram à conclusão de que não podiam mais concordar que o seu trabalho se fizesse com elementos intangíveis e inacessíveis. E decidiram abandonar a Psicologia ou transformá-la numa Ciência Natural...” [Watson].

Esse “programa limpo e novo”, como o próprio Watson o classificou, baseava-se na ideia ingênua de que a Psicologia podia ser estudada pêlos métodos e conceitos da Física clássica. Watson e os seus continuadores foram bastante explícitos a esse respeito; os esforços que envidaram para realizar o seu programa se transformaram numa operação verdadeiramente procustiana. Mas enquanto o malfeitor lendário se limitava a distender a sua vítima ou a cortar-lhe as pernas para que se adaptasse à cama, o behaviorismo começou por cortar-lhe a cabeça [consciência] e depois o retalhou em “frações de comportamento em termos de estímulo e resposta”. A teoria se fundamenta nos conceitos atomísticos do século passado, que foram abandonados em todos os outros ramos da ciência contemporânea.

Ora, por que será que não espanta que o Brasil tenha dado eco a esta “novidade” no campo da ciência?

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A alma da máquina

Changeux diz que não é que está dizendo que o cérebro é um computador; distingue-se assim da psicologia evolucionista, para a qual o cérebro é composto de “módulos computacionais que operam funções consagradas pela seleção natural darwiniana”. “O cérebro é uma máquina, mas extremamente complicada”. Regalo ao cérebro, ao dizer que os computadores atuais não chegam nem aos pés deste artefato de primeiríssima geração. Essa comparação, por si só, já é esquisita. A simples comparação deixa subentendida a possibilidade de se aceitar que o homem criou Deus para criá-lo e receber, de alguma notável sábio, as honras de tê-lo revelado. (Abstraia-se o fato de que provavelmete o sábio devesse buscar junto aos preclaros cientistas de padrões comprotamentais a baliza das verdades que profere.)

A especulação dos filósofos é superada pela objetividade dos métodos que desvelam, da trama de abstrações pueris – de uma idade vetusta, que tratava de quimeras espiritualistas – a verdadeira natureza do fenômeno da cosciência (a alma “dos antigos”), colocada sob termos de uma máquina extremamente complexa, que, pela oposição que defende contra a psicologia evolucionista, não deriva de “módulos” consagrados pela seleção natural. Mas essa sua “complexidade”, então, ou é uma estrutura consagrada pela seleção natural ela mesma ou é algo que escapou à seleção natural e, portanto, transcende as explicações evolucionistas e o próprio condicionamento da seleção, sendo algo que a escapa. Querer recuperar essa abstração que escapa aos princípios coercitivos da evolução através da “modelagem de circuitos neuronais” – e, que curioso sentir-se a necessidade de escrever “sob o controle da experimentação” – é tentar, pela via confusa, controlar experimentalmente as faculdades mentais, através da experiência, sem admitir que a prpórpia seleção natural possa isto ela própria.

Assim, diz Changeux, negando Dawkins (que pecado!), que "Como cientistas, temos de entender o que a crença é, e respeitá-la".

Como cientistas, temos que entender que a crença é apenas um mal início, porque parte de premissas indemonstráveis. Passa desapercebido de todo aos sábios, que a herança da ciência ocidental começa ao modo de uma teologia natural, a qual procurava a natureza do divino na natureza mesma da realidade, assim como ela se nos mostra, e não em premissas indemonstráveis. A premissa indemonstrável encarna aqui a própria confiança na razão, nos procedimentos racionais, para além das premissas.

É o contrário que se vê, que como cientista põe-se fé na determinabilidade, que não se a admite absoluta, é verdade, porém, ainda assim, como um reino probabilístico, não terrivelmente bem-sucedido [sic.] (Steven Pinker, citado por Changeux).

Como cientistas, temos que entender que a fé escapa às explicações racionais, particularmente ao que nós, cientistas, entendemos como explicações racionais e dentro do universo de recursos só aqueles que nós tão de pronto reconhecemos. Assim, as premissas da ciência do sr. Changeux são o próprio funcionamento neurofisiológico do cérebro do modo mesmo como ele se manifesta sempre aquém das manifestações da consciência.

Sendo a consciência do crente a mesma do cientista, distinguiriam ambos apenas uma questão de método, partindo o crente de premissas indemonstráveis. Por isto é admissível que, ao comprender-se as bases de funcionamento do cérebro, se possa postular uma lógica sobre as variações possíveis numa estatística das probabilidades e generalizá-la para os fenômenos do “espírito”, rebaixando estes a meros padrões de respostas prováveis – e justificando Deus, daí, como apenas uma idéia de sucesso.

A fé é uma premissa indemonstrável assim como a confiança. Tudo resumir-se-ia a dinâmica de populações, ao equilíbrio egoísta de escolhas fadadas a alguma lei estatística. Desse modo, a consciência humana tem só a possibilidade de uma escolha dentro de um universo determinista, que se bem compreendido, prescindirá de toda escolha.

Finalmente, a paz pirronista.

Seria tudo muito óbvio, se por isto já não se estivesse subentendendo que o que não é apreendido pela neurofisiologia está na matéria mesma, mas já não é material; isto desde a idéia de algo que há virtualmente na suposta “complexidade” do cérebro (ou como ela) de todo inacessível. O cérebro é um ente quase divino, tem nele a centelha divina da matéria inanimada supercomplexa, que ninguém deu, mas o acaso, intuído como algum tipo de lei estatística que fundamenta toda probabilidade justamente no que ela falha, que já é inegável logo depois de negligenciar esta complexidade, para assim terminar afirmando-a de em meio a uma grande confusão.

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Nonsense científico

Changeux descreverá como esse simulador de circuitos de neurônios já é capaz de produzir padrões de respostas similares aos de seres humanos, quando submetidos a certas tarefas (como fazer opções diante de dilemas morais).

Se este texto pretende ter algum efeito sinóptico sobre o tema do sr. Changeux, algo deve ter escapado ao seu autor, o absurdo de limitar-se a citar que as simulações sejam capazes de produzir padrões de respostas similares aos de seres humanos, sem se deter no essencial, que é como ele chega a ter base para decidir. A simulação vem de baixo, desde as definição de “tarefas”, até a apresentação de padrões de comportamento? É por isto que se irá propor uma “avanço ético”?

Com uma base assim – “sobre a qual novos modelos poderão ser construídos e refinados” –, certamente dará para fazer destas pesquisas ensaios para aprimorar os meios éticos de tornar uma população laica através da educação pública gratuita, incutindo uma “razão de padrões de respostas” com as quais poder-se-ia, inclusive, aferir semáforos morais: “Epa! (acende o sinal violeta) Alguém vem lá com um pensamento libidinoso...” [1].

Junto com aquela tese de que o cérebro é o resultado de alterações químicas, fica fácil cocluir que microdoses toleráveis de medicamentos orais, para alterar os padrões de ondas cerebrais para um “padrão de resposta ética aceitável” seriam um meio eficiente de homogeneizar níveis básicos de ética na sociedade.

O que vem antes, o homem ou a ciência? Atribuir à Ciência uma “missão ética”, como defende Changeux, e pretendê-lo buscando experimentalmente no comportamento humano e nos conhecimentos sobre padrões de respostas as bases mesma daquilo que se pretende que seja a missão da ciência, é um giro formidável de nonsense científico.

O ex-Presidente do Comitê Nacional de Bioética da França quer “produzir mais e melhor conhecimento para fundamentar juízos morais”, certamente eles irão definir as diretrizes mesmas, aprimoradas, de uma moral que já começa se aplicando como tarefa superior da ciência, que certamente, pela confusão, acabará por impor ao homem os seus padrões de bem-estar comum.

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Imanentismo transcendente

O livre-arbítrio é tomado como erro dos processos de alta complexidade, que a neurofisiologia pretende eliminar da máquina extraordinariamente complexa como se fosse um óbvio erro natural típico destes sistemas muito complexos.

Trocando em miúdos, tem-se uma bela ética para ratos.

Faltará pouco para usar a neurofisiologia para determinar como pensar eticamente. Sendo o próprio processo de distinção de valores o que se decide, quem vai determinar os fundamentos de escolha? Por exemplo; quando houver a necessidade de se definir a vida nesse sistema mecaético, sem que se tenha podido definí-la ainda, e, portanto, se desconheça o que seja, (a) dar-se-á valor absoluto por se a desconhecer em seu fundamento ou (b), não mais que por a desconhecer, entender-se-á que inexiste de qualquer modo; ou, ainda (c), optar-se-á, por exemplo, por modais, como a “eutanásia” e o “aborto” como permissíveis, e tão somente por estas formas?

Como pode, a partir do funcionamento do cérebro, chegar-se a uma ética?

Na frase seguinte:

Ninguém mais questiona, a não ser em casos patológicos de corporativismo filosófico, que o pensamento ocorre em corpos materiais.

A defesa do fim da dualidade mente/corpo torna-se questão reduzida ao corpo, assim bem como todos os seus fenômenos que a neurociência, a sociobiologia e o neodarwinismo não explicam e, portanto, para eles, não existem. A segunda opção (b) das anteriores expostas. Reduzida ao corpo, os valores morais serão definidos aqueles da melhor distribuição de justiça possível em um mundo que, DE NOVO, é a cara de coisa ADMIRAVELMENTE familiar.

Optar, acima, pela terceira opão (c) requereria saber por que fundamento se faria isso; já posso ver que por qualquer coisa como a plácida satisfação de entender, por qualquer expressão politicamete anestésica, alguma dignidade no conforto de não pensar de onde se partiu para admití-lo.

Como pode o pensar o funcionamento levar a concluir que o funcionamento é que pensa? Abdica-se, assim, de entender o fenômeno da consciência humana e das manifestações morais como ciência subsidiária da neurofisiologia. As possibilidades materiais (no cérebro) da consciência dão, necessariamente, em alguma consciência? Há graus de consciência? Há uma base da consciência nos processos cerebrais, uma base física, material, que contempla o fenômeno da consciência de todo? E, há máxima intensidade já na base neurofisiológica que possibilita a mente, ou ela perde o contato com o cérebro, sendo que logo após já não poderia ser reduzida à sua base física?

É possível, enfim, querer-se deduzir todos os fenômenos culturais e possibilidades de uma mente individual de princípios neurofisiológicos?

Como a explicação tende sempre às suas bases – da mente ao cérebro, do cérebro às células sensoriais, destas à interação fisicalista das bases da vida, às moléculas complexas e aos arranjos físico-químicos, etc., para trás sempre –, aonde se acha que se vai chegar? No fim desse giro de carrocel, um novo giro vai ainda permitir que se permeneça negando o princípio do movimento em qualquer eixo metafísico cuja presença pode ser intuída.

Da cultura, recua-se à “mente” neurofisiológica, ao cérebro supercomplexo, aos cérebros mais simples, à vida, à matéria... Mas como se faz a ascenção (ou talvez, assunção) deste reducionismo para que ele funcione no sentido oposto? Pela pergunta “Como pode o pensar o funcionamento levar a concluir que o funcionamento é que pensa?” tem-se que admitir que na matéria reside o princípio transcendente que anima a matéria, que, por esse recuo aos fundamentos, dá a este cada vez maior extensão, até abranger a tudo e por quase nada, a tudo explicar. Leva, assim, a um princípio incriado que cria algo mais complexo a partir de algo mais simples. Faça-se isso entendendo que é o mais complexo que produz o mais simples, e se chegará ao mesmo termo. Parece que este é mesmo o fim de toda essa redução pelas explicação na base dos fenômenos.

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Epifenômeno de si mesmo

No mesmo sentido da frase anterior, diz-se: Discorda..., media Marcelo Leite, “...que esse território seja uma reserva de caça exclusiva da filosofia”.

Corporativismo filosófico quer dizer que a “classe” dos filósofos reinvindicaria este filão do mercado especulativo para os seus sistemas e crítica de valores? Não é bem a consciência que não faz concessões a reduções tacanhas de seus fenomenos, mas filósofos profissionais que insistiriam em manter seu objeto de estudo especulativo suspenso como que no ar pelas descobertas da neurofisiologia. Fica evidente, portanto, que não se pode admitir que algo como a consciência exista como fenômeno mais complexo que sua base material.

Que os neurofisiologistas tomem suas próprias convicções e, até menos que isso, os resultados de suas experiências como forma de identificar qualquer coisa que possa existir além do cérebro, é uma tarefa que começa danificada e acaba dando na certeza recalcitrante de que não há mesmo nada mais que o que já não se vê.

É dizer, que na tentativa de manutenção do seu objeto de estudo, os filósofos exercem apenas um tipo de abstracionismo psicológico, que agora encontra entidades equivalentes ao nível da neurofisiologia, tornando supérfluos aqueles. A consciência, por exemplo, é, portanto, o produto de um funcionamento que explica, se descrito com apuro, contê-la. Circunscreve-se a extensão da consciência na base neurofisiológica e se explica por esta base todos os demais fenômenos da consciência humana e que passam a ser epifenômenos secundários. Isso fica evidente desde que se veja na possibilidade mesma dos estudos neurofisiológicos a possibilidade de apurar a gênese dos valores éticos.

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Como engordar um rato

Na frase “Conhecimento detalhado do cérebro permitirá aperfeiçoar juízos morais” é preciso saber, de início, onde o aperfeiçoamento se irá dar: se aplicado à mente mesmo do incauto ou se como uma estrutura lógica, subjacente aos juízos morais, pela qual se permitirá, através de adequada doutrinação, conduzir cidadãos-ratos a uma vida “mais coerente”. Ora, isso só pode ser feito pelos métodos behaviorista, através de condicionamento pavloviano ou coisa que o valha. O outro caso é o de engenharia mental direta ou, a novidade, os prelegômenos de uma arquitetura estética, que ao que parece está recebendo o nome de “neuroestética” [2].

Em outras palavras, naquilo que Arthur Koestler chamou , n'O fantasma da máquina, de filosofia do “ratomorfismo”.

Abandonando a “cruzada anti-religiosa” conduzida por Richard Dawkins, como se fosse mesmo um recuo ao bom-senso, Changeux parece que repõe as coisas no seu lugar, num esforço, isto sim, por “investir mais na educação pública, laica e racional”. Como, ora bolas, será esta “educação” laica tomada na base pela teoria do ratomorfismo neurofisiológico e neuroestético? Pois é evidente que o ratomorfismo é a própria filosofia “laica” e “racional” com que se irá constituir a educação pública.

O que se está fazendo é condicionar a percepção, na educação pública, a reconhecer o atomismo metodológico, o reducionismo de partes elementares e na compreensão da estrutura das relações materiais, internas à base de fenômeno mais complexos, como a dignidade mesma prévia a todo pensar racional.

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Refutação de Deus desde os ratos

A única coisa que pode explicar a adesão à uma ética para ratos pelo homem é a liberdade mesma de escolha que não surge desta mesma ética ou de suas bases fenomenológicas imanentistas (!).

Mas, certamente, os mais avançados estudos em neurofisiologia vão aprovar essa escolha ética dos seus mais caros fundamentos.

Certa experiência atesta uma coisa destas, quando cientistas provaram – ou pensaram provar – que os ratos gostavam mais de qualquer estímulo que de nenhum, quando optaram pelo desprazeroso ao invés da contemplação silenciosa da evidência real. O experimento tomava ratos em uma caixa que podiam escolher entre ante-salas onde obtinham “pedal-e-choque” ou “pedal-e-comida”. Porém, quando foram colocados em uma caixa com ante-salas contendo pedal-e-choque e nenhum pedal ou qualquer estímulo, estes preferiram pedal-e-choque a nenhum estímulo. O mesmo se prova – que é uma observação de todo evidente e, portanto, ser desnecessário ir além dela – também pela disposição dos cientistas que trabalharam neste experimento.

Imagine-se que, recusando-se a comer ou a correr para a outra gaiola, o rato resolvesse permanecer contemplativo das coisas internas dele. O experimento fracassaria? Nada! O rato seria considerado inapto para a pesquisa, e chatearia um bocado os pesquisadores.

A pergunta é, se, por acaso, uma coisa menos complexa poderia criar uma mais complexa, ou se a complexidade de um experimento estaria permitida a dar algo maior que esperam os próprios idealizadores da prova, e ser notado.

O trabalho que visa mensurar o comportamento dos ratos para tirar destes princípios de comportamentos gerais – universais, como não, e por que não, teológicos (!) –, com base em uma teoria tão estreita quanto a que a atitude dos ratos pode fornecer, deveria, em certo momento, ir além das bases a algo melhor do que o que se teve de partida. Isso é o que ocorre quando a base sistemática de uma teoria permanece em planos achatados e por ele, com o expediente de objetividade, ali se mantém recalcitrantemente, para explicar, desde aí, toda a existência.

Isto é, nada menos complexo pode produzir algo mais complexo – e disso redunda toda essa estapafúrdia empulhação de extrapolar para cima o que está embaixo.

Se não, o que vale é a ordem invertida das coisas, e, por efeito, que só uma coisa mais complexa poderia criar uma coisa menos complexa. Essa é a conseqüência para toda a evolução biológica: o cérebro produz, como epifenômeno seu, a mente, que produz a cultura, etc.; o cérebro, por sua vez, é produzido pelo quê? Ah! Por Deus. Assim, nesta escala, Deus é a origem do cérebro, o cérebro origem da mente, da mente sairam os cientistas neurofisiologistas e destes, ou melhor, por estes, explicamos a existência do mais complexo para o mais simples, que explica tudo.


Notas

1. As bases disto estão em artigo do dia 18 de Junho (EFE): “Cientistas chineses conseguem movimentar objetos com a mente”. Trata-se, na verdade, de um sistema desenvolvido por cientistas chineses da Universidade Tsinghua, em Pequim, que percebe as ondas cerebrais e as amplifica, permitindo, mediado por computadores, controlar robôs à distância. Assim, dá-se o primeiro passo para o uso da engenharia cultural através de controle externo, já que a eugenia e o behaviorismo não foram lá muito bem aceitos por bem.

2. Revista Veja, edição 2027, de 26 de Setembro de 2007 (Capa: “A mente e o espírito”).

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