outubro 30, 2018

Crônicas de Arkham

(Um Monólogo Psiquiátrico-Literário)

 “Um inexpugnável paraíso, onde alguém pode continuar a guerra e vencê-la --- porque quando esta guerra estiver perdida, a outra é vencida”.
--- Miguel Serrano, Adolf Hitler: El Último Avatar (1984).

Saído direto de um hospício de H. P. Lovecraft (no vídeo) e sede dos mais bizarros vilões de Gotham, eis o nosso o Coringa! Boulos é o nosso profeta de Arkham. Poucas vezes um sujeito real conseguiu ser tão parecido com um vilão do cinema quanto Boulos. Ele não tem a naturalidade do Lula para falar e acaba forçando as caretas, aumentando a intensidade do que diz com uma expressão carregada e abusando de uma narrativa conspiracista, com um ritmo pausado como o de quem relata fatos perfeitamente encadeados, unidos por uma lógica muito justa e subtons psicopáticos.
Pressupõe entredentes um estado de coisas sombrio (Gotham City é uma cidade cheia de pecados), aponta uma pessoa odiosa, alguém que só se pode temer, e afirma tudo isso dizendo que "essa foi uma eleição marcada pelo medo e pelo ódio", exatamente enquanto cria essas características reagindo a elas. Ele simula a emoção que quer que as pessoas sintam com ele para declarar que é o estado criado pelo adversário. O modo como ele liga fatos eventuais como se fossem relações causais arma o teatro bufo: 'Bolsonaro venceu porque fugiu dos debates e se escondeu por trás de uma rede de mentiras, no WhatsApp, a base de fraude e financiado com Caixa 2'. É o Coringa falando. "Redes de mentiras" é um termo forte para depois dizer que esse poderoso recurso foi urdido no ZapZap. Mas as caretas ficam mais graves, a câmera então se aproxima, fecha no rosto caricato dele, como quem conta uma intimidade: "Se você olhar debaixo da sua cama... Não, espere! A mão!... Ela pode aparecer".
O candidato do medo (que é anunciado produzindo medo) foi de fato o candidato da euforia por ser alguém que aparecia fora da falsidade política corriqueira dos marqueteiros e do discurso mais demagógico; além, é claro, de avesso do nauseante politicamente correto. Para Boulos, o nosso Coringa, Bolsonaro é o que o PT foi até agora. Nada mais certo que sentir como verdadeiro a emoção que você mesmo produziu. Disseminar o ódio e o medo, para denunciá-lo. Faz mais sentido. Para esse conjunto paranoico de conclusões a melhor expressão é uma calma neurótica, o que antecipa a preparação de uma reação ampla para defender a democracia com todos aqueles que "SOUBERAM SE COLOCAR DO LADO CERTO DA HISTÓRIA".
Se disse já, na época do comunismo, que ser degredado do paraíso socialista implicava não apenas alienação da pátria, mas temporal, haver-se expulso da própria história.
É preciso que se diga, diz ele: "Vai ter resistência", e nisso contém a exaltação que a expressão pede. Contida, como uma ameaça. "Do exílio (?) nós escolhemos as ruas...". O paranoico se exila para reagir do estrangeiro, lá dessa outra terra que ele habita no centro oco da terra (que ele tem na cabeça), contra as forças da superfície. Nós, os defensores da democracia! "Ele" não vai silenciar as nossas vozes, mesmo que nunca tenha sido isso; sabemos que é assim que temos de nos sentir, pois não há outra justificativa para encobrir nossos crimes (os havidos e os a haver). O tom apocalíptico de terror que ele acusa, ele cria primeiro: "Nuvens cinzentas de intolerância e violência vão passar", sem isso não haveria pelo que reagir, nem resistir --- diz com a certeza de um paranoico perseguido por sombras.
Boulos quer outra guerra para vencer, está à espera da encarnação do próximo líder, do avatar do socialismo que trará a prática certa do atual momento histórico. Ele termina, como todo fanático, com uma frase sem sentido: "O Brasil é muito maior que Jair Bolsonaro, vamos à luta!" diz o nosso Coringa. Mas esse tipo de mente doentia é seu próprio hospício, ninguém pode libertá-lo, nunca.

Crônicas de Arkham

(Um Monólogo Psiquiátrico-Literário)

 “Um inexpugnável paraíso, onde alguém pode continuar a guerra e vencê-la --- porque quando esta guerra estiver perdida, a outra é vencida”.
--- Miguel Serrano, Adolf Hitler: El Último Avatar (1984).

Saído direto de um hospício de H. P. Lovecraft (no vídeo) e sede dos mais bizarros vilões de Gotham, eis o nosso o Coringa! Boulos é o nosso profeta de Arkham. Poucas vezes um sujeito real conseguiu ser tão parecido com um vilão do cinema quanto Boulos. Ele não tem a naturalidade do Lula para falar e acaba forçando as caretas, aumentando a intensidade do que diz com uma expressão carregada e abusando de uma narrativa conspiracista, com um ritmo pausado como o de quem relata fatos perfeitamente encadeados, unidos por uma lógica muito justa e subtons psicopáticos.
Pressupõe entredentes um estado de coisas sombrio (Gotham City é uma cidade cheia de pecados), aponta uma pessoa odiosa, alguém que só se pode temer, e afirma tudo isso dizendo que "essa foi uma eleição marcada pelo medo e pelo ódio", exatamente enquanto cria essas características reagindo a elas. Ele simula a emoção que quer que as pessoas sintam com ele para declarar que é o estado criado pelo adversário. O modo como ele liga fatos eventuais como se fossem relações causais arma o teatro bufo: 'Bolsonaro venceu porque fugiu dos debates e se escondeu por trás de uma rede de mentiras, no WhatsApp, a base de fraude e financiado com Caixa 2'. É o Coringa falando. "Redes de mentiras" é um termo forte para depois dizer que esse poderoso recurso foi urdido no ZapZap. Mas as caretas ficam mais graves, a câmera então se aproxima, fecha no rosto caricato dele, como quem conta uma intimidade: "Se você olhar debaixo da sua cama... Não, espere! A mão!... Ela pode aparecer".
O candidato do medo (que é anunciado produzindo medo) foi de fato o candidato da euforia por ser alguém que aparecia fora da falsidade política corriqueira dos marqueteiros e do discurso mais demagógico; além, é claro, de avesso do nauseante politicamente correto. Para Boulos, o nosso Coringa, Bolsonaro é o que o PT foi até agora. Nada mais certo que sentir como verdadeiro a emoção que você mesmo produziu. Disseminar o ódio e o medo, para denunciá-lo. Faz mais sentido. Para esse conjunto paranoico de conclusões a melhor expressão é uma calma neurótica, o que antecipa a preparação de uma reação ampla para defender a democracia com todos aqueles que "SOUBERAM SE COLOCAR DO LADO CERTO DA HISTÓRIA".
Se disse já, na época do comunismo, que ser degredado do paraíso socialista implicava não apenas alienação da pátria, mas temporal, haver-se expulso da própria história.
É preciso que se diga, diz ele: "Vai ter resistência", e nisso contém a exaltação que a expressão pede. Contida, como uma ameaça. "Do exílio (?) nós escolhemos as ruas...". O paranoico se exila para reagir do estrangeiro, lá dessa outra terra que ele habita no centro oco da terra (que ele tem na cabeça), contra as forças da superfície. Nós, os defensores da democracia! "Ele" não vai silenciar as nossas vozes, mesmo que nunca tenha sido isso; sabemos que é assim que temos de nos sentir, pois não há outra justificativa para encobrir nossos crimes (os havidos e os a haver). O tom apocalíptico de terror que ele acusa, ele cria primeiro: "Nuvens cinzentas de intolerância e violência vão passar", sem isso não haveria pelo que reagir, nem resistir --- diz com a certeza de um paranoico perseguido por sombras.
Boulos quer outra guerra para vencer, está à espera da encarnação do próximo líder, do avatar do socialismo que trará a prática certa do atual momento histórico. Ele termina, como todo fanático, com uma frase sem sentido: "O Brasil é muito maior que Jair Bolsonaro, vamos à luta!" diz o nosso Coringa. Mas esse tipo de mente doentia é seu próprio hospício, ninguém pode libertá-lo, nunca.

setembro 26, 2014

Possessão Progressista

Em nota, Adriana Franciosi (Zero Hora, FAMECOS/PUCRS (...)), admiradora de Juremir Machado, critica David Coimbra por ter admoestado contra a escolha do CTG Fronteira Oeste, Santana do Livramento, como local do casamento “homoafetivo”, injuriando-o de “conservador”! (...)
Adriana Franciosi, ultrajada com a opinião insípida de David Coimbra, acha que Conservador é a salmoura do picles, ao acusar David disso. Mas não um conservador “grosseiro”, como todos, segundo ela; não desses que um Bolsonaro é o tipo Alfa [1]. Bem, mas o ponto dela é que David quer manter os “homoafetivos” nos seus lugares, como judeus acuados em guetos, ao mesmo tempo assumindo que eles existem nos CTGs, mas discretamente. Então a intolerância parece que assumiu para a Sra. Franciosi outra forma, uma que não admite a mera presença tolerada, mas a ação impositiva da “tolerância”, como fez a juíza Carine Labres ao colocar o casamento no CTG, posteriormente aprovado pelo patrão. Essa “tolerância” como ação positiva na sociedade está para além da mera tolerância, que ela admite que existe, mas de um tipo que transforme o Tradicionalismo num movimento... progressista!
Todas as danças tradicionalistas são de casais com vestimenta típica, funcionalmente apetrechada, o que pode querer dizer então uma “evolução” num ambiente assim? As danças terão que admitir, digamos assim, para fim de absurdo, dois trajes iguais dançando, com as posturas apenas do homem ou da prenda? Fico pensando quando um peão tiver que rodar o vestido, ele fará o movimento como se vestido tivesse, ou irá estar de vestido? Vamos admitir um caso borderline: o peão invertido, de saia rodada, usa uma maquiagem pesada para passar por uma dona e fazer o papel que lhe cabe na dança. Não poderiam reclamar, já que a tradição estaria preservada. Em qualquer outro caso, é como querer reescrever os originais de Shakespeare em linguagem contemporânea, de modo que em pouco tempo não nos lembraríamos mais dos originais, bem mais difíceis de ler, e nem achar que se perdeu algo com isso. É como queimar uma obra de arte original porque ela é, digamos assim, “retrógrada”! Mas, certamente, não deve chegar a tanto o que Franciosi está propondo; digamos então que o gênero, como num teatro, é o traje e o comportamento equivalente. Não acredito que se pedirá realmente mais do que isso.
Agora, que raios quer dizer que o patrão, por aceitar o casamento, é um “homem evoluído”? … “Evolução progressista” em vez progressiva! ...Bem, as duas coisas são fantasias, da razão científica e, no caso dela, do esoterismo de esquerda, para quem o progresso ao futuro se faz mudando a sociedade em tudo que ela é. Progressista é o epítome de “evoluído”: já que representamos o futuro, os que defendem as políticas progressistas são os notáveis homens do futuro! Esse paradoxo irônico que descreve o desarranjo mental típico do homem de esquerda é o que levou Aldous Huxley a colocar o nome de sua obra mais famosa sobre o mundo futuro realizado por perfeccionistas com a mesma mentalidade, tirada deste trecho de Shakespeare, n'ATempestade:
O wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous manking is! O brave new world that has such people in it!”
--- Act V, Scene I, line 181-184).
Que admirável mundo novo é este, de tão bela gente dele habitantes!
Segundo a dona, o casamento foi permitido no CTG pelo patrão, só esqueceu que a juíza disse que acertou o casamento lá para forçar a situação, que só então foi aceito pelo patrão. Trata-se de uma juíza ativista, representante de um mundo futuro que serve a ela como fonte de direito. É o sentido da representação que um “progressista” poderá ter, não como representante de qualquer base popular real, mas de uma massa abstrata e universal, de um povo futuro escolhido pelo "representante". Em conformidade com a tradição da esquerda revolucionária --- que Franciosi encarna como uma assombração monótona ---, os "mais aptos" atuais na evolução social são justamente aqueles dotados dos atributos selecionados pelos “avanços” hoje propostos. A malícia desse tipo de pensamento é já um tipo de loucura raciocinante, o que, por efeito, torna inimputável dona Franciosi enquanto não se trata de um pensamento verdadeiro e autoral. O que a juíza Carine Labres está fazendo, portanto, a favor desse progresso que um Roger Raupp Rios é exemplo melhor no judiciário gaúcho, é ser um agente ativo das modificações como as coisas deveriam ser, a começar por negar as coisas como elas são, o que sub-repticiamente nos falsifica o presente em nome de um futuro plenamente desenvolvido, para além das nossas contradições. O progressista é um profeta moderno, e sendo o judiciário o último bastião de resistência, ocupá-lo (infiltrando a ideologia) é o meio de torna esse futuro legalmente compulsório.
As mulheres conquistaram “conquistas”, no jargão das “minorias” com as quais a esquerda produz as demandas “progressistas”, é dizer que as mulheres andaram para “o lado certo” por livre e espontânea vontade. A esquerda sempre se valeu das demandas legítimas da sociedade para guiá-las discretamente para bem além destas demandas, quando então, já parecendo um tanto esquisitas, ainda despertam a sensação de serem reivindicações legítimas de uma coletividade mais sensata. Um exemplo desse abuso. As conquistas que a Sra Adriana Franciosi faz propaganda,por mais espaço na sociedade, chegam a coisa sem pé nem cabeça, como outra dona me desafiou a aceitar certa vez, exigindo naturalidade diante de uma mulher que, por calor, tirasse sua camisa em público, assim em termos gerais e sem circunstância --- o que parece mesmo fazer parte da forma da demanda. Ela clamava pela equivalência ao comportamento comum aos homens, mas exigia mais: que este comportamento produzisse uma aceitação natural dos homens, que nada nisso veriam mais que uma pessoa qualquer sem camisa, ou mesmo devesse poder despertar qualquer instinto. Assim, como no caso do CTG Fronteira Oeste, a tolerância aqui é sub-repticiamente uma medida ativa. E, definitivamente, ninguém é tão tolerante assim com o despropósito de alguns indivíduos excêntricos, menos ainda o é o oligofrênico que não controla seus impulsos, quando isso não implica, como coisa óbvia, na sua exclusão prévia do convívio social.
A igualdade nesse caso exporia as mulheres ao comportamento equivalente daqueles celerados que, atendendo a uma gritaria histérica contra os “racistas”, sentiram-se justificados a medidas proporcionais. Não surpreende desde então o aparecimento de revoltados odiando os “racistas”, incendiários e ameaças. Estas medidas apareceram no caso do racismo da Arena Grêmio, respondendo ao alardeado caráter “odioso” dos racistas, e apareceu também na provocação da juíza Carine Labres. O radicalismo não aparece como resultado de preconceitos disseminados na população, as fontes latentes do ódio patológico, mas como reação naquela parcela pequena da população onde se incluem sociopatas e psicopatas, aqueles cujo comportamento não atende à intimidação pretendida pelo politicamente correto. Uma mulher que pensasse em tirar a camisa no trem pode perfeitamente estar no seu direito de não ser tocada, mas a chance de que ela não tenha problemas é realmente muito pequena. Segundo a crítica que acompanha estas medidas ativas de tolerância, eu estaria já aceitando a violência ao admitir que ela deverá ocorrer, mesmo quando isso tem o valor de advertência e proteção. Se de tal apologia estúpida se seguisse um estupro, teríamos, ato contínuo, o alarido ultrajado das mesmas pessoas que estimularam a transgressão, tomando a violência como exemplo melhor do preconceito da sociedade tradicional. Esse é um meio bastante eficiente para produzir as condições pelas quais a sua tese será provada para justificar as transformações sociais progressistas. Não acredito que dona Franciosi saiba de nada disso.
De novo, se o ambiente é hostil, mas frequentado por gays discretos, não seria o nome disso tolerância? Para Franciosi, David está tomado da “sanha” de deixar tudo como está, tornou-se um inimigo do progresso na ocupação de espaços na sociedade. Franciosi quer a “boa evolução dos costumes”, continuamente, em todos os ambientes. Precisamos ter então tolerância a todas as transformações sociais, até que não haja qualquer distinção social. A indução da transformação da sociedade feita pela mediação de contradições internas dessa sociedade, seus “conflitos latentes” como eles podem ser instrumentalizados, o que se dá sobre qualquer aspecto nas relações sociais que possam ser estimuladas nesse sentido, são movimentos táticos de guerrilha política, ações de engenharia maquiavélica. As demandas positivas de esquerda infiltram o debate público com as palavras que se tonarão a referência de uma meta comum, com isso tendo deixado traçadas as linhas para onde tudo deve se dirigir, e também já, uma vez aceitas, sem podermos com isso perceber que seja assim. Tolerância é apenas a palavra-chave para desencadear a intimidação das opiniões contrárias, as quais, caso ocorram, etiquetam o seu autor de crimes de intolerância. É a alquimia de uma dialética maliciosa. O caminho fica livre assim para as ações afirmativas, que já não encontram resistência. O que se pretende é ainda a mesma sociedade sem classes, a sociedade de igualdade da propaganda socialista, mas realizada pelos meios "eficientes" do ativismo marxista.
Para quem fala pejorativamente em “conservadorismo”, toda essa conversinha não poderia ser mais “antiquada”. Franciosi repete no particular a forma do discurso utópico de transformação da sociedade numa sociedade socialista onde o estado e as divisões de classes (ou qualquer outra) teriam desaparecido. Eis para onde vai esse progresso, desembarcando, no entanto, sempre em algum lugar abandonado pelo bom senso. No lugar do amor ao próximo teríamos a sociedade sob o signo do amor “homoafetivo”, o amor ao igual. Numa sociedade assim, a diversidade seria homogeneizada, a sociedade sem distinções seria a realização material e institucional do amor universal. Não é à toa que a isso se deu o nome de utopia (“não-lugar”).
É um “não-lugar”, por exemplo, o direito de uma mulher exercer o papel efetivo de homem para outra mulher. Vá lá que o SUS cubra implantes penianos hidráulicos e que a fecundação possa ser feita em laboratório, deveriam as mulheres ser estimuladas pelo estado a assumir esse papel, efetivamente? Ocupar esse “espaço social”? E isso ser um programa de estado? Talvez ela diga que sim, que, como o pensamento socialista utópico já foi capaz de conceber, se o homem desejasse a lua, ela teria que lhe ser dada. Mas tanto uma coisa quanto outra vão dar em outro “lugar”. A utopia sempre foi o reino perigoso da pieguice universal.
Franciosi também compara o direito a voto das mulheres ou a trabalhar fora de casa com a adulteração de uma forma de expressão que deixa de ser o que é se se admite a “tolerância” ativista dela. A comparação com outras conquistas, como o voto ou negros no CTG, foram transgressões de hábitos antigos e preconceito real, não a exclusão de elementos internos, ou a inclusão de elementos contraditórios externos --- isto é, não se modificava em essência o tradicionalismo; os preconceitos reais eram elementos externos, já que ser negro nada diz sobre o tradicionalismo, até o contrário, pois os negros estavam presentes na Revolução Farroupilha. A malícia que quer igualar coisas tão desiguais é ativismo político daquele tipo de linha irracional de que a sociedade deve ser reformada tomando como princípio de transformação a inversão de todos os elementos sociais. Algo que, de novo, nasce da cabeça do mais tíbio pensamento utópico, herdeiro das maquinações técnicas de propaganda e do maquiavelismo dialético, quando estes então se tornam ciência eficiente. Não há, hoje --- isso desapercebido --- coisa mais “evoluída” na cabeça tanto da OAB quanto do MP e mesmo de juízes.
É esse pensamento débil que levou a Sra. Franciosi a fustigar David Coimbra com a terrível alcunha de “conservador”. Franciosi confunde “Conservador” com “conservante”, não distingue tradição de alegorias carnavalescas recicladas ou tolerância real com corrupção cultural, fazendo o papel passivo de agente do politicamente correto --- o freio moralista imposto à sociedade para libertar o Kraken do progressismo. Há muitos modos de se usar uma mulher, mas esse em especial pode convencê-la mesmo de que ser usada é um direito seu, de assim escolher livremente; a mesma mentalidade chega ao ponto de oficializar uma carteira profissional e dizer que nisso há “dignidade”. A partir daí já não se distingue o gueto do seu próprio lar; mas nem por isso ela se encontrará numa situação melhor. Franciosi não fez mais que repetir as noções que o próprio David é tão pródigo em tomar por obviedades superiores, a propaganda tática da esquerda mimetizada com os mais altos ideais da humanidade. Assombrações desse tipo sempre aparecem em lugaresabandonados, repetindo sempre os mesmos roteiros ao longo dos séculos.
Notas:
1. Nada mais eloqüente para ilustrar a grosseria dos conservadores que lembrar que quando Bolsonaro foi acusado pela progressista Maria do Rosário de ser o seu tipo “grosseiro” a grande causa dos estupros de mulheres, para em seguida já acusá-lo ele próprio da violência, este volta-se para a dona e diz: “Ora, Sua vadia!” Segue-se o chilique da moça: “Qu'é-isso! Qu'é-isso! Qu'é-isso!” Afinal, ela não fizera nada, não é?

**
Carta aberta ao meu colega David Coimbra de ZH”, de Adriana Franciosi, repassada pelo Facebook:
Há muitos anos somos amigos, trabalhamos na mesma empresa. Já o elogiei publicamente por diversos bons textos, mas para minha infelicidade David Coimbra vc tem representado um novo tipo de conservador. Não o velho e surrado conservador que usa palavras grosseiras. David usa do que de melhor ele tem para conservar o status quo. Para com palavras bonitas sugerir que se deixe tudo como está. Por que é disso que se trata quando li seu texto sobre o incêndio do CTG que iria realizar um casamento gay. A linha do David sugere que o local era privado e um centro de tradicionalismo. Ora, pelo que sabemos foi o patrão do CTG, homem evoluido que permitiu a realização, junto com o poder judiciário.
Mas David vai mais adiante na sua sanha de deixar tudo como está ele nos pergunta pq pessoas do mesmo sexo querem casar num ambiente hostil a sua existência? A seguir sua lógica cada grupo deve ficar na sua, de preferência em ghetos, né David? Assim ele desconhece a história, como das mulheres, por exemplo, que ousaram a bem pouco tempo entrar em domínios masculinos e foram a luta.
Se seguissemos a lógica de David, nós mulheres estaríamos até hoje condenadas a cozinha, e a boa evolução dos costumes, e que só serve a peonada mais xucra que irá usar o teu texto para justificar sua eterna homofobia e racismo.
Pois pra que mesmo ir trabalhar e ser independente? Segundo David, pra que causar problemas? Então, só fazendo um paralelo a pouco tempo atrás, lá em Júlio de Castilhos era impensável um negro entrar no CTG da cidade. Eis que apareceu um negro, gerente de banco que enfrentou tudo e todos e passou a entrar, mesmo num ambiente hostil onde supostamente pessoas vão para se divertir. Pois assim é com essas gurias que tiveram a coragem de ir lá num CTG casar em meio a 28 casais héteros, só para reafirmarem que são iguais a todo mundo... Sendo de Livramento, provavelmente elas gostem dos cantos nativistas e tudo o mais ligada a cultura gaúcha. Dentro dos CTGs como vc mesmo diz está cheio de gays que não ousam dizer o que são, pq pessoas como vc David acham que tem que permanecer tudo como está. Não mais. Teu neo conservadorismo é uma grande pena, um desserviço a tolerância. e a boa evolução dos costumes, e que só serve a peonada mais xucra que irá usar o teu texto para justificar sua eterna homofobia e racismo.

Possessão Progressista

Em nota, Adriana Franciosi (Zero Hora, FAMECOS/PUCRS (...)), admiradora de Juremir Machado, critica David Coimbra por ter admoestado contra a escolha do CTG Fronteira Oeste, Santana do Livramento, como local do casamento “homoafetivo”, injuriando-o de “conservador”! (...)
Adriana Franciosi, ultrajada com a opinião insípida de David Coimbra, acha que Conservador é a salmoura do picles, ao acusar David disso. Mas não um conservador “grosseiro”, como todos, segundo ela; não desses que um Bolsonaro é o tipo Alfa [1]. Bem, mas o ponto dela é que David quer manter os “homoafetivos” nos seus lugares, como judeus acuados em guetos, ao mesmo tempo assumindo que eles existem nos CTGs, mas discretamente. Então a intolerância parece que assumiu para a Sra. Franciosi outra forma, uma que não admite a mera presença tolerada, mas a ação impositiva da “tolerância”, como fez a juíza Carine Labres ao colocar o casamento no CTG, posteriormente aprovado pelo patrão. Essa “tolerância” como ação positiva na sociedade está para além da mera tolerância, que ela admite que existe, mas de um tipo que transforme o Tradicionalismo num movimento... progressista!
Todas as danças tradicionalistas são de casais com vestimenta típica, funcionalmente apetrechada, o que pode querer dizer então uma “evolução” num ambiente assim? As danças terão que admitir, digamos assim, para fim de absurdo, dois trajes iguais dançando, com as posturas apenas do homem ou da prenda? Fico pensando quando um peão tiver que rodar o vestido, ele fará o movimento como se vestido tivesse, ou irá estar de vestido? Vamos admitir um caso borderline: o peão invertido, de saia rodada, usa uma maquiagem pesada para passar por uma dona e fazer o papel que lhe cabe na dança. Não poderiam reclamar, já que a tradição estaria preservada. Em qualquer outro caso, é como querer reescrever os originais de Shakespeare em linguagem contemporânea, de modo que em pouco tempo não nos lembraríamos mais dos originais, bem mais difíceis de ler, e nem achar que se perdeu algo com isso. É como queimar uma obra de arte original porque ela é, digamos assim, “retrógrada”! Mas, certamente, não deve chegar a tanto o que Franciosi está propondo; digamos então que o gênero, como num teatro, é o traje e o comportamento equivalente. Não acredito que se pedirá realmente mais do que isso.
Agora, que raios quer dizer que o patrão, por aceitar o casamento, é um “homem evoluído”? … “Evolução progressista” em vez progressiva! ...Bem, as duas coisas são fantasias, da razão científica e, no caso dela, do esoterismo de esquerda, para quem o progresso ao futuro se faz mudando a sociedade em tudo que ela é. Progressista é o epítome de “evoluído”: já que representamos o futuro, os que defendem as políticas progressistas são os notáveis homens do futuro! Esse paradoxo irônico que descreve o desarranjo mental típico do homem de esquerda é o que levou Aldous Huxley a colocar o nome de sua obra mais famosa sobre o mundo futuro realizado por perfeccionistas com a mesma mentalidade, tirada deste trecho de Shakespeare, n'A Tempestade:
O wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous manking is! O brave new world that has such people in it!”
--- Act V, Scene I, line 181-184).
Que admirável mundo novo é este, de tão bela gente dele habitantes!
Segundo a dona, o casamento foi permitido no CTG pelo patrão, só esqueceu que a juíza disse que acertou o casamento lá para forçar a situação, que só então foi aceito pelo patrão. Trata-se de uma juíza ativista, representante de um mundo futuro que serve a ela como fonte de direito. É o sentido da representação que um “progressista” poderá ter, não como representante de qualquer base popular real, mas de uma massa abstrata e universal, de um povo futuro escolhido pelo "representante". Em conformidade com a tradição da esquerda revolucionária --- que Franciosi encarna como uma assombração monótona ---, os "mais aptos" atuais na evolução social são justamente aqueles dotados dos atributos selecionados pelos “avanços” hoje propostos. A malícia desse tipo de pensamento é já um tipo de loucura raciocinante, o que, por efeito, torna inimputável dona Franciosi enquanto não se trata de um pensamento verdadeiro e autoral. O que a juíza Carine Labres está fazendo, portanto, a favor desse progresso que um Roger Raupp Rios é exemplo melhor no judiciário gaúcho, é ser um agente ativo das modificações como as coisas deveriam ser, a começar por negar as coisas como elas são, o que sub-repticiamente nos falsifica o presente em nome de um futuro plenamente desenvolvido, para além das nossas contradições. O progressista é um profeta moderno, e sendo o judiciário o último bastião de resistência, ocupá-lo (infiltrando a ideologia) é o meio de torna esse futuro legalmente compulsório.
As mulheres conquistaram “conquistas”, no jargão das “minorias” com as quais a esquerda produz as demandas “progressistas”, é dizer que as mulheres andaram para “o lado certo” por livre e espontânea vontade. A esquerda sempre se valeu das demandas legítimas da sociedade para guiá-las discretamente para bem além destas demandas, quando então, já parecendo um tanto esquisitas, ainda despertam a sensação de serem reivindicações legítimas de uma coletividade mais sensata. Um exemplo desse abuso. As conquistas que a Sra Adriana Franciosi faz propaganda, por mais espaço na sociedade, chegam a coisa sem pé nem cabeça, como outra dona me desafiou a aceitar certa vez, exigindo naturalidade diante de uma mulher que, por calor, tirasse sua camisa em público, assim em termos gerais e sem circunstância --- o que parece mesmo fazer parte da forma da demanda. Ela clamava pela equivalência ao comportamento comum aos homens, mas exigia mais: que este comportamento produzisse uma aceitação natural dos homens, que nada nisso veriam mais que uma pessoa qualquer sem camisa, ou mesmo devesse poder despertar qualquer instinto. Assim, como no caso do CTG Fronteira Oeste, a tolerância aqui é sub-repticiamente uma medida ativa. E, definitivamente, ninguém é tão tolerante assim com o despropósito de alguns indivíduos excêntricos, menos ainda o é o oligofrênico que não controla seus impulsos, quando isso não implica, como coisa óbvia, na sua exclusão prévia do convívio social.
A igualdade nesse caso exporia as mulheres ao comportamento equivalente daqueles celerados que, atendendo a uma gritaria histérica contra os “racistas”, sentiram-se justificados a medidas proporcionais. Não surpreende desde então o aparecimento de revoltados odiando os “racistas”, incendiários e ameaças. Estas medidas apareceram no caso do racismo da Arena Grêmio, respondendo ao alardeado caráter “odioso” dos racistas, e apareceu também na provocação da juíza Carine Labres. O radicalismo não aparece como resultado de preconceitos disseminados na população, as fontes latentes do ódio patológico, mas como reação naquela parcela pequena da população onde se incluem sociopatas e psicopatas, aqueles cujo comportamento não atende à intimidação pretendida pelo politicamente correto. Uma mulher que pensasse em tirar a camisa no trem pode perfeitamente estar no seu direito de não ser tocada, mas a chance de que ela não tenha problemas é realmente muito pequena. Segundo a crítica que acompanha estas medidas ativas de tolerância, eu estaria já aceitando a violência ao admitir que ela deverá ocorrer, mesmo quando isso tem o valor de advertência e proteção. Se de tal apologia estúpida se seguisse um estupro, teríamos, ato contínuo, o alarido ultrajado das mesmas pessoas que estimularam a transgressão, tomando a violência como exemplo melhor do preconceito da sociedade tradicional. Esse é um meio bastante eficiente para produzir as condições pelas quais a sua tese será provada para justificar as transformações sociais progressistas. Não acredito que dona Franciosi saiba de nada disso.
De novo, se o ambiente é hostil, mas frequentado por gays discretos, não seria o nome disso tolerância? Para Franciosi, David está tomado da “sanha” de deixar tudo como está, tornou-se um inimigo do progresso na ocupação de espaços na sociedade. Franciosi quer a “boa evolução dos costumes”, continuamente, em todos os ambientes. Precisamos ter então tolerância a todas as transformações sociais, até que não haja qualquer distinção social. A indução da transformação da sociedade feita pela mediação de contradições internas dessa sociedade, seus “conflitos latentes” como eles podem ser instrumentalizados, o que se dá sobre qualquer aspecto nas relações sociais que possam ser estimuladas nesse sentido, são movimentos táticos de guerrilha política, ações de engenharia maquiavélica. As demandas positivas de esquerda infiltram o debate público com as palavras que se tonarão a referência de uma meta comum, com isso tendo deixado traçadas as linhas para onde tudo deve se dirigir, e também já, uma vez aceitas, sem podermos com isso perceber que seja assim. Tolerância é apenas a palavra-chave para desencadear a intimidação das opiniões contrárias, as quais, caso ocorram, etiquetam o seu autor de crimes de intolerância. É a alquimia de uma dialética maliciosa. O caminho fica livre assim para as ações afirmativas, que já não encontram resistência. O que se pretende é ainda a mesma sociedade sem classes, a sociedade de igualdade da propaganda socialista, mas realizada pelos meios "eficientes" do ativismo marxista.
Para quem fala pejorativamente em “conservadorismo”, toda essa conversinha não poderia ser mais “antiquada”. Franciosi repete no particular a forma do discurso utópico de transformação da sociedade numa sociedade socialista onde o estado e as divisões de classes (ou qualquer outra) teriam desaparecido. Eis para onde vai esse progresso, desembarcando, no entanto, sempre em algum lugar abandonado pelo bom senso. No lugar do amor ao próximo teríamos a sociedade sob o signo do amor “homoafetivo”, o amor ao igual. Numa sociedade assim, a diversidade seria homogeneizada, a sociedade sem distinções seria a realização material e institucional do amor universal. Não é à toa que a isso se deu o nome de utopia (“não-lugar”).
É um “não-lugar”, por exemplo, o direito de uma mulher exercer o papel efetivo de homem para outra mulher. Vá lá que o SUS cubra implantes penianos hidráulicos e que a fecundação possa ser feita em laboratório, deveriam as mulheres ser estimuladas pelo estado a assumir esse papel, efetivamente? Ocupar esse “espaço social”? E isso ser um programa de estado? Talvez ela diga que sim, que, como o pensamento socialista utópico já foi capaz de conceber, se o homem desejasse a lua, ela teria que lhe ser dada. Mas tanto uma coisa quanto outra vão dar em outro “lugar”. A utopia sempre foi o reino perigoso da pieguice universal.
Franciosi também compara o direito a voto das mulheres ou a trabalhar fora de casa com a adulteração de uma forma de expressão que deixa de ser o que é se se admite a “tolerância” ativista dela. A comparação com outras conquistas, como o voto ou negros no CTG, foram transgressões de hábitos antigos e preconceito real, não a exclusão de elementos internos, ou a inclusão de elementos contraditórios externos --- isto é, não se modificava em essência o tradicionalismo; os preconceitos reais eram elementos externos, já que ser negro nada diz sobre o tradicionalismo, até o contrário, pois os negros estavam presentes na Revolução Farroupilha. A malícia que quer igualar coisas tão desiguais é ativismo político daquele tipo de linha irracional de que a sociedade deve ser reformada tomando como princípio de transformação a inversão de todos os elementos sociais. Algo que, de novo, nasce da cabeça do mais tíbio pensamento utópico, herdeiro das maquinações técnicas de propaganda e do maquiavelismo dialético, quando estes então se tornam ciência eficiente. Não há, hoje --- isso desapercebido --- coisa mais “evoluída” na cabeça tanto da OAB quanto do MP e mesmo de juízes.
É esse pensamento débil que levou a Sra. Franciosi a fustigar David Coimbra com a terrível alcunha de “conservador”. Franciosi confunde “Conservador” com “conservante”, não distingue tradição de alegorias carnavalescas recicladas ou tolerância real com corrupção cultural, fazendo o papel passivo de agente do politicamente correto --- o freio moralista imposto à sociedade para libertar o Kraken do progressismo. Há muitos modos de se usar uma mulher, mas esse em especial pode convencê-la mesmo de que ser usada é um direito seu, de assim escolher livremente; a mesma mentalidade chega ao ponto de oficializar uma carteira profissional e dizer que nisso há “dignidade”. A partir daí já não se distingue o gueto do seu próprio lar; mas nem por isso ela se encontrará numa situação melhor. Franciosi não fez mais que repetir as noções que o próprio David é tão pródigo em tomar por obviedades superiores, a propaganda tática da esquerda mimetizada com os mais altos ideais da humanidade. Assombrações desse tipo sempre aparecem em lugares abandonados, repetindo sempre os mesmos roteiros ao longo dos séculos.
Notas:
1. Nada mais eloqüente para ilustrar a grosseria dos conservadores que lembrar que quando Bolsonaro foi acusado pela progressista Maria do Rosário de ser o seu tipo “grosseiro” a grande causa dos estupros de mulheres, para em seguida já acusá-lo ele próprio da violência, este volta-se para a dona e diz: “Ora, Sua vadia!” Segue-se o chilique da moça: “Qu'é-isso! Qu'é-isso! Qu'é-isso!” Afinal, ela não fizera nada, não é?

**
Carta aberta ao meu colega David Coimbra de ZH”, de Adriana Franciosi, repassada pelo Facebook:
Há muitos anos somos amigos, trabalhamos na mesma empresa. Já o elogiei publicamente por diversos bons textos, mas para minha infelicidade David Coimbra vc tem representado um novo tipo de conservador. Não o velho e surrado conservador que usa palavras grosseiras. David usa do que de melhor ele tem para conservar o status quo. Para com palavras bonitas sugerir que se deixe tudo como está. Por que é disso que se trata quando li seu texto sobre o incêndio do CTG que iria realizar um casamento gay. A linha do David sugere que o local era privado e um centro de tradicionalismo. Ora, pelo que sabemos foi o patrão do CTG, homem evoluido que permitiu a realização, junto com o poder judiciário.
Mas David vai mais adiante na sua sanha de deixar tudo como está ele nos pergunta pq pessoas do mesmo sexo querem casar num ambiente hostil a sua existência? A seguir sua lógica cada grupo deve ficar na sua, de preferência em ghetos, né David? Assim ele desconhece a história, como das mulheres, por exemplo, que ousaram a bem pouco tempo entrar em domínios masculinos e foram a luta.
Se seguissemos a lógica de David, nós mulheres estaríamos até hoje condenadas a cozinha, e a boa evolução dos costumes, e que só serve a peonada mais xucra que irá usar o teu texto para justificar sua eterna homofobia e racismo.
Pois pra que mesmo ir trabalhar e ser independente? Segundo David, pra que causar problemas? Então, só fazendo um paralelo a pouco tempo atrás, lá em Júlio de Castilhos era impensável um negro entrar no CTG da cidade. Eis que apareceu um negro, gerente de banco que enfrentou tudo e todos e passou a entrar, mesmo num ambiente hostil onde supostamente pessoas vão para se divertir. Pois assim é com essas gurias que tiveram a coragem de ir lá num CTG casar em meio a 28 casais héteros, só para reafirmarem que são iguais a todo mundo... Sendo de Livramento, provavelmente elas gostem dos cantos nativistas e tudo o mais ligada a cultura gaúcha. Dentro dos CTGs como vc mesmo diz está cheio de gays que não ousam dizer o que são, pq pessoas como vc David acham que tem que permanecer tudo como está. Não mais. Teu neo conservadorismo é uma grande pena, um desserviço a tolerância. e a boa evolução dos costumes, e que só serve a peonada mais xucra que irá usar o teu texto para justificar sua eterna homofobia e racismo.

setembro 05, 2014

O conflito como método

Para ilustrar o caso recente de caça às bruxas racistas que vitimou uma menina por ter pronunciado a palavra "macaco", e que recebeu de parte da mídia uma reação histérica de "horror" e "nojo", gerando um clima de ódio e ameaças como poucas vezes se viu.

"Esfregando sal na ferida", de Tammy Bruce, em 'The New Thought Police: inside the lefts's assault on free speech and free minds' (p. 98):

"Durante os meus dias de ativista feminista, a coisa mais perturbadora que eu ouvi sobre as feministas era que nós "deveríamos esfregar sal na ferida" se quiséssemos fazer progressos. "Esfregar sal na ferida" significa manter viva a dor da nossa base popular. Isso pode assumir muitas formas, mas antes de tudo essa estratégia envolve distorcer todas e quaisquer relações humanas colocando-as sob a marca da violência contra as mulheres, contra negros, gays, ou quaisquer outros grupos que sejam nosso 'filão'. Se o acontecimento do dia nos dá um exemplo real do que queremos, ele deve ser explorado --- e se ele não dá, então um caso parecido deve ser inventado para lembrar nossas bases populares de sua vitimização.
E ninguém esfrega sal na ferida como [o célebre ativista americano dos direitos civis dos negros] Jesse Jackson. Em 19 de Setembro de 1999, durante um jogo de futebol escolar em Decatur, Illinois, começou uma briga entre os torcedores nas arquibancadas. Os funcionários da escola expulsaram do local vários estudantes que participaram da briga. Jesse Jackson imediatamente correu até Decatur, uma cidade de trabalhadores que se gabava de sua agricultura, suas 500 companhias na lista da revista Fortune, e pelo fato de Abraham Lincoln ter exercido a advocacia por lá. Reconhecendo que seria difícil mesmo para ele associar as ações da escola a racismo --- mesmo que os estudantes expulsos fossem todos negros ---, Jackson admitiu que não se tratava de fato de uma questão racial, mas, em suas palavras, de uma questão de "justiça" ['fairness']. Não obstante isso, seus protestos acabaram em marchas com milhares de pessoas cantando "We Shall Overcome" [Venceremos!], reminiscentes da luta pelos direitos civis na década de 60. Durante a estadia de Jackson em Decatur, as tensões raciais cresceram a tal ponto que, temendo violência, três escolas foram fechadas por vários dias.
Este caso foi a demonstração final de cinismo de um líder dos "direitos civis" que de tão desesperado para esfregar sal na ferida, chegou a apoiar um grupo de jovens mentido em simples pancadaria em um jogo de futebol para alcançar seus objetivos. Jackson não negou que a briga ocorreu ou que os jovens que ele apoiou participaram da briga. Por que, afinal de contas, então, ele levou o fato à condição de uma marcha pelos direitos civis? "Foi uma briga feia em um jogo de futebol, sem sangue, sem armas, sem tiros, nem facadas", explicou Jackson. "Nada tão brutal quanto uma briga de 'hockey' ou uma briga na NBA". Este é, aparentemente, o novo patamar para o projeto na luta pelos direitos civis. [Lembrar aqui que os "Civil-Rights", os direitos civis, assumem, para atualizar demandas (táticas), na nossa época, o gênero maior dos "Human Rights"].
Mas é realmente assim que os negros americanos percebem sua luta --- defendendo jovens que representam aquilo que nãochegou a ocorrer? Certamente não penso que seja. Mas num mundo onde o espectro do racismo atual está empalidecendo, essa tática consegue duas coias. Primeiro, com notícias de cobertura nacional, reforça nos negros a idéia de que eles estão sob ataque; segundo, diz aos brancos que seu racismo está vivo. Isso esfrega sal em duas feridas, feridas que se deixadas pra lá, seriam capazes de se curar sozinhas.
Um episódio como esse joga luz sobre por que é tão importante à nova Polícia do Pensamento que as pessoas não se sintam confortáveis discutindo estas questões. Que é, afinal, a coisa politicamente correta a se dizer se alguém o questiona sobre o incidente? Bem, você certamente sabe o que não deveria dizer --- que os garotos mereceram ser expulsos.  O que, no entanto, teria indicado que você é um "insensível" à situação "complicada" dos jovens negros. Talvez você pensasse isso a respeito de si mesmo. O código verbal polido é tão arraigado em nossa pisque, que nós tendemos a acusar a nós mesmos caso passe por nossas cabeças algo que parecesse "errado". Mas se falássemos honestamente sobre o que ocorreu, cada um de nós poderia descobrir que não estamos sozinhos em nossas opiniões e poderíamos concluir, depois de tudo, que não somos de fato racistas."

O conflito como método

Para ilustrar o caso recente de caça às bruxas racistas que vitimou uma menina por ter pronunciado a palavra "macaco", e que recebeu de parte da mídia uma reação histérica de "horror" e "nojo", gerando um clima de ódio e ameaças como poucas vezes se viu.

"Esfregando sal na ferida", de Tammy Bruce, em 'The New Thought Police: inside the lefts's assault on free speech and free minds' (p. 98):

"Durante os meus dias de ativista feminista, a coisa mais perturbadora que eu ouvi sobre as feministas era que nós "deveríamos esfregar sal na ferida" se quiséssemos fazer progressos. "Esfregar sal na ferida" significa manter viva a dor da nossa base popular. Isso pode assumir muitas formas, mas antes de tudo essa estratégia envolve distorcer todas e quaisquer relações humanas colocando-as sob a marca da violência contra as mulheres, contra negros, gays, ou quaisquer outros grupos que sejam nosso 'filão'. Se o acontecimento do dia nos dá um exemplo real do que queremos, ele deve ser explorado --- e se ele não dá, então um caso parecido deve ser inventado para lembrar nossas bases populares de sua vitimização.
E ninguém esfrega sal na ferida como [o célebre ativista americano dos direitos civis dos negros] Jesse Jackson. Em 19 de Setembro de 1999, durante um jogo de futebol escolar em Decatur, Illinois, começou uma briga entre os torcedores nas arquibancadas. Os funcionários da escola expulsaram do local vários estudantes que participaram da briga. Jesse Jackson imediatamente correu até Decatur, uma cidade de trabalhadores que se gabava de sua agricultura, suas 500 companhias na lista da revista Fortune, e pelo fato de Abraham Lincoln ter exercido a advocacia por lá. Reconhecendo que seria difícil mesmo para ele associar as ações da escola a racismo --- mesmo que os estudantes expulsos fossem todos negros ---, Jackson admitiu que não se tratava de fato de uma questão racial, mas, em suas palavras, de uma questão de "justiça" ['fairness']. Não obstante isso, seus protestos acabaram em marchas com milhares de pessoas cantando "We Shall Overcome" [Venceremos!], reminiscentes da luta pelos direitos civis na década de 60. Durante a estadia de Jackson em Decatur, as tensões raciais cresceram a tal ponto que, temendo violência, três escolas foram fechadas por vários dias.
Este caso foi a demonstração final de cinismo de um líder dos "direitos civis" que de tão desesperado para esfregar sal na ferida, chegou a apoiar um grupo de jovens mentido em simples pancadaria em um jogo de futebol para alcançar seus objetivos. Jackson não negou que a briga ocorreu ou que os jovens que ele apoiou participaram da briga. Por que, afinal de contas, então, ele levou o fato à condição de uma marcha pelos direitos civis? "Foi uma briga feia em um jogo de futebol, sem sangue, sem armas, sem tiros, nem facadas", explicou Jackson. "Nada tão brutal quanto uma briga de 'hockey' ou uma briga na NBA". Este é, aparentemente, o novo patamar para o projeto na luta pelos direitos civis. [Lembrar aqui que os "Civil-Rights", os direitos civis, assumem, para atualizar demandas (táticas), na nossa época, o gênero maior dos "Human Rights"].
Mas é realmente assim que os negros americanos percebem sua luta --- defendendo jovens que representam aquilo que não chegou a ocorrer? Certamente não penso que seja. Mas num mundo onde o espectro do racismo atual está empalidecendo, essa tática consegue duas coias. Primeiro, com notícias de cobertura nacional, reforça nos negros a idéia de que eles estão sob ataque; segundo, diz aos brancos que seu racismo está vivo. Isso esfrega sal em duas feridas, feridas que se deixadas pra lá, seriam capazes de se curar sozinhas.
Um episódio como esse joga luz sobre por que é tão importante à nova Polícia do Pensamento que as pessoas não se sintam confortáveis discutindo estas questões. Que é, afinal, a coisa politicamente correta a se dizer se alguém o questiona sobre o incidente? Bem, você certamente sabe o que não deveria dizer --- que os garotos mereceram ser expulsos.  O que, no entanto, teria indicado que você é um "insensível" à situação "complicada" dos jovens negros. Talvez você pensasse isso a respeito de si mesmo. O código verbal polido é tão arraigado em nossa pisque, que nós tendemos a acusar a nós mesmos caso passe por nossas cabeças algo que parecesse "errado". Mas se falássemos honestamente sobre o que ocorreu, cada um de nós poderia descobrir que não estamos sozinhos em nossas opiniões e poderíamos concluir, depois de tudo, que não somos de fato racistas."

maio 09, 2014

O caminho errado (de novo)

Comoas pessoas chegaram a essas conclusões? Você entenderá que o grande mal do mundo não é a miséria, nem a guerra: é a interpretação de texto.” --- D. Coimbra, Uma história do mundo (p. 220).
"Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?" --- 1 Coríntios1:20.
Zero Hora,18 de Abril de 2014, p. 2, David Coimbra, "O sal da terra" [1] --- ou, um breve tratado para hipertensos.
'Sejais o sal da terra' é o que ouve, mas 'Sal demais faz mal a saúde' é o que entende no lugar o comentarista leigo sobre Mateus 5:13-14. O leigo não acredita nas escrituras, mas já não pode deixar de buscar uma forma de moral que substitua a religião. Uma forma, no entanto, mais moderada, livre dos excessos dogmáticos de outrora. Mesmo o historiador como Arnold Toynbee sabia que o homem não podia viver sem religião, por isso seria inevitável que o que quer que se opusesse a ela deveria a substituir e não a destruir. Explorar o lado filosófico das religiões e extrair daí uma moral convencional, uma moral de regras universais, naturalmente aceita por todos, pareceu sempre muito mais razoável para o leigo, que faz do seu "não julgamento" profissão de fé. Já há tempos tenho a impressão de que esse termo é um equivalente, num outro mundo possível, ao princípio da própria torpeza, a qual passa, com essa nova moral, a ser tolerada como padrão mesmo de normalidade. Esse é o "leigo", que interpreta as passagens bíblicas reduzindo-as a alguma ciência, sem ter conseguido ainda dominar a capacidade da boa leitura.
O sal de má qualidade na região do Mar Morto, misturado a sulfato de cálcio se chama gipsita (Ca(SO4)), era usado na época de Jesus para marcar caminhos, em contraste ao "sal" da terra, contraste entre a fé que se conduz no caminho da Verdade e o caminho consensual ou utilitário. Afinal de contas, parece que o inferno pode ser atenuado, isto é, pavimentado com ternura, e cheio de boas intenções e benevolência, como o sal pode ser substituído por uma variação de enxofre que passa como se sal fosse --- até, pelo menos, ele começar a comer as sandálias dos transeuntes. A ambigüidade do 'equívoco' cometido por David carrega o sinal de desvio que extravia da verdade quando justamente pretende instruir; talvez sob o efeito daquela loucura divina que Paulo referiu como superior à sabedoria. Essa loucura parece que deu uma volta na sabedoria que David alardeia como coisa mais sensata, e enquanto se defendia do medo, não se viu perseguido, como fazem aqueles “sombras” com as pessoas desavisadas nas ruas, e acabou imitado sem que o tivesse notado. Fazer do testemunho da verdade, para além dos discursos, referido na metáfora do "sal da terra", um caminho consensual, bem, este é o objetivo da moral leiga --- ironicamente, um sal de enxofre.
O que o "leigo" quer é atenuar a lei moral numa moral civil, uma moral consensual, essa mão leve ao salgar que busca uma "medida" das coisas que poderia, com a sabedoria racional da boa proporção, um substituto das grandes religiões. Mas o "caminho do meio" da Nova Era é, afinal de contas, apenas um modo de errar da verdade. Agora, muitos de nós não dirão abertamente, mas pensarão como Pilatos: "Mas o que é a verdade?" A verdade é uma função da evidência, dizia um cientista político no século passado (os milagres), e é aquilo que você sabe perfeitamente bem, mas talvez mais importante, e para efeito moral, aquilo que quando você encontra, não nega ou dissimula por conveniências. A verdade é lenta --- "Veritas filia temporis", dizia Tomás de Aquino ---, nela somos o que somos, inclinados a ela hesitamos, cuidadosos, reflexivos, dá para se tornar um bom leitor lendo com alguma reverência a Bíblia. A verdade de Pilatos é a do estado romano, aquilo que ao poder convinha como medida para atender a uns quantos --- à exceção descarada da própria verdade.
Em "O sal da terra", David Coimbra adverte a quem o lê, antes de tudo, do risco das religiões como o seu dogmatismo moral, com o que ele quer dizer essa mania que a religião organizada tem de estabelecer interdições sobre certos assuntos e ser taxativa sobre outros. Ora, um sábio não é taxativo, ele é vago e pacífico... (ou, pelo menos, a imagem cinematográfica dele o é). David tem medo das religiões, ainda que não consiga dar uma única demonstração de que seja capaz de compreendê-las, nem naquele esforço inicial. Mas não quero fazer parecer que alguém que jamais quis saber, nem buscou em nenhum sentido, em verdade, devesse a qualquer um de seus leitores esse "início" de algo que lhe é alienígena. Não há nenhuma busca em David. Ele teme também as ideologias, ao lado das religiões, porque estas têm pela fé cega o cutelo do julgamento do bem e do mal, fundamento do seu "dogmatismo". Que é o mesmo que dizer que há valores positivos pelos quais uma tradição deva proteger e até lutar para defendê-los. Além do mais, têm também sempre algum mistério para justificar obscuramente esse fundamento. Não; David está esclarecido pelo espírito do seu tempo, e por este espírito nos dá a saber que há uma sabedoria em todas as religiões, uma que, bem ao modo das simplificações dos clássicos do MEC, atalha o que cada religião em particular obscurece ao seu modo. Assim se pode distinguir entre uma raiz pura e seus corruptores e entre a sabedoria dos caminhos bem marcados e a escuridão da fé. A sabedoria de Deus é loucura para os homens, mas para David a loucura de Deus foi psicanalisada por Freud, que no fundo do inconsciente reprimido encontrou um povo favorável a acreditar em peças de propaganda de místicos do cajado oco. O medo, como se sabe popularmente, no entanto, não é bom conselheiro; e o medo da superstição pode acabar por conduzir, antecipando o mal, a outro tipo de superstição, a superstição de que a verdade é tão plana quanto o cotidiano e o tempo presente, de uma claridade, a despeito de artificial, ou justamente por isso, mais cheia de luz do que qualquer treva passada, que já mal se distingue o semblante de qualquer homem, quando então sobram só caricaturas. Todos já parecendo muito taciturnos e embuçados em hábitos certamente "medievais".
A chave do horror civil, de uma época muito mais polida que qualquer outra tenha sido, vem de uma dogmática moral maniqueísta no alinhamento entre as palavras "fé", "dogma" e "religião". "Horror! Horror!" Fecha-se rápido o silogismo de que pelas religiões, crepusculares e morais, matam e morrem --- imaginem só, os santos! Eles morrem "em nome de...". São radicais, mesmo quando não matam! Porque eles reforçam a força que justifica o sacrifício. E aqui a sabedoria de J.C. tem necessariamente que encontrar a sua loucura, que há certo tempo o filho do homem não poderia negar mais que desconhecesse que acabaria morrendo pela boca. Foi um mestre moral doidivanas. Mas algumas coisas ficam mais claras no fim do texto de David, ou o que ele e essa época frívola entende por religião, a tal de "espiritualidade". Essa coisa sentida, e meramente sentida, quer encontrar num estado emocional atenuado o guiamento moral. Julgar é o único pecado! Chesterton disse, certa vez, que a "tolerância" é o que sobra quando se perde de vista todos os valores. Uma superficialidade que aparece quando o bem e o mal são apagados (bem como seu fundamento misterioso). Sem a perspectiva (sim, é uma perspectiva) do bem e do mal, sobra um sistema de valores postiços que se faz sobrepor àqueles, ou equivalentes emocionais. O sentimentalismo reconhece a fraqueza e a carência como valores em si. Por isso o tom de voz é o primeiro a ser controlado, é o nó na garganta que combina com o terno moral com que o hábito social reconhece como aceitável. Pelas palavras de Marta Medeiros, um vestuário de hábitos civis está cortado por uma estética moral que racionaliza a dureza do julgamento para certa "elegância moral". O sentimentalismo faz da moralidade coisa de consumidores capazes de comprá-la, é um fetiche de espíritos pobres.
"Não oponhais resistência ao mal, e se alguém te bate na face, oferece-lhe também a outra..." --- porque que mérito há em amar o justo, ou amar a quem o ama? O bem e o mal objetivos são a condição do Sermão da Montanha, a paixão do Cristo é a condição do Sermão. A verdade, para a qual Pilatos lava as mãos, para o perspectivismo conveniente ao estado romano, aquela verdade é deixada morrer. Não se faz ali um julgamento do bem e do mal, mas um ajuste de interesses, paga-se à civilidade, à moralidade civil, à legalidade, embusteiras e hipócritas: são umas e outras equilíbrios só um pouco distantes da Verdade. Para David, o amor cristão é um tipo de "não vale a pena" ao estilo budista da Nova Era, gira em torno do próprio umbigo de modo que ignorância e iluminação ficam atenuadas e indistintas num tipo moderno de quietismo. Mas o caminho do meio é só um jeito de errar com alguma elegância.
A lisonja da "profundidade" ao Sermão da Montanha, de David, não passa do reflexo de céu de um espelho d'água: o sentimento de comoção ante um pai que chora por um filho reflete o amor instintivo, justamente o que a passagem que chama o homem de "sal da terra" valoriza no sentido oposto e contra o sentimentalismo que ali se encontra. O publicano, tão baixo entre os judeus da época, também ama o filho ferido. 'Então no que tu te distingues deste?' O ímpio também ama os que o amam. David quer ver na passagem em que Jesus diz aos presentes "Sois o sal da terra... e a luz do mundo" apenas aquilo que o homem é conforme aquele sentimento compassivo que é humano, sem ser cristão. Em Uma história do mundo, David Coimbra fez uma interpretação da história em base psicológica e materialista, o que levou a uma leitura dos textos sagrados como efeito direto, raso e rasteiro, dessa dupla base. Aqui, novamente, David não fez outra coisa ao falar de Jesus Cristo, nas suas palavras, como "um dos mais revolucionários filósofos morais" da história (um "homem de esquerda"?). Mas fosse só isso, perder-se-ia quando muito na tradição rabínica, ao ponto mais longe que um erudito judeu mais liberal poderia ir, em concordância com a tradição que os Evangelhos revalidam e não diferente desta. David não quer perder de todo a beleza de reconhecer J.C., e depois de passar uma rasteira nele, coloca-o, de si mesmo, num posto que lhe parece bem alto, o de sábio. Sabedoria e não santidade, como ele mesmo trata de explicar querendo fazer com isso parecer mais sensato o Sermão da Montanha. O homem é capaz do bem e do mal, como poderia ser este a luz do mundo? É nesse ponto que o Sermão faz sentido, pois são os apóstolos na Fé e na Verdade que são a luz do mundo, não o homem, não o julgamento que media, no meio do caminho, entre perspectivas distintas. A tolerância, quando ao lado da Verdade, absolve Barrabás.
Mas David já havia esclarecido que não estava tratando do "Jesus cristão", ...como se houvesse outro! --- outro pelo qual se pudesse, colocando-o no centro dos Evangelhos, reinterpretá-los. Mas essa dogmática revolucionária não é nova, ela reconhece em Jesus, quando muito, esse filósofo moral cuja mensagem fica mais sensata modificando-a no que parece misteriosa. Melhor reconhecer só uma profundidade poética e fingir que ela passou desapercebida. Essa declaração patética é um fetiche intelectual, e tende já aqui a rebaixar Jesus de sábio a "filósofo inovador", que, sem inventar nada, deve quer dizer outra coisa. Mais um homem espirituoso, capaz de frases de profundidades ociosas, tão ociosas quanto segredos ainda não desvendados por outros evangelhos de um modernismos pseudo-epígrafo. 
O "sábio" que se produz hoje em dia não passa de um frasista (aprovado pelo MEC). Daí porque toda a "mensagem" de Jesus é mais palatável quando mais insossa: os exageros da culinária cristã, qualquer coisa além nas frases em João, são a insensatez de uma época obscura. David tem o instinto armado contra as ideologias que o ativismo revolucionário advertiu outrora e o desconhecimento técnico de que essa ideologia está sempre disfarçada para que possa ser adotada --- como, por exemplo, quando esta faz Jesus parecer um sábio no lugar de Deus. O bom leitor lê a “ideologia” do livro quando o lê, e não a sua própria, seja lá qual for. O Jesus não-cristão é um dogma original anticristão e uma liberdade de entendimento que parece bem mais aceitável à ciência mais obscura de todas, a ciência da interpretação de textos. Em vez de ler em busca de entendimento, os Evangelhos são explicados à luz dessa ciência sem fronteiras claras que quer poder compreender Shakespeare antes de lê-lo. David tem razão ao sentir medo destas coisas --- se os fantasmas não existirem, quem os vê não deixa de estar assombrado.
E, por fim, o rogar piedoso de David ao bem do menino é em vão, roga ao nada, a Ninguém. Não tem a quem rogar, pede o bem do menino como um ato interno, que reflete o mal que ele rejeita, como qualquer um de nós. O ato de David de "rogar" é meramente estético --- é o chiste da "elegância moral" que só tem o fim de embelezamento pessoal. David pede o bem como um autista se balança para suportar o mundo de sofrimento exterior, que sua "sensibilidade" sentida exige. ...Vós sois o sal da terra, a luz do mundo, mas se o sal ficar insosso, com que o temperarão? Não há mais temperos, o próprio gosto já parece um barbarismo. O sal de gipsita é sal atenuado, não é bem sal, e nem serve como sal; não é um tempero de verdade, nem um conservante de verdade, como qualquer coisa que não é bem de verdade, é outra coisa. Esse caminho é o caminho mesquinho do sentimentalismo leigo, da moral "sentida", predominante em nossos dias, é um substituto da religião verdadeira. É, portanto, um descaminho da verdade, mas um descaminho só pode ser o que é porque tem a aparência de caminho: caminho alargado, pavimentado e levemente inclinado... para baixo. Já ouvi essa história antes.
*
David Coimbra reproduz no texto “O sal da terra”, como já havia feito no seu livro Uma história do mundo, o argumento do “Livro verde” criticado por C.S. Lewis em A abolição do homem, mas num movimento adiante, quando já deixa aparecer um sistema de valores substitutos àquele tradicional. A base dessa substituição, e que fundamenta a sua interpretação das passagens bíblicas citadas, é a mesma do “Livro verde”: relativismo, utilitarismo, hedonismo, e para certo verniz moral a partir de uma base amoral, surgem, como em Marta Medeiros (v. “O verniz 'espiritual' daestultice supersticiosa”), sentimentos benignos que se faz passar por “valores” objetivos e capazes de constituir uma moral civil, substitutos da religião. Como advertiu C. S. Lewis, a sociedade que aceitar estes valores está fadada a desaparecer, pálida e vazia, indo da burrice à loucura.

Notas
1. “O sal da terra

O caminho errado (de novo)

Como as pessoas chegaram a essas conclusões? Você entenderá que o grande mal do mundo não é a miséria, nem a guerra: é a interpretação de texto.” --- D. Coimbra, Uma história do mundo (p. 220).
"Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?" --- 1 Coríntios 1:20.
Zero Hora,18 de Abril de 2014, p. 2, David Coimbra, "O sal da terra" [1] --- ou, um breve tratado para hipertensos.
'Sejais o sal da terra' é o que ouve, mas 'Sal demais faz mal a saúde' é o que entende no lugar o comentarista leigo sobre Mateus 5:13-14. O leigo não acredita nas escrituras, mas já não pode deixar de buscar uma forma de moral que substitua a religião. Uma forma, no entanto, mais moderada, livre dos excessos dogmáticos de outrora. Mesmo o historiador como Arnold Toynbee sabia que o homem não podia viver sem religião, por isso seria inevitável que o que quer que se opusesse a ela deveria a substituir e não a destruir. Explorar o lado filosófico das religiões e extrair daí uma moral convencional, uma moral de regras universais, naturalmente aceita por todos, pareceu sempre muito mais razoável para o leigo, que faz do seu "não julgamento" profissão de fé. Já há tempos tenho a impressão de que esse termo é um equivalente, num outro mundo possível, ao princípio da própria torpeza, a qual passa, com essa nova moral, a ser tolerada como padrão mesmo de normalidade. Esse é o "leigo", que interpreta as passagens bíblicas reduzindo-as a alguma ciência, sem ter conseguido ainda dominar a capacidade da boa leitura.
O sal de má qualidade na região do Mar Morto, misturado a sulfato de cálcio se chama gipsita (Ca(SO4)), era usado na época de Jesus para marcar caminhos, em contraste ao "sal" da terra, contraste entre a fé que se conduz no caminho da Verdade e o caminho consensual ou utilitário. Afinal de contas, parece que o inferno pode ser atenuado, isto é, pavimentado com ternura, e cheio de boas intenções e benevolência, como o sal pode ser substituído por uma variação de enxofre que passa como se sal fosse --- até, pelo menos, ele começar a comer as sandálias dos transeuntes. A ambigüidade do 'equívoco' cometido por David carrega o sinal de desvio que extravia da verdade quando justamente pretende instruir; talvez sob o efeito daquela loucura divina que Paulo referiu como superior à sabedoria. Essa loucura parece que deu uma volta na sabedoria que David alardeia como coisa mais sensata, e enquanto se defendia do medo, não se viu perseguido, como fazem aqueles “sombras” com as pessoas desavisadas nas ruas, e acabou imitado sem que o tivesse notado. Fazer do testemunho da verdade, para além dos discursos, referido na metáfora do "sal da terra", um caminho consensual, bem, este é o objetivo da moral leiga --- ironicamente, um sal de enxofre.
O que o "leigo" quer é atenuar a lei moral numa moral civil, uma moral consensual, essa mão leve ao salgar que busca uma "medida" das coisas que poderia, com a sabedoria racional da boa proporção, um substituto das grandes religiões. Mas o "caminho do meio" da Nova Era é, afinal de contas, apenas um modo de errar da verdade. Agora, muitos de nós não dirão abertamente, mas pensarão como Pilatos: "Mas o que é a verdade?" A verdade é uma função da evidência, dizia um cientista político no século passado (os milagres), e é aquilo que você sabe perfeitamente bem, mas talvez mais importante, e para efeito moral, aquilo que quando você encontra, não nega ou dissimula por conveniências. A verdade é lenta --- "Veritas filia temporis", dizia Tomás de Aquino ---, nela somos o que somos, inclinados a ela hesitamos, cuidadosos, reflexivos, dá para se tornar um bom leitor lendo com alguma reverência a Bíblia. A verdade de Pilatos é a do estado romano, aquilo que ao poder convinha como medida para atender a uns quantos --- à exceção descarada da própria verdade.
Em "O sal da terra", David Coimbra adverte a quem o lê, antes de tudo, do risco das religiões como o seu dogmatismo moral, com o que ele quer dizer essa mania que a religião organizada tem de estabelecer interdições sobre certos assuntos e ser taxativa sobre outros. Ora, um sábio não é taxativo, ele é vago e pacífico... (ou, pelo menos, a imagem cinematográfica dele o é). David tem medo das religiões, ainda que não consiga dar uma única demonstração de que seja capaz de compreendê-las, nem naquele esforço inicial. Mas não quero fazer parecer que alguém que jamais quis saber, nem buscou em nenhum sentido, em verdade, devesse a qualquer um de seus leitores esse "início" de algo que lhe é alienígena. Não há nenhuma busca em David. Ele teme também as ideologias, ao lado das religiões, porque estas têm pela fé cega o cutelo do julgamento do bem e do mal, fundamento do seu "dogmatismo". Que é o mesmo que dizer que há valores positivos pelos quais uma tradição deva proteger e até lutar para defendê-los. Além do mais, têm também sempre algum mistério para justificar obscuramente esse fundamento. Não; David está esclarecido pelo espírito do seu tempo, e por este espírito nos dá a saber que há uma sabedoria em todas as religiões, uma que, bem ao modo das simplificações dos clássicos do MEC, atalha o que cada religião em particular obscurece ao seu modo. Assim se pode distinguir entre uma raiz pura e seus corruptores e entre a sabedoria dos caminhos bem marcados e a escuridão da fé. A sabedoria de Deus é loucura para os homens, mas para David a loucura de Deus foi psicanalisada por Freud, que no fundo do inconsciente reprimido encontrou um povo favorável a acreditar em peças de propaganda de místicos do cajado oco. O medo, como se sabe popularmente, no entanto, não é bom conselheiro; e o medo da superstição pode acabar por conduzir, antecipando o mal, a outro tipo de superstição, a superstição de que a verdade é tão plana quanto o cotidiano e o tempo presente, de uma claridade, a despeito de artificial, ou justamente por isso, mais cheia de luz do que qualquer treva passada, que já mal se distingue o semblante de qualquer homem, quando então sobram só caricaturas. Todos já parecendo muito taciturnos e embuçados em hábitos certamente "medievais".
A chave do horror civil, de uma época muito mais polida que qualquer outra tenha sido, vem de uma dogmática moral maniqueísta no alinhamento entre as palavras "fé", "dogma" e "religião". "Horror! Horror!" Fecha-se rápido o silogismo de que pelas religiões, crepusculares e morais, matam e morrem --- imaginem só, os santos! Eles morrem "em nome de...". São radicais, mesmo quando não matam! Porque eles reforçam a força que justifica o sacrifício. E aqui a sabedoria de J.C. tem necessariamente que encontrar a sua loucura, que há certo tempo o filho do homem não poderia negar mais que desconhecesse que acabaria morrendo pela boca. Foi um mestre moral doidivanas. Mas algumas coisas ficam mais claras no fim do texto de David, ou o que ele e essa época frívola entende por religião, a tal de "espiritualidade". Essa coisa sentida, e meramente sentida, quer encontrar num estado emocional atenuado o guiamento moral. Julgar é o único pecado! Chesterton disse, certa vez, que a "tolerância" é o que sobra quando se perde de vista todos os valores. Uma superficialidade que aparece quando o bem e o mal são apagados (bem como seu fundamento misterioso). Sem a perspectiva (sim, é uma perspectiva) do bem e do mal, sobra um sistema de valores postiços que se faz sobrepor àqueles, ou equivalentes emocionais. O sentimentalismo reconhece a fraqueza e a carência como valores em si. Por isso o tom de voz é o primeiro a ser controlado, é o nó na garganta que combina com o terno moral com que o hábito social reconhece como aceitável. Pelas palavras de Marta Medeiros, um vestuário de hábitos civis está cortado por uma estética moral que racionaliza a dureza do julgamento para certa "elegância moral". O sentimentalismo faz da moralidade coisa de consumidores capazes de comprá-la, é um fetiche de espíritos pobres.
"Não oponhais resistência ao mal, e se alguém te bate na face, oferece-lhe também a outra..." --- porque que mérito há em amar o justo, ou amar a quem o ama? O bem e o mal objetivos são a condição do Sermão da Montanha, a paixão do Cristo é a condição do Sermão. A verdade, para a qual Pilatos lava as mãos, para o perspectivismo conveniente ao estado romano, aquela verdade é deixada morrer. Não se faz ali um julgamento do bem e do mal, mas um ajuste de interesses, paga-se à civilidade, à moralidade civil, à legalidade, embusteiras e hipócritas: são umas e outras equilíbrios só um pouco distantes da Verdade. Para David, o amor cristão é um tipo de "não vale a pena" ao estilo budista da Nova Era, gira em torno do próprio umbigo de modo que ignorância e iluminação ficam atenuadas e indistintas num tipo moderno de quietismo. Mas o caminho do meio é só um jeito de errar com alguma elegância.
A lisonja da "profundidade" ao Sermão da Montanha, de David, não passa do reflexo de céu de um espelho d'água: o sentimento de comoção ante um pai que chora por um filho reflete o amor instintivo, justamente o que a passagem que chama o homem de "sal da terra" valoriza no sentido oposto e contra o sentimentalismo que ali se encontra. O publicano, tão baixo entre os judeus da época, também ama o filho ferido. 'Então no que tu te distingues deste?' O ímpio também ama os que o amam. David quer ver na passagem em que Jesus diz aos presentes "Sois o sal da terra... e a luz do mundo" apenas aquilo que o homem é conforme aquele sentimento compassivo que é humano, sem ser cristão. Em Uma história do mundo, David Coimbra fez uma interpretação da história em base psicológica e materialista, o que levou a uma leitura dos textos sagrados como efeito direto, raso e rasteiro, dessa dupla base. Aqui, novamente, David não fez outra coisa ao falar de Jesus Cristo, nas suas palavras, como "um dos mais revolucionários filósofos morais" da história (um "homem de esquerda"?). Mas fosse só isso, perder-se-ia quando muito na tradição rabínica, ao ponto mais longe que um erudito judeu mais liberal poderia ir, em concordância com a tradição que os Evangelhos revalidam e não diferente desta. David não quer perder de todo a beleza de reconhecer J.C., e depois de passar uma rasteira nele, coloca-o, de si mesmo, num posto que lhe parece bem alto, o de sábio. Sabedoria e não santidade, como ele mesmo trata de explicar querendo fazer com isso parecer mais sensato o Sermão da Montanha. O homem é capaz do bem e do mal, como poderia ser este a luz do mundo? É nesse ponto que o Sermão faz sentido, pois são os apóstolos na Fé e na Verdade que são a luz do mundo, não o homem, não o julgamento que media, no meio do caminho, entre perspectivas distintas. A tolerância, quando ao lado da Verdade, absolve Barrabás.
Mas David já havia esclarecido que não estava tratando do "Jesus cristão", ...como se houvesse outro! --- outro pelo qual se pudesse, colocando-o no centro dos Evangelhos, reinterpretá-los. Mas essa dogmática revolucionária não é nova, ela reconhece em Jesus, quando muito, esse filósofo moral cuja mensagem fica mais sensata modificando-a no que parece misteriosa. Melhor reconhecer só uma profundidade poética e fingir que ela passou desapercebida. Essa declaração patética é um fetiche intelectual, e tende já aqui a rebaixar Jesus de sábio a "filósofo inovador", que, sem inventar nada, deve quer dizer outra coisa. Mais um homem espirituoso, capaz de frases de profundidades ociosas, tão ociosas quanto segredos ainda não desvendados por outros evangelhos de um modernismos pseudo-epígrafo. 
O "sábio" que se produz hoje em dia não passa de um frasista (aprovado pelo MEC). Daí porque toda a "mensagem" de Jesus é mais palatável quando mais insossa: os exageros da culinária cristã, qualquer coisa além nas frases em João, são a insensatez de uma época obscura. David tem o instinto armado contra as ideologias que o ativismo revolucionário advertiu outrora e o desconhecimento técnico de que essa ideologia está sempre disfarçada para que possa ser adotada --- como, por exemplo, quando esta faz Jesus parecer um sábio no lugar de Deus. O bom leitor lê a “ideologia” do livro quando o lê, e não a sua própria, seja lá qual for. O Jesus não-cristão é um dogma original anticristão e uma liberdade de entendimento que parece bem mais aceitável à ciência mais obscura de todas, a ciência da interpretação de textos. Em vez de ler em busca de entendimento, os Evangelhos são explicados à luz dessa ciência sem fronteiras claras que quer poder compreender Shakespeare antes de lê-lo. David tem razão ao sentir medo destas coisas --- se os fantasmas não existirem, quem os vê não deixa de estar assombrado.
E, por fim, o rogar piedoso de David ao bem do menino é em vão, roga ao nada, a Ninguém. Não tem a quem rogar, pede o bem do menino como um ato interno, que reflete o mal que ele rejeita, como qualquer um de nós. O ato de David de "rogar" é meramente estético --- é o chiste da "elegância moral" que só tem o fim de embelezamento pessoal. David pede o bem como um autista se balança para suportar o mundo de sofrimento exterior, que sua "sensibilidade" sentida exige. ...Vós sois o sal da terra, a luz do mundo, mas se o sal ficar insosso, com que o temperarão? Não há mais temperos, o próprio gosto já parece um barbarismo. O sal de gipsita é sal atenuado, não é bem sal, e nem serve como sal; não é um tempero de verdade, nem um conservante de verdade, como qualquer coisa que não é bem de verdade, é outra coisa. Esse caminho é o caminho mesquinho do sentimentalismo leigo, da moral "sentida", predominante em nossos dias, é um substituto da religião verdadeira. É, portanto, um descaminho da verdade, mas um descaminho só pode ser o que é porque tem a aparência de caminho: caminho alargado, pavimentado e levemente inclinado... para baixo. Já ouvi essa história antes.
*
David Coimbra reproduz no texto “O sal da terra”, como já havia feito no seu livro Uma história do mundo, o argumento do “Livro verde” criticado por C.S. Lewis em A abolição do homem, mas num movimento adiante, quando já deixa aparecer um sistema de valores substitutos àquele tradicional. A base dessa substituição, e que fundamenta a sua interpretação das passagens bíblicas citadas, é a mesma do “Livro verde”: relativismo, utilitarismo, hedonismo, e para certo verniz moral a partir de uma base amoral, surgem, como em Marta Medeiros (v. “O verniz 'espiritual' daestultice supersticiosa”), sentimentos benignos que se faz passar por “valores” objetivos e capazes de constituir uma moral civil, substitutos da religião. Como advertiu C. S. Lewis, a sociedade que aceitar estes valores está fadada a desaparecer, pálida e vazia, indo da burrice à loucura.

Notas
1. “O sal da terra